Memórias
by Raul Brandão · Portuguese · Gutenberg #35762 · 409,075 chars · public domain (US)
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Title: Memórias
Author: Raul Brandão
Release date: April 3, 2011 [eBook #35762]
Most recently updated: January 7, 2021
Language: Portuguese
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*Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
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Rita Farinha (Abril 2011)
Direitos reservados
MEMORIAS
DE RAUL BRANDÃO
A PUBLICAR:
Theatro cinematographico
A historia humilde
RAUL BRANDÃO
Memorias
1.^o VOLUME
EDIÇÃO DA
«RENASCENÇA PORTUGUESA»
PORTO
AOS MORTOS
[Figura]
PREFACIO
Janeiro de 1918.
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e
paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas
horas diante do que é eterno, embebido ainda n'este sonho poído. Não me
habituo: não posso vêr uma arvore sem espanto, e acabo desconhecendo a
vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo
esplendido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não
sei--nem me importo--se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do
meu sêr agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este
espectaculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso me enche: levo-o
para a cova, para remoer durante seculos e seculos, até ao juizo final.
Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais horas
perdidas... Fugi sempre dos phantasmas agitados, que me metem medo. Os
homens que mais me interessaram na existencia foram outros: foram, por
exemplo, D. João da Camara, poeta e santo, Correia d'Oliveira, um chapeu
alto e nervos, nascido para cantar, Columbano e a sua arte exclusiva, e
alguns desgraçados que mal sabiam exprimir-se. Conheci muitos ignorados
e felizes. Meio doidos e atonitos. O Napoles ainda hoje dorme sobre a
mesma rima de jornaes?... Outro andava roto e dava tudo aos pobres. O
homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte.
De dôr tambem.
A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada... De
tudo o que se passou comigo só conservo a memoria intacta de dois ou
tres rapidos minutos. Esses sim! Teimam, reluzem lá no fundo e
enebriam-me, como um pouco d'agua fria embacia o copo. Só de pequeno
retenho impressões tão nitidas como na primeira hora: ouço hoje como
hontem os passos de meu pae quando chegava a casa; vejo sempre diante
dos meus olhos a mancha azul ferrete das hydranjas que enchiam o
canteiro da parede. O resto esvae-se como fumo. Até as figuras dos
mortos, por mais esforços que eu faça, cada vez se afastam mais de
mim... Algumas sensações, ternura, côr, e pouco mais. Tinta. Pequenas
coisas frivolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o
cabedelo d'oiro, a outra banda verde... Passou depois por mim o tropel
da vida e da morte, assisti a muitos factos historicos, e essas
impressões vão-se desvanecidas. Ao contrario este facto trivial ainda
hoje o recordo com a mesma vibração: a morte daquella laranjeira que, de
velha e tonta, deu flôr no inverno em que seccou. O resto usa-se hora a
hora e todos os dias se apaga. Todos os dias morre.
Lá está a velha casa abandonada, e as arvores que minha mãe, por sua
mão, dispoz: a bica deita a mesma agua indiferente, o mesmo barco
archaico sobe o rio, guiado á espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé
sobre a gaiola de pinheiro. Só os mortos não voltam. Dava tudo no mundo
para os tornar a vêr, e não ha lagrimas no mundo que os façam
resuscitar.
Esta Foz de ha cincoenta annos, adormecida e doirada, a Cantareira, no
alto o Monte, depois o farol e sempre ao largo o mar diaphano ou
colerico, foi o quadro da minha vida. Aqui ao lado morreu a minha avó;
no armario, metido na parede como um beliche, dormiu em pequeno o meu
avô, que desapareceu um dia no mar com toda a tripulação do seu brigue,
e nunca mais houve noticias d'elle. Lembro-me da avó e da tia Iria, de
saia de riscas azues, sentadas no estrado da sala da frente, e possuo
ainda o volume desirmanado do Judeu que ellas liam, com o _Feliz
Independente do mundo e da fortuna_ e as _Recreações philosophicas_ do
padre Theodoro d'Almeida. Ouço, desde que me conheço, sahir do negrume,
alta noite, a voz do moço chamando os homens da companha:--Ó sê Manuel
cá p'ra baixo p'r'o mar!--Vi envelhecer todos estes pescadores, o Bilé,
o Mandum, o Manuel Arraes, que me levou pela primeira vez, na nossa
lancha, ao largo. Ha que tempos!--e foi hontem... A quarenta braças
lança-se o ancorote. Na noite cerrada uma luzinha á prôa; do mar
profundo--chape que chape--só me separa o cavername. Deito-me com os
homens sob a vela estendida. Primeiro livor da manhã, e não distingo a
luz do dia do pó verde do mar. Nasce da agua, mistura-se na agua, com
reflexos baços, a claridade salgada que palpita, o ar vivo que respiro,
o oceano immenso que me envolve.--Iça! iça!--e as redes sobem pela polé,
cheias de algas e de peixe, que se debate no fundo da catraia. Voltamos.
Já avisto, á vela panda, o farolim, depois Carreiros; um ponto branco,
alem no areal, é o Senhor da Pedra, e a terra toda, roxa e diaphana,
emerge emfim, como uma aparição, do fundo do mar. A onda quebra. Eis a
barra. Agora o leme firme!... As mulheres, de perna nua, acodem á praia
para lavar as rêdes, e o velho piloto mór, de barba branca, sentado á
porta da Pensão, fuma inalteravel o seu cachimbo de barro. O azul do
mar, desfeito em poalha, mistura-se ao oiro que o céo derrete. Mais
barcos vão aparecendo, vela a vela: o _Vae com Deus_, a _Senhora da
Ajuda_, o _Deus te guarde_, e os homens, de pé, com o barrete na mão,
cantam o _bemdito_, tanta foi a pesca.--Quantas duzias?--Um cento! dois
centos!--Nas linguetas de pedra salta a pescada de lista preta no lombo,
a raia viscosa, o ruivo de dorso vermelho, ou, no inverno, a sardinha
que os bateis carreiam do mar inexgotavel, estivando de prata todo o
caes. Ás vezes o peixe miudo e vivo é tanto, que não bastam os
almocreves com os seus burros canastreiros, as varinas com os seus
gigos, nem as mulheres de saia ensacada e perna á mostra, para o
levarem, apregoando-o, por essa terra dentro. Dá-se a quem o quer,
faz-se o quinhão dos pobres. Em setembro são as marés vivas. Mais tarde
cresce do mar um negrume. Acastelam-se as nuvens no poente, e forma-se
para o sul uma parede compacta que tem legoas de espessura. A voz é
outra, clamorosa, e, á primeira lufada, bandos de gaivotas grasnam pela
costa fóra, anunciando o inverno que vem proximo. O quadro muda, e os
homens morrem á bocca da barra, na Pedra do Cão, agarrados aos remos,
sacudidos no torvelinho da resaca, o velho arraes de pé, as duas mãos
crispadas no leme, cuspindo injurias, para lhes dar animo, e todo o
mulherio da Povoa, de Matosinhos, da Afurada--vento sul, camaroeiro
içado--com as saias pela cabeça, salpicadas de espuma e molhadas de
lagrimas:--Ai o meu rico homem! o meu filho que o não torno a ver!--E
chamam por Deus, ou insultam o mar, que, inverno a inverno, lh'os leva
todos para o fundo.
O que sei de bello, de grande ou de util, aprendi-o n'esse tempo: o que
sei das arvores, da ternura, da dôr e do assombro, tudo me vem desse
tempo... Depois não aprendi coisa que valha. Confusão, balburdia e mais
nada. Vacuidade e mais nada. Figuras equivocas, ou, com raras excepções,
sentimentos baços. Amargor e mais nada. Nunca mais. Nunca Londres ou a
floresta americana me incutiram misterio que valesse o dos quatro palmos
do meu quintal. Nunca caça ás feras no canavial indiano foi mais fertil
em emoção e aventura, que a armadilha aos passaros na poça do Monte, com
o Manuel Barbeiro. Uma nora, dois choupos, a agua empapada, e, entre as
hervas gordas como bichos, pégadas de bois cheias de tinta azul,
reflectindo o céo implacavel de agosto. Os passaros com as azas abertas
desconfiam e hesitam: a sêde aperta-os, o sol escalda-os. Mal pousam na
armadilha agarramol-os com ferocidade. Chiu!... Uma andorinha descreve
lá no alto um circulo perfeito, e vem, no vôo desferido, arripiar com o
bico a agua estagnada. Toca n'uma palheira de visco--é nossa! Já tiveste
nas mãos uma andorinha? É pennas e vida phrenetica. E essa vida
pertence-te!... Só ao fim da tarde regressava a casa com os bolsos
cheios de rans e os olhos deslumbrados. Nenhuma figura tôrva, nem o
Anti-Christo, me communicou terror semelhante ao do inofensivo Manco da
esquina, que escondia de manhã a barba que lhe chegava ao umbigo, entre
o peito e a camisa, para a sacar de noite, quando sahia á estrada... Sou
capaz de te dizer qual o tom verde de certos dias, quando o pecegueiro
bravo encostado ao muro floresce. O murmurio da minha bica não me sae
dos ouvidos até á hora da morte. Quasi todos os meus amigos--o Nel, que
não tornei a ver...--são d'essa epocha. D'outras impressões mais tardias
não restarão vestigios, mas tenho sempre presentes os mesmos pinheiros
mansos--que já não existem--acenando para a barra, e alta noite acordo
ouvindo o rebramir do mar longinquo. Nos dias de desgraça é sempre a
mesma voz que chama por mim... Olha, olha ainda e extasia-te: o rio
parece um lago, e um bando de gaivotas desfolhadas alastra sobre a tinta
azul, com laivos esquecidos do poente. Boia espuma na agua viva que a
maré traz da barra... E não ha cheiro a flores que se compare a este
cheiro do mar.
Agosto de 1910.
Aos 23 do mez passado morreu meu pae amachucado, exhausto e pobre.
Encontrão de um, repelão de outro, assim foi até á cova. Tinha 67 annos
incompletos. Não podia mais. Encontraram-lhe alguns cobres no bolso. Ha
muitos annos que se arrastava, e só tinha de seu uma alegria e um
repouso: os domingos. Aos domingos metia-se no quarto, calçava uns
chinelos, e toda a tarde chorava lagrimas sem fim sobre um velho romance
de Camillo. Minha mãe pouco mais durou, com um olhar de pasmo. Lá ficou
a velha casa abandonada...
Sobe a lua no céo, e a sombra no monte. Seis arvores, quatro
paredes--tudo aqui me enche de saudades. A bica continua a correr, mas
outras sêdes se apagarão n'aquella agua. Outros virão tambem sentar-se
no banco de pedra... Só me resta a tua mão querida, que a meu lado
segura a minha mão. Os mortos chamam por nós cada vez mais alto... Olho
para ti e os teus primeiros cabellos brancos fazem-me chorar.
Setembro de 1910.
Hoje acordei com este grito: eu não soube fazer uso da vida!
O que me pesa é a inutilidade da vida. Agarro-me a um sonho;
desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me
repete:--É inutil! é inutil!
A aquiescencia, o sorriso:--pois sim... pois sim...--a necessidade de
transigir, o preceito, a lei, fizeram de mim este sêr inutil, que não
sabe viver e que já agora não pode viver. Não grito de desespero porque
nem de desespero sou capaz.
A vida antiga tinha raizes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa
epocha é horrivel porque já não cremos--e não cremos ainda. O passado
desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós, sem
tecto, entre ruinas, á espera...
Não entendo nada da vida. Cada dia que avança entendo menos da vida.
Contudo ha horas, as horas perdidas--e só essas--que queria tornar a
viver e a perder.
Deus, a vida, os grandes problemas, não são os philosophos que os
resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As
coisas bellas reduzem-se a meia duzia: o tecto que me cobre, o lume que
me aquece, o pão que como, a estôpa e a luz.
Detesto a acção. A acção mete-me medo. De dia pódo as minhas arvores, á
noite sonho. Sinto Deus--toco-o. Deus é muito mais simples do que
imaginas. Rodeia-me--não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de
mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e sustenta
e que tanta força tem...
Como em ti, ha em mim varias camadas de mortos não sei até que
profundidade. Ás vezes convoco-os, outras são elles, com a voz tão
sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna:
só num silencio mais profundo ainda, conto ouvil-os a todos.
Nunca os meus me chamaram tão alto. Sentam-se a meu lado. Rodeiam-me, e
pouco a pouco o circulo da minha vida restringe-se a um ponto--a cova.
Teimo: ha uma acção interior, a dos mortos, ha uma acção exterior, a da
alma. A inteligencia é exterior e universal e faz-nos vibrar a todos
d'uma maneira diferente. Destas duas acções resulta o conflicto tragico
da vida. O homem agita-se, debate-se, declama, imaginando que constroe e
se impõe--mas é impelido pela alma universal, na meia duzia de coisas
essenciaes á Vida, ou obedece apenas ao impulso incessante dos mortos.
A minha alegria em velho consistiria em ter aqui meu pae para falar com
elle. Não é só saudade que sinto: é uma impressão physica. Agora é que
acharia encanto até ás lagrimas em termos a mesma idade, conversarmos ao
pé do lume e morrermos ao mesmo tempo...
Fevereiro de 1918.
Isso que ahi fica não são memorias alinhadas. Não teem essa pretensão.
São notas, conversas colhidas a esmo, dois traços sobre um
acontecimento--e mais nada. Diante da fita que a meus olhos absortos se
desenrolou, interessou-me a côr, um aspecto, uma linha, um quadro, uma
figura, e fixei-os logo no canhenho que sempre me acompanha. Sou um mero
espectador da vida, que não tenta explical-a. Não afirmo nem nego. Ha
muito que fujo de julgar os homens, e, a cada hora que passa, a vida me
parece ou muito complicada e misteriosa ou muito simples e profunda. Não
aprendo até morrer--desaprendo até morrer. Não sei nada, não sei nada, e
saio d'este mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que
nos guiam: só a paixão e a chimera nos levam a resoluções definitivas. O
papel dos doidos é de primeira importancia neste triste planeta, embora
depois os outros tentem corrigil-o e canalisal-o... Tambem entendo que é
tão dificil asseverar a exactidão de um facto como julgar um homem com
justiça. Todos os dias mudamos de opinião, todos os dias somos
empurrados para leguas de distancia por uma coisa phrenetica, que nos
leva não sei para onde. Succede sempre que, passados mezes sobre o que
escrevo--eu proprio duvido e hesito. Sinto que não me pertenço... É por
isso que não condemno nem explico nada, e fujo até de descer dentro de
mim proprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo--para não
ter de discriminar até que ponto creio ou não creio, e de verificar o
que me pertence e o que pertence aos mortos. De resto isto de ter
opiniões não é facil. Sempre que me dei a esse luxo, fui forçado a
reconhecer que eram falsas ou erroneas. Sou talvez uma arvore que cresce
á sua vontade, pernada para aqui, pernada para acolá, á chuva e ao
vento. Não admitto poda. Perco horas com inutilidades, e passo alheado e
frio diante do que os outros contemplam extasiados. Admiro, por exemplo,
muito mais, perdoem-me, a vida ignorada do meu visinho, o senhor Crasto,
que morreu de oitenta annos, curvado, a lavrar a terra, do que a do
senhor Hintze Ribeiro, que considero inutil e destituida de toda a
belleza.
Por isso, repito, muitas folhas destes canhenhos serão mal
interpretadas, talvez alguns tipos falsos. Só vemos mascaras, só lidamos
com phantasmas, e ninguem, por mais que queira, se livra de paixões. No
que o leitor deve acreditar é na sinceridade com que na ocasião as
escrevi. Poderão objectar-me:--Então com que destino publico tantas
paginas desalinhadas, de que eu proprio sou o primeiro a duvidar? É que
ellas ajudam a reconstituir a atmosphera d'uma epocha; são, como dizia
um grande espirito, o lixo da historia. Ensinam e elucidam. Foi sempre
com a legenda que se construiu a vida. Sei perfeitamente que a historia
viva tanto se faz com a verdade como com a mentira--se não se faz mais
com a mentira do que com a verdade. Para gerar um acontecimento é
preciso crear-lhe primeiro a atmosphera propicia. «Algumas palavras sob
caricaturas grosseiras dispersas pelos campos, formaram uma lenda na
imaginação popular, concernente ao rei, á rainha, ao conde de Artois, a
madame Lamballe, ao pacto da fome, _aos vampiros que sugam o sangue do
povo_, etc. Dessa lenda, que elle acha util, sahiu a grande
revolução»--diz um historiador. A gente nunca sabe ao certo se da
infamia poderão nascer coisas bellas... A mentira, o boato, o que se diz
ao ouvido, o que se deturpa, e que tanta força tem, a meada de odio, de
ambição e de interesses, que não cabe na historia com H grande, tem o
seu logar n'um livro como este de memorias despretenciosas. Eis uma
razão. Tenho outra ainda: torno a vêr e a ouvir alguns mortos. Recordo,
o que é necessario a quem cada vez mais se isola com o seu sonho e as
suas arvores. Isto aquece quasi tanto os primeiros annos da minha
velhice, como o lume que arde até junho na lareira d'esta casa[1].
Cantareira, Foz do Douro--1918.
ALGUMAS FIGURAS
Janeiro--1900.
Urbano de Castro, com um olho tôrto e um chapelinho afadistado, na
aparencia reservado e sardonico, sae-se encantador na intimidade. Os
seus amigos adoram-no, o Camara, o Schwalbach, a antiga roda do _Correio
da Manhã_. Trouxe para o jornalismo uma grande leitura de
classicos--conhece muito a lingua--e uma forma ironica e precisa: em
meia duzia de linhas incisivas deixa o adversario a sangrar. Os
politicos temem-no tanto, que uma das condições impostas pelo José
Luciano, quando do pacto com o Hintze, foi que o Urbano terminasse na
_Tarde_ com o _Espirito de S. Ex.^a_.
Eis algumas maximas de Urbano de Castro:
--A paciencia é uma virtude de capote e lenço.
--Quanto mais leve é a cabeça da mulher, mais pesada é a do marido.
--Os homens publicos são como os papeis de credito--o que hoje tem
uma alta cotação, amanhã não vale, e inversamente.
--Quando tiveres muitos argumentos, não empregues senão os
melhores. Quando não tiveres nenhum, emprega todos.
--A paternidade é, muitas vezes, um rotulo. A garrafa é a mesma,
mas o vinho é outro.
--Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica.
--No coração mora-me Deus, no figado o diabo.
--Mortal é o contrario de imortal. Imortal é o que é sempre. Logo,
mortal--é o que não é nunca.
--Theologia--a arte de fazer comprehender aos outros aquillo que
nós não entendemos.
--De todas as armas, a mais dificil de manejar é o pau... de dois
bicos.
--Jornalista--fabricante da opinião publica. Cada um afirma que a
unica genuina é a da sua lavra.
--Se os homens de mais juizo pensarem a serio em muitos dos seus
actos hão de reconhecer que não teem juizo nenhum.
--O suicida tem para mim um lado sympathico--não se julga
insubstituivel.
Junho--1903.
Deparo hoje com o Garrido, redondinho, baixo, de bigode grisalho e um
ventre de proprietario. Nunca se altera nem perde a paciencia. Jovial?
Não, triste e falando sempre baixinho. Tem ganho fortunas, tem dissipado
fortunas com o mesmo ar inalteravel. Houve ocasiões em que todos os
theatros do Rio representaram peças com o seu nome. Está cheio de
dividas. E o seu ideal, o ideal d'esta existencia de acaso, com aflições
de morte, ou dispersa pelo Brazil entre dois numeros de opereta--pan!
pan! pan!--e dinheiro atirado a rodos, é um casebre no campo, duas
arvores n'um retalho de horta viçosa e uma nora pingue que pingue no
fundo do quintal. Paz. E não escrever uma linha.
Um agiota não o larga. É este velhinho paternal, de cabellos brancos,
que faz recados, deita as cartas ao correio e leva coiro e cabelo.
Parece inofensivo. Começou a vida por creado de servir e esfolou os
patrões. Afirma que o Garrido é capaz de arrancar dinheiro a um morto:
--Este senhor Garrido dá-me cada aflição! Até me faz crear caspa!
Fevereiro--1900.
A paixão d'este homem é não ter um livro de geito. G... só escreveu trez
folhetos, e por ahi ficou o seu talento. Espremido não deu mais nada. É
no entanto uma figura epigramatica e nitida de conversador e um typo
curioso de bohemio lisboeta. Dormiu nas escadas dos predios, pertenceu
ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até ante manhã, dispersando
com elle o oiro da sua esplendida phantasia. Para essa meia duzia de
bohemios improvisou o grande escriptor as suas melhores satyras. Uma
noite, no café, G... aludiu á sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu:
--A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos
pedindo vinte e cinco tostões emprestados.
G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no dialogo,
para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha ha pouco casado rico
com uma prima, que gastou a vida a esperal-o no fundo da provincia:
--O Fialho fazes favor de me dizer que horas são... no relogio do teu
sogro?
Fevereiro--1903.
Vejo sempre diante de mim o D. João da Camara, já cansado e e asmathico,
olhando por cima das lunetas, e falando baixinho com receio, uma
modestia no dizer, e um medo de magoar... A barba espessa, a grenha
espessa e um chapelinho pôsto ao lado, completam a figura um pouco
molle. É quasi um santo. Joga e jejua. Dá tudo o que tem. Exploram-no.
--O que me perdeu na vida foi não ter energia. Nunca me decido.--E mais
baixo:--Isto vem talvez dos jesuitas que me educaram. Tive alguns
condiscipulos que são homens notaveis e ninguem dá por elles.
Vive de noite, com uns e outros, ao acaso, nos bastidores dos theatros,
ou encantado com uma ceiasinha na taberna, que descobriu no Arco da
Bandeira. Se encontra o Pinturas está perdido: não se largam mais. Vae
sempre para casa de manhã, e a sua vida é tão aflictiva que desejaria,
como o Schwalbach, que o metessem algum tempo no Limoeiro, para não
pensar no dia seguinte.
Hontem contou-me isto que é encantador:
--Não me importava nada de ter quatorze filhos em vez de sete. São muito
meus amigos. O Vicente nunca sae de casa sem me dar um beijo. Eu estou
sempre a dormir... Esta manhã--estava acordado, mas fingi que dormia,
quando aquelle rapagão me entrou no quarto, pé ante pé, para não me
acordar, e beijou-me...
E fica extatico.
Ás vezes fala-me das peças que ha-de fazer, do _Sermão da Montanha_ e de
outra com tipos de sonhadores, que se alimentam de mentira e de um
passado que nunca existiu, forjado ponto por ponto. Assobia-se, por
exemplo, um trecho d'opera, e logo este atalha:--Bem sei é da
_Dinorah!_... Tempos que já lá vão! O que eu vivi com Fulano e Sicrano,
e as ceias que demos juntos!--Tudo ilusão! tudo sonho! Vae-se a ver nem
sequer conheceram as pessoas de quem falam... Outras vezes conta-me a
sua vida:
--O que eu tenho sofrido! Tive muitos dias d'angustia... N'essa noite _O
Pantano_ cahira. Toda a gente dizia mal de mim. Nos bastidores a intriga
fervia com a Lucinda á frente. Sahi do theatro a pensar no que havia de
empenhar no dia seguinte. Fui para casa muito tarde.--Não haveria que
pôr no prégo?--Por fim descobri uma casaca, e, ainda muito cedo, sahi
com o embrulho debaixo do braço, n'um papel de jornal. O papel amolecia,
a casaca rompia para fóra, e eu batia de prégo em prégo. Sete horas da
manhã... Estavam todos fechados. N'um disseram-me com seccura:--Não
emprestamos sobre casacas.--Fui a outro e esperei no portal que abrisse.
Lembro-me como se fosse hoje. Chovia a potes. Defronte, estava uma
carroça, com um cavallo branco. Era um burro pelle e osso, a cabeça
metida n'uma linhagem, a comer. E eu no portal, com o embrulho já todo
roto debaixo do braço, invejei aquelle cavalo!...
