Gutenberg · eo1.org

← catalogue

Ultimatum

by Alvaro de Campos · Portuguese · Gutenberg #45461 · 47,449 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of Ultimatum
    
This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States,
you will have to check the laws of the country where you are located
before using this eBook.

Title: Ultimatum

Author: Alvaro de Campos


        
Release date: April 23, 2014 [eBook #45461]
                Most recently updated: October 24, 2024

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/45461

Credits: Produced by Gonçalo Silva. This file was made using scans
        of public domain works from the National Library of Portugal
        (http://purl.pt).


*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ULTIMATUM ***

  ULTIMATUM

  DE

  ALVARO DE CAMPOS

  SENSACIONISTA

  (SEPARATA DO PORTUGAL FUTURISTA)


  1917




  ULTIMATUM

  DE

  Alvaro de Campos

  SENSACIONISTA

  (Separata do PORTUGAL FUTURISTA)


  Editor:                        1917                Preço:
  Fernando Pessoa                 —                  2 centavos
                        Tipografia P. MONTEIRO
                        R. do Mundo, 57 — LISBOA




ULTIMATUM

        de Alvaro de Campos

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fóra.

Fóra tu, Anatole France, Epicuro de pharmacopeia homeopathica,
tenia-Jaurès do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do
seculo dezesete, falsificada!

Fóra tu, Maurice Barrès, feminista da Acção, Châteaubriand de paredes
nuas, alcoviteiro de palco da patria de cartaz, bolor da Lorena,
algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu commercio!

Fóra tu, Bourget das almas, lamparineiro das particulas alheias,
psychologo de tampa de brazão, reles snob plebeu, sublinhando a regua
de lascas os mandamentos da lei da Egreja!

Fóra tu, mercadoria Kipling, homem-practico do verso, imperialista das
sucatas, epico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas,
tramp-steamer da baixa immortalidade!

Fóra! Fóra!

Fóra tu, George Bernard Shaw, vegetariano do paradoxo, charlatão da
sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intellectualidade
inesperada, Kilkenny-Cat de ti proprio, _Irish Melody_ calvinista com
lettra da _Origem das Especies_!

Fóra tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, sacca-rolhas de papelão para a
garrafa da Complexidade!

Fóra tu, G. K. Chesterton, christianismo para uso de prestidigitadores,
barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialectica cockney com
o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocinios!

Fóra tu, Yeats da celtica bruma á roda de poste sem indicações, sacco
de pôdres que veiu á praia do naufragio do symbolismo inglez!

Fóra! Fóra!

Fóra tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em characteres gregos,
“D. Juan em Pathmos” (solo de trombone)!

E tu, Maeterlinck, fogão do Mysterio apagado!

E tu, Loti, sopa salgada, fria!

E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand!

Fóra! Fóra! Fóra!

E se houver outros que faltem, procurem-os ahi pra um canto!

Tirem isso tudo da minha frente!

Fóra com isso tudo! Fóra!


Ahi! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo da Allemanha,
canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!

Quem és tu, tu da juba socialista, David Lloyd George, bobo de barrete
phrygio feito de Union Jacks?!

E tu, Venizelos, fatia de Pericles com manteiga, cahida no chão de
manteiga para baixo?

E tu, qualquer outro, todos os outros, assorda Briand-Dato-Boselli
da incompetencia ante os factos, todos os estadistas pão-de-guerra
que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco,
choldra provinciana, safardanagem intellectual!

E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo
virados pra baixo á porta da Insufficiencia da Epocha!

Tirem isso tudo da minha frente!

Arranjem feixes de palha e ponham-os a fingir gente que seja outra!

Tudo de aqui pra fóra! Tudo de aqui pra fóra!

Ultimatum a elles todos, e a todos os outros que sejam como elles todos!

Se não querem sahir, fiquem e lavem-se!


Fallencia geral de tudo por causa de todos!

Fallencia geral de todos por causa de tudo!

Fallencia dos povos e dos destinos — fallencia total!

Desfile das nações para o meu Desprezo!

Tu, ambição italiana, cão de collo chamado Cesar!

Tu, “esforço francez”, gallo depennado com a pelle pintada de pennas!
(Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)

Tu organização britannica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o
principio da guerra!

(It's a long, long way to Tipperary, and a jolly sight longer way to
Berlin!)

Tu, cultura allemã, Sparta pôdre com azeite de christianismo e vinagre
de nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialoide de
servilismo engatado!

Tu, Austria-subdita, mixtura de sub-raças, batente de porta typo K!

Tu, Von Belgica, heroica á fôrça, limpa a mão á parede que fôste!

Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola
desopprimida porque se partiu!

