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A architectura religiosa na Edade Média

by Augusto Fuschini · Portuguese · Gutenberg #33377 · 428,678 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of A architectura religiosa na Edade Média
    
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Title: A architectura religiosa na Edade Média

Author: Augusto Fuschini


        
Release date: August 8, 2010 [eBook #33377]

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/33377

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
        Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
        produced from images generously made available by National
        Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)


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    *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
    texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
    de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
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                                             Rita Farinha (Agosto 2010)




A ARCHITECTURA RELIGIOSA

NA

EDADE-MÉDIA




ENSAIOS DE HISTORIA DA ARTE



A ARCHITECTURA RELIGIOSA

NA

EDADE-MÉDIA

POR

AUGUSTO FUSCHINI



LISBOA

IMPRENSA NACIONAL

1904




_A Minha Filha Octavia Fuschini de Lima Mayer_




INTRODUCÇÃO


As noções fundamentaes do nosso espirito são absolutamente indefiniveis.
Sentem-se; nada mais. Se lhe procurarmos a definição, cahiremos em
simples labyrintos de palavras, consistindo, quasi sempre, em
verdadeiros circulos viciosos. Tomemos, para exemplo, o espaço e o
tempo, noções bem fundamentaes.

O que é o espaço? É o _meio_, sem limites, onde existem em continuo
movimento todos os corpos; o que equivale a dizer que o _espaço_ é o
_espaço_.

O que é o tempo? É a serie indefinida de momentos, durante os quaes se
realisa a successão dos factos physicos e moraes; o que equivale a dizer
que o _tempo_ é o _tempo_.

Assim, parece que as idéas ou noções fundamentaes teem o singular
caracter de ser facilmente comprehensiveis pela intelligencia humana,
sem que ella tenha palavras rigorosas ou phrases perfeitas, para as
definir com sufficiente clareza.

Dados o espaço e o tempo, a materia e o espirito em perpetuo movimento
produzem a totalidade dos factos e phenomenos physicos e moraes,
constituindo o Universo, que sem as primeiras noções seria absolutamente
impossivel e incomprehensivel.

Pouco nos importa saber, n'este momento, se a materia e o espirito
coexistem, ou se o espirito é apenas um attributo da materia, organisada
segundo leis desconhecidas. Os phenomenos passam-se como se fossem
distinctos; deixemos, pois, a investigação d'este problema, que aliás
parece insoluvel, aos metaphysicos e aos theologos.

O que podemos considerar quasi certo é que a materia em movimento nos dá
as noções exactas do espaço e do tempo; e o espirito em actividade nos
dá, tambem, as noções claras do bem, do bello e do justo, que são como
as primeiras completamente indefiniveis na sua natureza absoluta.

Quem aprecia o tempo e o espaço? Os sentidos physicos.

Quem aprecia o bem, o bello e o justo? Esse _sentido_ especial e
perfeitissimo, denominado consciencia, a faculdade de _julgar_ que
possue a intelligencia humana.

As similhanças mostram-se ainda mais intimas. As noções do espaço e do
tempo são inseparaveis. A nossa intelligencia não pode conceber uma sem
a outra. O bello, o bem e o justo manifestam a mesma qualidade. São
noções correlativas.

É certo que a complexidade dos phenomenos animicos torna esta correlação
menos evidente do que a primeira, mais simples e clara pela sua origem
physica; mas, discutindo bem e com profundidade qualquer facto de ordem
animica, chega-se a descobrir que uma d'estas noções do nosso espirito
envolve, sempre, as outras duas em maior ou menor grau.

Assim, pois, poderemos, sem grande receio de errar, estabelecer tres
definições:

A Arte é a expressão do bello;

A Moral é a expressão do bem;

O Direito é a expressão da justiça.

Ora, como as noções do nosso espirito se manifestam subordinadas a leis
geraes, temos tres sciencias, que estudam as manifestações externas e
visiveis da propria essencia do espirito humano.

Eis-nos entrados no campo positivo e experimental. Um longo periodo
historico prova já que o nosso espirito é successivamente perfectivel e
evolutivo; não o sendo, de certo, nos principios fundamentaes, mas sim
na applicação d'esses principios e na variedade infinita de combinações,
que se podem fazer com as idéas, como se obtem com as notações musicaes.

Se nos fosse permittido, empregariamos a seguinte expressão: a
perfectibilidade é a lei fundamental do espirito humano, a evolução o
seu methodo.

Convém, todavia, observar, como um facto historico e psychologico, que a
alma humana--digamos a palavra--não é perfeitamente livre no pensamento
e na acção. Deixemos a theoria do _Livre Arbitio_ para ser definida em
Concilio.

Os astros, esses até, que estão sujeitos a leis immutaveis e
mathematicas, soffrem perturbações nas respectivas orbitas, por
influencias ainda mysteriosas algumas, outras descobertas em certos
casos. Ora, sobre as leis moraes as influencias são variadissimas; por
isso, o _astro espiritual_, a Idéa, caminha sempre em determinado
sentido, ás vezes, com enormes desvios.

O raciocinio prevê as causas d'essas grandes irregularidades e a
experiencia demonstra a verdade d'essas previsões.

Em relação á Arte, estas causas podem grupar-se em tres grandes
categorias:

1.^a A influencia do _meio_ natural, da atmosphera physica e cosmica;

2.^a A influencia do _meio_ historico, isto é, do conjuncto de
circumstancias que em dado momento constituem a atmosphera social;

3.^a A influencia do _meio_ particular de cada individuo, formado pelo
proprio caracter e talento, pelas suas condições dentro da sociedade e
da familia, ou pelo menos, dentro do pequeno grupo social, em que se
executa o seu trabalho e se exerce a sua actividade.

Teremos occasião de explicar mais tarde algumas applicações d'estes
principios; mas seja-nos permittido concretisal-os um pouco mais,
principalmente o primeiro.

Nas leis historicas--e a Arte tem historia e leis--entre as influencias,
actuando obscura e vigorosamente sobre o caracter dos povos e sobre os
destinos das nações, a sciencia não conseguiu ainda definir bem a acção
profunda dos elementos climatericos e geographicos sobre o espirito
humano; todavia, essa influencia presente-se, ou melhor prova-se e
deduz-se da diversidade das raças e dos caracteres moraes dos habitantes
da terra.

A forma humana, como é incontestavel, soffre a influencia d'este _meio_
externo e ás modificações d'essa forma correspondem modos de ser e
intensidades differentes de intelligencia. Ora, se nas linhas geraes do
nosso espirito se observa a acção dos agentes climatericos e
geographicos, como a vida dos povos depende das proprias funcções
intellectuaes e, pelo menos, em forte proporção o bem e o mal proveem do
exercicio da intelligencia humana, não é vago presentimento mas verdade
scientifica a existencia de leis, embora ainda não formuladas, que
expliquem a correlação das idéas e das instituições dos povos com a
climatologia e a geographia da zona habitada.

Na constituição de certas noções, esta influencia deve ser profunda. A
noção de Deus, o melhor manancial da Arte, e o grupo de idéas e de
sentimentos, que em volta d'ella, como centro, constituem por assim
dizer uma categoria do espirito humano, estão, sem duvida, n'estas
condições. O exemplo é excellente.

Seja qual fôr a origem da crença no sobrenatural, derive esta crença da
intima essencia da alma, provenha da revelação divina, nasça da
generalisação espiritual ou material das forças naturaes, funde-se na
grandeza dos factos cosmicos, ou no receio dos phenomenos physicos, é
indiscutivel que a essencia e a evolução da idéa de Deus e das formulas
do culto externo offerecem caracteres mais ou menos harmonicos com as
condições geographicas e climatericas, que lhes serviram de ambiente.

O polytheismo guerreiro, honesto e nebuloso, dos povos septentrionaes da
Europa e o polytheismo grego, livre e artistico, foram concebidos em
_meios_ differentes. As regiões asperas e rudes do norte, onde os gelos
e as tempestades, durante longo periodo do anno, difficultam a lucta
pela existencia, não podiam ser habitadas pelas divindades do Olympo.

O ceu puro da Grecia, a limpidez da atmosphera jámais escurecida por
tempestades terriveis, a amenidade do clima, os contornos suaves dos
montes, o murmurio poetico dos pequenos rios, as frescas florestas de
platanos em valles abertos, o perfume de flores variadas, o sabor
delicado dos fructos, em summa, as excellentes condições climatericas e
geographicas da Grecia permittiram ao genio popular a creação de uma
familia de divindades, em quem o amor sensual, o gôso physico e a
belleza das formas traduziram admiravelmente a doçura das forças
naturaes.

As vagas enormes, revoltas e furiosas dos mares arcticos não podiam
gerar a belleza do Eterno Feminino. Das ondas serenas do mar Egeu,
coroadas de espuma branca e transparente como finissima renda, que
vinham quebrar-se com suavidade sobre a areia dourada das costas do
Peloponeso, nasceu o formoso corpo de Venus, a expressão ideal da
belleza da forma.

E, todavia, germanos e gregos eram da mesma raça, d'esses aryas brancos
e louros que dos confins da Bactriana, talvez por caminhos differentes,
haviam emigrado, seguindo a trajectoria do Sol, que lhes indicava
propheticamente a sua grande obra, a futura civilisação da Europa.

Se fizermos tambem estudos sobre raças differentes, chegaremos aos
mesmos resultados.

A _anthropomorphose_ da idéa de Deus é lei fundamental do espirito
humano e até hoje o manancial mais rico de productos artisticos de todas
as ordens. A representação physica e a definição moral da divindade
derivam, sem a menor duvida, da idealisação e da generalisação das
qualidades physicas e psychicas do homem. Pode haver duvida se, conforme
o _Genesis_, o homem foi creado á imagem e similhança de Deus; é, porém,
indiscutivel que na constituição d'este symbolo lhe demos muito da nossa
forma e ainda mais do nosso espirito.

Eram polytheistas as raças aryanas, segundo parece. A duvida pode nascer
de que na Grecia o polytheismo pertencia ás classes populares, emquanto
os sabios criam na Unidade do Espirito. Assim, Anaxagoras, Socrates e a
sua escola, em que floresceram os maiores sabios, philosophos,
estadistas e artistas do grande seculo de Pericles, acreditavam na
unidade de Deus; eram monotheistas.

Seja como fôr, é facil de comparar a forma e o espirito de Jupiter, do
Monte Olympo, com os de Jehovah, do Monte Sinai, isto é, a concepção da
divindade entre aryas polytheistas, os gregos, e semitas monotheistas,
os hebreus.

A figura sombria e magestosa de Jehovah não só era feita á imagem e
similhança do caracter hebreu; mas reflectia, tambem, a grandeza
melancholica da cordilheira do Libano e das montanhas da Palestina.

Esse Espirito, vivendo fóra do cahos e creando a ordem entre os
elementos, eternos como elle, pelo esforço da propria vontade
omnisciente, ora energico e duro, ora manso e amoroso, pedindo a Abrahão
o cruel sacrificio do filho e contentando-se com a offerta no templo de
algumas pombas brancas, era o reflexo d'esse clima da Palestina, onde,
umas vezes, furiosas tempestades electricas rasgam as calliginosas
nuvens e os raios fazem explodir os rochedos, ou o _simoun_, soprando
dos areiaes ardentes da Arabia, secca as plantas e prostra os homens;
onde, outras vezes, os ventos frescos do Mediterraneo, fazendo voar no
ceu azul bandos de nuvens brancas, levam a frescura e a vida á flora
tropical riquissima das campinas da antiga Judéa.

Se apreciarmos bem a natureza essencial dos factos mythologicos, que
formam a biographia lendaria de Jupiter, encontraremos não o espirito
ardente, sombrio e puro da divindidade hebraica, mas esse caracter
leviano e sensual, que define a raça hellenica, pelo menos no ramo
jonico. Foi ainda a acção do clima, que facetou os caracteres da raça;
foram ainda estes caracteres, que se crystallisaram n'uma forma especial
da idéa de Deus.

Emquanto á influencia do _meio_ social, que poderiamos escrever que não
fossem paraphrases das idéas e copias das leis positivas, que Taine
expoz, com a maior lucidez de espirito e brilhantismo de estylo, na
_Philosophia da arte_, depois applicada á Grecia, á Italia e aos Paizes
Baixos?

De facto, se o _meio_ climaterico e geographico envolve e faceta o
espirito humano, o _meio_ social ou historico tem ainda mais profunda e
directa influencia sobre o individuo. Assim, pode dizer-se, em rigor,
que o homem existe mergulhado n'uma atmosphera moral e intellectual, da
qual recebe, se nos é consentida a phrase, a alimentação animica.

Ora, a acção d'esta atmosphera exerce-se tanto mais energica e
activamente, quanto as manifestações intellectuaes mais dependem do
mundo exterior. A sciencia pode até certo ponto dispensar o applauso das
multidões; a arte, pelo contrario, exige-a, porque o seu principal fim
consiste em corresponder a essa necessidade do bello, que parece ser
qualidade fundamental da alma humana.

Diz-se que Wronski descobriu leis mathematicas, que só poderão ser bem
comprehendidas em seculos futuros. Admittamos a hypothese. Affirmaremos
pela nossa parte que artista algum terá a pretensão de crear primores
para as gerações futuras, sob pena de não ter admiradores actuaes, o que
lhe pede o proprio espirito, e compradores, o que em regra lhe exigirão
as conveniencias particulares.

A regra de boa philosophia que nos aconselha a sermos _homens do nosso
tempo_, é uma lei suprema para os artistas, imposta pela propria
essencia da arte e pelas necessidades animicas e sociaes dos seus
cultores.

Assim, a influencia do _meio_ social, que se exerce sobre todas as
manifestações do espirito humano, actua com maior intensidade nos de
ordem esthetica.

Convem, egualmente, attender á influencia do caracter individual do
artista, ao seu pequeno _meio_ familiar, ao ambiente das amizades e dos
odios que se forma em volta de nós sempre e mais actua sobre os grandes
artistas, em regra, neurasthenicos e possessos da nevrose do genio e do
talento. Taine tambem se refere a este ponto, um pouco ao de leve
talvez. Sem a ousadia de o completar, citemos um exemplo curioso e
caracteristico, um só para não avolumar esta modesta exposição.

É sabido que no seculo XVII Sevilha foi um riquissimo centro de Arte. Na
_casa de ouro_ reuniam-se, dia a dia, poetas, prosadores, pintores e
esculptores, entre elles Cervantes, Quevedo, Murillo, Valdez Leal,
Montañez, Herrera e muitos outros. N'esse seculo a escola hespanhola de
pintura attingira o maior esplendor. Os chefes da escola sevilhana eram
Murillo e Valdez Leal, que aliás é pouco conhecido fóra da peninsula a
não ser pelos eruditos.

Murillo era um santo homem, modesto e simples no viver, um mystico
absorto no amor de Deus e da familia, artista colossal, creado e feito
pelo unico esforço do seu genio e pelo amigavel auxilio de Velasquez.
Valdez Leal, pelo contrario, era um genio atrabiliario, cheio de
emulação ardente a roçar quasi pela inveja, ambicioso e energico, bom
catholico de certo porque era perigoso não o ser no seculo XVII,
principalmente em Hespanha. Genio tinha-o, não tanto como Murillo; mas o
genio transparece nos seus quadros, a nosso ver principalmente no
formoso quadro do _Bispo morto roido pelos vermes da morte_, uma
maravilha de perspectiva, de desenho, de côr e de effeitos de luz.

O caracter d'estes grandes pintores traduz-se nas suas obras. O estylo
vaporoso de Murillo, o seu estylo definitivo, offerece as qualidades do
seu espirito. Colorido suavissimo, contornos um pouco vagos, expressões
bondosas em assumptos mysticos, dão uma impressão ideal aos seus
quadros, dos quaes, se o nome se perdesse, se poderiam deduzir as
qualidades do espirito do auctor.

Valdez Leal tem qualidades extraordinarias, não é duro como João de
Castilho, mestre commum d'elle e de Murillo, nem violento como Herrera;
mas sente-se na sua pintura a influencia da vontade e o azedume do
caracter.

Este exemplo parece-nos ser frisante e podia ser completado com outros,
até entre nós e nos tempos modernos...