Já não joga. Mas antigamente ia todos os dias para casa ás cinco horas,
tendo perdido tudo:--Foi n'essas noites que imaginei as minhas melhores
peças...--Cuidadosamente punha sempre de lado um tostão para o
americano--e quasi sempre succedia tambem que um velho fidalgo, das suas
relações, lhe pedia o tostão emprestado para um calice de vinho do
Porto, que se habituara a beber ahi pelas tres da madrugada. O D. João
dava-lh'o, e lá ia a pé para a Junqueira, a sonhar nas peças, sob a
lufada, molhado até aos ossos, de casaco de alpaca.
[Figura: _Columbano._--Auto-retrato.]
Junho--1903.
Passei a noite em casa do Columbano, com o Raphael Bordalo Pinheiro.
Durante o jantar falou sempre. Todo elle mexe, todo elle é caricatura e
imprevisto: os olhos, o nariz, as mãos e até o bigode que se encrespa,
desenham e imitam.--Era um homem com um ôlho assim...--E logo o ôlho se
lhe envieza. Em rapaz o seu sonho era o theatro. Chegou a ter lições do
Rosa pae. Está um pouco cansado. Queixa-se muito. Amua.--Ninguem faz
caso de mim...--Estranha quando o não vão esperar á estação--e está
sempre a chegar das Caldas e partir para as Caldas. Depois esquece-se e
põe-se a rir. Depois torna:--Eu não jogo, mas lá em casa todas as noites
jogam e pedem-me dinheiro emprestado.--Agora arremeda este e aquelle de
quem fala. Conta que em Paris ouviu o rei dizer:--Isto aqui é uma terra,
lá é uma piolheira.--E que o infante, quando lhe perguntaram:--Então em
Londres que tal, com aquelles principes todos?--Mal, mal... eu sou um
principe aza de mosca...
E acaba--é nas vesperas do jantar que lhe vão oferecer no theatro D.
Maria--por dizer:--Veja o senhor que desgraça a minha! Daqui a pouco não
posso fazer a caricatura de ninguem!
Efectivamente lá estavam no banquete todos os homens imponentes, os
conselheiros, os politicos decorativos, a serie completa das figuras do
_Antonio Maria_. Não faltou ninguem á chamada. E nos camarotes
aplaudiram-no com delirio as lisboetas palidas de que troçou em tantas
paginas de genio. Confundiram-no e arrazaram-no. Creio que foi a
primeira vez que perdeu a linha.
Gostou sempre de fazer partidas. É o Schwalbach que conta:
--O imperador do Brazil logo que chegava ao theatro metia-se no
camarote, descalçava as botas e calçava com regalo uns chinelos. Uma
noite o Raphael, que estava então no Rio, foi pé ante pé, meteu a mão
pela cortina e roubou-lhe as botas. O pobre homem não se desconcertou:
sahiu em chinelos, atravessou em chinelos a multidão, saudando para a
direita e para a esquerda, desceu ao pateo, e meteu-se em chinelos na
carruagem.
Dezembro--1900.
Latino Coelho, contado por Maximiliano d'Azevedo:
Tinha coisas absurdas: estava sentado a conversar e levantava-se sem
mais nem menos, compunha a trumpha, e ia espreitar á janella. Era todo
de enguiços. Nunca sahia de dia. E que memoria! Dizia-se-lhe qualquer
banalidade, e elle, d'ahi a mezes, repetia-a palavra por palavra.
Discursos que revelam o conhecimento inteiro d'uma epocha, como o de
Camões, que leu na Academia, e que foi escripto das sete ás onze da
manhã, e lido ao meio dia, compunha-os com extrema facilidade.
D'uma vez estava elle em casa politicando com alguns amigos reformistas,
o Mariano, o Lopo Vaz e não sei quem mais. Discutia-se a revolução de
onze de maio. O Latino, dando um geito á trumpha, chegou á janella e viu
o carro, puxado a mulinhas, do Saldanha:
--Ahi vem o duque... E aposto que vem para cá.
Efectivamente o carro parou á porta. Era o Saldanha. O Latino foi
recebel-o n'outra sala, e, depois dos cumprimentos habituaes, o Saldanha
perguntou-lhe:
--Sabe a que venho? Venho saber a sua opinião sobre o dia de hontem.
--Mas não tenho opinião nenhuma...
--Não se recuse, Latino. Peço-lho como amigo.
--Então, marechal, deixe-me dizer-lhe que quem como V. Ex.^a conquistou
um nome glorioso com a espada, não deve servir-se da canalha para fazer
o que fez. A sua situação é deploravel.
--Não me diga isso! E se eu aproveitasse a situação para firmar de vez a
liberdade em Portugal e salvar o paiz?
--Se V. Ex.^a quizesse...
--Mas é que quero, e para isso venho ter comsigo.
Combinaram que o Latino redigiria os decretos ampliando as liberdades
publicas, tornando-as efectivas, e convocando constituintes com poderes
amplissimos.
--O maior segredo...--recomendou o Latino.
N'essa noite não dormiu. Acompanhado d'um amanuense do ministerio,
redigiu os decretos, que no dia seguinte o proprio Saldanha foi buscar,
metendo-os dentro da pasta. Mas fosse que os amigos que lá estavam em
casa tivessem desconfiado; fosse que o Saldanha désse á lingua, o que é
certo é que o rei foi prevenido a tempo por alguem que lhe disse:
--O Saldanha vae trazer-lhe uns decretos. V. Magestade não os assigne ou
está perdido.
Quando o Saldanha chegou ao Paço o rei abraçou-o:
--Pois o duque ajudou a conquistar-me o throno e não quer que meus
filhos reinem? Nem talvez eu chegue até ao fim da vida no poder...
Saldanha que era um fraco recuou. D'ahi a dias encontrou-se com o Latino
que lhe disse:
--V. Ex.^a não podia deixar-me dormir a minha noite socegado?
Por trez vezes, conclue Maximiliano, o Latino me contou isto. Já tenho
querido descobrir os decretos. Devem estar em casa do irmão, n'um quarto
interior, onde a traça vai roendo os papeis do grande escriptor...
* * * * *
Um dia o Saraiva de Carvalho foi propor a revolução ao Latino:
--Mas ha-de ser tudo assassinado--toda a familia real.
--Isso não!--protestou logo o Latino.
* * * * *
Morreu virgem, como Newton. No dia de sua morte, estava o cadaver na
cama, apenas coberto com um lençol. Alguem disse para o Maximiliano:
--Bastaria arrancar aquelle lençol para descobrirmos o segredo de toda a
sua existencia.
* * * * *
Junqueiro dizia de Latino:
--Sim, é um homem admiravel, que em logar de c... tem duas castanhas
piladas!
Maio--1903.
Um jornal publica hoje esta noticia:
POVOA DE LANHOSO, 29--Faleceu, sepultando-se hoje, o sr. dr.
Joaquim da Boa Morte Alves de Moura, da freguezia de Santo Emilião,
bacharel formado em philosophia e mathematica pela Universidade de
Coimbra.
O povo apelidava-o de santo, pelas suas sublimes virtudes christãs.
Tinha 92 annos de edade; o falecido fôra frade agostinho.
O homem, a quem estas seccas linhas se referem, era na verdade um santo.
Deixou tudo para viver pobre, perto de S. Martinho do Campo, entre
cavadores e a gente humilde da terra que o adorava. Vi-o muitas vezes
passar na estrada, todo branco, minguado, com o burel, que nunca quiz
largar, no fio, e os sapatos rotos. Era efectivamente formado em
philosophia e direito, e até por vezes fôra convidado para lente da
Universidade de Coimbra. Recusou sempre, recusou tudo, preferindo a
convivencia com a gente do povo e com a natureza que o rodeava. Ha entre
as duas povoações, S. Bento e S. Martinho, que ficam á beira da estrada
da Povoa de Lanhoso, uma fonte que brota da raiz de uma arvore. Perto
fica a ermida. Alli se costumava o santo homem sentar, horas e horas
embebido nas suas meditações. Em que scismava? Decerto no passado
longinquo...
Lembram-se d'uma narrativa de Alexandre Herculano, que se chama, creio
eu, «O ultimo dia de convento?» Um frade chora ao deixar para sempre a
cella caiada, onde passou a vida inteira. É só isto, afóra a ternura, as
lagrimas, a prosa do grande escriptor. Assim D. Joaquim da Boa Morte
contava tambem as ultimas horas de convento. Velhinho, tremulo, vivendo
de esmolas, recolhido por caridade em casa de duas mulheres, que o
cuidavam, nunca esqueceu o convento, a cella, o dia de separação. E, ao
pé da arvore, junto ao fio limpido d'agua, lhe ouvi mais d'uma vez
contar o que sofrera.
--E dos seus companheiros lembra-se? Teve mais tarde noticias?
E elle, com os olhos razos de lagrimas:
--Viveram ainda dispersos por esse mundo. Ha annos, ha muitos annos,
recebi, dum d'elles um recado, esta palavra:--«Adeus!» Foi o ultimo!
Agora acompanhava-o sempre um rapazinho. Com a vida, ia-se-lhe desfeito
o burel, rôtos os sapatos. Deixára de dizer missa, mas o povo d'aquelles
logares, que é ingenuo e crente, consultava-o nas suas doenças e nos
seus sofrimentos. É que D. Joaquim fazia milagres. Excusam de sorrir...
O milagre é uma comunicação entre pessoas que têm radicada e viva esta
força enorme:--a fé. D. Joaquim da Boa Morte curava as creaturas
simples, as mulheres, as creanças e os homens da serra que o iam
visitar, com boas palavras, e, quando muito, com alguns cachos de uvas,
que elle proprio colhera e lhes distribuia, depois de benzidos.
Antes de morrer pediu que o enterrassem embrulhado na manta coçada que
pertencera a sua mãe e que alli tinha no fundo da arca. Essa velha manta
como eu lh'a invejo! Era n'um farrapo assim, com um resto de calor e de
ternura, que eu queria ir aconchegado para a terra. Nem a eternidade das
eternidades, nem o isolamento, nem o frio dos frios, conseguiriam jamais
trespassal-a.
Que descance em paz. Quem escreve estas linhas deve-lhe uma das maiores,
mais elevadas e puras impressões que tem recebido na vida. A sua grande
figura só desaparece da terra, depois de ter feito muito bem e estancado
muitas lagrimas.
Julho--1903.
O Silva Pinto a respeito do Cardia, que ha tres dias, em plena mocidade,
meteu uma bala no coração:
--Eu não faço como elle, não me vou embora, porque tenho duas creanças,
o Mario e o Raul. Era de certo a isto que o Manuel se referia ao
escrever: «Não faço falta a ninguem». Isto atura-se lá a sangue frio e
determinadamente! Matava-me para me ver livre d'estes bandalhos!
E os olhos enchem-se-lhe de lagrimas, arrasta a perna apegado á bengala,
e sacode a cabelleira branca. Parece um trapo ameigado, mas resistente
ainda:--Arre bandidos!
De repente, sem transição, põe-se a rir:
--Sabe de que me rio? Lembrou-me o Camillo, que tinha uma lingua
viperina e dizia mal de toda a gente. Um dia em Seide falei-lhe n'este e
naquelle, disse mal de todos. Por fim:--Sempre me refugio em Victor
Hugo, para ver se você tambem diz mal d'elle...
E o mestre:
--Esse velho não era nada tolo!
Ri-se. Depois fica outra vez triste:
--Aquellas paginas de Hugo quando o avô vê entrar o neto ferido pela
porta dentro!
* * * * *
O Fialho descrevendo o Cardia, esse rapaz ingenuo, insinuante e
espontaneo, que aos dezanove annos se lembra de estourar o coração com
uma bala, por causa d'uma reles cantora de quarenta e dous annos--o
Fialho diz:
--...era isto e aquillo e uma mão enorme atirada p'ra aqui e p'ra acolá
a toda a gente, apertando a nossa.
O que nunca mais me esquece são aquelles olhos tristes e a bocca moça
sempre a sorrir!...
Fevereiro--1904.
Hoje almoço em casa do Schwalbach com o Bulhão Pato, o Camara, João
Chagas, Antonio Bandeira, etc. O Bulhão Pato é um homensinho secco e
resistente, de cabeleira e pera branca--miniatura do alentado Pato
caçador que todos nós imaginamos ao ler-lhe algumas paginas. Parte no
dia 20 para S. Miguel, de passeio... Quando morrer desaparece com elle
toda uma epocha:--Meu rapaz podes ter lido todos os philosophos, que se
não tiveres sentimento... Minha mulher, uma velhinha lá fica... Não vae
comigo, porque recolhemos em casa uma pequena pobre, pobrissima, e
queremos-lhe como se fosse nossa filha. Sentamol-a á nossa meza... Bem
sei que ha por ahi uns moços que dizem mal de mim. Não me importo.
Quando vejo um rapaz de talento abro-lhe logo os braços.
No fim do almoço, beija a mão ás senhoras. Conviveu com o Herculano,
ouviu-lhe dizer:--Isto dá vontade de morrer! «Que faria--accrescenta--se
vivesse hoje!»--O Conservatorio lembra-lhe o Palmeirim--«que foi da
minha creação»--É simpathico, vivo e cheira a outros tempos: conserva,
como o linho guardado no fundo d'um armario, o perfume da maçã. E que
contraste com os outros, com o Chagas, com o Schwalbach, sempre aflicto
e sempre despreocupado, com o Antonio Bandeira, que, sob uma aparencia
futil, é pratico como o diabo, e que conta que foi uma noite em Roma,
com alguns portugueses, mulheres e guitarras, bater o fado para as
ruinas do Colyseo! Depois, por _blague_, sustenta com o Chagas, que
ninguem devia ter mais de duzentas e cincoenta grammas de principios.
Março--1904.
Encontrei hoje o Marcellino Mesquita: ventas largas, marcas de bexigas,
barba com muitas brancas aparada rente, chapeu desabado, capinha curta e
olho vivo. Tipo crestado do sol, materialista e secco.
--A gente quando chega a certa edade tem de se isolar para não viver
n'uma perpetua irritação. Olhem agora se eu encontrava o Pequito
ministro, o Pequito de quem a gente fazia troça em rapaz! E muitos
outros, que aos quarenta annos começam a desafinar-nos os nervos... Vivo
no Cartaxo, n'um descampado: a quinta fica entre duas estradas. Não
passa lá ninguem... Leio, fumo, e trabalho. Tinha um moinho; primeiro
acrescentei-lhe uma cozinha, depois um quarto: agora tenho lá uma casa.
E já não posso viver sem o ruido das mós. O meu quarto fica mesmo por
cima. D'aqui a oito dias, com as macieiras em flôr, aquillo é
adoravel...
Abril--1903.
Vi o Marianno nas camaras. É um cadaver, com uma sobrecasaca riquissima
de gola de veludo. Nunca phisionomia exprimiu maior cansaço, indiferença
ou desprezo, a palpebra cahida, o olhar vazio de expressão.--Que me
importa! que me importa!...--Parece um morto, farto de sofrimento e de
goso, e, sob aquella apparencia de sceptico raros se magoam como elle.
Toda a vida tem sido ludibriado. Contam que a mulher passa horas a
descompol-o. Elle, sentado, escreve tiras e tiras de papel, a tarefa do
jornal, sem dizer palavra nem levantar a cabeça. D'uma vez chamou-lhe
tudo quanto lhe veio á bocca, e elle inalteravel, curvado sobre os
linguados, sem lhe dizer palavra... Por fim ella, desesperada,
berrou-lhe:
--És um estupido!
Elle então parou, ergueu a cabeça, e muito calmo:
--Teem-me chamado tudo, mas estupido é a primeira vez!
E continuou a escrever.
Por fóra uma aparencia de sceptico, por dentro uma sensibilidade enorme.
Anda sempre metido em complicações e negocios, em caminhos de ferro, em
pedaços de Africa, bahia de Lobito, etc., e afinal não passa d'um
sonhador que tem as propriedades de Azeitão hipothecadas em quatorze
contos de reis.
Setembro--1903.
O Antonio José de Freitas, homem de lettras mediocre, é um conversador
admiravel. Se conseguisse escrever como fala, e désse á prosa aquella
vida que dá á palavra, seria um grande escriptor. Pequeno, branco, na
ponta dos pés, sempre a segurar as lunetas, todo elle nervos:
--Dei-me muito com o Castello-Melhor. Um dia começou a imaginar que
estava pobre, porque no Banco de Portugal lhe não quizeram, como sempre
se fez, descontar uma lettra só com o nome d'elle. Disse ao Barros
Gomes:--Vae beber da merda!--E sahiu furioso. D'ahi começou a imaginar
que tinha cahido na pobreza e alugou o jardim para o circo Whytoine. Uma
vez sahi com elle d'um baile pela madrugada e acompanhei-o a
casa.--Sobe.--Tenho ainda que escrever para o Brazil...--Insistiu,
subi--e eil-o a clamar no quarto:--Que diriam meus avós se vissem alli o
circo e os palhaços!...--Estava desesperado. Descompul-o.
Passaram-se annos e morreu de repente. Vestimol-o n'aquelle mesmo
quarto, e, altas horas da noite, ouvimos, de repente, um clamor: era o
circo Whytoine que ardia. E eu assisti ao espectaculo do cadaver,
iluminado pelo clarão do incendio, alli onde o ouvira evocar com
desespero os seus mortos. Foi tudo ao enterro. O povo abria alas, e
quando chegamos ao cemiterio e quizemos pegar no caixão, veio de roldão
uma chusma de cocheiros e vadios, que nol-o arrancaram das mãos, e,
erguendo-o no alto dos braços, levaram-no até á cova...
* * * * *
--O Eça usou toda a vida bentinhos ao pescoço. Vi-lhos eu, que dormi por
diferentes vezes com elle no mesmo quarto...
* * * * *
Depois fala no Resende:
--Se vivesse era decerto o chefe do partido conservador. Que homem
encantador, polido e sceptico! E tinha uma poderosa ascendencia
magnetica sobre nós todos. O medico, já quando elle estava muito mal,
recomendou-lhe ares do mar. Passeava n'um bote no Tejo. Umas vezes ia eu
com elle, outras o Soveral, e levavamos-lhe botijas com agua quente,
porque sentia sempre um frio mortal. Estou a ver o Soveral, com uma
botija em cada mão. O _Rabecão_, um jornal de caricaturas do tempo,
disse que nós iamos emborrachar todas as noites para o rio. Muito nos
rimos... Pois o Resende, atheu toda a vida, morreu como um crente.
Foi elle que se esmurrou com o Eça n'uma das piramides do Egypto. Nessa
viagem ouviram ambos missa no tumulo de Jesus, em Jerusalem. O Eça cahiu
logo de joelhos; quando levantou a cabeça para ver o quadro, dois ou
trez mil peregrinos tinham como elle ajoelhado sob o mesmo impulso
irresistivel: só a seu lado, de badine e sobretudo no braço, se
conservava de pé, sem perder a serenidade nem a linha, um unico homem: o
Resende.
* * * * *
Os _vencidos da vida_, depois que se juntaram diziam mal uns dos outros.
Não se podiam ver.
Março--1900.
Ha mezes que Junqueiro não aparecia na Praça, onde outrora era certo á
noite, rodeado de esbirros, e discutindo politica ou arte com alguns
amigos mais intimos. Eil-o agora de volta, depois de umas febres
palustres apanhadas n'essa longinqua quinta que replanta de vinha lá
para a Barca d'Alva.
Vem curioso. Teem por acaso os senhores noticia d'um Junqueiro adunco e
janota, mephistophelico, com ditos em braza explodindo sobre o ultimo
acontecimento, e conhecem talvez a lenda da casa de hospedes celebre da
rua dos Retrozeiros, d'onde em tempos sahiram gritos subversivos,
pamphletos, versos, theorias philosophicas, satyras e revistas do anno,
e onde--consta dos archivos da policia--morou o proprio Diabo em pessoa,
na intimidade do poeta?... Lembram-se? Depois, n'outra phase da vida,
viram-no talvez autoritario e feroz, com o mesmo perfil em bico d'aguia,
sob um chapéo molle e gasto, atacar o velho Padre Eterno?... Pois ahi o
teem agora philosopho e christão. Parece um prégador
socialista-tolstoiano, um santo cavador, de barba negra e inculta: traz
ainda terra pegada nas mãos e uma roupa velha, a que só faltam alguns
remendos cosidos á ultima hora... Usa uma camisola de lã e diz
assim:--Eu não me visto: cubro-me.
Chega da Barca d'Alva, um terreno enorme lá para a raia, entre pantanos,
que reuniu leira a leira, depois d'uma scena, que dava um capitulo á
Balzac. É elle mesmo que a evoca em meia duzia de traços, e a gente vê
logo d'um lado os cavadores tartamudos e hesitantes, do outro o Senhor
Poeta, como elles lhe chamam, com um livro de cheques na algibeira,
encafuando-os a todos na sala do cartorio:--Se chegam a concertar-se era
uma discussão para seculos. Pediam-me uma fortuna!--Um a um compareceram
diante do tabelião:--Quanto quer? Assigne!--E sahiam logo por outra
porta.
Já pouco a pouco a lenda se forma, discutindo-se a nova thebaida, que
d'aqui a annos será visitada como Valle de Lobos e Seide. Que procuram
os nossos grandes escriptores, desde Herculano a Fialho, na natureza,
que pouco nos dá em troca do muito que lhe damos? Afastar-se dos outros
ou esquecer-se a si proprios? Talvez as arvores e os montes nos preparem
melhor para o sepulchro e para o verme, ainda que eu julgue que não ha
como um 6.^o andar, com livros e papeis, e um cinematographo no rez do
chão, para acabar com a vida.
Seria um curioso estudo aquelle que comparasse Valle de Lobos, Seide e a
quinta de Junqueiro, a decoração escolhida por tres homens superiores--o
fundo de tres grandes retratos. Na Barca tem o poeta uma casota de cão,
com os muros ainda em osso, e uma varanda onde passeia todo o dia
infatigavelmente. De quando em quando escreve na cal da parede versos ou
contas. Seide, n'um cahir de tarde outomniça, lembra a alma de Camillo.
Ha lá um calvario d'arvores decepadas que parecem forcas. Ha lá uma casa
tragica, pintada d'amarello. Um ermo, que, a meia legoa da estrada, fica
ao cabo do mundo, e que parece escolhido de proposito para esconder uma
desgraça ou combinar um crime. Peor: ficou na casa abandonada, no
ambito, nas pedras, alguma coisa daquella alma dilacerada de sceptico e
de crente, mixto doloroso que só tinha como solução o infortunio. O que
se ouve são risos ou gritos de dor? Depressa! depressa!... Parece que
elle anda ainda por aqui, sardonico e immenso, desgraçado e immenso.
Valle de Lobos, se uma vez o avistaram, não emociona de uma forma toda
diferente, e não diz bem com a alma de Herculano?... Quanto a Junqueiro,
a sua paizagem querida é indubitavelmente a trasmontana, grave, revolta
e grandiosa como o seu genio.
Camillo não encontrou decerto resignação nas arvores, nem nos montes,
porque, para o mestre, em toda a natureza só o homem existia:--Não ha na
sua obra uma arvore, nota o poeta...--Nem Guerra Junqueiro por ora se
isola. Está na lucta, com os seus livros, as suas theorias, a sua
maneira suprema de discutir e de encarar os problemas do universo.
--Para viver na aldeia é preciso, diz elle, ser João Brandão ou S.
Francisco d'Assis.
De forma que a Barca d'Alva não é bem uma thebaida para o poeta. Os
senhores vão agora conhecel-o sob este aspecto novo--agricultor. A Barca
é-lhe mais que um refugio: é (palavras que fazem bater o coração de
todos os homens) o futuro dos seus filhos. E Junqueiro, agricultor, tem
ainda genio: inventa e descobre. Quatrocentos cavadores desbravam-lhe a
terra, que deve produzir um vinho magnifico. O mosquito propaga a febre.
O jornaleiro macilento bate o queixo com sezões. Elle ordena, dirige e
resolve as questões agricolas muito melhor que os lavradores da região,
de quem diz:
--Plantam vinhas, como quem joga na batota--ao acaso!
