Os Maias: episodios da vida romantica
by Eça de Queirós · Portuguese · Gutenberg #40409 · 1,311,240 chars · public domain (US)
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Title: Os Maias: episodios da vida romantica
Author: Eça de Queirós
Release date: August 4, 2012 [eBook #40409]
Most recently updated: October 23, 2024
Language: Portuguese
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/40409
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS: EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA ***
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Na versão original, esta obra é uma compilação de dois volumes, com
capítulos e paginação independentes, publicadas numa só obra.
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Primeiro Volume
Segundo Volume
Rita Farinha (Agosto 2012)
Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
EÇA DE QUEIROZ
OS MAIAS
EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
VOLUME I
PORTO
Livraria Internacional de Ernesto Chardron
CASA EDITORA
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1888
Todos os direitos reservados
OBRAS DO MESMO AUCTOR
O Crime do Padre Amaro, edição inteiramente refundida, recomposta,
e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso vol.
1$200
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OS MAIAS
VOLUME I
OS MAIAS
I
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era
conhecida na visinhança da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o
bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o
_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o
_Ramalhete_, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de
estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida
fila de janellinhas abrigadas á beira do telhado, tinha o aspecto
tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificação do
reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo
assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete
provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel
no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado,
e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se
distinguiam letras e numeros d'uma data.
Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha
pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em
1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idéa
d'installar lá a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do
edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casarão
agradara-lhe tambem, com a sua disposição apalaçada, os tectos
apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde já desmaiavam as
rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os
seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os
arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas,
ao fundo d'um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ás
hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um
tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu
logo Venus Citherêa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das
ramagens silvestres. Além d'isso, a renda que pedio o velho Villaça,
procurador dos Maias, pareceu tão exagerada a Monsenhor, que lhe
perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leão X.
Villaça respondeu--que tambem a nobreza não estava nos tempos do sr. D.
João V. E o Ramalhete continuou deshabitado.
Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaça Junior, agora por morte
de seu pae administrador dos Maias) só veio a servir, nos fins de 1870,
para lá se arrecadaram as mobilias e as louças provenientes do palacete
de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar
annos em praça, fôra então comprada por um commendador brazileiro.
N'essa occasião vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e
algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e
sabiam que desde a Regeneração elles viviam retirados na sua quinta de
Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaça se essa
gente estava atrapalhada.
--Ainda teem um pedaço de pão, disse Villaça sorrindo, e a manteiga para
lhe barrar por cima.
Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem
linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois varões, o
senhor da casa, Affonso da Maia, um velho já, quasi um antepassado, mais
edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra.
Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o
rendimento da casa excedia já cincoenta mil cruzados: mas desde então
tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldêa; viera tambem
a herança d'um ultimo parente, Sebastião da Maia, que desde 1830 vivia
em Napoles, só, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia
certamente sorrir com segurança quando fallava dos Maias e da sua fatia
de pão.
A venda da _Tojeira_ fôra realmente aconselhada por Villaça: mas nunca
elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--só pela rasão
d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como
dizia Villaça, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias,
com o Ramalhete inhabitavel, não possuiam agora uma casa em Lisboa; e se
Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz
de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, não
quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E
com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou
Villaça annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O
procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do
casarão: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois,
a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos
de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual
eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, «ainda que
(acrescentava elle n'uma phrase meditada) até me envergonho de mencionar
taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos
liberaes...»
Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razões eram
excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente
seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e
emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e
deixar entrar o sol.
S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras começaram
logo, sob a direcção d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de
Villaça. Este artista enthusiasmára o procurador com um projecto de
escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as
conquistas da Guiné e da India. E estava ideando tambem uma cascata de
louça na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em
Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com
elle á pressa algumas ornamentações e alguns tons de estofos,
entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear,
exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e
sobrio.
Villaça resentiu amargamente esta desconsideração pelo artista nacional;
Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido.
E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu
mesmo que o encarregassem da construcção das cocheiras. O artista ia
acceitar--quando foi nomeado governador civil.
Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa
collaborar nos trabalhos, «dar os seus retoques estheticos»--do antigo
Ramalhete só restava a fachada tristonha, que Affonso não quizera
alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaça não duvidou
declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender
despropositadamente, aproveitando até as antigualhas de Bemfica, fizera
do Ramalhete «um museu.»
O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora tão lobrego, nú, lageado
de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de
marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e
dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados
em talha, solemnes como córos de cathedral. Em cima, na antecamara,
revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos
morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos
mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos,
onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de
rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pésinho n'agoa.
D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peças ricas de Bemfica,
arcas gothicas, jarrões da India, e antigos quadros devotos. As melhores
salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salão nobre, raramente
usado, todo em brocados de velludo côr de musgo d'outono, havia uma
bella téla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de
Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caçadora ingleza,
sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,
onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis
enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas
tapeçarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as
paredes de pastores e d'arvoredos.
Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones
Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaçavam
cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais
commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fôfa vastidão de leitos; e o
conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era
alegrado pelas cores cantantes de velhas faienças hollandezas.
Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de
damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de
pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das
encadernações, tudo tinha ali uma feição austera de paz
estudiosa--realçada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga
reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta
sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogão Carlos
arranjara um canto para o avô com um biombo japonez bordado a ouro, uma
pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braços, cuja tapeçaria
mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sêda.
No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia,
estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da
casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres
gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos
acolchoados, a sêda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaça que
aquillo não eram aposentos de medico--mas de dançarina!
A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, já formado,
fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi só nas vesperas da sua
chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a
deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco
annos que elle não via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias,
confessou ao Villaça que estava suspirando outra vez pelas suas sombras
de Santa Olavia. Mas, que remedio! Não queria viver muito separado do
neto; e Carlos agora, com idéas sérias de carreira activa, devia
necessariamente habitar Lisboa... De resto, não desgostava do Ramalhete,
apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter
prodigalisado de mais as tapeçarias, os pesados reposteiros, e os
velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhança, aquella dôce quietação
de suburbio adormecido ao sol. E gostava até do seu quintalejo. Não era
de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os
seus girasoes perfilados ao pé dos degraus do terraço, o cypreste e o
cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cytherêa
parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de
Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a
cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres
pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle
fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado
gota a gota na bacia de marmore.
O que desconsolara Affonso, ao principio, fôra a vista do
terraço--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia até ao mar. Mas as casas
edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte
explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava
entre dois predios de cinco andares, separados por um córte de rua,
formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso
terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma téla marinha,
encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do céu azul em face do
terraço, mostrando, nas variedades infinitas de côr e luz, os episodios
fugitivos d'uma pacata vida de rio: ás vezes uma véla de barco da
Trafaria fugindo airosamente á bolina; outras vezes uma galera toda em
panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou
então a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado
para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como já
devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pó d'ouro das
sestas silenciosas, o vulto negro de um couraçado inglez... E sempre ao
fundo o pedaço de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e
duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expressão--ora faiscantes e
despedindo raios das vidraças accezas em braza; ora tomando aos fins de
tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi
similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de
chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
O terraço communicava por tres portas envidraçadas com o escriptorio--e
foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a
passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara
ternamente, ao lado do fogão. A sua longa residencia em Inglaterra
dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as
chaminés ficavam accezas até Abril; depois ornavam-se de braçadas de
flôres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa
frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu
querido Rabelais.
Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho
borralheiro. N'aquella edade, de verão ou de inverno, ao romper do sol,
estava a pé, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oração da
manhã que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor
supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o
homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera
mais a Santa Olavia fôra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes,
repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas
regantes... E a esta viva tonificação da agoa attribuia elle o ter vindo
assim, desde o começo do seculo, sem uma dôr e sem uma doença, mantendo
a rica tradição de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos
e annos--que passavam por elle, tão em vão, como passavam em vão, pelos
seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.
Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e
com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle córada, quasi vermelha,
o cabello branco todo cortado á escovinha, e a barba de neve aguda e
longa--lembrava, como dizia Carlos, um varão esforçado das edades
heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto
fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as
apparencias illudem!
Não, não era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheirão
que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao
canto do fogão. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um
egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu
coração tinham sido tão profundas e largas. Parte do seu rendimento
ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida.
Cada vez amava mais o que é pobre e o que é fraco. Em Santa Olavia, as
creanças corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e
paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que não pisam um
formigueiro, e se compadece da sêde d'uma planta.
Villaça costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos
patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminé, na sua coçada
quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mão, o seu
velho gato aos pés. Este pesado e enorme angorá, branco com malhas
louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo cão de S.
Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia,
e recebera então o nome de Bonifacio: depois, ao chegar á edade do amor
e da caça, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio
de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no
remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio...
Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e
clara d'um bello rio de verão. O antepassado, cujos olhos se enchiam
agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume
relia com gosto o seu Guisot, fôra, na opinião de seu pae, algum tempo,
o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do
pobre moço consistira em lêr Rousseau, Volney, Helvetius, e a
Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas á Constituição; e ir, de
chapeu á liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maçonicas
Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porém, bastára
para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que
se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato
e doente, tinha só um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino,
aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda
das colonias até ás crises da sua gota. Para extirpar da nação o
Jacobino, déra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e
Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino,
parecia-lhe uma provação comparavel só ás de Job!
Ao principio, na esperança que o menino se emendasse, contentou-se em
lhe mostrar um carão severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidadão_! Mas
quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara á turba que,
n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as
vidraças apagadas do sr. Legado d'Áustria, enviado da Santa
Alliança--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota
cruel, cravando-o na poltrona, não lhe deixou espancar o mação, com a
sua bengala da India, á lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o
de sua casa, sem mezada e sem benção, renegado como um bastardo! Que
aquelle pedreiro livre não podia ser do seu sangue!
As lagrimas da mamã amolleceram-n'o; sobretudo as razões d'uma cunhada
de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta
instrucção, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino
e o adorava como um bébé. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho
para a quinta de Santa Olavia; mas não cessou de chorar no seio dos
padres, que vinham a Bemfica, a desgraça da sua casa. E esses santos lá
o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, não
permittiria jámais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revolução!
E, á falta de Deus Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira
da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre.
E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa
Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solidão, onde
os chás do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terço das
primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benção, e alguns mil cruzados, para
ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que
lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu
a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de
Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceição seu
confessor, declarou este milagre--não inferior ao de Carnaxide.
Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus
parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus
nobres costumes, aquella raça tão séria e tão forte--encantaram-n'o. Bem
depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregação, as
horas ardentes passadas no café dos Romulares a recitar Mirabeau, e a
Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato
de Scipiões e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_
estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um
grande nariz postiço, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos
seus irmãos de Maçonaria, que a essas horas o sr. infante espicaçava a
chuço, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter.
Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi então que
conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda
morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve
um filho, desejou outros; e começou logo, com bellas idéas de patriarcha
moço, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor
arvoredos, preparando tectos e sombras á descendencia amada que lhe
encantaria a velhice.
Mas não esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa
Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca;
essa rude conjuração apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas
e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_
para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava
tão bem os vicios e as paixões...
Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do
serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da
sua alma honesta. Já não exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de
Catões e de Mucios-Scevolas. Já admittia mesmo o esforço d'uma nobreza
para manter o seu privilegio historico; mas então queria uma nobreza
intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela
Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcção moral,
formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e
fallando com gosto, exemplo de idéas altas e espelho de maneiras
patricias... O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e
sordido.
Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as
côrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, «a procurar papeis e armas
escondidas.»
Affonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao
lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas
arrombadas pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim
rebuscando os colxões do seu leito. O sr. juiz de fóra não descobriu
nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo
«que os tempos iam bem duros...» Desde essa manhã as janellas do
palacete conservaram-se cerradas; não se abriu mais o portão nobre para
sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho,
Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio.
Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de
Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e
calmas paisagens de Surrey.
Os seus bens, graças ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.
Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, não tinham
sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.
Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_,
ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta não tardou a
protestar vendo a separação de castas, de gerarchias, mantidas ali na
terra estranha entre os vencidos da mesma idéa--os fidalgos e os
desembargadores vivendo no luxo de Londres á forra, e a plebe, o
exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora á fome,
á vermina, á febre nos barracões de Plymouth. Teve logo conflictos com
os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim
do liberalismo. Isolou-se então--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde
sahiam ás cincoenta, ás cem moedas... Mas quando a primeira expedição
partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados,
respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar
d'Inglaterra!
Mezes depois sua mãe, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a
tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu
claro juizo, os seus caracóes brancos, os seus modos de discreta
Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia
ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas
dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo
são, forte, livre e solido,--como o amava o seu coração.
Teve relações; estudou a nobre e rica litteratura ingleza;
interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura,
pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer
em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem.
Sómente Affonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste,
tossia sempre pelas salas. Á noite sentava-se ao fogão, suspirava e
ficava calada...
Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a
minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e
sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo
áquella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada,
abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas
arvores, o seu coração não estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa,
nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos
Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se áquella hostilidade
ambiente que ella sentia em redor contra os «papistas». E só se
satisfazia á noite, indo refugiar-se no sotão com as creadas
portuguezas, para resar o _terço_ agachada n'uma esteira--gosando ali,
n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma
conjuração catholica!
Odiando tudo o que era inglez, não consentira que seu filho, o Pedrinho,
fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que
era um collegio catholico. Não queria: aquelle catholicismo sem
romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos,
sem frades nas ruas--não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho
não abandonaria ella á heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o
padre Vasques, capellão do Conde de Runa.
O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a
face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma
caçada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida
livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo,
perguntando como do fundo d'uma treva:
--Quantos são os inimigos da alma?
E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:
--Tres. Mundo, Diabo e Carne...
Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia alli o reverendo Vasques,
obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço do rapé
sobre o joelho...