Expostas estas doutrinas sobre a influencia do ambiente, que envolve a
evolução da Arte e actua sobre os artistas, convem observar que a acção
do mundo exterior tende a diminuir com o desenrolar do progresso. É,
talvez, esta uma das causas da especie de _anarchia_, que hoje se
observa na producção da Arte e nos estylos dos artistas. O excesso de
individualismo dá, sem duvida, liberdade e expansão aos genios; mas o
genio é a excepção e a regra o talento.

Podemos, pois, acceitar como demonstrado, que a Arte é evolutiva e as
suas phases especiaes, os estylos, correspondem a estados do espirito
humano, sob a influencia das condições particulares da natureza, da
sociedade e até do proprio individuo.

Appliquemos esta doutrina á Architectura, porque os seus productos, pela
propria grandeza e quantidade, se conservam melhor e se perdem menos,
manifestando, assim, menores soluções de continuidade. Limitaremos, por
obvias razões, esta applicação á Architectura religiosa nos tempos
christãos, o assumpto exclusivo d'este livro, fazendo, apenas, um breve
schema.

O Estylo Classico grego, modificando algumas qualidades e ganhando
outras, produziu o Classico Romano.

O espirito do Christianismo, no Imperio do Occidente, obtendo a
liberdade e a acção social, apoderou-se do classico romano, modificou-o,
segundo as necessidades religiosas e do culto, gerando o Estylo Latino.
Ao mesmo tempo quasi parallelamente, o Christianismo no Imperio do
Oriente, fundando-se em outros elementos, creava o Estylo Byzantino. Sob
a acção do elemento barbaro, os dois estylos, caminhando para o centro
da Europa, se nos é permittida a expressão, encontraram-se,
harmonisaram-se, produzindo o Estylo Romanico.

As modificações profundas, occorridas nas sociedades dos seculos XI, XII
e XIII, transformaram o Estylo Romanico, nascendo o Estylo Ogival, que
atravessou tres seculos, para a seu turno se transformar, sob a acção
poderosa da Renascença.

Os estylos são, pois, élos d'essa cadeia de phases architectonicas, que
se estende atravez dos seculos, ligando a inspiração e o trabalho da
Humanidade.

Assim, a Arte é a expressão do bello, e o Estylo a forma particular
d'essa expressão, em determinado periodo historico.




PARTE PRIMEIRA

ORIGENS DA ARCHITECTURA CHRISTÃ




CAPITULO PRIMEIRO

A LUCTA ENTRE O PAGANISMO E O CHRISTIANISMO


O antigo espirito classico, que produzira as magnificas civilisações da
Grecia e de Roma, esmorecia, como esmagado sob o peso da sua propria e
grandiosa obra, quando dois elementos novos, talvez regulados pela lei
suprema da conservação e do perpetuo rejuvenescimento da Humanidade, se
manifestaram com profundo vigor e intensidade no seio das velhas
sociedades decadentes: o Christianismo e a invasão dos barbaros.

Assim, os factos historicos, as idéas e os sentimentos humanos, as
instituições sociaes, a moral, a politica e a arte, se explicam pela
acção reciproca e poderosa dos tres principios, o classico, o christão e
o barbaro, que são as causas efficientes da edade-media e da civilisação
moderna.

Já no tempo de Cesar e de Augusto, os primeiros Imperadores, cuja
grandeza de genio é incontestavel, a sociedade romana entrára em plena
decadencia. Os vicios da antiga Republica, que os bons cidadãos e os
philosophos contemporaneos não haviam podido expungir, cavaram-lhe a
ruina.

O Imperio correspondia, sem duvida, ás necessidades de corrigir ardentes
ambições em continuas luctas, que produzem sempre a anarchia politica, e
de imprimir acção energica e centralisadora á enorme expansão das
conquistas; mas o Imperio trazia na propria essencia dois vicios
terriveis e inevitaveis: o despotismo, a extincção completa das ultimas
liberdades publicas, e a constituição militar, como poder especial
independente dos cidadãos, o _militarismo_ segundo a expressão moderna.

Na agonia da Republica, Catão de Utica previra o desastre. Luctara para
o evitar, chegando até a apontar o homem, Julio Cesar, que devia
destruir o quasi phantasma da antiga liberdade romana. O futuro
Dictador, ainda muito novo, espreitava e preparava, entre os prazeres
dos ricos e dos poderosos da Roma republicana, pelo amor das mulheres,
pela elegancia, pelos costumes faceis e até pela lisonja, a origem da
grandeza, que mais tarde encontrou no proconsulado das Gallias.

Assim tambem, Napoleão, frequentando os salões politicos e litterarios
do Directorio republicano, conseguiu ser nomeado general em chefe dos
exercitos da Italia. Singular coincidencia entre dois homens de caracter
tão parecido, dois genios innegavelmente; um procura nas Gallias, a
França, outro na Italia, a Republica Romana, as origens de futuros
imperios!

Durante o Imperio, pelo menos nos primeiros tempos, as ambições foram
enfreadas pela existencia do poder perpetuo da dictadura; mas, se
algumas das antigas instituições conservaram os nomes, foram-lhes
tiradas a pouco e pouco as ultimas funcções. Os fracos lampejos da
liberdade republicana em breve se extinguiram na escuridão profunda do
mais feroz despotismo, até hoje conhecido. O Cesar era dictador e
pontifice-maximo, o soberano absoluto dos povos e o chefe espiritual das
consciencias.

Tambem é certo que a energia da centralisação politica e administrativa
do Imperio facilitou o espirito conquistador e a conservação das
conquistas, mais do que o podia fazer a esphacelada Republica; mas, como
consequencia logica, estas mesmas condições favoraveis prepararam o
militarismo. Os exercitos nacionaes da Republica tornaram-se as legiões
cesarianas do Imperio, que lhes pagava e as dirigia, transformando-se a
pouco e pouco em guardas do Imperador. Era natural e logica esta
confusão entre o homem e o principio. A nação, o povo, a liberdade, os
direitos dos cidadãos, tudo desapparecera encarnado na pessoa de um
Cesar deificado.

Os resultados eram fataes. Tiberio creou as _guardas pretorianas_ para
defeza da pessoa do Imperador. Sentindo a sua força, os _pretores_
imperiaes completaram depois logicamente a doutrina e as guardas
pretorianas começaram a escolher os Cesares.

O despotismo e a centralisação do Imperio accentuaram, assim, as causas
da decadencia da sociedade romana, dando-lhe, apenas, por algum tempo um
falso aspecto de força e de grandeza.

Nos ultimos annos da Republica era já, na realidade, profunda a
desmoralisação das classes superiores. O ouro das depredações, feitas
nas provincias conquistadas, os costumes luxuosos e dissolutos,
importados com o ouro dos povos orientaes, os grandes latifundios, em
que se dividia a Italia, possuidos por familias poderosas, haviam
amollecido a antiga rigidez do caracter romano. São ainda hoje citadas e
celebres as prodigalidades da magnificencia e do luxo de Lucullo,
_questor_ da Asia.

As despezas excessivas de um estado de guerra constante em regiões
differentes e afastadas, a defeza de vastissimas fronteiras, já então
ameaçadas em mais de um ponto, as estradas e as respectivas obras,
pontes, castellos, campos entrincheirados, que constituiam a admiravel
rede de communicações militares romanas dentro e fóra da Italia, as
espoliações dos grandes e pequenos funccionarios, exigiam o ardor do
fisco, motivavam-lhe as violencias, exercendo-se, como sempre, sobre as
classes populares.

Estas pessimas sementes, lançadas no campo da democracia, ainda haviam
sido contrariadas durante a Republica por instituições e franquias
populares. O Imperio, nivelando a sociedade abaixo de um Cesar deificado
de quem tudo e todos dependiam, extinguindo as ultimas liberdades,
creando uma especie de côrte de grandioso fausto, que no tempo de
Elagabalo attingiu as loucuras orientaes nos costumes e no luxo,
desenvolvendo por necessidade o espirito e as forças militares,
accentuou estas causas de decadencia. Nos começos do Imperio, um
philosopho epicurista, Petronio, deixou-nos uma face viva d'esse estado
moral e social, n'uma satyra celebre e cheia de vigorosa ironia, o
_Satyricon_.

A religião polytheista perdera o prestigio e a força. As classes
superiores professavam um epicurismo devasso, elegante e atheu. O povo,
sem crenças, debatia-se na miseria politica e economica. Os mythos do
polytheismo podiam interessar imaginações ardentes e poeticas; mas não
consolavam desgraçados, que sobre a terra sentiam apenas, sem uma
esperança, a rudeza do trabalho, as crueldades da dôr e o receio da
morte.

Os deuses tinham perdido o seu prestigio, porque não faziam milagres;
esses deuses alegres e devassos, que acceitavam os Cesares por collegas
e o deixavam, a elle, pobre povo, soffrer e morrer de fome, mais
miseravel e esquecido do que as bestas das cavallariças imperiaes...

A religião precisa de milagres, como a politica de grandes e
espectaculosos factos, para se engrandecerem aos olhos dos simples. Esta
necessidade do espirito humano mais vulgar comprehendeu-a Jesus Christo,
o honesto e bom, o illuminado pela Justiça Divina, elle, que tanto lhe
repugnava fazel-os.

A philosophia oppunha ainda impotentes esforços ao desabar da sociedade
romana; mas bem na essencia era tambem epicurista. Além d'isso, prégar a
moral pelo valor da propria moral, dizer aos simples de espirito que a
virtude tem em si o proprio premio, exaltar a humildade e a pobreza aos
pequenos, quando os soberbos e os ricos avassalam os bens e os prazeres
do mundo, é doutrina assás abstracta que só comprehendem os philosophos,
embora ás vezes não a pratiquem. Seneca, no principio do Imperio,
ensinava esta doutrina ao povo romano, escrevia livros elogiando a
pobreza; mas o philosopho esquecia-se, apenas, de que era feliz e
riquissimo. A philosophia só é uma grande força, quando o exemplo
acompanha a palavra.

Por esse tempo, principio do Imperio, na provincia romana da Judea,
manifestou-se o Christianismo. As causas efficientes d'este esplendido e
profundo movimento do espirito humano não podem ser desenvolvidas e
estudadas em trabalho d'esta natureza.

A egualdade entre os homens de todas as raças e condições, o amor e a
fraternidade humanas enunciadas como leis supremas, a fé profunda na
existencia de um Deus justo, feito á imagem e similhança da bondade e da
doçura de Christo, a esperança n'uma vida eterna de felicidade e de
goso, merecido premio das virtudes e boas obras sobre a terra, doce
compensação dos soffrimentos d'este mundo, emfim, a essencia delicada do
Christianismo desceu sobre os desgraçados, os pobres, os enfermos, os
escravos, essa enorme legião de miseraveis, affagou-os, levantou-lhes as
almas, como a chuva fresca e crystallina levanta as cearas resequidas
por longo sol ardente.

Falar aos escravos em liberdade, egualal-os aos senhores,
reconhecer-lhes alma e direitos sobre a terra, embalal-os com a visão
mystica de uma vida eterna, nunca o polytheismo tivera esta linguagem
eloquente, nem os philosophos e os moralistas classicos haviam
professado taes doutrinas.

Devemos observar que a escravidão no mundo classico era um facto
legitimo, consequencia logica das organisações sociaes. O cidadão livre
dirigia o Estado, o escravo trabalhava e produzia. As democracias gregas
e a romana, como no Oriente, professavam a divisão das castas, embora
mais adoçadas. A cabeça, os braços e os pés tinham funcções hierarchicas
differentes. A grandiosa estatua social repousava sobre o plintho da
escravidão: se o destruissem, o colosso ruiria em pedaços.

Alem d'isso, o numero de escravos em Italia, principalmente na grande e
populosa Roma dos Cesares, era enorme; prisioneiros de guerra uns,
outros reduzidos á escravidão hereditaria ou por varias causas, mas em
grande parte da mesma raça dos senhores, ou de raças equivalentes. A
escravidão moderna defendeu-se, por longo tempo, recrutando as victimas
entre as raças negras ou indias da America, consideradas inferiores. O
escravo do mundo antigo, recordando-se da passada liberdade, ou
sentindo-se do mesmo sangue dos senhores, devia experimentar bem no
fundo da alma o sentimento de revolta, que nenhuma miseria humana
consegue suffocar. As grandes sublevações servis, principalmente a
ultima de Spartaco, um seculo antes de Christo, confirmam estas
observações.

A doutrina de Christo, cheia de amor, de esperança e de bondade, era
tambem de molde para suggestionar a alma da mulher, incutindo-lhe a fé e
o ardor do proselytismo. O espirito feminino é um instrumento perfeito e
delicado. A natureza creou as mulheres para nossas amantes e mães, as
duas expressões mais finas e elevadas dos sentimentos humanos; por isso,
se não lhes concedeu outros em larga escala, as notas da alma feminina
são n'estes de deliciosa finura, ás vezes incomprehensivel para os
homens vulgares.

A mulher classica estava bem longe de ter subido ao logar elevado, que
depois lhe deu o Christianismo no seio da familia. A grega vivia isolada
no _gyneceo_, leve sombra do serralho dos povos orientaes. A romana
subira um pouco; sendo, porem, ainda considerada sujeita ao marido, como
os filhos ao patrio poder.

O divorcio entre os antigos era um facto corrente e facil; ora, a mulher
sente que o seu logar é na familia. O adulterio, crime horrendo para as
mulheres, soffria em geral penas infamantes ou a morte. A mulher
classica era, em summa, uma serva, uma filha, uma forma de propriedade
do marido.

O Christianismo tornava-a companheira e egual ao homem. Christo dissera
que o casamento na terra se mantinha no Ceu. Jesus defendera a adultera
e, um dia, glorificou a loura mulher de Magdala, envolvendo a prostituta
no doce manto do seu amor, glorificando-a perante os homens e salvando-a
perante Deus.

O Christianismo tinha a linguagem, eloquente e expressiva, que entendem
logo os simples e as mulheres.

Assim, nos primeiros tempos, o florilegio christão é riquissimo em
martyres femininos. A mulher morre pela religião de Christo com a fé e a
resignação, diremos mais, com a vontade e a energia do homem. É um facto
singular d'este bello e grandioso movimento do espirito humano.

O polytheismo era a religião da forma e da belleza, cheia de mythos
absurdos e incomprehensiveis, religião de culto externo, secca
philosophia encarnada em symbolos obscuros. O Christianismo era a
religião do espirito, replecto de doces verdades e de sentimentos
adoraveis, religião de culto interno, moral clara e divina que Jesus
Christo expozera com phrases singelas no bello sermão da montanha.

Os prophetas hebraicos haviam dito que seria espiritual a religião do
futuro e constituiria o patrimonio da humanidade; que a piedade valia
mais do que o sacrificio e o conhecimento de Deus mais do que os
holocaustos. Nós vemos hoje realisada a grande obra de Christo. Os
prophetas viram o futuro a quarenta seculos de distancia!

Assim, se explica como o Christianismo teve uma expansão enorme, apenas
começou a ser evangelisado entre os povos classicos, sujeitos ao jugo do
Imperio. O _meio_ estava preparado, a doutrina era excellente.

Os que soffriam os males de espirito, os que padeciam as doenças da
carne, os pobres, os enfermos, as victimas da sociedade classica,
affluiam ás catecheses, bebendo com soffrega delicia o filtro espiritual
do Verbo Eterno.

A diffusão da religião christã em Roma, logo nos primeiros annos,
constitue um facto assombroso na historia do proselytismo. Já no anno 64
de Christo, o grande incendio, que devorou parte importante de Roma,
pôde ser attribuido á malevolencia dos adeptos das novas idéas,
considerados conspiradores contra o Imperio e gente de costumes
suspeitos e mysteriosos. Nero iniciou as perseguições, o que demonstra o
espirito que reinava em Roma e o numero avultado de christãos, que
impelliam os poderes constituidos a extinguil-os pela força e pela
violencia.