Tu, “imperialismo” hespanhol, salero em politica, com toureiros de
sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras
enterradas em Marrocos!

Tu, Estados Unidos da America, synthese-bastardia da baixa-Europa, alho
da assorda transatlantica, pronuncia nasal do modernismo inesthetico!

E tu, Portugal-centavos, resto de Monarchia a apodrecer Republica,
extrema-uncção-enxovalho da Desgraça, collaboração artificial na guerra
com vergonhas naturaes em Africa!

E tu, Brazil, “republica irmã”, blague de Pedro Alvares Cabral, que nem
te queria descobrir!

Ponham-me um panno por cima de tudo isso!

Fechem-me isso á chave e deitem a chave fóra!

Onde estão os antigos, as fôrças, os homens, os guias, os guardas?

Vão aos cemiterios, que hoje são só nomes nas lapides!

Agora a philosophia é o ter morrido Fouillée!

Agora a arte é o ter ficado Rodin!

Agora a litteratura é Barrès significar!

Agora a critica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!

Agora a politica é a degeneração gordurosa da organização da
incompetencia!

Agora a religião é o catholicismo militante dos taberneiros da fé,
o enthusiasmo cosinha-franceza dos Maurras de razão-descascada,
é a espectaculite dos pragmatistas christãos, dos intuicionistas
catholicos, dos ritualistas nirvanicos, angariadores de annuncios para
Deus!

Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado
de lá!

Suffoco de ter só isto á minha volta!

Deixem-me respirar!

Abram todas as janellas!

Abram mais janellas do que todas as janellas que ha no mundo!


Nenhuma idéa grande, ou noção completa ou ambição imperial de
imperador-nato!

Nenhuma idéa de uma estructura, nenhum senso do Edificio, nenhuma ansia
do Organico-Creado!

Nem um pequeno Pitt, nem um Goethe de cartão, nem um Napoleão de
Nürnberg!

Nem uma corrente litteraria que seja sequer a sombra do romantismo ao
meio-dia!

Nem um impulso militar que tenha sequer o vago cheiro de um Austerlitz!

Nem uma corrente politica que sôe a uma idéa-grão, chocalhando-a, ó
Caios Gracchos de tamborilar na vidraça!

Epocha vil dos secundarios, dos approximados, dos lacaios com
aspirações de lacaios a reis-lacaios!

Lacaios que não sabeis ter a Aspiração, burguezes do Desejo,
transviados do balcão instinctivo! Sim, todos vós que representaes a
Europa, todos vós que sois politicos em evidencia em todo o mundo, que
sois litteratos meneurs de correntes europeias, que sois qualquer cousa
a qualquer cousa neste maelström de chá-môrno!


Homens-altos de Lilliput-Europa, passae por baixo do meu Desprezo!

Passae vós, ambiciosos do luxo quotidiano, anseios de costureiras dos
dois sexos, vós cujo typo é o plebeu Annunzio, aristocrata de tanga de
ouro!

Passae vós, que sois auctores de correntes sociaes, de correntes
litterarias, de correntes artisticas, verso da medalha da impotencia de
crear!

Passae, frouxos que tendes a necessidade de serdes os istas de qualquer
ismo!

Passae, radicaes do Pouco, incultos do Avanço, que tendes a ignorancia
por columna da audacia, que tendes a impotencia por esteio das
neo-theorias!

Passae, gigantes de formigueiro, ebrios da vossa personalidade de
filhos de burguez, com a mania da grande-vida roubada na dispensa
paterna e a hereditariedade indesentranhada dos nervos!

Passae, mixtos; passae, debeis que só cantaes a debilidade; passae,
ultra-debeis que cantaes só a fôrça, burguezes pasmados ante o athleta
de feira que quereis crear na vossa indecisão febril!

Passae, esterco epileptoide sem grandezas, hysteria-lixo dos
espectaculos, senilidade social do conceito individual de juventude!

Passae, bolor do Novo, mercadoria em mau estado desde o cerebro de
origem!

Passae á esquerda do meu Desdem virado á direita, creadores de
“systemas philosophicos”, Boutroux, Bergsons, Euckens, hospitaes
para religiosos incuraveis, pragmatistas do jornalismo metaphysico,
lazzaroni da construcção meditada!

Passae e não volteis, burguezes da Europa-Total, parias da ambição de
parecer-grandes, provincianos de Paris!

Passae, decigrammas da Ambição, grandes só numa epocha que conta a
grandeza por centimiligrammas!

Passae, provisorios, quotidianos, artistas e politicos estylo
lightning-lunch, servos empoleirados da Hora, trintanarios da Occasião!