Ás vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,
agarrava a mão do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores
do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da
cartilha. Mas a mamã accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma
grande manta: depois lá fóra o menino, acostumado ao collo das creadas e
aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a
pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as
folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae
vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho...
Mas o menor esforço d'elle para arrancar o rapaz áquelles braços de mãe
que o amolleciam, áquella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo
á delicada senhora accessos de febre. E Affonso não se atrevia já a
contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então
lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos
entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e
encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!...
Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das
suas palavras. Já fallava da «sua ambição derradeira», que era ver o sol
uma vez mais! Por que não voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o
sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a
isso Affonso não cedeu: não queria ver outra vez as suas gavetas
arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro não lhe davam
mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel.
Por esse tempo veio um grave desgosto á casa: a tia Fanny morreu, d'uma
pneumonia, nos frios de março; e isto ennegreceu mais a melancolia de
Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica.
Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa
_villa_ ao pé de Roma. Ahi não lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e
generoso todas as manhãs, banhando largamente os terraços, dourando
loureiraes e myrtos. E depois, lá em baixo, entre marmores, estava a
coisa preciosa e santa, o Papa!
Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia
era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as
procissões passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de
sol e de poeira...
Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.
Ahi começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,
todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canapé, com
as mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles
d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada
para quem Deus era um amo feroz, tornára-se o grande homem da casa. De
resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras
canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos,
ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio
de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e
vago, um rumor de ladainha.
Todos aquelles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na
copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as
mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripiára-lhe
duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. José I...
Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso:
quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a
machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de
resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante,
ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o
coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz.
O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso
como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda
face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e
irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a
um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades,
indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo
forte parecera jámais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva:
só ás vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomára
birra ao Padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um
fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a
espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo,
murcho, amarello, com as olheiras fundas e já velho. O seu unico
sentimento vivo, intenso, até ahi, fôra a paixão pela mãe.
Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, á idéa de se separar do seu
Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e
tremendo: e elle, naturalmente, lá cedeu perante essas mãos
supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face
de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a
cavallo, de creado de farda atraz, começando já a ir beber a sua genebra
aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisação
uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu
bastardosinho.
Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de tão desgraçados
mimos, não faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, são, e, como
todos os Maias, valente: não havia muito que elle só, com um chicote,
dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado
_palmito_.
Quando a mãe morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias
nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dôr os arrebatamentos d'uma
loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir
durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caixão, sahidos os
padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que não
queria emergir, estirado de bruços sobre a cama n'uma obstinação de
penitente. Muitos mezes ainda não o deixou uma tristeza vaga: e Affonso
da Maia já se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu
herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto
pesado, para ir visitar a sepultura da mamã...
Esta dôr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem
transição, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal,
em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em
lupanares e botequins as saudades da mamã. Mas essa exhuberancia anciosa
que se desencadeara tão subitamente, tão tumultuosamente, na sua
natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.
Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de façanhas nas esperas de
toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a
reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias
taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas
salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruços, como
despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem
devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses
bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.
Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de
Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripanço
debaixo do braço, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.
E havia agora uma idéa que, a seu pesar, às vezes o torturava:
descobrira a grande parecença de Pedro com um avô de sua mulher, um
Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,
com que na casa se mettia medo ás creanças, enlouquecera--e julgando-se
Judas enforcara-se n'uma figueira...
Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor
á Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,
uma d'essas paixões que assaltam uma existencia, a assolam como um
furacão, arrancando a vontade, a rasão, os respeitos humanos e
empurrando-os de roldão aos abysmos.
N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, á porta de M.^{me}
Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéo branco, e uma
senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira.
O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo
do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiço e o ar gôche, desceu
todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou
arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a
cabeça olhou um momento o Marrare.
Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um
oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos
maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a
carnação de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado
nobre dos hombros e dos braços que o chale cingia--pareceu a Pedro
n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior á terra.
Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido
de negro, que fumava encostado á outra hombreira, n'uma _pose_ de
tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado
com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braço,
murmurou-lhe junto á face na sua voz grossa e lenta:
--Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e
os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso
Alencar, uma garrafa de Champagne?
Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos
anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e
dando um puchão aos punhos:
--Por uma dourada tarde d'outomno...
--André, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o
Champagne!
O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:
--O quê! Sem saciar a avidez de meu labio?...
Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o
poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul
n'uma linguagem christã e pratica!...
--Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!
Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquelle velho,
o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela
sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu
lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no
palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos,
fazendo uma impressão--uma impressão de causar aneurismas, dizia o
Alencar! Quando ella atravessava o salão os hombros vergavam-se no
deslumbramento de auréola que vinha d'aquella magnifica creatura,
arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de côrte, sempre decotada
como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O
papá nunca lhe dava o braço: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata
branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiço na
claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado,
trazendo nas mãos o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e
o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre
o seu collo eburneo e as suas tranças de oiro, que ella offerecia
verdadeiramente a encarnação d'um ideal da Renascença, um modelo de
Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara,
mostrando-a a ella e ás outras, ás trigueirotas da assignatura:
--Rapazes! é como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo
do Sr. D. João VI!
O Magalhães, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do
_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar!
Os rapazes, naturalmente, começaram logo a rondar o palacete de Arroios.
Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados
disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava
Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem
era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rêde; a senhora,
essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrête, e passava o seu dia a
ler novellas. Isto não podia satisfazer a sofreguidão de Lisboa. Fez-se
uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera á
devassa.
E souberam-se horrores. O papá Monforte era dos Açores; muito moço, uma
facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forçado a fugir a
bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da
casa de Taveira, que o conhecera nos Açores, estando na Havana a estudar
a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas
encontrára lá o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando
pelo caes, de chinellas de esparto, á procura de embarque para a
Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que
servira algum tempo de feitor n'uma plantação da Virginia... Emfim,
quando reappareceu á face dos céos commandava o brigue _Nova Linda_, e
levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova
Orleans.
Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancára uma fortuna da pelle do
africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a
S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura
e mal provada, claudicava aqui e além...
--E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.
Mas isso não o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim tão loira e
bella? Quem fôra a mamã? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...
--Isso, meu Pedro, são
mysterios que jámais poude Lisboa
astuta devassar e só Deus sabe!
Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e
negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue
de assassino, a _beltà_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras,
deliciando-se em villipendiar uma mulher tão loira, tão linda e com
tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia
agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do
leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava
os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o papázinho! E
tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em
Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo,
com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil
perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos
articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos
Piryneus... Fora lá que o Mello os conhecera...
--Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.
--Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.
Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de
recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a
imaginação toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois,
d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro
acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na
frisa da Monforte, á frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate
na casaca--egual ás d'um ramo pousado no rebordo de velludo.
Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas
_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer
ás senhoras que ella se vestia «como uma comica». Estava de seda côr de
trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranças, opalas sobre o
collo e nos braços; e estes tons de ceara madura batida do sol,
fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnação eburnea,
banhando as suas fórmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres.
Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava
de pé com o papá Monforte--escondido como sempre no canto negro da
frisa.
O Alencar foi observar «o caso» do camarote dos Gamas. Pedro voltára á
sua cadeira, e de braços cruzados contemplava Maria. Ella conservou
algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto
de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se
fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare,
de braços ao ar, a berrar a novidade.
Não tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da
Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, á antiga,
plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos
cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi.
Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas
desordenados que ia compôr para o Marrare: e ninguem lá ignorava o
destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam
deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha á porta
do café perguntar por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito
naturalmente:
--O sr. D. Pedro? Está a escrever á menina.
E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, exclamava
radiante, com o seu bello e franco sorriso:
--Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever á Maria!
Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a
Bemfica, sobretudo o Villaça, o administrador dos Maias, muito zeloso da
dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores
do Pedrinho. Affonso já os suspeitava: via todos os dias um criado da
quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas
as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao
quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com
sinete de lacre dourado;--e não lhe desagradava que um sentimento
qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho á estroinice
bulhenta, ao jogo, ás melancolias sem rasão em que reapparecia o negro
ripanço...
Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as
particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Açores,
o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra
legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia.
Uma noite que o coronel Sequeira, á mesa do _whist_, contava que vira
Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, «ambos muito bem e muito
_distingués_», Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar
enfastiado:
--Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes são assim,
a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa
mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho má.
O Villaça suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro
exclamou com espanto:
--Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina
honesta!...
Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram a tremer-lhe; e
voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem:
--O Villaça de certo não suppõe que meu filho queira casar com essa
creatura...
O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
--Isso não, está claro que não...
E o jogo continuou algum tempo em silencio.
Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas
que Pedro não jantava em Bemfica. De manhã, se o via, era um momento,
quando elle descia ao almoço, já com uma luva calçada, apressado e
radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois,
mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a correr «se o papá queria
alguma cousa», dava um geito ao bigode deante do grande espelho de
Veneza sobre o fogão, e lá partia, enlevado. Outras vezes todo o dia não
sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; até que o pae,
inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeça
enterrada nos braços.
--Que tens tu?--perguntava-lhe.
--Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco.
E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde
alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa offerecida que não fôra
posta nos cabellos...
Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da
bandeja do chá, os seus amigos tinham observações que o inquietavam,
partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os
rumores--emquanto elle passava alli, inverno e verão, entre os seus
livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque
não faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, á Allemanha, ao
Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de
cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da
policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas...
Evidentemente alludiam á Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa.
No verão, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes
tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Villaça appareceu em Bemfica,
muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe
informações sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar
dinheiro. Elle lá lhe dissera que em setembro, chegando á sua
maioridade, tinha a legitima da mamã...
--Mas não gostei d'isto, meu senhor, não gostei d'isto...
--E porque, Villaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar presentes á
creatura... O amor é um luxo caro, Villaça.
--Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça!
E aquella confiança tão nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio,
nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquillisar Villaça.
D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na
quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no
mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche
azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma
sombrinha escarlate, trazia um vestido côr de rosa cuja roda, toda em
folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas
do seu chapéo, apertadas n'um grande laço que lhe enchia o peito, eram
tambem côr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego,
apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio,
entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por
cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéo panamá,
calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda sol entre os
joelhos. Iam callados, não viram o mirante; e, no caminho verde e
fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a
sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de café junto aos
labios, de olho esgazeado, murmurando:
--Caramba! É bonita!
Affonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,
que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o
todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde
triste das ramas.
O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manhã, Pedro entrou
na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a
benção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se
bruscamente para elle:
--Meu pae,--disse, esforçando-se por ser claro e decidido--venho
pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria
Monforte.
Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e
lenta:
--Não me tinhas fallado d'isso... Creio que é a filha d'um assassino,
d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_...
--Meu pae!...
Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnação
mesma da honra domestica.
--Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
Pedro, mais branco que o lenço que tinha na mão, exclamou todo a tremer,
quasi em soluços:
--Pois póde estar certo, meu pae, que hei de casar!
Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo
escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar
as suas malas ao hotel da Europa.
Dois dias depois Villaça entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,
contando que o menino casára n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o
Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.
Affonso da Maia sentára-se n'esse instante á mesa do almoço, posta ao pé
do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japão, á chamma
forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da
_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu
o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu
guardanapo.
--Já almoçou, Villaça?
O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou:
--Já almocei, meu senhor...
Então Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
--Póde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha só um
talher á mesa... Sente-se, Villaça, sente-se.
O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferença o talher do
menino. Villaça sentára-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas
outras manhãs em que almoçara em Bemfica. Os passos do escudeiro não
faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques
d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fóra no azul
d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e á
janella o papagaio, muito patulêa e educado por Pedro, rosnava injurias
aos Cabraes.
Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os
pavões no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braço de Villaça,
apoiou-se n'elle com força, como se lhe tivesse chegado a primeira
tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura.
Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua
poltrona ao pé da janella, começou a encher de vagar o seu cachimbo.
Villaça, de cabeça baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas
pontas dos pés, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu
gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roçava a varanda.
Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse:
--Então, Villaça, o Saldanha lá foi demittido do Paço?...
O outro respondeu, vaga e machinalmente:
--É verdade, meu senhor, é verdade...
E não se fallou mais de Pedro da Maia.
II
Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a
Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que
vae desde as flores e das messes da planicie lombarda até ao molle paiz
de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era lá que tencionavam passar o
inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as
preguiças de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em
Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar
assim, aos balouços das caleças, só para ir ver _lazzaroni_ engolir fios
de macarrão. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos
Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro,
agora, com o principe Luiz Napoleão... Além d'isso, aquella velha Italia
classica enfastiava-a já: tantos marmores eternos, tantas _madonas_
começavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoço de Pedro)
a dar tonturas á sua pobre cabeça! Suspirava por uma boa loja de modas,
sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da
Italia onde todo mundo conspirava.
Foram para França.
Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago
cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de
batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_;
achava um ar feroz á policia; tudo permanecia triste; e as duquezas,
pobres anjos, ainda não ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios,
corja insaciavel! Emfim demoraram-se lá até a primavera, no ninho que
ella sonhára, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.
Depois principiou a fallar-se de novo em revolução, em golpe d'estado. A
admiração absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia
Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar
d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa
adormecida ao sol.
Antes de partir porém escreveu ao pae.
Fôra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da
Maia ao principio desesperara-a. Não a affligia a desunião domestica:
mas aquelle _não_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito
publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e
tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia,
para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avós godos, brios de
familia--deante dos seus braços nus... Agora porém que ia voltar a
Lisboa, dar _soirées_, crear côrte, a reconciliação tornava-se
indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de
outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus
espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros...
E queria mostrar-se a Lisboa pelo braço d'esse sogro tão nobre e tão
ornamental, com as suas barbas de Viso-rei.