Ouçam-no! Desfilam os jornaleiros, que adquirem logo uma vida
extraordinaria, as boccas que não falam, a Maria Colhôna, que tem filhos
de toda a gente, filhos para o Brazil, filhos para soldados, filhos para
a desgraça, os sêres deformados e enormes, os tipos que se transformam
em simbolos... Descobriu um novo processo para evitar que a enxertia,
essa operação cirurgica, como elle lhe chama, falhe, e, sob as suas
ordens, trabalham alguns centos de homens, que se encostam ás enxadas
para ouvirem o Senhor Poeta... Não é raro vel-o subito, tempo humido,
perigo para as vides, abalar para a quinta com saccos de sulphato.
Adivinha, presente melhor a natureza que os sabios--e cria. Tudo o que
toca toma sob as suas mãos um aspecto novo, tão certo é que os homem de
genio, como quer Carlyle, são sempre superiores e ineditos.
E de que maneira paradoxal elle expõe as suas theorias! Nervoso,
pequeno, calcando o lagedo da Praça, a mordiscar a ponta do charuto, que
giganteas formas de sonho não vae creando aquella magica palavra!... A
sua phantasia é eminentemente decorativa.
--Sabem--dizia o poeta uma noite--sabem que scismo na fórma de
transformar toda a agricultura? Acabaram-se os pobres, a fome, os annos
tristes! Para o vinho, d'aqui em deante, não bastarão toneis como torres
e para o pão arcas como predios. Uma carrada de bois será apenas
suficiente para carregar uma abobora, e um simples cacho de uvas dará
vinho para duzias de borrachões. Como? Aplicando ás arvores, ás vides,
ás plantas emfim, o methodo de Brown-Séquard. O sabio dá a um organismo
gasto uma vida assombrosa, injectando-lhe a vitalidade de coelhos.
Calculem o resultado d'esse sistema aplicado na agricultura...
Um castanheiro dura seculos, tem uma vida extraordinaria. É mais que uma
arvore--é uma força. Apodera-se dos montes. As suas raizes alastram, os
seus ramos tocam no céo. Imagine que injecto polen de castanheiro n'uma
vide... Obtenho logo uvas como as da Terra da Promissão. D'um pé de
melancia tiro um fructo capaz de carregar um carro. Tres maçãs metem no
fundo uma náu.
E eis, por uma noite de invernia, a natureza transfigurada, pelo poder
da phantasia e do sonho. Flores são arvores abrindo lá em cima no céo em
parasoes roxos; pinheiros transformam-se em montanhas; monstros erguem
as suas corolas de veludo, e na verdade não passam de humildes flores
bravias. Uma petala desaba com o fragor de penedos, e multidões sobre
multidões sequiosas veem dessedentar-se n'este fructo colossal:--o
morango. Ha que tempos que eu erro perdido n'esta floresta monstruosa de
papoulas!...
Junqueiro na intimidade é prodigioso de genio, de imprevisto, de
elevação. Vê os factos mais simples com um olhar que os engrandece.
Assombra de pitoresco e de inedito. O homem de genio é, como todos os
homens, filho da mesma lama, mas, por acaso, vão n'esse humus lagrimas,
aguas correntes, detrictos de florestas, restos de nuvens e a emoção
profunda da natureza. Por isso sabem tudo, sentem tudo... É pena que as
suas conversas, os seus fragmentos, esses pedaços de sonho e de vida,
atirados com febre, perdidos, e decerto esquecidos, se não possam
juntar, porque dariam um dos aspectos mais extraordinarios do seu genio.
Seria esse talvez o seu melhor livro. Assim, por exemplo, as cathedraes
de Hespanha, onde Jesus está preso e a ferros, a explicação prodigiosa
dos Christos de madeira--o Christo dos soldados, o dos ladrões, o dos
cavadores, da sua sala de jantar, unicas obras d'arte de que não quer
desfazer-se, e a sua philosophia, a maneira superior como encara o
universo e ilumina o desconhecido...
Pois ahi o teem de novo no Porto, de barba hisurta, embrulhado n'um
casaco coçado, com um ar iluminado de Santo. Direis que vae prégar ás
multidões. Demais já ha annos que elle escrevia:
Tolstoi o meu sapateiro...
E um dia, ao saber Camillo sceptico, Camillo com noites de sombrio
desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de proposito
procural-o para lhe prégar Deus?
Era n'uma dessas tardes tragicas de Seide, de que o grande escriptor
fala nos _Serões_. A natureza chorava revolvida: a acacia de Jorge
batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de
dores, ouve vozes, vê phantasmas, e sae do horror com blasphemias e
sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do
crepusculo, com a pala com que escrevia sobre os olhos, absorto, calado,
desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado n'uma argila côr de
mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta
tenta arrancal-o ao negrume que o envolve: desenrola theorias,
explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o
julga abalado e convertido, quando d'essa figura só osso e dor, saem
emfim estas palavras ironicas:
...--Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no
estomago, desde o almoço, tres bolinhos de bacalhau, que me estão aqui
como tres Voltaires.
Março--1904.
Veiu a Lisboa acompanhar, por solidariedade, os lavradores do Douro, o
poeta Guerra Junqueiro. É outro homem, que perdeu talvez em
exterioridades mas ganhou em funda emoção. Tendo-se-lhe um dia deparado
universaes interrogações no caminho; tendo encontrado frente a frente,
ao meio da vida, idéas abaladoras, que só o homem de genio pode encarar
sem o pavor e o deslumbramento que o grande mistério comunica--as raizes
do universo--elle mudou de rumo, tão simplesmente como se praticasse o
acto mais banal da existencia. Sendo já um dos maiores poetas da
Europa--quiz ser tambem um santo... Durante annos procurou como Fausto o
segredo da vida no fundo dos laboratorios. E n'outra phase do seu
espirito decorativo tendo entrevisto, pelo poder do genio, novas veredas
a tentar, seguiu-as, fazendo experiencias que a sciencia d'hoje
plenamente confirma.
Guerra Junqueiro está na mesma: alguns fios brancos a mais na grande
barba de santo, começo de calva amarelada no alto da cabeça, chapéo
baixo, uma simplicidade de trajo que vae bem com a simplicidade
verdadeira ou ficticia da sua alma. E sobre isto os olhos terriveis que
nos fitam e nos adivinham até ao fundo. A conversa é prodigio que evoca,
ilumina, toca em todos os problemas da vida, dando-lhes uma grandeza e
novos aspectos que entontecem.
Fala-se a proposito de um livro, e elle diz, não palidamente, nem
decerto com as inexactidões com que reproduzo, o seguinte:
--É um livro interessante. O autor conseguiu deixar falar a parte de
inconsciente que cada um de nós traz comsigo... Porque, meu amigo, a
porção de infinito que cabe a cada homem é exactamente a mesma. O
camiseiro alli defronte e um homem de genio teem na alma identico
quinhão. Sómente o camiseiro não consegue encontral-a nem pode
exteriorisal-a. Porque? Porque só pensa em camisas. O homem é o universo
reduzido... Que cada um pudesse deixar-se narrar--e teriamos a mais
maravilhosa historia do mundo!...
E como incidentemente se refira á sciencia, eil-o que se desvia por
outro esplendido caminho:
--As ultimas descobertas modificaram completamente a sciencia. Foi um
terremoto. E eu entrevi isto mesmo: ha annos que chegára ao seguinte
resultado:--radiação universal e desassociação dos atomos. Fiz
experiencias, que me deram resultados incompletos, procurei homens de
sciencia que não me quizeram atender. Um dia vim de proposito a Lisboa
falar a Sousa Martins e expuz-lhe as minhas theorias. Ouviu-me... Quando
me fui embora encolheu decerto os hombros. E no emtanto, passados annos,
vejo confirmado experimentalmente tudo o que eu previra... Que quer?...
Faltavam-me como comprehende os meios de verificação. Precisava de
factos.
[Figura: _D. João da Camara._]
Cala-se um momento e depois continua:
--Hei-de publicar, depois da _Oração á luz_, que sae brevemente, uma
serie de memorias, com os resultados dessas experiencias. A vida--é o
Amor e a Dor. Procurar as suas leis eis tudo. Seguir-se-ha a minha
theoria philosophica. Adivinhei todo este terremoto que se deu
ultimamente na sciencia. Hoje a materia não existe: já a
definem--associação d'energias. O que é feito dos materialistas? A
sciencia futura será portanto o estudo de energias. Por ultimo
publicarei uma introducção á sciencia, visto que não posso escrever essa
obra: seria a revisão dos trabalhos de Spencer--a tarefa de toda uma
vida.
--E tem muitos documentos?
--Tenho tudo prompto. Necessito apenas de encontrar a fórma precisa, a
fórma mathematica, para exprimir as minhas idéas.
Incansavel. É de ferro. Pequeno e mirrado passeia horas e horas, a
conversar... Não conversa--monologa.
* * * * *
Da Barca d'Alva diz:
A minha casa de jantar tem uma meza e cadeiras de pinho. Depois de
comer, quando quero um palito, corto-o na meza.
* * * * *
Ramalho definido por Junqueiro:--um pinheiro com uma melancia em cima.
* * * * *
Junqueiro na redacção do «Mundo»:
--D'aqui a pouco reparto a minha fortuna com as minhas filhas e o que me
restar dou-o aos pobres.
* * * * *
Ha outro Junqueiro de que a caricatura se apoderou, o Junqueiro do
_bric-á-brac._ O Junqueiro que a má lingua do Porto afirma que percorre
disfarçado as ruas de Hespanha, com um burro pela arreata
apregoando:--Ha por ahi quem tenha louça para vender?--O Junqueiro que
foi procurado um dia no hotel, em Salamanca:--Está cá o grande poeta
Guerra Junqueiro?--Não conheço,--disse o porteiro.--Mas elle vem sempre
para aqui. É um homem de barbas...--teimou, explicou o outro.--Esse es
Guerra el antiquario!...
Mas até no Junqueiro caricatural algumas linhas são indispensaveis para
completar o retrato. Ha n'este grande homem uma mascara. Sinto uma parte
que se deve ao arranjo--e que é a inferior e outra em que elle obedece á
raça e que é a mais viva, a que tem raizes nos mortos. Melhor: o homem é
sempre um tablado onde varios phantasmas se despedaçam. Ha mãos que nos
puxam para o fundo, ha outras que nos procuram levantar cada vez mais
alto. Deus nos livre de julgar os mortos!
* * * * *
Junqueiro, de volta do Bussaco, indignado:
--E não aparecer um doido, com um grande martelo, que deite tudo aquillo
abaixo! Qualquer dia botam as arvores a terra e põem pedraria até á
Pampilhosa!
Dezembro--1907.
Encontro-o hoje em Lisboa, emagrecido, com um velho casaco comprado n'um
adelo, e muitas rugas, finas como linhas, ao canto dos olhos. E, como o
José de Figueiredo lhe fale no Rodin:
--É verdade, passei um dia inteiro com o Rodin, a explicar-lhe a sua
obra. Disse-lhe: você é um grande artista, mas exactamente, como em
todos os grandes artistas, a melhor parte da sua obra é inconsciente.
Porque em todos nós a razão é nada, o que é grande é o inconsciente.
Aquella cabeça que você tem no Luxembourg, emergindo da pedra--é assim,
é aquillo... Mas falta-lhe não sei quê de simbolico que ligue a cabeça á
pedra. Assim choca, é brutal. É como o _Pensador_, a estatua que está no
Pantheon. Toda a critica franceza tem tentado explicar aquella estatua,
e ainda ninguem disse as palavras necessarias. Eu lh'as digo: Aquillo
não é o _Pensador_, nem o _Pensamento_: é o primeiro pensamento em
cabeça de homem. Dispa você um tipo de verdadeiro pensador, Kant, o
Dante, por exemplo, e encontra um corpo deformado. Porque o pensamento
peza mais de que montanhas. Devora. O que você fez foi uma besta, um
gorilha, um homem capaz de arrastar calháos: Pois bem: inconscientemente
fez uma grande obra d'arte: o primeiro pensamento na cabeça d'homem.
Esse primeiro homem athletico, ao deparar com o primeiro pensamento,
essa flor abstracta, fica dominado, subjugado: cae-lhe o Atlas em cima e
esmaga-o... E adeus, são horas de partir para o comboio.
* * * * *
D. Carracida, professor de chimica biologica na Universidade de Madrid,
homem ilustre e que conhece perfeitamente a literatura portugueza, diz
assim de Junqueiro... (D. Carracida fala portuguez pausadamente).
--O senhor Junqueiro, grande poeta, é um mistico... Está agora no
misticismo. O senhor Junqueiro e eu passeavamos juntos no jardim de
Villa do Conde, de cá para lá--e o senhor Junqueiro prégava a piedade e
o amor. Uns rapazinhos acendiam balões para uma festa, e eu e o senhor
Junqueiro passeavamos de cá para lá... O senhor Junqueiro prégava a
piedade e o amor, e um dos balões cahiu na cabeça do senhor Junqueiro,
que levantou a bengala e deu com ella no rapazinho... E nós continuamos
a passear de cá para lá, e o senhor Junqueiro a prégar a piedade e o
amor...
Março--1903.
Fialho não é este janota de palio rico, com uma joia tão grande que
parece falsa na gravata de veludo. Fialho era outro estranho tipo,
intratavel e pobre, com o pêlo ralo e a bocca enorme cheia de sarcasmo.
Um principe de gabinardo, que fazia cahir as peças do alto do
galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso. Seguia-o a malta atonita de
matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de sonho e
atascou em sonho.--Fialho! Fialho!...--Esses aplaudiram-no e
amaram-no... Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos
d'aquelle sonho desconforme.--Fialho! Fialho!...--Depois sumia-se n'um
terceiro andar, ou procurava os pobres que não pedem: só a mão sae da
noite e implora. Havia uma velha--nunca mais me esquece--alli á porta do
Monte Pio, que fazia parte do muro alto e espesso, e a quem elle, ao
dar-lhe esmola, lhe afagava a cabeça... Depois, amargo, feroz,
insuportavel, eil-o tornava com sarcasmos, transtornando as figuras
decorativas, cheias de veneras, que á sua voz desatavam ás cambalhotas
como palhaços. Vi-o exasperado, vi-o atordoado de phrases, como quem
quer fugir ao proprio phantasma. Vi-o mergulhar n'uma absorpção
dolorosa, e desaparecer na noite em correrias que duravam até de manhã
pelos bairros escusos ou pelas azinhagas de crime, n'um debate perpetuo
de que sahia livido, exhausto, e com a mascara transtornada. Este que
fala do seu vinho:--Livros?... O que eu trato de editar é um vinhinho
branco lá de Cuba...--este, que vem, de quando em quando, a Lisboa
deslumbrar-nos com um novo e horrivel fato, é outro Fialho, que talvez
tenha saudades d'essa vida absurda de outros tempos...
Fialho! Fialho!... Pronuncio este nome e diante de mim desfila o
assombro, pamphletos, a obscenidade e o genio--farrapos arrancados a
ferro e tão vivos que mal ouso tocar-lhes--o estoiro d'uma bexiga
d'entrudo--ironia e esgares. E logo gritos! e agora gritos!... Ouço a
dor, sinto a dor, sinto-a sempre atravez da forma imprevista, d'uma
audacia e d'um rithmo incomparavel, escorrendo sonho, aflição, miseria,
sinto-a até nos impetos de máo gosto, nos pontapés aos leitores
surprehendidos e irritados. Está aqui diante de mim aquella bocca
enorme, aquella figura de gabinardo e chapeu molle que nas noites de
tristeza e abandono me dizia:--O que eu sofri! o que eu
sofri!...--Vejo-o sempre invejar o barqueiro louro e sardento, de que
fala nos _Gatos_, bello como um ephebo á prôa do seu barco.--Como eu
queria ter saude e ser forte!--Deu-lhe Deus o mais rico quinhão que
imaginar se pode, a lingua incomparavel para exprimir a chimera e a dor,
e, esse macaco sem fé, esbanjou-a com o mais absoluto impudor:
serviu-lhe para a chacota. Transtornou tudo, engrandeceu tudo, riu-se de
tudo. As descripções perderam a proporção, as figuras a realidade,
transformadas em figuras de dor ou de grotesco; a propria cidade
resurgiu a uma tinta livida de antemanhã, com a casaria a escorrer vicio
e aspectos tetricos... É isto sim, mas isto creou-o elle de pobreza e
desespero, creou-o de gritos que nunca ninguem lhe ouviu.--E maior!
ficou maior! A sua obra só tem outra que se lhe compare, a de Camillo.
Exigem-lhe um livro harmonico--_Os cavadores_. Porque é que toda a gente
reclama dos outros aquillo de que elles são incapazes? A obra de Fialho
não podia ser senão esta, aos arrancos e enorme. Fialho via os
pormenores atravez d'uma lente, e deturpava tudo, deformava tudo, dando
genio á propria obscenidade. Nunca conheceu Barjona, nunca viu Barjona,
e, com duas ou tres anecdotas, creou uma figura com um relevo que falta
ao mediocre Barjona da realidade. Precisou sempre de se exagerar para se
encontrar. Sacrificou o seu melhor amigo a um dito, é certo, mas começou
por se sacrificar a si próprio. Foi sempre o primeiro a sofrer. Houve
tempo em que alguem o definiu um doente com inveja das doenças dos
outros... Desatou então a gargalhar com lagrimas nos olhos. Perdeu o pé.
Arrancou as azas disformes ao Sonho e rojou-as com maldade no
enxurro.--Encharcou-as de lama e empoou-as de estrellas... O vestido
ficou mas era o d'um espectro... Não nos podemos medir todos pela mesma
craveira. Fialho tem de tudo na alma: a casa de hospedes, a existencia
reles d'estudante, a pobreza, as mil saburras, os pequenos nadas que
gastam, desgastam e transformam, e uma alma vibratil, um feixe de nervos
(capaz de tempestades que se domam com uma palavra) ligado a uma
enchente de sonho e a um orgulho doentio, como os que sentem dentro de
si, e o suportam, um mundo desconhecido e nunca dantes navegado. Fialho,
se o virassem do avêsso, escorria ternura... É tambem um timido capaz de
todas as audacias, e que sae da doença e do isolamento com desespero e
escarneo. Esta figura tão conhecida de todos nós, não é a exacta
expressão da sua alma. Ainda hoje ninguem se entende...
[Figura: _Eça de Queiroz._--Desenho de Antonio Carneiro.]
Silva Telles, por exemplo, conheceu um estudantinho aplicado e mediocre,
que se chamava José Valentim Fialho d'Almeida; ha ainda talvez quem se
recorde d'um moço de botica reservado e triste; e, o que é mais
extraordinario, de outro Fialho respeitoso, que não podia suportar o
exagero alheio, e d'outro, noctambulo e feroz, com risadas estridulas de
sarcasmo--e de outro, de outro maior, de outro espectro, que vem aqui
sentar-se a meu lado na sua tragica mudez. No fundo talvez tudo aquillo
fosse dor. No fundo, bem no fundo, quando irrompia n'uma phrase cruel,
não era aos outros que dilacerava, era a si proprio que se dilacerava, e
tão a serio que todos o viamos sangrar. Reparem: pouco a pouco a figura
range de dor. Arfa atravez da sua obra. É o filho do professor
d'instrucção primaria, d'aquelle homem severo, de quem dizia
baixinho:--O meu pae foi duro! o meu pae foi tão duro! Era um homem sem
ternura...--É o praticante de botica alheado e transido, o neto
deformado de cavadores, que inveja a sociedade distante, e que só aos
impetos se atreve a enchel-a de sarcasmos. Que inveja o grande
escriptor, o desgraçado Fialho, o homem de genio que passou a vida a
fazer chacota das veneras, das academias, das elegancias, dos grotescos
cobertos de patacos--que lhe faziam falta? Tanta tinta, tanto desespero
calcado e recalcado, tanta contradição e pobreza, e uma lucta de noites
e noites de que sae amarfanhado--e com paginas soberbas! Mas tu não vês
que no dia em que te roçares por elles estás perdido, como no dia em que
a cobra perde o veneno? Vae-se-te o melhor do teu genio...--Não, eu
rio-me, eu sofro...--Tantas paginas bellas!--Se soubesses como isso se
paga!--Então explica-te...--Não posso, não sei. Até dos idolos postiços
que deito abaixo me ficam saudades... Nem eu proprio sei o que
quero.--Pobre Camillo, que estoirou a cabeça de desespero, pobre
Anthero, exilado e em debate com uma sombra com que não podia arcar;
pobre Fialho, pobre cavador de genio, em perpetua discussão com os seus
mortos, em lucta comsigo e com os outros e no fundo um reverente--foi-o
sempre--sahindo em farrapos d'este inferno a que se chama a vida!...
Da sua existencia oculta faz parte uma figura de dor calcada e
recalcada, sobre a qual outra se encarniça com desespero. Talvez seja a
verdadeira... Contentemo-nos em fixar duas ou tres aparencias, apontando
n'este canhenho algumas anecdotas frivolas... Se elle podesse gritar
gritava ainda. D'essa figura contraditoria restam farrapos--mas que
farrapos! d'essa lucta suprema existem vestigios, que nunca encarei sem
espanto... Vio-o algumas vezes ao amanhecer, n'um 3.^o andar do Arco da
Bandeira, quando elle cahia exhausto sobre a banca de tortura, á luz
d'um candieiro de petroleo, com um frasco d'alcool ao lado e o cobertor
enrodilhado nos pés. A mascara livida estava de todo mudada. Era outro!
era outro! Surprehendi-o em noites, nos giros sem destino pela Graça,
pela Penha, pelo Monte--quando o seu dedo apontava boqueirões de treva,
tropeis de casaria, sitios ermos onde duas ou tres oliveiras torcidas se
ajuntam para concertar um crime, ou, peor ainda, nas horas de amargo
descalabro, em que, dorido e sem phrases, procurava fugir de si proprio
para muito longe. Não queria então que ninguem o seguisse nas caminhadas
que duravam até ao dia--elle e a dor, elle e a noite! Amigos,
silencio...
* * * * *
--O que eu sofri!--dizia elle.--Tiveram-me preso oito annos n'uma botica
alli na Bemposta, ao pé da Escola do Exercito, na idade em que queria
viver. Estragaram-me a vida, encheram-me de desespero. Quando me
soltaram não imagina a minha alegria! Podia ter sido outro... Ter saude,
ser forte!... O que eu sofri! D'uma vez, no _Reporter_, o Martins
mandou-me escrever um artigo sobre uma kermesse de fidalgas. Fui e fiz
uma troça, e elle rasgou-me os linguados na cara. Para me vingar,
tirando um bocado ás noites, escrevi um artigo formidavel para publicar
em folheto. Era na occasião em que essas peidorreiras arranjavam um
bazar para os pobres, que rendeu oitocentos mil reis. Ora eu descobri
por acaso um gallego, que se juntava com outros e tiravam todas as
semanas meio dia de ganho, para irem ao domingo ao hospital dar cigarros
aos doentes, penteal-os, cortar-lhes as unhas, untar-lhes a cabeça com
banha de porco. É um velho, de barba de passa piolho, que está sempre no
largo de Camões. Homem de poucas falas. Tratou-me mal. Tive prompto o
folheto em que comparava essas mulheres, cheias de snobismo, com
adulterios e infamias, com esse santo desconhecido... Imagine... Perdi o
artigo.
E depois, falando da mulher Oliveira Martins:--Não era a mulher que
convinha áquelle homem. E elle subordinava-se-lhe. Foi ella que o fez
confessar á hora da morte. Contou-me o Sousa Martins que a sacudira de
ao pé de si ao morrer...
* * * * *
Fala do livro _A Cloaca_, um d'estes livros que se sonham e nunca se
chegam a escrever:
O primeiro capitulo está feito: é uma festa da alta sociedade no
claustro da Batalha... Aproveito a epoca do Burnay e do marquez da Foz,
a lucta da finança, quando o Foz tinha palacios e o Moser carro a duas
parelhas. Deram-se festas esplendidas... Tenho as figuras todas, homens
de negocio e jornalistas, o Mariano e o Navarro... Um dia alugam um
comboio especial e vão dar uma festa no claustro da Batalha. É uma ceia
formidavel, com mulheres da grande roda, politicos, literatos, e, dentro
do claustro, entre a grandeza e a severidade d'aquellas pedras, caem de
bebados e mijam pelos cantos, nos tumulos. O principe tambem lá está,
com o conde de Maricas--fedes: no fim do banquete, á sahida, a babar-se,
escreve nas paredes monumentaes esta palavra obscena: p... Os outros
riem-se, as mulheres aplaudem. Fora a multidão apupa. Outro capitulo ha
de ser a noite em que os jornaes apregoaram em suplemento o escandalo
Foz e a sua prisão:--Foi n'essas horas--dizia a marqueza--que os
cabellos se me puzeram brancos da noite para o dia.