Passae, “finas sensibilidades” pela falta de espinha dorsal; passae,
constructores de café e conferencia, monte de tijolos com pretensões a
casa!

Passae, cerebraes dos arrabaldes, intensos de esquina-de-rua!

Inutil luxo, passae, vã grandeza ao alcance de todos, megalomania
triumphante do aldeão de Europa-aldeia! Vós que confundis o humano com
o popular, e o aristocratico com o fidalgo! Vós que confundis tudo,
que, quando não pensaes nada, dizeis sempre outra cousa! Chocalhos,
incompletos, maravalhas, passae!

Passae, pretendentes a reis parciaes, lords de serradura, senhores
feudaes do Castello de Papelão!

Passae, romantismo posthumo dos liberalões de toda a parte, classicismo
em alcool dos fetos de Racine, dynamismo dos Whitmans de degrau de
porta, dos pedintes da inspiração forçada, cabeças ôcas que fazem
barulho porque vão bater com ellas nas paredes!

Passae, cultores do hypnotismo em casa, dominadores da visinha do lado,
caserneiros da Disciplina que não custa nem cria!

Passae, tradicionalistas auto-convencidos, anarchistas deveras
sinceros, socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para
quererem deixar de trabalhar! Rotineiros da revolução, passae!

Passae eugenistas, organizadores de uma vida de lata, prussianos da
biologia applicada, neo-mendelianos da incomprehensão sociologica!

Passae, vegetarianos, teetotalers, calvinistas dos outros, kill-joys do
imperialismo de sobejo!

Passae, amanuenses do “vivre sa vie” de botequim extremamente de
esquina, ibsenoides Bernstein-Bataille do homem forte de sala de palco!

Tango de pretos, fôsses tu ao menos minuete!

Passae, absolutamente, passae!


Vem tu finalmente ao meu Asco, roça-te tu finalmente contra as solas
do meu Desdem, grand finale dos parvos, conflagração-escarneo, fogo em
pequeno monte de estrume, synthese dynamica do estatismo ingenito da
Epocha!

Roça-te tu e roja-te, impotencia a fazer barulho!

Roça-te, canhões declamando a incapacidade de mais ambição que balas,
de mais intelligencia que bombas!

Que esta é a equação-lama da infamia do cosmopolitismo de tiros:

  (VON BISSING)/(BELGICA) = (JONNART)/(GRECIA)

Proclamem bem alto que ninguem combate pela Liberdade ou pelo Direito!
Todos combatem por medo dos outros! Não tem mais metros que estes
millimetros a estatura das suas direcções!

Lixo guerreiro-palavroso! Esterco Joffre-Hindenburguesco! Sentina
europeia de Os Mesmos em scisão balofa!

Quem acredita nelles?

Quem acredita nos outros?

Façam a barba aos poilus!

Descasquetem o rebanho inteiro!

Mandem isso tudo pra casa descascar batatas symbolicas!

Lavem essa celha de mixordia inconsciente!

Atrelem uma locomotiva a essa guerra!

Ponham uma colleira a isso e vão exhibil-o para a Australia!


Homens, nações, intuitos, está tudo nullo!

Fallencia de tudo por causa de todos!

Fallencia de todos por causa de tudo!

De um modo completo de um modo total, de um modo integral:

  MERDA!

A Europa tem sêde de que se crie, tem fome de Futuro!

A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes
Generaes!

Quer o Politico que construa conscientemente os destinos inconscientes
do seu Povo!

Quer o Poeta que busque a Immortalidade ardentemente, e não se importe
com a fama, que é para as actrizes e para os productos pharmaceuticos!

Quer o General que combata pelo Triumpho Constructivo, não pela
victoria em que apenas se derrotam os outros!

A Europa quer muitos d'estes Politicos, muitos d'estes Poetas, muitos
d'estes Generaes!

A Europa quer a Grande Idéa que esteja por dentro d'estes Homens Fortes
— a idéa que seja o Nome da sua riqueza anonyma!

A Europa quer a Intelligencia Nova que seja a Fórma da sua Materia
chaotica!

Quer a Vontade Nova que faça um Edificio com as pedras-ao-acaso do que
é hoje a Vida!

Quer a Sensibilidade Nova que reuna de dentro os egoismos dos lacaios
da Hora!

A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!

A Europa está farta de não existir ainda! Está farta de ser apenas o
arrabalde de si-propria! A Era das Machinas procura, tacteando, a vinda
da Grande Humanidade!

A Europa anseia, ao menos, por Theoricos de O-que-será, por
Cantores-Videntes do seu Futuro!

Dae Homeros á Era das Machinas, ó Destinos scientificos! Dae Miltons á
Epocha das Cousas Electricas, ó Deuses interiores á Materia!