--Dize-lhe que já o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha
acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe
hei de pôr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!
E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao papá. O pobre rapaz amava-o.
Fallou-lhe commovido da esperança de ter um filho varão; as
desintelligencias deviam findar em torno do berço d'aquelle pequeno Maia
que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua
felicidade, com uma effusão de namorado indiscreto: a historia da
bondade de Maria, das suas graças, da sua instrucção, enchia duas
paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse não tardaria uma hora em ir
atirar-se aos seus pés...
Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias
antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma
desfeita--e feriu-o acerbamente.
Fez-se então entre o pae e o filho uma grande separação. Quando lhe
nasceu uma filha Pedro não lh'o participou--dizendo dramaticamente ao
Villaça «que já não tinha pae!» Era uma linda bébé, muito gorda, loira e
côr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de
Pedro, Maria não a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias
de joelhos ao pé do berço, em extasi, correndo as suas mãos cheias de
pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos
pésinhos, na rosquinha das côxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de
grande amor, e perfumando-a já, enchendo-a já de laçarotes.
E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra
Affonso da Maia. Considerava-se então insultada em si mesma e n'aquelle
cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe
o _D. Fuas_, o _Barbatanas_...
Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou
desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os
olhos azues pareciam negros de colera, elle só poude balbuciar
timidamente:
--É meu pae, Maria...
Seu pae! E á face de toda a Lisboa tratava-a então como uma concubina!
Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villão. Um _D. Fuas_, um
_Barbatanas_, nada mais!...
Arrebatou a filha, e abraçada n'ella, romperam as queixas por entre os
prantos:
--Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens só a tua mãe!
Tratam-te como se fosses bastarda!
A bebé, sacudida nos braços da mãe, desatou a gritar. Pedro correu,
envolveu-as ambas no mesmo abraço, já enternecido, já humilde; e tudo
terminou n'um longo beijo.
E elle, por fim, no seu coração, justificava aquella colera de mãe que
vê desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o
Alencar, o D. João da Cunha, que começavam agora a frequentar Arroios,
riam d'aquella obstinação de pae gothico, amuado na provincia, porque
sua nora não tivera avós mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em
Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graça, recebendo tão bem? Que
diabo, o mundo marchara, sahira-se já das attitudes empertigadas do
seculo XVI!
E o proprio Villaça, um dia que Pedro lhe fôra mostrar a pequerruchinha
adormecida entre as rendas do seu berço, sensibilisou-se, veio-lhe uma
das suas faceis lagrimas, declarou, com a mão no coração, que aquillo
era uma caturrice do sr. Affonso da Maia!
--Pois peior para elle! não querer ver um anjo d'estes! disse Maria,
dando deante do espelho um lindo geito ás flores do cabello. Tambem não
faz cá falta...
E não fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu
primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora
occupavam toda, e que fôra ricamente remobilada. E as senhoras que
outr'ora tinham horror á _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a
face por traz do leque, lá vieram todas, amaveis e decotadas, com o
beijinho prompto, chamando-lhe «querida», admirando as grinaldas de
camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e
gozando muito os gelados.
Começara então uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o
Alencar, o intimo da casa, o cortesão de Madame, «tinham um saborsinho
d'orgia _distinguée_ como os poemas de Byron.» Eram realmente as
_soirées_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se á uma hora com Champagne;
talhava-se até tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em
que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de
Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais
intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha
perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a
bater á carambola franceza D. João da Cunha, o grande taco da epoca.
E no meio d'esta festança, atravessada pelo sopro romantico da
Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte,
d'alta gravata branca, com as mãos atraz das costas, rondando pelos
cantos, refugiado pelos vãos das janellas, mostrando-se só para salvar
alguma bobèche que ía estalar--e não desprendendo nunca da filha o olho
embevecido e senil.
Nunca Maria fôra tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais
copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz áquellas altas salas de
Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das
tranças, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas.
Com rasão, querendo ter, á maneira das damas da Renascença, uma flôr que
a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente.
Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de
propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo
arruinal-o-hia, a elle e ao papá Monforte...
Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse
proclamava-se com alarido seu «cavalleiro e seu poeta». Estava sempre em
Arroios, tinha lá o seu talher: por aquellas salas soltava as suas
phrases ressoantes, por esses sophás arrastava as suas _poses_ de
melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o
tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava
este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, tão annunciado, tão
esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao
gosto cantante do tempo:
Vi-te essa noite no explendor das sallas
Com as loiras tranças volteando louca...
A paixão do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais
d'um de certo balbuciara já a sua declaração no _boudoir_ azul em que
ella recebia ás tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas
amigas porém, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca
teriam passado de alguma rosa dada n'um vão de janella, ou de algum
longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia começava a ter
horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ás vezes, de repente, um
tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de
sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim
tão ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria.
Refugiava-se então n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi,
era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...
Maria sabia perceber bem na face do marido «estas nuvens», como ella
dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mãos, com força, com
dominio:
--Que tens tu, amor? Estás amuado!
--Não, não estou amuado...
--Olha então para mim!...
Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mãos corriam-lhe
os braços n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois,
com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um
longo beijo, e ficava consolado de tudo.
Durante esse tempo Affonso da Maia não sahia das sombras de St.^a
Olavia, tão esquecido para lá como se estivesse no seu jazigo. Já se não
fallava d'élle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. Só Pedro ás
vezes perguntava a Villaça «como ia o papá.» E as noticias do
administrador enfureciam sempre Maria: o papá estava optimo; tinha agora
um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o
Sequeira, André da Ega, D. Diogo Coutinho...
--O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor.
E o velho negreiro esfregava as mãos, satisfeito de o saber assim feliz
em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer á idéa de ver em
Arroios, deante de si, aquelle fidalgo tão severo e de vida tão pura.
Quando porém Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que então se
fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coração de Pedro a
imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de
reconciliação, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescença. E a sua
alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,
respondeu:
--Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...
Pedro, enthusiasmado com um assentimento tão inesperado, pensou em
abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso,
segundo dizia o Villaça, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem,
ella iria lá com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente,
atirando-se-lhe aos pés, pedir-lhe-hia a benção para seu neto! Não podia
falhar! Não podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiração de
maternidade...
Para abrandar desde jà o papá, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de
Affonso. Mas n'isso Maria não consentiu. Andava lendo uma novella de que
era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e,
namorada d'elle, das suas aventuras e desgraças, queria dar esse nome a
seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo
um destino de amores e façanhas.
O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi
muito benigna porém; e d'ahi a duas semanas Pedro podia já sahir para
uma caçada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia
demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar
um italiano, chegado por então a Lisboa, distincto rapaz que lhe fôra
apresentado pelo secretario da Legação Ingleza, e com quem Pedro
sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e
vinha fugido de Napoles, onde conspirára contra os Bourbons e fôra
condemnado á morte. O Alencar e D. João Coutinho iam tambem á caçada--e
a partida foi de madrugada.
N'essa tarde, Maria jantava só no seu quarto, quando sentiu carruagens
parando á porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente
Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:
--Uma grande desgraça, Maria!
--Jesus!
--Feri o rapaz, feri o napolitano!...
--Como?
Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda
dispara-se-lhe, e a carga, zás, vae cravar-se no napolitano! Não era
possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle
naturalmènte não consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao
hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara
chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo lá ia
passar a noite...
--E elle?
--Um heroe!... Sorri, diz que não é nada, mas eu vejo-o pallido como um
morto. Um rapaz adoravel! Isto só a mim, Senhor! E então o Alencar que
ia mesmo ao pé d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz
intimo, de confiança! até a gente se ria. Mas não, zás, logo o outro, o
de cerimonia...
Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.
--É o medico!
E Pedro abalou.
Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella
bagatella, uma chumbada no braço, e alguns grãos perdidos nas costas.
Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caçar outra vez na
_Tojeira_; e o principe estava já fumando o seu charuto. Bello rapaz!
Parecia sympathisar com o papá Monforte...
Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitação vaga que lhe dava aquella
idéa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado á morte, ferido
agora por cima do seu quarto.
Logo de manhã cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo,
do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza
de quarto, uma bella moça d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S.
Alteza passara, e «ver que figura tinha». A arlesiana appareceu, com os
olhos brilhantes, a dizer á senhora, nos seus grandes gestos de
Provençal, que nunca vira um homem tão formoso! Era uma pintura de Nosso
Senhor Jesus Christo! Que pescoço, que brancura de marmore! Estava muito
pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e
ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros...
Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era
Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por
aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando já o
seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que
encontrava n'elle, o mesmo amor da caça, dos cavallos, das armas. Agora
logo de manhã, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e
cachimbo na boca, e passava lá horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_
quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para lá os seus
amigos, o Alencar, o D. João da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as
risadas. Ás vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o
heroe, não cessava de lhe rondar o leito.
A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia lá a levar toalhas de
rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores
para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria,
se além de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o
papá e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria
criada no quarto de Sua Alteza!
Não era. Mas Pedro riu muito á idea de que a Arlesiana se tivesse
namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano
tambem a achava picante: _un très joli brin de femme_, tinha elle dito.
A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau
gosto, grosseiro, impudente! Pedro fôra realmente um doido em trazer
assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um
aventureiro! Demais, aquella troça em cima, entre grogs quentes, com
guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da
convalescença, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com
almofadas n'uma sege, queria-o fóra, na estalagem...
--O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro.
--É assim.
E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa
tarde Pedro encontrou a moça aos ais no corredor, limpando ao avental os
olhos affogueados.
D'ahi a dias, porém, o napolitano, já convalescente, quiz recolher ao
seu hotel. Não vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade
mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista
da Renascença, um soneto em italiano enrolado entre as flores e tão
perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota
de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente;
comparava-a á Beatriz do Dante.
Isto affigurou-se a todos de uma rara distincção, e, como disse o
Alencar, um rasgo á Byron.
Depois, na _soirée_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma
semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem
esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua
barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de
mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados á nazarena--davam-lhe
realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo.
Dançou apenas uma contradança com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco
taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu
mysterio, até o seu nome de Tancredo. Muitos corações de mulher
palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mão, uma
melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado á
morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de
velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braço a
Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de
ouro.
--É de appetite! exclamou ella. É uma imagem!... E são amigos, são
amigos, Pedro?
--Somos como dois irmãos d'armas, minha senhora.
N'essa mesma soirée, o Villaça informára Pedro que o pae era esperado no
dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria
em «irem fazer a grande scena ao papá.» Ella, porém, recusou, e com as
razões mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito!
Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do papá--ultimamente
chamava-lhe sempre o papá--era essa extraordinaria existencia de
Arroios...
--Mas filha, disse Pedro, escuta, nós não vivemos tambem em plena
orgia... Alguns amigos que veem.
Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior
mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bébés. Pois bem,
queria que o papá estivesse convencido d'essa transformação, para que as
pazes fossem mais faceis e eternas.
--Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nós vivemos
quietinhos, eu o trarei, socega... É bom tambem que seja quando meu pae
partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre papá, coitado, tem
medo do teu... Filho, não achas assim melhor?
--És um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mãos.
Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando.
Suspendera as _soirées_. Começou a passar as noites muito recolhidas,
com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. Já não fumava; abandonara o
bilhar; e vestida de preto, com uma flôr nos cabellos, fazia _crochet_
ao pé do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho
Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na
gravidade, recitava traducções de Klopstock. Fallava-se com sisudez de
politica; Maria era muito regeneradora.
E todas essas noites, Tancredo lá estava, indolente e bello, desenhando
alguma flôr para ella bordar, ou tangendo à guitarra canções populares
de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho
Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando
o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se,
atravessava a sala, ia-se debruçar sobre elle, palpal-o, sentil-o,
respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadiço:
--_Ça aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo...
E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque
n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o
papá ou vinha beijal-o na testa.
De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associação de
caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno ás
familias necessitadas distribuições de agasalhos; e presidia no salão de
Arroios, com uma campainha, as reuniões em que se elaboravam os
estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoção
ás Egrejas, toda vestida de preto, a pé, com um véo muito espesso no
rosto.
O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante
de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e não era raro
ouvil-a de repente suspirar sem razão.
Ao mesmo tempo a sua paixão pela filha crescia. Tinha então dois annos e
estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento á sala,
vestida com um luxo de princeza; e as exclamações, os extasis de
Tancredo não findavam! Fizera-lhe o retrato a carvão, a esfuminho, a
aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mãosinha côr de rosa, como ao
_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia
sempre com ella entre os braços.
Ao começo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.
Maria chorou, dependurada do pescoço do velho, como se elle largasse de
novo para as travessias de Africa.
Ao jantar, porém, chegou já consolada e radiante; e Pedro voltou a
fallar da reconciliação, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica
recuperar para sempre aquelle papá tão teimoso...
--Ainda não, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus.
Teu pae é uma especie de santo, ainda o não merecemos... Mais para o
inverno.
Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava
no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e,
alçando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado,
desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um
olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra
atirou-se aos braços do pae, rompeu a chorar perdidamente.
--Pedro! que succedeu, filho?
Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, á idéa do filho
livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo á sua solidão os
dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem,
desprendendo-o de si com grande amor:
--Socega, filho, que foi?
Pedro então cahiu para o canapé, como cae um corpo morto; e levantando
para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra,
n'uma voz surda:
--Estive fóra de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... A Maria tinha
fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E
aqui estou!
Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de
pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a
pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade
galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama. E era aquelle filho
que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura,
estragara o sangue da raça, cobria agora a sua casa de vexame. E alli
estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de
homem trahido! Vinha atirar-se para um sophá, chorando miseravelmente!
Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero,
cerrando os labios para que não lhe escapassem as palavras de ira e de
injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli
ao seu lado, aquelle soluçar de funda dôr; via tremer aquelle pobre
corpo desgraçado que elle outr'ora emballara nos braços;--parou junto de
Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa,
uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creança, restituindo-lhe
alli e para sempre a sua ternura inteira.
--Tinha razão, meu pae, tinha razão, murmurava Pedro entre lagrimas.
Depois ficaram callados. Fóra, as pancadas successivas da chuva batiam a
casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas,
ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
Foi Affonso que quebrou o silencio:
--Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é só chorar...
--Não sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforço. Sei que fugiu. Eu
sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa
n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana
que tinha agora, e a pequena. Disse á governante e á ama do pequeno que
ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando
voltei, achei esta carta.
Era um papel já sujo, e desde essa manhã de certo muitas vezes relido,
amarrotado com furia. Continha estas palavras:
«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não
sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d'ella.»
--E o pequeno, onde está o pequeno? exclamou Affonso.
Pedro pareceu recordar-se:
--Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege.
O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braços o
pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas.
Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e côr
de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama
não passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha
na mão.
Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no
collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia
esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora só havia ali
aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braços...
--Como se chama elle?
--Carlos Eduardo, murmurou a ama.
--Carlos Eduardo, hein?
Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua
raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãosinhas vermelhas que não
largavam o guiso, e muito grave, como se a creança o percebesse,
disse-lhe:
--Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessario amar o avô!
E áquella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos
para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas
grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu a mãosinha,
e martellou-lhe furiosamente a cabeça com o guiso.
Toda a face do velho sorria áquella viçosa alegria; apertou-o ao seu
largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado,
enternecido, o seu primeiro beijo d'avô; depois, com todo o cuidado, foi
collocal-o nos braços da ama.
--Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe o quarto, vá vêr
o que é necessario.
Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se não movera do
canto do sophá, nem despregára os olhos do chão.
--Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos não vemos ha tres
annos, filho...
--Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
Ergueu-se, allongou a vista á quinta, tão triste sob a chuva; depois,
derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com
uma rosa na mão. E repetia ainda amargamente:
--Tinha razão, meu pae, tinha razão...
E pouco a pouco, passeiando e suspirando, começou a fallar d'aquelles
ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a
intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliação, por fim
aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade,
arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera só idéas
de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um clarão de razão.
Seria ridiculo, não é verdade? De certo a fuga fora d'antemão preparada,
e não havia de ir correndo as estalagens da Europa á busca de sua
mulher... Ir lamentar-se á policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade;
nem impedia que ella fosse já por esses caminhos fóra dormindo com
outro... Restava-lhe sómente o desprezo. Era uma bonita amante que
tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho,
sem mãe, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para
uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar
consolado e forte.
Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado
nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae,
com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos.
--Sempre desejei ver a America, e é boa occasião agora... É uma occasião
famosa, hein? Posso até naturalisar-me, chegar a presidente, ou
rebentar... Ah! Ah!
--Sim, mais tarde, depois pensarás n'isso, filho, accudiu o velho
assustado.
N'esse momento a sineta do jantar começou a tocar lentamente, ao fundo
do corredor.
--Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
Teve um suspiro cançado e lento, murmurou:
--Nós jantavamos ás sete...
Quiz então que o pae fosse para a mesa. Não havia motivo para que se não
jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro...
Ainda lá tinha a cama, não é verdade? Não, não queria tomar nada...
--O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda cá está o
Teixeira, coitado!
E vendo Affonso sentado, repetiu, já impaciente:
--Vá jantar meu pae, vá jantar, pelo amor de Deus...
Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas
desabridamente abertas. Foi então andando para a sala de jantar, onde os
criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de
pés, com a lentidão contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso
sentou-se á mesa só; mas já lá estava outra vez o talher de Pedro; rosas
de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japão; e o velho papagaio agitado
com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. '
Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto
do fogão; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico
crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste
contra as vidraças, pensando em todas as cousas terriveis que assim
invadiam n'um tropel pathetico á sua paz de velho. Mas no meio da sua
dôr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu coração
onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma
frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse
rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a
sua face sorria á chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as
rendas brancas da touca...
Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. Já inquieto subiu ao
quarto do filho; estava tudo escuro, tão humido e frio, como se a chuva
caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de
Pedro veiu do negro da janella; estava lá, com a vidraça aberta, sentado
fóra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das
ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste.
--Pois estás aqui filho! exclamou Affonso. Os criados hão de querer
arranjar o quarto, desce um momento... Estás todo molhado, Pedro!
Apalpava-lhe os joelhos, as mãos regeladas. Pedro ergueu-se com um
estremeção, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho.
--Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me tão bem!
O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que
chegára n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem
recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro
viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa...
--Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaça lá irá amanhã, e elle
dará as ordens.
O criado então, em bicos de pés, foi depôr o estojo sobre o marmore da
commoda: ainda lá restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os
castiçaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com
os colxões dobrados ao meio.
A Gertrudes toda atarefada entrara com os braços carregados de roupa de
cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios
pousando o chapéo a um canto, e sempre em ponta de pés, veiu ajudal-os
tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a
cabeça á chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em
baixo com um rumor de mar bravo.
Affonso, então, puxou-lhe o braço quasi com aspereza.
--Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
Elle seguiu maquinalmente o pae á livraria, mordendo o charuto apagado
que desde tarde conservava na mão. Sentou-se longe da luz, ao canto do
sophá, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo só os passos lentos do
velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda
a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fogão. A noite parecia mais
aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraças, trazidas
n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um
diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma
susurração distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as
goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria
mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava,
partia com silvos desolados.
--Está uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruçando-se a espertar
o lume.
Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
idéa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
adulterio entre os braços do outro. Apertou um instante a cabeça nas
mãos, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito
calma.
--Estou realmente cançado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanhã
conversaremos mais.
Beijou-lhe a mão e saiu de vagar.
Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mão, sem ler, attento só a
algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.
Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a
cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam lá
cochichando ao pé da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante
do candieiro; todos se esquivaram em pontas de pés quando lhe sentiram
os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetões. No vasto
leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus cançado, com o seu guiso
apertado na mão. Affonso não ousou beijal-o, para o não acordar com as
barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa
contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a
sua dôr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia.
--É necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.
--Não, meu senhor...
Então, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,
entreabriu a porta. O filho escrevia, á luz de duas vellas, com o estojo
aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu,
envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais
refulgentes e duros.
--Estou a escrever, disse elle.
Esfregou as mãos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
--Amanhã cedo é necessario que o Villaça vá a Arroios... Estão lá os
criados, tenho lá dois cavalos meus, emfim uma porção de arranjos. Eu
estou-lhe a escrever. É numero 32 a casa d'elle, não é? O Teixeira ha de
saber... Boas noites, papá, boas noites.
No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso não poude socegar, n'uma
oppressão, uma inquietação que a cada momento o faziam erguer sobre o
travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara,
ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.
A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro
atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado
acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto
vinha um cheiro de polvora; e aos pés da cama, caido de bruços, n'uma
poça de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho
morto, apertando uma pistola na mão.
Entre as duas vélas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixára-lhe
uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra
firme: _Para o papá_.
D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o
neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia.
Quando Villaça, em fevereiro, foi lá acompanhar o corpo de Pedro, que ia
ser depositado no jazigo de familia, não pôde conter as lagrimas ao
avistar aquella vivenda onde passára tão alegres nataes. Um baetão preto
recobria o brazão d'armas, e esse panno de esquife parecia ter
distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os
castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz,
carregados de luto; não havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de
S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos,
vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaça foi encontrar
Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno,
caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e
brancos, as mãos magras e ociosas sobre os joelhos.
O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho não durava um anno.
III
Mas esse anno passou, outros annos passaram.
Por uma manhã de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaça chegava de novo
a S.^{ta} Olavia.
Não o esperavam tão cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa
primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o
Teixeira, que ia já embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o
sr. administrador com quem ás vezes se correspondia, e conduziu-o á sala
de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza,
deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoço.
As tres portas envidraçadas estavam abertas para o terraço, que se
estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras:
e Villaça, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal
poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas
tão robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu
neto pela mão.
Carlos, ao avistar no terraço um desconhecido, de chapéo alto, abafado
n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se
arrebatado nos braços do bom Villaça, que largara o guarda sol, o
beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
--Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que está! que crescido
que está...
--Então, sem avisar, Villaça? exclamava Affonso da Maia, chegando de
braços abertos. Nós só o esperavamos para a semana, creatura!
Os dois velhos abraçaram-se; depois um momento os seus olhos
encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mãos enterradas nos
bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma
flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello
negro--continuava a mirar o Villaça, que com o beiço tremulo, tendo
tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos.
--E ninguem a esperal-o, nem um criado lá em baixo no rio! dizia
Affonso. Emfim, cá o temos, é o essencial... E como você está rijo,
Villaça!
--E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluço.
Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moço... Eu nem o conhecia!...
Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E cá isto! cá esta linda
flor!...
Ia abraçar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma
bella risada, saltou do terraço, foi pendurar-se d'um trapesio armado
entre as arvores, e ficou lá, balançando-se em cadencia, forte e airoso,
gritando: «tu és o Villaça!»
O Villaça, de guarda sol debaixo do braço, contemplava-o embevecido.
--Está uma linda creança! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos
olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito
mais homem!
--É são, é rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como
ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando é esse casamento? Venha você cá para
dentro, Villaça, que ha muito que conversar...
Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminé de
azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos
de alegria.
A Gertrudes, que ficára a observar, acercou-se, com as mãos cruzadas sob
o avental branco, familiar, terna.
--Então, meu senhor, aqui está um regalo, vêr outra vez este ingrato em
S.^{ta} Olavia!
E, com um clarão de sympathia na face, alva e redonda como uma velha
lua, ornada já de um buço branco:
--Ah! sr. Villaça, isto agora é outra cousa! Até os canarios cantam! E
tambem eu cantava, se ainda podesse...
E foi saindo, subitamente commovida, já com vontade de chorar.
O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma á
outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.
--Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaça, hein? disse
Affonso. No quarto em que você costumava ficar dorme agora a
viscondessa...
Então o Villaça apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma
Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de
Caminha a cantavam, casára com um fidalgote gallego, o sr. visconde de
Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva
e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma
senhora em S.^{ta} Olavia.
Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a
relação d'esses achaques.
--Villaça, vá-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco é o jantar.
O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa já
posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
--Então v. ex.^a agora janta de manhã? Eu pensei que era o almoço...
--Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada está já
na quinta; almoça ás sete; e janta á uma hora. E eu, emfim, para vigiar
as maneiras do rapaz...
--E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaça, a mudar de habitos, n'essa
edade! O que é ser avô, meu senhor!
--Tolice! não é isso... É que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas
avie-se Villaça, avie-se que Carlos não gosta de esperar... Talvez
tenhamos o abbade.
--O Custodio? Rica cousa! Então, se v. ex.^a me dá licença...
Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr.
administrador, perguntou-lhe, desembaraçando-o do guarda sol e do
chale-manta:
--Com franqueza, como nos acha por cá, pela quinta sr. Villaça?
--Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a
S.^{ta} Olavia.
E, pousando familiarmente a mão no hombro do escudeiro, piscando o olho
ainda humido:
--Tudo isto é o menino. Fez reviver o patrão!
O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da
casa...
--Olá! Quem toca por cá? exclamou Villaça, parando nos degraus da
escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.
--É o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, é
um regalo ouvil-o; toca ás vezes á noite na sala, o sr. juiz de direito
acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Villaça, o quarto de v. s.^a...
--Muito bonito, sim senhor!
O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o
tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os
reposteiros de cretóne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre
fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaça.
Foi logo apalpar os cretónes, esfregou o marmore da commoda, provou a
solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois,
elegantes. E, realmente, não tinham sido caras. Nem elle fazia idéa!
Ficou ainda em bicos de pés a examinar duas aguarellas inglezas
representando vaccas de luxo, deitadas na relva, á sombra de ruinas
romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mão:
--Olhe que v. s.^a tem só dez minutos... O menino não gosta de esperar.
Então o Villaça decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu
pesado collete de malha de lã; e pela camisa entreaberta via-se ainda
uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de
seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do
corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das
janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos,
todo o verde d'abril.
Villaça, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha
molhada pelo pescoço, por traz da orelha, e ia dizendo:
--Então, o nosso Carlinhos não gosta de esperar, hein? Já se sabe, é
elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...
Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador.
Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido
educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaça!
Não tinha a creança cinco annos já dormia n'um quarto só, sem lamparina;
e todas as manhãs, zás, para dentro d'uma tina d'agua fria, ás vezes a
gear lá fóra... E outras barbaridades. Se não se soubesse a grande
paixão do avô pela creança, havia de se dizer que a queria morta. Deus
lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas não, parece que
era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ás arvores,
molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o
rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas cousas... E ás vezes
a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.
E o Teixeira accrescentou:
--Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nós approvassemos a
educação que tem levado, isso nunca approvámos, nem eu, nem a Gertrudes.
Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete
branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a
cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola,
de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o
Villaça acamava as duas longas repas sobre a calva:
--Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar!
A remar, sr. Villaça, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as
habilidades de palhaço; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o
primeiro a dizel-o: o Brown é boa pessoa, calado, asseado, excellente
musico. Mas é o que eu tenho repetido á Gertrudes: póde ser muito bom
para inglez, não é para ensinar um fidalgo portuguez... Não é. Vá v.
s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira...
Bateram de manso á porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez
um signal ao mordomo, tirou-lhe do braço respeitosamente a sobrecasaca,
e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaça, vermelho e
apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.
O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mão:
--É o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. Villaça.
E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o
casaco pelas escadas.
