Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
by Luís de Camões · Portuguese · Gutenberg #37192 · 473,822 chars · public domain (US)
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Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Author: Luís de Camões
Release date: August 24, 2011 [eBook #37192]
Language: Portuguese
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/37192
Credits: Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS DE LUIS DE CAMÕES, TOMO III ***
Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
impresso em 1843.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos
inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em
particular quanto à acentuação.
* * * * *
CLASSICOS PORTUGUEZES.
TOMO II.
CAMÕES.
II.
PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT,
Rua Racine, 28, junto ao Odeon.
OBRAS COMPLETAS
DE
LUIS DE CAMÕES,
CORRECTAS E EMENDADAS
PELO CUIDADO E DILIGENCIA
DE
J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.
TOMO TERCEIRO.
LISBOA.
ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ,
NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY,
3, quai Malaquais, près le pont des Arts.
1843
* * * * *
RIMAS.
* * * * *
RIMAS.
REDONDILHAS.
Sôbolos rios que vão
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Alli lembranças contentes
N'alma se representárão;
E minhas cousas ausentes
Se fizerão tão presentes,
Como se nunca passárão.
Alli, despois d'acordado,
Co'o rosto banhado em ágoa,
Deste sonho imaginado,
Vi que todo o bem passado
Não he gôsto, mas he mágoa.
E vi que todos os danos
Se causavão das mudanças,
E as mudanças dos anos;
Onde vi quantos enganos
Faz o tempo ás esperanças.
Alli vi o maior bem
Quão pouco espaço que dura;
O mal quão depressa vem;
E quão triste estado tem
Quem se fia da ventura.
Vi aquillo que mais val
Qu'então s'entende melhor,
Quando mais perdido for:
Vi ao bem succeder mal,
E ao mal muito peor.
E vi com muito trabalho
Comprar arrependimento:
Vi nenhum contentamento;
E vejo-me a mi, qu'espalho
Tristes palavras ao vento.
Bem são rios estas ágoas
Com que banho este papel:
Bem parece ser cruel
Variedade de mágoas,
E confusão de Babel.
Como homem, que por exemplo
Dos trances em que se achou,
Despois que a guerra deixou,
Pelas paredes do templo
Suas armas pendurou:
Assi, despois qu'assentei
Que tudo o tempo gastava,
Da tristeza que tomei,
Nos salgueiros pendurei
Os orgãos com que cantava.
Aquelle instrumento ledo
Deixei da vida passada,
Dizendo: Musica amada,
Deixo-vos neste arvoredo
Á memoria consagrada.
Frauta minha, que tangendo
Os montes fazieis vir
Par'onde estaveis, correndo;
E as ágoas, que hião descendo,
Tornavão logo a subir;
Jamais vos não ouvirão
Os tigres, que s'amansavão;
E as ovelhas, que pastavão,
Das hervas se fartarão,
Que por vos ouvir deixavão.
Ja não fareis docemente
Em rosas tornar abrolhos
Na ribeira florecente;
Nem poreis freio á corrente,
E mais se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura,
Nem podereis ja trazer
Atraz vós a fonte pura;
Pois não pudestes mover
Desconcertos da ventura.
Ficareis offerecida
Á Fama, que sempre vela,
Frauta de mi tão querida;
Porque mudando-se a vida,
Se mudão os gostos della.
Acha a tenra mocidade
Prazeres accommodados;
E logo a maior idade
Ja sente por pouquidade
Aquelles gostos passados.
Hum gôsto, que hoje s'alcança,
Á manhãa ja o não vejo:
Assi nos traz a mudança
D'esperança em esperança,
E de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
Qu'esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
Que quanto da vida passa
Está recitando a morte!
Mas deixar nesta espessura
O canto da mocidade:
Não cuide a gente futura
Que será obra da idade
O que he fôrça da ventura.
Qu'idade, tempo, e espanto
De ver quão ligeiro passe,
Nunca em mi puderão tanto,
Que, postoque deixo o canto,
A causa delle deixasse.
Mas em tristezas e nojos,
Em gôsto e contentamento;
Por sol, por neve, por vento,
_Tendré presente á los ojos
Por quien muero tan contento._
Orgãos e frauta deixava,
Despôjo meu tão querido,
No salgueiro que alli'stava,
Que para tropheo ficava
De quem me tinha vencido.
Mas lembranças da affeição
Que alli captivo me tinha,
Me perguntárão então,
Qu'era da musica minha,
Que eu cantava em Sião?
Que foi daquelle cantar,
Das gentes tão celebrado?
Porque o deixava de usar,
Pois sempre ajuda a passar
Qualquer trabalho passado?
Canta o caminhante ledo
No caminho trabalhoso
Por entre o espêsso arvoredo;
E de noite o temeroso
Cantando refreia o medo.
Canta o preso docemente,
Os duros grilhões tocando;
Canta o segador contente;
E o trabalhador, cantando,
O trabalho menos sente.
Eu qu'estas cousas senti
N'alma de mágoas tão cheia,
Como dirá, respondi,
Quem alheio está de si
Doce canto em terra alheia?
Como poderá cantar
Quem em chôro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
Canta por menos cansar,
Eu só descansos engeito.
Que não parece razão,
Nem sería cousa idonia,
Por abrandar a paixão
Que cantasse em Babylonia
As cantigas de Sião.
Que quando a muita graveza
De saudade quebrante
Esta vital fortaleza,
Antes morra de tristeza,
Que por abrandá-la cante.
Que se o fino pensamento
Só na tristeza consiste,
Não tenho medo ao tormento:
Que morrer de puro triste,
Que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
O que passo, e passei ja,
Nem menos o escreverei;
Porque a penna cansará,
E eu não descansarei.
Que se vida tão pequena
S'accrescenta em terra estranha;
E se Amor assi o ordena,
Razão he que canse a penna
D'escrever pena tamanha.
Porém, se para assentar
O que sente o coração,
A penna ja me cansar,
Não canse para voar
A memoria em Sião.
Terra bem-aventurada,
Se por algum movimento
D'alma me fores tirada,
Minha penna seja dada
A perpétuo esquecimento.
A pena deste destêrro,
Qu'eu mais desejo esculpida
Em pedra, ou em duro ferro,
Essa nunca seja ouvida,
Em castigo de meu êrro.
E se eu cantar quizer
Em Babylonia sujeito,
Hierusalem, sem te ver,
A voz, quando a mover,
Se me congele no peito;
A minha lingua se apegue
Ás fauces, pois te perdi,
S'em quanto viver assi
Houver tempo, em que te negue,
Ou que m'esqueça de ti.
Mas ó tu, terra de glória.
S'eu nunca vi tua essencia,
Como me lembras na ausencia?
Não me lembras na memoria,
Senão na reminiscencia:
Que a alma he taboa rasa,
Que com a escrita doutrina
Celeste tanto imagina,
Que vôa da propria casa,
E sobe á patria divina.
Não he logo a saudade
Das terras onde nasceo
A carne, mas he do Ceo,
Daquella santa Cidade,
Donde est'alma descendeo.
E aquella humana figura,
Que cá me póde alterar,
Não he quem se ha de buscar;
He raio da formosura,
Que só se deve d'amar.
Que os olhos, e a luz que ateia
O fogo que cá sujeita,
Não do sol, nem da candeia,
He sombra daquella ideia,
Qu'em Deos está mais perfeita.
E os que cá me captivárão,
São poderosos affeitos
Qu'os corações tee sujeitos;
Sophistas, que m'ensinárão
Maos caminhos por direitos.
Destes o mando tyrano
M'obriga com desatino
A cantar ao som do dano
Cantares d'amor profano,
Por versos d'amor divino.
Mas eu, lustrado co'o santo
Raio, na terra de dor,
De confusões e d'espanto
Como hei de cantar o canto,
Que só se deve ao Senhor?
Tanto póde o beneficio
Da graça que dá saude,
Que ordena que a vida mude:
E o qu'eu tomei por vício,
Me faz grao para a virtude;
E faz qu'este natural
Amor, que tanto se préza,
Suba da sombra ao real,
Da particular belleza
Para a belleza geral.
Fique logo pendurada
A frauta com que tangi,
Ó Hierusalem sagrada,
E tome a lyra dourada
Para só cantar de ti;
Não captivo e ferrolhado
Na Babylonia infernal,
Mas dos vicios desatado,
E cá desta a ti levado,
Patria minha natural.
E s'eu mais der a cerviz
A mundanos accidentes,
Duros, tyrannos e urgentes,
Risque-se quanto ja fiz
Do grão livro dos viventes.
E, tomando ja na mão
A lyra santa e capaz
D'outra mais alta invenção,
Calle-se esta confusão,
Cante-se a visão de paz.
Ouça-me o pastor e o rei,
Retumbe este accento santo,
Mova-se no mundo espanto;
Que do que ja mal cantei
A palinodia ja canto.
A vós só me quero ir,
Senhor, e grão Capitão
Da alta tôrre de Sião,
Á qual não posso subir,
Se me vós não dais a mão.
No grão dia singular,
Que na lyra em douto som
Hierusalem celebrar,
Lembrae-vos de castigar
Os ruins filhos de Edom.
Aquelles que tintos vão
No pobre sangue innocente,
Soberbos co'o poder vão,
Arrazá-los igualmente:
Conheção que humanos são.
E aquelle poder tão duro
Dos affectos com que venho,
Qu'encendem alma e engenho;
Que ja m'entrárão o muro
Do livre arbitrio que tenho;
Estes, que tão furiosos
Gritando vem a escalar-me,
Maos espiritos damnosos,
Que querem como forçosos
Do alicerce derribar-me;
Derribae-os, fiquem sós,
De fôrças fracos, imbelles;
Porque não podemos nós,
Nem com elles ir a vós,
Nem sem vós tirar-nos delles.
Não basta minha fraqueza
Para me dar defensão,
Se vós, santo Capitão,
Nesta minha Fortaleza
Não puzerdes guarnição.
E tu, ó carne, qu'encantas,
Filha de Babel tão feia,
Toda de miseria cheia,
Que mil vezes te levantas
Contra quem te senhoreia;
Beato só póde ser
Quem co'a ajuda celeste
Contra ti prevalecer,
E te vier a fazer
O mal que lhe tu fizeste:
Quem com disciplina crua
Se fere mais que huma vez;
Cuja alma, de vicios nua,
Faz nodas na carne sua,
Que ja a carne n'alma fez.
E beato quem tomar
Seus pensamentos recentes,
E em nascendo os affogar,
Por não virem a parar
Em vicios graves e urgentes:
Quem com elles logo der
Na pedra do furor santo,
E batendo os desfizer
Na Pedra, que veio a ser
Emfim cabeça do canto:
Quem logo, quando imagina
Nos vicios da carne má,
Os pensamentos declina
Áquella Carne divina,
Que na Cruz esteve ja.
Quem do vil contentamento
Cá deste mundo visibil,
Quanto ao homem for possibil,
Passar logo entendimento
Para o mundo intelligibil;
Alli achará alegria
Em tudo perfeita, e cheia
De tão suave harmonia,
Que nem por pouca recreia,
Nem por sobeja enfastia.
Alli verá tão profundo
Mysterio na summa Alteza,
Que, vencida a natureza,
Os mores faustos do mundo
Julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
Minha patria singular,
Se só com te imaginar,
Tanto sobe o entendimento,
Que fara se em ti se achar?
Ditoso quem se partir
Para ti, terra excellente,
Tão justo e tão penitente,
Que despois de a ti subir,
Lá descanse eternamente!
* * * * *
CARTA A HUMA DAMA.
Querendo escrever hum dia
O mal, que tanto estimei;
Cuidando no que poria,
Vi Amor que me dizia:
Escreve, qu'eu notarei.
E como para se ler
Não era historia pequena
A que de mi quiz fazer,
Das azas tirou a penna
Com que me fez escrever.
E, logo como a tirou,
Me disse: Aviva os espritos;
Que pois em teu favor sou,
Esta penna, que te dou,
Fara voar teus escritos.
E dando-me a padecer
Tudo o que quiz que puzesse,
Pude emfim delle dizer,
Que me deo com qu'escrevesse
O que me deo a escrever.
Eu qu'este engano entendi,
Disse-lhe: Qu'escreverei?
Respondeo, dizendo assi:
Altos effeitos de mi.
E daquella a quem te dei.
E ja que te manifesto
Todas minhas estranhezas,
Escreve, pois que te prézas,
Milagres d'hum claro gesto,
E de quem o vio, tristezas.
Ah Senhora, em quem se apura
A fé de meu pensamento!
Escutae e estae a tento,
Que com vossa formosura
Iguala Amor meu tormento.
E, postoque tão remota
Estejais de m'escutar
Por me não remediar,
Ouvi, que pois Amor nota,
Milagres se hão de notar.
Escrevem varios Authores,
Que junto da clara fonte
Do Ganges, os moradores
Vivem do cheiro das flores
Que nascem naquelle monte.
Se os sentidos podem dar
Mantimento ao viver,
Não he logo d'espantar,
S'estes vivem de cheirar,
Que viva eu só de vos ver.
Huma árvore se conhece,
Que na geral alegria
Ella tanto s'entristece,
Que, como he noite, florece,
E perde as flores de dia.
Eu, qu'em ver-vos sinto o preço
Qu'em vossa vista consiste,
Em a vendo m'entristeço,
Porque sei que não mereço
A glória de ver-me triste.
Hum Rei de grande poder
Com veneno foi criado,
Porque, sendo costumado,
Não lhe pudesse empecer,
Se despois lhe fosse dado.
Eu, que criei de pequena
A vista a quanto padece,
Desta sorte m'acontece,
Que não me faz mal a pena,
Senão quando me fallece.
Quem da doença Real
De longe enfêrmo se sente,
Por segredo natural
Fica são vendo somente
Hum volatil animal.
Do mal, que Amor em mi cria,
Quando aquella Phenix vejo,
São de todo ficaria;
Mas fica-me hydropesia,
Que quanto mais, mais desejo.
Da vibora he verdadeiro,
Se a consorte vai buscar,
Qu'em se querendo juntar,
Deixa a peçonha primeiro,
Porque lh'impede o gerar.
Assi quando m'apresento
Á vossa vista inhumana,
A peçonha do tormento
Deixo á parte, porque dana
Tamanho contentamento.
Querendo Amor sustentar-se,
Fez huma vontade esquiva
D'huma estatua namorar-se:
Despois, por manifestar-se,
Converteo-a em mulher viva.
De quem m'irei eu queixando,
Ou quem direi que m'engana
Se vou seguindo e buscando
Huma imagem, que d'humana
Em pedra se vai tornando?
D'huma fonte se sabía,
Da qual certo se provava
Que quem sôbre ella jurava,
Se falsidade dizia,
Dos olhos logo cegava.
Vós, que minha liberdade,
Senhora, tyrannizais,
Injustamente mandais,
Quando vos fallo verdade,
Que vos não possa ver mais.
Da palma s'escreve e canta
Ser tão dura e tão forçosa,
Que pêzo não a quebranta,
Mas antes, de presunçosa,
Com elle mais se levanta.
Co'o pêzo do mal que dais,
A constancia qu'em mi vejo,
Não somente ma dobrais,
Mas dobra-se meu desejo,
Com qu'então vos quero mais.
Se alguem os olhos quizer
Ás andorinhas quebrar,
Logo a mãe, sem se deter,
Huma herva lhe vai buscar
Que lhes faz outros nascer.
Eu que os olhos tenho attento
Nos vossos, qu'estrellas são,
Cegão-se os do entendimento,
Mas nascem-me os da razão
De folgar com meu tormento.
Lá para onde o sol sahe,
Descobrimos, navegando,
Hum novo rio admirando,
Que o lenho que nelle cahe,
Em pedra se vai tornando.
Não s'espantem disto as gentes;
Mais razão será qu'espante
Hum coração tão possante,
Que com lagrimas ardentes
Se converte em diamante.
Póde hum mudo nadador
Na linha e cana influir
Tão venenoso vigor,
Que faz mais não se bulir
O braço do pescador.
Se começão de beber
Deste veneno excellente
Meus olhos, sem se deter,
Não se sabem mais mover
A nada que se apresente.
Isto são claros sinais
Do muito qu'em mi podeis:
Nem podeis desejar mais;
Que se ver-vos desejais,
Em mi claro vos vereis.
E quereis ver a que fim
Em mi tanto bem se pôs?
Porque quiz Amor assim,
Que por vos verdes a vós,
Tambem me visseis a mim.
Dos males que m'ordenais,
Qu'inda tenho por pequenos,
Sabei, se mos escutais,
Que ja não sei dizer mais,
Nem vós podeis saber menos.
Mas ja que a tanto tormento
Não se acha quem resista,
Eu, Senhora, me contento
De terdes meu soffrimento
Por alvo de vossa vista.
Quantos contrarios consente
Amor, por mais padecer!
Que aquella vista excellente,
Que me faz viver contente,
Me faça tão triste ser!
Mas dou este entendimento
Ao mal, que tanto m'offende,
Como na vela s'entende,
Que se se apaga co'o vento,
Co'o mesmo vento se accende.
Exprimentou-se algum'hora
D'ave, que chamão Camão,
Que se da casa, onde mora,
Vê adúltera senhora,
Morre de pura paixão.
A dor he tão sem medida,
Que remedio lhe não val.
Mas oh ditoso animal,
Que póde perder a vida,
Quando vê tamanho mal!
Nos gôstos de vos querer
Estava agora enlevado,
Se não fôra salteado
Das lembranças de temer
Ser por outrem desamado.
Estas suspeitas tão frias,
Com que o pensamento sonha,
São assi como as harpias,
Que as mais doces iguarias
Vão converter em peçonha.
Faz-me este mal infinito
Não poder ja mais dizer,
Por não vir a corromper
Os gostos que tenho escrito,
Co'os males qu'hei d'escrever.
Não quero que s'apregôe
Mal tanto para encobrir,
Porque em quanto aqui s'ouvir
Nenhuma outra cousa sôe,
Que a glória de vos servir.
* * * * *
Á MESMA.
Dama d'estranho primor,
Se vos for
Pezada minha firmeza,
Olhae não me deis tristeza,
Porque a converto em amor.
E se cuidais
De me matar, quando usais
D'esquivança,
Irei tomar por vingança
Amar-vos cada vez mais.
Porém vosso pensamento,
Como isento,
Seguirá sua tenção,
Crendo qu'em tanta affeição
Não haja accrescentamento.
Não creais
Que desta arte vos façais
Invencibil;
Que Amor sôbre o impossibil
Amostra que póde mais.
Mas ja da tenção que sigo,
Me desdigo;
Que se ha tanto poder nelle,
Tambem vós podeis mais qu'elle
Neste mal que usais comigo.
Mas se for
O vosso poder maior
Entre nós,
Quem poderá mais que vós,
Se vós podeis mais que Amor?
Despois que, Dama, vos vi,
Entendi,
Que perdêra Amor seu preço;
Pois o favor que lh'eu peço,
Vos pede elle para si.
Nem duvido
Que não póde, de sentido,
Resistir;
Pois em vez de vos ferir,
Ficou de vos ver ferido.
Mas pois vossa vista he tal
Em meu mal,
Que posso de vós querer?
Que mal poderei valer,
Onde o mesmo Amor não val.
Se attentar,
Nenhum bem posso esperar:
E oxalá
Que vos alembrasse ja,
Sequer para me matar.
Mas nem com isto creais
Que façais
Meus serviços mais pequenos;
Porqu'eu, quando espero menos,
Sabei qu'então quero mais.
Nada espero;
Mas de mi crede este fero,
Qu'em ser vosso,
Vos quero tudo o que posso,
E não posso quanto quero.
Só por esta phantasia
Merecia
De meus males algum fruito;
E não era certo muito
Para o muito que queria.
De maneira,
Que não he, na derradeira,
Grande espanto,
Que quem, Dama, vos quer tanto,
Que outro tanto de vós queira.
* * * * *
A HUMAS SUSPEITAS.
Suspeitas, que me quereis?
Qu'eu vos quero dar lugar
Que de certas me mateis,
Se a causa, de que nasceis,
Vós quizesseis confessar.
Que de não lhe achar desculpa,
A grande mágoa passada
Me tee a alma tão cansada,
Que se me confessa a culpa,
Te-la-hei por desculpada.
Ora vêde que perigos
Tee cercado o coração,
Que no meio da oppressão
A seus proprios inimigos
Vai pedir a defensão!
Que, suspeitas, eu bem sei,
Como se claro vos visse,
Que he certo o que ja cuidei;
Que nunca mal suspeitei,
Que certo me não sahisse.
Mas queria esta certeza
Daquella que me atormenta;
Porque em tamanha estreiteza
Ver que disso se contenta,
He descanso da tristeza.
Porque se esta só verdade
Me confessa limpa e nua
De cautela e falsidade,
Não póde a minha vontade
Desconforme ser da sua.
Por segredo namorado
He certo estar conhecido
Que o mal de ser engeitado
Mais atormenta sabido
Mil vezes, que suspeitado.
Mas eu só, em quem se ordena
Novo modo de querella,
De medo da dor pequena,
Venho a achar na maior pena
O refrigerio para ella.
Ja nas iras m'inflammei,
Nas vinganças, nos furores,
Que ja doudo imaginei;
E ja mais doudo jurei
De arrancar d'alma os amores.
Ja determinei mudar-me
Para outra parte com ira;
Despois vim a concertar-me
Que era bom certificar-me
No que mostrava a mentira.
Mas despois ja de cansadas
As furias do imaginar,
Vinha emfim a rebentar
Em lagrimas magoadas,
E bem para magoar.
E deixando-se vencer
Os meus fingidos enganos
De tão claros desenganos,
Não posso menos fazer,
Que contentar-me co'os danos.
E pedir que me tirassem
Este mal de suspeitar
Que me vejo atormentar,
Indaque me confessassem
Quanto me póde matar.
Olhae bem se me trazeis,
Senhora, pôsto no fim;
Pois neste estado a que vim,
Para que vós confesseis,
Se dão os tratos a mim.
Mas para que tudo possa
Amor, que tudo encaminha,
Tal justiça lhe convinha;
Porque da culpa, qu'he vossa,
Venha a ser a morte minha.
Justiça tão mal olhada
Olhae com que côr se doura,
Que quero, ao fim da jornada,
Que vós sejais confessada,
Para qu'eu seja o que moura!
Pois confessae-vos jagora,
Indaque tenho temor
Que nem nesta última hora
Me ha de perdoar Amor
Vossos peccados, Senhora.
E assi vou desesperado,
Porque estes são os costumes
D'amor que he mal empregado;
Do qual vou ja condemnado
Ao inferno de ciumes.
* * * * *
LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]
Corre sem vela e sem leme
O tempo desordenado,
D'hum grande vento levado:
O que perigo não teme,
He de pouco exprimentado.
As redeas trazem na mão
Os que redeas não tiverão:
Vendo quanto mal fizerão
A cobiça e ambição,
Disfarçados se acolhêrão.
A nao, que se vai perder,
Destrue mil esperanças:
Vejo o mao que vem a ter;
Vejo perigos correr
Quem não cuida que ha mudanças.
Os que nunca em sella andárão,
Na sella postos se vem:
De fazer mal não deixárão;
De demonio hábito tem
Os que o justo profanárão.
Que poderá vir a ser
O mal nunca refreado?
Anda, por certo, enganado
Aquelle que quer valer,
Levando o caminho errado.
He para os bons confusão,
Ver que os maos prevalecêrão;
Que, pôsto se detiverão
Com esta simulação,
Sempre castigos tiverão:
Não porque governe o leme
Em mar envolto e turbado,
Que tee seu rumo mudado,
Se perece grita e geme
Em tempo desordenado.
Terem justo galardão,
E dor dos que merecêrão,
Sempre castigos tiverão
Sem nenhuma redempção,
Postoque se detiverão.
Na tormenta, se vier,
Desespere na bonança,
Quem manhas não sabe ter:
Sem que lhe valha gemer,
Verá falsar a balança.
Os que nunca trabalhárão,
Tendo o que lhe não convem,
Se ao innocente enganárão,
Perderão o eterno bem,
Se do mal não s'apartárão.
[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta.
Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria
passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em
todas as edições.
_Nota dos editores._
* * * * *
CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_
Se não quereis padecer
Huma, ou duas horas tristes,
Sabeis que haveis de fazer?
Volveros por dó venistes,
Que aqui não ha que comer.