Dai-nos Possuidores de si-proprios, Fortes Completos, Harmonicos Subtis!

A Europa quer passar de designação geographica a pessoa civilizada!

O que ahi está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!

O que ahi está não pode durar, porque não é nada!

Eu, da Raça dos Navegadores, affirmo que não pode durar!

Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir
um Novo Mundo!

Quem ha na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo
agora a descobrir? Quem sabe estar em um Sagres qualquer?

Eu, ao menos, sou uma grande Ansia, do tamanho exacto do Possivel!

Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para
Senhores, não para escravos!

Ergo-me ante o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em
vós!

Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!

Vou indicar o caminho!

  ATTENÇÃO!

Proclamo, em primeiro logar,


A Lei de Malthus da Sensibilidade

 _Os estimulos da sensibilidade augmentam em progressão geometrica; a
 propria sensibilidade apenas em progresão arithmetica._

Comprehende-se a importancia d'esta lei. A sensibilidade — tomada aqui
no mais amplo dos seus sentidos possiveis — é a fonte de toda a creação
civilizada. Mas essa creação só pode dar-se completamente quando essa
sensibilidade esteja adaptada ao meio em que funcciona; na proporção da
adaptação da sensibilidade ao meio está a grandeza e a fôrça da obra
resultante.

Ora a sensibilidade, embora varie um pouco pela influencia insistente
do meio actual, é, nas suas linhas geraes, constante, e determinada no
mesmo individuo desde a sua nascença, funcção do temperamento que a
hereditariedade lhe infixou. A sensibilidade, portanto, progride _por
gerações_.

As creações da civilização, que constituem o “meio” da sensibilidade,
são a cultura, o progresso scientifico, a alteração nas condições
politicas (dando á expressão um sentido completo); ora estes — e
sobretudo o progresso cultural e scientifico, uma vez começado —
progridem não por obra de gerações, mas pela interacção e sobreposição
da obra _de individuos_, e, embora lentamente a principio, breve
progridem ao ponto de tomarem proporções em que, de geração a geração,
centenas de alterações se dão nestes novos estimulos da sensibilidade,
ao passo que a sensibilidade deu, ao mesmo tempo, só um avanço, que é o
de uma geração, porque o pae não transmitte ao filho senão uma pequena
parte das qualidades adquiridas.

Temos, pois, que a uma certa altura da civilização ha de haver uma
desadaptação da sensibilidade ao meio, que consiste dos seus estimulos
— uma fallencia portanto. Dá-se isso na nossa epocha, cuja incapacidade
de crear grandes valores deriva dessa desadaptação.

A desadaptação não foi grande no primeiro periodo da nossa civilisação,
da Renascença ao seculo XVIII, em que os estimulos da sensibilidade
eram sobretudo de ordem cultural, porque esses estimulos, por sua
propria natureza, eram de progresso lento, e attingiam a principio
apenas as camadas superiores da sociedade. Accentuou-se a desadaptação
no segundo periodo, que parte da Revolução para o seculo XIX, e em que
os estimulos são já sobretudo politicos, onde a progressão é facilmente
maior e o alcance do estimulo muito mais vasto. Cresceu a desadaptação
vertiginosamente no periodo desde meados do seculo XIX á nossa epocha,
em que o estimulo, sendo as creações da sciencia, produz já uma rapidez
de desenvolvimento que deixa atraz os progressos da sensibilidade, e,
nas applicações practicas da sciencia, attinge toda a sociedade. Assim
se chega á enorme desproporção entre o termo presente da progressão
geometrica dos estimulos da sensibilidade e o termo correspondente da
progressão arithmetica da propria sensibilidade.

De ahi a desadaptação, a incapacidade creativa da nossa epocha. Temos,
portanto, um dilemma: ou morte da civilização, ou adaptação artificial,
visto que a natural, a instinctiva falliu.

Para que a civilização não morra, proclamo, portanto, em segundo logar,


A Necessidade da Adaptação Artificial

O que é a adaptação artificial?

É um acto de cirurgia sociologica. É a transformação violenta da
sensibilidade de modo a tornar-se apta a acompanhar, pelo menos por
algum tempo, a progressão dos seus estimulos.

A sensibilidade chegou a um estado morbido, porque se desadaptou.
Não ha que pensar em cural-a. Não ha curas sociaes. Ha que pensar em
operal-a para que ella possa continuar a viver. Isto é, temos que
substituir a morbidez natural da desadaptação pela sanidade artificial
feita pela intervenção cirurgica, embora envolva uma mutilação.

O que é que é preciso eliminar do psychismo contemporaneo?