Os senhores já estavam todos na sala. Junto do fogão, onde as achas
consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos,
a cavallo nos joelhos do avô, contava-lhe uma grande historia de rapazes
e de bulhas; e ao pé o bom abbade Custodio, com o lenço de rapé
esquecido nas mãos, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e
terno.
--Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.
O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na côxa:
--Esta é nova! Então é o nosso Villaça? E não me tinham dito nada!
Venham de lá esses ossos, homem!...
Carlos pulava nos joelhos do avô, muito divertido com aquelles longos
abraços que juntavam as duas cabeças dos velhos--uma com as repas
achatadas sobre a calva, outra com uma grande corôa aberta n'uma matta
de cabello branco. E como elles, de mãos dadas, continuavam a
admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:
--Villaça! a sr.^a viscondessa...
O administrador porém procurou-a debalde, com os olhos abertos pela
sala. Carlos ria, batendo as mãos:--e Villaça descobriu-a emfim a um
canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa,
vestida de preto, timida e queda, com os braços rechonchudos pousados
sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel,
as roscas do pescoço, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; não achou
uma palavra para dizer ao Villaça, e estendeu-lhe a mão papuda e
pallida, com um dedo embrulhado n'um pedaço de seda negra. Depois ficou
a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos
no regaço, como exhausta d'aquelle esforço.
Dois escudeiros tinham começado a servir a sopa, o Teixeira esperava,
perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.
Mas Carlos cavalgava ainda o avô, querendo acabar outra historia. Era o
Manuel, trazia uma pedra na mão... Elle primeiro pensára ir ás boas; mas
os dois rapazes começaram a rir... De maneira que os correu a todos...
--E maiores que tu?
--Tres rapagões, vôvô, póde perguntar á tia Pedra... Ella viu, que
estava na eira. Um d'elles trazia uma foice...
--Está bom, senhor, está bom, ficamos inteirados... Vá, desmonte, que
está a sopa a esfriar. Upa! upa!
E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu
sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:
--Já se vae fazendo pesado, já não está para collo...
Mas reparou então no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentação do
procurador.
--O sr. Brown, o amigo Villaça... Peço perdão, descuidei-me, foi culpa
d'aquelle cavalheiro lá ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!
O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu
toda a volta á meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaça n'um
tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar,
desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi então que
disse ao Villaça, com o seu forte accento inglez:
--_Muito bello dia... glorioso!_
--Tempo de rosas, respondeu o Villaça, comprimentando, intimidado diante
d'aquelle athleta.
Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviço
da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaça já
viera no comboyo até ao Carregado.
--De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que
ia levar á bocca.
O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que
ficava para além da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu
passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro,
de que tanto se fallava...
--Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaça. Digam o que
disserem, faz arripiar!
Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraças
d'essas machinas!
O Villaça então lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaça,
quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irmãs de caridade! Emfim de
todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no
quarto...
O abbade gostava do progresso... Achava até necessario o progresso. Mas
parecia-lhe que se queria fazer tudo á lufa-lufa... O paiz não estava
para essas invenções; o que precisava eram boas estradinhas...
--E economia! disse o Villaça, puxando para si os pimentões.
--Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.
O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe á luz a côr
rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:
--É do nosso!
--Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom
nectar?
--_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa.
Então Carlos, estendendo o braço por cima da meza, reclamou tambem
Bucellas. E a sua razão era haver festa por ter chegado o Villaça. O avô
não consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume,
e um só. Carlos crusou os braços sobre o guardanapo que lhe pendia do
pescoço, espantado de tanta injustiça! Então nem para festejar o Villaça
poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de
receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera
o sr. administrador, havia de pôr á noite para o chá o fato novo de
velludo. Agora observavam-lhe que não era festa, nem caso para
Bucellas... Então não entendia.
O avô, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um carão
severo.
--Parece-me que o senhor está palrando de mais. As pessoas grandes é que
palram à meza.
Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
--Está bom, vovô, não te zangues. Esperarei para quando for grande...
Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada,
agitou preguiçosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em
extasi para o menino, apertava as mãos cabelludas contra o peito, tanto
aquillo lhe parecia engraçado: e Affonso tossia por traz do guardanapo,
como limpando as barbas--a esconder o riso, a admiração que lhe brilhava
nos olhos.
Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaça. Quiz ouvir mais o menino,
e pousando o seu talher:
--E diga-me, Carlinhos, já vae adiantado nos seus estudos?
O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mãos pelo cós das
flanellas, e respondeu com um tom superior:
--Já faço ladear a _Brigida_.
Então o avô, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da
cadeira:
--Essa é boa! Eh! Eh! Já faz ladear a _Brigida_! E é verdade, Villaça,
já a faz ladear... Pergunte ao Brown; não é verdade, Brown? E a eguasita
é uma piorrita, mas fina...
--Oh vovô, gritou Carlos já excitado, dize ao Villaça, anda. Não é
verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_?
Affonso reassumio um ar severo.
--Não o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faça-me
favor de se não gabar das suas façanhas, porque um bom cavalleiro deve
ser modesto... E sobre tudo não enterrar assim as mãos pela barriga
abaixo...
O bom Villaça, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma
observação. Não se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo
com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos já entrava com o
seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
--Villaça, Villaça, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de
santa malicia, não se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo...
Não admitte, acha que é antigo... Elle, antigo é...
--Ora sirva-se d'esse fricassé, ande abbade, disse Affonso, que eu sei
que é o seu fraco, e deixe lá o latim...
O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons
pedaços de ave, ia murmurando:
--Deve-se começar pelo latimsinho, deve-se começar por lá... É a base; é
a basesinha!
--Não! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante.
Prrimeiro forrça! Forrça! Musculo...
E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:
--Prrimeiro musculo, musculo!...
Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era
um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que começar a ensinar a uma
creança n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos
Grachos, e outros negocios d'uma nação extincta, deixando-o ao mesmo
tempo sem saber o que é a chuva que o molha, como se faz o pão que come,
e todas as outras cousas do Universo em que vive...
--Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.
--Qual classicos! O primeiro dever do homem é viver. E para isso é
necessario ser são, e ser forte. Toda a educação sensata consiste
n'isto: crear a saude, a força e os seus habitos, desenvolver
exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal
qual como se não tivesse alma. A alma vem depois... A alma é outro luxo.
É um luxo de gente grande...
O abbade coçava a cabeça, com o ar arripiado.
--A instrucçãosinha é necessaria, disse elle. Você não acha, Villaça?
Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas
emfim a instrucçãosinha...
--A instrucção para uma creança não é recitar _Tityre, tu patulae
recubans_... É saber factos, noções, cousas uteis, cousas praticas...
Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaça,
mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos
de força, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a
contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava,
retorcendo os bigodes. E á mesa os senhores com os garfos suspensos, por
traz os escudeiros de pé e guardanapo no braço, todos, n'um silencio
reverente, admiravam o menino a fallar inglez.
--Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaça, inclinando-se para a
Viscondessa.
A excellente senhora córou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais
gorda, toda acaçapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada
gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque
negro e lentejoulado.
Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao
Villaça. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz
gritar _Hurrah!_ O avô, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na
pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicção:
--Oh avô, eu gosto do Villaça. O Villaça é nosso amigo.
--Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, tão
commovido que mal podia erguer o calice na mão.
O jantar findava. Fóra, o sol deixára o terrasso e a quinta verdejava na
grande doçura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminé só
restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo,
a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limão: os
creados, de colletes brancos, moviam o serviço d'onde se escapava algum
som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a
confusão da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam
entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se.
Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coçada luzia
nas pregas das mangas.
Então Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.
--Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete!
--Sr. Vôvô! dizia o pequeno escorropichando o copo.
A cabeçinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve,
saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no
enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca,
murmurou as _graças_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as
mãos. E Villaça que tinha crenças religiosas não gostou de vêr Carlos,
sem se importar com as graças, saltar da cadeira, vir atirar-se ao
pescoço do avô, fallar-lhe ao ouvido.
--Não senhor! não senhor! dizia o velho.
Mas o rapaz, abraçando-o mais forte, dava-lhe grandes razões, n'um
murmurio de mimo dôce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma
fraqueza indulgente.
--É por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja lá, veja lá...
O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaça pelos braços, fêl-o
redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu:
--Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha,
inha, inha!
--É a noiva, disse o avô, erguendo-se da mesa. Já tem amores, é a
pequena das Silveiras... O café para o terraço, Teixeira.
O dia fóra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito
alto, sem uma nuvem. Defronte do terraço os geranios vermelhos estavam
já abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma
delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um
vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flôres do
campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos
baixos, a areia fina faiscava de leve áquelle sol timido de primavera
tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa
hora de sesta n'uma luz fresca e loura.
Os tres homens sentaram-se á mesa do café. Defronte do terraço, o Brown,
de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao
alto a barra do trapezio para Carlos se balouçar. Então o bom Villaça
pedio para voltar as costas. Não gostava de vêr gymnasticas; bem sabia
que não havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos,
atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado...
--E parece-me imprudente, sobre o jantar...
--Qual! é só balouçar-se... Olhe para aquillo!
Mas Villaça não se moveu, com a face sobre a chavena.
O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de
café esquecido na mão.
--Olhe para aquillo Villaça, repetio Affonso. Não lhe faz mal, homem!
O bom Villaça voltou-se, com esforço. O pequeno muito alto no ar, com as
pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mãos ás cordas, descia
sobre o terraço, cavando o espaço largamente, com os cabellos ao vento;
depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle
sorria; a sua blusa, os calções enfunavam-se á aragem; e via-se passar,
fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.
--Não está mais na minha mão, não gosto, disse o Villaça. Acho
imprudente!
Então Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. Villaça
voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha já desapparecido; o trapezio
parava, em oscillações lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera
ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta
envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo.
--Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com
satisfação outro charuto.
Villaça já ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de
dar um sorvo ao café, de lamber os beiços, soltou a sua bella phrase,
arranjada em maxima:
--Esta educação faz athletas mas não faz christãos. Já o tenho dito...
--Já o tem dito abbade, já! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas
as semanas... Quer você saber, Villaça? O nosso Custodio matta-me o
bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...
Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a
caixa de rapé aberta na mão; a irreligião d'aquelle velho fidalgo,
senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dôres:
--A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse
modo escarnica... A cartilha. Mas já não quero fallar na cartilha... Ha
outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, é pelo
amor que tenho ao menino.
E recomeçou a discussão, que voltava sempre ao café, quando Custodio
jantava na quinta.
O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um tão lindo moço,
herdeiro d'uma casa tão grande, com futuras responsabilidades na
sociedade, não soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaça a
historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do
escrivão, tendo passado deante do portão da quinta, avistara o
Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanças como era, e
pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contricção_. E que respondeu o
menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o
sr. Affonso da Maia achava-lhe graça, ria-se! Ora alli estava o amigo
Villaça que podia dizer se era caso para jubilar. Não, o sr. Affonso da
Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa não o
podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, é
que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do
cathecismo.
E Affonso da Maia respondia com bom humor:
--Então que lhe ensinava você, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que
se não deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar
os inferiores, por que isso é contra os mandamentos da lei de Deus, e
leva ao inferno, hein? É isso?...
--Ha mais alguma cousa...
--Bem sei. Mas tudo isso que você lhe ensinaria que se não deve fazer,
por ser um peccado que offende a Deus, já elle sabe que se não deve
praticar, por que é indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem...
--Mas, meu senhor...
--Ouça abbade. Toda a differença é essa. Eu quero que o rapaz seja
virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas não por
medo ás caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino
do céu...
E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:
--Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, é quando vem, depois
de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e não
estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaça não está
muito cançado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas...
O abbade suspirou como um santo que vê a negra impiedade dos tempos e
Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a
chavena e sorveu com delicias o resto do seu café.
Quando Affonso da Maia, Villaça e o abbade recolheram do seu passeio
pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado já
as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _Lagoaça_.
D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da
familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande
auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma
excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutrição, trigueirota e
pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma
rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o
morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles
sitios.
Quasi desde o berço este notavel menino revelara um edificante amor por
alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e já a sua
alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um
cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio
curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de
crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma
cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um
tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce
letrado, entre o pasmo da mamã e da titi, passava dias a traçar
algarismos, com a lingoasinha de fora.
Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser
primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia,
a tia Annica installava-o logo á mesa, ao pé do candieiro, a admirar as
pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do
Universo_. Já lá estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com
o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e
preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um
Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o
bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada
havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de
lombrigas dava uma molleza e uma amarellidão de manteiga, os seus
olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse
já consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e
para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em
pincaros de serranias.
Deante do canapé das senhoras lá se achava tambem o fiel amigo, o dr.
delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e
meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se
decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de
lençoes, ou uma peça mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas
compras eram discutidas em casa das Silveiras, á brazeira: e as allusões
recatadas, mas inevitaveis, ás duas fronhasinhas, ao tamanho dos
lençoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar
de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia
preoccupado--como se a perspectiva da santa consummação do matrimonio
lhe désse o arrepio de uma façanha a emprehender, o ter de agarrar um
toiro, ou nadar nos cachões do Douro. Então, por qualquer rasão
especiosa, adiava-se o casamento até ao S. Miguel seguinte. E alliviado,
tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a
chás, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, serviçal,
sorrindo a D. Eugenia, não desejando mais prazeres que os d'essa
convivencia paternal.
Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o
dr. juiz de direito e a senhora não podiam vir, por que o magistrado
tivera a dôr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se,
coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que
morrera o mano Manuel...
--Bem, disse Affonso, bem. A dôr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos
nós um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?
O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que «estava ás
ordens.»
--Então ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mãos,
no ardor já da partida.
Os parceiros dirigiram-se á saleta do jogo--que um reposteiro de damasco
separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos
circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque.