Os melhores imperadores romanos, assim considerados ainda hoje pelo
genio politico e pelo caracter pessoal, foram os maiores perseguidores
dos christãos. Trajano, Marco Aurelio, Deocleciano alargaram as
perseguições pelas vastas provincias do Imperio. O sangue correu em
jorros, sem distincção de edade e sexo. A lucta foi terrivel e desegual
entre as idéas classicas, que então representavam a ordem, e as idéas
christãs, innovações perigosas e immoraes, segundo a critica do tempo.
Os primeiros tres seculos do Christianismo constituem o periodo
brilhante dos martyres, cujo sangue cimentou a _pedra_, sobre a qual
Jesus Christo fundára a sua Egreja.

As perseguições não foram simples actos de crueldade, como o suppozeram
os christãos, que depois imfamaram os imperadores, fazendo a historia a
seu modo. Eram actos politicos; ora, a politica de força e de violencia
confunde-se com facilidade com a violencia de odios e de crimes. Eis o
que explica a furia singular e ardente dos bons imperadores romanos
contra o Christianismo.

O poder em exercicio é sempre conservador por natureza e essencia; deve
sel-o até, entre certos limites, por deveres de responsabilidade. O
Christianismo apresentava-se como uma revolução nos espiritos, a
transformação radical da religião pagã em que se fundavam as sociedades
classicas. A consciencia da egualdade e da liberdade humanas atacava a
intima essencia do paganismo, substituia-lhe a moral, modificava-lhe a
politica e feria de morte os principios da sua organisação economica.

O despotismo repousa sobre a passividade dos cidadãos, precisa d'elles
inertes de vontade, movendo-se como automatos sob rigida disciplina, ás
ordens respeitadas e não discutidas do poder supremo. É a lei da
constituição do despotismo, que seguiu mais tarde Santo Ignacio de
Loyolla, quando pretendeu oppor a terrivel machina de guerra, a
Companhia de Jesus, aos progressos da Reforma.

O Christianismo creava homens livres e conscientes; embora o seu
espirito mystico tendesse infelizmente a destruir as qualidades civicas,
o _civismo_ a virtude das sociedades classicas. Além d'isso, o
Cesar-Imperador era o _pontifice-maximo_, poderiamos dizer o papa da
religião pagã. O Christianismo atacava-o nas duas principaes origens do
poder despotico, fazendo sair do marasmo e da podridão o espirito humano
e matando-lhe a influencia religiosa sobre milhões de individuos. É
verdade que Jesus Christo dissera: _dae a Cesar o que é de Cesar e a
Deus o que é de Deus_; mas... dissera-o sorrindo...

Estavam, pois, gravemente ameaçadas as grandes forças do Imperio; a
segunda, a organisação religiosa, condemnada sem remedio e talvez fosse
a principal. Constantino protegeu o Christianismo desde os primeiros
tempos do seu reinado; mas só se baptisou alguns dias antes de morrer. O
grande estrategico-politico, usando da força do Christianismo,
apoiando-se n'elle, não abdicou o cargo e a importancia de
_pontifice-maximo_, isto é, a influencia sobre o paganismo, senão nos
ultimos momentos da sua vida.

Eis como se explica a lucta tremenda entre as duas doutrinas, uma
representando o mundo antigo, outra que trazia em si o germen das
futuras sociedades. Admiravel manifestação da força irresistivel da
verdade e da justiça!

O Imperio Romano, o maior poder que até hoje viu a terra, e o paganismo,
que formára tantas civilisações e creara a philosophia, a sciencia e a
grande arte classicas, esses dois colossos, dispondo de tudo que tem
força e valor n'este mundo, levantaram-se com impeto terrivel para
esmagar o verbo simples e verdadeiro de um judeu desconhecido da
Gallilea. E a força e o poder cairam vencidos pela Idéa!

Jesus Christo, envolvido em pobre tunica, acompanhado de poucos
discipulos, pronunciára a sentença da destruição do paganismo, quando do
alto da montanha, com voz doce e suave, annunciou á Humanidade o bello
preceito: _Amae a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a vós
mesmo_.

A revolução estava feita. Christo foi a encarnação da Idéa, que então
correspondia ás necessidades intellectuaes e moraes da Humanidade e
preparava os seus futuros destinos.

Admiravel manifestação da força irresistivel da verdade e da justiça!




CAPITULO SEGUNDO

OS TRES PRIMEIROS SECULOS DO CHRISTIANISMO


Pelas razões expostas no precedente capitulo, era muito difficil e
perigosa a situação do Christianismo, nos primeiros seculos. As grandes
perseguições repetiam-se, sempre com maior intensidade e crueza, sob os
successivos imperadores, que, muito naturalmente, procuravam conquistar
a força e a sympathia da opinião publica pagã, exigindo d'elles as
violencias e as atrocidades caracteristicas das luctas religiosas. No
intervallo d'estas exacerbações de odios, a desconfiança e a vigilancia
insupportaveis e constantes opprimiam o gremio dos christãos, que,
aliás, nos primeiros tempos devia ser constituido em geral por elementos
pobres e obscuros, sem força alguma na politica e na administração do
Imperio.

Este estado de cousas prolongou-se desde as primeiras manifestações
visiveis do Christianismo em Roma, em data impossivel de fixar, até ao
reinado de Constantino, isto é, durante um periodo de mais de tres
seculos. A ultima e mais formidavel perseguição foi ordenada por
Diocleciano no anno 303 da éra christã. A tetrarchia, que então
governava o Imperio, facilitou esta colossal e longa perseguição,
estendendo-a por todas as provincias romanas, com a crueldade e o vigor
que manifestam sempre as medidas extremas de salvação publica.

Durante estes tres seculos terriveis, a grande maioria dos pobres e dos
ignorantes, que constituia a associação christã, não tinha qualidades,
nem gosto, nem tempo, para cultivar as artes, aliás já bem decadentes
n'essa epoca. Perseguidos pelas auctoridades romanas, dominados por
ardente proselytismo, em continuas catecheses, vivendo receiosos entre
perigos e miserias, não lhes sobravam, decerto, vontade e tempo para
cultivar as artes, ainda que para isso possuissem qualidades estheticas.

O Christianismo era doutrina tão espiritual, fazia depender tanto a
felicidade da prece e da virtude, elevando a alma a Deus e conduzindo-a
ao Ceu, que as formas visiveis do bello, a plastica das artes, deviam
ser consideradas inuteis, se não peccadoras, aos olhos dos crentes. O
mysticismo da edade-media e a seita dos Iconoclastas estavam latentes no
Christianismo nascente.

Alem d'isso, os christãos perseguidos, considerados inimigos da
sociedade pagã, não podiam construir templos, nem ter formas publicas de
culto, imagens de Deus e dos martyres, sempre o melhor manancial da
Arte, que nos seculos futuros produzirão phases artisticas de grande
valor. Nem eram ricos, ao menos, para cultivar as artes, suppondo que o
ardor da propaganda e o espirito da religião lhes consentissem o culto
pagão da forma.

A religião precisa de reunir os seus adeptos, para mutuamente avigorarem
a fé e incitarem a esperança. Sem a communidade dos fieis, a religião
toma o aspecto de simples philosophia, mais ou menos completa, fria, sem
vigor de propaganda, porque as multidões, ligadas pela mesma idéa, teem
em si o condão singular de excitar o enthusiasmo, essa embriaguez d'alma
que a leva até ao sacrificio.

Os christãos reuniram-se, sem duvida, desde os primeiros tempos; mas
essas reuniões eram clandestinas, como as dos conspiradores dos tempos
modernos. Os logares mais occultos e afastados deviam ser os preferidos.
Era logico. Quando o gremio religioso cresceu, e cresceu rapidamente,
não devia ser facil problema encontrar logares amplos e seguros para a
communicação dos fieis e as necessidades do culto, embora nascente e
simples.

A estas necessidades correspondiam as _catacumbas_, vastos subterraneos
que existiam em volta do centro populoso da Roma dos Cesares. A religião
christã em Roma desenvolveu-se debaixo da terra, como para symbolisar a
acção da Idéa Nova, que ia minando e corroendo as bases das antigas
sociedades pagãs.

O auctor d'este livro visitou em Roma uma das mais famosas _catacumbas_,
a de S. Calixto. Percorrendo os subterraneos, lobregos e humidos
labyrintos de encruzilhadas, guiado pela luz mortiça de uma lampada,
sentiu na alma a poesia do passado, revelaram-se-lhe a fé e a esperança,
doces e profundas, que os seus _irmãos_ em Christo, de ha dois mil annos
quasi, sentiam, quando receiosos mas resolutos vinham por entradas e
caminhos differentes reunir-se no sanctuario, para a admissão de
neophytos e para as praticas religiosas.

N'aquella atmosphera pesada e humida pareceu-lhe ouvir ainda os
primitivos canticos, a historia poetica dos martyres mortos que a
linguagem eloquente do espirito religioso dava aos vivos, como exemplo.
Enthusiasmou-se com a fé simples e primitiva, nutriu a esperança firme e
serena na desejada victoria; emfim, durante algumas horas, sentiu-se
possesso, deliciosamente possesso, da energia de vontade, da pureza de
sentimentos e da firmeza de crenças de um iniciado d'esses primeiros
seculos do Christianismo.

Galerias sinuosas e extensas de secção regular, um metro por dois
metros, cruzam-se com angulos muito abertos, formando um complicado
tecido de subterraneos, excavados em tufo escuro, porôso e infiltrado de
agua. Nas duas paredes lateraes d'estas galerias, longas filas
horisontaes de sarchophagos, sobrepostos por vezes em tres ordens, foram
excavadas na rocha branda. Eram as sepulturas dos primeiros christãos.

Nos tempos primitivos, provavelmente, esses sarcophagos foram fechados
por lapides; mas hoje, abertos e negros á luz vacillante da lampada,
essas filas extensas de buracos teem um aspecto monstruoso, infundem um
sentimento de pavor e de espanto, terriveis quando no fundo de alguns se
vêem ainda branquejar os ossos e as caveiras de seres, que soffreram e
morreram ha quasi dois mil annos.

De grandes em grandes espaços, estas galerias alargam-se, ou convergem
umas poucas, formando subterraneos amplos de maior altura de abobada
natural. São os sanctuarios, ou as cryptas. Nas catacumbas de S.
Calixto, existe n'estas condições uma grande sala de forma rectangular,
que, sem duvida, constituia o templo, para onde se descia de fóra por
longa escadadaria, construida depois de Constantino, isto é, da
liberdade do Christianismo. Do lado esquerdo do templo, passa se para a
grande crypta de Santa Cecilia. Parece attestar que ahi foi depositado o
corpo da nobre e rica dama de Roma, uma esculptura na parede
representando uma mulher luxuosamente adornada. Esta crypta communica
com a dos Papas, assim chamada por conter um grande numero de Pontifices
do terceiro seculo da era christã. Sarcophagos de pedra de esculptura
archaica conservam ainda os restos dos martyres, uns esquecidos, outros
beatificados ou santificados pela Egreja.

Dedalos de corredores, constituindo enormes necropoles, sobrepõem-se ás
vezes em dois e tres andares e, se é verdadeira a affirmação,
estendem-se nas catacumbas de S. Calixto por mais de quinze kilometros.

O reconhecimento da liberdade religiosa do Christianismo tirou ás
catacumbas a importancia primitiva. Transformadas em logares de
veneranda tradição, conservadas, talvez, para cemiterio de alguns
christãos mais afamados, as catacumbas soffreram modificações na
anterior disposição. Assim, nos sitios mais importantes foram rasgados
_luminarios_, que deixam passar luz de fóra, tenue e duvidosa, e
_arcocelios_ que enfeitavam e cobriam sarcophagos de pedra. Estas obras
parecem de caracter posterior á emancipação do Christianismo e a logica
leva a crel-o.

Eis, em rapidos traços, os caracteres geraes d'estes sombrios
subterraneos, onde nasceu a luz brilhante do Christianismo e os grupos
cada vez mais numerosos _de homens de boa vontade_ construiam os
alicerces das modernas sociedades.

É evidente que até ao seculo IV os christãos, sob a acção da vigilancia
pagã, não podiam construir templos. A architectura christã, pelo menos,
nasceu depois d'este seculo. O mesmo se póde dizer sobre a esculptura
dos arcocelios e dos sarcophagos, grandes peças difficeis de trabalhar
dentro das catacumbas e impossiveis de transportar de fóra, por longos
corredores estreitos, sob as vistas dos agentes das perseguições, que o
eram todos os adeptos e defensores do antigo polytheismo.

A arte d'este tempo é ingenua. Consiste, como é de crer, em esculpturas
grosseiras. A maior parte das pinturas, se muitas existiram, deve tel-as
desfeito o tempo. Além d'isso, não nos parece facil distinguir hoje o
que foi feito no tempo das perseguições, ou depois da liberdade do
Christianismo, em que as catacumbas deviam ser consideradas logares
santos e concorridos pela veneração dos fieis.

Estas razões, que nos parecem fundadas, circumscreveram ainda mais a
acção dos artistas christãos dos seculos primitivos. A arte n'esse tempo
limitou-se a pinturas e esculpturas simples, baixos relevos ligeiros,
verdadeiros traços profundos desenhando figuras informes, ou ingenuos
symbolos, uns adequados do paganismo ao espirito da nova religião,
outros creados, como linguagem mysteriosa, que só os iniciados podiam
ler e comprehender. Assim, o peixe, symbolo de Jesus Christo, é um
emblema muito espalhado nas catacumbas. Era necessario, com effeito, ser
iniciado para comprehender que Ichtus, em grego o peixe, representava
aos olhos dos fieis as primeiras lettras das palavras mysticas: _Jesus
Christo, Filho de Deus, Salvador_.

Inutil seria e prolixo, n'este ponto, descrever os symbolismos
religiosos, que envolvem um ligeiro caracter de arte: a pomba e ás vezes
Psyche alada, que representavam a alma; a ancora a esperança; o ramo de
oliveira a paz; e tantos outros symbolos e allegorias, que ainda hoje se
encontram nos costumes da Egreja e na tradição dos povos christãos.

Na realidade, tudo isto não constituia verdadeira arte; muito embora nas
primeiras egrejas do Estylo Latino possamos encontrar elementos trazidos
das catacumbas. As cryptas dos templos lembram as das catacumbas. Os
tumulos de pedra dos martyres e santos, que nas catacumbas serviam de
altares, apparecem mais tarde no Estylo Latino. São usos respeitados; a
tradição santifica-os, conserva-os e transforma-os. Eis ainda um exemplo
da evolução da Arte.

Taes eram as condições sociaes e moraes do Christianismo, antes do IV
seculo. No anno 306, Constantino, filho de Constancio Chloro tetrarcha
das Gallias e da Bretanha, foi proclamado imperador pelas legiões
gaulezas.

O grande periodo da Edade-Media vae começar em breve. O poderoso
Imperador Constantino, o genial espirito do primeiro christão coroado,
parece presidir a este periodo historico, em que se accentua a evolução
e o poder do Christianismo, creando novas sociedades e novos estylos de
Arte.

Constantino era um grande homem e um profundo politico. Sem falarmos na
unidade e na organisação do Imperio, que elle creou com admiravel
energia e sagacidade nem sempre clementes e doces, dois actos seus
demonstram-lhe o valor: a protecção concedida ao Christianismo e a
escolha da situação de Byzancio, para capital do Imperio. Estes dois
factos, além de influencia enorme sobre a conservação do Imperio,
tiveram acção profunda e decisiva na evolução social da religião e das
artes christãs.

É evidente que esta evolução tinha de existir, porque, já antes do
reinado de Constantino, o Christianismo, moralmente vencedor, não podia
ser suffocado; mas o movimento seria diverso, talvez mais lento e de
caracteres secundarios differentes. Os grandes homens não conseguem
crear as opportunidades, nem modificar as causas profundas que
transformam o modo de ser animico e social da humanidade; comtudo, o
genio aproveita-as, imprime-lhes caracter especial, dirige-as em
determinado caminho, de entre os variados de que dispõe a natureza e o
espirito para se approximar indefinidamente do fim supremo, os ideaes do
bem, do bello e da justiça.