Evidentemente que é aquillo que seja a _acquisição fixa_ mais recente
no espirito — isto é, aquella acquisição geral do espirito humano
civilizado que seja anterior ao estabelecimento da nossa civilização,
mas recentemente anterior; e isto por trez razões: _(a)_ porque,
por ser a mais recente das fixações psychicas, é a menos difficil
de eliminar; _(b)_ porque, visto que cada civilização se fórma por
uma reacção contra a anterior, são os principios da anterior que são
os mais antagonicos á actual e que mais impedem a sua adaptação ás
condições especiaes que durante esta appareçam; _(c)_ porque, sendo a
acquisição fixa mais recente, a sua eliminação não ferirá tão fundo
a sensibilidade geral como o faria a eliminação, ou a pretensão de
eliminar, qualquer fundo deposito psychico.

Qual é a ultima _acquisição fixa_ do espirito humano geral?

Deve ser composta de dogmas do christianismo, porque a Edade Media,
vigencia plena d'aquelle systema religioso, precede immediatamente
e duradouramente, a eclosão da nossa civilização, e os principios
christãos são contradictados pelos firmes ensinamentos da sciencia
moderna.

A adaptação artificial será portanto expontanente feita desde que se
faça uma eliminação das acquisições fixas do espirito humano, que
derivam da sua mergencia no christianismo.

Proclamo, por isso, em terceiro logar,


A intervenção cirurgica anti-christã

Resolve-se ella, como é de ver, na eliminação dos trez preconceitos,
dogmas, ou attitudes, que o christianismo fez que se infiltrassem na
propria substancia da psyche humana.

Explicação concreta:

1. — =Abolição do dogma da personalidade= — isto é, de que temos uma
Personalidade “separada” das dos outros. É uma ficção theologica. A
personalidade de cada um de nós é composta (como o sabe a psychologia
moderna, sobretudo desde a maior attenção dada á sociologia) do
cruzamento social com as “personalidades” dos outros, da immersão em
correntes e direcções sociaes, e da fixação de vincos hereditarios,
oriundos, em grande parte, de phenomenos de ordem collectiva. Isto é,
no presente, no futuro, e no passado, somos parte dos outros, e elles
parte de nós. Para o auto-sentimento christão, o homem mais perfeito
é o que com mais verdade possa dizer “eu sou eu”; para a sciencia, o
homem mais perfeito é o que com mais justiça possa dizer “eu sou todos
os outros”.

Devemos pois operar a alma, de modo a abril-a á consciencia da sua
interpenetração com as almas alheias, obtendo assim uma approximação
concretizada do Homem-Completo, do Homem-Synthese da Humanidade.

Resultados d'esta operação:

_(a) Em politica_: Abolição total do conceito de democracia, conforme a
Revolução Franceza, pelo qual dois homens correm mais que um homem só,
o que é falso, porque _um homem que vale por dois é que corre mais que
um homem só_! _Um_ mais _um_ não são mais do que _um_, emquanto _um_
e _um_ não formam aquelle _Um_ a que se chama _Dois_. — Substituição,
portanto, á Democracia, da Dictadura do Completo, do Homem que seja, em
si-proprio, o maior numero de Outros; que seja, portanto, A Maioria.
Encontra-se assim o Grande Sentido da Democracia, contrario em absoluto
ao da actual, que, aliás, nunca existiu.

_(b) Em arte_: Abolição total do conceito de que cada individuo tem o
direito ou o dever de exprimir o que sente. Só tem o direito ou o dever
de exprimir o que sente, em arte, o individuo que sente por varios. Não
confundir com “a expressão da Epocha”, que é buscada pelos individuos
que nem sabem sentir por si-proprios. O que é preciso é o artista que
sinta por um certo numero de Outros, todos differentes uns dos outros,
uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja
arte seja uma Synthese-Somma, e não uma Synthese-Subtracção dos outros
de si, como a arte dos actuaes.

_(c) Em philosophia_: Abolição do conceito de verdade absoluta. Creação
da Super-Philosophia. O philosopho passará a ser o interpretador de
subjectivites entrecruzadas, sendo o maior philosopho o que maior
numero de philosophias expontaneas alheias concentrar. Como tudo é
subjectivo, cada opinião é verdadeira para cada homem: a maior verdade
será a somma-synthese-interior do maior numero d'estas opiniões
verdadeiras que se contradizem umas ás outras.