* * * * *
Nunca terminou outro livro _A Quebra_, que chegou a trezentas paginas
impressas, no editor Costa Santos. Tinha capitulos admiraveis. Acabou
por o inutilisar:--A minha dificuldade é a falta de proporções. Perco-me
n'um incidente, e quando mal me percato estou em quatrocentas
paginas.--Sei tambem que escreveu alguns capitulos d'_Os Cavadores_.
Talvez d'_Os Ceifeiros_ pertencessem a esse livro, em que elle queria
pegar no homem do campo e leval-o, sempre explorado, desde o baptismo
até á morte...
* * * * *
Inventou este nome para o conde de Arnoso, a _rainha Draga_, e diz do
retrato a oleo que o Columbano lhe pintou:
--O Columbano é tão cortezão que lhe poz um velho olho do Eça de
Queiroz.
* * * * *
Contemplando o cadaver do Cardia:
--Só aos quarenta anos é que se sabe o que é isto!
_Isto_ é a morte, á qual tem horror, assim como á velhice.
* * * * *
E falando a proposito do Cardia:
--Eu tambem sou assim... Ha dias em que ninguem me arranca seja o que
fôr da cabeça. Sinto a mesma impressão de vasio que o Cardia sentia.
Depois escrevo por impetos uma pagina, pedaços destacados que me matam
de desespero para ligar. E se não escrever logo, passadas horas já não
posso, não sei... Varreu-se-me tudo!
* * * * *
Está furioso com a inauguração do monumento ao Eça. No fundo nunca o
pode vêr: faltou-lhe o carinho, a consideração--e isso maguou-o
muito--que rodeou o grande escriptor dos _Maias_. Elle proprio diz:
ganhou sempre a trabalhar menos que um pedreiro. No jornaleco _A
Tribuna_ escreveu em dois numeros successivos, sem assignatura, as
seguintes notas com o titulo
O MONUMENTO
Já noticiamos n'outro numero do nosso jornal com todos os seus
detalhes e pormenores, como foi a festa d'inauguração do monumento
a Eça de Queiroz. Damos hoje um reflexo do humor da multidão que
assistiu ao acto. Porque, emfim, a nosso vêr, tudo é documento para
a historia.
* * * * *
--_Sobre a nudez forte da Verdade, o manto diaphano da phantasia_.
Dizem os amigos que n'esta frase se alegorisa a obra de Eça. Mas
olha cá. Estando a _Verdade_ completamente nua do ventre para cima,
e só rebuçada d'ahi para baixo, o que sob o manto da fantasia se
guarda é indecente.
--Ahi está a razão porque a alegoria é flagrantissima.
* * * * *
--Tu, se fosses casado, davas o _Primo Bazilio_ a lêr a tua mulher?
--Lá isso não. Mas não tinha a mais pequena duvida em o dar á tua.
* * * * *
--Que lhe parece a _Verdade_ do monumento?
--Um calix de _bitter_ para fazer bocca ao _Chat Noir_, que fica em
baixo.
* * * * *
--Condessa, de todos os cavalheiros que fallaram, qual d'elles é o
conde d'Avila?
--O conde d'Avila são todos.
* * * * *
--Este Monteiro Milhões, que inconveniencia! Consentir que das suas
cavallariças um burro esteja a interromper os oradores!
--Condessa, é o echo.
* * * * *
--O que eu n'esta consagração sobretudo admiro, é o grande coração
do conde d'Arnoso. O Municipio devia premiar tão nobre musculo.
--Com uma urna, como se fez ao D. Pedro IV?
--Com uma urna não. Com uma travessa.
* * * * *
--Seria interessante conhecer todos os tramites do trabalho de
creação do esculptor, até ao momento da estatua apparecer.
--Ah, eu lh'os conto. Primeiramente, o Carlos Mayer, na sua
qualidade de judeu, queria uma descida da Cruz, e por isso, o grupo
do Eça e da Verdade cheiram um pouco á scena da Paixão. Veio depois
o Arnoso a lembrar se dessem ao monumento reminiscencias mais
contemporaneas, ex.: o Genio perguntando á Verdade quantos dentes
queixaes queria tirar. D'esta dualidade d'inspiração resulta o
_mysterio_, que faz com que o monumento seja o que v. ex.^a quizer,
sendo o melhor--não perguntar.
* * * * *
Apparece no estrado o Conselheiro António Candido.
--Silencio! Vae fallar o maior orador da Peninsula.
--«...no povo portuguez ainda ha o grande brio dos feitos altos,
(_sussurro_). Se ámanhã esta Verdade tão núa fôr ter ao Pelourinho,
ninguem sabe até onde o amor da Pátria ha-de crescer! (_ovação_).
* * * * *
Interview com o conselheiro Barahona.
--V. Ex.^a leu alguma vez o Eça?
--Ler, nunca, mas conheci-o em Evora, delegado do thesouro, e até
por causa d'isso vim ao Principe Real ver-lhe um drama de ladrões,
que estava mesmo escripto ao meu sabor.
--Mas isso não é o Eça de Queiroz, é o Eça Leal.
--O que?! Não é o mesmo? Ai, os meus ricos dois contos de réis!
* * * * *
_Interview_ com o Snr. Monteiro Milhões.
--V. Ex.^a que pensa do monumento?
--Penso que tenho de voltar a frontaria da minha casa, para o
Theatro D. Amelia. Imagine que os meus netos estão constantemente a
perguntar quem é aquella senhora sem camisa. Já o outro dia lhes
disse que era D. Maria II, mas com estes frios, os pequenitos,
educados na compaixão, não me largam para que lhe mande dar um
cobertor.
--E que impressão faz das suas janellas a barriga da Verdade?
--Aqui entre nós (_arregalando o olho_) é uma d'aquellas barrigas
que está mesmo a glorificar a «sensação nova» (_irritado_). Não era
mais condizente á minha camoneana, transferirem o epico immortal
aqui para o meu largo, e levarem _aquelle senhor_ para as
proximidades do Bairro Alto?
--De modo que V. Ex.^a, irritado, nem chega á janella?
--Emquanto a Camara não mandar pôr, de roda da figura um resguardo
pintado de cinzento.
* * * * *
--Tu ouviste os discursos. Que opinião por elles se pode ter da
capacidade mental dos oradores?
--Metade d'aquelles senhores não leu o Eça, e a outra metade não
tem lucidez para o julgar. Isto foi uma festa de «snobs»; o
monumento que ali está, não foi erguido á memoria do Eça litterato:
é a glorificação do conde Reinaldo e da Alfonsine.
--E se o flamejante garoto agora cá tornasse? Mettia-os a todos
n'um romance endiabrado.
--Já estão mettidos. Mas o que tu acabas de vêr é os _Maias_ em
quadro vivo.
* * * * *
Duas guapissimas, na turba.
--_Pero Eça de Queiroz, quien és?_
--_Un caballero que escribió del minuete._
* * * * *
G..., antigo companheiro de Fialho, sepultado hoje no fundo d'uma
biblioteca, diz assim a proposito da livraria do grande escriptor[2]:
«Eu chamo a estes livros as onze mil virgens. São apenas quatro mil
volumes ou pouco mais, mas--vae surprehendel-o esta minucia--estam quasi
todos por abrir. Ha aqui Balzac e Zola, Eça e Ibañez, os Goncourt e
Ponson du Terrail. Fialho tinha muito Ponson na sua biblioteca. Esta
litteratura de costureiras e guarda-portões era para as grandes horas
amarguradas».
Era. A elle e a outros grandes espiritos basta-lhes o proprio drama para
os amargurar. Anthero, nos dias aziagos de Villa do Conde, deitado n'um
sofá, só lia Gaborieu. Para tragedia chegava-lhe a sua.
«O Fialho tinha uma admiração extraordinaria pela obra camiliana.
Imagine que até n'um livro da mocidade poz uma dedicatoria a Camillo, em
que dizia: «acabo de lêr toda a sua obra». E quasi nada lêra a esse
tempo... Afora as obras portuguesas, na biblioteca de Fialho só ha
volumes em espanhol e em francez. Nos ultimos anos merecera-lhe uma
atenção particular a literatura espanhola.»
E a proposito de Fialho intimo assevera:
«O Fialho, que tinha grandes rasgos generosos e perversidades
femininas--repito-o não era bem o Fialho que se vê atravez dos seus
livros admiraveis. Era o _outro_. As suas irreverencias das paginas
rubras eram fundamentalmente apenas o odio do plebeu que inveja o
fidalgo. Sim, porque ele invejava a sociedade na sua fase demolidora
_só_ porque não tinha nela um lugar. Uma infantilidade de homem de
genio.»
E explica:
«Como se sabe o Fialho não tinha meios de fortuna nem ascendencias
nobres. Fez a sua vida ali no «Martinho», vivia de noite e era um
_blageur_ incorrigivel, e apezar de valer bem os seis milhões de
portugueses que existem sobre esse solo, a Monarquia, o Paço, os
conselheiros, não lhe achavam _qualidades_ para triunfar nessa sociedade
formalisada e cheia de convencionalismos. Está explicado o Fialho dos
_Gatos_--foi a revolta. Meteu-lhes medo--oh sim, um medo terrivel com as
suas _blagues_ sangrentas--fazia-os passar de largo, mas ainda mais se
afastou do _ancien régime_. Entre os republicanos, onde se lançou de
alma e coração, sentiu-se depois desconsiderado. O Fialho continuava a
ser... o _blageur_. Nunca lhe deram um cargo de confiança. Que pena teve
o Fialho de não ficar na Comissão da subscrição nacional a quando do
_ultimatum_!»
E termina com esta nota inedita:
«Sabe que o Fialho era um orador. Nunca ouviu dizer talvez que elle
fizesse um discurso? Mas ouvi-lhe eu muitos, todos os dias, durante
longos annos. A sua timidez invencivel nunca o deixou falar em publico
apesar de, como ninguem, sentir a necessidade do aplauso. Muita vez me
disse que desejaria ser actor, ser um grande actor, para ouvir bem de
perto o som das palmas com que o saudariam, para viver intensamente,
ruidosamente, uma grande hora de triunfo. Tinha coisas o Fialho...
Registe esta nota curiosa pois muito poucos a sabem: era soberbo, orando
alucinado para um auditorio de tres amigos intimos no alto da Avenida,
ou noite alta, á beira do Tejo.»
* * * * *
Á figura que se senta ao pé de mim falta-lhe talvez a rigidez das
estatuas. O gabinardo, reparem, está amachucado e encardido, a
phisionomia retrae-se no escuro e só a bocca se salienta, enorme e
prestes a escorraçar-nos com gritos e apupos. Atravessou a vida: foi
injusto, foi cruel por vezes, foi amargo. Desatou a rir para não chorar.
Atordoou-se com sarcasmos e phrases. Foi incoherente. Obedeceu ao
impulso. Não se pôde furtar a sentimentos que veem do fundo dos fundos e
nos deixam prostrados, reclamando da morte que nos apavora--enfim!
enfim!--o primeiro dia de descanço bem ganho, ao termo desta discussão
que nunca cessa e em que nos despedaçamos, sem nos comprehendermos a nós
proprios quantos mais aos outros... Toda a sua alma, que deixou
fragmentada em varias figuras, em todas as paginas dos seus livros, nos
retratos, nos tipos, nas paisagens, no Manuel, em Guilherme de Azevedo
ou na manhã do Tejo, se condensa enfim n'esta bocca amarga capaz ainda
de nos fulminar de colera ou de acusar bem alto a vida que lhe foi
impiedosa... É assim que te vejo ao pé de mim, com detrictos,
escorrencias, lama, mas tão grande, tão vivo, tão humano, que para
sintetisar a tua vida, só me servem as palavras com que um espectador
ilustre sauda o Hamlet no fim da representação:--Boas noites, meu
principe, és um homem, o homem e todo o homem!
4 de Janeiro--1908.
Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. João da Camara. Tinha feito
annos no dia 27. Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco
d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpôr e, em dois acessos
de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou,
disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos
papeis e nos bolsos: só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de
desgraçados pedindo esmola.
Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:--O
senhor D. João? o senhor D. João?--Morreu.--Morreu! morreu!...--E
partiam a chorar.
Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a
olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube o valor
do dinheiro. Desceu aos desgraçados com uma ternura e uma simplicidade
de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns contos de
reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até de madrugada o procuravam para lhe
pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de
ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras
admiraveis, uma peça incompleta, com poucas scenas escriptas--_As
comadres de Panoia_, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de
outra em que tanto falou e em que tanto sonhou--_O Sermão da Montanha_.
18 de Março--1900.
Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. Foi uma figura inconfundivel de
poeta. Por mim nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um pouco
afectado talvez... Em pequeno ia com Eduardo Caminha enterrar os seus
versos no jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos limpidos e
sofregos, uma Biblia para repousar a cabeça quando o levassem no
caixão... Estou a ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela
janella da casa á beira rio, de Mattosinhos, onde Alberto d'Oliveira já
imperava, esse mesmo Alberto d'Oliveira, esperto e tão dominador, que,
quando entrava em casa dos outros, começava por os convencer a
desarrumar os móveis, para os arrumar de novo a seu modo... Antonio
Nobre usava uma abotoadura de cabeças de pregos e sorria com um modo e
um ar de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de publicar o _Só_; os
poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o _Só_. Ser diferente
dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça
muito maior. Viveu efectivamente isolado. No concurso para consul
quizeram reprová-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira explicasse ao
jury quem era o poeta Antonio Nobre. Não pôde formar-se em Coimbra, e
até os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou na morte como tinha
vivido--só. Até Alberto d'Oliveira teve de interromper uma amizade de
irmão quando se encontrou diante d'este dilema: ou deixar-se dominar por
elle, que o tratava como uma creança, ou feril-o em pleno coração:--A
nossa amizade é de tal ordem que não admite que lhe desçam dois ou trez
pontos á craveira. Ou mante-la ou quebra-la.--Quebrou-a. O ilustre
escriptor possue d'esse tempo um caixão enorme, tão pesado como o que
levou o poeta para a cova, com as cartas afectadas e vivas de Antonio
Nobre, as cartas que tem obrigação de publicar, com um prefacio que só
elle pode e deve escrever.
Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não
lhe poderam perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era um sêr
diferente. Não agradava a ninguem. Só as mulheres o amaram. Era um
Poeta. Desconheceu a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, e
uma superioridade que se não podia aturar. Estavamos todos mortos por
nos desfazermos d'esse ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado,
d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia
sombra. Mas debalde o arredamos: houve uma coisa nova que passou no
mundo e que ficou no mundo--que nos ficou na alma...
[Figura: _Antonio Nobre no caixão._]
Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade,
a afectação e o desdem infantil de Antonio Nobre.
Foi para a cova completar trinta e tres annos n'um dia de chuva como
este, frio e sujo, o poeta insolente como um principe e adoravel como
uma creança. Quantos estavam alli á beira do tumulo? Meia duzia escassa,
o Frei, o Justino, o Eduardo de Souza, eu--e quem mais? quantos mais? Os
jornaes deram a sua morte em duas rapidas linhas. Respirou-se.
Hoje é um dos poetas portuguezes com mais admiradores. É um poeta de
simpathia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não
misturou, como nós todos, o sonho com a vida pratica. Ao contrario,
raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais:
suprimiu a vida. Correu o globo e só a si proprio se encontrou. Viu o
mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E
poentes, arvores, estrellas ou pedras, entraram-lhe no coração como
espadas. Nenhum outro exprimiu d'uma forma tão sua o universo. Que
universo dirás? O meu? o teu?... Não, o que elle descobriu, scismando
como um navegador, á prôa do seu barco... Por isso nunca hão-de faltar
sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez
atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet, e sumiu-se logo no
sepulchro.
30 de Janeiro--1911.
Janota e coçado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez
reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo este homem
extraordinario, não conheceu um verdadeiro, um authentico poeta
satanico. Passou nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade ás
estrellas e tocando no céo com as guias do bigode. Escreveu as paginas
das _Claridades do Sul_, da _Traição_ e do _Anti-Christo_. Viveu
alheado, como é indispensavel a quem convive todo o dia, tu cá, tu lá,
com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos
aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro,
apontando altivo o cravo vermelho da lapela:
--Amigos, as flores são as condecorações dos poetas!
Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia
acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, até
onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa
escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praça, com um desdem
supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria
da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este
mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri
com humildade para nós, avelhantado e timido... As janellas não teem
vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o que não vive um rei, e o
imperio deslumbrante, que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades
e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras;
essa mescla de gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso,
pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de
par em par. Deixa entrar o frio--e sorri...
Agora vae todas as manhãs ouvir missa á Pena ou ao Resgate. É um homem
encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as
moedas fóra de curso que se fartaram de correr de mão em mão, e ainda ha
dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, de casaco de borracha e
colarinho suspeito. Ia pregar á Associação Catholica, e atravessava a
Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem
força um deus, sem repararem que só levavam um simulacro. No sonho de
outrora não ha mãos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com
o eterno charuto ao canto da bocca.
A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio
sonho entra ás vezes no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega
ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes Leal, de casaco de
borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a
tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dôr. A figura que
cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a
plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para não ir ao fundo, no
gesto de naufrago que se apéga com desespero, quando a dôr estala por
todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha lá: o peor é tu ousares
tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me o
sonho n'uma noticia do _Seculo_, o peor de tudo é tu atreveres-te a
tocar n'este jardim da vida--e, peor ainda, é que eu continuo a sorrir
como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro
passo e reduzes-me á condição de trapo. Deitas-te commigo, acordo
comtigo ao meu lado, e ha occasiões em que até o som da minha voz me
sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o coração opresso, fingindo
que não existes, mas ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço,
ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel
depende de um unico traço de separação--agora, já, d'aqui a bocado...
Estás por traz de mim e o minuto grotesco será quando eu deixar de te
conhecer e quando sentir a tua mão gelada... Estás por traz de mim!
estás por traz de mim! Bem sei que estás por traz de mim, e que vaes ser
a minha companhia até á cova. Confesso-te: o que me aterra não é o
momento que passou, nem o que ha-de vir--é o momento, que vale um
seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda
digo:--A sciencia, meu rapaz, sabes o que é? É um cifrão cortado.--Mas
como o digo!...
...Ha um momento tetrico nos _Espectros_ em que um novo personagem se
introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem
de papelão: está alli presente, não como uma figura de theatro, mas
monstruoso, real e patente, como o Destino, á espera de intervir. Desde
então perco o fio da peça, não sigo mais os bonecos que se agitam no
tablado, só ouço o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos
n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que não ha forças
humanas que lhe detenham a marcha. Começa então a tragedia...
É este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras
conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas até as palavras mirraram.
Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim
proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase
de outro poeta: «Sinto que não posso trabalhar! sinto que não posso
trabalhar!» É com esta angustia que te ouço os passos mais perto. Já não
é só a scena que tu enches, é a sala toda, figura invisivel, unico
personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto
os bonecos teimam em pronunciar palavras que não ouço, que não teem
significação nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer não queira,
a sorrir com enlevo á propria banalidade.
* * * * *
A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece
arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e
um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas não teem
vidros. Conheço-a. Já lá morei ha annos no mesmo quarto que dá para um
quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde
nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho
range, e o poeta surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas
pretas--até de luvas escreve Gomes Leal!--e no quarto desagasalhado ha
luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas
no tecto. O leito é um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de pé de
gallo, e no soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. Na
parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o
retrato da mãe de Gomes Leal.
--Vivo só, não tenho familia. Minha mãe morreu-me e aqui estou como um
orphão.
--Vive isolado sempre?
--Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e
pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoço e janto onde calha.
Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, deito-me cedo e
durmo... Tenho trez livros para publicar: _As memorias d'um revoltado_,
continuação da historia da minha vida, _O macaco de Nero_, estudo de
Roma, e o livro em prosa _Cidade do Diabo_, onde trato da decadencia do
mundo moderno. Comecei tambem _Christo nos infernos_, poema em verso.
Conservo as minhas ideias religiosas, que não são incompativeis com a
republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha
vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se não dissolva como
uma bola de sabão na cabeça d'um prego...
E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae lá fóra. A noite e um frio,
uma humidade de poço, trespassam-me...
No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeçou,
ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um
momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e
uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se
chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura--a ternura
que toda a vida o envolveu--e que começou a falar-lhe baixinho. N'esse
momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar
com um phantasma...
Setembro--1907.
Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os
cobrir--com um chapeu alto e lustroso em cima--grande poeta, com raizes
profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos
estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega á noite eil-a começa a
cumprir o seu fadario: leva até á madrugada a dar de beber
indistinctamente ás plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos,
n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende até ás hervas ignoradas e
ruins. Monologando sempre, vae e vem,--que não fique alguma com
sede--com o regador nas mãos, até que a manhã a encontra exhausta,
feliz, encharcada até aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho
phrenetico de ternura... Toda a emoção do poeta está aqui, do grande
poeta que diz:--Sinto em mim uma força da natureza... hei-de
aproveital-a.--Os avós deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava ás
suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas.
A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para não
pezar á mãe escreveu á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor em
Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores
pedir-lhe perdão das decimas; e nunca na memoria de homem se viu
recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres,
da desgraça, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma
mulher e escreveu os primeiros versos, _Ladainhas_,--Eu não sabia o que
eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troçaram-me tanto que
estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade
Coelho no _Reporter_. Essas palavras salvaram-me!
[Figura: _Corrêa d'Oliveira em 1903._]
Janeiro--1911.
Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho
bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras
antigas. Bom como o pão arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um
homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a
traça entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e
tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por
cima--que sorte!...--De repente pega-me nas mãos e desata a chorar:
--Tenho sido um martir!
Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaços
preciosos. São duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis
por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem
sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando
sempre em coisas faceis.
--Não imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanças...
Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha mãe
um dia teimou:--Has-de casar.--Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher,
ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha.
Demandas, processos--fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por força
para a Africa.
E põe-se a chorar como uma creança, com a cabeça branca pousada sobre os
livros, os papeis, as gravuras...--deante d'aquella documentação cerrada
e inutil, que tem sido a razão da sua vida.
1 de Fevereiro.
Venho de casa do Fernandes Thomaz. Teve um ataque apopletico. Está
hemiplegico, deitado n'um sofá, somnolento e tremulo. Nunca encontrei
bibliophilo que tivesse prazer em indicar, em ensinar, senão este... É
outro homem adoravel que morre, mas felizmente não sabe que morre. Á
beira do tumulo ainda me pede que lhe arranje um catalogo da guerra
peninsular. E diz-me de Theophilo: (estes homens dos papeis velhos nunca
se puderam vêr...):
--Pode crer que nunca passou necessidades como elle diz. Conheço-o de
Coimbra, morava em casa do conde de Valença. Todos os mezes o pae lhe
mandava pelo correio duas libras em oiro n'uma caixinha de madeira. Ora
n'esse tempo valiam tanto como hoje quatro...
PÓ DA ESTRADA
Março--1902.
Este homem immenso e louro, o Alpoim, não tem um minuto de seu: não
descansa, não pode. Escreve cincoenta cartas por dia, faz a chronica do
_Janeiro_, corre ao parlamento, intriga nos corredores, enche uma pagina
do jornal, recebe toda a gente, encanta e domina toda a gente n'um riso
aberto:--Meu querido amigo...--e, mal se fecha por dentro, arranca os
ultimos pêlos do bigode e cae exhausto, exclamando n'um pranto:--Ai que
filhos da p...! ai que filhos da p...! Eu não posso! eu morro!--Nem para
ser rei de Portugal valia a pena semelhante esforço.