Constantino vira nas Gallias o caminhar rapido do Christianismo. Tinha
assistido, provavelmente, aos actos de perseguição alli praticados por
ordem de Deocleciano. Sentira a fé dos crentes, apreciára a energia de
alma dos martyres, a valentia das mulheres que se deixavam suppliciar,
sem protestos, sem choros, olhando o Ceu com esperança e cobrindo apenas
os corpos, animadas d'esse pudôr do espirito que desconhecia quasi o
paganismo. Para elles, martyres, a morte não era horrivel; por um lado,
davam o exemplo, por outro, obtinham a liberdade da alma, que em breve
ia ser feliz, vivendo para sempre no seio do doce Christo. Constantino
era um genio e os genios vêem sempre no futuro.

Depois, annos de morticinio não extinguiam os christãos. Parecia que a
flora do Christianismo rebentava sempre mais forte e variada. A
suggestão do martyrio, fundando-se na esperança, trazia novos adeptos,
que appareciam por toda a parte, como nos campos cobertos de relva
pullulam as boninas brancas na primavera.

Constantino era politico e os politicos usam das forças vivas para os
seus altos designios. A idéa e a força sempre crescente do
Christianismo, que haviam levado, talvez, Diocleciano a abdicar a coroa
imperial não podendo transigir com elle, eram elementos necessarios,
unicos, para o sonho de Constantino, a unificação e a reorganisação do
antigo Imperio Romano.

Alem d'isso, Constantino era um philosopho. A idéa polytheista estava
condemnada. Os verdadeiros sabios nunca haviam acreditado n'esses mythos
monstruosos uns, ingenuos outros; n'essa religião, emfim, sob cuja
influencia cabiam aos pedaços a politica das sociedades pagãs e a moral
dos cidadãos. A doutrina christã, simples e virtuosa, o seu principio
deista, a unidade do Espirito Supremo ideal dos philosophos, deviam ter
um encanto poetico aos olhos do imperador, constituir uma aspiração da
sua alma.

Não é, pois, necessaria a revelação divina para explicar a conversão de
Constantino. Em nome das perseguições feitas aos christãos, o novo
imperador marcha contra seu cunhado Mazencio, o tetrarcha da Italia,
derrota-o nos campos do Pó, aperta-o na retirada e, ajudado pelos
christãos, levando na frente o _labarum_, com a cruz de Christo e o
prophetico lemma _in hoc signo vinces_, vence-o e fal-o morrer junto dos
muros de Roma. No anno seguinte, em 313, o imperador publica em Milão o
Edito de Tolerancia, a aurora da liberdade para a Egreja triumphante.

Dois annos depois, ataca o tetrarcha do Oriente, Licinio, sempre a
titulo das perseguições exercidas contra os christãos; derrota-o em
Siballis, aprisiona-o, promette-lhe a vida e manda-o matar passado
tempo!

A unidade politica do Imperio estava feita; faltava, apenas, a
organisação administrativa. Os christãos haviam sido auxiliares do
imperador; tornaram-se, pois, seus protegidos. Constantino não combatia
ainda abertamente o paganismo; enfraquecia-o a pouco e pouco, enchendo
os christãos de favores, mostrando por elles viva predilecção. Ora, os
favores e a predilecção dos poderosos são uma ordem e um incentivo para
os pequenos.

O trabalho de propaganda de Constantino foi lento e efficaz. Não bastava
que o Christianismo vivesse de tolerancia. Antes de ser religião do
Estado, precisava tornar-se pessoa moral, possuir propriedade, o que
entre os romanos era a melhor manifestação de força e de soberania. Em
321, outro Edito imperial auctorisa a Egreja a receber donativos e a
possuir bens temporaes. O imperador concede, depois, privilegios aos
templos da nova religião, entre elles o direito de asylo dos templos
classicos; eguala os dois sacerdocios em direitos e regalias; começa até
a perseguir os pagãos. Eram costumes do tempo.

Para dar unidade á nova Egreja e expungir a heresia de Ario, que no
terceiro seculo do Christianismo ameaçava já a tradição orthodoxa,
Constantino convocou em 325 o primeiro Concilio Ecumenico, a reunião dos
bispos de todas as dioceses do Imperio, em Nicea. Este concilio teve
subida importancia sobre a unidade e a disciplina do Christianismo, como
mais tarde a manifestou, tambem, o Concilio de Trento, iniciando a
theocracia dos pontifices romanos. Deu o exemplo da definição do dogma
nas reuniões da Egreja Universal; fixou a doutrina da consubstanciação
do Pae e do Filho; divinisou Jesus Christo, enunciando o _Symbolo dos
Apostolos_, ainda hoje o _Credo_ resado pelos christãos; finalmente,
fulminou o anathema e a excommunhão sobre Ario e a sua doutrina, que
negavam esta consubstanciação.

O arianismo, porém, não se deu por vencido e, durante seculos,
manifestou profunda influencia sobre o Christianismo, principalmente na
catechese dos povos barbaros.

Assim, pode dizer-se que o arianismo, preparando o espirito dos povos
germanicos, é o verdadeiro germen do movimento da reforma religiosa, que
nos seculos futuros dividiu o Christianismo em dois poderosos ramos, o
catholico e o protestante.

Constantino fizera-se christão de facto, faltava-lhe apenas o baptismo;
comtudo, como esse sacramento lhe sacrificaria as funcções e a
influencia de _pontifice-maximo_ do paganismo perseguido, quasi extincto
mas tendo ainda proselytos, o imperador, encarnando-se no politico,
deixa a prova indubitavel e solemne da conversão, para os ultimos dias
da vida. O politico ainda transparece na escolha de Byzancio,
reedificada e engrandecida, para capital do Imperio. Com effeito, em
torno das suas vastas fronteiras, já no tempo de Constantino, uma cinta
de ferro de povos barbaros cingia-se cada vez mais. Eram as ondas das
invasões, que se começavam a formar e entrarão com movimento
irresistivel no seculo seguinte.

O genio de Constantino presentiu a proxima e inevitavel lucta, o
terrivel choque dos povos do norte nas fronteiras do Imperio. A cidade
de Byzancio, defendida pelo Caucaso, pelo Mar Negro e pelo profundo
fosso do Bosphoro, offerecia-lhe uma posição relativamente mais segura
do que Roma para capital, o cerebro e a alma dos seus vastos estados. O
imperador transferiu a séde do governo para Constantinopla, no anno 330
da nossa era.

Assim, o Christianismo foi reconhecido religião do Estado, official e
professada pelo imperador, segundo o antigo aphorismo: _cujus regio,
ejus religio_.

Um novo periodo historico vae, pois, começar para a Humanidade. A
politica e a moral, expressões geraes da actividade humana, manifestarão
caracteres differentes do passado. O espirito do Christianismo presidirá
a esta phase longa e brilhante da evolução historica, que ha de
inflorar-se com a civilisação e o progresso modernos.

Entre o mundo classico e o christão parece existir hoje um abysmo;
todavia, na evolução do espirito não occorreu a menor solução de
continuidade. As sociedades modernas ligam-se ás antigas, como a arvore
se prende ao solo pelas raizes, como a planta se enxerta n'outra, de que
recebe a seiva e o alimento.

A arte classica e a christã parecem, tambem, distinctas, quando na
realidade nasceram ambas do movimento evolutivo e ascencional do
espirito humano. As differenças provéem da intima natureza das
religiões, que imprimiu caracteres especiaes á expressão do bello, a
Arte, nas duas sociedades.

Todas as religiões se dirigem, mais ou menos directamente conforme a
perfeição da doutrina e do culto, para o ideal do bem, do bello e do
justo; mas procuram-n'o por differentes caminhos. O polytheismo grego e
romano, pelas condições especiaes da sua formação, via esse ideal
atravez da belleza da forma. O Christianismo, pelo contrario,
contempla-o atravez da belleza do espirito. Os fins são identicos;
apenas os meios de os attingir se manifestam differentes.

A religião classica exaltava a alma, penetrando-a de doce sensualismo. O
amor e o goso eram bens da vida, de que os proprios Deuses davam bons
exemplos. Diogenes no seu tonel professava esta doutrina. Desprezando as
vaidades do mundo, aquecia-se aos raios do sol e contemplava o bello
visivel da natureza.

A religião christã exalta a alma, penetrando-a de elevado
espiritualismo. A vida é a estrada rude e aspera, que a alma vae subindo
dolorosamente até entrar, emfim, pela porta da morte na felicidade
eterna. S. Jeronymo, na sua cella humida e fria, rasgava as carnes com
cilicios e açoutes para calar os sentidos. Desprezando, tambem, os bens
mundanos, absorvia-se na contemplação da belleza ideal do Eterno
Espirito.

A applicação d'esta doutrina é facil e concludente. Na architectura,
comparemos duas producções singulares em merito e belleza: o Parthenon e
a Cathedral de Strasburgo.

O Parthenon foi o templo mais perfeito da arte classica; a Cathedral de
Strasburgo gosa da fama de ser exemplar completo do mais rico estylo da
arte christã. No primeiro, todas as proporções e elementos foram
estudados e combinados para attingir a harmonia e a belleza da forma;
mas a expressão é fria. O monumento não diz nada ao nosso espirito. Na
segunda, pelo contrario, a belleza da expressão completa a da forma. A
Cathedral de Strasburgo é um poema de pedra, um cantico da religião
christã.

Na esculptura observa-se o mesmo. O auctor d'este livro percorreu os
museus de Italia, viu nas vastas galerias do Vaticano accumuladas
centenas, milhares de estatuas classicas. Nunca, nunca, até hoje, a
esculptura moderna attingiu tal belleza de formas!

Mas, n'essa multidão immensa de primores, não encontrou a expressão. As
physionomias são de uma serenidade olympica, as attitudes magestosas, em
geral, não teem movimento. A expressão não existe, até quando as
condições do acto mais a exigem. A morte não tem contracções no rosto. A
lucta não manifesta a furia do odio. O amor é frio e solemne. Todas as
bellas estatuas teem a impassibilidade de Jupiter ou de Minerva,
conforme os sexos.

As excepções são rarissimas; contam-se sem difficuldade. O grupo de
Laocoon e dos filhos, envolvidos pelas serpentes, as lagrimas de Niobe,
chorando os filhos, são exemplares curiosos da expressão dos antigos
estatuarios. Saindo dos museus classicos, encontramos em Italia por toda
a parte a vida, a expressão, o movimento dos esculptores da Renascença,
de que Bernini nos dá singular exemplo no extasis de Santa Thereza de
Jesus, uma das mais extraordinarias estatuas produzidas pelos artistas
modernos.

A arte classica e a christã traduzem, pois, a essencia intima das
respectivas religiões. Na primeira, predomina a forma; na segunda
sobresae o espirito. Estas observações parecem-nos fundamentaes na
Historia da Arte.




CAPITULO TERCEIRO

AS INVASÕES DOS BARBAROS


O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas
cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este
principio: _o Espirito começou pacientemente a revolução, que deve
realisar-se; os seus progressos são rapidos, sel-o-ão cada vez mais_.

Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem
evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.

O periodo historico da Edade-Media resulta da acção reciproca das tres
manifestações do espirito, representadas pelo paganismo, pelo
christianismo e pelos barbaros. É a longa phase das suas luctas, das
suas concessões mutuas, das suas combinações, verdadeira _endosmose_ e
_exosmose_ de idéas, que termina pela constituição homogenea das
sociedades modernas.

A Edade-Media começou no seculo V, definida pela primeira invasão dos
barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura até á tomada de
Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos,
sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo,
um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes são os flagellos, as
guerras, as miserias, como eguaes não houve n'outra quadra historica,
que n'este espaço immenso, principalmente até ao seculo X, assolaram a
humanidade.

A acção reciproca do paganismo e do Christianismo já procurámos
esboçal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos
_barbaros_, elemento novo e activo, causa de poderosa transformação
social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na
scena da historia. De entre os tres, como é de justiça, reconheçamos a
hegemonia ao Christianismo.

Já no tempo de Constantino hordas numerosas de _barbaros_, mais ou menos
organisadas em nações, se distribuiam pelas vastas fronteiras do
Imperio, desde a cordilheira do Caucaso até á embocadura do Rheno. Os
hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados
entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para
o norte da Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as vertentes
septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos
guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais além, para o occidente, a
margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e
frisões, depois, até á embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio
de perigos previstos e tremendos.

De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava
em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo
V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes até
vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaçadas
por outras hordas. A acção da diplomacia imperial completava a dos
exercitos, semeando intrigas e dissensões entre as nações barbaras e os
mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando,
emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as forças do
inimigo.

Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV, quando um movimento
geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou
estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os
visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos
vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de
Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador
Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio
dominou-os e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas esta primeira
investida deve ser considerada o facto primordial da invasão dos
barbaros.

Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu
reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e
dos alanos para o occidente communicou-se a todas as nações barbaras,
repercutindo-se até ao Rheno.

Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia
e pozeram cêrco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagués
precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por
Stilicon, da raça vandala, ao serviço do Imperador Honorio. Os
visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O
grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.

Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a França.
Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a
Italia, devasta as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma, que foi
salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de Attila dissolveu a invasão dos
hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.

Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico
tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os
herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações precedem a
coroação do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do
Oriente, pela desmembração das respectivas provincias, tornou-se emfim
um facto consummado.

Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o
primeiro periodo das invasões barbaras. Odoacro é vencido e morto. A
restauração do Imperio do Occidente já não era possivel; mas Theodorico
consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio,
comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para além o
Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos e os
gepides, e a oeste definido pelas nações dos francos, dos borguinhões e
dos visigodos.

Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de
miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio
Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo
oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos
apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram
n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christã, que na
realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.

Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o
Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam
ramos da mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos provinham
tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigrações
remotissimas. Se as linguas d'estas nações barbaras eram, pois, entre si
incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e
ethnicos apresentavam intimas analogias.

Mais ou menos nomadas, as nações barbaras possuiam energico espirito
bellicoso. Rudes e destemidas, embora não selvagens ou crueis, essas
vastas confederações nacionaes procuravam em luctas aventurosas
satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente
manifestaram duas instituições suas: o feudalismo e a cavallaria.

O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se
converterem á heresia do arianismo. A religião manifestava entre os
barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os _bardos_, como
entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os
grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na
Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.

Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros,
fieis aos seus chefes, estes _barbaros_, como lhes chamavam os romanos,
nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da
propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico
individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir
em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por
exemplo, a constituição das communas e principalmente o movimento da
_reforma_ religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da
democracia christãs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo
XVI.

Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos chefes, em geral
escolhidos pelo valor e por altos feitos, não excluiam uma organisação
social democratica, que se manifestava em reuniões periodicas de
guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questões de interesse
commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas
ás dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as nações do norte
da Europa, suas legitimas descendentes.

O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas
pela federação de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida
local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes
centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos
senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia não por
desprezo das artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra, na
caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traços os futuros
barões feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e ás mulheres,
pelas quaes aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas
de dons propheticos, estes _barbaros_ traziam em si o germen, que, ao
calor do Christianismo, devia produzir a consideração, singular e
antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela
mulher no tempo da cavallaria.

Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os _barbaros_ eram
irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam
os futuros barões feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o
Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos hunos e nos alanos,
povos de outra raça que foram um episodio na historia da Europa. Ora,
estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas
manifestações sociaes, tiveram grande influencia no organismo da
Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos
periodos romanico e ogival.

Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação romana, eram fascinados
por ella. É um facto incontestavel na historia. A primeira demonstração
deu-se na constituição do reino godo de Italia por Theodorico, um
precursor de Carlos Magno e como elle um _barbaro_ de genio. Educado na
côrte imperial de Constantinopla, apreciára o immenso valor da
organisação social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados
pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se
bem por um só facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a
justiça no seu vasto imperio, decretou que as questões suscitadas entre
dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por
um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o _barbaro:
cada um terá o seu direito garantido e, apesar da differença dos juizes,
uma só justiça reinará para todo o mundo_. E, todavia, os godos eram os
conquistadores e os romanos os vencidos!

Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade e do respeito
pela dignidade humana, que é a sua consequencia logica. Era a
manifestação esplendida do caracter fundamental da sua raça, que os
_barbaros_ traziam para a caduca civilisação romana, recebendo em troca
tradições de gloria, sabias instituições e um direito escripto, que
ainda hoje causa a admiração do mundo moderno. Na religião, Theodorico,
um sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos seus adeptos e
fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e
continua a professar as suas doutrinas. Os christãos elevam templos por
toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O _barbaro_ só
vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do
Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.

O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a
riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituições
romanas são respeitadas, consultadas até. Os cargos civis são para os
romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados
como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito
gothico. Emfim, a combinação das tres manifestações do Espirito, segundo
a expressão de Anaxagoras, começa a dar homogeneidade a uma nova
civilisação.

O reinado de Theodorico é, pois, uma tentativa da fusão de principios,
um relampago de luz serena e clara que irrompe do seio tenebroso dos
primeiros tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha
o Santo Imperio de Carlos Magno.




PARTE SEGUNDA

OS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS

V SECULO AO X SECULO




CAPITULO PRIMEIRO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO


O Christianismo saíra das catacumbas nos meiados do seculo IV. Quasi
todo o seculo seguinte passara-se em invasões successivas. Hordas de
barbaros precipitaram-se sobre a Italia, talando, destruindo e roubando
o que umas ás outras deixavam. As perseguições religiosas haviam
cessado; mas a heresia de Ario perturbava os espiritos, e as invasões
accumulavam morticinios e flagellos. O trabalho não tinha socego, a
agricultura abandonada decaíra, a propriedade estava ameaçada e a
industria e o commercio esmoreciam, asphixiados por pesada atmosphera de
fogo, de sangue e de incerteza. Não é n'estas condições da sociedade e
do espirito humano que as artes se desenvolvem e florescem. O Estylo
Latino, que principiára a formar-se nos meiados do seculo IV,
constitui-se lentamente no seculo seguinte.

A derrota do paganismo inutilisára os templos e mutilára as estatuas dos
antigos deuses. Ora, parece-nos haver comprehendido na historia das
religiões, que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe
ferozmente os adeptos e, como os antigos exercitos definiam a victoria
dormindo sobre o campo da batalha, as religiões triumphantes occupam e
apropriam ao seu culto os antigos templos profanados e desertos.

Este principio deriva de rasões logicas e de qualidades ou defeitos da
propria alma humana. O vencedor expolia o vencido; vê-se isto ainda nos
tempos modernos. O espirito da nova religião sente a necessidade
orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos recintos e altares, onde
os _idolatras_ adoravam os deuses vencidos. Além d'isso, os templos
inuteis offerecem, em regra, condições de construcção adequadas ás
praticas religiosas; ora, em todas as religiões mais perfeitas existem
usos e praticas similhantes. O vencedor não tem tempo para construir
logo a principio, encontra sanctuarios em sitios escolhidos e
convenientes, aproveita-os. É uma rasão. Assim, nós vemos os arabes de
Hespanha aproveitarem as egrejas godas, transformando-as em mesquitas,
onde o Alcorão occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois, se
tornam templos christãos. Assim, os turcos de Mahomet II, tomando
Constantinopla, fizeram de Santa Sophia e dos templos byzantinos do
Oriente conquistado as suas primeiras mesquitas.

O Christianismo não procedeu por esta fórma, salvo raras excepções. Em
primeiro logar, porque o espirito e os ritos da nova religião eram assás
differentes dos do paganismo. A expressão da arte classica não dizia bem
com a essencia do culto christão. Além d'isso, os templos classicos eram
pouco espaçosos. O _naos_, a cella ou sanctuario dos deuses, era
pequeno; o que dava amplidão ao tempo classico, o _pro-naos_, o portico
que mais ou menos envolvia o _naos_, correspondia ao culto e aos ritos
pagãos; não se amoldava, porém, aos do Christianismo, cujas multidões,
sempre crescentes, precisavam reunir-se amiudadas vezes para os
exercicios divinos.

As circumstancias desgraçadas da sociedade romana, esboçadas
anteriormente, proporcionaram aos christãos os grandes edificios das
_basilicas_, logares de reuniões publicas, tribunaes, mercados e bolsas
de commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos se podem
empregar as ultimas expressões tão modernas.

O amortecimento da actividade social e a extincção da vida politica dos
cidadãos, que os chamavam aos _foros_ junto dos quaes existiam as
_basilicas_, o abatimento do commercio e das industrias, emfim, as
condições adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis estes
enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades publicas e
regorgitando de cidadãos, na plena actividade de trabalho em variadas
operações commerciaes. Os christãos preponderantes em Roma, logo no
principio do imperio de Constantino, começaram a apropriar-se d'estes
edificios do Estado, adequando-os ao culto e aos ritos da nova religião.

As basilicas romanas produziram, pois, a fórma e o estylo das primeiras
egrejas christãs. Sobre as respectivas disposições existiam duvidas, que
a critica e a inducção procuraram resolver; assim, a reconstituição
d'estes edificios parece ser hoje questão resolvida. A importancia que
tiveram sobre a arte christã, a grandeza e a magnificencia dos que
existem hoje, principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida
descripção.

Vitruvio deu-nos as regras principaes da construcção d'estes monumentos
e esclareceu-nos sobre os seus empregos. O architecto aconselha que as
basilicas sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar a
reunião dos commerciantes. Os seus fins estão, pois, definidos, pelo
menos no ultimo seculo antes de Christo em que viveu o celebre
architecto romano. As regras são incompletas, sem deixarem de ser tambem
interessantes, porque traduzem o espirito methodico e as proporções
prefixadas e tradicionaes da arte classica.

A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo menos, o terço do
seu comprimento. Adequadas ao terreno, que, se for longo, obrigará a
construir _chalcidicos_ nos extremos da basilica. As columnas do
pavimento terreo terão altura egual á largura dos porticos, como o
architecto chama ás naves lateraes, que a seu turno devem offerecer
approximadamente um terço da largura do corpo ou nave central. As
columnas superiores, as das galerias sobrepostas aos porticos, serão um
quarto mais baixas do que as do pavimento terreo. O parapeito, lançado
entre as columnas d'estas galerias, offerecerá altura sufficiente para
que as pessoas de cima não sejam vistas pelas de baixo. Por muito
incompletos que pareçam, estes pormenores seriam sufficientes para dar
approximada idéa dos fins e das disposições d'estes edificios classicos.

[Figura: Schema de uma basilica romana]

O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na Grecia, onde
provavelmente existiram construcções com fins equivalentes; comtudo,
pode tambem definir-lhes a grandeza e a magnificencia, visto que a
palavra grega expressa o poder real.

A basilica apparece nos ultimos tempos da republica. Construida nas
proximidades dos _foros_, grandes praças onde existia a tribuna dos
oradores e se discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica
parece ter sido um annexo indispensavel d'estes _foros_, recinto
abrigado e coberto para occasiões de intemperie. A mais antiga em Roma,
a Basilica Porcia, suppõe-se ter sido construida cêrca de duzentos annos
antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se a Basilica
Emilia, construida por Fulvio, a Basilica Simpronia, elevada por Tito
Sempronio, _censor_ no ultimo seculo antes de Christo. Estas
construcções faziam parte das dadivas, com que os politicos e os
ambiciosos do tempo procuravam conquistar as boas graças do povo.

Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar, Trajano, e por ultimo
Constantino construiram-nas em Roma. Cidades de importancia secundaria
possuiam basilicas. Assim, pudémos ver ainda os restos da que existiu em
Pompeia, junto do pequeno _forum_. Ora, esta cidade era, como outras,
semeadas nas margens do golpho de Napoles, uma verdadeira estação de
verão, provavelmente do caracter que hoje têem Nice e as povoações da
Côte-d'Azur, sobre o Mediterraneo.

A basilica de Pompeia constitue um excellente exemplar, porque demonstra
que nas primitivas não existia ábside. No fim da nave principal, uma
tribuna quadrada, avançando sobre o transepto e de altura superior á de
um homem de regular estatura, constituia, decerto, o espaço reservado
para o tribunal. Nas ultimas basilicas posteriormente construidas, por
exemplo a de Constantino, já apparece a ábside saliente, abobadada em
meia cupula, para installação dos juizes.

A descripção d'esta ultima basilica dar-nos-á idéa clara da disposição
interior e grandeza d'esta natureza de construcções. Media cêrca de 90
metros de comprido, por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas
offereciam consideravel superficie. Segundo o maior comprimento, eram
divididas em tres naves, cortadas perpendicularmente por tres
transeptos. Na extremidade dos eixos da nave e do transepto centraes
existia uma ábside; no outro extremo, em face das ábsides, abriam-se as
entradas, das quaes a principal dava sobre a Via-Sacra.

Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as
disposições internas das basilicas. Em geral, eram vastos edificios,
constituidos por uma nave central terminada em ábside e ladeada de
porticos sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a altura do corpo
central. Este conjunto, exceptuando a ábside abobadada em meia cupula,
tinha cobertura de madeira com as traves a descoberto.

Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado de porticos era
accessivel por todos os pontos. Depois, as columnas periphericas foram
substituidas por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos das
naves em face das ábsides.

No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando a ábside e o
transepto annexo; os negocios commerciaes e bancarios d'aquelle tempo
tratavam-se na grande nave central; nos porticos inferiores lateraes
estavam os logares dos vendedores, á similhança dos _bazares_ orientaes.
Os porticos superiores constituiam logar de reunião para ociosos e para
os que procuravam as diversões da sociedade e da conversação.

Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos um claro
schema, onde todos os respectivos elementos estão expressamente
desenhados. N'este schema faremos notar as disposições relativas do
tribunal, constituido pela ábside, onde estacionava o juiz e o pessoal
annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos advogados, ladeando esta ábside,
e finalmente pelo recinto fechado, que sem duvida devia existir para
separar os negocios do tribunal dos restantes, que se tratavam tambem
nas basilicas. Estes elementos são a origem de disposições especiaes nas
egrejas do Estylo Latino, como adeante diremos.

Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura simples e de modesta
ornamentação. É um erro; taes edificios, dados os seus fins e a mira dos
doadores e constructores, principalmente quando foram os Cesares, não
podiam deixar de manifestar grandeza architectonica, embora a severa e
solemne grandeza classica. A ornamentação era rica e profusa em estatuas
e objectos de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este ultimo
facto, pelo menos, é attestado pelas descripções dos historiadores. É
claro que n'este ponto nos referimos ás antigas basilicas romanas e não
ás que, seguindo o estylo, edificaram depois os christãos.

As basilicas romanas deram, pois, origem ás primeiras egrejas do
Christianismo no occidente. Parece-nos, todavia, conveniente, n'esta
formação do estylo latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder
fixar datas, como aliás é sempre difficilimo nas transições artisticas:
o primitivo, desde Constantino até Theodorico, em que o estylo devia
ser, em regra, relativamente simples e pobre, e o segundo, sob a
influencia da riquissima arte byzantina, que ia successivamente
attingindo a perfeição manifestada no seculo VI, pela construcção de
Santa Sophia de Constantinopla. As relações entre o occidente e oriente
eram muito frequentes e activas n'aquella epoca, para que se não desse
esta influencia de uma arte grandiosa e de ornamentação riquissima,
sobre o Estylo Latino nascente.

Nos primeiros tempos houve, sem duvida, vacillações. A consolidação da
egreja deve ter influido muito na constituição do estylo. As basilicas
christãs dos melhores tempos tinham fórmas definidas; obedeciam, por
assim dizer, ás regras de alguns typos apurados e preferidos; por isso,
é até certo ponto possivel descrever-lhes os caracteres geraes.

A disposição interior das egrejas do Estylo Latino apresentava figuras
differentes; a circular e a rectangular foram as mais empregadas,
principalmente a ultima. Exemplos ha, tambem, do emprego combinado do
circulo e do rectangulo, como se vê na egreja basilica de S. Martinho de
Tours. A architectura era simples e sobria, seguindo o espirito e a
fórma do estylo classico romano. A diversidade manifesta-se mais
accentuada nas disposições internas, accommodadas ás necessidades do
novo culto, e na ornamentação mais ou menos rica, onde exerceu decidida
influencia o Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.

Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do Estylo Latino, fazendo
um ligeiro schema dos seus caracteres principaes; observaremos, comtudo,
que esta descripção _theorica_ soffre as modificações impostas pelas
circumstancias, pelas disposições dos edificios apropriados e, emfim,
pela imaginação e concepção artisticas, que, embora dentro das regras
dos estylos, teem sempre maior ou menor liberdade de acção.

Um espaçoso _atrio_, fechado por muros, ás vezes revestidos de porticos
internos, dava ingresso á egreja. No fundo d'este _atrio_ quadrado, que
foi origem dos adros das nossas egrejas, em frente da respectiva
entrada, elevava-se o edificio do templo. A fachada era formada por tres
portas e tres janellas, correspondendo aos eixos das tres naves
internas. A porta central servia para os grandes ceremoniaes.
Sobrepujando as portas e as janelas, um frontão pouco alto encobria o
madeiramento dos telhados. N'esta disposição vê-se a ordenança classica.

Em frente da egreja e encostado á fachada, um portico de columnas
formava alpendre sobre as portas, logar protegido onde se abrigavam os
fieis. Algumas vezes, não havia saliencia para fóra da superficie
vertical da fachada, que então repousava sobre o intercolumnio externo
do portico. As portas da egreja ficavam, n'este caso, precedidas de uma
especie de vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam para
as abluções.

N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios sumptuosos que
mais tarde foram elevados junto das egrejas, nos atrios ou fóra d'elles,
onde se praticava em grandes bacias de marmore o baptismo por immersão,
usado n'aquelles tempos. Depois, a transformação dos ritos, dando
caracter symbolico ao baptismo, introduziu os baptisterios no corpo das
egrejas proximo da entrada.

As fachadas lateraes da egreja, em regra, não tinham janelas. A parede
lisa era coroada por uma cornija, repousando sobre modilhões. As janelas
da fachada eram fechadas por grandes laminas de marmore, rendilhadas de
pequenas aberturas circulares ou em lozangos, dando a impressão das
rotulas orientaes.

No interior, a egreja offerecia as caracteristicas disposições da
basilica romana: tres naves, a do centro mais larga e alta, as lateraes
com dois pavimentos sobrepostos, abrindo na principal, compunham a
superficie coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo da divisão
dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens occupavam a nave lateral
da esquerda, as mulheres casadas a da direita e as virgens e as viuvas
os pavimentos superiores d'estas naves.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. PAULO--Fachada principal]

Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se tres ábsides;
a da nave central, a mais importante, constituía o _presbyterio_ ou a
_tribuna_. Nas lateraes guardavam-se os livros santos e os objectos do
culto. Estas ultimas foram a origem dos _thesouros_ e das _sacristias_
das nossas egrejas.

Na ábside central, a _tribuna_, em degraus de marmore dispostos em
amphitheatro, sentavam-se os presbyteros; ao fundo, n'uma cadeira tambem
de marmore o bispo, ou o officiante, presidia ás cerimonias religiosas.
Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar dos juizes.

Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar, coberto pelo
_ciborio_, o _baldachino_ das basilicas modernas de Roma, vasto e alto
docel sustentado por columnas, formando uma especie de pallio de
marmore. O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o da invocação
da egreja. Sobre a mesa do altar viam-se baixos relevos, o _alpha_ e o
_ómega_, o _labaro_, a _palma_ do martyrio e outros symbolismos
religiosos.

No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo, o
_martyrio_ ou a _confissão_, contendo reliquias de santos; quando este
subterraneo era vasto tomava o nome de _crypta_. Todos estes elementos
nasceram das tradições do Christianismo das catacumbas.

Este conjunto do altar, o _santuario_, ficava entre a tribuna e o côro,
constituido por um vasto espaço quadrado, limitado por muros baixos, no
extremo da nave central. Nos tres lados do côro, excepto o mais proximo
do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam logar aos chantres e
cantores. Dois _ambons_ symetricos, nos extremos do côro, ladeavam quasi
o altar. Correspondiam proximamente ás tribunas dos advogados romanos e
são a origem dos pulpitos. Estas disposições caracteristicas pódem
observar-se ainda hoje nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros
cortam as naves principaes.