2. — =Abolição do preconceito da individualidade=. — É outra ficção
theologica — a de que a alma de cada um é una e indivisivel. A
sciencia ensina, ao contrario, que cada um de nós é um agrupamento de
psychismos subsidiarios, uma synthese malfeita de almas cellulares.
Para o auto-sentimento christão, o homem mais perfeito é o mais
coherente comsigo proprio; para o homem de sciencia, o mais perfeito é
o mais incoherente comsigo proprio,

Resultados:

_a) Em politica_: A abolição de toda a convicção que dure mais que
um estado de espirito, o desapparecimento total de toda a fixidez de
opiniões e de modos-de-ver; desapparecimento portanto de todas as
instituições que se apoiem no facto de qualquer “opinião publica” poder
durar mais de meia-hora. A solução, de um problema num dado momento
historico será feita pela coordenação dictatorial _(vide paragrapho
anterior)_ dos impulsos do momento dos componentes humanos d'esse
problema, que é uma cousa puramente subjectiva, é claro. Abolição total
do passado e do futuro como elementos com que se conte, ou em que se
pense, nas soluções politicas. Quebra inteira de todas as continuidades.

_b) Em arte_: Abolição do dogma da individualidade artistica. O maior
artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais generos
com mais contradicções e dissimilhanças. Nenhum artista deverá ter só
uma personalidade. Deverá ter varias, organisando cada uma por reunião
concretizada de estados de alma similhantes, dissipando assim a ficção
grosseira de que é uno e indivisivel.

_c) Em philosophia_: Abolição total da Verdade como conceito
philosophico, mesmo relativo ou subjectivo. Reduccão da philosophia
á arte de ter theorias interessantes sobre o “Universo”. O maior
philosopho aquelle artista do pensamento, ou antes da “arte abstracta”
(nome futuro da philosophia) que mais theorias coordenadas, não
relacionadas entre si, tiver sobre a “Existencia”.

3. — =Abolição do dogma do objectivismo pessoal.= — A objectividade é
uma media grosseira entre as subjectividades parciaes. Se uma sociedade
fôr composta, por ex., de cinco homens, _a_, _b_, _c_, _d_, e _e_, a
“verdade” ou “objectividade” para essa sociedade será representada por

  (a+b+c+d+e)/5

No futuro cada individuo deve tender para realisar em si esta media.
Tendencia, portanto de cada individuo, ou, pelo menos, de cada
individuo superior, a ser uma harmonia entre as subjectividades alheias
(das quaes a propria faz parte), para assim se approximar o mais
possivel d'aquella Verdade-Infinito, para a qual idealmente tende a
série numerica das verdades parciaes.

Resultado:

_a) Em politica_: O dominio apenas do individuo ou dos individuos
que sejam os mais habeis Realizadores de Medias, desapparecendo por
completo o conceito de que a qualquer individuo é licito ter opiniões
sobre politica (como sobre qualquer outra cousa), pois que só pode ter
opiniões o que fôr Media.

_b) Em arte_: Abolição do conceito de Expressão, substituido por o de
Entre-Expressão. Só o que tiver a consciencia plena de estar exprimindo
as opiniões de pessoa nenhuma (o que fôr Media portanto) pode ter
alcance.

_c) Em philosophia_: Substituição do conceito de Philosophia por o de
Sciencia, visto a Sciencia ser a Media concreta entre as opiniões
philosophicas, verificando-se ser media pelo seu “caracter objectivo”,
isto é, pela sua adaptação ao “universo exterior”, que é a Media das
subjectividades. Desapparecimento portanto da Philosophia em proveito
da Sciencia.

Resultados finaes, syntheticos:

_a) Em politica_: Monarchia Scientifica, anti-tradicionalista e
anti-hereditaria, absolutamente expontanea pelo apparecimento
sempre imprevisto do Rei-Media. Relegação do Povo ao seu papel
scientificamente natural de mero fixador dos impulsos de momento.

_b) Em arte_: Substituição da expressão de uma epocha por trinta ou
quarenta poetas, por a sua expressão por (por ex.), dois poetas cada um
com quinze ou vinte personalidades, cada uma das quaes seja uma Media
entre correntes sociaes do momento.

_c) Em philosophia_: Integração da philosophia na arte e na sciencia;
desapparecimento, portanto, da philosophia como metaphysica-sciencia.
Desapparecimento de todas as fórmas do sentimento religioso (desde o
christianismo ao humanitarismo revolucionario) por não representarem
uma Media.


Mas qual o Methodo, o feitio da operação collectiva que ha de
organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Methodo
operatorio inicial?

O Methodo sabe-o só a geração por quem grito, por quem o cio da Europa
se roça contra as paredes!

Se eu soubesse o Methodo, seria eu-proprio toda essa geração!

Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde elle vae ter.

Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da Humanidade dos
Engenheiros!

Faço mais: _garanto absolutamente a vinda da Humanidade dos
Engenheiros_!