No fundo é um politico com este fito: o poder. Mas alguma coisa o
distingue dos outros que conheço, do espesso Ferreira d'Almeida, por
exemplo, que exclama diante de mim sem pudor:--Hei-de ser ministro
porque quero mandar! gosto de mandar!--É um fidalgo com talento, e tanto
serve um amigo como um desgraçado de quem nada tem a esperar. O esforço
é identico.--Vou ao inferno por um amigo...--Ha ainda quem se lembre dum
Alpoim de chapeu desabado e capa á espanhola, mas o amor fel-o janota...
Na sua vida, como em todas estas existencias de aparencia e lucta, ha um
trabalho de sapa, que quasi totalmente desconheço. Sabe tudo, pode tudo
com os seus e com os outros. O Hintze tem por elle um fraco, o José
Luciano entrega-lhe nas mãos a meada politica:--Nada se faz sem mim. Sei
tudo!--diz muitas vezes com o olho esperto a luzir. O Teixeira de Souza
é o seu amigo mais intimo. Uns temem-no, respeitam-no os outros. Este
que lhe sorri atraiçoa-o--e elle fala-lhe amavelmente:--Não me podem vêr
porque lhes faço sombra. Eu sei... Mas ninguem exija dos homens mais do
que elles podem dar.--Conspira. Tem nas mãos os mil fios da emaranhada
teia politica. Vae mais alto ou mais fundo?... Não sei, mas é talvez a
isso que elle se refere quando afirma:--Ninguem sabe a que portas vou
bater!
Hoje conta o movimento de protesto quando dos comicios contra o governo
regenerador. Reuniam-se já ha tempos alguns pés de boi em casa de José
Luciano, que um dia sae-se com esta:
--Bem, meus senhores, precisamos de acabar com isto senão cahimos no
ridiculo. A tomar chá não fazemos nada. Que é que os senhores resolvem?
--A revolução! queremos a revolução!--concluiram todos.
--Eu disponho de seis mil homens.
--Vamos para a rua!
--Estamos dispostos a tudo, mas temos um pedido a fazer a V. Ex.^a: é
que se responsabilize a que a guarda municipal não atire sobre nós...
O José Luciano, a puxar pelo bigode, sem sahir da sua pachorra ironica:
--Oh senhores, mas se eu dispozesse da municipal não precisava dos meus
amigos para nada!
--O José Luciano o que tem tido toda a vida é sorte,--observa alguem do
lado.
--Garanto-lhes pela saude dos meus filhos, atalha logo o Alpoim--que é
um homem inteligentissimo. E senão vejam como elle conseguiu arredar e
vencer todos os do seu tempo. Ninguem luctou mais do que eu para a
eleição do Mariano a chefe do partido progressista, ninguem!... E que
succedeu?... O José Luciano tinha em segredo conseguido pôr o paço de
seu lado. Na vespera da eleição o Mariano disse-me:--Está tudo perdido,
votem no José Luciano...--Se não o elegessemos, o rei nunca mais chamava
o partido progressista.
Sob aquelle aspecto de inalteravel bonhomia, é um homem d'uma alta
inteligencia pratica. Muitos ao seu lado caminharam para o mesmo
destino, e elle, não sendo nem um grande jornalista nem um grande
orador, sem brilho mas solido--e com caracter! com tenacidade e
caracter!--pouco a pouco ficou sosinho em campo: arredou-os todos.
Fui do seu meio e do seu tempo. O Fuschini chamava-lhe com desdem:--Essa
vil alforreca...--Diz-se que no salão dos Navegantes se dava tudo o que
se podia dar--e que não lhe pertencia: logares, negocios e empregos.
Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os
interesses fataes dentro de certos limites. Não podendo ser nem um santo
nem um genio, manteve essa linha de superioridade, chegando, mais tarde,
a ser uma figura. Sentado na cadeira de rodas, o velho obstinado, n'uma
sociedade a liquifazer-se, resistiu até á ultima, e adquiriu relevo e
grandeza como se os alicerces fossem de pedra. Foi dono do paiz, dictou
a lei, e, arredado e sempre lucido, leu no futuro pronunciando algumas
phrases que a historia terá de registar...
Junho--1902.
Contava o marquez de Ficalho, pae deste Ficalho, e que era vivo ainda ha
quinze annos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI
tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI, ia de sege para Cintra,
Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis
annos, cavalariço do rei. De repente, ao longe, avista-se na estrada uma
nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de fóra da sege, brada:
--Parem! para traz que ahi vem a p...!
A p...--era a mulher. As palavras são textuaes.
[Figura: _Fernandes Thomaz._]
Março--1903.
Diz o Abel d'Andrade:
Dos oito mil contos de deficit, quatro mil é a casa real que os gasta.
Que ministerio tem força para se impôr ao rei? Ambos os chefes estão com
medo ao João Franco...
* * * * *
Arroyo queria atacar o rei nas camaras. Houve mosquitos por cordas para
o dissuadirem...
* * * * *
Sabem quanto faz o Arroyo por anno? Dez contos.
* * * * *
O rei foi aqui ha tempos para Setubal, e, depois de jantar, bateu o fado
com um malandrão. O Duval Telles, no outro dia, ao jantar, aludiu ao de
leve ao caso, achando-o improprio. Á noite encontrou na mezinha de
cabeceira uma carta do rei com estas palavras: _Dispenso-te do meu
serviço_. Seis meses não fez serviço; agora, antes da rainha partir,
pediu-lhe apoquentadissimo a sua intervenção. Outra carta do rei com
estas palavras: _Entra outra vez de serviço, mas nunca mais me dês
conselhos sem t'os pedir_.
Março--1903.
Alpoim:
--Antes de seis meses temos ahi graves acontecimentos...
--?
--Um governo fóra dos partidos, uma dictadura feroz.
E a proposito dos acontecimentos de Coimbra:
--Em Coimbra existem sociedades secretas. O governo sabe. Quando foi da
espera do Carrilho, tinham tudo combinado. Dois grupos fariam
descarrilar o comboio, apoderando-se dos papeis que o Carrilho trazia e
matando-o. Entravam lentes e estudantes...
* * * * *
O Alpoim:
--O Mousinho d'Albuquerque antes de morrer disse-me:--O unico homem com
quem eu poderia ser ministro era com o José Luciano.--Dantes dizia muito
mal d'elle. D'uma vez estava no Paço, no vão d'uma janella, a dizer
cobras e lagartos de José Luciano; o rei, um pouco afastado, ouviu-o:
--Ó Mousinho cala-te.
--Se incomodo V. Majestade saio d'aqui.
--Não, podes estar, mas acaba lá com a conversa.
* * * * *
--E porque é que o rei não gostava do Mousinho?
--Se lhe parece! Vêr sempre o Mousinho a seu lado, carrancudo, sem
palavra, mas severo como um censor... Irritou-se. Quem lhe valeu mais
d'uma vez foi a rainha.
Abril--1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
--Já por diferentes ocasiões o Estado tem corrido o risco de ir a pique.
Houve mezes em que quasi faltou o dinheiro para pagar á tropa, e mais
que uma vez o Banco de Portugal se viu em transes para arranjar
trezentos contos de reis.
* * * * *
Um architecto do Paço conta que a rainha D. Maria Pia fuma
constantemente charuto como um homem, e atira as pontas para onde calha,
sobre os sofás e os tapetes. Atraz d'ella anda sempre um creado de
farda, com medo que pegue o fogo, a apanhar as pontas. Anno passado,
antes de ir para o extrangeiro, mandou fazer umas obras no Paço.
--E não volto sem estar tudo prompto.
Quando voltou nem foi vel-as, mas, dias antes de ir outra vez para fóra,
lembrou-se das obras--e mandou deitar tudo abaixo.
--Não volto sem estarem concluidas.
As provas dos vestidos são um martirio para as pobres costureiras, que
mantém de joelhos duas horas seguidas, pregando-lhe alfinetes. Quando as
vê cahir exhaustas, arranca tudo, despedaça tudo...
* * * * *
O Alpoim conta:
O rei é muitissimo bem educado, mas não gosta nada que ponham a rainha
em primeiro logar. Não se importa com o paiz e julga-se um grande rei
constitucional. Os ministros para elle não existem: só ouve e atende o
presidente do conselho. É tão governamental que trata delicadamente os
politicos quando estam na oposição, mas não conversa com elles. Não é
como o D. Luiz, que ás vezes fazia-se com os ministros contra o
presidente do conselho. Chegava a conspirar contra o José Luciano,
partidario da aliança ingleza, com o Barros Gomes, que era pela
Alemanha. Ás vezes andava uma hora de braço dado com o Mariano e Emydio
Navarro, sem fazer caso do presidente do conselho. E depois d'elles
sahirem, perguntava-lhe:
--Olha lá, quando é que tu pões fóra estes gatunos?
O D. Carlos não é assim: para elle os ministros não existem. Trata-os
sempre por tu, menos quando é da assignatura. Não conserva odios. E fica
contentissimo se os ministros descompõem a oposição. Quando foi da
exhoneração do Mousinho pelo Dias Costa, este quiz demitir-se e
queixou-se ao José Luciano:
--No Paço todos me fazem má cara.
O José Luciano disse-o ao rei, que protestou:
--Não, por mim não é verdade. Quanto á rainha que a trate com todas as
atenções, mas que não faça caso.
E para reforço traz o caso Oliveira Martins: O José Dias Ferreira nunca
chegava a presidente de conselho se o Martins tem cathegoria. Imaginou
que manejava facilmente o velho rabula--e escolheu-o para taboleta.
Enganou-se... O Valbom ainda tentou organisar ministerio, mas o Martins,
sem manha politica, teimou no José Dias. Pois ao fim de dois mezes era
elle quem mandava e que o queria alijar... No Paço, nem este rei nem o
D. Luiz, gostavam do José Dias; apezar d'isso, quando o Martins,
aborrecido, se fingiu doente, e o José Dias se queixou, o D. Carlos
disse ao Arnoso:
--Olha lá, diz ao Joaquim Pedro--era assim que elle o tratava--que se
levante ou que se demita. Isto não é vida.
* * * * *
Diz-se para ahi que o D. Carlos tem o habito de mentir, e que pensa em
restaurar a monarchia no Brazil.
Maio--1903.
Os jornaes d'hontem contam que a Rainha D. Amelia não quiz receber o
presidente Loubet, por escrupulos de consciencia. Como é muito religiosa
respondeu, quando lhe foram anunciar a visita:
--Viajo incognita.
--Peor fez ella na Italia. Estava em Napoles, e o rei mandou-a convidar
para ir a Roma. Acceitou, e no dia seguinte safou-se para Livorno. O
governo italiano deu immediatamente ordem aos navios que estavam em
Livorno--para sahirem uma hora antes da entrada do _yacht_...
* * * * *
Silva Pinto contado por D. Maria Augusta:
O Silva Pinto escrevia de quando em quando cartas á condessa d'Edla,
pedindo-lhe dinheiro. A condessa architectou um romance: nunca o vira e
imaginou um poeta pobre, n'umas aguas-furtadas, morrendo por ella. E
mandava-lhe ás vinte e trinta libras. Um dia viu-lhe o retrato no
atelier de Columbano...
--Então este velho é que é?!...
E não lhe deu mais vintem.
Maio--1903.
Hoje 11 o Arroyo discutiu nos pares a viagem da rainha. Acusou-a de não
ter querido receber Loubet. O Wenceslau de Lima levantou-se e negou.
Comentario do Alpoim:
--Que havia elle de responder? Mentiu como um cão!
De resto o discurso foi cheio de alusões. Chegou a isto: a lançar
suspeitas sobre as relações do Soveral com a rainha. «Que está fazendo o
snr. Soveral em Paris? Façam-no recolher imediatamente a Londres[3]!»
--Triste simptoma--afirma o D. João de Alarcão--n'um paiz monarchico
ninguem se levantou para defender o rei. Alguns como o Ayres de Gouveia
foram cumprimentar o Arroyo; outros, como o José Luciano, sahiram dos
seus logares e chegaram-se mais para perto, para não perderem pitada.
* * * * *
--O que nós fazemos não é discursos, é historia--diz o Arroyo.
* * * * *
Diz-se:
O rei chama nomes ao Arroyo, o Arroyo chama-lhe corno...
* * * * *
O Alpoim:
O Arroyo chama corno ao rei, o rei chama aos outros ladrões. Eu sempre
queria que me dissessem o que elle é...
* * * * *
A quinta da Bacalhôa--continua o Alpoim--foi comprada pela casa de
Bragança. Quem faz as obras é a Casa Real, isto é o Estado.
Maio--1903.
O rei--diz hoje D. João d'Alarcão em conversa com o Alpoim--não se
importa nada com isto. Tomára elle ser kkediva d'este cantinho,
defendido pelas baionetas inglezas.
* * * * *
O rei tem uma lista celebre a que chama _a lista dos ladrões_.
* * * * *
O Arroyo volta á discussão e, a proposito, conta-se de novo a historia
dos tapetes:
«--Havia em Mafra um grande tapete persa, o mesmo que está hoje em
Vila-Viçosa, por signal muito mal tratado. Ninguem fazia caso d'elle,
até que um dia disse ao almoxarife que o guardasse. Mas fiquei sempre
com a impressão de que era magnifico. Duma vez que D. Carlos apareceu
extasiado por ter comprado qualquer tapete insignificante, lembrei-lhe:
--V. Magestade tem em Mafra um muito melhor do que esse...
--Ora adeus!
Teimo, chama-se o almoxarife, reclama-se o almoxarife e o tapete, e o
homem instado apresenta, em logar do tapete, dois papelinhos... A saber:
a ordem de Pedro Victor para entregar o tapete e o respectivo recibo.
Não vi o telegrama do rei, mas vi a resposta do administrador da casa
real: «Vossa Magestade manda, obedeço».
Dahi a dias aparecia o tapete. O Arroyo tinha-o lobrigado em Mafra e
comprado por 75$000 ao Pedro Victor. Entregou-o, e está hoje n'uma
parede do palacio de Vila-Viçosa».
* * * * *
Conversa entre o Soveral e o Alarcão:
--Ninguem diga d'este Soveral não beberei. Ainda has-de ser presidente
do conselho.
--Para quê? Então tu imaginas que deixo a minha situação lá fóra por
isto? Que mais quero eu? Sou par, sou do conselho d'estado marquez...
E o Alarcão conclue:
--Acredito que elle não queira. Só se fôr para arranjar algum negocio,
que elle anda muito precisado de dinheiro...
Maio--1903.
É certo que o rei falou ao José Luciano na dissolução da camara dos
pares, substituindo-a por outra em bases diferentes. A noticia foi para
os jornaes para assustar o Arroyo--que quer fazer outro discurso
sensacional contra o rei.
* * * * *
O José Luciano procurou o Arroyo em casa:--Venho pedir-lhe que não faça
o discurso contra o rei. É um homem na minha edade, perto da cova, que
lhe pede isto em nome d'interesses superiores.--Sim senhor... se V.
Ex.^a me assevera que por traz d'isto não está o sr. Hintze Ribeiro...
E chorou.
* * * * *
--O rei--diz o Alpoim--está contentissimo. O discurso era tremendo. O
Arroyo afirmava que o rei pedia dinheiro aos ministros. D'uma vez pediu
mil e seiscentos contos. Elle proprio, quando ministro, lhe deu muitas
vezes dinheiro.--Aqui estam as provas!--E apresentava-as.--O primeiro a
ser castigado devo ser eu, porque delinqui.
Junho--1903.
Os jornaes trazem a noticia de que o rei partiu para o mar no _yacht_ D.
Amelia e de que o duque d'Orleans chega na segunda-feira a Lisboa.
O rei safou-se de proposito para o mar, para o não receber. Do Paço
mandaram ordem para se antecipar a festa ao Barbosa du Bocage, na
Sociedade de Geographia. Tudo porque o rei supoz que os acontecimentos
de Paris com a rainha se relacionavam com imposições da familia Orleans.
...Afinal o rei sempre veio do mar e recebeu o duque.--Mas houve o
diabo!...--diz o Alpoim.
* * * * *
--O Navarro defende-o, senhor Alpoim...
--O Navarro diz hoje bem de mim, como amanhã diz mal--por doze vintens.
Junho--1903.
O _Diario de Noticias_ publica hoje esta curiosissima informação:
As recepções em casa do sr. conselheiro João Arroyo, constituem
sempre um acontecimento na nossa sociedade elegante. O talento
multiforme do illustre parlamentar, que é um artista de raça,
converteu o antigo palacete da rua do Telhal em uma das residencias
mais notaveis de Lisboa, tanto sob o ponto de vista da decoração
dos salões, como pelas preciosidades do mobiliario e valiosas
collecções de arte ornamental que elles encerram.
Não se encontra ali um "bibelot" que não seja um objecto de arte ou
não faça parte de uma collecção, paciente e sabiamente reunida e
disposta com perfeito gosto e conhecimento. De todos aquelles raros
objectos que se agrupam pelos tampos dos buffetes, das commodas e
dos contadores seculares ou nas prateleiras dos armarios e
«vitrines», resalta sempre uma vibrante nota de arte, que define o
criterio do colleccionador e marca fundamente o seu temperamento
esthetico. A sala dos xarões e dos cobres e bronzes esmaltados e
«cloisonnés» é por certo a mais bella que existe no nosso paiz, e
só por si basta para aferir o elevado grau que occupa o
colleccionador no nosso meio artistico. Ha, porem, muito mais, tão
bom ou melhor que admirar nas salas do sr. João Arroyo, as quaes
dão aos «gourmets do bric-a-brac» a impressão de verdadeiros
escrinios de arte. Nestes casos estão a graciosa collecção de
figuras e mascaras chinezas, a preciosa exposição de leques, cujos
pannos ostentam as mais lindas illuminuras dos pintores francezes
do seculo XVIII ou são apenas formados de finissimas rendas a
ponto, de Allençon ou de Bruxellas; os limpidos cristaes da Bohemia
e os finissimos vidros de Veneza; as raras faianças da China, e de
Saxe; as soberbas «boiseries» da casa de jantar, bello trabalho
decorativo no estylo Renascença, do architecto Bigaglia, com o seu
fogão monumental, o seu grande lustre de ferro forjado e as
prateleiras dos «lambris» repletas de exquisitas pratas, faianças e
cristaes.
Por toda a parte, emfim, desde o vestibulo e da galeria da escada
até ás salas do jogo, quadros a oleo das escolas italiana,
flamenga, hollandeza e franceza, tapeçarias de Gobelins e do
Oriente, colchas da India e da Persia, tudo quanto o persistente e
criterioso esforço de um artista e o bom gosto de um homem elegante
poude colleccionar, tudo chama a nossa attenção, que só encontra
ali maior attractivo no bondosissimo tracto da illustre dona de
casa, a sr.^a D. Maria Thereza Pinto de Magalhães (Arriaga) e na
conversa scintillante de seu marido, um dos mais espirituosos e
interessantes cavaqueadores da nossa sociedade, e que tem tido
naquella senhora uma valiosa collaboração artistica, assignalada em
mais de uma das preciosidades que se contem na sua bella
residencia.
Por tudo isto, o «raout» de hontem esteve concorridissimo e
encantou todos os convidados dos illustres amphitriões, entre os
quaes estavam:
Conselheiro Hintze Ribeiro e esposa, ministros da justiça, obras
publicas, guerra, fazenda, marinha e esposas, nuncio de S. S. e
secretarios, Rouvier, ministro da França e esposa, ministro de
Hespanha e esposa, conde e condessa de Azevedo, Miguel da Motta e
esposa, monsieur e madame Bruno, marquez da Foz e filha D.
Marianna, duqueza d'Avila, condes d'Avila, marquezes de Guell,
marqueza de Bellas, conselheiro Schroeter e esposa, Costa Pinto e
esposa, conselheiro José Vianna, Pedro Diniz e filha, Carlos
Ribeiro Ferreira e esposa, viscondessa de View e filhas, José
Sassetti e esposa, viscondes de Santo Thyrso, conselheiro Germano
Sequeira e esposa, condes de Paçô Vieira, almirante conde de Paço
d'Arcos, Sarrea Prado, conselheiro Achilles Machado e esposa,
conselheiro José de Azevedo e esposa, conselheiros José e Antonio
Arroyo, conselheiro Matheus dos Santos e esposa e filha, condes de
Sabroso, conselheiro José Ribeiro da Cunha e esposa, José E. de
Barros e esposa, Joaquim Lima, Alberto Braga, João de Freitas Rego,
F. Baerlein e esposa, Albino Freire d'Andrade, viscondes de
Mangualde, conselheiro Ferreira Lobo Francisco d'Aguiar,
conselheiro Souza Monteiro, Barbosa Colen, conselheiro Deslandes e
esposa, Terra Viana, esposa e cunhado, Carlos Blanch e esposa, D.
Elisa Pinto de Magalhães e D. Luiza Pinto de Magalhães, Alberto
Monteiro, conde de Mesquitella, Dr. Furtado e esposa, Virgilio
Teixeira, marquezes de Funchal, monsenhor Santos Viegas,
conselheiro Moraes de Carvalho, Henrique Burnay, conselheiro
Francisco Mattoso, Henrique Anjos e esposa, Carlos Soares Cardoso e
esposa, conde de Verride, D. Juan de Castro e filha, Condes de
Tattenbach, Alvaro Rego, conselheiro Poças Falcão e esposa, José
Fernando de Sousa, barão de S. Pedro, conselheiro Thomaz Rosa,
condessa d'Almedina e filha D. Luiza, Antonio Caria e esposa, M.
Emygdio da Silva, etc., etc.
* * * * *
O que faltou a esta sociedade foi um Balzac, que os trouxesse desde a
obscuridade e da pobreza, que nos contasse o esforço, as transigencias,
o talento gasto e o fel gasto, até chegarem ao poder--Navarro, filho
d'um mestre de musica de Bragança, Mariano pobre, Arroyo pobre. Alguem
que nos desse a vida occulta, a audacia e o descalabro, a chaga politica
que os engrandece e corroe, que corroeu o proprio Chagas, o romantico da
_Morgadinha_, até ao ponto de acabar por estas palavras amargas, com o
ultimo suspiro:--A vida é uma comedia!--Alguem que nos mostrasse Arroyo
e os seus phantasmas, Mariano e os seus phantasmas, Navarro e os seus
phantasmas.
Como a vida efectivamente transtorna, enxovalha e envilece--se lhe falta
ideal, paixão, ou um forte sentimento que caldeie as figuras e as eleve!
Não, a vida não é uma comedia. A vida é profunda. Elles é que lidaram
apenas com inferioridades e interesses mesquinhos. Mariano acabou quasi
desprezado. O talento não lhe serviu de nada. Talvez o prejudicasse...
Ha um momento tragico na sua vida, aquelle em que João Chrisostomo
d'Abreu e Souza lê em plena camara a declaração, em seu nome e no dos
seus colegas, de que lhes haviam sido desconhecidos os actos irregulares
praticados pelo ministro da fazenda Mariano de Carvalho. Vejo-o mudo,
livido--com um olhar atono, como nunca vi em mais ninguem. O sceptico! o
sceptico amarfanhado, reduzido a trapo, com um golphão de desprezo, por
si e pelos outros, na bocca, com um golphão de negrume!... Jamais me
esquece esta figura, que vi morta entre os vivos, sentado n'um canto da
camara, sem ninguem fazer caso d'elle, vendo sem vêr, ouvindo sem ouvir,
e não tendo podido realisar nenhuma das suas ambições:--Deixem-me!
deixem-me!--Deixem-no com os seus phantasmas! Arroyo talvez encontrasse
na musica um refugio... Navarro, porém, acabou no mesmo abatimento.
Temiam-no--mas só o temiam. Arredaram-no. No fim da vida ficava horas e
horas absorto ou ia para o fundo d'um camarote do Gimnasio ouvir musica.
Apegara-se--mau simptoma--aos netos. Desconfio que o celebre estadulho
não passava d'um espantalho, e que era grande a sua
sensibilidade:--Sinto-me ferido em pleno coração--Do coração morreu, sem
nunca o deixarem realisar as suas ambições.