E, postoque aqui leais
Trovinha que vos enleia,
Corrido não estejais;
Porque por mais que corrais,
Não heis de alcançar a ceia.
_A segunda a D. Francisco de Almeida._
Heliogabalo zombava
Das pessoas convidadas;
E de sorte as enganava,
Que as iguarias que dava,
Vinhão nos pratos pintadas.
Não temais tal travessura,
Pois ja não póde ser nova;
Porque a cêa está segura
De vos não vir em pintura;
Mas ha de vir toda em trova.
_A terceira a Heitor da Silveira._
Cêa não a papareis:
Com tudo, porque não minta,
Para beber achareis,
Não Caparica, mas tinta,
E mil cousas que papeis.
E vós torceis o focinho
Com esta amphibologia?
Pois sabei que a Poesia
Vos dá aqui tinta por vinho,
E papéis por iguaria.
_A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão
adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama._
Porque os que vos convidárão
Vosso estomago não danem,
Por justa causa ordenárão,
Se trovas vos enganárão,
Que trovas vos desenganem.
Vós tereis isto por tacha,
Converter tudo em trovar;
Pois se me virdes zombar,
Não cuideis, Senhor, que he cacha,
Que aqui não ha que cachar.
_Responde João Lopes._
Pezar ora não de são,
Eu juro pelo Ceo bento,
Se de comer não me dão,
Qu'eu não sou camaleão,
Que m'hei de manter do vento.
_Responde o Author._
Senhor, não vos agasteis,
Porque Deos vos proverá;
E se mais saber quereis,
Nas costas deste lereis
As iguarias que ha.
_Virado o papel, dizia assi:_
Tendes nem migalha assada;
Cousa nenhuma de môlho;
E nada feito em empada;
E vento de tigelada;
Picar no dente em remôlho:
De fumo tendes taçalhos;
Ave da pena que sente
Quem da fome anda doente;
Bocejar de vinho e d'alhos;
Manjar em branco excellente.
_A derradeira a Francisco de Mello._
D'hum homem, que teve o scetro
Da vêa maravilhosa,
Não foi cousa duvidosa,
Que se lhe tornava em metro
O qu'hia a dizer em prosa.
De mi vos quero affirmar
Que faça cousas mais novas,
De quanto podeis cuidar;
E esta cêa, que he manjar,
Vos faça na boca em trovas.
* * * * *
NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.
Conde, cujo illustre peito
Merece nome de Rei,
Do qual muito certo sei
Que lhe fica sendo estreito
O cargo de Viso-Rei;
Servirdes-vos d'occupar-me
Tanto contra meu Planeta,
Não foi senão azas dar-me,
Com as quaes vou a queimar-me,
Como o faz a borboleta.
E s'eu a penna tomar,
Que tão mal cortada tenho,
Será para celebrar
Vosso valor singular
Dino de mais alto engenho.
Que se o meu vos celebrasse,
Necessario me sería
Que os olhos d'aguia tomasse,
Só para que não cegasse
No sol de vossa valia.
Vossos feitos sublimados
Nas armas, dignos de gloria,
São no mundo tão soados,
Qu'em vós de vossos passados
Se resuscita a memoria.
Pois aquelle ânimo estranho,
Prompto para todo effeito,
Espanta todo o conceito:
Como coração tamanho
Vos póde caber no peito?
A clemencia, que asserena
Coração tão singular,
S'eu nisso puzesse a penna,
Sería encerrar o mar
Em cova muito pequena.
Bem basta, Senhor, que agora
Vos sirvais de me occupar;
Que assi fareis aparar
A penna, com que algum'hora
Vos vereis ao ceo voar.
Assi vos irei louvando,
Vós a mi do chão erguendo,
Ambos o mundo espantando;
Vós com a espada cortando,
Eu com a penna escrevendo.
_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._
Muito sou meu inimigo,
Pois que não tiro de mi
Cuidados, com que nasci,
Que põe a vida em perigo.
Oxalá que fôra assi!
_Volta._
Viver eu, sendo mortal,
De cuidados rodeado,
Parece meu natural;
Que a peçonha não faz mal
A quem foi nella criado.
Tanto sou meu inimigo,
Que por não tirar de mi
Cuidados, com que nasci,
Porei a vida em perigo.
Oxalá que fôra assi!
Tanto vim a accrescentar
Cuidados, que nunca amansão
Em quanto a vida durar,
Que canso ja de cuidar
Como cuidados não cansão.
S'estes cuidados, que digo,
Dessem fim a mi e a si,
Farião pazes comigo;
Que pôr a vida em perigo,
O bom fôra para mi.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.
Senhora, s'eu alcançasse
No tempo que ler quereis,
Que a dita dos meus papéis
Pola minha se trocasse;
E por ver
Tudo o que posso escrever
Em mais breve relação,
Indo eu onde elles vão,
Por mi só quizesseis ler;
Despois de ver hum cuidado
Tão contente de seu mal,
Verieis o natural
Do que aqui vêdes pintado;
Que o perfeito
Amor, de que sou sogeito,
Vereis aspero e cruel,
Aqui com tinta e papel,
Em mi com sangue no peito.
Que hum continuo imaginar
Naquillo que Amor ordena,
He pena, que emfim por penna
Se não póde declarar;
Que se eu levo
Dentro n'alma quanto devo
De trasladar em papéis,
Vêde que melhor lereis,
Se a mi, se aquillo qu'escrevo?
* * * * *
A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO.
Se derivais da verdade
Esta palavra _Sitim_,
Achareis sem falsidade,
Que apos o _si_ tee o _tim_,
Que tine em toda a Cidade.
Bem vejo que m'entendeis;
Mas porque não falle em vão,
Sabei que a esta Nação
Tanto que o _si_ concedeis,
O _tim_ logo está na mão.
E quem da fama s'arreda,
Que tudo vai descobrir,
Deve sempre de fugir
De sitins, porque da seda
Seu natural he rugir.
Mas panno fino e delgado,
Qual a raxa e outros assi,
Dura, aquenta, e he callado,
Amoroso, e dá de si
Mais que _sitim_, nem brocado.
Mas estes, que sedas são
Com quem s'enganão mil Damas,
Mais vos tomão, do que dão;
Promettem, mas não darão,
Senão nodoas para as famas.
E se não me quereis crer,
Ou tomais outro caminho,
Por exemplo o podeis ver,
Quando lá virdes arder
A casa d'algum vizinho.
Oh feminina simpreza,
Donde estão culpas a pares,
Que por hum Dom de nobreza,
Deixão dões da natureza,
Mais altos e singulares!
Hum Dom, que anda enxertado
No nome, e nas obras não.
Fallo como exprimentado;
Que _sitim_ desta feição
Eu tenho muito cortado.
Dizem-me qu'era amarello;
E quem assi o quiz dar,
Só para me Deos vingar,
Se vem á mão amarê-lo,
O qu'eu não posso cuidar.
Porque quem sabe viver
Por estas artes manhosas,
(Isto bem póde não ser)
Dá a meninas formosas,
Somente polas fazer.
Quem vos isto diz, Senhora,
Servio nas vossas armadas
Muito, mas anda ja fóra;
E póde ser qu'inda agora
Traz abertas as fréchadas.
E, postoque desfavores
O tirão de servidor,
Quer-vos ventura melhor;
Que dos antigos amores
Inda lhe fica este amor.
* * * * *
A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.
Peço-vos que me digais
As orações que rezastes,
Se são polos que matastes,
Se por vós que assi matais?
Se são por vós, são perdidas;
Que qual será a oração,
Que seja satisfação,
Senhora, de tantas vidas?
Que se vêdes quantos vem
A só vida vos pedir,
Como vos ha Deos de ouvir,
Se vós não ouvis ninguem?
Não podeis ser perdoada
Com mãos a matar tão prontas,
Que se n'huma trazeis contas,
Na outra trazeis espada.
Se dizeis que encommendando
Os que matastes andais;
Se rezais por quem matais,
Para que matais rezando?
Que se na fôrça do orar
Levantais as mãos aos Ceos,
Não as ergueis para Deos,
Erguei-las para matar.
E quando os olhos cerrais,
Toda enlevada na fé,
Cerrão-se os de quem vos vê,
Para nunca verem mais.
Pois se assi forem tratados
Os que vos vem quando orais,
Essas horas que rezais,
São as horas dos finados.
Pois logo, se sois servida
Que tantos mortos não sejão,
Não rezeis onde vos vejão,
Ou vêde para dar vida.
Ou se quereis escusar
Estes males que causastes,
Resuscitae quem matastes,
Não tereis por quem rezar.
* * * * *
A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.
Se n'alma e no pensamento
Por vosso me manifesto,
Não me peza do que sento;
Que se não soffrer tormento,
Faço offensa a vosso gesto.
E, pois quanto Amor ordena,
E quanto est'alma deseja,
Tudo á morte me condena,
Não quero senão que seja
Tudo pena, pena, pena.
* * * * *
A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.
Sem olhos vi o mal claro,
Que dos olhos se seguio:
Pois cara sem olhos vio
Olhos, que lhe custão caro.
D'olhos não faço menção,
Pois quereis que olhos não sejão;
Vendo-vos, olhos sobejão,
Não vos vendo, olhos não são.
* * * * *
DISPARATES NA INDIA.
Este mundo es el camino
Adó hay ducientos váos,
Ou por onde bons e maos,
Todos somos del merino.
Mas os maos são de teor,
Que desque mudão a côr,
Chamão logo a ElRei compadre;
E emfim dejadlos, mi madre,
Que sempre tee hum sabor
De quem torto nasce, tarde s'endireita.
Deixae a hum que se abone:
Diz logo de muito sengo,
Villas y castillos tengo,
Todos á mi mandar sone.
Então eu, qu'estou de môlho,
Com a lagrima no ôlho,
Polo virar do envés,
Digo-lhe: _tu ex illis es_,
E por isso não te ólho;
Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.
Vereis huns, que no seu seio
Cuidão que trazem París,
E querem com dous ceitís,
Fender anca pelo meio.
Vereis mancebindo de arte,
Com espada em talabarte:
Não ha mais Italiano.
A este direis: Meu mano,
Vós sois galante que farte;
Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido.
Outros em cada theatro,
Por officio lhe ouvirês
Que se matarán con tres,
Y lo mismo haran con cuatro.
Prezão-se de dar respostas,
Com palavras bem compostas;
Mas se lhe meteis a mão,
Na paz mostrão coração,
Na guerra mostrão as costas;
Porque aqui torce a porca o rabo.
Outros vejo por ahi,
A que se acha mal o fundo,
Que andão emendando o mundo,
E não se emendão a si.
Estes respondem a quem
Delles não entende bem
El dolor que está secreto;
Mas porém quem for discreto,
Responder-lhe-ha muito bem:
Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.
Achareis rafeiro velho,
Que se quer vender por galgo:
Diz que o dinheiro he fidalgo,
Que o sangue todo he vermelho.
Se elle mais alto o dissera,
Este pelote puzera:
Que o seu eco lhe responda;
Que su padre era de Ronda,
Y su madre de Antequera,
E quer cobrir o ceo co'huma joeira.
Fraldas largas, grave aspeito,
Para Senador Romano.
Oh que grandissimo engano!
Que Momo lhe abrisse o peito!
Consciencia, que sobeja,
Siso, com que o mundo reja,
Mansidão outro que si;
Mas que lobo está em ti,
Metido em pelle de oveja!
E sabem-no poucos.
Guardae-vos de huns meus Senhores,
Que ainda comprão e vendem;
Huns, qu'he certo, que descendem
Da geração de pastores:
Mostrão-se-vos bons amigos;
Mas se vos vem em perigos,
Escarrão-vos nas paredes;
Que de fóra dormiredes,
Irmão, que he tempo de figos;
Porque de rabo de porco nunca bom virote.
Que direis d'huns, que as entranhas
Lh'estão ardendo em cobiça,
E se tee mando, a justiça
Fazem de teas de aranhas?
Com suas hypocrisias,
Que são de vossas espias:
Para os pequenos huns Neros,
Para os grandes tudo feros.
Pois tu, parvo, não sabías,
Que lá vão leis, onde querem cruzados?
Mas tornando a huns enfadonhos,
Cujas cousas são notorias;
Huns, que contão mil histórias
Mais desmanchadas que sonhos;
Huns mais parvos que zamboas,
Qu'estudão palavras boas,
A que ignorancia os atiça:
Estes paguem por justiça,
Que tee morto mil pessoas,
Por vida de quanto quero.
Adonde tienen las mentes
Huns secretos trovadores,
Que fazem cartas d'amores,
De que ficão mui contentes?
Não querem sahir á praça;
Trazem trova por negaça;
E se lha gabais, qu'he boa,
Diz qu'he de certa pessoa.
Ora que quereis que faça,
Senão ir-me por esse mundo?
Ó tu, como me atarracas,
Escudeiro de Solia,
Com bocaes de fidalguia,
Trazido quasi com vacas;
Importuno a importunar,
Morto por desenterrar
Parentes, que cheirão ja!
Voto a tal, que me fara
Hum destes nunca fallar
Mais com viva alma.
Huns, que fallão muito, vi,
De que quizera fugir;
Huns que, emfim, sem se sentir,
Andão fallando entre si;
Porfiosos sem razão;
E desque tomão a mão,
Fallão sem necessidade;
E se algum'hora he verdade,
Deve ser na confissão;
Porque quem não mente... Ja m'entendeis.
Oh vós, quem quer que me lerdes,
Qu'haveis de ser avisado,
Que dizeis ao namorado
Que caça vento com redes?
Jura por vida da Dama;
Falla comsigo na cama;
Passêa de noite e escarra;
Por falsete na guitarra
Põe sempre: Viva que ama,
Porque calça a seu proposito.
Mas deixemos, se quizerdes,
Por hum pouco as travessuras,
Porqu'entre quatro maduras
Leveis tambem cinco verdes.
Deitemos-nos mais ao mar;
E se algum se arrecear,
Passe tres ou quatro trovas.
E vós tomais côres novas?
Mas não he para espantar;
Que quem porcos ha menos,
Em cada mouta lhe roncão.
Ó vós, que sois Secretarios
Das consciencias Reais,
E que entre os homens estais
Por Senhores ordinarios;
Porque não pondes hum freio
Ao roubar, que vai sem meio,
Debaixo de bom governo?
Pois hum pedaço de inferno
Por pouco dinheiro alheio
Se vende a Mouro e a Judeo.
Porque a mente, affeiçoada
Sempre á Real dignidade,
Vos faz julgar por bondade
A malicia desculpada.
Move a presença Real
Huma affeição natural,
Que logo inclina ao Juiz
A seu favor: e não diz
Hum rifão muito geral,
Que o Abbade donde canta, dahi janta?
E vós bailais a esse som:
Por isso, gentís pastores,
Vos chama a vós mercadores
Hum que só foi pastor bom.
* * * * *
A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU
A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.
_Mote._
Se vossa Dama vos dá
Tudo quanto vós quizestes,
Dizei-me: p'ra que lhe déstes
O que vos ella fez ja?
_Volta._
Sendo os restos envidados,
E vós de cachas mil contos
Sabeis com quão poucos pontos,
Que lhos achastes quebrados;
Se o que tee, isso vos dá,
Vós mui bem lho merecestes,
Porque se a cacha lhe déstes
Tinha-vo-la feita ja.
* * * * *
MOTE.
Menina formosa e crua,
Bem sei eu
Quem deixará de ser seu,
Se vós quizereis ser sua.
_Voltas._
Menina mais que na idade,
Se para me querer bem
Vos não vejo ter vontade,
He porque outrem vo-la tem;
Tee-vo-la, e faz-vo-la crua.
Porém eu
Ja tomára não ser meu,
Se vós não foreis tão sua.
Nos olhos, e na feição
Vos vi, quando vos olhava,
Tanta graça, que vos dava
De graça este coração:
Não o quizestes de crua,
Por ser meu:
Se outrem vos dera o seu,
Póde ser foreis mais sua.
Menina, tende maneira,
Que ainda não venha a ser,
Pois não quereis quem vos quer,
Que queirais quem vos não queira.
Olhae não me sejais crua,
Que pois eu
Quero ser vosso, e não meu,
Sêde vós minha, e não sua.
* * * * *
A HUMA DAMA DOENTE
_Mote._
Da doença, em que ora ardeis,
Eu fôra vossa mézinha
Só com vós serdes a minha.
_Voltas._
He muito para notar
Cura tão bem acertada,
Que podereis ser curada
Somente com me curar.
Se quereis, Dama, trocar,
Ambos temos a mézinha,
Eu a vossa, e vós a minha.
Olhae, que não quer Amor,
(Porque fiquemos iguais)
Pois meu ardor não curais,
Que se cure vosso ardor.
Eu cá sinto vossa dor;
E se vós sentis a minha,
Dae e tomae a mézinha.
* * * * *
OUTRO
Deo, Senhora, por sentença
Amor, que fosseis doente,
Para fazerdes á gente
Doce e formosa a doença.
_Voltas._
Não sabendo Amor curar,
Foi a doença fazer
Formosa para se ver,
Doce para se passar.
Então vendo a differença
Que ha de vós a toda a gente,
Mandou, que fôsseis doente,
Para glória da doença.
E digo-vos de verdade,
Que a saude anda invejosa,
Por ver estar tão formosa
Em vós essa enfermidade.
Não façais logo detença,
Senhora, em estar doente,
Porque adoecerá a gente,
Com desejos da doença.
Qu'eu por ter, formosa Dama,
A doença, qu'em vós vejo,
Vos confesso, que desejo
De cahir comvosco em cama.
Se consentis, que me vença
Deste mal, não houve gente
Da saude tão contente,
Como eu serei da doença.
* * * * *
AO MESMO
Olhae que dura sentença
Foi amor dar contra mi!
Que porqu'em vós me perdi,
Em vós me busque a doença.
Claro está,
Que em vós só me achará;
Qu'em mi, se me vem buscar,
Não poderá mais achar,
Que a fórma do que foi ja.
Que s'em vós Amor se pôs,
Senhora, he forçado assi,
Que o mal, que me busca a mi,
Que vos faça mal a vós.
Sem mentir,
Amor me quiz destruir
Por modo nunca cuidado,
Pois ha de ser ja forçado
Pezar-vos de vos servir.
Mas sois tão desconhecida,
E são meus males de sorte,
Que vos ameaça a morte,
Porque me negais a vida.
Se por boa
Tal justiça se pregoa;
Quando desta sorte for,
Havei vós perdão de Amor,
Que a parte ja vos perdoa.
Mas o que mais temo, emfim,
He que nesta differença,
Que se não torne a doença,
Se me não tornais a mim.
De verdade,
Que ja vossa humanidade
De que se queixe não tem;
Pois para as almas tambem
Fez Amor enfermidade.
* * * * *
A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.
_Mote._
De atormentado e perdido,
Ja vos não peço, senão
Que tenhais no coração
O que tendes no vestido.
_Volta._
Se de dó vestida andais
Por quem ja vida não tem
Porque não o haveis de quem
Vós tantas vezes matais?
Que brado sem ser ouvido,
E nunca vejo senão
Cruezas no coração,
E grande dó no vestido.
* * * * *
A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.
_Mote._
Amor, que todos offende,
Teve, Senhora, por gôsto,
Que sentisse o vosso rosto
O que nas almas accende.
_Volta._
Aquelle rosto que traz
O mundo todo abrazado,
Se foi da flamma tocado,
Foi porque sinta o que faz.
Bem sei que Amor se vos rende;
Porém o seu presupposto
Foi sentir o vosso rosto
O que nas almas accende.
* * * * *
A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA.
_Mote._
Não estejais aggravada,
Senão se for de vós mesma;
Porqu'a mulher, que he errada,
Com razão pela Quaresma
Deve ser disciplinada.
_Voltas._
Quererdes profano amor
Em Quaresma, he consciencia:
Açoutes e penitencia
Vos está muito melhor.
Não fiqueis disto affrontada,
Pois a culpa he vossa mesma;
Que mulher, que he tão malvada,
He bem que pela Quaresma
Seja bem disciplinada.
Se a penitencia vos val,
Mui bem açoutada estais;
Pois por Quaresma pagais
Vossos vicios do carnal.
Não torneis a ser errada,
Nem condemneis a vós mesma,
Pois estais ja emendada;
E não sereis por Quaresma
Outra vez disciplinada.
* * * * *
A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.
Quem no mundo quizer ser
Havido por singular,
Para mais s'engrandecer,
Ha de trazer sempre o dar
Nas ancas do prometter.
E ja que vossa mercê,
Largueza tee por divisa,
Como o mundo todo vê,
Ha mister que tanto dê,
Que venha a dar a camisa.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS
_Mote._
Senhora, pois me chamais
Tão sem razão tão mão nome,
Inda o diabo vos tome.
_Voltas._
Quem quer que vio, ou que leo,
Terá por novo e moderno,
Ter quem vive no inferno,
O pensamento no ceo.
Mas se a vós vos pareceo,
Que m'estava bem tal nome,
Esse diabo vos tome.
Perdido mais que ninguem
Confesso, Senhora, ser;
Mas o diabo não quer
Aos Anjos tamanho bem.
Pois logo não me convem,
Ou se me convem tal nome,
Será para que vos tome.
Se vos benzeis com cautella,
Como de Anjo, e não de luz,
Mal póde fugir da Cruz,
Quem vós tendes pôsto nella.
Mas ja que foi minha estrella
Ser diabo, e ter tal nome,
Guardae-vos, que vos não tome.
Ja que chegais tanto ao cabo,
Com as mãos, postas aos ceos
Vou sempre pedindo a Deos,
Que vos leve este diabo.
Eu, Senhora, não me gabo;
Mas pois que me dais tal nome,
Tomo-o, para que vos tome.
* * * * *
A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.
_Mote._
Qual terá culpa de nós
Neste mal, que todo he meu?
Quando vindes, não vou eu,
Quando vou, não vindes vós.
_Volta._
Reinando Amor em dous peitos,
Tece tantas falsidades,
Que de conformes vontades
Faz desconformes effeitos.
Igualmente vive em nós;
Mas por desconcêrto seu
Vos leva, se venho eu,
Me leva, se vindes vós.
* * * * *
MOTE SEU.
Descalça vai pela neve:
Assi faz quem Amor serve.
_Voltas._
Os privilegios, que os Reis
Não pódem dar, póde amor,
Que faz qualquer amador
Livre das humanas leis.
Mortes e guerras crueis,
Ferro, frio, fogo e neve,
Tudo soffre quem o serve.
Moça formosa despreza
Todo o frio, e toda a dor.
Olhae quanto póde Amor
Mais que a propria natureza.
Medo, nem delicadeza
Lh'impede que passe a neve.
Assi faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
A tudo se off'receria;
Passa pela neve fria,
Mais alva que a propria neve;
Com todo frio se atreve.
Vêde em que fogo ferve
O triste, que a Amor serve.
* * * * *
OUTRO ALHEIO
A dor que a minha alma sente,
Não na sabe toda a gente.
_Voltas._
Qu'estranho caso de Amor!
Que desejado tormento!
Que venho a ser avarento
Das dores de minha dor!
Por me não tratar peor,
Se se sabe, ou se se sente,
Não na digo a toda a gente.
Minha dor e causa della
De ninguem ouso fiar;
Que sería aventurar
A perder-me, ou a perdella.
E pois só com padecella,
A minha alma está contente,
Não quero que o saiba a gente.
Ande no peito escondida,
Dentro n'alma sepultada;
De mi só seja chorada,
De ninguem seja sentida.
Ou me mate, ou me dê vida,
Ou viva triste ou contente,
Não ma saiba toda a gente.
* * * * *
OUTRO SEU
D'alma, e de quanto tiver,
Quero que me despojeis,
Com tanto, que me deixeis
Os olhos para vos ver.
_Volta._
Cousa este corpo não tem,
Que ja não tenhais rendida:
Despois de tirar-lhe a vida,
Tirae-lhe a morte tambem.
Se mais tenho que perder,
Mais quero que me leveis,
Com tanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Amores de huma casada,
Que eu vi pelo meu mal.
_Voltas._
N'huma casada fui pôr
Os olhos, de si senhores:
Cuidei que fossem amores,
Elles fizerão-se amor.
Faz-se o desejo maior
Donde o remedio não val,
Em perigo de meu mal.
Não me paraceo que Amor
Pudesse tanto comigo,
Que donde entra por amigo,
Se levante por senhor.