Proclamo, para um futuro proximo, a creação scientifica dos Superhomens!

Proclamo a vinda de uma Humanidade mathematica e perfeita!

Proclamo a sua Vinda em altos gritos!

Proclamo a sua Obra em altos gritos!

Proclamo-A, sem mais nada, em altos gritos!

E proclamo tambem: Primeiro:

=O Superhomem será, não o mais forte, mas o mais completo!=

E proclamo tambem: Segundo:

=O Superhomem será, não o mais duro, mas o mais complexo!=

E proclamo tambem: Terceiro:

=O Superhomem será, não o mais livre, mas o mais harmonico!=

Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas
para a Europa, braços erguidos, fitando o Atlantico e saudando,
abstractamente o Infinito!

        Alvaro de Campos.




  de Alvaro de Campos


  Opiario e Ode Triumphal
                         (in Orpheu 1)

  Ode Maritima
              (in Orpheu 2)

  Saudação a Walt Whitman
                         (in Orpheu 3 a apparecer em Outubro 1917)

       *       *       *       *       *




Nota do Transcritor:


Inconsistências que pareceram ser claramente erros tipográficos foram
corrigidas; quaisquer outros erros ou inconsistências foram mantidos
como na edição original.

Texto rodeado de carateres de "underscore" representa texto em itálico
(_itálico_).

Algumas frases foram destacadas pelo uso de um tipo letra ligeiramente
diferente na edição original, aqui são representadas pela habitual
marcação de negrito (=negrito=).

Linhas indentadas em 8 espaços representam linhas alinhadas à direita.





End of Project Gutenberg's Ultimatum, by Álvaro de Campos and Fernando Pessoa



*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ULTIMATUM ***


    

Updated editions will replace the previous one—the old editions will
be renamed.

Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright
law means that no one owns a United States copyright in these works,
so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United
States without permission and without paying copyright
royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part
of this license, apply to copying and distributing Project
Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™
concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark,
and may not be used if you charge for an eBook, except by following
the terms of the trademark license, including paying royalties for use
of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for
copies of this eBook, complying with the trademark license is very
easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation
of derivative works, reports, performances and research. Project
Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away—you may
do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected
by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark
license, especially commercial redistribution.


START: FULL LICENSE

THE FULL PROJECT GUTENBERG™ LICENSE

PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase “Project
Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full
Project Gutenberg License available with this file or online at
www.gutenberg.org/license.

Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg
electronic works

1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or
destroy all copies of Project Gutenberg electronic works in your
possession. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a
Project Gutenberg electronic work and you do not agree to be bound
by the terms of this agreement, you may obtain a refund from the person
or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B. “Project Gutenberg” is a registered trademark. It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg electronic works
even without complying with the full terms of this agreement. See
paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg electronic works if you follow the terms of this
agreement and help preserve free future access to Project Gutenberg
electronic works. See paragraph 1.E below.

1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation (“the
Foundation” or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection
of Project Gutenberg electronic works. Nearly all the individual
works in the collection are in the public domain in the United
States. If an individual work is unprotected by copyright law in the
United States and you are located in the United States, we do not
claim a right to prevent you from copying, distributing, performing,
displaying or creating derivative works based on the work as long as
all references to Project Gutenberg are removed. Of course, we hope
that you will support the Project Gutenberg mission of promoting
free access to electronic works by freely sharing Project Gutenberg
works in compliance with the terms of this agreement for keeping the
Project Gutenberg name associated with the work. You can easily
comply with the terms of this agreement by keeping this work in the
same format with its attached full Project Gutenberg License when
you share it without charge with others.

1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work. Copyright laws in most countries are
in a constant state of change. If you are outside the United States,
check the laws of your country in addition to the terms of this
agreement before downloading, copying, displaying, performing,
distributing or creating derivative works based on this work or any
other Project Gutenberg work. The Foundation makes no
representations concerning the copyright status of any work in any
country other than the United States.

1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1. The following sentence, with active links to, or other
immediate access to, the full Project Gutenberg License must appear
prominently whenever any copy of a Project Gutenberg work (any work
on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the
phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed,
performed, viewed, copied or distributed:

    This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most
    other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
    whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
    of the Project Gutenberg™ License included with this eBook or online
    at www.gutenberg.org. If you
    are not located in the United States, you will have to check the laws
    of the country where you are located before using this eBook.
  