[Figura: _Guerra Junqueiro._]
Metidos n'aquella roda de navalhas foram até ao fim do combate, luctando
sempre. Os que tinham de escrever, escrevendo sempre, espremendo o
cerebro, os que tinham de intrigar, intrigando sempre, com a mascara
livida e sorrindo sempre, ferindo sempre, e cahindo de pé. Oh quem me
dera um momento, só um momento para vêr a série de phantasmas em que se
desdobrou cada um destes sêres, para os lêr até ao amago, para lhes
descobrir o instante de cansaço e o ponto vulneravel--rodeados de
invejas, de odios, de inimigos, que esperavam na sombra e não perdoavam
um desfalecimento--uns fingindo-se cinicos, sorrindo aos insultos, e
cravando as unhas na carne até ao sangue, como Rodrigo da Fonseca
Magalhães, outros respondendo á audacia com audacia, outros sucumbindo
ao nojo, com estas palavras que já surprehendi a alguem n'um momento
supremo:--Não, não valia a pena!
* * * * *
O mundo politico é tão curioso! O que está á vista não tem importancia,
o que se mostra não passa de scenario. Para viver aqui dentro é preciso
habituar a pelle a todas as alfinetadas e afivelar na cara uma mascara
perpetua. Este homem elogia outro e combate-o a occultas. O que se diz
nas camaras precisa de ser explicado nos corredores, para ser
comprehendido. O Cypriano Jardim atacou ha dias o governo. Porquê?
Estava nas colonias a ganhar seis libras em oiro por dia e chamaram-no á
metropole. O artigo _D. Folião_ do Colen fez successo... Já se
diz:--Escreveu-o porque o Mattoso dos Santos lhe não despachou uma
pessoa de familia. Foi preciso um ataque rude, para o ministro lhe dar,
antes de cahir, um logar não sei onde. Ha politicos que se servem de
todos os meios: ha-os--sei eu--que se escrevem cartas anonimas. Parece
até que os ha mais completos... Um franquista barafusta hoje nos
corredores das camaras, ácerca dum deputado da maioria:--O que eu admiro
é o descaramento de Fulano, que se atreve a fazer discursos alli na
minha frente, quando sabe perfeitamente que trago na algibeira uma acta
em que elle se confessa ladrão!--Este mundo tem as suas leis, as suas
convenções, os seus preconceitos, e a sua honra especial. O principal é
o que se diz ao ouvido. Aquillo alli nas côrtes é apenas aparato: o José
Luciano combina tudo com o Hintze, o Alpoim com o Teixeira de Souza. Mas
surge ás vezes o inesperado e deita a frandulagem de pernas ao ar... A
atitude violenta do Arroyo explica-se assim: O Arroyo queria ser do
conselho do Estado, o Hintze prometeu nomeal-o, o rei opoz-se. O Hintze
teimou--o rei teimou:--Vae para casa e pensa...--A atitude do Navarro
explica-se porque o rei nunca o deixou ser par...[4] D'ahi o odio--d'ahi
barafunda... O José Luciano procurou o Arroyo para lhe pedir que não
fizesse o discurso contra o rei:--Sou eu, chefe dum grande partido, que
lhe afirmo que não está inutilisado.--E publica no _Correio da Noite_ o
discurso com alusões á rainha--que o Alpoim manda retirar do _Dia_, por
causa do Paço... Os chefes ainda conservam certa linha, mas cá em baixo
vêm-se referver os interesses, as ambições, os despeitos. O D. Carlos
mantem-se n'uma atitude que faltou ao D. Luiz--e é talvez por isso mesmo
que o atacam e o acusam. Não intriga. O D. Luiz mais de uma vez propoz
ao José Luciano, no tempo de Braamcamp, que organizasse
ministerio:--Isso não, meu senhor! E vou já d'aqui dizel-o ao
Braamcamp.--Tudo parece confusão, todos os dias a teia se emaranha.
Ainda ha quem defenda este e aquelle, que pertence ao seu partido, por
interesse, por camaradagem, seja pelo que fôr, mas já não ha ninguem que
defenda o rei. Alto ou baixo, ao ouvido ou em plena rua, só se fala no
rei... O rei! o rei! o rei!...
Junho--1903.
--Os Braganças, dizia o Latino Coelho, ou são pedantes ou fadistas.
A este proposito o D. João da Camara conta, que um dia D. Pedro V leu um
discurso á mãe, dizendo-lhe ella no fim:
--O menino ha-de sahir um bom pedante.
Se tarda em morrer acabava odiado.
E acabava. As grandes figuras moraes são sempre uma calamidade para si e
para os outros. O universo é amoral, e não ha como os acomodaticios, com
alguma hipocrisia ao seu dispôr... Os outros só fazem a sua desgraça e a
desgraça dos que os rodeiam.
Junho--1903.
Pateo de Martel. Um cantinho com uma figueira e malvaiscos. Uma fiada de
casas e no extremo o atelier do Columbano. Por traz a quinta... E outra
luz diferente, outra atmosphera... O mestre, pobre e obstinado, fez alli
os seus melhores retratos; a senhora D. Maria Augusta, n'uma sala de
trez metros quadrados, creou as suas mais bellas rendas. Lá no fundo
morou Eugenio de Castro, pobre, morou depois o Justino e outros
diplomatas ilustres... Alli o mestre, como os artistas da Renascença,
experimentou o _fresco_, as tapeçarias, os trabalhos em cêra e prata. A
senhora D. Maria Augusta sorria-nos com a maior bondade e carinho e
dizia:
--Quando meu pae morreu ficamos sete irmãos. Criei-os a todos.
--E o Columbano?
--Esse é meu irmão, meu filho e meu mestre. Por alli passaram tambem os
maiores homens de Portugal, de quem o Columbano ás vezes fala:
--O Oliveira Martins contou-me, quando veio ao meu _atelier pousar_ para
o retrato, que um dia a rainha o mandou chamar e lhe apareceu
transtornada:
--Salve-nos! salve-nos!
Era depois dos acontecimentos do _ultimatum_. O Martins procurou ou
escreveu--não me lembro--ao Anthero do Quental e elle afastou-se e
abandonou tudo.
São curiosos os grandes homens contados pelo Columbano, que os retratou.
Um levava um pente na algibeira para compor o cabelo, outro pedia para
se lhe não ver a careca. O Junqueiro era mephistophelico. Aparecia,
desaparecia logo: não pousava cinco minutos a fio. Um dia o Columbano
ouviu bater a porta, e entrou-lhe no atelier um homem já cansado, de
grossos sapatões, apegado a uma bengala, que parecia um bordão de
pedinte:
--Disseram-me que gostava de fazer o meu retrato e aqui estou...
Era o Anthero. Parecia um cavador, de meias grossas de lã azul--mas
quando falava!... Nunca olhou para o retrato.
--Está prompto?
Foi-se embora como viera...
Junho--1903.
O José de Figueiredo diz-me:
--Copiei por minhas mãos, para o Antonio Candido, a carta em que o
Soveral é durissimo para os partidos, fala d'alto ao rei e lhe diz que,
se não tivermos juizo, a Inglaterra tutela-nos.
Junho--1903.
--Ninguem me mete na cabeça que esta rainha é boa pessoa--diz o Alpoim
ao vel-a descer o Chiado.
Mas, quando passa, toda a redacção do _Dia_ corre á janella, para a
cumprimentar, e o Moreira d'Almeida, que tem por ella culto e paixão,
põe á pressa o chapeu na cabeça, para se ir desbarretar n'uma grande
cortezia.
* * * * *
Fala-se hoje do Soveral na redacção do _Dia_, e da amizade que o liga ao
rei d'Inglaterra.
--São tão amigos que por occasião do ultimatum, ainda Eduardo VII era
Principe de Gales, este pode prevenil-o da atitude da Alemanha. Iam
ambos n'um cortejo: o principe, de passagem, chegou-se-lhe ao ouvido e
só lhe disse estas palavras:--A Alemanha está comnosco...
O Soveral correu ao telegrapho.
Junho--1903.
O Adrião de Seixas, que, nos seus tempos aureos, entrou em muitas
combinações de finança, negociou emprestimos, esteve ligado aos Mosers,
etc.:
--Quasi todos os homens publicos recebiam luvas, posso garantir-lh'o.
Todos estendiam a mão. Duma vez trouxe para um, um aparelho de chá,
magnifico, de prata, comprado em Paris. Elle recebeu-o e, destapando o
assucareiro, afirmou com desplante, sorrindo:--É magnifico... só lhe
falta o assucar.--Eu, que já ia prevenido, tirei das algibeiras alguns
rolos de libras, despejei-os dentro e perguntei:--E agora?--Agora está
optimo.--E concluiu:--Você é uma mercearia ambulante!
Junho--1903.
O marquez de Soveral em conversa com o Alberto Braga:
--É que eu vivo em Londres longe de tudo isto... Se me visse forçado a
viver em Portugal, fazia-me revolucionario.
* * * * *
Tambem o Alpoim diz hoje:
--Quem me dera uma revolução!
E, deante do nosso espanto, explica:
--Para pôr o rei no seu logar... Eu não tenho nada a perder, meus filhos
estão colocados, o que tenho chega-me para viver na Regoa como um
fidalgo... Era preciso que o rei tivesse medo. Mas quê! Agora com a
aliança ingleza é muito peor. Ainda outro dia dizia o José
Luciano:--Podem vir os republicanos todos juntos, os de cá e os de
Hespanha, que não fazem nada. É da aliança que, se houver qualquer
movimento, desembarcam tropas e defendem o rei.
E acrescenta:
--Eu vi tudo, vi as perguntas e as respostas, posso assegurar-lho.
* * * * *
--Elle é mau, é--diz o Alpoim do rei--mas a gente não tem outro.
Junho--1903.
O Abel d'Andrade:
--Conheço muito bem o Hintze. Tem duas qualidades magnificas n'um homem,
pessimas n'um chefe. É delicadissimo. Sorri sempre, mesmo quando sabe
que o enganam--e nunca resolve nada, o que lhe acarreta dificuldades,
que vão crescendo á medida que elle as adia. Tem outro defeito enorme;
não é capaz de dizer _não_ peremptoriamente a ninguem.
Junho--1903.
O Emygdio Navarro está furioso com o rei. Sentiu immenso que o não
convidassem para nenhuma das festas dadas ao rei d'Inglaterra--quando
foi elle que iniciou, defendeu e preparou a aliança anglo-portugueza.
Junho--1903.
Estive hoje em casa do juiz Veiga, lá para o Rato, por causa d'uma
querela do _Dia_. É um homem atarracado e forte, com um ar de falsa
bonhomia. Ha n'elle não sei quê de inquisidor e de satiro, e é tão
desconfiado, que, logo que eu entro, pousa sobre os papeis da secretaria
uma larga folha azul, com medo que lh'os leia. Na sala, de cadeiras
doiradas de palhinha e _consoles_ com gatos de vidro, ha varios
mostrengos em exposição: o retrato delle e retratos de familia,
temerosos, o busto do rei D. Carlos em marmore e outro não sei de quem,
ambos de arripiar. E, entre a papelada que trasborda e estas coisas de
mau gosto, o juiz Veiga fuma n'um cachimbo d'espuma com uma mulher em
pêlo...
É este o homem que sabe tudo e pode tudo, que conhece os segredos das
familias e os segredos da politica. N'outro dia obrigou um janota a
entregar-lhe as cartas, que comprometiam uma mulher casada. Contam-se
mais casos curiosos. É omnipotente e omnisciente. Comanda, diz-se, bufos
ilustres de quem ninguem suspeita. Tem um cofre sem fundo á sua
disposição para distribuir dinheiro a rodos. Acode a desgraçados.
Tortura--verdade ou mentira?--no fundo das celulas alguns presos
politicos para lhes arrancar segredos. Ainda ha tempos me contaram que
ao José do Valle não o deixaram dormir sem elle confessar tudo...--É uma
especie de Pina Manique, que pouco abusa do seu lugar e da sua
autoridade. Afirmam-no bondoso. Ha até quem o diga uma especie de
Providencia. É incontestavelmente um homem esperto, que
protesta:--Quero-me ir embora antes que tudo isto desabe. Esta gente não
sabe ou não quer defender-se...
Fala baixinho, sem me olhar nos olhos e resolve n'um prompto, como quem
não encontra nunca obstaculos. Quando saio, no patamar da escada,
surprehendo duas creadas de avental sujo e chinelos esbeiçados, que dão
de comer, ás escondidas, a um policia. Enganam-no na sua propria casa e
deitam a fugir quando me vêem.
Junho--1903.
O artigo de hontem, das _Novidades_, sobre a mortandade da Servia, cheio
d'alusões ao rei, fez sensação. E dizia-se por ahi:
--Quando se faz cá o mesmo?
--Foi uma limpeza!--phrase do Alpoim.
* * * * *
O Beirão:
--O Alpoim não quer vêr que o partido do João Franco, apezar de pequeno,
é um partido de protesto. Qualquer dia o rei chama-o e dá-lhe os mesmos
poderes que tem dado ao Hintze ou ao José Luciano.
Junho--1903.
Judice Bicker, casado com uma filha do Andrade Corvo, conta, a proposito
do rei e do poder pessoal:
--Possuo diferentes cartas do D. Luiz, e entre ellas uma ao Corvo,
pedindo-lhe que apresente certa proposta, mas de maneira que não pareça
_poder pessoal_... Os homens desse tempo impunham-se. Um dia ao D.
Augusto meteu-se-lhe em cabeça casar com uma infanta d'Hespanha. Era no
tempo em que se falava muito na união iberica. O Corvo opoz-se, apesar
da insistencia desesperada do infante. Por ultimo procurou-o e
disse-lhe:
--Escusa de insistir, que não casa. É pelo bem do paiz.
* * * * *
O Corvo foi um dos primeiros estadistas a pensar a serio na Africa e no
seu engrandecimento. Quiz augmentar o territorio de Angola e
estabelecer-lhe os limites, d'acordo com a Inglaterra. Tudo era possivel
n'esse tempo e tinhamo-nos livrado de dificuldades, do Estado livre do
Congo, etc. Avançavamos um seculo, se elle não cae por causa do tratado
de Lourenço Marques. Deitaram-no a terra, espalhando que recebera
milhões. Eu que casei com a filha, sei o que elle deixou!...
Nas camaras o governo d'então declarou que o tratado não tenha ido a
conselho de ministros. O Andrade Corvo possuia o tratado com anotações
do punho de Fontes e Thomaz Ribeiro. Apesar d'isso calou-se. Se fosse
hoje!...
Junho--1903.
--O rei tem pensado. E tanto que o infante quiz ir agora ao estrangeiro
e pediu dinheiro ao Hintze, que lhe respondeu:--Peço-lhe que desista.--O
infante rasgou a carta furioso. Com a Maria Pia sucedeu o mesmo. Essa
inventou uma doença d'olhos e preveniu o D. Carlos de que precisava de
ir ao estrangeiro. Resposta do rei:--Cá ha um bom
especialista.--Mandou-lho, e elle disse ao rei que a Maria Pia não tinha
nada. A Maria Pia insistiu, n'um desespero, e o rei mandou-lhe o Antonio
Lencastre. O rei tem pensado...
--Se isso fosse verdade!--exclama o Alpoim.
Junho--1903.
Esta tarde sahiu dos Martires, mesmo em frente do _Dia_, a procissão do
Corpo de Deus. Todos á janella cahiram de joelhos--quando o bispo de
Trajanopolis passou, a barba loura, muito cuidada, e um capachinho no
alto da cabeça, apartado ao meio... O Alpoim exclamou:
--Ó que maroto! Foi a este que o Barros Gomes, quando ministro, disse um
dia: Ajoelhe a meus pés! Peça perdão!--Tinha hypothecado lá fóra os
rendimentos do curia por noventa annos!
Junho--1903.
O D. João da Camara conta que no Algarve encontrou em todas as casas
dois retratos--o de João de Deus e o do Remexido. E a proposito diz que
um tio de Coelho de Carvalho levava já a galope o comutamento da pena do
Remexido, quando o fuzilaram. E termina:--A Angela Pinto é neta do
Remexido. Aposto que não sabiam!
Julho--1903.
--Vou pedir um logar que está vago no Supremo Tribunal--disse um patusco
ao Marçal Pacheco.
--De juiz?!
--Isso.
--Mas você endoideceu! Não lh'o dão!
--Isso sei eu.
--Mas então porque é que o pede?
--Já pedi umas poucas de coisas, vou pedir mais esta. Recusam-ma, já
sei, mas é _capital_ de queixa que amontôo.
* * * * *
O Alpoim:
--Um dia o cardeal patriarcha convidou-me para jantar. Estavam muitos
bispos. São jantares que nunca acabam, de quinze pratos, serviço
esplendido--e não calcula a impressão que eu senti, no fim, quando elles
se levantaram muito congestionados, cheios de vinhos magnificos, mamando
charutos enormes e com as saias arregaçadas...
Setembro--1903.
O Henrique de Vasconcellos, genro do Navarro, contou-me hoje que o Paço
por trez vezes mandou insistir com o sogro, para elle não continuar com
os ataques nas _Novidades_.
Outubro--1903.
O Alpoim recomenda no _Dia_ que se não publique nada que possa ferir as
susceptibilidades da côrte hespanhola. Afonso XIII está
desconfiadissimo. Além d'isso o nosso rei e rainha de Hespanha não se
podem ver: têem um pelo outro odio figadal.
* * * * *
Um coronel inglez, que ahi esteve, veio por ordem do seu governo vêr em
que estado tinhamos as fortificações de Lisboa. Examinou tudo.
[Figura: _José Luciano encerra o Parlamento._--Caricatura inedita de
Celso Herminio.]
* * * * *
Com as festas de Afonso XIII encheu-se muita gente. Um regabofe. Da
iluminação da Avenida diz-se:--Dos Restauradores para cima dirige o
Costa Pinto, dos Restauradores para baixo digere o...
* * * * *
Ao ouvido conta-se que o rei de Hespanha e os que o acompanhavam
troçaram tudo isto: o paiz, a côrte, as festas. De manhã, no quarto,
emquanto elle tomava café ou chocolate, os particulares e os intimos
maldiziam, n'uma chacota pegada... Só o rei, fracamente, se opunha.
Outubro--1903.
O D. João da Camara conta o seguinte:
--O D. Luiz deu, até pouco antes de morrer, trezentas libras por mez á
Rosa Damasceno. Todos os dias 10, 20 e 30, o Nazareth lhe entregava cem
libras em oiro, que elle nem sequer contava: mandava-as logo á Rosa.
Morreu no dia 19 de Outubro: pois no dia 10 ainda lhe mandou o
dinheiro.--E o Brazão?--Cuido que não são casados, apezar do que por ahi
se diz. O que é certo é que antigamente, as coisas arranjavam-se por
forma que a Rosa e o Brazão nunca entravam na mesma peça, e um d'elles
ia sempre passar a noite ao Paço. O D. Luiz dizia do Brazão:--É o meu
melhor amigo. A Rosa nunca abusou da situação: apenas empregou dois ou
tres homens e o D. Luiz sentia por ella verdadeira ternura. Traduziu-lhe
a _Odette_ e assistia aos ensaios. A Maria Pia sabia tudo. Um dia deixou
no quarto do Paço onde a Rosa costumava ficar, um lenço de rendas a
tapar a fechadura. Ás vezes o D. Luiz apresentava-lhe joias para ella
escolher e depois levava-as á Rosa. E ia com a rainha ao theatro, para
que ella visse o efeito das joias no colo da actriz.
Outubro--1903.
--Vi eu, vi eu!--exclama o Antonio José de Freitas--o Oliveira Martins,
n'uma sala, deslumbrado, solicitar a apresentação d'um janota qualquer,
d'um janota banal.
Dezembro--1903.
O Adrião de Seixas, secretario do Banco de Portugal:
--Não se fazem descontos, porque não ha dinheiro e o Banco já recorreu
ás reservas de prata. O governo está sempre a pedir dinheiro. Imagine o
meu amigo que todos os annos ha um _deficit_ de 7:000 contos. Ninguem
tem a coragem de dizer as coisas como ellas são e por isso se faz um
orçamento falsificado. Resultado: como o orçamento é falso, pode-se
roubar á vontade!
* * * * *
O José Luciano está a morrer. O que ahi vae com a chefia do partido
progressista! Ao Antonio Candido não o tragam os progressistas, ao
Beirão não o quer o Paço, nem o Navarro, nem o Mariano. Lança-se o nome
de Antonio Candido para encobrir o seguinte proposito: presidente do
conselho o Mathias de Carvalho, com o Alpoim na pasta do reino.
Mathias de Carvalho é uma figura decorativa, sempre de palito na bocca e
de miolos empedernidos, que ficará na presidencia e estrangeiros. Esta
solução é preferida pelo Navarro e pelo Mariano. De Mathias apenas se
sabe que é incapaz: como diplomata foi quem deu ensejo a esfriarem-se as
relações com a Italia.
--Se o José Luciano morrer é á facada!--exclama o Alpoim.
Morrer era ainda--Deus me perdoe!--uma solução... Peor será conserval-o
na cadeira de rodas, obstinado, querendo mandar, e os herdeiros á espera
do testamento. Toda a politica portugueza vae girar em volta d'este
leito de enfermo, onde o velho continua a dar ordens imperiosas.--Hoje
deitou um litro de pus pela pelle.--Está salvo!--Morre!--Fica
invalido!--Tem sifilis!--Nesta altura da politica portugueza, é elle
quem manda tudo. Que o diga, o José d'Azevedo, por exemplo, que o não
pode vêr, porque o José Luciano o não deixou realizar as suas
pretenções. É na sua casa que se resolvem as questões maximas. A
politica é pelo menos n'uma grande parte, na melhor parte, representada
nos bastidores... «Vejam a vergonha desta gente! O Campos Henriques vae
a casa do José Luciano com o Julio de Vilhena, para conseguir que as
emendas do codigo civil passem. Não passam e elle fica no ministerio! O
Teixeira de Souza vae lá todas as semanas. Não, este Hintze... Eu
palavra de honra antes queria ser ladrão d'estrada!...»
Outro facto extraordinario da nossa politica: é sempre no campo adverso
que estes homens tem mais radicadas amizades. E tambem se percebe
nitidamente que no fundo da lucta só ha uma força, o rei. Por isso mesmo
o rei é sempre o culpado. Quem tudo manda é o Paço--dizem todos os
politicos--e tanto mais que não ha um nucleo de resistencia no paiz. Os
republicanos não estão organizados e o Paço nem sabe o que póde. Uma
revolução no paiz é, segundo a opinião geral, impossivel, a não ser que
se succedam trez annos de fome.--Tudo quanto se faz de mau é o rei quem
o faz...--Ainda hoje ouvi esta conversa:--Foi o Hintze quem disse ao
Arroyo, como disse ao Mariano e ao Navarro. «É el-rei que não quer».
Nunca lh'o deveria ter dito.--Os politicos inutilisam-no e
inutilizam-se. Todos os dias inventam novas atoardas. Hoje a proposito
d'uma nota oficiosa que o ministro da fazenda fez publicar no
_Noticias_, no _Seculo_ e no _Diario_, anunciando um grande emprestimo
no estrangeiro, conta-se que é um negocio de acordo com a casa Fonseca,
Santos & Viana, que tinha comprado fundos. Acusa-se o Teixeira de Souza
de conivencia. Mas já a 2 de junho o Alpoim afirma:--Quem não deixa
passar o emprestimo é o Burnay. N'outro paiz devia ter a cabeça cortada.
No ministerio da fazenda ha documentos que provam as suas maquinações no
estrangeiro. Elle manda em tudo:--manda no Credito Predial, no Banco de
Portugal, na Companhia Real. É uma desgraça que o emprestimo não passe.
Temos nós de o fazer e em que condições!... E tudo isto com que fim? E o
Burnay a ver se obriga os progressistas ao contracto dos tabacos.--A
esta trapalhada juntem a doença do José Luciano e as ambições, que
levantam a cabeça, a guerra de sapa que se encarniça.--Hoje deitou mais
pus!--Morre!--Com quem está o Paço?--O Moreirinha com a algalia não lhe
sae da cabeceira.--Quem vae ao poder? O João Franco?
--Nem elle sabe a guerra oculta que eu lhe tinha feito. Ha-de pagar-me
caro o discurso que fez contra mim: Viva a folia, dançar! dançar!... São
mil os interesses, mil as ambições.--Tudo menos o Beirão, que só tem por
si a gente velha, a gente conhecida pelos _batibarbas_.