Leva-me de dor em dor,
E de final em final,
Cada vez para mor mal.
* * * * *
OUTRO SEU
Enforquei minha esperança;
Mas Amor foi tão madraço,
Que lhe cortou o baraço.
_Volta._
Foi a esperança julgada
Por sentença da Ventura,
Que pois me leve á pendura,
Que fosse dependurada:
Vem Cupido com a espada,
Corta-lhe cerce o baraço.
Cupido, foste madraço.
* * * * *
OUTRO SEU
Puz o coração nos olhos,
E os olhos puz no chão,
Por vingar o coração.
_Volta._
O coração invejoso
Como dos olhos andava,
Sempre remoques me dava
Que não era o meu mimoso:
Venho eu de piedoso
Do Senhor meu coração,
E boto os olhos no chão.
* * * * *
OUTRO SEU
Puz meus olhos n'huma funda,
E fiz hum tiro com ella
Ás grades d'huma janella.
_Volta._
Huma Dama, de malvada,
Tomou seus olhos na mão;
E tirou-me huma pedrada
Com elles ao coração.
Armei minha funda então,
E puz os meus olhos nella,
Trape, quebrei-lhe a janella.
* * * * *
ALHEIO.
De pequena tomei amor,
Porque o não entendi;
Agora que o conheci,
Mata-me com desfavor.
_Voltas._
Vi-o moço e pequenino,
E a mesma idade ensina
Que s'incline huma menina
Ás amostras d'hum menino:
Ouvi-lhe chamar Amor,
Pelo nome me venci;
Nunca tal engano vi,
Nem tamanho desamor.
Cresceo-me de dia em dia
Com a idade a affeição,
Porque amor de criação,
N'alma, e na vida se cria.
Criou-se em mi este amor,
E senhoreou-se de mi:
Agora que o conheci,
Mata-me com desfavor.
As flores me torna abrolhos,
A morte me determina
Quem eu trouxe de menina
Nas meninas de meus olhos.
Desta mágoa e desta dor
Tenho sabido que emfim
Por amor me perco a mim
Por quem de mi perde amor.
Parece ser caso estranho
O que Amor em mi ordena,
Qu'em idade tão pequena
Haja tormento tamanho.
Sejão milagres d'Amor,
Hei-os de soffrer assi,
Até que haja dó de mi
Quem entender esta dor.
* * * * *
CANTIGA VELHA.
Apartárão-se os meus olhos
De mi tão longe.
Falsos amores,
Falsos, maos, enganadores.
_Voltas._
Tratárão-me com cautella,
Por m'enganar mais asinha;
Dei-lhe posse d'alma minha,
Forão-me fugir com ella.
Não ha vê-los, nem ha vella,
De mi tão longe.
Falsos amores,
Falsos, maos, enganadores!
Entreguei-lhe a liberdade,
E, emfim, da vida o melhor;
Forão-se; e do desamor
Fizerão necessidade.
Quem teve a sua vontade
De si tão longe?
Falsos amores,
E oxalá enganadores!
* * * * *
OUTRA.
Falso Cavalheiro, ingrato,
Enganais-me,
Vós dizeis, que eu vos mato,
E vós matais-me.
_Voltas._
Costumadas artes são
Para enganar innocencias,
Piedosas apparencias
Sôbre isento coração.
Eu vos amo, e vós ingrato
Magoais-me,
Dizendo, que eu vos mato,
E vós matais-me.
Vêde agora qual de nós
Anda mais perto do fim,
Que a justiça faz-se em mim,
E o pregão diz que sois vós.
Quando mais verdade trato
Levantais-me
Que vos desamo e vos mato,
E vós matais-me.
* * * * *
PROPRIO.
Se de meu mal me contento,
He porque para vós vejo
Em todo o mundo desejo,
E em ninguem merecimento.
_Volta._
Para quem vos soube olhar
Tão impossivel foi ser
O poder-vos merecer,
Como o não vos desejar.
Pois logo a meu pensamento
Nenhum remedio lhe vejo,
Senão se der o desejo
Azas ao merecimento.
* * * * *
ALHEIO.
Vós, Senhora, tudo tendes,
Senão que tendes os olhos verdes.
_Voltas._
Dotou em vós natureza
O summo da perfeição;
Que o qu'em vós he senão,
He em outras gentileza:
O verde não se despreza,
Que, agora que vós os tendes,
São bellos os olhos verdes.
Ouro e azul he a melhor
Côr, por que a gente se perde;
Mas a graça desse verde
Tira a graça a toda côr.
Fica agora sendo a flor
A côr, que nos olhos tendes,
Porque são vossos e verdes.
* * * * *
ALHEIO.
Para que me dan tormento,
Aprovechando tan poco?
Perdido, mas no tan loco,
Que descubra lo que siento.
_Voltas._
Tiempo perdido es aquel
Que se passa en darme afan,
Pues cuanto más me lo dan,
Tanto menos siento dél.
Que descubra lo que siento?
No lo haré, que no es tan poco;
Que no puede ser tan loco
Quien tiene tal pensamiento.
Sepan que me manda Amor,
Que de tan dulce querella,
A nadie dé parte della,
Porque la sienta mayor.
Es tan dulce mi tormento,
Que aun se me antoja poco;
Y si es mucho, quedo loco
De gusto de lo que siento.
* * * * *
ALHEIO.
De vuestros ojos centellas,
Que encienden pechos de hielo,
Suben por el aire al cielo,
Y en llegando son estrellas.
_Voltas._
Falsos loores os dan,
Que essas centellas tan raras
No son nel cielo mas claras
Que en los ojos donde estan.
Porque cuando miro en ellas
Lo como alumbran al suelo,
No sé que seran nel cielo;
Mas sé que acá son estrellas.
Ni se puede presumir
Que al cielo suban, Señora;
Que la lumbre que en vós mora,
No tiene más que subir;
Mas pienso que dan querellas
Á Dios nel octavo cielo,
Porque son acá en el suelo
Dos tan hermosas estrellas.
* * * * *
ALHEIO.
De dentro tengo mi mal,
Que de fuera no hay señal.
_Volta._
Mi nueva y dulce querella
Es invisible á la gente;
El alma sola la siente,
Que el cuerpo no es dino della.
Como la viva centella
Se encubre en el pedernal,
De dentro tengo mi mal.
* * * * *
ALHEIO.
Amor loco, amor loco,
Yo por vós, y vós por otro.
_Voltas._
Dióme Amor tormentos dós,
Para que pene doblado;
Uno es verme desamado,
Otro es mancilla de vós.
Ved que ordena Amor en nós!
Porque vós haceisme loco,
Que seais loca por otro.
Tratais Amor de manera,
Que porque asi me tratais,
Quiere que, pues no me amais,
Que ameis otro que no os quiera.
Mas con todo, si no os viera
De todo loca por otro,
Con mas razon fuera loco.
Y tan contrario viviendo,
Alfin, alfin, conformamos;
Pues ambos a dós buscamos
Lo que mas nos vá huyendo.
Voy tras vós siempre siguiendo,
Y vós huyendo por otro:
Andais loca, y me haceis loco.
* * * * *
ALHEIO.
Vêde bem se nos meus dias
Os desgostos vi sobejos,
Pois tenho medo a desejos,
E quero mal a alegrias.
_Volta._
Se desejos fui ja ter,
Servírão de atormentar-me;
Se algum bem póde alegrar-me,
Quiz-me antes entristecer.
Passei annos, passei dias
Em desgostos tão sobejos,
Que só por não ter desejos,
Perderei mil alegrias.
* * * * *
PROPIO.
Pois he mais vosso que meu,
Senhora, meu coração,
Eu vosso captivo são,
Meus olhos, lembre-vos eu.
_Volta._
Lembre-vos minha tristeza,
Que jamais nunca me deixa;
Lembre-vos com quanta queixa
Se queixa minha firmeza:
Lembre-vos que não he meu
Este triste coração;
E pois ha tanta razão,
Meus olhos, lembre-vos eu.
* * * * *
OUTRO.
Senhora, pois minha vida
Tendes em vosso poder;
Por serdes della servida,
Não queirais que destruida
Possa ser.
_Volta._
Isto não por me pezar
De morrer, se vós quizerdes;
Que melhor me he acabar
Mil vezes, que supportar
Os males que me fizerdes;
Mas só por serdes servida
De mi, em quanto viver,
Vos peço que minha vida
Não queirais que destruida
Possa ser.
* * * * *
OUTRO.
Pois damno me faz olhar-vos,
Não quero, por não perder-vos,
Que ninguem me veja ver-vos.
_Voltas._
De ver-vos a não vos ver
Ha dous extremos mortaes;
E são elles em si taes,
Que hum por hum me faz morrer;
Mas antes quero escolher,
Que possa viver sem ver-vos,
Minh'alma, por não perder-vos.
Deste tamanho perigo
Que remedio posso ter,
Se vivo só com vos ver,
Se vos não vejo, perigo?
Mas quero acabar comigo,
Que ninguem me veja ver-vos,
Senhora, por não perder-vos.
* * * * *
A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.
_Mote._
Não sei se m'engana Helena,
Se Maria, se Joanna;
Não sei qual dellas m'engana.
_Voltas._
Huma diz que me quer bem,
Outra jura que me quer;
Mas em jura de mulher
Quem crerá, se ellas não crem?
Não posso não crer a Helena,
A Maria, nem Joanna;
Mas não sei qual mais m'engana.
Huma faz-me juramentos
Que só meu amor estima,
A outra diz que se fina,
Joanna, que bebe os ventos.
Se cuido que mente Helena,
Tambem mentirá Joanna;
Mas quem mente não m'engana.
* * * * *
A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.
_Mote._
Menina, não sei dizer,
Vendo-vos tão acabada,
Quão triste estou por vos ver
Formosa e mal empregada.
_Voltas._
Quem tão mal vos empregou,
Pouco de mi se dohia,
Pois não vio o quanto me hia
Em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
Lindeza tão extremada
Que digão quantos a vem,
Formosa e mal empregada!
Tomastes da formosura
Quanto della desejastes,
E com ella me guardastes
Para tão triste ventura.
Mataveis sendo solteira,
Matais agora em casada;
Matais de toda a maneira,
Formosa e mal empregada.
* * * * *
A HUMA Foãa Gonçalves.
_Mote._
Com vossos olhos, Gonçalves,
Senhora, captivo tendes
Este meu coração Mendes.
_Volta._
Eu sou boa testimunha,
Que Amor tem por cousa má,
Que olhos, que são homens ja,
Se nomeiem sem alcunha;
Pois o coração apunha,
E diz, olhos, pois vós tendes,
Chamae-me coração Mendes.
* * * * *
OUTRO
De que me serve fugir
De morte, dor e perigo,
Se me eu levo comigo?
_Voltas._
Tenho-me persuadido,
Por razão conveniente,
Que não posso ser contente,
Pois que pude ser nascido.
Anda sempre tão unido
O meu tormento comigo,
Qu'eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
Nenhum gôsto me sería:
Quem, senão eu, não teria
Mal, que esse bem me tirasse?
Fôrça he logo que assi passe,
Ou com desgôsto comigo,
Ou sem gôsto e sem perigo.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.
Quando me quer enganar
A minha bella perjura,
Para mais me confirmar
O que quer certificar,
Polos seus olhos me jura.
Como meu contentamento
Todo se rege por elles,
Imagina o pensamento,
Que se faz aggravo a elles
Não crer tão grão juramento.
Porém como em casos tais
Ando ja visto e corrente,
Sem outros certos sinais,
Quanto me ella jura mais,
Tanto mais cuido que mente.
Então vendo-lhe offender
Huns taes olhos como aquelles,
Deixo-me antes tudo crer,
Só pola não constranger
A jurar falso por elles.
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Ha hum bem, que chega e foge;
E chama-se este bem tal,
Ter bem para sentir mal.
_Volta._
Quem viveo sempre n'hum ser,
Inda que seja em pobreza,
Não vio o bem da riqueza,
Nem o mal d'empobrecer:
Não ganhou para perder;
Mas ganhou com vida igual
Não ter bem, nem sentir mal.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.
_Mote._
Olhos, não vos mereci
Que tenhais tal condição,
Tão liberaes para o chão,
Tão irosos para mi.
_Volta._
Baixos e honestos andais,
Por vos negardes a quem
Não quer mais que aquelle bem,
Que vós no chão espalhais?
Se pouco vos mereci,
Não m'estimeis mais que o chão,
A quem vós o galardão
Dais, e mo negais a mi.
* * * * *
PROPRIO.
Venceo-me Amor, não o nego;
Tee mais fôrça qu'eu assaz;
Que como he cego e rapaz,
Dá-me porrada de cego.
_Volta._
Só porque he rapaz ruim,
Dei-lhe hum boféte zombando.
Diz-me: Ó mao, estais me dando,
Porque sois maior que mim?
Pois se eu vos descarrégo,
E em dizendo isto, chaz;
Torna-me outra; tá rapaz,
Que dás porrada de cego.
* * * * *
AO DESCONCERTO DO MUNDO.
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m'espantar,
Os maos vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assi
O bem tão mal ordenado,
Fui mao; mas fui castigado.
Assi, que só para mi
Anda o mundo concertado.
* * * * *
A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.
_Mote._
Perguntais-me, quem me mata?
Não quero responder nada,
Por vos não fazer culpada.
_Volta._
E se a penna não me atiça,
A dizer pena tão forte,
Quero-me entregar á morte,
Antes que a vós á justiça.
Porém se tendes cobiça
De vos verdes tão culpada,
Direi que não sinto nada.
* * * * *
MOTE.
Esconjuro-te, Domingas,
Pois me dás tanto cuidado,
Que me digas se te vingas,
Viverei menos penado.
_Voltas._
Juravas-me, que outras cabras
Folgavas de apascentar;
Eu por não me magoar,
Fingia qu'erão palabras.
Agora d'arte te vingas
D'algum meu doudo peccado,
Qu'inda que queiras, Domingas,
Não posso ser enganado.
Qualquer cousa busca o seu;
A fonte vai para o Tejo,
E tu para o teu desejo,
Por te vingares do meu.
De mi t'esqueces, Domingas,
Como eu faço do meu gado:
Praza a Deos, que se te vingas,
Que morra desesperado.
Na phantasia te pinto,
Fallo-te, responde o monte,
Busco o rio, busco a fonte,
Endoudeço, e não o sinto:
Domingas no valle brado,
Responde o eco Domingas;
E tu inda te não vingas
De me ver doudo tornado!
* * * * *
ALHEIO.
Se a alma ver-se não póde
Onde pensamentos ferem,
Que farei para me crerem?
_Voltas._
Se n'alma huma só ferida
Faz na vida mil sinais,
Tanto se descobre mais,
Quanto he mais escondida.
S'esta dor tão conhecida
Me não vem, porque não querem,
Que farei para ma crerem?
Se se pudesse bem ver
Quanto callo, e quanto sento,
Despois de tanto tormento
Cuidaria alegre ser.
Mas se não me querem crer
Olhos, que tão mal me ferem,
Que farei para me crerem?
* * * * *
ALHEIO.
Vosso bem querer, Senhora,
Vosso mal melhor me fôra.
_Voltas._
Ja agora certo conheço
Ser melhor todo tormento,
Onde o arrependimento
Se compra por justo preço.
Enganou-me hum bom comêço;
Mas o fim me diz agora
Que o mal melhor me fôra.
Quando hum bem he tão damnoso,
Que sendo bem, dá cuidado,
O damno fica obrigado
A ser menos perigoso.
Mas se a mi por desditoso,
Co'o bem me foi mal, Senhora,
Co'o vosso mal bem me fôra.
* * * * *
ALHEIO.
Se me desta terra for,
Eu vos levarei, amor.
_Voltas._
Se me for, e vos deixar,
(Ponho por caso, que possa)
Est'alma minha, qu'he vossa,
Comvosco m'ha de ficar.
Assi que só por levar
A minha alma, se me for,
Vos levarei, meu amor.
Que mal póde maltratar-me,
Que comvosco seja mal?
Ou que bem póde ser tal,
Que sem vós possa alegrar-me?
O mal não póde enojar-me,
O bem me será maior,
Se vos levar, meu amor.
* * * * *
ALHEIO.
Pequenos contentamentos,
Hi buscar quem contenteis,
Que a mi não me conheceis.
_Voltas._
Os gostos, que tantas dores
Fizerão ja valer menos,
Não os acceita pequenos,
Quem nunca teve maiores:
Bem parecem vãos favores,
Pois tão tarde me quereis,
Qu'inda me não conheceis.
Offereceis-me alegria,
Tendo-me ja cego e mouco:
He baixeza acceitar pouco,
Quem tanto vos merecia.
Ide-vos por outra via,
Pois o bem que me deveis,
Nunca mo satisfareis.
* * * * *
ALHEIO.
Perdigão perdeo a penna,
Não ha mal que lhe não venha.
_Voltas._
Perdigão, que o pensamento
Subio a hum alto lugar,
Perde a penna do voar,
Ganha a pena do tormento:
Não tee no ar, nem no vento,
Azas com que se sostenha:
Não ha mal que lhe não venha.
Quiz voar a huma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E vendo-se despennado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se soccorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não ha mal que lhe não venha.
* * * * *
A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.
Pois a tantas perdições,
Senhoras, quereis dar vida,
Ditosa seja a ferida,
Que tee taes Cirurgiões!
Pois ventura
Me subio a tanta altura,
Que me sejais valedoras,
Ditosa seja a tristura,
Que se cura
Por vossos rogos, Senhoras!
Ser minha pena mortal,
Ja qu'entendeis, que he assi,
Não quero fallar por mi,
Que por mi falla meu mal.
Sois formosas,
Haveis de ser piedosas,
Por ser tudo d'huma côr;
Que pois Amor vos fez rosas
Milagrosas,
Fazei milagres de Amor.
Pedi a quem vós sabeis,
Que saiba de meu trabalho,
Não pelo qu'eu nisso valho,
Mas pelo que vós valeis.
Que o valer
De vosso alto merecer,
Com lho pedir de giolhos,
Fara qu'em meu padecer
Possa ver
O poder que tee seus olhos.
Vossa muita formosura
Com a sua tanto val,
Que me rio de meu mal,
Quando cuido em quem me cura.
A meus ais,
Peço-vos que lhe valhais,
Damas de Amor tão valídas,
Que nunca tal dor sintais,
Que queirais,
Onde não sejais queridas.
* * * * *
CANTIGA ALHEIA.
Na fonte está Leonor
Lavando a talha, e chorando,
Ás amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
_Voltas._
Pôsto o pensamento nelle,
Porque a tudo o Amor a obriga,
Cantava, mas a cantiga
Erão suspiros por elle.
Nisto estava Leonor
O seu desejo enganando,
Ás amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
O rosto sôbre hua mão,
Os olhos no chão pregados,
Que de chorar ja cansados,
Algum descanso lhe dão;
Desta sorte Leonor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e em si tornando,
Mais pezada sente a dor.
Não deita dos olhos ágoa,
Que não quer que a dor s'abrande
Amor, porque em mágoa grande
Sécca as lagrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
Soube novas perguntando,
D'improviso a vi chorando.
Olhae que extremos de dor!
* * * * *
ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA
DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D.
FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O
FIZESSE DESEMBARGAR.
Que diabo ha tão damnado,
Que não tema a cutilada
Dos fios seccos da espada
Do fero Miguel armado?
Pois se tanto hum golpe seu
Sôa na infernal cadeia;
Do que o demonio arreceia
Como não fugirei eu?
Com razão lhe fugiria,
Se contr'elle, e contra tudo
Não tivesse hum forte escudo
Só em Vossa Senhoria.
Por tanto, Senhor, proveja,
Pois me tee ao remo atado,
Que antes que seja embarcado,
Eu desembargado seja.
* * * * *
ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.
Vossa Senhoria creia
Que não apura o engenho
Fome, se he como a que tenho,
Mas afraca e corta a veia.
E quem o contrário sente,
Está farto em toda a hora,
Como estou faminto agora:
Mas Martha, se está contente,
Dá-lhe pouco de quem chora.
E pois Vossa Senhoria
Em geral a tudo acode,
Acuda a mi, que só póde
Dar-me no engenho valia.
Esperte esta Musa minha,
Que o tempo traz somnolenta;
Valha-lhe nesta tormenta
Com essa doce mézinha,
Que só dá vida e contenta.
Acuda com provisão,
Não de papel, mas provída
D'ouro e prata; que esta vida
Não sustentão papéis, não.
De feitor a thesoureiro
Ser-me-hia trabalho grande;
Vossa Senhoria mande
Algum remedio, primeiro,
Com que a morte o ferro abrande.
_Ajuda de Luis de Camões._
Nos livros doutos se trata
Que o grande Achilles insano
Deo a morte a Heitor Troiano;
Mas agora a fome mata
O nosso Heitor Lusitano.
Só ella o póde acabar,
Se essa vossa condição
Liberal e singular
Não mete entr'elles bastão,
Bastante para o fartar.
* * * * *
A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.
_Esparsa._
Não posso chegar ao cabo
De tamanho desarranjo,
Que sendo vós, Senhora, Anjo,
Vos queira tanto o Diabo.
Dais manifesto sinal
De minha muita firmeza,
Que os diabos querem mal
Aos Anjos por natureza.
* * * * *
CANTIGA.
Vi chorar huns claros olhos,
Quando delles me partia.
Oh que mágoa! Oh que alegria!
_Voltas._
Polo meu apartamento
Se arrazárão todos d'ágoa.
Quem cuidou qu'em tanta mágoa
Achasse contentamento?
Julgue todo entendimento
Qual mais sentir se devia,
Se esta dor, se esta alegria?
Quando mais perdido estive,
Então deo a est'alma minha
Na maior mágoa que tinha,
O maior gôsto que tive.
Assi, se minha alma vive,
Foi porque me defendia
Desta dor esta alegria?
O bem, que Amor me não deu
No tempo que desejei,
Quando delle me apartei,
Me confessou, qu'era meu.
Agora que farei eu,
Se a fortuna me desvia
De lograr esta alegria?
Não sei se foi enganado,
Pois me tinha defendido
Das íras de mal querido,
No mal de ser apartado.
Agora peno dobrado,
Achando no fim do dia
O princípio da alegria.
* * * * *
VILLANCETE PASTORIL.
Deos te salve, Vasco amigo.
Não me fallas? Como assi?
Bofé, Gil, não 'stava aqui.
_Voltas._
Pois onde te hão de fallar,
Se não 'stás onde appareces?
Se Magdanela conheces,
Nella me pódes achar.
E como te hão d'ir buscar
Aonde fogem de ti?
Pois nem eu estou em mi.
Porque te não acharei
Em ti, como em Magdanela?
Porque me fui perder nella
O dia que me ganhei.
Quem tão bem falla, não sei
Como anda fóra de si.
Ella falla dentro em mi.
Como estás aqui presente,
Se lá tens a alma e a vida?
Porqu'he d'hum'alma perdida
Apparecer sempre á gente.
Se es morto, bem se consente
Que todos fujão de ti.
Eu tambem fujo de mi.
* * * * *
OUTRO PASTORIL.
Porque no miras, Giraldo,
Mi zampoña como suena?
Porque no me mira Elena.
_Voltas._
Vuelve acá, no estês pasmado,
Mira que gentil sonar!
Como te podrá mirar
Quien no puede ser mirado?
Y que bueno enamorado!
No dirás, si es mala, o buena?
No, que me hizo mudo Elena.
Mira tan dulce armonía,
Déjate dessos enojos.
Tengo clavados los ojos
Con que mirar te podia.
Ansí Dios te dé alegría:
No vés cuan dulce que suena?
No, porque no veo Elena.
* * * * *
OUTRO PASTORIL.
Crescem, Camilla, os abrolhos
De chorares por Cincero:
Não he muito, que lhe quero,
Belisa, mais que meus olhos.
_Voltas._
Sempre os teus olhos estão,
Camilla, d'ágoas banhados.
De se verem desamados
Póde ser que chorarão.
Si, mas crescem os abrolhos,
E tu cegas por Cincero.
S'eu não vejo quem mais quero,
Para que quero mais olhos?
Se se foi ha mais d'hum mês,
Teus olhos não cansarão?
Não, que apos elle se vão
Estas lagrimas que vês.
Fazem logo estes abrolhos
O mato espinhoso e fero.
Pois eu não vejo a Cincero,
Isso só verão meus olhos.
Chorando queres morrer?
Mais quero viver chorando.