1.E.2. If an individual Project Gutenberg electronic work is
derived from texts not protected by U.S. copyright law (does not
contain a notice indicating that it is posted with permission of the
copyright holder), the work can be copied and distributed to anyone in
the United States without paying any fees or charges. If you are
redistributing or providing access to a work with the phrase “Project
Gutenberg” associated with or appearing on the work, you must comply
either with the requirements of paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 or
obtain permission for the use of the work and the Project Gutenberg
trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.3. If an individual Project Gutenberg electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any
additional terms imposed by the copyright holder. Additional terms
will be linked to the Project Gutenberg License for all works
posted with the permission of the copyright holder found at the
beginning of this work.

1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg.

1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg License.

1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including
any word processing or hypertext form. However, if you provide access
to or distribute copies of a Project Gutenberg work in a format
other than “Plain Vanilla ASCII” or other format used in the official
version posted on the official Project Gutenberg website
(www.gutenberg.org), you must, at no additional cost, fee or expense
to the user, provide a copy, a means of exporting a copy, or a means
of obtaining a copy upon request, of the work in its original “Plain
Vanilla ASCII” or other form. Any alternate format must include the
full Project Gutenberg License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg electronic works
provided that:

    • You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
        the use of Project Gutenberg works calculated using the method
        you already use to calculate your applicable taxes. The fee is owed
        to the owner of the Project Gutenberg trademark, but he has
        agreed to donate royalties under this paragraph to the Project
        Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments must be paid
        within 60 days following each date on which you prepare (or are
        legally required to prepare) your periodic tax returns. Royalty
        payments should be clearly marked as such and sent to the Project
        Gutenberg Literary Archive Foundation at the address specified in
        Section 4, “Information about donations to the Project Gutenberg
        Literary Archive Foundation.”
    
    • You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
        you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
        does not agree to the terms of the full Project Gutenberg™
        License. You must require such a user to return or destroy all
        copies of the works possessed in a physical medium and discontinue
        all use of and all access to other copies of Project Gutenberg™
        works.
    
    • You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of
        any money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
        electronic work is discovered and reported to you within 90 days of
        receipt of the work.
    
    • You comply with all other terms of this agreement for free
        distribution of Project Gutenberg™ works.
    

1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project
Gutenberg™ electronic work or group of works on different terms than
are set forth in this agreement, you must obtain permission in writing
from the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the manager of
the Project Gutenberg™ trademark. Contact the Foundation as set
forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
works not protected by U.S. copyright law in creating the Project
Gutenberg™ collection. Despite these efforts, Project Gutenberg™
electronic works, and the medium on which they may be stored, may
contain “Defects,” such as, but not limited to, incomplete, inaccurate
or corrupt data, transcription errors, a copyright or other
intellectual property infringement, a defective or damaged disk or
other medium, a computer virus, or computer codes that damage or
cannot be read by your equipment.

1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right
of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from. If you
received the work on a physical medium, you must return the medium
with your written explanation. The person or entity that provided you
with the defective work may elect to provide a replacement copy in
lieu of a refund. If you received the work electronically, the person
or entity providing it to you may choose to give you a second
opportunity to receive the work electronically in lieu of a refund. If
the second copy is also defective, you may demand a refund in writing
without further opportunities to fix the problem.

1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO
OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT
LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of
damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement
violates the law of the state applicable to this agreement, the
agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or
limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or
unenforceability of any provision of this agreement shall not void the
remaining provisions.

1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg™ electronic works in
accordance with this agreement, and any volunteers associated with the
production, promotion and distribution of Project Gutenberg™
electronic works, harmless from all liability, costs and expenses,
including legal fees, that arise directly or indirectly from any of
the following which you do or cause to occur: (a) distribution of this
or any Project Gutenberg work, (b) alteration, modification, or
additions or deletions to any Project Gutenberg work, and (c) any
Defect you cause.

Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg

Project Gutenberg is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of
computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
from people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg’s
goals and ensuring that the Project Gutenberg collection will
remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg and future
generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.

Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification
number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
U.S. federal laws and your state’s laws.

The Foundation’s business office is located at 41 Watchung Plaza #516,
Montclair NJ 07042, USA, +1 (862) 621-9288. Email contact links and up
to date contact information can be found at the Foundation’s website
and official page at www.gutenberg.org/contact

Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread
public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine-readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment. Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements. We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
visit www.gutenberg.org/donate.

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg web pages for current donation
methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations. To
donate, please visit: www.gutenberg.org/donate.

Section 5. General Information About Project Gutenberg electronic works

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
Gutenberg concept of a library of electronic works that could be
freely shared with anyone. For forty years, he produced and
distributed Project Gutenberg eBooks with only a loose network of
volunteer support.

Project Gutenberg eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
edition.

Most people start at our website which has the main PG search
facility: www.gutenberg.org.

This website includes information about Project Gutenberg,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.


Showing first 200,000 characters. Full text: gutenberg.org/ebooks/45461