Mas o velho teimoso e perspicaz, não admite sequer a idéa de que alguem,
que não seja elle, vá ao poder. Até á ultima--ambição ou
grandeza?--ha-de disputar e mandar, como o Alpoim, até ao ultimo
suspiro, ha-de conspirar. Aqui, á roda d'esta agonia, não se discutem
apenas os interesses d'uma familia. O drama é maior: são os interesses
dos partidos, com mil e uma ambições e enredos que nem sequer se
suspeitam. A confusão augmenta, redobra. O Ressano Garcia comanda o
ataque, á frente dos _batibarbas_, contra o Alpoim, e o Alpoim, que
ainda hontem atacava o João Franco, já hoje (Janeiro 1904) diz, depois
do conluio feito pelo Silva Graça:--Com esse me entendo eu!
Fevereiro--1904.
Hontem, terça-feira de entrudo, assisti ao espectaculo em S. Carlos.
Estava tudo, o rei, a rainha, a côrte... Senhoras decotadas com os
vestidos presos aos hombros por uma fita. A D. Amelia de vermelho.
Andava no ar uma bola enorme de borracha, e ao janota que quiz saltar
dentro d'um camarote tiraram-lhe as botas dos pés. Mas a risota, a
chalaça, a delicia, era um penico em miniatura, que passava de mão em
mão, por entre as grosserias, que é do uso antigo as senhoras dizerem
umas ás outras na terça-feira gorda. O fundo d'estes risos vem sempre da
mesma palavra pegajosa: merda! merda! merda! O rei, gordo e louro,
soprava por um canudo setas de papel, botando o olho de revez, e houve
um momento em que o infante mostrou do camarote o quer que era de
borracha, um canudo cheio de vento, immenso e obsceno. Foi um delirio
entre aquellas cabeças empoadas, na gente da alta roda de que se contam
baixinho os escandalos.
Ouçam um destes rapazes que estão na plateia, e que falam das senhoras,
como quem fala com desprezo das mulheres da Antonia. Muita desta gente
não se sabe aonde vae buscar o dinheiro. É um misterio. Aquelle louro e
correcto, que está além n'uma atitude romantica, ainda ha dias quiz
extorquir alguns contos de reis, para o jogo, a uma mulher casada. Outro
só vive da roleta. Mais além, o herdeiro de um nome ilustre, tem um
modesto logar na alfandega, e a mulher usa brilhantes esplendidos.
Aquelle, acolá, tão decorativo, é conhecido pelo conde de Monta-a-Velha.
São raros os que não têm alcunhas. A uma senhora de perfil soberano
chamam-lhe a Vareira. Outra tem um sobriquet infame. Deste e de aquella
diz-se alto a chronica escandalosa. A mulher do S. deu este anno grande
escandalo em Cintra. Outra foi apanhada aos beijos a um embaixador. Com
aquella, mais além, fina como uma cobra, e que ostenta um colar
magnifico, puzeram-se os B. de mal, acusando-a de lhes ter roubado uma
carteira com trezentos mil reis, depois de terem sido todos seus
amantes. A mulher do J... deixa o marido, pé de boi rico que só lhe
serve para puxar á nora, e gasta-lhe a rodos o dinheiro que juntou. Eis
esta mãe viciosa com a filha ao lado--de olhos limpidos e innocentes.
Peor, ha peor... E mais esta--e mais esta--e mais esta condessa, que
n'outro dia foi apanhada no comboio n'uma atitude peor que equivoca...
Puz-me a ouvir, a ouvir,--verdade? mentira?--e lembrei-me ao mesmo tempo
da côrte da senhora D. Carlota Joaquina e da _Chartreuse de Parma_.
* * * * *
O general Lencastre de Menezes:
--Se o 31 de Janeiro fosse agora as coisas não se tinham passado
assim...
Março--1904.
Morreu um dia d'estes um preto riquissimo, que quiz por força passar por
branco, o que lhe custou os olhos da cara. Se teima em viver mais algum
tempo acabava a pedir. Rodeara-se d'uma corte que lhe custava carissima:
lisongeavam-no e rapavam-lhe o cofre até ao fundo. Depois inventavam-lhe
processos, depois demandas... Depois sopravam-lhe á vaidade
incomensuravel. E o preto sorria, o preto dizia sempre que sim.
Tinham-no casado com uma linda rapariga branca--e o preto, á farta,
pagara tudo, dotara tudo, a noiva, os paes da noiva, os parentes da
noiva... E cada vez mais brancos lhe faziam a côrte e o enredavam n'uma
vasta teia de interesses, com muitas zumbaias e papel selado.
Um dia foi a Inglaterra e quiz viajar como um principe branco: comprou
um _yacht_ de luxo para ir a S. Thomé. Cincoenta contos. Na volta não
havia carvão a bordo e deitaram-se a queimar a madeira entalhada, os
doirados do barco, as portas, os salões, as molduras. E o preto sorria.
Quando chegou a Lisboa vendeu o barco por uma côdea.
Rodearam-no mais brancos, apareceram-lhe mais brancos infatigaveis,
pressurosos, obsequiadores. E mais papel selado, mais contractos e
procurações para assignar--o enredo, a teia subtil em que o negralhão
foi arrastado e envolvido, o verdadeiro, o authentico drama, emfim, do
preto que quer ser branco... Se elle tinha por acaso um sobresalto,
falavam-lhe logo á vaidade ou davam-lhe noticia d'uma coisa que se chama
o Codigo, a Lei, a Formula, e o preto, que não comprehendia e que se
sentia feliz, submetia-se sem contestar, com uma grande satisfação por
fazer parte d'esta raça ilustre e respeitada de brancos, por ser
visconde, por pertencer á côrte e á alta sociedade elegante.
...Antes de morrer lá lhe deram o ultimo golpe--de preto. Os brancos
ficaram-lhe com as roças, e as propriedades de S. Thomé foram
transferidas para uma sociedade por quotas. É o que consta por ahi,
emquanto o negralhão estoira com uma pneumonia dupla--e lá em casa se
toca desaforadamente piano, com as janellas abertas de par em par.
Março--1904.
As obras da sala de jantar do Paço das Necessidades custaram 180 contos.
* * * * *
O Abel d'Andrade contou-me que a modista da mulher lhe dissera que a
mulher do Hintze lhe devia lá uma capa ha mais dum anno.
Março--1904.
O Celso morreu ha um mez n'um dia de chuva como este. Mas, quando o
caixão chegou ao pé da cova, luziu o sol no alto. O ar parecia novo e no
vasto campo dos tumulos agitaram-se as cabeças amarellas dos
malmequeres. Os passaros começaram a cantar. E viu-se logo o Brito
Aranha, de pera branca, dar um passo em frente e fazer um discurso:--O
amigo... o camarada... descança em paz.--Depois o Cunha e Costa falou na
nossa decadencia, e por fim o Carneiro de Moura mastigou tambem uma
banalidade... Sentia-se que tudo aquilo era postiço. Mas os passaros não
cessavam de cantar--e a meu lado o D. João da Camara suspirou baixinho:
--Quem me dera que quando eu morrer só o saibam meia duzia de amigos!...
Abril--1904.
O Ovidio d'Alpoim ácerca da D. Maria Emilia Seabra de Castro:
--Mete-se em tudo. D'uma vez eu e o José Luciano estavamos a discutir
umas alterações á Carta Constitucional e ella começou do lado a dar a
sua opinião. O José Luciano mandou-a embora. D'outra vez sahia eu de
casa do José Luciano com o Antonio Candido e vinhamos á porta da sala
grande, quando ella do alto da galeria:
--Ó senhor Antonio Candido então agora é que vae para Amarante, quando é
cá preciso? E é para isto que nós os fazemos pares e os enchemos de
honrarias?...
O Antonio Candido não respondeu. Ficou tão vexado que, de casa até á
baixa, não trocamos palavra.
Março--1904.
As filhas de D. Carlota Joaquina, com excepção de duas, eram tal qual
como a mãe. O Camara conta que a duqueza de Loulé, que foi casada com o
mais lindo homem do seu tempo, estava um dia, em solteira, á janella,
quando o conde de Vimioso passou a cavallo para os touros, já vestido de
oiro e prata. Ella chamou-o, trocaram meia duzia de palavras, elle
subiu--e depois desceu e foi tourear...
O marquez de Vallada sabia quem eram os paes de todos os filhos de D.
Carlota Joaquina.
Abril--1904.
A Hespanha concentra tropas na Galliza. Nós não podemos mobilisar quinze
mil homens. Nem dez mil! Hontem o Pimentel Pinto queixava-se ao
Maximiliano d'Azevedo, de que nem artilharia de campanha possuimos: a
que temos ficava liquidada no fim de meia hora de combate. A artilharia
do campo entrincheirado de Lisboa, comprehendendo os obuzes, serve
apenas para navios imperfeitamente protegidos. Peor: o municiamento mal
chega para uma hora de combate!
Abril--1904.
O dr. Antonio Centeno protesta:
--Isto não pode ser! O ministro deu pela iluminação electrica do Paço de
Belem quarenta contos! Havia quem a fizesse por sete. Agora vae dar a
iluminação electrica de todos os paços por trezentos contos. Ha quem a
faça por quarenta. Mas d'esta vez oponho-me porque prejudica a Companhia
do Gaz. Vou procural-o e dizer-lho. Se teimar levo a questão para a
camara e para os jornaes.
Abril--1904.
Quem faz a politica externa é o rei e o Several. O ministro dos
estrangeiros chancela.
Abril--1904.
Isto é um paiz para estrangeiros. Não ha nenhum que não enriqueça. Hoje
afirma-se que o Chapuy, engenheiro da Companhia Real, vendeu machinas á
Companhia por cento e trinta e tres mil francos, que valiam setenta mil.
O Croneau, director do Arsenal, tambem está rico.
Abril--1904.
Diz o Alpoim:
--O rei não ouve ninguem. Antigamente ainda atendia o general Queiroz,
que era nosso amigo. Agora não: só ouve os presidentes do conselho.
Tratava muito bem o Teixeira de Souza; pois quando o Hintze resolveu
pol-o na rua, passou logo a tratal-o mal.
Maio--1904.
O alferes que no 31 de Janeiro comandava a guarda municipal, por traz do
campo de Santo Ovidio, nas escadas da Egreja da Lapa, e que depois
comandou o fogo na rua de Santo Antonio, garante que o Lencastre e
Menezes, então comandante do 18, não sahiu com o regimento emquanto não
viu tudo decidido. E dentro do quartel havia socego...
--Eu disse-o depois ao rei.
* * * * *
A proposito de 31 de Janeiro sei pelo José de Figueiredo, que o ouviu
por diferentes vezes ao Antonio Candido, que o rei e a gente do Paço
queriam um castigo exemplar. Antonio Candido opoz-se e ficou mal visto
durante muitos annos.
Junho--1904.
Disse-me hoje o Camara que o Soveral tomou parte, activa no tratado
d'_entente_ entre a Inglaterra e a França. É hoje um dos melhores amigos
de Delcassé.
Julho--1904.
A Maria Pia, que quer ir por força ao estrangeiro, mandou pedir dinheiro
aos agiotas de Paris sobre hypotheca das suas propriedades--chalet do
Estoril e parte do palacio das Necessidades, que ella afirma
pertencer-lhe... Ao todo cento e oitenta contos. De intermediarios
serviram um agiota do Porto, uma mulher designada na correspondencia
pelo nome de madame Blanche, e que recebia dez mil francos, etc.
* * * * *
Do Antonio José de Freitas:
O marquez da Fronteira nunca poude levar a bem o casamento de D.
Fernando com a _comica_, como elle lhe chamava. Uma senhora da
aristocracia conversando com o marquez:
--Fui visitar el-rei que me disse:--Não queres vêr a condessa?--Falei
com ella e parece-me...--hesitando--muito interessante...
[Figura: _Celso Herminio._]
E o marquez logo:
--A senhora já tinha, é claro, relações anteriores com a condessa...
Dezembro--1904.
O João da Camara repartiu com os netos de Camillo os direitos de auctor
do _Amor de Perdição_. Os filhos de Nuno nem pão tinham no dia em que
receberam inesperadamente esse dinheiro. O Camara, quando juntou
duzentos e tantos mil reis, escreveu á viuva e mandou-lhe
metade.--N'esse dia--disse ella ao Alberto Pimentel--não tinha que lhes
dar de comer.
* * * * *
O rei e a rainha vivem separados. Os seus aposentos são, uns n'um
extremo, outros no outro extremo do palacio. E por ahi afirma-se que
elle, depois do tifo, ficou como Affonso VI...
Dezembro--1904.
O velho obstinado teima... Não lhe falem na successão! Ainda n'outro dia
fez uma scena, quando a D. Maria Emilia lhe leu o artigo das
_Novidades_. Um amigo disse-lhe:--Deixe lá o Sebastião Telles ou o
Alpoim ser presidente do conselho.--Essa hypothese não a admito
eu!--protestou logo. O Hintze está gasto, o João Franco foi acolhido no
norte como um Messias. O Beirão fez um discurso nas camaras--talvez
proposital--dizendo que cortaria nos empregos publicos e que não admitia
direitos adquiridos senão dentro da lei.--Elle quer inutilisar-se...--É
um tipo esgalgado, d'astronomo, com uma grande penca--o nariz do
Beirão--motivo facil de caricatura. Homem de costumes simples, alheado e
indiferente a corrilhos, agarrado aos seus livros[5]. Já em Abril, no
conselho d'estado, taes coisas disse que, á sahida, afirmou:--Acabo de
dar uma enxadada na minha reputação!--Quanto ao Alpoim desconfia que o
José Luciano o quer comer, e o Teixeira de Souza trata de crear forças
dentro do seu proprio partido: comprou _A Tribuna_ e parece influenciar
no _Diario_.--Ao Hintze custa-lhe a largar o poder, elle bem sabe
porquê...--Os tumultos nas camaras succedem-se e a situação politica
agrava-se.
Do rei diz-se o peor possivel. Diz-se que colocou muito dinheiro no
Banco d'Inglaterra, (11 de Junho) diz-se que deu um colar de brilhantes
á bailarina Imperio, que ahi está na zarzuella... As questões
prendem-se, e agora com o contracto dos tabacos só se fala em
escandalos. Tudo come! tudo come! Come o Navarro, come o Mariano, e um
amigo meu, literato e jornalista, afirma-me:--Se a Companhia dos
Phosphoros tem feito o contracto, eu estava rico.--Corre que os
republicanos se organisam e o Bernardino Machado publicou manifesto,
aproveitando um jornal e um jornalista hespanhol:
...«Ha uma lei que domina todas as outras na historia da
humanidade: nenhuma instituição vive, se sustenta e se radica senão
pelo amor á liberdade. A lei, em virtude da qual existem
instituições liberaes, cumpriu-se nos nossos annais contemporaneos.
De 1851 a 1885 tivemos um periodo de liberdade e de paz. Foi um
periodo de ascensão liberal.
«Aboliu-se a pena de morte, e só por esse feito se proclamou pela
lei o direito á Vida. Proclamou-se esse direito com toda a sua
elevação, dando a todos, inclusivamente aos indigenas das nossas
colonias, onde se acabou com a escravatura, a faculdade de existir
espiritualmente, como uma personalidade moral. Alargou-se a
liberdade religiosa, tornando-a efectiva com o registo civil.
Alargou-se a liberdade economica pela extinção dos bens de mão
morta, pela abolição dos monopolios e pela criação legal das
associações de socorro mutuo e das cooperativas. Dilataram-se as
liberdades politicas com a extensão do sufragio e representação das
minorias. Descentralizaram-se os municipios, deram-se as maximas
franquias aos distritos e até se exarou na Constituição o principio
liberal da eleição parcial da Camara dos Pares. Nesse periodo, que
começou ouvindo-se a voz do grande tribuno José Estevão, parece que
resoaram até ao final os acentos do seu verbo eloquentissimo.
«Essa epoca venturosa termina com a morte de Sampaio, Braamcamp e
Fontes. E a prova de que todos os partidos colaboravam nessa grande
obra de pacificação e de liberdade, está em que foi o conservador
Fontes quem mais contribuiu para ella.
«Os partidos de governo definem-se pela sua concepção da
constituição nacional: Constituição liberal, partido liberal;
Constituição arbitral, partido reaccionario. Porque o arbitrio póde
ser, num dado momento, a liberdade; mas sempre se converte por fim
em absolutismo.
«No periodo de iniciação liberal fez-se a Constituição quasi
republicana de 1822, e, em troca, os constitucionais da campanha da
Terceira, do Cerco do Porto, de Almoster e da Asseiceira, tiveram a
carta outorgada de 1826, que foi, consoante o livre alvedrio do
imperante, a liberdade com D. Pedro IV, e a opressão com D. Maria
II. Em oposição á carta outorgada, Passos Manuel e os setembristas
fizeram a democratica constituição de 1838, decretada pela vontade
da nação.
«No segundo periodo da nossa vida constitucional, que abre com José
Estevão e se encerra pouco depois da morte de Sampaio, periodo que
inaugura entre nós o parlamentarismo, os regeneradores fizeram os
actos adicionaes de 1852 e de 1885, que são verdadeiros pactos
constitucionaes, e não intervalos historicos, mas reformistas,
constituintes, republicanos, que apresentavam os seus projectos,
qual delles mais avançado, da reforma constitucional.
«De 1886 até hoje sopra um vento imperialista. A inspiração, em vez
de vir da Inglaterra liberal, vem da Alemanha cesarista. O partido
progressista faz a centralisação dos serviços materiaes.
Segue-se-lhe, no Poder, o partido regenerador, e faz a
centralisação dos serviços espirituaes na instrucção, e depois
dissolve as associações, rasga as liberdades municipaes, acaba com
as representações das minorias, legisla dictatorialmente... E, por
fim, para que toda esta centralisação não suscite uma revolução
violenta, promulga a lei sobre o anarquismo, que é uma ameaça
sempre suspensa sobre todos os liberaes.
«Antes de 86, o partido republicano, como partido de tal natureza,
não era um perigo. Caminhava-se lentamente, pacificamente, para a
Republica, e não haveria ninguem tão insensato que sonhasse fazer
uma revolução para conseguir pela força o que se conseguiria, num
prazo fatal, pela lei e pela liberdade. Além disso, ninguem faz
revoluções por meras fórmas. Nós, os verdadeiros liberaes,
duvidamos se não é preferivel uma monarchia, com todas as
liberdades efectivas, com todas as descentralisações vivas, ou uma
Republica como a francesa, em que o Poder central é omnimodo, e o
regimen autonomo local nulo.
«Depois de 86, fracassadas todas as tentativas para regressar ao
antigo caminho constitucional; fracassada a grande, generosa e
derradeira tentativa de 93 a 94; com a fazenda publica em
bancarrota; com todas as liberdades suprimidas; com a pena de morte
restabelecida para os delictos militares e até para certos delictos
civis; com a politica do engrandecimento do Poder Real no seu
auge,--toda a gente pensa na Republica, porque ella não é já uma
questão de mera fórma mas sim um problema organico de vida ou de
morte para Portugal...
* * * * *
«A anarchia da nação demonstra-se: no interior pelo desencadeamento
das forças dissolventes do caciquismo, da plutocracia e a agitação
do clericalismo e fóra, pelas mesmas consequencias dolorosas que se
seguem a qualquer dictadura progressista ou regeneradora. Depois da
dictadura progressista, o ultimatum, a bancarrota, a invasão
congreganista, sobresaltando os animos, como no caso da irmã
Collecta. Depois da dictadura regeneradora, Kionga, o convenio
definitivo da divida, e o fanatismo clerical, irrompendo no caso
Calmon.
«Os partidos estão em dissolução. O regenerador, com dois chefes; o
progressista, com a perspectiva tremenda de uma herança
tempestuosa. Mas poder-se-hão reconstituir dentro da monarchia?
Andam varios nomes de boca em boca: os dos srs. Dias Ferreira,
visconde de Chancelleiros, Costa Lobo, Augusto Fuschini, Anselmo
d'Andrade e Augusto de Castilho. Viu-se, porém, o caso da monarchia
rodear-se d'esses homens de positivo merito? São convidados sequer
para as suas festas, que são oficiaes e não particulares?
«Entenderá e quererá a monarchia apoiar-se nas classes
trabalhadoras, visto a burguezia estar contaminada? Foi esse o
sonho do socialismo do Estado de Oliveira Martins e talvez o do
militarismo democratico de Mousinho de Albuquerque. Mas a monarchia
não soube aproveitar-se nem de um nem doutro. Oliveira Martins
morria politicamente poucos mezes depois de ser chamado ao governo.
Mousinho de Albuquerque não chegou sequer aos conselhos da Corôa, e
suicidou-se. A monarchia tinha para a realização desse programma,
alem d'esses homens, a voz mais eloquente dos nossos dias, a de
Antonio Candido, successor de José Estevão, que teria sabido
conquistar as massas populares, e para captar as simpathias
internacionaes um diplomata, o marquez de Soveral, que pelas suas
maneiras e espirito, é da raça dos Palmellas. Aproveitou-os,
porventura? Antonio Candido, desiludido, emudeceu. O marquez de
Soveral nada mais pode fazer do que abrandar o protectorado inglez.
«Hoje as massas afastam-se cada vez mais da monarchia, porque, como
tudo se concentrou no Poder Real, todas as responsabilidades se lhe
atribuem; o protectorado inglez serve para salvaguarda da
monarchia; a ruina financeira do paiz vem da confusão dos dois
erarios, e até o jesuitismo, se bem que não se imputa ao rei, é
comtudo imputado aos que o rodeiam.
«Não é licito pois esperar a salvação dentro da monarchia. Por
grande que seja a cultura do chefe do Estado, por muito que seja o
seu valor, a empreza da nossa regeneração não é para um individuo
só. Só a nação é que pode erguer sobre os seus hombros tão imenso
peso.
«E não se diga que a monarchia está identificada com a
independencia da patria. A nação foi, com efeito, sempre
monarchica; mas desgraçadamente a monarchia tem-se encarnado na
monarchia usurpadora dos Filippes, no governo napoleonico de Junot,
no governo de Beresford, sob Jorge IV. A monarchia teve um papel
soberano no começo da nossa Historia, mas foi-se gradualmente
divorciando do povo.
«E as nossas alianças? Essas não são dos reis, mas dos povos. A
aliança da Inglaterra é com Portugal, e não com as suas fórmas de
governo.
* * * * *
«É indispensavel organisar as forças vivas da nação portugueza.
_Organisando-se o partido republicano salvar-se-ha a nação_. É
preciso que o partido republicano se transforme em partido do
governo, e que cesse com a sua obra de demolição, já feita. Se não
pode alcançar logares no parlamento, conquiste-os nos municipios;
se não pode intervir no municipio, intervenha na parochia. Não
deixe ao abandono nenhum logar, por minimo que seja. E faça
sobretudo por apoiar todas as justas reivindicações dos pobres e
dos humildes.
«Deve ser um partido republicano profundamente socialista. Quando
os republicanos, por meio de toda a sua campanha, se mostrarem
homens de governo, podem estar certos de que a Republica se fará em
Portugal como se fez no Brasil, e á maneira do que succedeu em
1871, em França, onde a Assembleia Legislativa, com uma maioria de
monarchicos, elegeu para seu chefe o republicano Grévy e para chefe
do Estado Thiers, que era um monarchico convertido á Republica.
«A Republica em Portugal é necessaria para elevar a sua cultura,
para acabar com o numero incrivel de analfabetos, para se consagrar
á educação do povo. O estado actual o demonstra: _tanto é certo que
quando sofre a liberdade sofre tambem com ella a instrucção_.
«A Republica em Portugal é necessaria para que a religião seja a
união das almas pelo amor, como na economia social o é pelo
trabalho. As ordens religiosas atacam não só o Estado como a
verdadeira religião, cujos primeiros vinculos devem ser o amor da
familia, a cooperação economica e o progresso politico da
sociedade. O primeiro é combatido e negado pelo voto de celibato; o
segundo pelo voto de pobreza, e o terceiro pelo voto de obediencia
servil.
«Torna-se necessario defender a religião como um principio
immanente de justiça e de bem, e não como uma superstição e um
instrumento politico. O partido republicano não pretende destruir a
religião; o que nós pretendemos é tornal-a sincera e pura,
tornando-a voluntaria e livre.