Tu não vês que vás cegando?
Se cego, como hei de ver?
Põe na vista outros antolhos.
Não posso, nem menos quero.
Outra para outro Cincero,
Antes não quero ter olhos.
* * * * *
A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.
_Mote._
Olhos, em qu'estão mil flores,
E com tanta graça olhais,
Que parece que os Amores
Morão onde vós morais.
_Volta._
Vem-se rosas e boninas,
Olhos, nesse vosso ver;
Vem-se mil almas arder
No fogo dessas meninas.
E di-lo-hão minhas dores,
Meus suspiros e meus ais;
E dirão mais, que os amores
Morão onde vós morais.
* * * * *
MOTE.
Quem se confia em huns olhos,
Nas meninas delles vê
Que meninas não tee fé.
_Voltas._
Quem põe suas confianças
Em meninas sem assento,
Offereça o soffrimento
A duzentas mil mudanças.
Mostrão no ar esperanças;
Mas em seus olhos se vê
Como não tee n'alma fé.
Enganão ao parecer,
Porque no caso d'amar,
São mulheres no matar,
E meninas no querer.
Quem em seus olhos se crer,
Cem mil graças nelles vê;
Vê-las sim, mas não ter fé.
Amostrão-vos n'hum momento
Favores assi a mólhos;
Mas na mudança dos olhos
Se lhe muda o pensamento.
Em nada ja tee assento,
E o que mais nelles se vê
He formosura sem fé.
* * * * *
LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.
_Cantiga Velha._
Sois formosa, e tudo tendes,
Senão que tendes os olhos verdes,
_Voltas._
Ninguem vos póde tirar
Serdes tão bem assombrada;
Mas heis-me de perdoar,
Que os olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
Em querer que fossem verdes:
Trabalhae de os esconderdes.
A vossa testa he jardim,
Onde Amor se desenfada;
He tão branca e bem talhada,
Que parece de marfim.
Assi he; e quanto a mim,
Isso vos nasce de a terdes
Tão perto dos olhos verdes.
Os cabellos desatados
O mesmo sol escurecem;
Senão que por ser ondados,
Algum tanto desmerecem:
Mas á fé, que se parecem
A furto dos olhos verdes,
Não vos peze, não, de os terdes.
As pestanas tee mostrado
Ser raios, que abrazão vidas:
Se não forão tão compridas,
Tudo o mais era pintado:
Ellas me tinhão levado
A alma, sem o vós saberdes,
Se não forão os olhos verdes.
O mimo desse carão
Nem pôr-lhe os olhos consente:
O ser liso e transparente
Rouba todo o coração:
Inda assi achareis nação,
Que lhe não peze de os verdes;
Mas não seja co'os olhos verdes.
Esse riso, que he compôsto
De quantas graças nascêrão,
Senão que alguns me disserão,
Vos faz covinhas no rôsto.
Na vontade tenho posto
Dar-vos a alma, se quizerdes,
A trôco dos olhos verdes.
Nunca se vio, nem se escreve
Boca co'huma graça igual,
Se não fôra de coral,
E os dentes de côr de neve.
Dou-me eu a Deos, que me leve!
Soffrerei quanto tiverdes,
Não me tenhais olhos verdes.
Essa garganta merece
Outras palavras não minhas,
Senão qu'he feita em rosquinhas
D'alfenim, ao que parece.
Eu sei bem quem se offerece
A tomar tudo o que tendes,
E tambem os olhos verdes.
Essas mãos são ferropeas:
Só o vê-las enfeitiça;
Senão que são alvas, cheias,
E tee a feição roliça;
Com que appellais por justiça,
Para com ellas prenderdes
Quem vê vossos olhos verdes.
A vossa galantaria
Matará a quem fallardes:
Tendes huns desdens e tardes,
Que eu logo vos roubaria.
Oh dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
E tambem desses olhos verdes.
* * * * *
AO MESMO.
Tudo tendes singular,
Com que os corações rendeis,
Senão que rindo, fazeis
Covinhas para enterrar:
E para resuscitar
Tee força a graça que tendes;
Senão que tendes os olhos verdes.
Tudo, Senhora, alcançais,
Quanto o ser formosa alcança,
Senão que dais esperança
Co'os olhos com que matais.
Se acaso os alevantais,
He para as almas renderdes;
Senão que tendes os olhos verdes.
* * * * *
A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS
GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR
PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.
Cinco gallinhas e meia
Deve o Senhor de Cascais;
E a meia vinha cheia
De appetite para as mais.
* * * * *
MOTE.
Catharina bem promette;
Ora má! como ella mente!
_Voltas._
Catharina he mais formosa
Para mi, que a luz do dia;
Mas mais formosa sería,
Se não fosse mentirosa.
Hoje a vejo piedosa,
Á manhãa tão differente,
Que sempre cuido que mente.
Prometteo-me hontem de vir,
Nunca mais appareceo;
Creio que não prometteo,
Senão só por me mentir.
Faz-me, emfim, chorar e rir;
Rio, quando me promette,
Mas chóro quando me mente.
Jurou-me aquella cadella
De vir, pela alma que tinha;
Enganou-me; tinha a minha;
Deo-lhe pouco de perdella.
A vida gasto apos ella,
Porque ma dá, se promette,
Mas tira-ma, quando mente.
Má, mentirosa, malvada,
Dizei, porque me mentis?
Prometteis, e então fugis?
Pois sem tornar, tudo he nada.
Não sois bem aconselhada;
Que quem promette, se mente,
O que perde não o sente.
Tudo vos consentiria
Quanto quizesseis fazer,
Se este vosso prometter
Fosse por me ter hum dia.
Todo então me desfaria
Com gôsto; e vós de contente,
Zombarieis de quem mente.
Mas pois folgais de mentir,
Promettendo de me ver,
Eu vos deixo o prometter,
Deixae-me vós o servir:
Haveis então de sentir
Quanto a minha vida sente
O servir a quem lhe mente.
Catharina me mentio
Muitas vezes, sem ter lei,
E todas lhe perdoei
Por huma só que cumprio.
Se como me consentio
Fallar-lhe, o mais me consente,
Nunca mais direi que mente.
* * * * *
MOTE.
A alma, qu'está offrecida
A tudo, nada lhe he forte;
Assi passa o bem da vida,
Como passa o mal da morte.
_Volta._
De maneira me succede
O que temo, e o que desejo,
Que sempre o que temo, vejo,
Nunca o que a vontade pede.
Tenho tão offerecida
Alma e vida a toda a sorte,
Que isso me dera da morte,
Como ja me dá da vida.
* * * * *
MOTE.
Ferro, fogo, frio e calma,
Todo o mundo acabarão;
Mas nunca vos tirarão,
Alma minha, da minha alma.
_Volta._
Não vos guardei, quando vinha,
Em tôrre, fôrça, ou engenho;
Que mais guardada vos tenho
Em vós, que sois alma minha.
Alli nem frio, nem calma,
Não podem ter jurdição;
Na vida sim, porém não
Em vós que tenho por alma.
* * * * *
MOTE.
Esperei, ja não espero
De mais vos servir, Senhora;
Pois me fazeis cada hora
Tanto mal, que desespéro.
_Volta._
Pois sei certo que folgais,
Quando mais mal me fazeis,
E que nunca descansais,
Senão quando me mostrais
Quão pouco bem me quereis;
Servir-vos mais não espero
Pois meu viver empeora
Com me fazerdes, Senhora,
Tanto mal, que desespéro.
* * * * *
MOTE.
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai formosa, e não segura.
_Voltas._
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamalote:
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabellos de ouro entrançado,
Fita de côr d'encarnado,
Tão linda que o mundo espanta:
Chove nella graça tanta,
Que dá graça á formosura;
Vai formosa, e não segura.
* * * * *
MOTE.
Quem disser que a barca pende,
Dir-lhe-hei, mana, que mente.
_Voltas._
Se vos quereis embarcar,
E para isso estais no caes,
Entrae logo: que tardaes?
Olhae qu'está preamar:
E se outrem, por vos fretar,
Vos disser qu'esta que pende,
Dir-lhe-hei, mana, que mente.
Esta barca he de carreira;
Tee seus apparelhos novos:
Não ha como ella outra em Povos
Boa de leme, e veleira:
Mas, se por ser a primeira,
Vos disser alguem que pende,
Dir-lhe-hei, mana, que mente.
* * * * *
MOTE.
Com razão queixar-me posso
De vós, que mal vos queixais;
Pois, Senhora, vos sangrais,
Que seja n'hum corpo vosso.
_Voltas._
Eu para levar a palma,
Com que ser vosso mereça,
Quero que o corpo padeça
Por vós, que delle sois alma.
Vós do corpo vos queixais,
Eu queixar-me de vós posso,
Porque, tendo hum corpo vosso,
Na minha alma vos sangrais.
E sem fazer differença
No que de mi possuis,
Pelo pouco que sentis,
Dais á minh'alma doença.
Porque dous aventurais?
Oh não seja o damno nosso!
Sangre-se este corpo vosso,
Porque, minha alma, vivais.
E inda, se attentardes bem,
Seguis medicina errada,
Porque para ser sangrada
Hum'alma sangue não tem.
E pois em mi sarar posso
Males, que á minha alma dais,
Se inda outra vez vos sangrais,
Seja neste corpo vosso.
* * * * *
MOTE.
Ojos, herido me habeis,
Acabad ya de matarme;
Mas muerto volved á mirarme,
Porque me resusciteis.
_Voltas._
Pues me distes tal herida,
Con gana de darme muerte,
El morir me es dulce suerte,
Pues con morir me dais vida.
Ojos, qué os deteneis?
Acabad ya de matarme;
Mas muerto volved á mirarme,
Porque me resusciteis.
La llaga cierto ya es mia,
Aunque, ojos, vós no querrais;
Mas si la muerte me dais,
El morir me es alegría.
Y así digo que acabeis,
O ojos, ya de matarme;
Mas muerto volved á mirarme,
Porque me resusciteis.
* * * * *
A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:
Mas porém a que cuidados?
Tanto maiores tormentos
Forão sempre os que soffri,
Daquillo que cabe em mi,
Que não sei que pensamentos
São os para que nasci.
Quando vejo este meu peito
A perigos arriscados
Inclinado, bem suspeito
Que a cuidados sou sujeito,
_Mas porém a que cuidados?_
_Ao mesmo._
Que vindes em mi buscar,
Cuidados, que sou captivo?
Eu não tenho que vos dar:
Se vindes a me matar,
Ja ha muito que não vivo:
Se vindes, porque me dais
Tormentos desesperados,
Eu, que sempre soffri mais,
Não digo que não venhais;
_Mas porém a que cuidados?_
_Ao mesmo._
Se as penas que Amor me deu,
Vem por tão suaves meios,
Não ha que temer receios;
Que val hum cuidado meu
Por mil descansos alheios.
Ter n'huns olhos tão formosos
Os sentidos enlevados,
Bem sei qu'em baixos estados
São cuidados perigosos;
_Mas porém a que cuidados?..._
_Carta com a glosa acima._
Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais
seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me
mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de
agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de
novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica
mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei
tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem
bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Campos bem-aventurados,
Tornae-vos agora tristes;
Que os dias, em que me vistes,
Alegres ja são passados.
_Glosa._
Campos cheios de prazer,
Vós qu'estais reverdecendo,
Ja m'alegrei com vos ver;
Agora venho a temer
Qu'entristeçais em me vendo.
E pois a vista alegrais
Dos olhos desesperados,
Não quero que me vejais,
Para que sempre sejais,
_Campos, bem-aventurados._
Porém se por accidente
Vos pezar de meu tormento,
Sabereis que Amor consente
Que tudo me descontente,
Senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
Que ja nos meus olhos vistes
Mais alegria, que medos,
Se mos quereis fazer ledos,
_Tornae-vos agora tristes._
Ja me vistes ledo ser,
Mas despois que o falso Amor
Tão triste me fez viver,
Ledos folgo de vos ver,
Porque me dobreis a dor.
E se este gôsto sobejo
De minha dor me sentistes,
Julgae quanto mais desejo
As horas que vos não vejo,
_Que os dias em que me vistes._
O tempo, qu'he desigual,
De seccos, verdes vos tem;
Porqu'em vosso natural
Se muda o mal para o bem,
Mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
Pelos tempos differentes
Que de Amor me forão dados,
Tristes, aqui são presentes,
_Alegres, ja são passados._
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Trabalhos descansarião
Se para vós trabalhasse;
Tempos tristes passarião,
Se algum'hora vos lembrasse.
_Glosa._
Nunca o prazer se conhece,
Senão despois da tormenta:
Tão pouco o bem permanece,
Que se o descanso florece,
Logo o trabalho arrebenta.
Sempre os bens se lograrião,
Mas os males tudo atalhão;
Porém ja que assi porfião,
Onde descansos trabalhão,
_Trabalhos descansarião._
Qualquer trabalho me fôra
Por vós grão contentamento:
Nada sentira, Senhora,
Se víra disto algum'hora
Em vós hum conhecimento.
Por mal que o mal me tratasse,
Tudo por bem tomaria;
Postoque o corpo cansasse,
A alma descansaria,
_Se para vós trabalhasse._
Quem vossas cruezas ja
Soffreo, a tudo se poz;
Costumado ficará;
E muito melhor será,
Se trabalhar para vós.
Tristezas esquecerião,
Postoque mal me tratárão;
Annos não me lembrarião,
Que como est'outros passarão,
_Tempos tristes passarião._
Se fosse galardoado
Este trabalho tão duro,
Não vivêra magoado.
Mas não o foi o passado,
Como o será o futuro?
De cansar não cansaria,
Se quizereis, que cansasse;
Cavar, morrer, fa-lo-hia;
Tudo, emfim, esqueceria,
_Se algum'hora vos lembrasse._
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Triste vida se me ordena,
Pois quer vossa condição
Que os males, que dais por pena,
Me fiquem por galardão.
_Glosa._
Despois de sempre soffrer,
Senhora, vossas cruezas,
A pezar de meu querer,
Me quereis satisfazer
Meus serviços com tristezas.
Mas, pois em balde resiste
Quem vossa vista condena,
Prestes estou para a pena;
Que de galardão tão triste
_Triste vida se me ordena._
De contente do mal meu
A tão grande extremo vim,
Que consinto em minha fim:
Assi que vós e mais eu,
Ambos somos contra mim.
Mas que soffra meu tormento,
Sem querer mais galardão,
Não he fóra de razão
Que queira meu soffrimento,
_Pois quer vossa condição._
O mal, que vós dais por bem,
Esse, Senhora, he mortal;
Que o mal, que dais como mal,
Em muito menos se tem,
Por costume natural.
Mas porém nesta victoria,
Que comigo he bem pequena,
A maior dor me condena
A pena, que dais por gloria,
_Que os males, que dais por pena._
Que mor bem me possa vir,
Que servir-vos, não o sei.
Pois que mais quero eu pedir,
Se quanto mais vos servir,
Tanto mais vos deverei?
Se vossos merecimentos
De tão alta estima são,
Assaz de favor me dão
Em querer que meus tormentos
_Me fiquem por galardão._
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Ja não posso ser contente,
Tenho a esperança perdida;
Ando perdido entre a gente,
Nem morro, nem tenho vida.
_Glosa._
Despois que meu cruel Fado
Destruio huma esperança,
Em que me vi levantado,
No mal fiquei sem mudança,
E do bem desesperado.
O coração, que isto sente,
Á sua dor não resiste,
Porque vê mui claramente
Que pois nasci para triste,
_Ja não posso ser contente._
Por isso, contentamentos,
Fugi de quem vos despreza:
Ja fiz outros fundamentos,
Ja fiz senhora a tristeza
De todos meus pensamentos.
O menos que lh'entreguei,
Foi esta cansada vida:
Cuido que nisto acertei,
Porque de quanto esperei
_Tenho a esperança perdida._
Acabar de me perder
Fôra ja muito melhor;
Tivera fim esta dor,
Que não podendo mor ser,
Cada vez a sinto mor.
De vós desejo esconder-me,
E de mi principalmente,
Onde ninguem possa ver-me;
Que pois me ganho em perder-me,
_Ando perdido entre a gente._
Gostos de mudanças cheios,
Não me busqueis, não vos quero:
Tenho-vos por tão alheios,
Que do bem que não espero,
Inda me ficão receios.
Em pena tão sem medida,
Em tormento tão esquivo
Que morra, ninguem duvída;
Mas eu se morro, ou se vivo,
_Nem morro, nem tenho vida._
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.
_Mote._
A morte, pois que sou vosso,
Não a quero; mas se vem,
Ha de ser todo meu bem.
_Glosa._
Amor, qu'em meu pensamento
Com tanta fé se fundou,
Me tee dado hum regimento,
Que quando vir meu tormento
Me salve com cujo sou.
E com esta defensão,
Com que tudo vencer posso,
Diz a causa ao coração:
Não tee em mi jurdição
_A morte, pois que sou vosso._
Por exprimentar hum dia
Amor se me achava forte
Nesta fé, como dizia,
Me convidou com a morte,
Só por ver se a temeria.
E como ella seja a cousa
Onde está todo meu bem,
Respondi-lhe, como quem
Quer dizer mais, e não ousa:
_Não a quero, mas se vem..._
Não disse mais, porque então
Entendeo quanto me toca;
E se tinha dito o não,
Muitas vezes diz a boca,
O que nega o coração.
Toda a cousa defendida
Em mais estima se tem:
Por isso he cousa sabida,
Que perder por vós a vida
_Ha de ser todo meu bem._
* * * * *
Á MESMA DAMA.
Vejo-a n'alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo.
_Glosa._
Se só de ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excellente
Mal poderei ser ausente,
Em quanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada,
E a memoria tanto voa,
Que se a não vejo em pessoa,
_Vejo-a n'alma pintada._
O desejo, que s'estende
Ao que menos se concede,
Sôbre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, qu'em ausencia vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Qu'então não tenho que dar,
_Quando me pede o desejo._
Como áquelle que cegou,
He cousa vista e notoria,
Que a natureza ordenou
Que se lhe dobre em memoria
O qu'em vista lhe faltou:
Assi a mi, que não vejo
Co'os olhos o que desejo,
Na memoria e na firmeza
Me concede a natureza
_O natural que não vejo._
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Sem vós, e com meu cuidado,
Olhae com quem, e sem quem.
_Glosa._
Vendo Amor que com vos ver
Mais levemente soffria
Os males que me fazia,
Não me pôde isto soffrer;
Conjurou-se com meu Fado;
Hum novo mal me ordenou:
Ambos me levão forçado,
Não sei onde, pois que vou
_Sem vós e com meu cuidado._
Não sei qual he mais estranho
Destes dous males que sigo,
Se não vos ver, se comigo
Levar imigo tamanho.
O que fica, e o que vem,
Hum me mata, outro desejo:
Com tal mal, e sem tal bem,
Em taes extremos me vejo:
_Olhae com quem, e sem quem_!
* * * * *
AO MESMO.
Amor, cuja providencia
Foi sempre que não errasse,
Porque n'alma vos levasse,
Respeitando o mal d'ausencia,
Quiz qu'em vós me transformasse.
E vendo-me ir maltratado,
Eu e meu cuidado sós,
Proveo nisso de attentado,
Por não me ausentar de vós,
_Sem vós, e com meu cuidado._
Mas est'alma, qu'eu trazia,
Porque vós nella morais,
Deixa-me cego, e sem guia;
Que ha por melhor companhia
Ficar onde vós ficais.
Assi me vou de meu bem,
Onde quer a forte estrella,
Sem alma, qu'em si vos tem,
Co'o mal de viver sem ella:
_Olhae com quem, e sem quem_!
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Sem ventura he por demais.
_Glosa._
Todo o trabalhado bem
Promette gostoso fruito;
Mas os trabalhos, que vem,
Para quem dita não tem
Valem pouco, e custão muito.
Rompe toda a pedra dura,
Faz os homens immortais
O trabalho quando atura;
Mas querer achar ventura,
_Sem ventura, he por demais._
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Minh'alma, lembrae-vos della.
_Glosa._
Pois o ver-vos tenho em mais
Que mil vidas que me deis,
Assi como a que me dais,
Meu bem, ja que mo negais,
Meus olhos, não mo negueis.
E se a tal estado vim
Guiado de minha estrella,
Quando houverdes dó de mim,
Minha vida, dae-lhe a fim,
_Minh'alma, lembrae-vos della._
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Tudo póde huma affeição.
_Glosa._
Tee tal jurdição Amor
N'alma donde se aposenta,
E de que se faz senhor,
Que a liberta e isenta
De todo humano temor.
E com mui justa razão,
Como senhor soberano,
Que Amor não consente dano.
E pois me soffre tenção,
Gritarei por desengano:
_Tudo póde huma affeição._
* * * * *
TROVA DE BOSCÃO.
Justa fué mi perdicion;
De mis males soy contento;
Ya no espero galardon,
Pues vuestro merecimiento
Satisfizo mi pasion.
_Glosa._
Despues que Amor me formó
Todo de amor, cual me veo,
En las leyes, que me dió,
El mirar me consintió,
Y defendióme el deseo.
Mas el alma, como injusta,
En viendo tal perfeccion,
Dió al deseo ocasion:
Y pues quebré ley tan justa,
_Justa fué mi perdicion._
Mostrándoseme el Amor
Mas benigno que cruel,
Sobre tirano traidor,
De zelos de mi dolor,
Quiso tomar parte en él.
Yo que tan dulce tormento
No quiero dallo, aunque peco,
Resisto, y no lo consiento;
Mas si me lo toma á trueco
_De mis males, soy contento._
Señora, ved lo que ordena
Este Amor tan falso nuestro!
Por pagar á costa agena,
Manda que de un mirar vuestro
Haga el premio de mi pena.
Mas vos, para que veais
Tan engañosa intencion,
Aunque muerto me sintais,
No mireis, que si mirais,
_Ya no espero galardon._
Pues que premio (me direis)
Esperas que será bueno?
Sabed, sino lo sabeis,
Que es lo mas de lo que peno
Lo menos que mereceis.
Quien hace al mal tan ufano,
Y tan libre al sentimiento?
El deseo? No, que es vano.
El amor? No, que es tirano.
_Pues? Vuestro merecimiento._
No pudiendo Amor robarme
De mis tan caros despojos,
Aunque fué por mas honrarme,
Vos sola para matarme
Le prestastes vuestros ojos.
Matáranme ambos á dos;
Mas á vos con mas razon
Debe el la satisfaccion;
Que á mi por él, y por vos,
_Satisfizo mi pasion._
* * * * *
ALHEIO.
Todo es poco lo posible.
_Glosa._
Ved que engaño señorea
Nuestro juicio tan loco,
Que por mucho que se crea,
Todo el bien, que se desea,
Alcanzado, queda poco.
Un bien de cualquiera grado,
Si de haberse es imposible,
Queda mucho deseado.
Mas para mucho, alcanzado,
_Todo es poco lo posible._
_Outro._
Posible es á mi cuidado
Poderme hacer satisfecho,
Si fuera posible al hado
Hacer no hecho lo hecho,
Y futuro lo pasado.
Si olvido pudiera haber,
Fuera remedio sufrible;
Mas ya que no puede ser,
Para contento me hacer,
_Todo es poco lo posible._
* * * * *
ALHEIO.
Vos teneis mi corazon.
_Glosa._
Mi corazon me han robado;
Y Amor viendo mis enojos,
Me dijo: Fuéte llevado
Por los mas hermosos ojos,
Que desque vivo he mirado.
Gracias sobrenaturales
Te lo tienen en prision.
Y si Amor tiene razon,
Señora, por las señales,
_Vos teneis mi corazon._
* * * * *
MOTE.
Qué veré que me contente?
_Glosa._
Desque una vez yo miré,
Señora, vuestra beldad,
Jamas por mi voluntad
Los ojos de vos quité.
Pues sin vos placer no siente
Mi vida, ni lo desea,
Si no quereis que yo os vea,
_Qué veré que me contente?_
* * * * *
MOTE.
Sem vós, e com meu cuidado.
_Glosa._
Querendo Amor esconder-vos
Em parte que vos não visse,
Co'o extremo de querer-vos
Cegou-me os olhos com ver-vos,
Levou-vos, sem que vos visse.
Eu cego, mas atinado,
Quando vi que vos não via,
Do mesmo Amor indignado,
Ja vêdes qual ficaria
_Sem vós e com meu cuidado._
* * * * *
MOTE.