A conveniencia de extremar o publico da tribuna e do altar, fez mais
tarde construir um muro, ou balaustrada perpendicular aos eixos das
naves, entre o côro e o altar. Assim, ficou definido o transepto e
desenhada a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.

Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas, ás vezes de
grandes caixões. A abobada não foi, nem podia ser empregada em edificios
d'esta construcção.

A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino manifestavam-se
principalmente no interior. Os tectos eram de essencias raras,
esculpidos e recamados de metaes, entre os quaes figurava o ouro. As
columnas das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de volta
inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos por
pilastras, eram construidas e revestidas de finos marmores e de
porphyros. O altar e o côro principalmente offereciam ornamentação
riquissima, revestidos de esculpturas onde e quando era possivel; assim
como a tribuna, cuja semi-cupula representava grandes quadros biblicos
em mosaico de fundo de ouro, que ás vezes se estendia a outros pontos da
egreja. É evidente que esta pujante ornamentação se desenvolveu nos
melhores tempos do estylo, sob a influencia do Estylo Byzantino.
Sabe-se, com effeito, que os romanos empregavam com raridade o mosaico
nas paredes.

[Figura: ROMA, BASILICA DE S. PAULO--Fachada lateral (norte)]

O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fôra de grandes lages;
depois, vieram os mosaicos de desenho fino e variado, formados de
pequenos cubos de marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e
amarello, chamado _opus alexandrinus_, nome que lhe caracterisa a origem
oriental.

Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder a esphera da
Historia da Arte, que os primitivos templos eram construidos pelo
systema romano na qualidade e disposição dos materiaes, teremos dado uma
succinta idéa da formação e dos caracteres do Estylo Latino, isto é, do
primitivo estylo christão no occidente.

Não temos, infelizmente, em Portugal um só exemplo do Estylo Latino. O
nome de _basilica_, applicado a algumas das nossas egrejas, taes como a
da Estrella e a de Mafra, corresponde simplesmente á expressão de
grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida, sem se referir a
qualidades architectonicas, porque estas egrejas são de caracteristico
Estylo da Renascença. Os maiores e mais bellos exemplares existentes do
Estylo Latino é necessario procural-os entre as trezentas e oitenta e
nove egrejas e capellas, que ornam a artistica e historica cidade de
Roma!

Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de S. João de Latrão,
Santa Maria Maior, S. Paulo e S. Lourenço, as duas ultimas construidas
fóra dos muros da antiga cidade. Ora, são exactamente estas ultimas que
nos parecem mais caracteristicas, quer nos elementos externos, quer nas
disposições internas.

A Egreja de S. Paulo, fóra dos muros, constitue de facto um formoso e
rico exemplar do Estylo Latino. As suas disposições geraes traduzem, com
a possivel exactidão, os caracteres das basilicas romanas, anteriormente
descriptas. Esta grandiosa construcção conserva ainda uma pequena parte
antiga, se não primitiva, mas o restante é de epoca moderna.

Diz a tradição que no local de um cemiterio, onde repousavam os restos
de S. Paulo, o grande Apostolo das Gentes, o imperador Constantino
mandou edificar uma primeira basilica, que depois foi restaurada e
engrandecida por successivos imperadores, sendo terminada por Honorio no
anno 423 da nossa era. Um grande incendio destruiu em 1827 grande parte
d'esta primitiva basilica.

Então, o Papa Leão XII, pedindo donativos á fé dos christãos de todo o
mundo, começou a reedificação da antiga basilica; fazendo, porém,
engrandecer e enriquecer os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX sagrou
o novo e magnifico templo, do qual apresentamos os principaes elementos,
como excellente definição das feições especiaes do Estylo Latino.

[Figura: ROMA--Interior de S Paulo]

A fachada principal é formada por um vasto portico da Ordem Corynthia,
para o qual se abrem as sete portas da egreja; por detrás d'este portico
eleva-se o corpo da nave central do templo. Devemos observar que nas
egrejas do Estylo Latino, em regra, desappareceram as galerias
superiores das basilicas romanas. Abolido o uso da separação dos sexos
nas ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar as egrejas
aconselhou a suppressão d'estas galerias. Assim, o corpo da nave central
eleva-se sobre os corpos lateraes, recebendo luz directa e profusa de
grandes janelas. A fachada principal de S. Paulo é ricamente decorada
por mosaicos modernos. As portas, que abrem no bello portico, são
antigas, de bronze e de excellente Estylo Byzantino.

O interior da egreja offerece cinco grandes naves, formadas por quatro
ordens parallelas de columnas, vinte em cada ordem. São, pois, oitenta
columnas, tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os fustes de
granito rosa polido. Sobre a cornija da nave central corre uma serie de
medalhões circulares em mosaico, que representam retratos de antigos
Papas. Esta grande nave é directamente illuminada por dez janelas
lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos por frescos, que
representam scenas da vida de S. Paulo. O tecto riquissimo é feito de
caixões de madeira esculpidos e dourados. O arco da capella-mór
constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica de
Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas colossaes de S. Pedro
e de S. Paulo, é guarnecido na parte superior por antigo mosaico, que se
suppõe ser do anno 440 da nossa era.

A ábside, para onde se sobe por tres degraus, tem na semi-cupula um
mosaico, que se presume ser do seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, é
coberto por um ciborio, formado por quatro columnas de porphiro, que
sustentam um docel de Estylo Ogival.

No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres portas precedidas de
um portico corynthio de menor importancia. A torre dos sinos, coroada de
um mirante, está collocada por detrás da ábside.

A Egreja de S. Lourenço, segundo a tradição tambem construida por
Constantino no anno 330 da nossa era, foi modernamente restaurada por
Pio IX, cujos restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente um
exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto e severo.

Na fachada, o portico é da Ordem Jonica, coberto por telhados muito
inclinados e evidentes. O corpo da nave central, ornada de pinturas a
fresco, não tem frontão.

No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas de granito rosa
e de cipolino dividem o templo em tres naves, dando-lhe um aspecto de
severidade e grandeza que mais realça ainda a cobertura da nave central,
feita de grandes vigas descobertas, douradas e esculpidas. Esta egreja
não tem na realidade um verdadeiro transepto, o que mais a approxima das
fórmas tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta, por
outro lado, porque a ábside termina em parede plana, guarnecida de
janelas.

[Figura: ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO]

Não sendo possivel nem opportuno desenvolver descripções mais completas
d'estas grandiosas e riquissimas basilicas, julgamos haver escripto e
apresentado graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar os
caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.

[Figura: ROMA--Interior da Basilica de S. Lourenço]




CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO


Roma deixára de ser a capital do Imperio. Conservára de direito as suas
antigas tradições, o seu cognome de _cidade-eterna_; de facto, a capital
do Imperio já no seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o
norte. Era em Milão. Assim, foi n'esta cidade que Constantino promulgou
o edito de tolerancia, de que data a liberdade do Christianismo. As
extensas fronteiras e as enormes agglomerações de estados e de povos,
que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma capital mais no centro,
com sacrificio de Roma, muito afastada, quasi no meio da peninsula
italica.

Além d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar as cidades do
oriente, onde por exemplo Diocleciano residiu quasi sempre. As
tendencias luxuosas e os costumes mais do que faceis dos imperadores
deviam tender a approximal-os do fóco de luxo e de vida devassa, de que
os satrapas médo-persas deram exemplo imitado e haviam deixado profundas
tradições respeitadas. São ainda hoje proverbiaes o luxo e os costumes
do oriente.

Constantino, pelas razões que expozemos, edificára em Bysancio a nova
capital do Imperio. A permanencia da côrte do autocrata romano no
oriente foi, sem duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza
da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo e a alta
administração do Imperio, a pouco e pouco devem ter emigrado para
Constantinopla as melhores forças vivas e os mais valiosos elementos
sociaes, que tendem sempre a agrupar-se em torno do poder central.

O Christianismo existia já n'aquellas provincias do Imperio; mas a acção
da nova capital e do proprio imperador imprimiu-lhe necessariamente
grande expansão. As mesmas causas e influencias, que no occidente haviam
produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se com outras especiaes,
nascidas e desenvolvidas no oriente. Um outro estylo christão,
differente do occidental, foi tambem o producto da acção reciproca
d'estes elementos. A sua formação é coeva e parallela. Póde dizer-se que
o espirito classico e o do Christianismo produziram simultaneamente dois
estylos architectonicos: no occidente, o Latino; no oriente o Byzantino,
de que nos vamos occupar.

O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na verdade, do genio
hellenico. Imitou-o na religião, na sciencia e na arte, seguiu-lhe os
passos nem sempre com grande felicidade. Nas manifestações da actividade
social os romanos foram superiores aos gregos; mas em creações do
espirito, na sciencia, na philosophia e na arte, a Grecia teve apenas em
Roma um soffrivel discipulo. Os romanos, é certo, eram amadores, grandes
amadores da arte, como os inglezes modernos exactamente, que a adoram,
cultivando-a pouco, ou pelo menos não produzindo creações novas,
comparaveis com os d'outros povos.

Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o enorme thesouro da arte
hellenica foi posto a saque; Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia
ser transportado: estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os templos,
os _foros_ e os edificios publicos, povoar os palacios e as galerias dos
vencedores, que assim se enriqueceram com productos artisticos, durante
seculos creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio gregos.

Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo hellenico, quiz ser athleta
e artista. O prestigio imperial provocou as acclamações; a força
garantiu-lhe e facilitou-lhe a grande espoliação dos objectos
artisticos. É provavel que, sujeita a _este espirito_ dos amadores
romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de estatuas, algumas das
quaes poderemos ver ainda hoje nos grandes museus da Italia.

Apesar de tudo, o genio artistico grego era tão vivo e energico que se
manteve sempre, durante os flagellos da conquista e das depredações
romanas. Foi este genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma
escola de excepcional grandeza, que a modesta arte latina do occidente,
formada pelo classico romano e pelo Christianismo, encontrou ainda
pujante e activa no imperio byzantino. Ora, esta substituição da
esthetica romana pela grega constituia já uma grande vantagem para a
nova evolução da Arte.

Além d'isso, Constantinopla estava perto da Asia Menor e d'essas grandes
provincias romanas, que comprehendiam a Mesopotamia e parte do grande
imperio dos Sassanides. Esta vasta região, onde floresceram tantas
civilisações antigas, confinava com a mysteriosa _Fars_, a Persia, que
em guerras successivas fôra vencida pelos heroes da Grecia. Todas estas
nações, a Phrygia, a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a
Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada. Esta parte da
historia da arte antiga é assás obscura nas origens e nas relações
reciprocas; mas estudos modernos vão demonstrando a importancia das
manifestações estheticas entre estes povos orientaes.

A influencia de ornamentações riquissimas e de estylos cheios de
originalidade, adequados aos costumes, ás necessidades e ao clima do
oriente, estendia-se principalmente para os lados do Bosphoro, o caminho
que tinham seguido as invasões médo-persas. Foi a acção reciproca
d'estes elementos, o classico hellenico e os estylos orientaes, que,
substituindo o romano e sob o influxo do Christianismo, produziu o
Estylo Byzantino.

A basilica, levada do occidente por Constantino e pelos christãos do seu
tempo, chegára a elevar-se na capital e nas provincias orientaes do
Imperio; mas as suas fórmas especiaes, pobres e severas, não poderam por
longo tempo resistir á atmosphera ardente da arte oriental. O seculo V
foi, pois, o periodo da evolução rapida d'esse novo estylo christão, que
o imperador Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar n'um só
edificio, dos mais bellos do mundo.

Os planos e a construcção de Santa Sophia de Constantinopla foram
dirigidos por Anithemius, nascido em Tralles, e por Isidoro, de Mileto.
Estes architectos, cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e
Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais bello templo do
classico hellenico, eram ambos naturaes da Asia Menor, onde haviam
florescido adeantadas colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas,
pertencia á Caria, Tralles á Lycia, provincias limitrophes, das quaes a
ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia, approximando-se do Imperio dos
Sassanides, a Persia. Estes dois homens de incontestavel genio foram,
pois, oriundos de raças e nações, onde o espirito hellenico e o oriental
tinham descoberto combinações singulares e bellas na arte da
construcção, nos estylos e na ornamentação dos edificios.

A construcção do templo de Justiniano, iniciada em 532, correu com tal
rapidez, que em 27 de novembro de 537, dia da sua sagração, o Imperador
pôde soltar esta soberba e historica expressão: _Gloria a Deus que me
julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te Salomão!_

De facto, nunca a riqueza da ornamentação e do culto excedeu a
magnificencia de Santa Sophia, nos tempos do Imperio Byzantino. Ainda
hoje, decahido e estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores e
os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lêem versiculos do
Alcorão, o edificio de Santa Sophia constitue o primeiro e mais
admiravel monumento do Estylo Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais
perfeito e mais rico.

O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme rapidez pelo norte da
Italia e pelo sul da França, chegando até á Allemanha, não penetrou em
Hespanha e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios importantes
que tenham deixado tradições ou vestigios materiaes.

Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo, esbocemos curta
descripção de Santa Sophia de Constantinopla, o seu principal monumento,
que nos esclarecerá e servirá de guia, como fizemos no Estylo Latino.

O exterior de Santa Sophia é simples e severo. Uma multidão de cupulas
de differentes dimensões, dominadas pela grande cupula do corpo central
da antiga egreja, dão-lhe um aspecto caracteristico, perfeitamente
oriental, como o das cidades em climas onde a neve é desconhecida, a
chuva rara e reina quasi sempre calor ardente. A impressão de solidez do
edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas, repousando sobre
paredes espessas, separadas por botareos entre os quaes se abrem
pequenas janelas de volta inteira. Estamos já longe das coberturas de
madeira sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem perto das pesadas
abobadas sobre muros espessos, reforçados por botareos, do Estylo
Romanico. Na gravura, que apresentamos, Santa Sophia é representada no
estado actual, isto é, ladeada de quatro _minaretes_ e cercada de
construcções, que as necessidades do culto do Islamismo e a selvageria
artistica dos turcos teem feito encostar ao antigo monumento.

[Figura: CONSTANTINOPLA--Exterior de S^{ta} Sophia]

A construcção, exceptuando a pequena saliencia da ábside principal, está
circumscripta n'um vasto quadrado de 77 metros de lado, como se vê da
seguinte planta, limpa das excrescencias de origem turca.

[Figura]

A disposição interna offerece tres naves, a do centro muito larga e alta
em relação ás lateraes. A cobertura d'esta nave central constitue um dos
caracteres principaes da architectura byzantina. No meio d'ella
desenha-se um grande quadrado de 31 metros de lado, exactamente a
largura da nave, definido pelos angulos internos de quatro enormes
pilares muito elevados, sobre os quaes veem apoiar-se quatro grandes
arcos de volta inteira. Repousando sobre os fechos d'estes arcos,
ergue-se uma cupula colossal, cujo diametro é, portanto, egual ao lado
do quadrado. O espaço vasio, que ficaria comprehendido entre os quartos
de circumferencia da cupula e os dos arcos sobre que ella assenta, foi
cheio, formando uma superficie concava e triangular, gerada pela
curvatura da cupula descendo ao longo dos arcos. Esta construcção,
facilitando a passagem da figura circular da cupula para a quadrada dos
pilares, constitue quatro enormes _pendentes_, que ligam a mesma cupula
aos arcos, sobre que ella repousa.

[Figura]

Esta disposição, muito caracteristica, comprehende-se com facilidade,
estudando o anterior córte, feito pelo centro da cupula e perpendicular
ao eixo maior da nave central.

Para o oriente e para o occidente--porque o eixo principal da egreja tem
esta direcção--duas semi-cupulas firmam-se nas paredes externas e
encostam-se aos arcos internos, tocando-lhes quasi o intradorso; assim
fica fechada a cobertura da nave central. O templo era, pois, orientado;
a luz da madrugada espalhava-se na grande nave, durante as ceremonias
religiosas, em geral matutinas. Esta orientação apparece mais tarde no
Estylo Romanico. Vamos, assim, fazendo desde já simples approximações.