«A aspiração do partido republicano encerra-se nestes tres
principios: _liberdade politica, liberdade economica e liberdade
religiosa_. Em nome de todos que querem saber, e não podem,
oprimidos pela reacção politica, essa infinidade de creaturas
analfabetas; em nome de todos os que querem trabalhar e não podem,
oprimidos pela reacção economica, essa infinidade de proletarios;
em nome de todos os que querem amar e ser bons e em cujo seio a
reacção religiosa lança a semente de odio; em nome dessa infinidade
de santas e piedosas mulheres que o clericalismo tenta desvairar e
arrastar para fóra dos seus deveres; pelos pobres, pelos humildes,
pelos fracos, saudemos a Liberdade e com ella o unico partido que
hoje a sustenta e defende em Portugal: _o partido republicano_.
«Se a Republica que não pede senão o restabelecimento e o respeito
á lei, não vier bem depressa, corromper-se-ha e perder-se-ha o
santo fundo deste povo exemplar, um dos modelos de virtude, de
paciencia e de resignação que existem sobre a face da terra».
D'outubro para novembro cae o governo, abalado pela questão dos tabacos:
os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. D'um
lado os Phosphoros, do outro os Tabacos; dum lado o _Seculo_ e o
Navarro, que ainda ha tres dias (Novembro) teve uma conferencia com o
José Luciano, dizendo depois á familia:--O José Luciano está cada vez
mais velhaco!--De outro o Burnay e o seu grupo... Os homens vão dia a
dia diminuindo de estatura moral! Ainda hontem alguem me contou esta
anecdota que define uma figura:--O Rebello da Silva era muito amigo do
Latino--mas muito mais amigo ainda da sua ambição: queria ser ministro
depressa. Um dia, de repente, cessou com as visitas que fazia ao grande
escriptor. Tinha descoberto um prefacio antigo, em que o Latino advogava
a união iberica, e foi para as camaras atacal-o. A questão durou tres
dias, o governo cahiu, e o Rebello da Silva substituiu o Latino na pasta
da marinha. Nessa mesma noite procurou-o de novo, e foi encontral-o a
lêr serenamente uma grammatica russa, cujo estudo interrompera durante o
tempo do governo.
--Tu já sabes, se queres alguma coisa é como se fosses ministro.
--Eu?!...--e sorriu-se, encolhendo os hombros. Mas tão triste, tão
sereno, que o outro ficou gelado...
Dezembro--1907.
O velho major Fumega, em conversa com outro militar reformado:
--Em 66 o Saldanha d'acordo com o Prim, tinham resolvido proclamar o D.
Luiz imperador da Iberia. Chegaram a distribuir dinheiro aos sargentos.
A mim, que era então sargento, deram-me seis contos, para distribuir
dezoito tostões por soldado. Tornei a entregal-os intactos. Se fosse
hoje gastava-os no brodio.
--Eu apanhei trezentos mil reis e dei cabo d'eles.
--O movimento abortou, porque foi denunciado pelo Graça, mais tarde
celebre como major Graça, no 31 de Janeiro, que, depois de assignar as
actas, como quartel-mestre, descobriu tudo. Era um denunciante, foi-o
sempre--conclue o Fumega, fumando placidamente o seu cigarro.
Dezembro--1907.
O D. Carlos a um oficial do exercito, depois da lucta com o João Franco,
das descomposturas ao rei, etc.,--e referindo-se aos politicos:
--Tu ouvel-os falar, não é verdade? Pois se lesses as cartas que todos
os dias me escrevem, e que estão alli n'aquella gaveta, enchias-te de
nojo!
Dezembro--1907.
Conta-me o D. João da Camara:
--A rainha era amicissima do meu irmão, o conde da Ribeira Grande.
Visitou-o seis vezes durante a sua doença. N'uma das ultimas noites elle
puxou-a a si, beijou-a, e explicou:
--É como se fosse minha filha.
Já na agonia, ella entrou-lhe no quarto e elle pode ainda dizer-lhe,
n'um ultimo arranco, estas palavras proheticas:
--Os politicos! Cautela com os politicos!
E ella respondeu-lhe:
--Descanse, não ha-de ter duvida, se Deus quizer.
* * * * *
Era um pouco apagado, mas bondosissimo. D'uma vez uma senhora foi
dar-lhe os pezames pela morte do filho. Tinha-lhe tambem morrido um
filho fazia um mez e desatou a chorar, a falar n'elle, cheia de saudade
e de lagrimas. E o conde da Ribeira, esquecendo a propria dôr, passou a
consolal-a...
Janeiro--1908.
O Fialho conta, indignado, que a viuva do Eça de Queiroz, a quem o
Estado dá uma pensão, vae vender uma propriedade no Alemtejo, por cento
e tantos contos.
--Veja você que pouca vergonha! São uns poucos de kilometros de terra de
semeadura e montado de azinho e bolota, que sustenta um cento de
cevados! Bem sei que metade da propriedade é da irmã, da mulher do Luiz
Osorio... Ainda assim são cincoenta contos. Mas n'este paiz faz-se tudo
o que o senhor Arnoso quer!...
Janeiro--1908.
Um oficial d'armada, ao José de Figueiredo:
--Todos os oficiaes d'armada, á excepção de meia duzia, não podem vêr o
rei, a quem chamam _o pulha_. Se houvesse em terra um movimento
republicano, secundavam-no logo.
* * * * *
Diz-se por ahi:
--Venha tudo, venha o peor, venha o diabo do inferno, que nos livre
d'isto!
Janeiro--1908.
No _Turf_ e no _Club Tauromachico_ joga-se sempre escandalosamente. O
conde de... lá vae outra vez para a Africa, arruinado pelo jogo no _Club
Tauromachico_, o visconde de... tambem lá perdeu uma fortuna.
Janeiro--1908.
Grosso escandalo com o livro do Albuquerque, _O Marquez da Bacalhôa_.
Este Albuquerque, conhecido pelo _Lendea_, é o ultimo descendente, pelo
pae, do grande Afonso d'Albuquerque, e, pela mãe, do grave, do douto
João de Barros. Ainda aqui ha annos, quando o rei visitou uma terra de
provincia e se hospedou na casa delle, sahiram das lojas caixotes de
louça da India, que nunca tinham sido abertos. Elle tem tido uma vida de
aventuras: bateu-se em duello em Madrid, caçou no Cabo com lords, tocou
guitarra em Ourville e teve uma loja d'instalações electricas na Italia.
Agora é jornalista, escriptor, poeta e publica este livro d'escandalo,
em que a rainha, Senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de
rasto... Mas faça-se-lhe justiça: tudo aquillo--e peor--anda por ahi de
bocca em bocca ha muito tempo. E não vem de baixo--vem de cima...
* * * * *
Do Paço mandaram buscar um exemplar á livraria Ferreira.
Janeiro--1908.
O rei em Villa Viçosa caça; o João Franco em Carnide dorme com a casa
cercada de policia. Fala-se em conspirações, na tropa, em transferencias
d'oficiaes e sargentos. O Maximiliano d'Azevedo disse hoje na livraria
ao Bernardino Machado:
--Isto cheira a cadaver...
--Cheira a polvora, é que é--respondeu lhe elle.
Espera-se tudo: a falencia, tiros, a revolta. Ha prisões--fala-se em
mais prisões ainda e os jornaes estão garrotados.
* * * * *
O Maximiliano d'Azevedo:
--É falso que fosse o Correia de Barros quem matou a Manuela Rey.
Disse-me muitas vezes a Emilia Adelaide como o caso se passou: Um irmão
do Tanas (Pereira das Neves) fez a corte á Manuela. Ella aceitou-lha, e
uma noite o Correia de Barros surprehendeu-os. O Tanas, ao vel-o
brandindo a bengala, saltou por uma janella. A Manuela fugiu e foi para
a rua das Galinheiras, para uma casa onde morava a cabeleireira do
theatro, e deitou-se vestida sobre a cama, a chorar.
Debalde o Correia de Barros lhe perdoou:
--Não! Não!
Chorou--e morreu. Já estava tisica ha muito tempo.
* * * * *
E conta-me tambem:
--A Emilia das Neves estava n'uma casa de mulheres. Deram com ella por
acaso. Quem primeiro a ensaiou foi o Garrett. Tinha genio: mal sabia lêr
e toda a vida deu sylabadas.
Janeiro--1908.
O governo retira as munições a alguns regimentos e á marinha: só tem
confiança na guarda. Diz-me o Schwalbach:--«Ouvi-o da bocca do oficial
encarregado d'esse serviço. A noite passada retiraram as munições a um
regimento da capital». Corre com insistencia que o coronel Albano da
Fonseca morreu envenenado... Os navios de guerra foram desarmados, sob
pretexto de estudo de renovação e adaptação das munições, que se
removeram para o serviço de torpedos. O Maximiliano diz-me tambem que
varias peças do campo entrincheirado ficaram assestadas sobre os navios
de guerra.
[Figura: _Gomes Leal._--Desenho de Antonio Carneiro.]
* * * * *
O Fialho está um franquista ferrenho:
--O João Franco já me mandou chamar tres vezes.
E, como eu me espante de o vêr conservador, elle diz:
--Fui-o sempre. Já esse maroto do Arnaldo Fonseca dizia a meu
respeito:--É um bohemio que trata a roupa com nephetalina!
* * * * *
A Angela Pinto está com um preto que lhe poz automovel.
--Ó Angela, então tu agora?!
--Vocês que querem? Não andam todos os dias ahi a prégar que o futuro de
Portugal está nas nossas colonias?
Janeiro--1908.
Prenderam hontem o Antonio José de Almeida. O João Barreira conta-me que
a policia apanhou sessenta rewolveres aos republicanos, mas não
descobriu os depositos d'armamento. O João Pinto dos Santos diz:
--A prisão de Antonio José d'Almeida é um ensaio. Se virem que as massas
populares não protestam, desatam a prender a torto e a direito. Eu estou
aqui estou preso: o João Franco odeia-me.
* * * * *
Um livreiro:
Fizeram mal em prohibir _O Marquez da Bacalhôa_. Já ha quem tenha dado
por um exemplar tres mil reis, e o preço corrente é agora de dez a
quinze tostões... Se o queriam inutilizar aprehendessem-no, tanto mais
que toda a gente sabia onde era impresso.
28 de Janeiro--1908.
A atmosphera é electrica.--Isto não pode ser! isto não pode
ser!--ouve-se a cada passo. Toda a gente espera acontecimentos. O boato
corre de ouvido para ouvido: o comandante da municipal afirmou ao rei
que não podia contar com a guarda para combater a tropa; ha tumultos no
Porto e Villa Real; está assignado um decreto expulsando do paiz
republicanos e dissidentes; e--sabem? sabem?--o movimento é preparado
pelo João Franco para tomar medidas d'excepção... O Coelho de Carvalho,
de grandes barbas brancas, sempre ironico, pontifica na livraria
Ferreira:--Tudo isto obedece a um plano para estabelecer o protectorado
inglez, com o rei gordo e replecto, e a dotação augmentada em cento e
sessenta contos, pagos em oiro.
Ás sete da noite encontro o Alpoim que me pergunta ancioso:--Que ha? que
ha?...--Eu sei... diz-se por ahi que varios oficiaes se reunem no Arco
da Bandeira....--Só?--E arranca-me das mãos o _Correio da Noite_:--Vem
feroz! vem optimo!...--No comercio não se desconta uma letra. A rua do
Oiro não tem metade do movimento habitual. Consta que o João Franco
disse hontem:--Dá-se-lhes uma sangria...--O que eu lhe posso garantir, e
sei-o por uma senhora de relações intimas do João Franco--diz o
Fialho,--é que elle passa as noites sem dormir.--Medo--ou revolução? As
mulheres vão buscar os maridos ás repartições e aos bancos, outras, na
previsão de acontecimentos, fornecem-se á pressa nas lojas. Ha nervos na
atmosphera. A questão dos adeantamentos levantou todo o paiz contra o
rei. Ha muito que o D. Carlos é visado, discutido e injuriado.
Atribuem-se-lhe todos os males. O Hintze morreu: foi elle quem matou o
Hintze com desgostos. Os Braganças são todos ingratos. Que quer o rei? O
rei só quer dinheiro, o rei chama ao paiz, que despreza, a _piolheira_,
o rei é um ladrão. Dizem-no até os cavadores d'enxada da provincia:--O
rei é um ladrão! o rei é um ladrão!--Gera-se não sei que excitação que
se apega e propaga. Todos estamos debaixo da mesma pressão a que não ha
fugir. Nas esquinas ainda se vêem farrapos de cartazes, anunciando o
folhetim _Soror Amelia_, com o retrato da rainha vestida de freira...
O que os jornaes de grande circulação não se atrevem a dizer, o
_Seculo_, o _Mundo_, o _Noticias_, propala-se de ouvido para ouvido, ou
publica-o o _Correio da Noite_, do velho José Luciano, que ataca com
violencia o rei e o governo.--Que há? Que há?--Um policia aliciado pelo
João Chagas denunciou a revolução; o juiz ao lêr o depoimento do Antonio
José d'Almeida, exclamou:--Ora até que emfim encontro um homem!--O Cunha
e Costa pequenino, d'oculos e olho esperto atravez dos vidros:--Vocês
que querem? Está tudo minado. Hoje, ao entrar na Boa Hora, deparei com
este quadro: d'um lado da porta um municipal lia _O Mundo_, do outro,
outro municipal lia _A Lucta_.
E no entanto a vida segue o seu curso habitual: todas as noites
enchentes nas revistas, _Ou vae... ou racha, Pr'a frente!_ Todas as
noites o mesmo falatorio no Rocio, o mesmo formigueiro humano seguindo
as suas manias, as suas ambições, os seus interesses...
* * * * *
Os populares atacaram as esquadras. No largo do Rato um bando, que
queria matar o João Franco, entrou n'um café. A policia tentou
apalpal-os--defenderam-se a tiro. Um cahiu varado: e retiraram em ordem,
fazendo fogo. Na esquadra dos Terramotos trocaram ainda balas com os
guardas. Havia um plano de revolução? É fóra de duvida. Lançaram-se
bombas que não explodiram a varias esquadras--á do Campo de Sant'Anna,
por exemplo. A policia estava, prevenida, e prendeu-os, quando um grupo
de dissidentes, Alpoim, João Pinto, Ameal, etc., se dirigia para o
elevador da Bibliotheca, no intuito de lançar um foguetão, que desse o
signal á esquadra e a varios grupos que, ao mesmo tempo e em diferentes
pontos, deviam assaltar os quarteis. Só o Alpoim e o Ameal conseguiram
fugir. No elevador havia armas, destinadas ao ataque dos correios e
telegraphos. No forte de Caxias estão presas 93 pessoas, e presos estão
tambem o Afonso Costa, o João Pinto dos Santos, o Ribeira Brava, etc. A
policia desandou então a prender a tôrto e a direito. O José de
Figueiredo que mora no Campo de Sant'Anna, por cima da esquadra, ouviu
isto: Ao telefone, o chefe da esquadra para o governo civil:--Já
prendemos quatro.--Prendam mais.--Era preso quem passava na rua.
Á revolução adheriam varios oficiaes e toda a armada. Havia fanaticos
decididos a correr a municipal á bomba, e todo o trabalho do directorio
parece que foi sustel-os á ultima hora. Varios bandos foram prevenidos
logo que o signal falhou. Os que esperavam no café do Rato, a hora do
assalto á casa do João Franco, foram presos. Um creado do Moura Cabral,
que m'o contou, foi aliciado para atacar a esquadra da Graça--e
deram-lhe um rewolver e bebidas. Em diversas partes tem sido encontradas
bombas, e diz-se que quem denunciou um deposito d'armas, escondido em
casa d'um negociante, foi uma irmã dum actor de D. Maria.
* * * * *
--Isto--toda a gente o afirma--acaba logicamente no atentado pessoal.
30 de Janeiro--1908.
Corre com insistencia que o João Chagas morreu d'uma pleurizia no
hospital.
* * * * *
Os _bufos_ são aos centos. Pára-se a conversar--tem-se logo um _bufo_ á
perna. O Baracho procurou hoje o ministro da guerra e declarou-lhe:
--Eu não conspiro; portanto não me mandem espionar, senão corro os
_bufos_ a tiro. Se desconfiam de mim, julguem-me, que eu me defenderei.
E deixe-me tambem dizer-lhe uma coisa: Os senhores não hão-de ser sempre
ministros. Se me incomodam ou me infamam, quando deixarem de o ser, eu
lhes tomarei as responsabilidades.--Ao que o ministro respondeu:--Se
soubesse, general, as saudades que eu tenho do meu caminho de ferro!...
* * * * *
Tem sido tambem presos alguns oficiaes do exercito. E o Fialho faz
_blague_:
--Desde que a policia entrou no caminho das descobertas, foi dar com a
escripturação completa da revolta. Tudo por ordem e por partidas
dobradas. Uma revolução burocrata!
31 de Janeiro--1908.
Sabem qual é a impressão geral? Pena de que o movimento gorasse.
* * * * *
Até as mulheres estão furiosas com o Franco. Ha-as que dizem:--Eu vou
matal-o!--Mas ha tambem quem o defenda e aplauda como nenhum ministro
foi defendido e aplaudido. Um padre franquista barafusta em plena rua do
Ouro:
--Eu até agora dizia que o João Franco tinha uns c... que não cabiam em
Lisboa. Agora não, agora digo bem alto: o João Franco tem uns c... que
não cabem em Portugal!
* * * * *
O Bernardino Machado:
--Sabe o que isto parece? Parece que o rei disse ao João Franco,
entregando-lhe uma carabina:--«João arranja-me dinheiro».--O João Franco
executa.--«João torna a levar a carabina e traz mais dinheiro».--E a
atitude vergonhosa das nações estrangeiras que assistem com aplauso a
este espectaculo! Porquê? Pelo que eu disse um dia d'estes a um
negociante francez:--Ha um dictado em Portugal que explica
tudo:--Ladrões não se encobrem de graça!
1 de Fevereiro--1908.
O João Franco responde aos clamores e á revolta com o decreto d'hoje:
Senhor--São bem conhecidas de Vossa Magestade as occorrencias dos
ultimos mezes, em que uma pequena minoria d'elementos
revolucionarios criminosos tem ultimamente procurado impedir a vida
politica e representativa do Paiz, alterar a ordem publica e pôr em
perigo a segurança das pessoas e das propriedades.
Imperturbavelmente tem o governo obedecido ao proposito de limitar
a acção das medidas de circumstancia á esphera restricta de
legitima defeza social, reduzindo-as ao que de momento se tem
afigurado absolutamente indispensavel, sempre na esperança de que
essa publicação fosse um meio preventivo sufficiente e constituisse
aviso efficaz aos agitadores.
D'essa ordem d'ideias derivaram o decreto de 21 de Junho sobre
publicações attentatorias da ordem publica e o de 21 de Novembro
sobre crimes contra a segurança do Estado, das pessoas e das
propriedades.
Factos dos ultimos dias vieram, porém, demonstrar que as tentativas
e propositos criminosos, longe de afrouxarem, se teem mantido
obstinadamente e aggravado a ponto de ser urgente e indispensavel o
rapido afastamento do nosso meio social dos principaes dirigentes e
instigadores d'esta pertinaz conspiração contra a paz publica e
segurança do Estado antes que perdas lamentaveis de vidas venham
accrescentar se ás desgraças já occasionadas e, porventura,
originar prejuizos irremediaveis ao credito publico e á fortuna
nacional.
Ha poucos dias ainda, o governo da Nação vizinha apresentou ás
côrtes um projecto de lei que auctoriza a fazer sair do reino por
deliberação do conselho de ministros, sob prévia informação das
auctoridades locaes, as pessoas que pertençam a associações hostis
á ordem social e que de semelhantes principios façam propaganda, e
como sejam estes factos muito graves e perigosos, seguramente não o
são mais nem podem ter mais larga, mais profunda repercussão em
toda a vida nacional que os tramas e attentados para mudar violenta
e criminosamente a forma de governo de Estado.
N'essa ordem d'ideias, procuramos com o presente diploma, habilitar
tambem o governo com a faculdade d'expulsar do Reino ou fazer
transportar para uma provincia ultramarina aquelles que, uma vez
reconhecidos culpados pela auctoridade judicial competente, importe
á segurança do Estado e tranquillidade publica e interesses geraes
da Nação afastar, sem mais delongas, do meio em que se mostrarem e
tornarem perigosa e contumazmente incompativeis.
Não podem, por egual, gosar immunidades parlamentares aquelles que
contra a segurança do proprio Estado se manifestam ou que como
inimigos da sociedade se apresentam.
Taes são, Senhor, as principaes disposições do diploma que tenho a
honra de submeter á apreciação de Vossa Magestade.
Paço, em 31 de Janeiro de 1908. _João Ferreira Franco Pinto
Castello Branco_--_Antonio José Teixeira d'Abreu_--_Fernando
Augusto Miranda Martins de Carvalho_--_Antonio Carlos Coelho
Vasconcellos Porto_--_Ayres d'Ornellas de Vasconcellos_--_Luciano
Afonso da Silva Monteiro_--_José Molheira Reymão_.
* * * * *
O Alpoim fugiu para a Hespanha.
* * * * *
O Cunha e Costa:
--Ha mais de duzentas pessoas apostadas em matar o João Franco. Isto
acaba por um atentado pessoal.
1 de Fevereiro--1908.
Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria
Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur
de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda
transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O quê?!--Eu vi, ouvi os
tiros, deitei a fugir...
Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo
exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá
estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça
despedaçada!...--Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece.
Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um
empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia
correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era
calvo. O policia varou-o com um tiro.
E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram,
reconstituo assim a tragedia:
O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não
fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia
demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia.
O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei
jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro.
Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á
janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em
bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na
sombra...--El-Rei não joga?--perguntou o principe.--Jogo,
jogo...--Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou
n'esse dia nem almoçou no seguinte.
Nem uma nuvem. «Tarde sem par»--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma
bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é
natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João
Franco:--Não haverá perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovação!--Tinha-lha
preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha
detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que
queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D.
Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia
real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns
policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio,
sem precipitação, colocar-se á porta do ministerio do reino[6].
Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram
tantos, que se não conheciam uns aos outros.--«Eu assisti--diz o
Navarro.--Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas
cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo
desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de
S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro
passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro,
olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho
branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva,
nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse
uma palavra que não percebi bem»...--«Ao primeiro tiro--continua o
Navarro--a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para
o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e
descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca
de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Então não
acodem?! Não ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça:
sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu
á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara
intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se
então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A
policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de
Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me
valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado,
exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um!
* * * * *
Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro
quando sahia do Paço.
* * * * *
O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em
punho, dizendo:
--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe!
Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve
este movimento colerico: bater no João Franco.
* * * * *
Acusam á boca cheia o João Franco--que não tomou precauções para o
rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais
tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De
alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão
dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.
* * * * *
A rainha no Arsenal disse ao João Franco:
--Veja a sua obra...
* * * * *
O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a
morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos,
porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios
artificiaes.
* * * * *
Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a
rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo
conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no
ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um
negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam
estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para
deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se
o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o
menos possivel...
* * * * *
Phrase cruel d'um popular:
--Foi caçado como elle caçava os javardos--e em tempo defezo.
* * * * *
No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis,
evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados
sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter.
Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas
vinte e tantas pessoas.
* * * * *
A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia:
--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...
E a rainha:
--Has-de cumprir o teu dever até ao fim.
[Figura: _D. Carlos I de Portugal._]
O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior
da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.
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Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e
as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos
postados nas esquinas até ás Necessidades.
* * * * *
A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:
--Foram portuguezes?
--Foram.
--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.
E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:
--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor
foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!
Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se,
inventam-se outras mais.
* * * * *
O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir
ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo
fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do
caso. Ficou furioso:
--Vá beber da merda!
--Digo a V. Ex.^a que a policia não teve culpa...
--Vá beber da merda o senhor e a policia!
--Mas...
--Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda!
* * * * *
Diz-se que o Alpoim estava es
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