Retrato, vós não sois meu;
Retratárão-vos mui mal;
Que a serdes meu natural,
Foreis mofino como eu.
_Glosa._
Indaqu'em vós a arte vença
O que o natural tee dado,
Não fostes bem retratado;
Que ha em vós mais differença,
Que no vivo do pintado.
Se o lugar se considera
Do alto estado, que vos deu
A sorte, qu'eu mais quizera;
Se he qu'eu sou quem d'antes era,
_Retrato, vós não sois meu._
Vós na vossa glória pôsto,
Eu na minha sepultura,
Vós com bens, eu com desgôsto;
Pareceis-vos ao meu rosto,
E não ja á minha ventura.
E pois nella e vós errarão
O qu'em mi he principal,
Muito em ambos s'enganárão.
Se por mi vós retratárão,
_Retratárão-vos mui mal._
Mas se esse rosto fingido
Quizerão representar,
E houverão por bom partido
Dar-vos a alma do sentido
Para a glória do lugar;
Víreis, pôsto nessa alteza,
Que vos não ha cousa igual;
E que nem a maior mal
Podeis vir, nem mor baixeza,
_Que a serdes meu natural._
Por isso não confesseis
Serdes meu, qu'he desatino,
Com que o lugar perdereis:
Se conservar-vos quereis,
Blazonae que sois divino.
Que se nesta occasião
Conhecessem qu'ereis meu,
Por meu vos derão de mão,
. . . . . . . . . .
_Fôreis mofino, como eu._
* * * * *
MOTE.
Foi-se gastando a esperança,
Fui entendendo os enganos;
Do mal ficárão-me os danos,
E do bem só a lembrança.
_Glosa._
Nunca em prazeres passados
Tive firmeza segura.
Antes tão arrebatados,
Qu'inda não erão chegados,
Quando mos levou ventura.
E como quem desconfia
Ter em tal sorte mudança,
No meio desta porfia,
De quanto bem pretendia
_Foi-se gastando a esperança._
Não tive por desatino
A occasião de perdella;
Mas foi culpa do destino,
Que a ninguem, como mais dino,
Amor pudéra sostella.
Dei-lhe tudo o qu'era seu,
Não receando taes danos
Deste, a quem alma lhe deu:
Quando ja não era meu,
_Fui entendendo os enganos._
Fiquei deste mal sobejo
A quem a causa compete
Dizer-lhe tudo o que vejo,
Que Amor acceita o desejo,
Mas mente no que promete.
Que se a mi se me obrigou
A dar-me bens soberanos,
Foi engano que ordenou;
Que do bem tudo levou,
_Do mal ficárão-me os danos._
E se dor tão desigual
Soffro em mi com padecellos,
Quero de novo soffrellos;
Que por a causa ser tal,
Não determino offendellos.
Dobre-se o mal, falte a vida,
Cresça a fé, falte a esperança,
Pois foi mal agradecida;
Fique a dor n'alma imprimida,
_E do bem só a lembrança._
* * * * *
ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.
Aquella captiva,
Que me tee captivo,
Porque nella vivo,
Ja não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves mólhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
Nem no ceo estrellas,
Me parecem bellas,
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos socegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Huma graça viva,
Que nelles lhe mora,
Para ser senhora
De quem he captiva.
Pretos os cabellos,
Onde o povo vão
Perde opinião,
Que os louros são bellos.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocára a cór.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha,
Bem parece estranha,
Mas barbara não.
Presença serena,
Que a tormenta amansa:
Nella emfim descansa
Toda minha pena.
Esta he a captiva,
Que me tee captivo;
E pois nella vivo,
He fôrça que viva.
* * * * *
MOTE.
Quem ora soubesse
Onde o Amor nasce,
Que o semeasse!
_Voltas._
D'Amor e seus danos
Me fiz lavrador;
Semeava amor,
E colhia enganos;
Não vi, em meus anos,
Homem que apanhasse
O que semeasse.
Vi terra florída
De lindos abrolhos,
Lindos para os olhos,
Duros para a vida.
Mas a rez perdida,
Que tal herva pasce,
Em forte hora nasce.
Com quanto perdi,
Trabalhava em vão:
Se semeei grão,
Grande dor colhi.
Amor nunca vi
Que muito durasse,
Que não magoasse.
* * * * *
ALHEIO.
Se me levão ágoas,
Nos olhos as levo.
_Voltas._
Se de saudade
Morrerei ou não,
Meus olhos dirão
De mi a verdade.
Por elles me atrevo
A lançar as ágoas,
Que mostrem as mágoas
Que nesta alma levo.
As ágoas, qu'em vão
Me fazem chorar,
Se ellas são do mar,
Estas de amar são.
Por ellas relévo
Todas minhas mágoas;
Que se fôrça d'ágoas
Me leva, eu as levo.
Todas me entristecem,
Todas são salgadas;
Porém as choradas
Doces me parecem.
Correi, doces ágoas,
Que se em vós m'enlévo,
Não doem as mágoas,
Que no peito levo.
* * * * *
ALHEIO.
Menina dos olhos verdes,
Porque me não vedes?
_Voltas._
Elles verdes são,
E tee por usança
Na côr esperança,
E nas obras não.
Vossa condição
Não he d'olhos verdes,
Porque me não vêdes.
Isenções a mólhos
Qu'elles dizem terdes,
Não são d'olhos verdes,
Nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
E vós não me credes,
Porque me não vêdes.
Havião de ser,
Porque possa vê-los,
Que huns olhos tão bellos
Não se hão d'esconder:
Mas fazeis-me crer,
Que ja não são verdes,
Porque me não vêdes.
Verdes não o são,
No que alcanço delles;
Verdes são aquelles
Qu'esperança dão.
Se na condição
Está serem verdes,
Porque me não vedes?
* * * * *
ALHEIO.
Trocae o cuidado,
Senhora, comigo;
Vereis o perigo,
Qu'he ser desamado.
_Voltas._
Se trocar desejo
O amor entre nós,
He para qu'em vós
Vejais o que vejo.
E sendo trocado
Este amor comigo,
Ser-vos-ha castigo
Terdes meu cuidado.
Tendes o sentido
D'Amor livre e isento,
E cuidais qu'he vento
Ser tão mal querido.
Não seja o cuidado
Tão vosso inimigo,
Que queira o perigo
De ser desamado.
Mas nunca foi tal
Este meu querer,
Que a quem tanto quer,
Queira tanto mal
Seja eu maltratado,
E nunca o castigo
Vos mostre o perigo,
Qu'he ser desamado.
* * * * *
Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.
Ver, e mais guardar
De ver outro dia,
Quem o acabaria?
_Voltas._
Da lindeza vossa,
Dama, quem a vê,
Impossivel he
Que guardar-se possa.
Se faz tanta mossa
Ver-vos hum só dia,
Quem se guardaria?
Melhor deve ser
Neste aventurar
Ver, e não guardar,
Que guardar e ver.
Ver e defender,
Muito bom sería,
Mas quem poderia?
* * * * *
MOTE.
Irme quiero, madre,
Á aquella galera,
Con el marinero,
Á ser marinera.
_Voltas._
Madre, si me fuere,
Do quiera que vó,
No lo quiero yo,
Que el Amor lo quiere.
Aquel niño fiero,
Hace que me mueva
Por un marinero
Á ser marinera.
El que todo puede,
Madre, no podrá,
Pues el alma vá,
Que el cuerpo se quede.
Con él por que muero
Voy, porque no muera;
Que si es marinero,
Seré marinera.
Es tirana ley
Del niño Señor,
Que por un amor
Se deseche un Rey.
Pues desta manera
Quiero irme, quiero
Por un marinero
Á ser marinera.
Decid, ondas, cuando
Vistes vos doncella,
Siendo tierna y bella,
Andar navegando?
Mas qué no se espera
Daquel niño fiero?
Vea yo quien quiero,
Sea marinera.
* * * * *
MOTE.
Saudade minha,
Quando vos veria?
_Voltas._
Este tempo vão,
Esta vida escassa,
Para todos passa,
Só para mi não.
Os dias se vão
Sem ver este dia,
Quando vos veria.
Vêde esta mudança
Se está bem perdida,
Em tão curta vida
Tão longa esperança.
Se este bem se alcança,
Tudo soffreria,
Quando vos veria.
Saudosa dor,
Eu bem vos entendo;
Mas não me defendo,
Porque offendo Amor.
Se fôsseis maior,
Em maior valia
Vos estimaria.
Minha saudade,
Charo penhor meu,
A quem direi eu
Tamanha verdade?
Na minha vontade
De noite e de dia
Sempre vos teria.
* * * * *
MOTE.
Vida da minha alma,
Não vos posso ver:
Isto não he vida
Para se soffrer.
_Voltas._
Quando vos eu via,
Esse bem lograva,
A vida estimava,
Pois então vivia;
Porque vos servia
Só para vos ver.
Ja que vos não vejo
Para qu'he viver?
Vivo sem razão,
Porqu'em minha dor
Não a poz Amor;
Que inimigos são.
Mui grande traição
Me obriga a fazer
Que viva, Senhora,
Sem vos poder ver.
Não me atrevo ja,
Minha tão querida,
A chamar-vos vida,
Porque a tenho má.
Ninguem cuidará,
Que isto póde ser,
Sendo-me vós vida,
Não poder viver.
* * * * *
MOTE.
Coifa de beirame
Namorou Joanne.
_Voltas._
Por cousa tão pouca
Andas namorado?
Amas o toucado,
E não quem o touca?
Ando cega e louca
Por ti, meu Joanne,
Tu pelo beirame.
Amas o vestido?
Es falso amador.
Tu não vês que Amor
Se pinta despido?
Cego e mui perdido
Andas por beirame,
E eu por ti, Joanne.
A todos encanta
Tua parvoice;
De tua doudice
Gonçalo s'espanta,
E zombando canta:
Coifa de beirame,
Namorou Joanne.
Eu não sei que viste
Neste meu toucado,
Que tão namorado
Delle te sentiste.
Não te veja triste;
Ama-me, Joanne,
E deixa o beirame.
Joanne gemia,
Maria chorava,
E assi lamentava
O mal que sentia:
(Os olhos feria,
E não o beirame,
Que matou Joanne)
Não sei do que vem
Amares vestido;
Que o mesmo Cupido
Vestido não tem.
Sabes de que vem
Amares beirame?
Vem de ser Joanne.
* * * * *
MOTE.
Se Helena apartar
Do campo seus olhos,
Nascerão abrolhos.
_Voltas._
A verdura amena,
Gados, que pasceis,
Sabei que a deveis
Aos olhos d'Helena.
Os ventos serena,
Faz flores d'abrolhos
O ar de seus olhos.
Faz serras florídas,
Faz claras as fontes:
S'isto faz nos montes,
Que fara nas vidas?
Tra-las suspendidas,
Como hervas em mólhos,
Na luz de seus olhos.
Os corações prende
Com graça inhumana;
De cada pestana
Hum'alma lhe pende.
Amor se lhe rende,
E pôsto em giolhos,
Pasma nos seus olhos.
* * * * *
ALHEIO.
Verdes são os campos
De côr de limão;
Assi são os olhos
Do meu coração.
_Voltas._
Campo, que t'estendes
Com verdura bella;
Ovelhas, que nella
Vosso pasto tendes;
D'hervas vos mantendes
Que traz o verão;
E eu das lembranças
Do meu coração.
Gados, que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendeis.
Isso que comeis,
Não são hervas, não;
São graça dos olhos
Do meu coração.
* * * * *
ALHEIO.
Verdes são as hortas
Com rosas e flores:
Moças, que as régão,
Matão-me d'amores.
_Voltas._
Entre estes penedos
Que daqui parecem,
Verdes hervas crescem,
Altos arvoredos.
Vai destes rochedos
Ágoa, com que as flores
D'outras são regadas,
Que mátão d'amores.
Com ágoa, que cai
Daquella espessura,
Outra se mistura,
Que dos olhos sai:
Toda junta vai
Regar brancas flores;
Onde ha outros olhos,
Que mátão d'amores.
Celestes jardins,
As flores estrellas:
Hortelôas dellas
São huns seraphins.
Rosas e jasmins
De diversas côres,
Anjos, que as régão,
Mátão-me d'amores.
* * * * *
ALHEIO.
Menina formosa,
Dizei de que vem
Serdes rigorosa
A quem vos quer bem?
_Voltas._
Não sei quem assella
Vossa formosura;
Que quem he tão dura
Não póde ser bella.
Vós sereis formosa;
Mas a razão tem
Que quem he irosa,
Não parece bem.
A mostra he de bella,
As obras são cruas:
Pois qual destas duas
Ficará na sella?
Se ficar _irosa_,
Não vos está bem:
Fique antes _formosa_,
Que mais fôrça tem.
O Amor formoso
Se pinta e se chama:
Se he amor, ama,
Se ama, he piedoso.
Diz agora a grosa
Que este texto tem,
Que quem he formosa
Ha de querer bem.
Havei dó, menina,
Dessa formosura;
Que se a terra he dura,
Secca-se a bonina.
Sêde piedosa;
Não veja ninguem
Que por rigorosa
Percais tanto bem.
* * * * *
ALHEIO.
Tende-me mão nelle,
Que hum real me deve.
_Voltas._
C'hum real d'amor,
Dous de confiança,
E tres d'esperança,
Me foge o trédor.
Falso desamor
S'encerra naquelle
Que hum real me deve.
Pedio-mo emprestado,
Não lhe quiz penhor:
He mao pagador;
Tendo-mo afferrado.
C'hum cordel atado,
Ao Tronco se leve;
Que hum real me deve.
Por esta travéssa
Se vai acolhendo:
Ei-lo vai correndo,
Fugindo a grã pressa.
Nesta mão, e nessa
O falso se atreve,
Que hum real me deve.
Comprou-me o amor,
Sem lhe fazer preço:
Eu não lhe mereço
Dar-me desfavor.
Dá-me tanta dor,
Que ando apos elle
Pelo que me deve.
Eu de cá bradando,
Elle vai fugindo;
Elle sempre rindo,
Eu sempre chorando.
E de quando em quando
No amor se atreve,
Como que não deve.
A fallar verdade
Elle ja pagou;
Mas ainda ficou
Devendo ametade.
Minha liberdade
He a que me deve:
Só nella se atreve.
* * * * *
MOTE.
Dó la mi ventura,
Que no veo alguna?
_Voltas._
Sepa quien padece,
Que en la sepultura
Se esconde ventura
De quien la merece.
Allá me parece,
Que quiere fortuna
Que yo halle alguna.
Naciendo mesquino,
Dolor fué mi cama;
Tristeza fué el ama,
Cuidado el padrino.
Vestióse el destino
Negra vestidura,
Huyó la ventura.
No se halló tormento,
Que alli no se hallase;
Ni bien, que pasase,
Sinó como viento.
Oh qué nacimiento,
Que luego en la cuna
Me siguió fortuna!
Esta dicha mia,
Que siempre busqué,
Buscándola, hallé
Que no la hallaria;
Que quien nace en dia
D'estrella tan dura,
Nunca halla ventura.
No puso mi estrella
Mas ventura em min:
Ansí vive en fin
Quien nace sin ella.
No me quejo della;
Quéjome que atura
Vida tan escura.
* * * * *
MOTE.
Vida de minha alma.
_Volta._
Dous tormentos vejo
Grandes por extremo:
Se vos vejo, temo,
E se não, desejo.
Quando me despejo,
E venho a escolher,
Temendo o desejo,
Desejo temer.
* * * * *
CANTIGA ALHEIA.
Pastora da serra,
Da serra da Estrella,
Perco-me por ella.
_Voltas._
Nos seus olhos bellos
Tanto Amor se atreve,
Que abraza entre a neve
Quantos ousão vellos.
Não sólta os cabellos
Aurora mais bella:
Perco-me por ella.
Não teve esta serra
No meio d'altura
Mais que a formosura,
Que nella se encerra.
Bem ceo fica a terra,
Que tee tal estrella:
Perco-me por ella.
Sendo entre pastores
Causa de mil males,
Não se ouvem nos vales
Senão seus louvores.
Eu só por amores
Não sei fallar nella,
Sei morrer por ella.
D'alguns, que sentindo
Seu mal vão mostrando.
Se ri, não cuidando
Qu'inda paga rindo.
Eu triste, encobrindo
Só meus males della,
Perco-me por ella.
Se flores deseja
Por ventura bellas,
Das que colhe dellas
Mil morrem d'inveja.
Não ha quem não veja
Todo o melhor nella:
Perco-me por ella.
Se n'ágoa corrente
Seus olhos inclina,
Faz a luz divina
Parar a corrente.
Tal se vê, que sente
Por ver-se a ágoa nella:
Perco-me por ella.
* * * * *
ENDECHAS.
Vós sois huma Dama
Das feias do mundo;
De toda a má fama
Sois cabo profundo.
A vossa figura
Não he para ver;
Em vosso poder
Não ha formosura.
Vós fostes dotada
De toda a maldade;
Perfeita beldade
De vós he tirada.
Sois muito acabada
De taixa e de glosa:
Pois quanto a formosa,
Em vós não ha nada.
Do grão merecer
Sois bem apartada;
Andais alongada
Do bem parecer.
Bem claro mostrais
Em vós fealdade:
Não ha hi maldade,
Que não precedais.
De fresco carão
Vos vejo ausente;
Em vós he presente
A má condição.
De ter perfeição
Mui alheia estais;
Mui muito alcançais
De pouca razão.
* * * * *
ENDECHAS.
Vai o bem fugindo,
Cresce o mal co'os annos,
Vão-se descubrindo
Co'o tempo os enganos.
Amor e alegria.
Menos tempo dura.
Triste de quem fia
Nos bens da ventura!
Bem sem fundamento
Tee certa a mudança,
Certo o sentimento
Na dor da lembrança.
Quem vive contente,
Viva receoso:
Mal que se não sente,
He mais perigoso.
Quem males sentio,
Saiba ja temer;
E pelo que vio
Julgue o qu'ha de ser.
Alegre vivia,
Triste vivo agora;
Chora a alma de dia,
E de noite chora.
Confesso os enganos
De meu pensamento:
Bem de tantos annos
Foi-se n'hum momento.
Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorae, olhos tristes,
O bem que perdestes.
A luz do sol pura
Só a vós se negue;
Seja noite escura,
Nunca a manhãa chegue.
O campo floreça,
Murmurem as ágoas,
Tudo me entristeça,
Cresção minhas mágoas.
Quizera mostrar
O mal que padeço;
Não lhe dá lugar
Quem lhe deu comêço.
Em tristes cuidados
Passo a triste vida;
Cuidados cansados,
Vida aborrecida.
Nunca pude crer
O que agora creio:
Cegou-me o prazer
Do mal que me veio.
Ah ventura minha,
Como me negaste!
Hum so bem que tinha,
Porque mo roubaste?
Triste fantasia
Quanta cousa guarda!
Quem ja visse o dia,
Que tanto lhe tarda!
Nesta vida cega
Nada permanece;
O qu'inda não chega,
Ja desaparece.
Qualquer esperança
Foge como o vento:
Tudo faz mudança,
Salvo meu tormento.
Amor cego e triste,
Quem o tee padece:
Mal quem lhe resiste!
Mal quem lhe obedece!
No meu mal esquivo
Sei como Amor trata:
E pois nelle vivo,
Nenhum amor mata.
* * * * *
SEXTINAS.
SEXTINA I.
Foge-me pouco a pouco a curta vida,
Se por caso he verdade qu'inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
Chóro por o passado; e em quanto fallo,
Se me passão os dias passo a passo.
Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.
Que maneira tão aspera de pena!
Pois nunca hum'hora vio tão longa vida
Em que do mal mover se visse hum passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que chóro, emfim? para que fallo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?
Oh formosos, gentís e claros olhos,
Cuja ausencia me move a tanta pena,
Quanta se não comprende em quanto fallo!
Se no fim de tão longa e curta vida
De vós m'inflammasse inda o raio vivo,
Por bem teria todo o mal que passo.
Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me ha de vir a cerrar os tristes olhos,
Que Amor me mostre aquelles por quem vivo.
Testimunhas serão a tinta e penna,
Qu'escrevêrão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que fallo.
Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo!
Pois se d'hum pensamento em outro passo,
Vejo tão triste genero de vida,
Que se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a penna
Qu'esta pena traslade com que vivo.
N'alma tenho contino hum fogo vivo,
Que se não respirasse no que fallo,
Estaria ja feita cinza a pena;
Mas sôbre a maior dor que soffro e passo,
O temperão com lagrimas os olhos:
Com que, se foge, não se acaba a vida.
Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos, e sem lingua fallo;
E juntamente passo gloria e pena.
* * * * *
SEXTINA II.
A culpa de meu mal só tee meus olhos,
Pois que derão a Amor entrada n'alma,
Para que perdesse eu a liberdade.
Mas quem póde fugir a huma brandura,
Que despois de vos pôr em tantos males,
Dá por bens o perder por ella a vida?
Assaz de pouco faz quem perde a vida
Por condição tão dura e brandos olhos;
Pois de tal qualidade são meus males,
Que o mais pequeno delles toca n'alma.
Não s'engane com mostras de brandura
Quem quizer conservar a liberdade.
Roubadora he de toda liberdade
(E oxalá perdoasse á triste vida!)
Esta que o falso Amor chama brandura,
Ai meus antes imigos, que meus olhos!
Que mal vos tinha feito esta vossa alma,
Para vós lhe fazerdes tantos males?
Cresção de dia em dia embora os males;
Perca-se embora a antigua liberdade;
Transforme-se em Amor esta triste alma;
Padeça embora esta innocente vida;
Que bem me págão tudo estes meus olhos,
Quando de outros, se os vem, vem a brandura.
Mas como nelles póde haver brandura,
Se causadores são de tantos males?
Engano foi d'Amor, porque meus olhos
Dessem por bem perdida a liberdade.
Ja não tenho que dar senão a vida,
Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.
Que póde ja'sperar quem a sua alma
Captiva eterna fez d'huma brandura,
Que quando vos dá morte, diz qu'he vida?
Forçado me he gritar nestes meus males,
Olhos meus: pois por vós a liberdade
Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.
Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma,
Pois dais a liberdade a tal brandura,
Que para dar mais males, dá mais vida.
* * * * *
SEXTINA III.
Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia,
Amanhecido só para meu damno!
Pudeste-me apartar daquella vista
Por quem vivia com meu mal contente?
Ah se o supremo fôras desta vida,
Qu'em ti se começára a minha glória!
Mas como eu não nasci para ter glória,
Senão pena que cresça cada dia,
O ceo m'está negando o fim da vida,
Porque não tenha fim com ella o damno:
Para que nunca possa ser contente,
Da vista me tirou aquella vista.
Suave, deleitosa, alegre vista,
Donde pendia toda a minha gloria,
Por quem na mor tristeza fui contente;
Quando será que veja aquelle dia
Em que deixe de ver tão grave damno,
E em que me deixe tão penosa vida?
Como desejarei humana vida,
Ausente d'hua mais que humana vista,
Que tão glorioso me fazia o damno!
Vejo o meu damno sem a sua glória;
Á minha noite falta ja seu dia:
Triste tudo se vê, nada contente.
Pois sem ti ja não posso ser contente,
Mal posso desejar sem ti a vida;
Sem ti ja ver não posso claro dia,
Não posso sem te ver desejar vista;
Na tua vista só se via a glória,
Não ver a glória tua he ver meu damno.
Não via maior glória que meu damno,
Quando do damno meu eras contente:
Agora me he tormento a maior glória,
Que póde prometter-me Amor na vida,
Pois tornar-te não póde á minha vista,
Que só na tua achava a luz do dia.
E pois de dia em dia cresce o damno,
Nem posso sem tal vista ser contente,
Só com perder a vida acharei glória.
* * * * *
SEXTINA IV.
Sempre me queixarei desta crueza
Que Amor usou comigo quando o tempo,
A pezar de meu duro e triste fado,
A meus males queria dar remedio,
Em apartar de mi aquella vista,
Por quem me contentava a triste vida.
Levára-me, oxalá, traz ella a vida,
Para que não sentira esta crueza
De me ver apartado de tal vista!
E praza a Deos não veja o proprio tempo
Em mi, sem esperança de remedio,
A desesperação d'hum triste fado!
Porém ja acabe o triste e duro fado!
Acabe o tempo ja tão triste vida,
Qu'em sua morte só tee seu remedio.