Os grandes arcos lateraes da nave principal foram cheios por paredes,
onde se abrem arcadas de volta inteira sobre as columnas do primeiro e
segundo pavimento das naves secundarias; por cima d'estas galerias a
egreja recebe luz directa de janelas, abertas para o exterior e deitando
sobre os terraços das mesmas naves, cobertas por abobadas de volta
inteira.

Assim, o corpo central do edificio apparece definido, mais elevado do
que os collateraes, recebendo luz de fóra. Se o Estylo Latino deixou
aqui reminiscencias das galerias sobrepostas para separação dos sexos, a
disposição tambem faz lembrar as naves centraes mais elevadas dos
templos romanicos e ogivaes. Na parede oriental, sob a semi-cupula
respectiva, rasgam-se tres ábsides, das quaes a do centro, um pouco
saliente do edificio, era o _sanctuario_. Na parede occidental em frente
das ábsides, existem as tres portas de entrada, precedidas de um duplo
_narthex_, reminiscencia do porticos dos templos classicos, adoptados
tambem pelo Estylo Latino.

Se a isto accrescentarmos que o edificio é profusamente illuminado por
numerosas janelas de volta inteira, relativamente pequenas, existindo na
base da grande cupula central uma verdadeira corôa de quarenta d'estas
janelas, que lhe dão um aspecto singular de elegancia e de levesa,
teremos esboçado singela descripção architectonica, que, sem confusões e
incertezas segundo pensamos, dará idéa do edificio e das feições
caracteristicas do Estylo Byzantino, que Santa Sophia traduz
magistralmente.

Sem falarmos por emquanto na ornamentação, devemos concluir que o
primeiro caracter evidente d'este estylo é a cupula. Como quasi todos os
elementos fundamentaes architectonicos, foi ella conhecida no mundo
antigo. Constitue uma especie de cobertura, que os grandes constructores
e architectos da antiguidade deviam ter descoberto quasi ao mesmo tempo,
principalmente nos climas muito quentes, de longas estiagens e por isso
de poucas florestas, que economicamente fornecessem madeira para
construcções. Póde servir isto de exemplo para as influencias do clima
sobre a construcção e d'esta sobre a arte. Assim, tambem a ogiva, por
outras rasões especiaes, deve ter sido conhecida pelos bons architectos
e constructores, porque os houve excellentes na mais remota antiguidade.

A cupula veiu do Oriente, da Persia dizem; é natural e logico. Mas não
póde existir a menor duvida em que, pelo menos, na Roma antiga foi
conhecida. Ainda hoje na cidade eterna a podemos ver no Pantheon de
Agrippa, transformado em egreja christã, onde por signal jazem os restos
mortaes de Victor Manuel I, o unificador da Italia. O auctor d'este
livro admirou esta soberba cupula, que produz espanto pela perfeição da
construcção arrojada, tão excellente que resistiu á acção de dezenove
seculos, porque foi edificada no imperio de Augusto. Se a cupula de
Santa Sophia admira tendo o diametro de 31 metros, a do Pantheon causa
assombro porque a excede em grandeza. É toda de pedra talhada e tem 43
metros de diametro; no alto, tambem a 43 metros, offerece uma grande
abertura por onde o templo recebe a luz.

[Figura: CONSTANTINOPLA--Interior de S.^ta Sophia]

Bastaria este exemplo existente para demonstrar, aos que não ignoram o
principio da evolução da arte e da sciencia de construir, que uma
maravilha d'estas não póde constituir um producto esporadico n'uma
civilisação. Roma conhecia este systema de construcção, porque o
empregou, logo conhecia-o tambem a Grecia. É regra logica e segura.
Verdade seja que o Pantheon é um templo circular, precedido de um
simples portico de frontão classico; n'este caso, a cupula repousa toda
sobre paredes, emquanto que em Santa Sophia firma-se sobre quatro
pilares, com auxilio dos _pendentes_. Eis a caracteristica differença.

D'esta fórma especial de construcção, que provavelmente foi empregada
nos tempos mais remotos em Babylonia, na Assyria e na Persia, n'um ou
n'outro ponto preferida por condições locaes, é que não se encontraram,
até hoje, vestigios no classico romano e no hellenico. A _cupula de
pendentes_ é, pois, um dos caracteres fundamentaes do Estylo Byzantino,
herdado de estylos antiquissimos.

Entre nós existe um exemplo d'esta cobertura, na Egreja do Sagrado
Coração de Jesus, vulgarmente denominada da Estrella. A cobertura
interior do cruzeiro, quadrado de cêrca de 12 metros de lado, é uma
cupula d'este genero, sustentada por quatro arcos. A unica differença,
aliás secundaria, consiste em que a cupula repousa sobre um corpo
cylindrico, entreposto entre ella e os arcos, em cuja superficie se
abrem as janellas. Em geral, as cupulas byzantinas repousavam
directamente sobre os arcos sem interposição do tambor cylindrico;
dizemos em geral, porque nos pareceu que esta interposição, embora pouco
accentuada, se dá na egreja de S. Marcos de Veneza, sem, todavia, o
podermos affirmar com plena convicção.

A ornamentação de Santa Sophia era tambem caracteristica. A vontade
omnipotente do Imperador, secundada pelo espirito respeitoso--iamos a
escrever servil--dos funccionarios das suas vastas provincias, fez
saquear os templos pagãos do oriente, como tambem se praticára no
occidente, para enriquecer o novo templo, o emulo do antigo templo de
Salomão. A historia relata a este respeito espantosos factos de
espoliação e destruição dos antigos templos classicos de Palmyra,
Pergamo, Heliopolis, Epheso e outras cidades. Ora, as depredações n'este
caso exerceram-se nos thesouros immensos da arte hellenica e oriental;
emquanto, no occidente, o Christianismo encontrou a mais modesta arte do
classico romano. Comprehende-se, pois, a enorme differença da
ornamentação das egrejas nos primeiros estylos christãos.

Os mais ricos materiaes foram empregados com profusão. Marmores
rarissimos e finos, o porphyro, o granito e a malachite constituiam as
columnas e forravam as paredes. Por toda a parte reinava esse _luxo_
asiatico, em que a prata, o ouro e até as pedras preciosas se revesavam
com os grandes mosaicos orientaes de fundo dourado ou de azul escuro,
revestindo as cupulas e os pendentes de immensos quadros, contendo
passagens do Novo e do Antigo Testamento, scenas reaes e symbolismos
diversos, onde as figuras appareciam com desenho incorrecto, sem vida e
movimento, em grupos symetricos, expressões hieraticas de uma arte
crystallisada, que perdera as tradições do grande estylo e não estudava
a natureza.

A magnificencia dos objectos do culto attingiu proporções phantasticas
em Santa Sophia.

Como se o ouro não fosse bastante precioso, o altar era feito de uma
singular liga de ouro, prata e perolas e pedras preciosas reduzidas a
pó. As suas quatro faces, cobertas de baixos relevos byzantinos,
brilhavam rica e profusamente incrustadas de perolas e gemmas de todas
as especies.

Este altar era coberto pelo _ciborio_ em fórma de torre, cujo docel de
ouro massiço repousava sobre quatro columnas tambem de ouro e prata,
entre as quaes se viam suspensas grandes espheras de ouro com a cruz
grega. No interior do ciborio, pendente do docel e como pairando sobre o
altar, uma pomba de ouro representava o Espirito Santo. Era a custodia,
onde se guardavam as sagradas particulas. Todo este conjunto refulgia de
perolas e gemmas preciosas.

O _sanctuario_ fôra separado do corpo da egreja por uma alta divisoria
de prata, sustentada por doze columnas de ouro. Nas grandes superficies
de prata d'esta divisoria viam-se esculpidas em alto relevo figuras de
santos e lavores de caracter byzantino.

Quasi no centro da nave central, em frente do altar, um enorme _ambon_
de fórma circular, em recinto vedado, servia de côro para as dignidades
ecclesiasticas e de tribuna para a côrte imperial. Era coberto por um
docel de metaes preciosos, encimado de uma grande cruz de ouro, recamada
de granadas e perolas; este docel firmava-se sobre oito columnas de
marmore. De marmore e recamadas de ouro eram tambem as escadas de
accesso do ambon.

Nas hombreiras e nas portas do edificio havia-se prodigalisado a prata,
o marmore, o marfim e o cedro. Emfim, todos os restantes objectos do
culto, por mais secundarios que fossem, manifestavam riqueza
deslumbrante, accusando a tendencia oriental de carregar as linhas e as
fórmas estheticas com pesados ornamentos, encrustados de gemmas e metaes
preciosos.

Imagine-se, pois, o effeito deslumbrante de tudo isto: columnas e
paredes de finissimos marmores polidos, mosaicos de fundo de ouro
revestindo as abobadas das cupulas e das absides, espalhando-se pelos
pendentes e pelo corpo da egreja em grandes quadros, os altares, o ambon
e os objectos do culto divino recamados de pedrarias, as grades e
divisorias de prata, imagine-se toda esta riqueza salomonica e oriental,
rutilando á luz de 6:000 grandes lampadas de metaes preciosos ricamente
cinzelados!

Esta impressão extraordinaria, embora não comparavel, sentiu-a um dia o
auctor d'este livro ao entrar n'uma festa religiosa, em S. Marcos de
Veneza; occorrendo-lhe, n'esse momento, a bella e rigorosa phrase de
Theophilo Gautier, porque a egreja, bem mais modesta em tudo do que o
foi a de Santa Sophia, tinha reflexos fulvos e brilhantes, como se fosse
uma _grande caverna de ouro!_

Em rapidos traços, tal foi nos primitivos tempos a Egreja de Santa
Sophia de Constantinopla, ainda hoje rica e soberba apesar de saqueada
pelos turcos de Mahomet II, se não pelo proprio Mahomet; egreja,
transformada em mesquita, que os dignos descendentes dos conquistadores
cobriram de estuques com arabescos orientaes e versiculos do Alcorão!

D'esta simples e modesta noticia deprehendem-se os caracteres, ou melhor
as feições do Estylo Byzantino; devemos, porém, entrar ainda n'este
ponto em alguns pormenores.

A fórma das egrejas byzantinas offerecia differentes disposições. Démos
a de Santa Sophia, falaremos ainda de outras. Em S. Vital de Ravenna,
edificio coevo de Santa Sophia, a planta offerece a figura de um
octogono regular; a grande cupula central repousa sobre oito pilares
internos, dispostos nos angulos do polygono, deixando entre si e as
paredes da egreja uma nave octogonal. A cruz grega desenha-se nos eixos
principaes dos dois corpos da egreja, o que termina na abside e o que ao
meio lhe fica perpendicular. É claro que n'este caso os pendentes são
pequenos e sel-o-iam successivamente, quanto mais numerosos fossem os
lados do polygono.

Na antiga egreja dos Santos Apostolos em Constantinopla, a nave
principal, tendo em comprimento o triplo da largura, é cortada ao meio
por um transepto perpendicular das mesmas dimensões. Nove cupulas de
pendentes eguaes cobrem esta superficie, representando uma verdadeira
cruz grega. S. Marcos de Veneza é uma imitação d'esta egreja. Sem
multiplicarmos os exemplos, poderemos estabelecer como tendencia geral a
maior ou menor approximação da cruz de braços eguaes, a do estylo grego.

No conjunto os edificios, em geral, manifestam-se pesados, austeros e
simples, pelo menos nos tempos primitivos. A cupula principal eleva-se e
predomina sobre as menores e mais baixas, se estas existem, sobresaíndo
na tendencia horisontal das outras coberturas. A construcção respira
estabilidade e solidez. As janelas são pequenas, segundo o uso oriental,
muito numerosas, de volta inteira como as portas, offerecendo ás vezes a
fórma de ferradura tão usada no Estylo Arabe, que afinal teve tambem
muitas das origens do byzantino no mundo oriental.

O interior respira a riqueza, que manifestou em grande escala a egreja
de Santa Sophia. A ornamentação é caracteristica; mas, na realidade, são
as _cupulas de pendentes_, os _mosaicos_ orientaes, as _arcadas sobre
columnas_, os _capiteis_, e os _arcos geminados_, que melhor definem o
Estylo Byzantino, alem de outros que já descrevemos e vamos enumerar.
Observaremos que um grande numero d'estes elementos, não todos, serão
empregados depois nos Estylos Romanico e Ogival.

Os mosaicos, de fundo de ouro ou de azul muito vivo, representam em
grandes quadros, principalmente nas cupulas, nos pendentes e nas
abobadas das absides, motivos sagrados ou profanos em que entram
poderosos senhores, como nos de Ravenna. A arte é, porém, hierarchica,
secca e fria. Em geral, o desenho manifesta singulares intenções de
symetria. As personagens não têem vida e movimento; parecem, se nos
consentem a expressão, multidões de manequins, dispostos em maus quadros
scenicos. Este espirito byzantino da arte influiu, de certo, nos
pintores e nos esculptores occidentaes, nos periodos romanico e ogival.

A ornamentação profusa inspira-se nas artes do Oriente, offerecendo
fórmas curiosas e originaes. Os capiteis, por exemplo, são de extrema
diversidade. Massiços e pesados, quasi todos, variam de contornos:
cubicos, arredondados na base, em pyramides truncadas de arestas
salientes, ás vezes dois sobrepostos, como succede na egreja de Ravenna.
A sua ornamentação manifesta, tambem, caracteres diversos, em que
predominam perolas, galões entretecidos, rendilhados de folhas
phantasticas, graciosos lavores abertos que parecem ornados de
pedrarias. Ás vezes, aves e animaes de singulares aspectos, vasos e
cestos, completam esta profusa ornamentação, em que foram abandonados e
esquecidos o gosto e as proporções classicas.

No Estylo Byzantino, a esculptura, bem como a pintura, apresentam-se
decadentes, padecem quasi de eguaes defeitos. A pedra é trabalhada sem
os córtes largos e profundos, que procuram o relevo pelas sombras e
saliencias dos planos e dos ornamentos. Os artistas byzantinos lavravam
frouxamente a pedra. Parecia empregarem mais o buril do que o escopro;
foram mais gravadores de metaes do que esculptores de pedra.

É evidente que todos estes caracteres byzantinos tiveram profunda
influencia sobre os dos Estylo Romanico e Ogival, onde muitos apparecem,
mas já tratados com outro vigor e largueza.

Assim, pensamos ter dado successiva idéa do Estylo Byzantino, que o
calor do Christianismo fez brotar vigoroso e esplendido do fertil solo
da arte hellenica e oriental.




CAPITULO TERCEIRO

ACÇÃO RECIPROCA DOS DOIS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS


Assim, o espirito do Christianismo, reanimando as energias quasi
moribundas da arte grega e oriental, e da romana, creára dois formosos
estylos; correspondendo, na realidade, a expressões definidas do bello
nas duas maiores civilisações, em que então se dividia a Humanidade.

O Estylo Latino nascera primeiro, começando a constituir-se logo após a
saída do Christianismo das Catacumbas. Abandonando a Italia, Constantino
levou-o comsigo e implantou-o na sua nova capital, Constantinopla, que
teve, pois, como o occidente, as suas basilicas, entre as mais
importantes a dos Santos Apostolos, a de Santa Irene e a primitiva de
Santa Sophia, que Justiniano dois seculos depois transformou no grande
templo byzantino, descripto no capitulo anterior.

No periodo de formação do Imperio do Oriente, isto é, desde Constantino
até Theodosio, o Estylo Latino desenvolveu-se com maior ou menor
intensidade, salvo n'essa breve tentativa reaccionaria do polytheismo
vencido, que se encarnou no imperador Juliano.

O Estylo Latino não tinha, porém, as qualidades exigidas pelo _meio_
grego e oriental, nem as basilicas classicas, de que elle derivava, eram
muito vulgares no oriente, se algumas importantes existiam. O proprio
clima não aconselhava coberturas de madeira, que o doce e temperado
clima da Italia e a tradição conservaram no primitivo estylo. Como as
plantas exoticas teem, em regra, vida artificial e difficil, o Estylo
Latino, nascido no occidente, não encontrando no oriente condições
favoraveis, estiolou-se a pouco e pouco e por fim desappareceu sob a
influencia de elementos architectonicos mais poderosos, porque eram
harmonicos com o _meio_ natural e social, para onde o Estylo Latino fôra
transplantado.