D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que «os
deixara para um roquesinho de tres»; e retomou o seu logar ao lado de D.
Eugenia, cruzando os pés debaixo da cadeira e as mãos em cima do ventre.
As senhoras estavam fallando da dôr do dr. juiz de direito. Costumava
dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em não querer
consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo,
amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir á larga, a ganhar
côres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do
canapé, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um
caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa;
e ao principio fôra o contrario; até sobre isso se tinham feito uns
versos...
--Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,
coitadinho, na flor de idade! E que perfeição de rapaz! E que rapaz de
juizo! D. Anna Silveira não se esquecera, como todos os annos, de lhe
accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A
viscondessa pareceu toda afflicta por se não ter lembrado... E ella que
tinha o proposito feito!
--Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que
tanto o agradecem, filha!
--Ainda está a tempo, observou o magistrado.
D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se
separava, e murmurou com um suspiro:
--Cada um tem os seus mortos.
E no silencio que se fez, saiu do canto do canapé outro suspiro, o da
viscondessa, que de certo se recordára do fidalgo d'Urigo de la Sierra,
e murmurava:
--Cada um tem os seus mortos...
E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar
reflectidamente a mão pela calva:
--Cada um tem os seus mortos!
Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles,
as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava
com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na
saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz já
arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, «passo, que é o
que tenho feito toda a santa noite!»
N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua
noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada
das suas vozes reanimou o canapé dormente.
Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos
parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz;
quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pé
d'elle na almofada... Ora senhoras não viajam na almofada.
--E elle atirou-me ao chão, titi!
--Não é verdade! De mais a mais é mentirosa! Foi como quando chegámos á
estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu não quiz... A gente, quando se
apeia de viagem, a primeira cousa que faz é tratar do gado... E os
cavallos vinham a escorrer...
A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
--Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavallaram bastante. Senta-te
ahi ao pé da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do
cabello... Que desproposito!
Sempre detestára ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,
brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem
doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginação de
solteirona passavam sem cessar idéas, suspeitas de ultrages que elle
poderia fazer á menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta
Olavia, recommendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os
recantos escuros! que o não deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A
menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: «Sim, titi.» Mas,
apenas na quinta, gostava de abraçar o seu maridinho. Se eram casados,
por que não haviam de fazer néné, ou ter uma loja e ganharem a sua vida
aos beijinhos? Mas o violento rapaz só queria guerras, quatro cadeiras
lançadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe
ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coração mal comprehendido,
chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaçava boxal-a, á ingleza;--e
separavam-se sempre arrenegados.
Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as
mãos no regaço--Carlos veiu logo estirar-se ao pé d'ella, meio deitado
para as costas do canapé, bamboleando as pernas.
--Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.
--Estou cançado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e
sem a olhar.
De repente porém, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho.
Queria-o levar á Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o já pelo
seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mamã accudiu
atterrada.
--Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saude para essas
cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!
Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara no chão, soltando
gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula,
agachada junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles,
limpando-lhe as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quasi a
chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e
cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava
ás mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a suffocassem.
O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado ao lado da titi; e a
severa senhora, com um fulgôr de colera na face magra, apertando o leque
fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mãos
atraz das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o
Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a
desempenada figura do Brown appareceu á porta.
Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa,
gritando:
--Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!
Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do
Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
--Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.
--Oh vôvô, é festa, que está cá o Villaça!
Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra,
agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle,
de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:
--É festa, vôvô... É uma maldade!... O Villaça póde-se escandalisar...
Oh vôvô, eu não tenho somno!
Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo
aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avô
deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da
soirée...
--Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a creança?
--É necessario methodo, é necessario methodo, balbuciou elle, entrando,
todo pallido do seu rigor.
E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia
ainda:
--É necessario methodo. Creanças á noite dormem.
D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça--que cedera o seu lugar ao
dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso
mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em
«methodos.»
Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque,
declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia
curta, nunca comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era á ingleza,
segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava
enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal...
E como Villaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos
dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse,
desabafou. O sr. Villaça naturalmente não sabia, mas aquella educação do
Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da casa. Já a presença do
Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias,
causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha
aquelle santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber...
Não ensinaria á creança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar
uma educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.
N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da
mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia
ouvir, D. Anna ergueu a voz:
--E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça. Que o Carlinhos,
coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar
o que succedeu com a Macedo.
Villaça já sabia.
--Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de
contricção...
A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.
--Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou lá a nossa casa
embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a
fio...
Calou-se um momento. Villaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa
de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de
somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia
de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos,
estirada para o canto do sophá, já dormia, com a boquinha aberta, os
seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço.
D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:
--Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de
inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!
--Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.
--É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.
E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella,
quieto como se fosse de gesso:
--Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaça aquelles lindos versos que
sabes... Não sejas atado, anda!... Vá, Euzebio, filho, sê bonito...
Mas o menino, mollengão e tristonho, não se descollava das saias da
titi: teve ella de o pôr de pé, amparal-o, para que o tenro prodigio não
alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mamã prometteu-lhe que, se
dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella...
Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de lá
escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado:
É noite, o astro saudoso
Rompe a custo um plumbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, humido véo...
Disse-a toda--sem se mexer, com as mãosinhas pendentes, os olhos
mortiços pregados na titi. A mamã fazia o compasso com a agulha do
_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto,
banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras.
--Muito bem, muito bem! exclamou o Villaça, impressionado, quando o
Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! É um
prodigio!...
Os creados entravam com o chá. Os parceiros tinham findado a partida; e
o bom Custodio, de pé, com a sua chavena na mão, queixava-se amargamente
da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado.
Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras
retiraram-se ás nove e meia. O serviçal dr. delegado dava o braço a D.
Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeão; e o moço
das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo
escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeça.
Depois da ceia Villaça acompanhou ainda um momento Affonso da Maia á
livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre á ingleza o seu
cognac e soda.
O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,
estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem
fechadas, um resto de lume na chaminé, e o globo do candieiro pondo a
sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos
cantavam alto no silencio da noite.
Emquanto o escudeiro rolava para o pé da poltrona de Affonso, n'uma mesa
baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaça, com as mãos nos
bolsos, de pé e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza
branca. Depois ergueu a cabeça, para murmurar, como ao acaso:
--Aquelle rapazito é esperto...
--Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fogão,
enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver cá, Villaça! O Carlos
não gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi já ha
mezes. Havia uma procissão e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras,
excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o cá para o mostrar á
viscondessa, já vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o
Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sotão, e,
meu caro Villaça... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com
anjos... Mas o peior não foi isso. Imagine você o nosso terror, quando
nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem
uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um
barbante, a corôa de rosas enterrada até ao pescoço, e os galões de
ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em
frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do
Carlos.
Bebeu metade da sua soda, e passando a mão pelas barbas, accrescentou,
com uma satisfação profunda:
--É levado do diabo, Villaça!
O administrador, sentado agora á borda de uma cadeira, esboçou uma
risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mãos nos
joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda,
tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que
erravam sobre as achas.
Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume,
recomeçara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que
Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educação á portugueza:
d'aquella edade ainda dormia no chôco com as criadas, nunca o lavavam
para o não constiparem, andava couraçado de rolos de flanellas! Passava
os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do
_Cathecismo de Perseverança_. Elle por curiosidade um dia abrira este
livreco e vira lá, «que o sol é que anda em volta da terra (como antes
de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhãs dá as ordens ao sol,
para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc.» E assim lhe estavam
arranjando uma almasinha de bacharel...
Villaça teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente
decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:
--V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte?
Affonso, sem mover a cabeça, reclinado para as costas da poltrona,
perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:
--Em Lisboa?
--Não senhor, em Paris. Viu-a lá o Alencar, esse rapaz que escreve, e
que era muito de Arroios... Esteve até em casa d'ella.
E ficaram calados. Havia annos que entre elles se não pronunciara o nome
de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a
preoccupação ardente de Affonso da Maia fôra tirar-lhe a filha que ella
levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu
principe: nem pela influencia das legações, nem pagando regiamente a
policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a
«toca da fera» como disia então o Villaça. Ambos decerto tinham mudado
de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se não errariam
agora pela America, pela India, em regiões mais exoticas? Depois, pouco
a pouco, Affonso da Maia descorçoado com aquelles esforços vãos, todo
occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no
enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a
sua outra neta, tão distante, tão vaga, a quem ignorava as feições, de
quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez
em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creança que dormia
ao fundo do corredor nunca vira sua mãe...
Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeça baixa.
Junto á mesa, ao pé do candieiro, o Villaça ia percorrendo um a um os
papeis da sua carteira.
--E está em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do
aposento.
O Villaça ergueu a cabeça de sobre a carteira, e disse:
--Não senhor, está com quem lhe paga.
E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaça,
dando-lhe um papel dobrado, accrescentou:
--Todas estas cousas são muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu não
quiz fiar-me só na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que é um
excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou.
Assim temos um documento. Eu não sei mais do que ahi está escripto. Póde
V. Ex.^a ler...
Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que
o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, ornára
de flores e de galões dourados como uma capella em dia de festa.
Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um
_coupé_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e
um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro
de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a
mão ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome
por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na
manhã seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em
Vienna d'Austria com Tancredo, e com o papá que se lhes fôra reunir--e
que lá continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos
das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas
no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham
estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, «n'um drama sombrio de paixão
que ella me fez entrever» o napolitano fora morto em duello. O papá
morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros
contos de réis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com
o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao
_baccarat_. Passára então um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar
Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a
arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe
era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais
sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida,
excessiva, lançara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o
Alencar, «a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ é o
typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito será perdoado porque muito
amaram.» E o poeta terminava: «ella está ainda no esplendor da belleza,
mas as rugas virão, e então que avistará em redor de si? As rosas seccas
e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_
perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaça! Pensava no meu pobre
Pedro, que lá jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E,
desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_,
uma hora de esquecimento.»
Affonso da Maia deu um repellão á carta, menos enojado das torpezas da
historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.
E recomeçou a passear, emquanto o Villaça recolhia religiosamente o
documento que tinha relido muitas vezes, na admiração do sentimento, do
estylo, do ideal d'aquella pagina.
--E a pequena? perguntou Affonso.
--Isso não sei. O Alencar não lhe fallaría na filha, nem elle mesmo sabe
que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou
desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.
Senão, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a mãe
podia reclamar a legitima que cabe á creança... Ella sabe a casa que V.
Ex.^a tem; ha de haver dias, e são frequentes na vida d'essas mulheres,
em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educação da menina, ou
de alimentos, já nos tinha importunado... Escrupulos não tem ella. Se o
não faz é que a filha morreu. Não lhe parece a V. Ex.^a?
--Talvez, disse Affonso.
E accrescentou, parando deante de Villaça--que olhava outra vez a braza
morta tirando estalinhos dos dedos:
--Talvez... Sopônhamos que morreram ambas, e não se falle mais n'isso.
Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias
que Villaça passou em S.^{ta} Olavia não se proferiu mais o nome de
Maria Monforte.
Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio
ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos
mandava a Villaça Junior, um alfinete de peito com uma magnifica
saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os
agradecimentos:
--Agora outra cousa, Villaça. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu
primo Noronha, ao André que vive em Paris como você sabe, pedir-lhe que
procure essa creatura, e que lhe offereça dez ou quinze contos de réis,
se ella me quizer entregar a filha... No caso, está claro, que esteja
viva... E quero que você saiba d'esse Alencar a morada da mulher em
Paris.
O Villaça não respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no
fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou
deante d'Affonso, a coçar reflectidamente o queixo.
--Então que lhe parece, Villaça?
--Parece-me arriscado.
E deu as suas razões. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma
mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus
habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da mãe haviam de ser
terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para
casa...
--Você tem rasão, Villaça. Mas a mulher é uma prostituta, e a pequena é
do meu sangue.
N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovô,
precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma romã.--O Brown
tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vovô viesse, ver,
andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito
pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E
sabiam onde havia o ninho...
--Vem depressa, ó vovô! Depressa, que é necessario ir pol-a no ninho,
por causa da coruja velha que se póde affligir... O Brown está-lhe a dar
azeite. Oh Villaça vem ver! O vovô, pelo amor de Deus! Tem uma cara tão
engraçada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha póde dar pela
falta!...
E impaciente com a lentidão risonha do vôvo, tanta indifferença pela
inquietação da coruja velha, abalou atirando com a porta.
--Que bom coração! exclamou o Villaça commovido. A pensar nas saudades
da coruja... A mãe d'elle é que não tem saudades! Sempre o disse, é uma
fera!
Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam já no corredor quando elle,
parando um momento, baixando a voz:
--Tem-me esquecido de lhe contar, Villaça, o Carlos sabe que o pae que
se matou...
Villaça arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manhã
entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:--ó vovô, o papá matou-se com
uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara...
--E vossa excellencia?
--Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido
ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me
deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi está. Não queria que o
filho jámais soubesse da fuga da mãe; e por mim, de certo, nunca o
saberá. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem
destruidos; como você sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas não me
pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a
verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o papá tinha dado um
tiro em si...
--E elle?
--E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a
pistola, e torturou-me toda uma manhã para lhe dar tambem uma pistola...
E ahi está o resultado d'essa revelação: é que tive de mandar vir do
Porto uma pistóla de vento...
Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avó, os dois
apressaram-se a ir admirar a corujazinha.
Villaça ao outro dia partiu para Lisboa.
Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador,
trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelação imprevista.
Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes
da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_
d'ella havia um adoravel retrato de creança, de olhos negros, cabello
d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, não só por
ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como
um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas.
Não havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara á Monforte se era
um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha
que lhe morrera em Londres. «Estão assim dissipadas todas as duvidas,
accrescentava o Villaça. O pobre anjinho está n'uma patria. melhor. E
para ella, _bem melhor_!»