O deixar-me viver he mor crueza,
Pois desespéro ja d'em algum tempo
Tornar a ver aquella doce vista.
Duro Amor! se pagava só tal vista
Todo o mal que por ti me fez meu fado,
Porque quizeste que a levasse o tempo?
E se o assi quizeste, porque a vida
Me deixas para ver tanta crueza,
Quando em não vê-la só vejo o remedio?
Tu só de minha dor eras remedio,
Suave, deleitosa e bella vista.
Sem ti, que posso eu ver senão crueza?
Sem ti, qual bem me póde dar o fado,
Se não he consentir que acabe a vida?
Mas elle della me dilata o tempo.
Azas para voar vejo no tempo,
Que com voar a muitos foi remedio;
E só não vôa para a minha vida.
Para que a quero eu sem tua vista?
Para que quer tambem o triste fado
Que não acabe o tempo tal crueza?
Não poderão fazer crueza, ou tempo,
Fôrça de fado, ou falta de remedio,
Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida.
* * * * *
ELEGIAS
ELEGIA I.
O sulmonense Ovidio desterrado
Na aspereza do Ponto, imaginando
Ver-se de seus Penates apartado;
Sua chara mulher desamparando,
Seus doces filhos, seu contentamento,
De sua Patria os olhos apartando;
Não podendo encobrir o sentimento,
Aos montes ja, ja aos rios se queixava
De seu escuro e triste nascimento.
O curso das estrellas contemplava,
E aquella ordem com que discorria
O ceo e o ar, e a terra adonde estava.
Os peixes por o mar nadando via,
As feras por o monte procedendo
Como o seu natural lhes permittia.
De suas fontes via estar nascendo
Os saudosos rios de crystal,
Á sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu proprio natural
Apartado, se via em terra estranha,
A cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha
Nos soidosos versos qu'escrevia,
E nos lamentos com que o campo banha.
Dest'arte me figura a phantasia
A vida com que morro, desterrado
Do bem qu'em outro tempo possuia.
Aqui contemplo o gôsto ja passado,
Que nunca passará por a memoria
De quem o traz na mente debuxado.
Aqui vejo caduca e debil glória
Desenganar meu êrro co'a mudança
Que faz a fragil vida transitoria.
Aqui me representa esta lembrança
Quão pouca culpa tenho; e m'entristece
Ver sem razão a pena que m'alcança.
Que a pena que com causa se padece,
A causa tira o sentimento della;
Mas muito doe a que se não merece.
Quando a roxa manhãa, dourada e bella,
Abre as portas ao sol e cahe o orvalho,
E torna a seus queixumes Philomela;
Este cuidado, que co'o somno atalho,
Em sonhos me parece; que o que a gente
Por seu descanso tee me dá trabalho.
E despois de acordado cegamente,
(Ou, por melhor dizer, desacordado,
Que pouco acôrdo logra hum descontente)
Daqui me vou, com passo carregado,
A hum outeiro erguido, e alli m'assento,
Soltando toda a redea a meu cuidado.
Despois de farto ja de meu tormento,
Estendo estes meus olhos saudosos
Á parte donde tinha o pensamento.
Não vejo senão montes pedregosos;
E sem graça e sem flor os campos vejo,
Que ja floridos víra, e graciosos.
Vejo o puro, suave e rico Tejo,
Com as concavas barcas, que nadando
Vão pondo em doce effeito o seu desejo.
Humas com brando vento navegando,
Outras com leves reinos brandamente
As crystallinas ágoas apartando.
D'alli fallo com a ágoa que não sente
Com cujo sentimento est'alma sae
Em lagrimas desfeita claramente.
Ó fugitivas ondas, esperae;
Que pois me não levais em companhia,
Ao menos estas lagrimas levae.
Até que venha aquelle alegre dia
Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo.
Mas tanto tempo, quem o passaria?
Não póde tanto bem chegar tão cedo:
Porque primeiro a vida acabará,
Que se acabe tão aspero degredo.
Mas essa triste morte que virá,
S'em tão contrário estado me acabasse,
Est'alma assi impaciente adonde irá?
Que se ás portas Tartaricas chegasse,
Temo que tanto mal por a memoria
Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
Que se a Tantalo e Ticio for notoria
A pena com que vai, e que a atormenta,
A pena que lá tee, terão por glória.
Essa imaginação, emfim, me augmenta
Mil mágoas no sentido, porque a vida
De imaginações tristes se contenta.
Que pois de todo vive consumida,
Porque o mal que possue se resuma,
Imagina na glória possuida.
Até que a noite eterna me consuma,
Ou veja aquelle dia desejado
Em que a Fortuna faça o que costuma;
Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
* * * * *
ELEGIA II.
Aquella que d'amor descomedido
Por o formoso moço se perdeo,
Que só por si d'amores foi perdido;
Despois que a deosa em pedra a converteo
De seu humano gesto verdadeiro,
A última voz só lhe concedeo.
Assi meu mal do proprio ser primeiro
Outra cousa nenhua me consente,
Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
E se huma pouca vida, estando ausente,
Me deixa Amor, he porque o pensamento
Sinta a perda do bem d'estar presente.
Senhor, se vos espanta o soffrimento
Que tenho em tanto mal para escrevê-lo,
Furto este breve espaço a meu tormento.
Porque quem tee poder para soffrê-lo,
Sem se acabar a vida co'o cuidado,
Tambem terá poder para dizê-lo.
Nem eu escrevo hum mal ja acostumado;
Mas n'alma minha triste e saudosa
A saudade escreve, e eu traslado.
Ando gastando a vida trabalhosa,
E esparzindo a contínua soidade
Ao longo d'huma praia soidosa.
Vejo do mar a instabilidade,
Como com seu ruido impetuoso
Retumba na maior concavidade.
De furibundas ondas poderoso,
Na terra, a seu pezar, está tomando
Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
Ella, como mais fraca, lh'está dando
As concavas entranhas, onde esteja
Sempre com som profundo suspirando.
A todas estas cousas tenho inveja
Tamanha, que não sei determinar-me,
Por mais determinado que me veja.
Se quero em tanto mal desesperar-me,
Não posso, porque Amor e saudade
Nem licença me dão para matar-me.
Ás vezes cuido em mi, se a novidade
E estranheza das cousas, co'a mudança,
Poderião mudar huma vontade.
E com isto figuro na lembrança
A nova terra, o novo trato humano,
A estrangeira progenie, a estranha usança.
Subo-me ao monte que Hercules Thebano
Do altissimo Calpe dividio,
Dando caminho ao mar Mediterrano;
D'alli'stou tenteando adonde vio
O pomar das Hesperidas, matando
A serpe que a seu passo resistio.
Estou-me em outra parte figurando
O poderoso Anteo, que derribado
Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;
Porém do Herculeo braço sobjugado,
No ar deixando a vida, não podendo
Dos soccorros da mãe ser ajudado.
Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo,
Nem com as armas tão continuadas,
D'amorosas lembranças me defendo.
Todas as cousas vejo demudadas,
Porque o tempo ligeiro não consente
Qu'estejão de firmeza acompanhadas.
Vi ja que a Primavera, de contente,
Em variadas côres revestia
O monte, o campo, o valle, alegremente.
Vi ja das altas aves a harmonia,
Que até duros penedos convidava
A algum suave modo d'alegria.
Vi ja que tudo, emfim, me contentava,
E que, de muito cheio de firmeza,
Hum mal por mil prazeres não trocava.
Tal me tee a mudança e estranheza,
Que se vou por os prados, a verdura
Parece que se sécca de tristeza.
Mas isto he ja costume da ventura;
Porque aos olhos que vivem descontentes,
Descontente o prazer se lhes figura.
Oh graves e insoffriveis accidentes
De Fortuna e d'Amor! que penitencia
Tão grave dais aos peitos innocentes!
Não basta examinar-me a paciencia
Com temores e falsas esperanças,
Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
Trazeis hum brando espirito em mudanças,
Para que nunca possa ser mudado
De lagrimas, suspiros e lembranças.
E s'estiver ao mal acostumado,
Tambem no mal não consentis firmeza,
Para que nunca viva descansado.
Ja quieto m'achava co'a tristeza;
E alli não me faltava hum brando engano.
Que tirasse desejos da fraqueza.
Mas vendo-me enganado estar ufano,
Deo á roda a Fortuna; e deo comigo
Onde de novo chóro o novo dano.
Ja deve de bastar o que aqui digo,
Para dar a entender o mais que calo
A quem ja vio tão aspero perigo.
E se nos brandos peitos faz abalo
Hum peito magoado e descontente,
Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
Não quero mais senão que largamente,
Senhor, me mandeis novas dessa terra;
Que alguma dellas me fara contente.
Porque se o duro Fado me desterra
Tanto tempo do bem, que o fraco esprito
Desampare a prisão onde s'encerra;
Ao som das negras ágoas do Cocito,
Ao pé dos carregados arvoredos
Cantarei o que n'alma tenho escrito.
E por entre estes horridos penedos
A quem negou Natura o claro dia,
Entre tormentos asperos e medos,
Com a trémula voz, cansada e fria,
Celebrarei o gesto claro e puro,
Que nunca perderei da phantasia.
O Musico de Thracia, ja seguro
De perder sua Eurydice, tangendo
Me ajudará ferindo o ar escuro.
As namoradas sombras, revolvendo
Memorias do passado, me ouvirão;
E com seu chôro o rio irá crescendo.
Em Salmonêo as penas faltarão,
E das filhas de Belo juntamente
De lagrimas os vasos s'encherão.
Que se amor não se perde em vida ausente,
Menos se perderá por morte escura:
Porque, emfim, a alma vive eternamente,
E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
* * * * *
ELEGIA III.
O poeta Simonides fallando
Co'o Capitão Themistocles hum dia,
Em cousas de sciencia praticando;
Hum'arte singular lhe promettia,
Qu'então compunha, com que lh'ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde tão subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria
Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama e gloria
Quem dava regra contra o esquecimento,
Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitão claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia
Do passado as lembranças por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia)
Pois tanto em teu engenho te confias,
Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum'arte, qu'em meus dias
Me não lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!
S'este excellente dito ponderado
Fosse por quem se visse estar ausente,
Em longas esperanças degradado;
Oh como bradaria justamente,
Simonides, inventa novas artes;
Não midas o passado co'o presente!
Que se he forçado andar por várias partes
Buscando á vida algum descanço honesto,
Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
E se o duro trabalho, he manifesto
Que por grave que seja, ha de passar-se
Com animoso esprito e ledo gesto;
De que serve ás pessoas o lembrar-se
Do que se passou ja, pois tudo passa,
Senão d'entristecer-se e magoar-se?
S'em outro corpo hum'alma se traspassa,
Não como quiz Pythagoras na morte,
Mas como quer Amor na vida escassa;
E s'este Amor no mundo está de sorte,
Que na virtude só d'hum lindo objecto
Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte;
Onde este objecto falta, qu'he defecto
Tamanho para a vida, que ja nella
M'está chamando á pena a dura Alecto;
Porque me não criára a minha Estrella
Selvatico no mundo, e habitante
Na dura Scythia, e no mais duro della?
Ou no Caucaso horrendo, fraco infante
Criado ao peito d'huma tigre Hircana,
Homem fôra formado de diamante;
Porque a cerviz ferina e inhumana
Não submettêra ao jugo e dura lei
Daquelle que dá vida quando engana.
Ou em pago das ágoas qu'estilei,
As que passei do mar, forão do Lete,
Para que m'esquecêra o que passei.
Porque o bem que a esperança vãa promette,
Ou a morte o estorva, ou a mudança,
Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
Ja, Senhor, cahirá como a lembrança,
No mal, do bem passado he triste e dura,
Pois nasce aonde morre a esperança.
E se quizer saber como se apura
Em almas saudosas, não s'enfade
De ler tão longa e misera escriptura.
Soltava Eolo a redea e liberdade
Ao manso Favonio brandamente,
E eu a tinha ja sôlta á saudade.
Neptuno tinha pôsto o seu tridente;
A proa a branca escuma dividia,
Com a gente maritima contente.
O côro das Nereidas nos seguia;
Os ventos, namorada Galatêa
Comsigo socegados os movia.
Das argenteas conchinhas Panopêa
Andava por o mar fazendo mólhos,
Melanto, Dinamene, com Ligea.
Eu, trazendo lembranças por antolhos,
Trazia os olhos n'ágoa socegada,
E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.
A bem-aventurança ja passada
Diante de mi tinha tão presente,
Como se não mudasse o tempo nada.
E com o gesto immoto e descontente,
Co'hum suspiro profundo e mal ouvido,
Por não mostrar meu mal a toda a gente,
Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido
Em puro amor tivestes, e inda agora
Da memoria o não tendes esquecido;
Se por ventura fordes algum'hora
Adonde entra o grão Tejo a dar tributo
A Tethys, que vós tendes por Senhora;
Ou ja por ver o verde prado enxuto,
Ou ja por colher ouro rutilante,
Das Tagicas areias rico fruto;
Nellas em verso erotico e elegante
Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes;
Póde ser que algum peito se quebrante.
E contando de mi memorias tristes,
Os pastores do Tejo, que me ouvião,
Oução de vós as mágoas que me ouvistes.
Ellas, que ja no gesto m'entendião,
Nos meneios das ondas me mostravão
Qu'em quanto lhes pedia consentião.
Estas lembranças, que me acompanhavão
Por a tranquillidade da bonança,
Nem na tormenta triste me deixavão.
Porque chegando ao Cabo da Esperança,
Comêço da saudade que renova,
Lembrando a longa e aspera mudança;
Debaixo estando ja da estrella nova
Que no novo Hemispherio resplandece,
Dando do segundo axe certa prova;
Eis a noite com nuvens s'escurece;
Do ar subitamente foge o dia;
E todo o largo Oceano s'embravece.
A máchina do mundo parecia
Qu'em tormentas se vinha desfazendo;
Em serras todo o mar se convertia.
Lutando Boreas fero e Noto horrendo.
Sonoras tempestades levantavão,
Das naos as velas concavas rompendo.
As cordas co'o ruido assoviavão;
Os marinheiros, ja desesperados,
Com gritos para o ceo o ar coalhavão.
Os raios por Vulcano fabricados
Vibrava o fero e aspero Tonante,
Tremendo os Polos ambos de assombrados.
Amor alli, mostrando-se possante,
E que por algum medo não fugia,
Mas quanto mais trabalho, mais constante;
Vendo a morte presente, em mi dizia:
Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse,
Nada do que passei me lembraria.
Emfim, nunca houve cousa que mudasse
O firme amor intrinseco daquelle
Em quem alguma vez de siso entrasse.
Huma cousa, Senhor, por certa asselle,
Que nunca amor se affina, nem se apura,
Em quanto está presente a causa delle.
Dest'arte me chegou minha ventura
A esta desejada e longa terra,
De todo pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaidade em nós s'encerra,
E nos proprios quão pouca; contra quem
Foi logo necessario termos guerra.
Huma Ilha que o Rei de Porcá tem,
E que o Rei da Pimenta lhe tomára,
Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
Com huma grossa armada, que juntára
O Viso-Rei, de Goa nos partimos
Com toda a gente d'armas que se achára.
E com pouco trabalho destruimos
A gente no curvo arco exercitada:
Com morte, com incendios os punimos.
Era a Ilha com ágoas alagada,
De modo que se andava em almadias:
Emfim, outra Veneza trasladada.
Nella nos detivemos sós dous dias,
Que forão para alguns os derradeiros,
Pois passárão da Estyge as ondas frias.
Qu'estes são os remedios verdadeiros
Que para a vida estão apparelhados
Aos que a querem ter por cavalleiros.
Oh Lavradores bem-aventurados!
Se conhecessem seu contentamento,
Como vivem no campo socegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento;
Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura;
Mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vem o mar irado, a noite escura,
Por ir buscar a pedra do Oriente;
Não temem o furor da guerra dura.
Vive hum com suas árvores contente,
Sem lhe quebrar o somno repousado
A grã cobiça d'ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado,
E da formosa côr de Assyria tinto,
E das torçaes Attalicos lavrado;
Se não tee as delicias de Corinto,
E se de Pario os marmores lhe faltão,
O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
Se suas casas de ouro não s'esmaltão,
Esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
Onde os cabritos seus comendo sáltão.
Alli lhe mostra o campo várias côres;
Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno;
Alli se affina o canto dos pastores.
Alli cantára Tityro e Sileno.
Emfim, por estas partes caminhou
A sãa Justiça para o ceo sereno.
Ditoso seja aquelle que alcançou
Poder viver na doce companhia
Das mansas ovelhinhas que criou!
Este bem facilmente alcançaria
As causas naturaes de toda cousa;
Como se gera a chuva e neve fria:
Os trabalhos do sol, que não repousa;
E porque nos dá lua a luz alhêa,
Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:
E como tão depressa o ceo rodêa;
E como hum só os outros traz comsigo;
E se he benigna ou dura Cytherêa.
Bem mal póde entender isto que digo,
Quem ha de andar seguindo o fero Marte;
Que sempre os olhos traz em seu perigo.
Porém seja, Senhor, de qualquer arte,
Pois postoque a Fortuna possa tanto,
Que tão longe de todo o bem me aparte;
Não poderá apartar meu duro canto
Desta obrigação sua, em quanto a morte
Me não entrega ao duro Radamanto;
Se para tristes ha tão leda sorte.
* * * * *
ELEGIA IV.
Despois que Magalhães teve tecida
A breve historia sua, que illustrasse
A Terra Santa Cruz, pouco sabida;
Imaginando a quem a dedicasse,
Ou com cujo favor defenderia
Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;
Tendo nisto occupada a phantasia,
Lhe sobreveio hum somno repousado,
Antes que o sol abrisse o claro dia.
Em sonhos lhe apparece todo armado
Marte, brandindo a lança furiosa,
Com que fez quem o vio todo enfiado;
Dizendo em voz pezada e temerosa:
Não he justo que a outrem se offereça
Obra alguma que possa ser famosa,
Senão a quem por armas resplandeça
No largo inundo com tal nome e fama,
Que louvor immortal sempre mereça.
Disse assi: quando Apollo, que da flama
Celeste guia os carros, de outra parte
Se lhe presenta, e por seu nome o chama,
Dizendo: Magalhães, postoque Marte
Com seu terror t'espante, todavia
Comigo deves só de aconselhar-te.
Hum Varão sapiente, em quem Thalia
Poz seus thesouros, e eu minha sciencia,
Defender tuas obras poderia.
He justo que a escriptura na prudencia
Ache só defensão; porque a dureza
Das armas he contrária da eloquencia.
Assi disse: e tocando com destreza
A cithara dourada, começou
A mitigar de Marte a fortaleza.
Mas Mercurio, que sempre costumou
Pacificar porfias duvidosas,
Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,
Determina compor as perigosas
Opiniões dos deoses inimigos
Com suaves razões e ponderosas.
E disse: Bem sabemos dos antigos
Heroes, e dos modernos, que provárão
De Belona os gravissimos perigos,
Como tão bem mil vezes concordárão
As armas com as letras; porque as Musas
A muitos na milicia acompanhárão.
Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas
Guerras o estudo deixão grande espaço;
Que as armas jamais delle são escusas.
N'huma mão livros, n'outra ferro e aço;
Aquella rege e ensina; est'outra fere:
Mais co'o saber se vence, que co'o braço.
Pois, logo, hum Varão grande se requere,
Que com teus dões (Apollo) illustre seja,
E de ti (Marte) palma e glória espere.
Este vos darei eu, em quem se veja
Saber e esfôrço no sereno peito,
Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.
Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito,
Todas nove nos braços o tomárão,
Criando-o co'o seu leite no seu leito:
As Artes e as Sciencias lh'ensinárão;
Inclinação divina lh'influírão
Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.
Daqui nos exercidos o seguírão
Das armas no Oriente, onde primeiro
Hum soldado gentil instituírão.
Alli taes provas fez de Cavalleiro,
Que, de Christão magnanimo e seguro,
A si mesmo venceo por derradeiro.
Despois, ja Capitão forte e maduro,
Governando toda a Aurea Chersoneso,
Lhe defendeo co'o braço o debil muro.
Porque vindo a cercá-la todo o pêso
Do poder dos Achens, que se sustenta
De alheio sangue, em furia todo acceso;
Este só que a ti, Marte, representa,
O castigou de sorte, que vencido
De ter quem vivo fique se contenta.
E logo qu'este Reino defendido
Deixou, segunda vez com maior glória
Para o ir governar foi elegido.
Mas não perdendo ainda da memoria
Os amigos o seu govêrno brando,
Os imigos o damno da victoria;
Huns com amor intrinseco esperando
Estão por elle, e os outros congelados
O estão com frio medo receando.
Vêde pois se serião debellados
Por seu claro valor, se lá tornasse,
E dos Indicos mares degradados.
Porqu'he justo que nunca lhe negasse
O conselho do Olympo alto e subido
Favor e ajuda com que pelejasse.
Aqui só póde ser bem dirigido
De Magalhães o estudo: este só deve
Ser de vós, claros deoses, escolhido.
Assi Mercurio disse; e em termo breve
Conformados se vem Apollo e Marte;
E voou juntamente o somno leve.
Acorda Magalhães, e ja se parte
A offrecer-vos, Senhor claro e famoso,
Tudo o que nelle poz sciencia e arte.
Tee claro estylo, e engenho curioso,
Para poder de vós ser recebido,
Com mão benigna, de ânimo amoroso.
Pois se só de não ser favorecido
Hum alto esprito fica baixo e escuro;
Este seja comvosco defendido,
Como o foi de Malaca o debil muro.
* * * * *
ELEGIA V.
Aquelle mover de olhos excellente,
Aquelle vivo espirito inflammado
Do crystallino rosto transparente;
Aquelle gesto immoto e repousado,
Qu'estando n'alma propriamente escrito,
Não póde ser em verso trasladado;
Aquelle parecer, que he infinito
Para se comprender d'engenho humano;
O qual offendo em quanto tenho dito;
Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano,
E tanto a engrandecer-me a phantasia,
Que não vi maior glória que meu dano.
Oh bem-aventurado seja o dia
Em que tomei tão doce pensamento,
Que de todos os outros me desvia!
E bem-aventurado o soffrimento
Que soube ser capaz de tanta pena,
Vendo que o foi da causa o entendimento!
Faça-me quem me mata, o mal que ordena,
Trate-me com enganos, desamores;
Qu'então me salva, quando me condena.
E se de tão suaves desfavores
Penando vive hum'alma consumida,
Oh que doce penar! que doces dores!
E se huma condição endurecida
Tambem me nega a morte por meu dano,
Oh que doce morrer! que doce vida!
E se me mostra hum gesto lindo humano,
Como que de meu mal culpada se acha,
Oh que doce mentir! que doce engano!
E s'em querer-lhe tanto ponho tacha,
Mostrando refrear o pensamento,
Oh que doce fingir! que doce cacha!
Assi que ponho ja no soffrimento
A parte principal de minha glória,
Tomando por melhor todo tormento.
Se sinto tanto bem só co'a memoria
De ver-vos, linda Dama, vencedora;
Que quero eu mais que ser vossa victoria?
Se tanto a vossa vista mais namora,
Quanto eu sou menos para merecer-vos;
Que quero eu mais que ter-vos por senhora?
Se procede este bem de conhecer-vos,
E consiste o vencer em ser vencido,
Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
S'em meu proveito faz qualquer partido,
Só na vista d'huns olhos tão serenos,
Que quero eu mais ganhar que ser perdido?
Se, emfim, os meus espritos, de pequenos,
A merecer não chegão seu tormento,
Que quero eu mais, que o mais não seja menos?
A causa, pois, m'esforça o soffrimento;
Porque, a pezar do mal que me resiste,
De todos os trabalhos me contento;
Que a razão faz a pena alegre, ou triste.
* * * * *
ELEGIA VI.
Entre rusticas serras e fragosas,
Compostas d'asperissimos rochedos,
De salitradas lapas cavernosas;
Onde gretando os humidos penedos
Orvalhados de neve branca e fria,
Brotando estão de si mil arvoredos;
Huma floresta fez verde e sombria
A natureza experta, que rodeia,
Como elevado muro, a serrania.
Neste formoso sítio se recreia
O lascivo Cupido entre as boninas,
Que sempre hum brando Zephyro meneia.
Da candida cecem, das clavellinas,
Da salva, mangerona e das mosquetas,
Das rubicundas flores hyacinthinas,
Muitas capellas tece, que de setas
Lhe servem contra peitos de donzellas,
A quem d'inveja traz sempre inquietas.
Não são d'huma só côr as flores bellas;
Que humas esmalta verde, outras rosado,
Entre as azues crescendo as amarellas.
Dos agrestes loureiros rodeado,
Faz o valle huma sombra deleitosa,
Quando apparece o sol mais levantado.
E por cima da relva bem graciosa
As gottas de crystal quasi imitando
Estão do aljofar puro a luz formosa.
As crystallinas fontes, que brotando
Por entre alvos seixinhos se derivão,
Das árvores os troncos vão banhando.
Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão
O formoso pastor que se perdeo,
Preso das falsas mostras que o captivão,
Cresce a por cuja causa s'esqueceo
A linda Cytherêa de Vulcano,
Quando presa d'Amor se lhe rendeo.
Na brancura do rosto soberano,
Inda as crueis feridas apparecem
Do javali cerdoso e deshumano.
As rosas que de sangue resplandecem,
As candidas boninas marchetadas,
Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.
Do matutino orvalho rociadas,
As flores rutilantes e cheirosas
Estão como por cima prateadas.
Os humidos botões abrindo as rosas,
Que os agudos espinhos vão cercando,
No prado se vem rindo deliciosas.
A mellifera abelha, susurrando
Por cima das boninas que rodeia,
Está co'o som das ágoas concertando.
Do trémulo regato a branda areia
De jacinthos se cobre e de vieiras,
Qu'encrespão da corrente a branca veia.
Os álamos s'abração co'as videiras
De sorte, que s'enxérga escassamente
Se são os cachos seus, se das parreiras;
E pendendo por cima da corrente,
Outro formoso bosque debuxando
Estão no fundo della brandamente.
Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando
Do perfido cunhado a crueldade,
Mágoas em melodias transformando.
A solitaria rôla com soidade
Desfaz o rouco peito, ja cansada
De que não move a morte a piedade.
A domestica Progne anda banhada
No sangue de seus filhos, em vingança
Da triste Philomela profanada.
De competir co'o merlo não descança
O garrulo calhandro, qu'enrouquece
Por não perder callado a confiança.
Em quanto o pobre ninho ajunta e tece
O sonoro canario, modulando
Engana a grave pena que padece.
Alguns versos s'escuta derramando
O vário pintasirgo, tão saudaveis,
Que produzem memorias d'amor brando.
Por os direitos troncos ha notaveis
Epigrammas; alguns d'antigua historia,
Que contra o duro tempo são duraveis.
Huns de cruel tormento, outros de glória,
Conforme a liberdade do qu'escreve,
Estranhos casos mostrão á memoria.
O que neste lugar contente esteve,
Contente declarou seu pensamento,
E os prazeres tambem que nelle teve.
Mas outros, declarando o sentimento
Que dos olhos destila tristes ágoas,
Deixárão mil lembranças de tormento.
Abrazando-se alguns em vivas frágoas,
Escrevêrão do bosque em muitas partes
Gostos d'Amor agora, agora mágoas.
Porque, cruel menino, o premio partes
A quem serás[2] tyranno se lho negas,
E injusto e desigual, se lho repartes?
Porqu'enganas as almas que tão cegas
Arrastas apos ti, de error captivas?
Porque a crueis rigores as entregas?
Para que contra hum peito assi t'esquivas,
Que humilde se sujeita a teu cuidado,
Com enganos de sombras fugitivas?
Levas, como a menino, hum pobre a nado,
N'huma apparencia falsa embevecido,
Quando co'os braços corta o mar inchado.
Querendo-se tornar, vê-se perdido;
Ja grita que se affoga; e tu zombando,
Da praia entre os penedos escondido!
O triste, que conhece ir-se affogando,
No meio da arriscada zombaria
Por divino soccorro está clamando.
Mas eu de que m'espanto, se dizia
Hum sabio que d'enganos se temesse
O que tomasse a hum cego tal por guia?
Nunca nelle a firmeza permanece;
Se nos dá gôsto algum, muda-se logo;
Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.
Anda co'os corações sempre em hum jôgo;
Humas vezes os faz de pedra fria,
Outras os faz de neve, outras de fogo.
Tornando ao bosque meu que descrevia,
Despois de ter contado da frescura
Que nelle tão pomposa apparecia,
Referir quero agora huma aventura
Que nelle ao vão Narciso aconteceo,
Digna de se chorar com mágoa pura.
Castigo foi que o moço mereceo
Por se mostrar esquivo com aquella,
Qu'em viva pedra Juno converteo.
Ardia em fogo d'alma a vãa donzella,
Soffrendo hum duro peito; que a Narciso,
Quando ella mais se abraza, mais congela.
E quando a fraca Nympha mais de siso
Mostrava hum signal certo de firmeza,
Então se provocava o moço a riso.
Ja d'huma profundissima tristeza
A descora o rigor que a consumia.
Como diz desfavor mal com belleza!
O gelado pastor folgava e ria;
Mas vendo-a de seu gôsto andar contente,
Por não a contentar s'entristecia.
He tal o seu rigor, que não consente
Que seja o gôsto proprio festejado;
Antes disso se mostra descontente.
Mas o cego Cupido, d'affrontado,
Em vingança da fé que desprezou,
Fez que fosse de si mesmo enganado.
Casualmente hum dia se chegou
A beber n'huma fonte crystallina,
Que de si nova sêde lhe causou.
Vendo a sua figura peregrina
Que a fonte dentro em si representava,
Se perdeo por imagem tão divina.
Como ja, d'enlevado, não cuidava
Nos enganos que a sombra lhe fazia,
Vendo o formoso rosto, suspirava.
Por as avaras ágoas se metia;
E quanto mais molhava os tenros braços,
Então mais vivamente o fogo ardia.
Vendo-se assi prender em duros laços,
Ao sentimento obriga a paciencia,
Dando, fóra de si, ao vento abraços.
Embevecido todo n'apparencia,
Sem saber de cuidado o que sentia,
Não fez ao doce engano resistencia.
Ao ver-se longe mais, mais perto via
O peregrino gesto; e se chegava,
Então para mais longe lhe fugia.
Vendo, emfim, como em tudo o remedava
Cahio no torpe engano que tivera,
A tempo que de si ja preso estava.
A belleza que a tantas morte dera,
De si mesma se abraza e se captiva.
Quão longe então de si ver-se quizera!
Ella se abranda propria; ella se esquiva;
E sendo ella somente a que se amava,
Ella se chama ingrata e fugitiva.
A formosura, pois, que namorava,
Com tal difficuldade era seguida,
Qu'estando dentro em si, mui longe estava.
A solitaria Nympha, qu'escondida
Ja nas cavernas concavas se via,
Dos males que lhe ouvio foi commovida.
Das namoradas mágoas que dizia
O namorado moço, ella somente
Os ultimos accentos repetia.
Elle vendo-se estar alli presente,
As crystallinas ágoas accusava
De que ellas o fazião descontente.
Outras vezes á fonte, quando a olhava,
Ja cego, e sem juizo, agradecia
A figura que dentro lhe mostrava.
Mas vendo qu'ella em nada se dohia
De seu grave tormento, grita e chora.
Quanto erra quem de sombras se confia!
Ja lhe pede que saia para fóra.
Ignorando que sempre fóra esteve
A belleza que nelle proprio mora.
Despois que longo espaço se deteve
Nestes queixumes seus tão lastimosos,
Que com tão longo ser, julgou por breve;
Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
Do valle se despede e da espessura,
Dando soluços da alma vagarosos.
Entregue na vontade da ventura,
Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
Ao centro se arrojou da fonte pura.
Dest'arte feneceo em tenros anos
Narciso, dando exemplo á formosura
De que tema, se he tal, tambem seus danos.
Sentimento mostrou da sorte dura
O namorado Jupiter, mudando
Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.
Aquellas claras ágoas rodeando,
Onde por seus amores se perdeo,
Está despois da morte acompanhando.
Tanto no seu engano procedeo,
Que não sabe na morte inda apartar-se
Dos erros que na vida commetteo.
Bem póde o coração desenganar-se,
Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado,
Não costuma na morte resfriar-se.
Porque despois do corpo sepultado,
Prisão onde s'encerra o fraco esprito,
Eternamente chora o seu cuidado.
E das escuras ágoas do Cocito
A rapida corrente refreando,
Celebra o lindo gesto n'alma escrito.
Lá se está co'os favores recreando;
E se foi desprezado, lá padece,
As duras esquivanças lamentando.
Nem dos avaros olhos lá s'esquece,
Que de formoso verde a terra esmaltão,
Por não ver os do triste qu'endoudece.
Assi que os desfavores nunca faltão,
Até despois da morte perseguindo
Hum triste coração que desbaratão.
Triste de quem em vão lhe vai fugindo!
[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido
por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo:
e se a verdadeira lição não he:
Porque, cruel menino, o premio partes
De modo que es tyranno, quando o negas,
E injusto e desigual, quando o repartes?
não podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._
* * * * *
ELEGIA VII.
Ao pé d'hum'alta faia vi sentado,
N'hum valle deleitoso e bem florido,
A Almeno, pastor triste e namorado.
Outro no mundo póde haver nascido
Mui queixoso de Amor; porém não tanto,
Como este amante, por amar perdido.
Ja Venus hia recolhendo o manto
Escuro com que a terra se mostrava,
Para ajudar d'Almeno o triste pranto.
Apollo sôbre os montes derramava
Seus dourados cabellos, que fazião
Ao triste inda mais triste do qu'estava.
As flores por o prado s'estendião.
E das que finas mais erão as côres,
Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.
Ja guiavão seus gados os pastores,
Que, deixando-os no campo deleitoso,
Com ellas praticavão só d'amores.
Mas era esta alegria hum perigoso
Estado para Almeno entristecido;
E por isso a deixava pressuroso,
Buscando outro lugar: contra Cupido
Claramente exclamava, e o arguia
De contrário, d'astuto e fementido.
De quando em quando a frauta que tangia.
Numeros dava ao ar tão docemente,
Que as aves provocava a melodia.
Cego assi desta dor, deste accidente,
Com os olhos em lagrimas banhados,
Postos no ceo, dizia tristemente:
Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados,
Porque mos déste tu para offender-te,
Quando livre vivia nestes prados?
Não vês quanto me negas merecer-te
O bem que me mostravas, se deixasse
Ferir meu coração para soffrer-te?
Qual bem me has dado, Amor, que me durasse?
Ou qual me has promettido, que hajas dado?
Ou qual déste, que muito não custasse?
Mostra-me quem puzeste em tal estado,
Que pudesse viver de ti contente,
Ou quem de ti não fosse lastimado?
Inimigo cruel de toda a gente,
Ja não quero teu bem, só meu mal quero;
Se de ti nem meu mal se me consente.
Inda que de teus bens ja desespéro,
Não desprézo dos males o tormento;
Antes o prezo mais, quando he mais fero.
Arrebatado deste pensamento
Hia o triste pastor com hum contino
Pranto, que lhe avivava o sentimento.
Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino,
Qu'era de Amor plantado; e parecendo
Lhe está menos humano que divino.
Nelle a dor sua esteve suspendendo:
Porém não, como cervo, está ferido,
Reparo ao mal que leva pretendendo.
Apparecia o sítio tão florído,
Que provocava a não vulgar espanto,
Entre huns altos ulmeiros escondido.
D'hum crystallino orvalho tinha o manto,
Quando entrou nelle o misero pastor,
E as tenções explicou neste seu canto.
Ó bellas rosas, vós que sois amor,
He por dita humildade, ou he baixeza,
O ter apar de vós murta, que he dor?
Papoulas conversais, que são tristeza!
Não desprezais o cardo, que he tormento!
Admittis a hortelãa, sendo crueza!
Dos goivos longe vejo o sentimento;
Dos jasmins perto estou vendo o perigo;
Dos malmequeres vejo o soffrimento.
Deste me temerei como inimigo;
Mas traz por armas salva, que he razão:
Com ella acabará tambem comigo.
As minhas vem a ser huma affeição,
Que são os puros cravos misturados
Co'a vontade sujeita, que he limão.
Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados!
Ai crespa mangerona, que es prazer!
Vós sós devieis adornar os prados.
Não pódem dous oppostos juntos ser:
Onde se põe giesta, que he lembrança,
Junto do rosmaninho, que he 'squecer?
Bem peza do leve álamo a mudança;
Do roxo goivo anima o pensamento
Do cypreste odorifero a esperança.
O trevo, que he sentido apartamento,
Cérca o mangericão, que se interpreta
Memoria a quem offende o esquecimento.
Mais importuna que o jardim de Creta,
A ameixieira a flor está soltando:
A segurelha vejo, que he discreta.
As hervas que daqui irei tomando,
São a pura cecem, qu'he saudade;
Cravos, medo de ver qual de amor ando.
E, de ter mui perdida a liberdade,
Tomarei madresylva entendimento;
Legação tomarei, porqu'he verdade.
Marmeleiro me dá arrependimento:
Por a salva, que he gôsto, tomarei
Coentro opposto ao meu contentamento.
Conhecimento firme nunca achei,
Que violetas são; e, quando o houvera,
Qual meu damno então fôra, bem o sei.
Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera
Ver-vos aqui menor, pois sois victória,
Que de mi alcançou chamma severa!
Mas se quereis que tenha alguma glória,
Por galardão d'amar e ser sujeito,
Perderei de tormentos a memoria.
Porém, pois mo negais, de todo engeito
A palma, qu'he ventura; e na parreira,
Qu'he'sperança perdida, me deleito.
Entretanto co'a flor da laranjeira,
Qu'he desafio duro e arriscado,
Posso arguir da hora derradeira.
Ja não se quer deter o meu cuidado
Com a romãa descanso: a brevidade
Das maravilhas só tee desejado.
E vós, ovelhas minhas, sem piedade
Vos apartae de mi, se algum desejo
Tendes de ter do pasto mais vontade.
Se muita de me verdes em vós vejo,
Toda a minha de ver-vos hei perdido
Á força do poder d'amor sobejo.
Lograe do Tejo o placido ruido;
Sós lograe estas veigas florecidas:
Pois se perde o pastor vosso querido,
Não gosteis de com elle ser perdidas.
* * * * *
ELEGIA VIII.
Belisa, unico bem desta alma triste,
Descanso singular de minha vida,
Throno donde o poder d'Amor consiste;
Formosa fera, a quem está rendida
D'Amor a que he mais livre liberdade,
Ganhada mais, se mais por ti perdida;
Quão contrário parece na beldade,
Que os corações captiva com brandura,
Alguma nódoa haver de crueldade!
Quão contrário parece em formosura,
Que deixa muito atraz quanto he humano,
Esquiva condição, ou alma dura!
Quão mal parece em quem só co'hum engano
Póde dar vida ao coração sujeito,
Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!
Quão mal parece que hum amor perfeito
Não seja d'outro igual remunerado,
Inda que seja, acaso, contrafeito!
Quão mal parece estar desesperado
Quem tanto por ti soffre e tee soffrido,
Devendo estar de penas alliviado!
Porém peor parece quem rendido
Não for a hum parecer que tudo rende,
Por mais qu'em seu rigor viva offendido.
E inda peor parece quem defende
O ser essa belleza sempre amada,
Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.
Se quem te mostra amor te desagrada,
Só pódes pretender o não ser vista,
Mas não despois de vista o ser deixada.
Quão mal sabe o valor de tua vista
Quem cuida que o que della acaso alcança
Póde achar coração que lhe resista!
Quão bem pareceria huma esperança
Ja concedida a meu amor ardente,
Não sempre huma mortal desconfiança!
Se hum padecer por ti constantemente
Pudesse ser reparo a quem mais te ama,
Inda esperar pudera o ser contente.
Mas eu temo que aquella immensa chama
Com que a teu bello imperio me levaste,
Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.
Se a Olympica belleza assi imitaste,
Que brandamente move hum amor puro,
Porque tão dura condição tomaste?
Qual elevado, qual soberbo muro
Este mal, que m'occupa o pensamento,
Contado, não tornára menos duro?
Tu, qu'es a causa só de meu tormento,
Tu, que somente podes gloriar-me,
Queres que as minhas queixas leve o vento?
Tu, que me pagarias com matar-me,
Inda a morte me negas vezes tantas?
Ai, que me deras vida em morte dar-me!
Usa piedade, tu, que o mundo espantas
Co'os bellos olhos, com que o douras tanto,
Se acaso a vê-lo brandos os levantas.
Estende-se na terra o negro manto,
E á noute dá alegria a luz alheia;
Mas nos meus olhos tristes dura o pranto.
Torna a manhãa despois alegre e cheia
Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora;
Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.
Lagrimas ja não são qu'esta alma chora,
Mas amor he vital que dentro arde,
E por a luz dos olhos salta fóra.
Como inda a morte quer que mais aguarde?
Não tarde ja, mas corra a mal tão fero.
Mas ja por mais que corra virá tarde.
Nem no supremo trance de ti 'spero
Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto
Queiras, crua, entender quanto te quero.
Ai! se volveres esse bello rosto
Ao lugar triste em que morrer me vires,
Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,
Não quero de ti, não, que alli suspires,
Nem que de dar-me a morte te arrependas,
Mas que os olhos de ver-me então não tires.
Assi nunca pastor a quem te rendas,
Te faça conhecer o que me fazes,
Para que com teu mal meu mal entendas!
Como ja agora não te satisfazes
Das penas deste amor, que por querer-te,
De teu merecimento são capazes?
Pois quem com outro merito render-te
Presume, (oh raro monstro de belleza!)
Muito mais longe está de merecer-te.
Este si, que merece a grã crueza
Com que tu d'acabar-me a vida tratas,
Pois diante de ti, de si se preza.
Se cuidas que com isto desbaratas
O meu constante amor, porque não viva,
Elle mais vive quando mais me matas.
Se o dar-me morte tens por glória altiva,
Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina
A matar mais de branda que d'esquiva.
S'esta alma tua julgas por indina
Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde,
Do descoberto mal a faze dina.
Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde,
A poder reduzir-te a ser piedosa?
Ou m'acaba de todo, ou me responde.
Mas por mais que te mostres rigorosa,
Deixar meu pensamento m'he impossivel,
Igualmente que a ti não ser formosa.
E por mais qu'esta dor seja terrivel,
Somente o contemplar a causa della,
Inda que a faz maior, a faz soffrivel
Porém chegando a não poder soffrê-la,
Perdendo a vida; quando a morte chame,
Não perderei o gôsto de perdê-la.
He justo qu'eu por ti mil mortes ame:
Mas vê tu se te illustra, quando offensa
Minha mortal o teu valor se chame.
Bem vês que huma beldade tão immensa
De vencer-me tee glória bem pequena,
Pois só render-me tomo por defensa.
Mas ja que amor tão puro me condena,
Contente fico assaz desta victoria;
Que não me dão meus males tanta pena,
Quanto o serem por ti me dá de glória.
* * * * *
ELEGIA IX.
A vida me aborrece, a morte quero:
Será eterno o meu mal, segundo entendo,
Pois na mor esperança desespéro.
Sem viver vivo, por morrer vivendo
Por não verdes, Senhora, como eu vejo,
Quanto de mi por vós me ando esquecendo.
Seja-me agradecido este desejo;
Ingrata não sejais a quem vos ama
Com puro e honestissimo despejo.
A culpa que me pondes, ponde-a á fama,
Que pregôa de vós celeste vida
Que os corações d'amor divino inflama.
Humana, quando não agradecida,
Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso,
Antes que a alma do corpo se despida.
Mas que posso eu fazer, pois ja não posso
Hum tormento domar tão forte e duro,
Homem formado só de carne e de osso?
Em minha fé segura me asseguro;
Porqu'esta, quando he grande, jamais erra,
Se resulta d'amor sincero e puro.
Essa beldade santa me faz guerra;
Por ella hei de morrer, inda que veja
Tornar o brando rio em dura serra.
Que cousa tenho eu ja que minha seja?
Quem não deseja a vossa formosura,
Não póde assegurar que o ceo deseja.
De qu'eu sempre a deseje estae segura:
Neste desejo meu nunca mudança
Hão de ver as mudanças da ventura.
A vida tenho posta na balança
Da glória singular, do damno esquivo;
Que o perdê-la por vós he mor bonança.
Se vos offendo, cuido que não vivo:
Olhae se muito mais que de offender-vos,
Das esperanças do viver me privo.
O que temo somente he só perder-vos;
O que quero somente he só adorar-vos;
O que somente adoro he só querer-vos.
Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
Desejar-vos somente por servir-vos;
Por servir a amor vil não desejar-vos:
Somente ver-vos, e somente ouvir-vos
Pretendo; e pois somente isto pretendo,
Deveis a estes sentidos permittir-vos.
Isto somente, (oh cego!) estou dizendo,
Como se fôra pouco isto somente!
Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?
Se o não merece o meu amor decente;
Se morte por amar-vos se merece,
Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.
Se vos aggrava quem por vós padece;
Se vos vee a offender quem vos quer tanto,
Quem desta sorte errou não desmerece.
Que quando os olhos da razão levanto
Ao ceo d'essa rarissima belleza,
De não morrer por ella só m'espanto.
Deixae-me contentar desta tristeza,
E fazer de meus olhos largo rio;
Se algum póde abrandar vossa dureza.
Correndo sempre as lagrimas em fio,
Farei crescer as hervas por os prados,
Pois ja d'outra alegria desconfio.
No monte darei pasto a meus cuidados;
E serão de mi sempre entre os pastores
Esses divinos olhos celebrados.
Aprenderão de mi os amadores
Aquillo que se chama amor sublime,
Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.
E nenhum havera que a pena estime
Mais soberana por a causa della,
Que a que teve até então não desestime;
E qu'inveja não mostre á minha estrella.
* * * * *
ELEGIA X.
Que tristes novas, ou que novo dano,
Qu'inopinado mal incerto sôa,
Tingindo de temor o vulto humano?
Que vejo? as praias humidas de Goa
Ferver com gente attonita e turbada
Do rumor que de boca em boca vôa!
He morto D. Miguel (ah crua espada!)
E parte da lustrosa companhia
Que alegre s'embarcou na triste Armada:
E d'espingarda ardente e lança fria
Passado por o torpe e iniquo braço,
Que nossas altas famas injuría.
Não lhe valeo escudo, ou peito d'aço,
Não ânimo d'avós claros herdado,
Com que temer se fez por longo espaço.
Não ver-se em de redor todo cercado
D'irados inimigos, qu'exhalavão
A negra alma do corpo traspassado.
Não as fortes palavras que voavão
A animar os incertos companheiros,
Que timidos as costas lhe mostravão.
Mas ja postos, nos termos derradeiros,
(Rotos por partes mil e traspassados
Os membros, no valor somente inteiros)
Os olhos (de furor acompanhados,
Qu'inda na morte as vidas amedrentão
Dos duros inimigos espantados)
Postos no ceo, parece que presentão
A alma pura á suprema Eternidade,
Por quem os ceos e a terra se sustentão.
E pedindo dos erros, que na idade
Immatura e innocente ja fizera,
Perdão á pia e justa Magestade,
As rosas apartou da neve fria;
E, como debil flor, a quem fallece
O radical humor de que vivia,
Nas mãos do Coro Angelico, que dece,
S'entrega; e vai lograr a vida eterna,
Que com morte tão justa se merece.
Vai-te, alma, em paz á gloria sempiterna;
Vai, que quem por a Lei sacra e divina
A sólta, áquelle a dá que o ceo governa.
Mas se de tal valor foi morte dina,
A ausencia que do gôsto nos saltêa,
A perpétua saudade nos inclina.
Deixa pois tu, formosa Cytherêa,
Do gentil filho e neto de Cyniras
O pranto por a morte horrida e fêa.
E tu, dourado Apollo, que suspiras
Por o crespo Jacintho, moço charo,
Por quem a clara luz ao mundo tiras;
Vinde e chorae hum moço em tudo raro,
Não de ferino dente vulnerado,
Nem de risco sujeito a algum reparo:
Mas só de ferro imigo traspassado;
Que sem duvida incerta, ou frio medo,
A vida poz nas mãos de Marte irado.
Tambem tu, moço Idalio, assiste quedo;
Deixa de dar o venenoso mel
A beber por os olhos, triste e ledo.
Pois os formosos olhos de Miguel
Ja cobertos se vem do escuro manto
Da lei geral a todos mais cruel.