Affonso, todavia, escreveu a André de Noronha. A resposta tardou. Quando
o primo André procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella
partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club
Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de
l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com
um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem
de fórmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se
disputavam e que a Monforte empolgára. Naturalmente corria agora a
Allemanha com a companhia de cavallinhos.
Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaça sem um
commentario. E o honrado homem respondeu: «Tem V. Ex.^a rasão, é atroz:
e mais vale suppor que todos morreram, e não gastar mais cera com tão
ruins defuntos...» E depois n'um post-scriptum accrescentava: «Parece
certo abrir-se em breve o caminho de ferro até ao Porto: em tal caso,
com permissão de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns
dias d'hospitalidade.»
Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso
lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperança de ver o bom Villaça
em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio
acima.
Mas, terça feira á noite, chegava um telegramma de Manuel Villaça
annunciando que o pae morrera, n'essa manhã, d'uma apoplexia: dois dias
depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoço
que, de repente, Villaça se sentira muito suffocado, e com tonturas:
ainda tivera forças d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao
voltar á sala cambaleava, queixava-se de vêr tudo amarello, e caiu de
bruços, como um fardo, sobre o canapé. O seu pensamento, que se
extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha
trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiça,
recomendações que o filho já não poude perceber: depois deu um grande
ai; e só tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro
estas derradeiras palavras: _Saudades ao patrão!_
Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo
entre os creados, a morte de Villaça foi como um lucto domestico. Uma
d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um
jornal esquecido nas mãos, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado
rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um braço pelo pescoço,
e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaça não
voltaria a vel-os à quinta.
--Não filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vêr.
O pequeno, entre os joelhos e os braços do velho, olhava o tapete, e,
como recordando-se, murmurou tristemente:
--O Villaça, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vovô, para
onde o levaram?
--Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.
Então Carlos desprendeu-se devagar do abraço do avô, e muito sério, com
os olhos n'elle:
--Ó vovô! porque não lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de
pedra, com uma figura, como tem o papá?
O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:
--Tens razão, filho. Tens mais coração que eu!
Assim o bom Villaça teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que
fôra a alta ambição da sua existência modesta.
Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.
Depois uma manhã de julho, em Coimbra, Manuel Villaça (agora
administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso
se hospedára com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando,
berrando:
--_Neminè! Neminè!_
Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha
acompanhado os senhores de Santa Olavia correu á porta, abraçou-se quasi
chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua
batina nova.
Em cima no quarto, Manuel Villaça, soprando ainda, limpando as bagas de
suor, exclamava:
--Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes até estavam
commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, é o que
todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?
Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
--Não sei, Villaça... Talvez nos formemos ambos em Direito.
Carlos assomou á porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro
escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva.
--Então venha cá, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braços
abertos. Bom exame, hein?... Eu...
Mas não pôde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba
branca.
IV
Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera
sempre n'aquelle menino realmente uma «vocação para Esculapio».
A «vocação» revelára-se bruscamente um dia que elle descobriu no sotão,
entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de
estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas
paredes do quarto figados, liaças de intestinos, cabeças de perfil «com
o recheio á mostra». Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a
mostrar ás Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de
seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o
leque á face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou
prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a
mão. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de
Affonso.
--Então que tem, então que tem? dizia elle sorrindo.
--Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. São indecencias!
--Não ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente é a
ignorancia... Deixar lá o rapaz. Tem curiosidade de saber como é esta
pobre machina por dentro, não ha nada mais louvavel...
D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mãos da
criança!... Carlos começou a apparecer-lhe como um libertino «que já
sabia coisas»; e não consentiu mais que a Therezinha brincasse só com
elle pelos corredores de Santa Olavia.
As pessoas sérias porém, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,
lamentando, sim, que não houvesse mais recato, concordavam que aquillo
mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.
--Se péga, dizia então com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos
d'alli coisa grande!
E parecia pegar.
Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de
logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir
das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras
d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia,
lá estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da
livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o
bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avô já
chamava mesmo ao menino «o seu talentoso collega».
Esta inesperada carreira de Carlos (pensára-se sempre que elle tomaria
capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa
Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo
tão formoso, tão bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando
emplastros, e sujando as mãos no jorro das sangrias. O dr. juiz de
direito confessou mesmo um dia a sua descrença de que o snr. Carlos da
Maia quizesse «ser medico a sério».
--Ora essa! exclamou Affonso. E porque não ha de ser medico a sério? Se
escolhe uma profissão é para a exercer com sinceridade e com ambição,
como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador;
educo-o para ser util ao seu paiz...
--Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, não lhe
parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais
proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?...
--Não vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupação geral
é estar doente, o maior serviço patriotico é incontestavelmente saber
curar.
--V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o
magistrado.
E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida «a sério»,
pratica e util, as escadas de doentes galgadas á pressa no fogo de uma
vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturí, as
noites veladas á beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando
grandes batalhas á morte. Como em pequeno o tinham encantado as fórmas
pittorescas das vísceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e
heroicos da sciencia.
Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de
quieto estudo o avô preparára-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com
graças de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre
as arvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) poz-lhe o nome de
«Paços de Cellas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete
na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de
libré.
Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas
suspeito aos democratas; quando se soube porém que o dono d'estes
confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava
tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios
começaram a vir aos Paços de Cellas tão familiarmente como ao quarto do
Trovão, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia
uma enxerga e uma Biblia.
Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, conciliára Dandys e
Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra
Torres, um monstro que já era addido honorario em Berlim e todas as
noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de
Satanaz_, encolhido no seu gabão d'Aveiro, com o seu grande barrete de
lontra.
Os Paços de Cellas, sob a sua apparencia preguiçosa e campestre,
tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma
gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fôra convertida em sala
d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade
social. Á noite, na sala de jantar, moços sérios faziam um _whist_
sério: e no salão, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e
as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao
piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas
poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a
Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a
Evolução, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo tão
ligeiro e vago como o fumo. E as discussões metaphysicas, as proprias
certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a
presença do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo
croquettes.
Carlos, naturalmente, não tardou a deixar pelas mesas, com as folhas
intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob
todas as fórmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no
_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_
improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a
influencia da _Salammbô_. Além d'isso todas as tardes passeava os seus
dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se não fosse tão conhecido
e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avô: moderou a dissipação
intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente
lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo:
e estava destinado, como dizia João da Ega, a ser um d'esses medicos
litterarios que inventam doenças de que a humanidade papalva se presta
logo a morrer!
O avô, ás vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros
tempos a sua presença, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_,
desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o
braço para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa
excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porém, vendo-o
apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com
ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura,
contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, começaram a
consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle já se
fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, tão rico,
que lêra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os
democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu
Carlos centro d'aquelles moços de estudo, de ideal e de veia.
Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ás vezes em Paris ou
Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avô
mais só se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora
soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis
de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de
parque inglez: através dos macios taboleiros de relva, davam curvas
airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos
carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este
meio rico não era agora tão alegre: a viscondessa, cada dia mais
nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira
primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos
no entrudo: e já se não via tambem á mesa a bondosa face do abbade, que
lá jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o
anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina passára para a Relação
do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha
fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o
Euzebiosinho, mollengão e tristonho, já sem vestigios sequer do seu
primeiro amor aos alfarrabios e ás letras, ia casar na Regoa. Só o dr.
delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo
talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi
todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao
portão para vir cavaquear com o collega.
As ferias, realmente, só eram divertidas para Carlos quando trazia para
a quinta o seu intimo, o grande João da Ega, a quem Affonso da Maia se
affeiçoára muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho
d'André da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora,
hospede tambem em Santa Olavia.
Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora
reprovado, ora perdendo o anno. Sua mãi, rica, viuva e beata, retirada
n'uma quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e
rica tambem, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo
esse tempo, em Coimbra. O capellão affirmava-lhe que tudo havia de
acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como
o titi: e esta promessa bastava á boa senhora, que se occupava sobretudo
da sua doença de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim.
Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da
quinta, que elle escandalisava com a sua irreligião e as suas facecias
hereticas.
João da Ega, com effeito, era considerado não só em Celorico, mas tambem
na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior
atheu, o maior demagogo, que jámais apparecera nas sociedades humanas.
Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio á Divindade, e a toda
a Ordem social: queria o massacre das classes-médias, o amor livre das
ficções do matrimonio, a repartição das terras, o culto de Satanaz. O
esforço da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as
maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sêcca, os
pêllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro
entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de
satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovára as tradições da
antiga Bohemia: trazia os rasgões da batina cozidos a linha branca;
embebedava-se com carrascão; á noite, na Ponte, com o braço erguido,
atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em
amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ás
vezes ia passar a soirée, levando-lhes cartuchinhos de dôce. A sua fama
de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias.
Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por
se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do
governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graça d'um corpo de
boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatisára fôra o
luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle
viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor
adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e
os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe já _Eurico o
presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome
odioso.
Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do
governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mão. Pela primeira
vez via tão de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e
macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais
roliço por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de lã azul,
tremelicando nas pobres perninhas rôxas de frio, e rindo na clara
luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas
rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o
rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era
no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a veneração
litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de
cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas
d'aquelle pobre pae tão inoffensivo no seu paletot coçado! Nunca mais
respondeu ás cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto
a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil,
d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.
Mas a grande «topada sentimental de Carlos», como disse o Ega, foi
quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga
hespanhola, e a installou n'uma casa ao pé de Cellas. Chamava-se
Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco
e Encarnacion fanatisou Coimbra como a apparição d'uma _Dama das
Camelias_, uma flôr de luxo das civilisações superiores. Pela Calçada,
pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoção, quando
ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um
pouco da meia de sêda, languida e desdenhosa, com um cãosinho branco no
regaço.
Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada
_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manhã_. Um estudante de
theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das
instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo começou a rondar
Cellas, com um navalhão, para «beber o sangue» ao Maia. Carlos teve de
lhe dar bengaladas.
Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar
d'outras paixões que inspirára em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe
dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posição da sua familia
ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde
eram tão antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava
elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos
republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu
_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. João da
Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Cellas
emquanto por lá apparecesse aquelle montão de carne, pago ao arratel,
como a de vacca.
Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos
surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi
estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos
Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi
recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural.
Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em
Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaça de Lisboa; toda a tarde
no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mólhos
de foguetes; e João da Ega, que levára o seu ultimo _R_ no seu ultimo
anno, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas
venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a
illuminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaça,
enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_
quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o
_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina
desabotoada, a luneta para traz das costas, correu á sacada, a perorar:
--Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua
gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar
de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos
não chegou já a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo
_accessit_ que lhe ennodôa o passado, e d'este vinho do Porto,
contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revolução e homem de
carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...
O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros
estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as arvores do quintal, na
sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de
dôce, não cessou d'estalar o _champagne_. E Villaça, limpando a testa, o
pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:
--Grande coisa, ter um curso!
E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um
anno passou. Chegára esse outono de 1875: e o avô installado emfim no
Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera
de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel
organisação dos hospitaes de crianças. Assim era: mas passeava tambem
por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio
errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de
seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba
creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de
Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de
livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo
um laboratorio--que trazia o Villaça, manhãs inteiras, aturdido pelos
armazens da alfandega.
--O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos
amigos.
Havia quatorze mezes que elle o não via, o «seu rapaz», a não ser n'uma
photographia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E
o coração batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço
do Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do
alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia
o seu neto.
Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o
Villaça--não se fartavam d'admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos».
Que differença da photographia! Que forte, que saudavel!
Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros
largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os
olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro
liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito
fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo--o que lhe dava,
com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de
bello cavalleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido
transbordava d'emoção, todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, n'uma
larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau
humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da
Hollanda...
--E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em
que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu
fazer?
--Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
Descançar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de
bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a
desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo
chão, pelos sophás, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de
volumes graves; e aqui e além, por entre a palha, através das lonas
descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os
metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle
pomposo apparato do saber.
--E onde vaes tu accommodar este museo?
Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro,
com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos
anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma
concentração methodica de todos os instrumentos de estudo...
Os olhos do avô illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.
--E que não te prendam questões de dinheiro, Carlos! Nós fizemos n'estes
ultimos annos de Santa Olavia algumas economias...
--Boas e grandes palavras, avô! Repita-as ao Villaça.
As semanas foram passando n'estes planos de installação. Carlos trazia
realmente resoluções sinceras de trabalho: a sciencia como mera
ornamentação interior do espirito, mais inutil para os outros que as
proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de
solitario: desejava ser util. Mas as suas ambições fluctuavam, intensas
e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composição macissa de
um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas,
pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto
de uma força, sem lhe discernir a linha d'applicação. «Alguma cousa de
brilhante,» como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem
d'estudo, significava um conjuncto de representação social e de
actividade scientifica; o remecher profundo de idéas entre as
influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia
entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que
fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_.
Villaça fôra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e
o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incançavel.
Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
Carlos não decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de
certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica.
Então Villaça suggeriu que o consultorio estivesse separado do
laboratorio.
--E a minha razão é esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz
esmorecer os doentes...
--Tem você razão, Villaça! exclamou Affonso. Já meu pae dizia: poupe-se
ao boi a vista do malho.
--Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom
profundo.
Carlos concordou. E Villaça bem depressa descobriu, para o laboratorio,
um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao
largo das Necessidades.
--E o consultorio, meu senhor, não é aqui, nem acolá; é no Rocio, alli
em pleno Rocio!
Esta idéa do Villaça não era desinteressada. Grande enthusiasta da
_Fusão_, membro do Centro progressista, Villaça Junior aspirava a ser
vereador da camara, e mesmo em dias de satisfação superior (como quando
o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando
no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidões
mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio
gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, «do seu Maia» reluziu-lhe
logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que
d'ahi a dois dias tinha lá alugado um primeiro andar d'esquina.
Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de
marroquim, devia estacionar, á franceza, um creado de libré. A sala de
espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas,
as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita côr, e ricas poltronas
cercando a jardineira coberta de collecções do _Charivari_, de vistas
estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente
o ar triste de consultorio até um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em
velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que
começavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do
Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a
Italia--vieram vêr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano
e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes;
e a unica approvação franca veiu do marquez, que depois de contemplar o
divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso,
fôfo, experimentou-lhe a doçura das molas e disse, piscando o olho a
Carlos:
--A calhar.
Não pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros.
Carlos até fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem
o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira á Boa Hora e
um reclamo de casa de hospedes,--encarregou Villaça de retirar o
annuncio.
Occupava-se então mais do laboratorio, que decidira installar no
armazem, ás Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ía visitar
as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria
um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam
ao muro. Carlos já decidira transformar aquelle espaço em fresco
jardinete inglez; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre,
resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu
sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim;
sempre um vago martellar preguiçoso n'uma poeira alvadia; sempre as
mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um
carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos,
aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os
trabalhadores que andavam alargando a claraboia, não cessavam de
assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
invariavelmente «como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vêr a
differença.» Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito
barbeado, muito lavado, que morava ao pé do Ramalhete, e tinha no bairro
fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe
sempre a mão: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um «avançado», um
democrata, confiava-lhe as suas esperanças. O que elle desejava primeiro
que tudo era um 93, como em França...
--O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliça face
do demagogo.
--Não, senhor, um navio, um simples navio...
--Um navio?
--Sim, senhor, um navio fretado á custa da nação, em que se mandasse
pela barra fóra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos
politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, ás vezes argumentava com elle.
--Mas está o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como tão
exactamente diz, desapparecesse pela barra fóra, ficavam resolvidas
todas as cousas e tudo atolado em felicidade?
Não, o sr. Vicente não era tão «burro» que assim pensasse. Mas,
supprimida a cambada, não via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e
podiam então começar a governar os homens de saber e de progresso...
--Sabe v. ex.^a qual é o nosso mal? Não é má vontade d'essa gente; é
muita somma de ignorancia. Não sabem. Não sabem nada. Elles não são
maus, mas são umas cavalgaduras!
--Bem, então essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o
relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me
andam. Não lh'o peço como proprietario, é como correligionario.
--D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vêr a differença, respondia o mestre
d'obras, desbarretando-se.
No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoço.
Carlos encontrava quasi sempre o avô já na sala de jantar, acabando de
percorrer algum jornal junto ao fogão, onde a tepida suavidade d'aquelle
fim de outono não permittia accender lume, mas verdejando todo de
plantas d'estufa.
Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no
seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeçarias ovaes
dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caçadores medivaes
soltando o falcão, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um
lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e
contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza
resplandecia com as flôres entre os crystaes.
O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja
comia com os senhores, lá estava já, magestosamente sentado sobre a
alvura nevada da toalha, á sombra de algum grande ramo. Era alli, no
aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar
estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo,
depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua
cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola
entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta
macia.
Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--ía-se tornando com a
velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentração de
critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um
cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o
imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoços no Ramalhete eram
sempre delicados e longos; depois, ao café, ficavam ainda conversando; e
passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamação,
precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um
calice de Chartreuse, accendia á pressa um charuto:
--Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
E o avô, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella
occupação, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manhã...
--Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez vá para lá
passar um bocado, occupar-me de chimica.
--E ser talvez um grande chimico. O avô tem já a feitio.
O velho sorria.
--Esta carcassa já não dá nada, filho. Está pedindo eternidade!
--Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando
á pressa as suas luvas de governar.
--Bom dia de trabalho.
--Pouco provavel...
E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_
com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estylo para a
Baixa, para «o trabalho.»
O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os
espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda
verde corridas. Na sala, porém, as tres janellas abertas bebiam á farta
a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira
estendiam os seus braços, amaveis e convidativas; o teclado branco do
piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _Canções de Gounod_; mas
não apparecia jámais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado
que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de
Noticias_, acaçapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava
uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porém dos artigos estava
como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava,
deixava caír o volume.
Do Rocio, o ruido das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar
dos americanos, subiam, n'uma vibração mais clara, por aquelle ar fino
de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete,
vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cópas mesquinhas das arvores
de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurração lenta de
cidade preguiçosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir
penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos
velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma
indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeça na almofada, fumando, alli
ficava, n'essa quietação de sesta, n'um scismar que se ía desprendendo,
vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia
apagada; até que com um esforço sacudia este torpor, passeiava na sala,
abria aqui e além pelas estantes um livro, tocava no piano dois
compassos de walsa, espriguiçava-se--e, com os olhos nas flores do
tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio
eram estupidas!
--Está ahi o carro? ía perguntar ao creado.
Accendia bem depressa outro charuto, calçava as luvas, descia, bebia um
largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
--Dia perdido!
Foi uma d'essas manhãs que preguiçando assim no sophá com a _Revista dos
Dois Mundos_ na mão, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz
bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro:
--Sua Alteza Real está visivel?
--Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sophá.
E cahiram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
--Quando chegaste tu?
--Esta manhã. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos
hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba!
Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisações superiores.
Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não ha nada como a barba
toda!
Carlos ria, abraçando-o outra vez.
--E d'onde vens tu, de Celorico?
--Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baço,
uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e
aguas ardentes...
Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em
Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ás
varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
--Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com
minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir
viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não
caíu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a
côrte do céu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de
anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diphtericas... A mamã
salta immediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do
atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e
attrahiu o flagello. Minha irmã concorda. Consultam o padre Seraphim. O
homem, que não gosta de me vêr na quinta, diz que é possivel que haja
indignação do Senhor--e minha mãe vem pedir-me quasi de joelhos, com a
bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que não esteja
alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
--E a epidemia...
--Desappareceu logo, disse o Ega, começando a puxar devagar dos dedos
magros uma longa luva côr de canario.
Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o
cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na
gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy,
vistoso, paramentado, artificial e com pó d'arroz--e Carlos deixou emfim
escapar a exclamação impaciente que lhe bailava nos labios:
--Ega, que extraordinario casaco!
Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o
antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliça, uma sumptuosa
pelliça de principe russo, agasalho de trenò e de neve, ampla, longa,
com alamares trespassados á Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoço
esganiçado e dos pulsos de thisico uma rica e fôfa espessura de pelles
de marta.
--É uma boa pelliça, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,
exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios
da epidemia.
--Como podes tu supportar isso?
--É um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sophá, adiantando o sapato de verniz muito
bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
--E tu que fazes? conta-me lá... Tens isto explendido!
Carlos fallou dos seus planos, de altas idéas de trabalho, das obras do
laboratorio...
--Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega
interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros,
mirar os torneados da secretária de pau preto.
--Não sei. O Villaça é que deve saber...
E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da pelliça,
inventariando o gabinete, fazia considerações:
--O velludo dá seriedade... E o verde escuro é a côr suprema, é a côr
esthetica... Tem a sua expressão propria, enternece e faz pensar...
Gosto d'este divan. Movel de amor...
Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho,
estudando os ornatos.
--Tu és o grandioso Salomão, Carlos! O papel é bonito... E o
cretonesinho agrada-me.
Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um
vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preço de tudo; e diante do
piano, olhando o livro de musica aberto, as _Canções de Gounod_, teve
uma surpreza enternecida:
--Homem, é curioso... Cá me apparece! A _Barcarolla_! É deliciosa,
hein?...
Dites, la jeune belle,
Ou voulez-vous aller?
La voile...
Estou um bocado rouco... Era a nossa canção na Foz!
Carlos teve outra exclamação, e crusando os braços diante d'elle:
--Tu estás extraordinario, Ega! Tu és outro Ega!... A proposito da
Foz... Quem é essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu,
em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na
Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_?
Um leve rubor subiu ás faces do Ega. E limpando negligentemente o
monocolo ao lenço de seda branca:
--Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. É a mulher do Cohen, has
de conhecer, um que é director do _Banco Nacional_... Démos-nos
bastante. É sympathica... Mas o marido é uma besta... Foi uma
_flitartion_ de praia. _Voila tout_.
Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e
ainda córado.
--Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocês no Ramalhete? O avô
Affonso? Quem vae por lá?...
No Ramalhete, o avô fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D.
Diogo, o decrepito leão, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os
bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de
sangue, á espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
--Não conheço. Refugiado?... Polaco?...
--Não, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e
complicou esta simples transacção com tantas finuras diplomaticas,
tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o
pobre Villaça aturdido, para se desembaraçar, remetteu-o ao avô. O avô,
desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graça. Steinbroken
considera isto um serviço feito ao rei da Filandia, á Filandia, vae
visitar o avô, em grande estado, com o secretario da legação, o consul,
o vice-consul...
--Isso é sublime!
--O avô convida-o a jantar... E como o homem é muito fino, um gentleman,
enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade
no wisth, o avô adopta-o. Não sae do Ramalhete.
--E de rapazes?
De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no
Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega não conhecia, um diabo
adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de
Souzellas...
--Não ha mulheres?
--Não ha quem as receba. É um covil de solteirões. A viscondessa,
coitada...
--Bem sei. Um apopleté...
--Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha,
chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
--O de Resende, o cretino?
--O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo
carregado de luto... Um funebre.
O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que
Carlos já notara, disse puchando lentamente os punhos:
--É necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,
uma bohemiasinha dourada, umas _soirées_ de inverno, com arte, com
litteratura... Tu conheces o Craft?
--Sim, creio que tenho ouvido fallar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft
era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
--É um inglez, uma especie de doido?...
Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinião da rua dos
Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade tão forte como a de
Craft, não podia explical-a senão pela doidice. O Craft era um rapaz
extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres
mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma
individualidade de primeira ordem!
--É um negociante do Porto, não é?
--Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a
face, enojado de tanta ignorancia. O Craft é filho d'um _clergiman_ da
egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcutá ou
d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna.
Mas não negoceia, nem sabe o que isso é. Dá largas ao seu temperamento
byroneano, é o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona
obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim
vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepção da palavra. É
necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razão,
caramba, está calor.
Desembaraçou-se da opulenta pelliça, e appareceu em peitilho de camisa.
--O que! tu não trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
--Não; então não a podia aguentar... Isto é para o effeito moral, para
impressionar o indigena... Mas, não ha negal-o, é pesada!
E immediatamente voltou á sua idéa: apenas Craft chegasse do Porto
relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e
dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para
cortarem, com a graça dos decotes, a severidade das philosophias...
Carlos ria-se d'esta idéa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em
Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illusão de um homem de
Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez só, uma
cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fôra o
escandalo mais engraçado e mais caracteristico: uma não tinha creada e
queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia
que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o
amante, quando soube, deu-lhe uma cóça. Esta não tinha vestido para ir;
aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se
escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os
queridos, os pôlhos, complicaram medonhamente a questão; uns exigiam ser
convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos,
fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes,
resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada...
--E aqui tens tu Lisboa.
--Emfim, exclamou o Ega, se não apparecerem mulheres, importam-se, que é
em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis,
idéas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo,
industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo
paquete. A civilisação custa-nos carissima com os direitos da alfandega:
e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...
Nós julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thomé se suppõem
cavalheiros, se suppõem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma
casaca velha do patrão... Isto é uma choldra torpe. Onde puz eu a
charuteira?
Desembaraçado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega
reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em
verve, lançando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas
grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caía do
olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins,
retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se
tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o
Nihilismo; depois, com ferocidade e á uma, malharam sobre o paiz...
Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou
sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguçou o bigode ao espelho,
verificou a _pose_, e, encouraçado nos seus alamares, sahio com um
arsinho de luxo e d'aventura.
--John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar,
onde estás tu?
--No _Universal_, esse sanctuario!
Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete.
--Não me convém...
--Em todo o caso vaes hoje lá jantar, vêr o avô.
--Não posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou lá
ámanhã almoçar.
Já nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para
cima:
--Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
--O quê! está prompto? exclamou Carlos, espantado.
--Está esboçado, á brocha larga...
O _Livro do Ega_! Fôra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle
começára a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de
capitulos, citando pelos cafés phrases de grande sonoridade. E entre os
amigos do Ega discutia-se já o livro do Ega como devendo iniciar, pela
fórma e pela idéa, uma evolução litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha
passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fôra annunciado como um
acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham
levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do
livro do Ega. Já de qualquer modo essa noticia chegára ao Brazil... E
sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega
decidira-se emfim a escrevel-o.
Devia ser uma epopêa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios
symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade.
Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a fórma d'uma
autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio
em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das
Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa
de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira
folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde então,
viajando nas incessantes transformações da substancia, o atomo do Ega
entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde
vivia nos labios de Platão. Negrejava no burel dos santos, refulgia na
espada dos heroes, palpitava no coração dos poetas. Gota de agua nos
lagos de Galiléa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os
apostolos recolhiam as redes; nó de madeira na tribuna da Convenção,
sentira o frio da mão de Robespierre. Errara nos vastos anneis de
Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala
resplandecente de um dormente e languido lyrio. Fôra omnipresente, era
omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e cançado
d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas
_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do
Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
--É uma Biblia!
V
No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a
partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminé, onde a chamma morria
nos carvões escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo
japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.
Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o «Lindo
Diogo», gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente
de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o
sacudiam como uma ruina, que elle abafava no lenço, com as veias
inchadas, rôxo até á raiz dos cabellos.
Mas passára. Com a mão ainda tremula, o decrepito leão limpou as
lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de
musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e
perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda:
--Paus, hein?
E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'
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