E vós, filhas de Thespis, que co'o canto
Podeis bem mitigar a dor immensa
Dos irmãos generosos e alto pranto;
Não consintais que fação larga offensa
Á grande integridade, a que se devem
Ágoas não só, do damno recompensa.
Que ja diante os olhos me descrevem,
Quando as bocas da Fama voadora
Ao patrio e claro Tejo as novas levem,
A profunda tristeza; qu'em hum'hora
Tal posse tomará dos altos peitos,
Que delles o discurso lance fóra.
Alli de dor os corações sujeitos
Hão de lançar de si toda a memoria
D'exemplos claros, solidos respeitos.
Mas, porém se igualais a vida á glória,
Ó claro Dom Philippe, e pretendeis
Deixar-nos de acções vossas larga historia;
Eu não vos persuado a que estreiteis
O coração na Estoica disciplina,
Onde livre d'affectos vos mostreis.
Que mal a natureza determina
Medo, esperanças, dores e alegria,
Como o Cynico velho nos ensina.
Immanidade estupida (dizia
O Sulmonense canto) e vil rudeza,
He não sentir affectos que a alma cria.
Porém se o sentir nada for bruteza,
E se paixão devida se consente,
Tambem o sentir muito he ja fraqueza.
Em vós hum soffrer alto s'exprimente,
Qual nos fortes Varões foi conhecido,
Como em estranha, em Lusitana gente.
Bem conheço que o corpo assi perdido,
Como de illustre tumulo carece,
Será de brutas feras consumido.
Mas consola-me, emfim, que se parece
Ao grande bisavô, que por a vida
Real, a sua á Maura lança offrece.
Em pedaços a gente enfurecida
O corpo alli lhe deixa; e com mão dura
Lhe nega a sepultura merecida.
Facil he a perda aqui da sepultura:
Diogenes prudente, e Theodoro
Pouco sentem do corpo essa jactura.
Assi formoso e inteiro, assi decoro
Adorna quem o tee, como o tomou,
Quando se ouvir o extremo som canoro.
Mas ai! qual terror subito occupou
O vosso claro peito, ó Portuguezes?
Qual pavido temor vos congelou?
Que lançadas, que golpes, que revézes
Vos fizerão fazer tamanha injúria
Aos fortes Lusitanicos arnezes?
Ou ja de Capitão sobeja incuria,
Ou fraqueza? Não: qu'elle sustentava
Com seu peito dos barbaros a furia.
Ou ja do ferreo cano a fôrça brava
Com estrondos que atroão mar e terra,
Os corações ardentes congelava?
Ah! quem vos fez que os impetos da guerra
Não sustentasseis com valor ousado,
Desprezando o temor que a vida encerra?
A vida por a Patria e por o Estado
Pondo nossos avós, a nós deixárão,
Em terra e mar, exemplo sublimado.
Elles a desprezar nos ensinárão
Todo temor. Pois como agora os netos
Subitamente assi degenerárão?
Não pódem, certo, não, viver quietos
Com feia infamia peitos generosos,
Ja em publicos lugares, ja em secretos.
Mortos d'Esparta os Héroes valerosos
Da fera multidão, fazendo extremos,
Taes Epitaphios tinhão gloriosos:
_Dirás, Hóspede, tu, que aqui jazemos
Passados do inimigo ferro, em quanto
Ás santas Leis da Patria obedecemos._
Fugindo os Persas vão com frio espanto,
Mas achão as mulheres no caminho,
Mostrando-lhes o ventre, em terror tanto.
Pois do damno fugís, vendo-o visinho,
Fracos! vinde a esconder-vos (lhes dizião)
Outra vez no materno e escuro ninho.
Vêde quaes com mais glória ficarião,
Se aquelles que morrêrão por o Estado,
S'estes a quem mulheres injurião?
Mas tu, claro Miguel, que ja acordado
Deste sonho tão breve, estás naquella
Tôrre do ceo, seguro e repousado;
Onde, com Deos unida a forte e bella
Alma, com teus Maiores reluzindo,
Trocaste cada chaga em clara estrella;
Co'os pés o crystallino ceo medindo,
Nada d'essas altissimas Espheras,
Nem da terreste aos olhos encobrindo;
Agora hum curso e outro consideras,
Agora a vaidade dos mortaes,
Que tu tambem passáras se vivêras,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
* * * * *
ELEGIA XI.
Se quando contemplamos as secretas
Causas, por que este mundo se sustenta,
E o revolver dos ceos e dos planetas;
E se quando á memoria se presenta
Este curso do sol tão bem medido,
Que hum ponto só não míngua, nem s'augmenta;
Aquelle effeito, tarde conhecido,
Da lua na mudança tão constante,
Que minguar e crescer he seu partido;
Aquella natureza tão possante
Dos ceos, que tão conformes e contrarios
Caminhão, sem parar hum breve instante;
Aquelles movimentos ordinarios,
A que responde o tempo, que não mente,
Co'os effeitos da terra necessarios;
Se quando, emfim, revolve subtilmente
Tantas cousas a leve phantasia,
Sagaz escrutadora e diligente;
Bem vê, se da razão se não desvia,
Aquelle unico Ser, alto e divino,
Que tudo póde, manda, move e cria.
Sem fim e sem princípio, hum Ser contino;
Hum Padre grande, a quem tudo he possibil,
Por mais que o difficulte humano atino:
Hum saber infinito, incomprehensibil;
Huma verdade que nas cousas anda,
Que mora no visibil e invisibil.
Esta potencia, emfim, que tudo manda,
Esta Causa das causas, revestida
Foi desta nossa carne miseranda.
Do amor e da justiça compellida,
Por os erros da gente, em mãos da gente
(Como se Deos não fôsse) deixa a vida.
Oh Christão descuidado e negligente!
Pondera-o com discurso repousado;
E ver-te-has advertido facilmente.
Ólha aquelle Deos alto e increado,
Senhor das cousas todas, que fundou
O ceo, a terra, o fogo, o mar irado;
Não do confuso caos, como cuidou
A falsa Theologia, e povo escuro,
Que nesta só verdade tanto errou;
Não dos atomos leves d'Epicuro;
Não do fundo Oceano, como Thales,
Mas só do pensamento casto e puro.
Ólha, animal humano, quanto vales,
Pois este immenso Deos por ti padece
Novo estylo de morte, novos males.
Ólha que o sol no Olympo s'escurece,
Não por opposição de outro Planeta;
Mas só porque virtude lhe fallece.
Não vês que a grande máchina inquieta
Do mundo se desfaz toda em tristeza,
E não por causa natural secreta?
Não vês como se perde a Natureza?
O ar se turba? o mar batendo geme,
Desfazendo das pedras a dureza?
Não vês que cahe o monte, a terra treme?
E que lá na remota e grande Athenas
O docto Areopagita exclama e teme?
Oh summo Deos! tu mesmo te condenas,
Por o mal em qu'eu só sou o culpado,
A tamanhas affrontas, tantas penas?
Por mi, Senhor, no mundo reputado
Por falso, e violador da sacra Lei?
A fama a ti se põe do meu peccado?
Eu, Senhor, sou ladrão, tu justo Rei.
Pois como entre ladrões eu não padeço?
A pena a ti se dá do qu'eu errei?
Eu servo sem valor, tu immenso preço,
Em preço vil te pões, por me tirares
Do captiveiro eterno que mereço?
Eu por perder-te, e tu por me ganhares
Te dás aos soltos homens, que te vendem,
Só para os homens presos resgatares?
A ti, que as almas sóltas, a ti prendem?
A ti summo Juiz, ante Juizes
Te accusão por o error dos que te offendem?
Chamão-te malfeitor; não contradizes:
Sendo tu dos Prophetas a certeza,
Dizem que quem te fere prophetizes.
Rim-se de ti; tu choras a crueza
Que sôbre elles virá: a gente dura,
Por quem tu vens ao mundo, te despreza.
O teu rosto, de cuja formosura
Se veste o ceo e o sol resplandecente,
Diante quem pasmada está a Natura,
Com cruas bofetadas da vil gente,
De precioso sangue está banhado,
Cuspido, atropellado cruelmente.
Aquelle corpo tenro e delicado,
Sôbre todos os Santos sacrosanto,
A açoutes rigorosos desangrado;
Despois coberto mal d'hum pobre manto,
Que se pegava ás carnes magoadas
Para dobrar-lhe as dores outro tanto.
Magoavão-no as chagas não curadas,
Hum tormento causando-lhe excessivo
Ao despir por as mãos crueis e iradas.
As venerandas barbas de Deos vivo
De resplandor ornadas, s'arrancavão
Para desempenhar a Adão captivo.
Com cordas por as ruas o levavão,
Levando sôbre os hombros o trophéo
Da victoria qu'as almas alcançavão.
Ó tu, que passas, homem Cyrenêo,
Ajuda hum pouco a est'Homem verdadeiro,
Que agora, como humano, enfraqueceo.
Ólha que o corpo afflicto do marteiro,
E dos longos jejuns debilitado,
Não póde ja co'o pêso do madeiro.
Oh não enfraqueçais, Deos incarnado!
Essas quédas, que tanto vos magôão,
Supportae Cavalleiro sublimado.
Aquellas altas vozes, que lá sôão,
Dos Padres são, que o Limbo tee escuro,
E ja de louro e palma vos corôão.
Todos vos bradão que subais o muro
Da cidade infernal, e que arvoreis
Em cima essa bandeira mui seguro.
Oh Santos Padres! não vos apresseis;
Pois muito mais a Deos, que a vós, custárão
Essas duras prisões em que jazeis.
Aquellas mãos que o mundo edificárão,
Aquelles pés que pízão as estrellas,
Com durissimos pregos s'encravárão.
Mas qual será o humano qu'as querellas
Da angustiada Virgem contemplasse,
Sem se mover a dor e mágoa dellas?
E que dos olhos seus não destillasse
Tanta cópia de lagrimas ardentes,
Que carreiras no rosto sinalasse?
Oh quem lhe víra os olhos refulgentes
Convertendo-se em fontes, e regando
Aquellas faces bellas e excellentes!
Quem a ouvíra com vozes ir tocando
As estrellas, a quem responde o ceo,
Co'os accentos dos Anjos retumbando!
Quem víra quando o puro rosto ergueo
A ver o Filho, que na Cruz pendia,
Donde a nossa saude descendeo!
Que mágoas tão chorosas que diria!
Que palavras tão miseras e tristes
Para o ceo, para a gente espalharia!
Pois que sería, Virgem, quando vistes
Com fel nojoso, e com vinagre amaro
Matar a sêde ao Filho que paristes?
Não era este o licor suave e claro,
Que para o confortar então darieis
A quem vos era, mais que a vida, charo.
Como, Virgem Senhora, não corrieis
A dar as puras tetas ao Cordeiro,
Que padecer na Cruz com sêde vieis?
Não era só, não, esse o verdadeiro
Poto, que vosso Filho desejava,
Morrendo por o mundo em hum madeiro;
Mas era a salvação que alli ganhava
Para o misero Adão, que alli bebia
Na fonte que do peito lhe manava.
Pois, ó pura e Santissima Maria,
Que, emfim, sentistes esta mágoa, quanto
A grave causa della o requeria;
D'essa Fonte sagrada e peito santo
M'alcançae huma gotta, com que lave
A culpa que me aggrava e pesa tanto.
Do licor salutifero e suave
M'abrangei, com que mate a sêde dura
Deste mundo tão cego, torpe e grave.
Assi, Senhora, toda criatura
Que vive e vivirá, e não conhece
A Lei de vosso Filho, a abrace pura;
O falsissimo herege, que carece
Da graça, e com damnado e falso esprito
Perturba a Santa Igreja, que florece;
O povo pertinaz no antiguo rito,
Que só o destêrro seu, que tanto dura,
Lhe diz qu'he pena igual ao seu delito;
O torpe Ismaelita, que mistura
As Leis, e com preceitos tão viciosos
Na terra estende a seita falsa e impura;
Os idolatras maos, supersticiosos,
Varios de opiniões e de costumes,
Levados de conceitos fabulosos;
As mais remotas gentes, onde o lume
Da nossa Fé não chega, nem que tenhão
Religião alguma se presume;
Assi todos, emfim, Senhora, venhão
A confessar hum Deos crucificado,
E por nenhum respeito se detenhão.
E d'hum e d'outro o vício ja deixado,
O seu Nome, co'o vosso nesse dia,
Seja por todo o mundo celebrado;
E respóndão os ceos: JESUS, MARIA.
* * * * *
ELEGIA XII. ACROSTICA.
Juizo extremo, horrifico e tremendo,
E Juiz sempiterno, alto e celeste,
Significará a terra, humedecendo.
Ver-se-ha nella hum suor que manifeste
Como em carne vem Deos, para que o veja
Homem toda esta máchina terreste;
Rei justo, que dos corpos e almas seja
Juiz; e quando o mundo cego e inculto
Sôbre espinhos crueis deitado seja,
Todo vão simulacro e gentil culto
Ousará engeitar a gente; e guerra
Fará co'o mar o fogo, e cru tumulto.
Immensa luz, que as carnes desenterra,
Lançará fóra as portas vãas do Averno,
Hum Justo e outro alçando á santa terra.
Outros, que são os maos, no fogo eterno
Deitará, descobrindo-se os segredos,
E sendo claro todo feito interno.
Desfeitos serão montes e penedos,
E será tudo pranto e estridor duro;
Obras de grande dor e tristes medos.
Será tornado o sol de todo escuro,
E destruida a máchina do mundo,
Sem luz as luzes todas do Orbe puro;
Altos serão os valles, e em profundo
Lugar se abaterão os altos montes;
Vibrará mares vento furibundo:
Haverá só de chammas vivas fontes:
De trombeta tremenda som terribil,
Ouvido, fara pallidas as frontes.
Responderá dos maos gemido horribil.
* * * * *
EPISTOLAS.
EPISTOLA I.
Quem póde ser no mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão exprimentado, ou tão discreto,
Tão fóra, emfim, de humano entendimento,
Que ou com público effeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juizo quasi incerto,
Ver e notar do mundo o desconcêrto?
Quem ha que veja aquelle que vivia
De latrocinios, mortes e adulterios,
Que ao juizo das gentes merecia
Perpétua pena, immensos vituperios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, emfim, que tudo são mysterios,
Em alteza d'estados triumphante,
Que por livre que seja não s'espante?
Quem ha que veja aquelle, que tão clara
Teve a vida, qu'em tudo por perfeito
O proprio Momo ás gentes o julgára,
Inda quando lhe visse aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bom somente avara,
O reprime, e lhe nega seu direito,
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja exprimentado?
Democrito dos deoses proferia
Que erão sós dous; a Pena, e o Beneficio.
Segredo algum será da phantasia,
De qu'eu achar não posso claro indicio.
Que se ambos vem por não cuidada via
A quem os não merece, he grande vício
Em deoses sem-justiça e sem-razão.
Mas Democrito o disse, e Paulo não.
Dir-me-heis, que s'este estranho desconcêrto
Novamente no mundo se mostrasse,
Que por livre que fosse e mui experto,
Não era d'espantar se m'espantasse.
Mas que se ja de Socrates foi certo
Que nenhum grande caso lhe mudasse
O vulto, ou de prudente, ou de constante,
Exemplo tome delle, e não m'espante.
Parece a razão boa; mas eu digo
Deste uso da Fortuna tão damnado
Que quanto he mais usado e mais antigo,
Tanto he mais estranhado e blasphemado.
Porque, se o Ceo, das gentes tão amigo
Não dá á Fortuna tempo limitado,
Não he para causar mui grande espanto,
Que mal tão mal olhado dure tanto?
Outro espanto maior aqui m'enleia,
Que com quanto Fortuna tão profana
Com estes desconcertos senhoreia,
A nenhuma pessoa desengana.
Não ha ninguem, que assente, nem que creia
Este discurso vão da vida humana,
Por mais que philosophe, nem qu'entenda,
Que algum pouco do mundo não pretenda.
Diogenes pisava de Platão
Com seus sordidos pés o rico estrado,
Mostrando outra mais alta presumpção
Em desprezar o fausto tão prezado.
Diogenes, não vês que extremos são
Esses que segues, de mais alto estado?
Pois se de desprezar te prezas muito,
Ja pretendes do mundo fama e fruito.
Deixo agora Reis grandes, cujo estudo
He fartar esta sêde cubiçosa
De querer dominar e mandar tudo,
Com fama larga e pompa sumptuosa.
Deixo aquelles que tomão por escudo
De seus vicios e vida vergonhosa
A nobreza de seus antecessores,
E não cuidão de si que são peores.
Aquelle deixo, a quem do somno esperta
O grão favor do Rei que serve e adora,
E se mantee dest'aura falsa e incerta,
Que de corações tantos he senhora.
Deixo aquelles qu'estão co'a boca aberta
Por s'encher de thesouros de hora em hora,
Doentes desta falsa hydropesia,
Que quanto mais alcança, mais queria.
Deixo outras obras vãas do vulgo errado,
A quem não ha ninguem que contradiga,
Nem de outra cousa alguma he governado,
Que d'huma opinião e usança antiga.
Mas pergunto ora a Cesar esforçado,
Ora a Platão divino, que me diga,
Este das muitas terras em que andou,
Aquelle de vencê-las, que alcançou?
Cesar dirá: Sou digno de memoria:
Vencendo povos varios e esforçados,
Fui Monarca do mundo; e larga historia
Ficará de meus feitos sublimados.
He verdade: mas esse mando e glória,
Lograste-o muito tempo? Os conjurados
Bruto e Cassio dirão que, se venceste,
Emfim, emfim, ás mãos dos teus morreste.
Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo
Fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
Só por ver e escrever em alto estilo
Da natural sciencia e muitas artes.
O tempo he breve, e queres consumi-lo,
Platão, todo em trabalhos? e repartes
Tão mal de teu estudo as breves horas,
Que, emfim, do falso Phebo o filho adoras?
Pois quanto des que vive ja apartada
A alma desta prisão terreste e escura;
Está em tamanhas cousas occupada,
Que da fama, que fica, nada cura.
E se o corpo terreno sinta nada,
O Cynico dirá se por ventura
No campo, onde lançado morto estava,
De si os cães, ou as aves enxotava.
Quem tão baixa tivesse a phantasia,
Que nunca em mores cousas a metesse,
Qu'em só levar seu gado á fonte fria,
E mungir-lhe do leite que bebesse,
Quão bem-aventurado que sería!
Que por mais que a Fortuna revolvesse,
Nunca em si sentiria maior pena,
Que pezar-lhe de a vida ser pequena.
Veria erguer do sol a roxa face,
Veria correr sempre a clara fonte,
Sem imaginar a ágoa donde nace,
Nem quem a luz occulta no Horizonte.
Tangendo a frauta donde o gado pace,
Conheceria as hervas do alto monte,
Em Deos creria simples e quieto,
Sem mais especular algum secreto.
D'hum certo Trasilao se lê e escreve
Entre as cousas da velha antiguidade,
Que perdido grão tempo o siso teve
Por causa d'huma grave enfermidade;
E em quanto, de si fóra, doudo esteve,
Tinha por teima, e cria por verdade,
Qu'erão suas, das naos que navegavão,
Quantas no porto Píreo ancoravão.
Por hum Senhor mui grande se teria,
(Além da vida alegre que passava)
Pois nas que se perdião não perdia,
E das que vinhão salvas se alegrava.
Não tardou muito tempo, quando hum dia
Huncrito, seu irmão, que ausente estava,
Á terra chega; e vendo o irmão perdido,
Do fraternal amor foi commovido.
Aos Medicos o entrega, e com aviso
O faz estar á cura refusada.
Triste! que por tornar-lhe o antigo siso
Lhe tira a doce vida descansada.
As hervas Apollineas d'improviso
O tornão á saude ja passada.
Sisudo Trasilao, ao charo irmão
Agradece a vontade, a obra não.
Porque despois de ver-se no perigo
Do trabalho a que o siso o obrigava,
E despois de não ver o estado antigo,
Que a louca presumpção lhe apresentava:
Oh inimigo irmão, com côr de amigo!
Para que me tiraste (suspirava)
Da mais quieta vida e livre em tudo,
Que nunca pôde ter nenhum sisudo?
Por qual Senhor algum eu me trocára,
Ou por qual algum Rei de mais grandeza?
Que me dava que o mundo se acabára,
Ou que a ordem mudasse a natureza?
Agora me he penosa a vida chara;
Sei que cousa he trabalho, e qu'he tristeza.
Torna-me a meu estado; qu'eu te aviso
Que na doudice só consiste o siso.
Vêdes aqui, Senhor, bem claramente
Como a Fortuna em todos tee poder,
Senão só no que menos sabe e sente;
Em quem nenhum desejo póde haver.
Este se póde rir da cega gente;
Neste não póde nada acontecer;
Nem estara suspenso na balança
Do temor mao, da perfida esperança.
Mas se o sereno Ceo me concedêra
Qualquer quieto, humilde e doce estado,
Onde com minhas Musas só vivêra,
Sem ver-me em terra alheia degradado;
E alli outrem ninguem me conhecêra,
Nem eu conhecêra outro mais honrado,
Senão a vós, tambem como eu contente;
Que bem sei que o serieis facilmente:
E ao longo d'huma clara e pura fonte,
Qu'em borbulhas nascendo, convidasse
Ao doce passarinho, que nos conte
Quem da chara consorte o apartasse;
Despois, cobrindo a neve o verde monte,
Ao gasalhado o frio nos levasse,
Avivando o juizo ao doce estudo,
Mais certo manjar d'alma, emfim, que tudo.
Cantára-nos aquelle, que tão claro
O fez o fogo da árvore Phebêa,
A qual elle em estylo grande e raro
Louvando, o crystallino Sorga enfrêa;
Tangêra-nos na frauta Sanazaro,
Ora nos montes, ora por a arêa;
Passára celebrando o Tejo ufano
O brando e doce Lasso Castelhano.
E comnosco tambem se achára aquella,
Cuja lembrança, e cujo claro gesto
N'alma somente vejo, porque nella
Está em essencia puro e manifesto;
Por alta influição de minha estrella
Mitigando o rigor do peito honesto,
Entretecendo rosas nos cabellos,
De que tomasse a luz o sol em vellos;
E em quanto por Verão flores colhesse,
Ou por Inverno ao fogo accommodado,
O que de mi sentíra nos dissesse,
De puro amor o peito salteado;
Não pedíra então eu, que Amor me désse
Do insano Trasilao o doudo estado;
Mas que alli me dobrasse o entendimento,
Por ter de tanto bem conhecimento.
Mas por onde me leva a phantasia?
Porqu'imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia,
Qu'inda me não consente as esperanças?
Se hum novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado,
Que não póde ser mais qui'maginado?
Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou
Contra mi, porque mais me magoasse:
Amor a hum vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna mo negasse.
O tempo a tal estado me chegou;
E nelle quiz que a vida se acabasse;
Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio;
Que até da muita vida me receio.
* * * * *
EPISTOLA II.
Como nos vossos hombros tão constantes
(Principe illustre e raro) sustenteis
Tantos negocios arduos e importantes,
Dignos do largo Imperio, que regeis;
Como sempre nas armas rutilantes
Vestido, o mar e a terra segureis
Do pirata insolente, e do tyrano
Jugo do potentissimo Othomano;
E como com virtude necessaria,
Mal entendida do juizo alheio,
Á desordem do vulgo temeraria
Na santa paz ponhais o duro freio;
Se com minha escriptura longa e vária
Vos occupasse o tempo, certo creio
Que com vagante e ociosa phantasia
Contra o commum proveito peccaria.
E não menos sería reputado
Por doce adulador, sagaz e agudo,
Que contra meu tão baixo e triste estado
Busco favor em vós que podeis tudo,
Se contra a opinião do vulgo errado
Vos celebrasse em verso humilde e rudo.
Dirão, que com lisonja ajuda peço
Contra a miseria injusta que padeço.
Porém, porque a verdade póde tanto
No livre arbitrio, (como disse bem
Ao Rei Dario o moço sabio e santo,
Que foi reedificar Hierusalem)
Esta m'obriga a qu'em humilde canto,
Contra a tenção que a plebe ignara tem,
Vos faça claro a quem vos não alcança;
E não de premio algum vil esperança.
Romulo, Baccho e outros que alcançárão
Nomes de semideoses soberanos,
Em quanto por o mundo exercitárão
Altos feitos, e quasi mais que humanos,
Com justissima causa se queixárão
Que não lhes respondêrão os mundanos
Favores do rumor justo
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