Todavia, o novo Estylo Byzantino, que ia formar-se em harmonia com esse
_meio_ natural e social, não podia repudiar os elementos architectonicos
fundamentaes do Estylo-Latino vencido, que não eram antinomicos com os
seus e correspondiam, alem d'isso, a qualidades e exigencias do espirito
christão, que, sendo origem commum de ambos, imprimira á Arte novas
feições em situações differentes.

De facto, não é difficil observar que o Estylo Byzantino, apesar da sua
originalidade, se apropriou de alguns caracteres fundamentaes do Latino;
muito embora, como em breve diremos, a fusão d'estes estylos se devesse
realisar mais tarde sob a acção do elemento barbaro, que não podia
deixar de manifestar profunda influencia sobre a architectura christã,
visto que a teve decisiva e innegavel na constituição das sociedades
medievaes.

Uma observação interessante na formação do Estylo Byzantino consiste em
que a sua maior obra, nunca depois excedida nem até egualada, Santa
Sophia de Constantinopla, parece ter apparecido como um facto esporadico
e uma creação inspirada dos architectos gregos; a verdade é, porém, que
o Estylo Byzantino não fugiu á lei de todas as producções humanas, tendo
uma formação lenta e evolutiva. Existem e existiram edificios, que
constituem verdadeiros marcos milliarios d'esta evolução. O genio dos
constructores de Santa Sophia, apenas a precipitou, dando-lhe a
apparencia de uma verdadeira revolução nos estylos architectonicos.

É logico suppôr que o periodo de verdadeira constituição do Estylo
Byzantino deve ter começado quando Constantinopla foi declarada capital
do Imperio. O desenvolvimento de uma nova phase da arte exige sempre
elementos de actividade social e de riqueza, que só poderam reunir-se
quando a administração geral do Imperio concentrou no oriente todas as
forças creadoras, com grave sacrificio do mundo occidental.

Nos principios do seculo VI, o estylo achava-se constituido, offerecendo
a sua mais perfeita expressão no templo de Justiniano.

O apparecimento, relativamente rapido, d'esta obra de arte tão perfeita
e rica do Estylo Byzantino tinha de exercer forçosamente profunda
influencia sobre a arte occidental. Não só as egrejas e as construcções
byzantinas começaram logo a elevar-se nos antigos dominios do Estylo
Latino e a invadir a Italia, na parte que então constituia um Exarchado
do Imperio do Oriente, mas foi rapida a dispersão d'este novo estylo,
principalmente no sul da Europa.

Muitas causas especiaes do tempo facilitaram esta dispersão, que reinou
na Italia, no sul da França e chegou até á Allemanha, as duas nações que
mais tarde deviam cobrir-se de monumentos romanicos e ogivaes. As
relações de todas as ordens, entre o occidente e o oriente, eram activas
n'esses seculos. Commerciaes havia-as constantes, porque as grandes
caravanas, que iam ao Extremo Oriente permutar mercadorias, atravessavam
a extensa zona, onde florescia o Estylo Byzantino, tendo um dos seus
grandes _caravansarás_ em Constantinopla.

Além d'isso, o espirito religioso activava o movimento dos peregrinos
occidentaes para os logares santos na Palestina, onde florescia o Estylo
Byzantino, até no proprio templo do Santo Sepulchro de Jerusalem, que
serviu depois de exemplar a tantos outros. As descripções, sempre um
pouco imaginosas dos viajantes, adornavam o novo estylo de
magnificencias e maravilhas, que segundo vimos eram bem merecidas.

Estas causas, só por si explicam a influencia da ornamentação oriental
sobre a arte do occidente; a acção, porém, tinha de ser mais completa.
Assim, ainda durante a existencia do Imperio ostrogodo de Theodorico, no
curto reinado de sua filha Amalasonte, o Estylo Byzantino começou a
invadir a Italia. A Egreja de S. Vital de Ravenna, capital do reino
godo, foi erecta em 534, epocha em que duravam os trabalhos de Santa
Sophia. A Cathedral de Parenzo, cidade maritima da costa oriental do
Adriatico, seguiu-se-lhe em 540. Como era natural, a invasão fez-se
primeiro pelas grandes cidades litoraes d'este mar, em constantes
relações com o mundo oriental.

O facto historico culminante, que facilitou a dispersão do Estylo
Byzantino, foi todavia a constituição do Exarchado em Italia. Por morte
de Theodorico, sua filha Amalasonte assumiu a regencia em nome do filho
Athalarico. Esta princeza herdára algumas das grandes qualidades de seu
pae e entre ellas accentuadas tendencias para a civilisação classica,
então representada pelo Imperio Byzantino. A morte do herdeiro da corôa
entregou-lhe a herança paterna, que a nova imperatriz partilhou com
Theodato, seu primo, transigindo assim com a surda irritação dos
guerreiros ostrogodos. O assassinio da princeza foi o resultado da
transigencia. Então, a desordem e a dissolução apoderaram-se dos estados
de Theodorico.

Justiniano aproveitou o ensejo, pensando em restaurar o antigo Imperio
de Constantino. Belisario conquistou o sul da Italia e avançou até
Ravenna, que por momentos pertenceu á corôa do oriente. As constantes
intrigas da côrte byzantina sacrificaram em parte a obra do heroico
general de Justiniano, que então incumbiu o persa Narsés de recomeçar a
conquista. O famoso eunucho, valido do imperador, em victoriosas
companhas contra os godos conseguiu vencel-os, constituindo o ducado de
Italia, reduzida a provincia do Imperio Byzantino.

A morte de Justiniano levou ao throno Justino II, espirito fraco,
dominado pela imperatriz Sophia, que odiava o heroico eunucho Narsés. Na
côrte de Constantinopla ferveram, pois, as intrigas ambiciosas contra o
duque de Italia, a quem a propria imperatriz não poupava desgostos e
motejos, não se atrevendo a atacar de face o poderoso exarcha e habil
administrador. Uma phrase sangrenta fez trasbordar a vingança de Narsés.
Dissera a imperatriz, referindo-se ironicamente ás desgraçadas
qualidades physicas do duque de Italia, que _elle era um homem digno de
fazer parte de um grupo de fiandeiras_. A resposta do eunucho não se fez
esperar. Sentindo a morte proxima, Narsés, incitou entre os lombardos,
poderosa e guerreira nação germanica que habitava a Pannonia, a idéa da
conquista da Italia. Assim, elles, em 568 atravessando os Alpes,
precipitaram-se sobre a peninsula, conquistando em poucos annos parte
importante da região septentrional, que ainda hoje conserva o nome de
Lombardia.

O Imperio Byzantino, privado de grandes generaes e profundamente
corroido por vicios e intrigas, conseguiu apenas detel-os na marcha para
o sul; ficando a Italia dividida entre duas poderosas influencias: ao
norte, o reino lombardo; ao sul, as provincias do Exarchado de Ravenna,
que durou até meiados do seculo VIII, em que foi, emfim, destruido e
englobado no novo reino germanico. Assim, durante dois seculos, a
civilisação e a arte byzantinas estiveram em contacto directo e intimo
com uma das mais intelligentes nações barbaras, das que invadiram o solo
da peninsula italica.

As relações entre os Chefes dos Estados tambem eram frequentes. O
Imperio do Oriente tinha para os reis semi-barbaros singular prestigio,
pelas tradições como legitimo representante do grande poderio romano,
que aliás os seus antecessores haviam destruido, pela civilisação
relativa e, emfim, pelas immensas riquezas e pelo luxo asiatico da côrte
byzantina. As tradições gloriosas e as riquezas foram e hão de ser em
todos os tempos motivos de admiração, de respeito e até de culto para os
espiritos inferiores. Assim, muitos chefes barbaros solicitavam a
nomeação de _patricios romanos_, ou acceitavam-n'a como grande honra;
com effeito, foram _patricios_ Theodorico, rei da Italia, e Clovis, rei
de França. Estas relações diplomaticas do tempo não deviam contribuir
pouco para a propagação da influencia da arte byzantina, nas nações
occidentaes da Europa.

O movimento logico do ardente mysticismo christão facilitou, ainda, esta
propagação em grande escala. Desde os primeiros tempos do Christianismo
os seus mais ferventes e menos ignorantes proselytos deviam considerar a
representação material das idéas sagradas, de Deus principalmente, quasi
uma verdadeira profanação. Era a consequencia logica de doutrinas muito
espiritualistas na essencia.

Assim acontecera, tambem, que os chefes do povo hebreu, Moysés entre
outros, haviam mais de uma vez destruido os idolos, deante dos quaes se
prostrava o povo. O Mosaismo e o Islamismo, duas religiões de forte
essencia espiritual, não admittiram nunca a representação material da
divindade. No rigor da logica o Christianismo devia chegar, e chegou de
facto, a identicas conclusões.

D'aqui proveiu a famosa seita dos _Iconoclastas_, no fim do seculo V já
tão poderosa que teve por chefe ou adepto, pelo menos, o Imperador
Zenon. Estes _destruidores de imagens_, que as perseguiam com o terrivel
furor religioso, atravessaram quasi quatro seculos no Oriente, chegando
a invadir a propria Italia. No seculo VIII estes verdadeiros barbaros
eram poderosos. Condemnados por Concilios regulares, embora protegidos
por alguns imperadores, vieram só a extinguir-se no seculo IX. N'este
periodo extenso as artes byzantinas, pelo menos a esculptura e a
pintura, soffreram rudes perseguições nas suas obras, o que promoveu um
exodo dos respectivos artistas para o occidente, onde a seita foi sempre
menos poderosa e nociva.

Emfim, as Cruzadas no fim do seculo XI levaram para o Oriente centenas
de milhares de homens de relativa instrucção, que conhecendo apenas a
modesta arte occidental, se extasiavam deante dos primores e da
magnificencia, que iam encontrando no seu caminho, desde Constantinopla
até á Palestina.

Foram todas estas causas, que em varias epochas facilitaram a dispersão
da arte byzantina no occidente. Assim, o Estylo Byzantino logo no seculo
VI começou a espalhar-se na parte septentrional da Italia, alargando-se
depois successivamente pela Lombardia.

A influencia da ornamentação byzantina em mosaicos, pinturas e
esculpturas, que já anteriormente se manifestára sobre o Estylo Latino e
que os artistas, emigrados do oriente pelas perseguições dos
iconoclastas, haviam accentuado, achou-se agora fortalecida pelos
proprios edificios, cujos fundamentaes elementos architectonicos eram
bem superiores em majestade, grandeza e duração aos correspondentes no
primitivo estylo christão, nascido no occidente.

Apesar das qualidades do seu emulo, o Estylo Latino occidental offereceu
resistencia, e não foi tão facilmente vencido como no oriente. Na Italia
fôra creado e se espalhára com profusão, correspondia ao _meio_ natural
e social; era, emfim, o producto do genio classico romano e o
representante de antigas tradições.

Foi sempre singular a resistencia tenaz d'esse antigo espirito classico
romano, que por longos seculos viveu sobre o solo da Italia, sem duvida
conservado pela hereditariedade do sangue e pelas tradições vivas dos
antigos monumentos. Assim, o Estylo Romanico não penetrou facilmente no
sul de Italia e o Ogival, cuja expansão foi enorme por toda a parte, se
a invadiu, teve de transigir e amoldar-se ás circumstancias. Entrou na
Lombardia, elevando um dos melhores edificios em Milão; mas, a partir de
Florença, onde na opinião dos proprios italianos começa a verdadeira
Italia, o ogival tomou caracteres muito especiaes e transigiu com o
espirito classico.

O auctor d'este livro teve ensejo de apreciar bem este facto, quando
percorreu aquelle paiz. Alem d'isso, o movimento artistico da Renascença
terminado no seculo XVI, que representa um verdadeiro retrocesso ás
origens, isto é, ás idéas e aos estylos classicos, foi preparado e
realisado em Italia, exclusivamente por elementos italianos, quer fossem
escriptores, quer amadores ou artistas.

Assim, a grande vitalidade do espirito classico no solo da Italia foi
origem de muitos factos importantes na Historia da Arte, sendo, segundo
julgamos, tambem a causa da tenaz resistencia do Estylo Latino em face
do poderoso invasor oriental.

Emquanto o Estylo Byzantino realisava a invasão da Italia, durante o
seculo VI, elevando as suas construcções ao lado das latinas, as leis
historicas preparavam as bases das futuras constituições sociaes. O
seculo V fôra o periodo das invasões na Italia, nas Gallias e na Iberia.
Na Italia, que mais nos interessa porque foi no occidente o fóco da
arte, viu-se passarem os visigodos de Alarico, os suévos de Rodagués, os
hunos de Atila e os herulos de Odoacro, como rudes e barbaros
conquistadores; mas as conquistas succediam-se, deixando ruinas e
miserias, sem crearem organisações sociaes estaveis. Como verdadeiras
ondas rebentavam no solo da peninsula, espraiando-se em grandes côrsos,
que tão rapidamente quasi se retiravam, como se haviam formado. Apenas,
os herulos de Odoacro, revoltados contra Augustulo, o ultimo imperador
do occidente, por curtos annos formaram uma vacillante monarchia,
destruida no fim do seculo V pelos ostrogodos de Theodorico.

O proprio Imperio ostrogodo tivera ephemera duração. O genio
indiscutivel do grande chefe imprimira-lhe, segundo vimos, certa unidade
e brilhante grandeza; mas a fusão das raças não se déra. O conquistador
era intelligente e humano, um espirito liberal e justo, civilisado na
côrte de Byzancio; mas bem na essencia Theodorico ficára sempre um
conquistador, confiando mais na força das armas do que na acção lenta e
segura da catechese politica. Por isso, conservára os seus guerreiros
isolados quanto possivel da civilisação classica, constituindo uma
verdadeira casta. A morte de Theodorico foi o signal da dissolução dos
seus Estados, sendo pouco depois d'ella conquistada a Italia por
Belisario e Narsés, os habeis generaes de Justiniano.

No seculo VI começou na realidade a constituição de nacionalidades mais
fortes e duradouras. Assim, ao expirar do seculo V, organisou-se no
occidente da Europa, sob o energico governo de Clovis, convertido ao
Christianismo, a monarchia dos frankos, origem do Imperio de Carlos
Magno e da actual França; e nos meiados do seculo VI, como já vimos, a
Italia achava-se dividida em duas grandes nacionalidades, ao norte a
monarchia lombarda, ao sul as provincias byzantinas do Exarchado.

Os lombardos de Alboino eram, todavia, mais rudes do que os godos de
Theodorico; ou, pelo menos, o chefe lombardo não possuia a
malleabilidade do genio, a illustração e a grandeza de caracter do
conquistador godo. Os povos vencidos foram no principio tratados com
maior egoismo e crueldade. As exacções assumiram proporções violentas,
porque o espirito selvagem e guerreiro das hordas lombardas não era
temperado pelo caracter superior e prestigioso de Alboino.

A estabilidade relativa da conquista lombarda, que durou desde 568 até
774, anno em que foi destruida por Carlos Magno, e sem duvida as
qualidades intellectuaes dos novos invasores permittiram a lenta fusão
da raça vencida e da vencedora. Os riquissimos terrenos da Lombardia
foram de novo arroteados pelos fortes e energicos homens do norte. A
abjuração do arianismo pelos vencedores, que abraçaram o Christianismo
orthodoxo dos vencidos, facilitou as relações sociaes. A combinação dos
sangues creou a pouco e pouco novas gerações, em que se casaram as
qualidades animicas e ethnicas dos vencedores e dos vencidos, recebendo
de uns o espirito da liberdade e o valor guerreiro, que haviam perdido
os romanos da decadencia, de outros a cultura intellectual e moral, que
não podiam possuir os barbaros do norte, por melhores que fossem as suas
tendencias e disposições. A fusão das raças produziu, assim, uma
sociedade mais ou menos homogenea, fundada na unidade da religião e na
constituição de uma lingua commum, primeiro esboço das futuras
sociedades, que deviam resultar da alliança dos tres espiritos
creadores, o christão, o classico e o barbaro. A ordem e a sciencia, o
commercio e a industria começaram, pois, a reflorir na Lombardia, apesar
das continuas guerras que os seus habitantes sustentavam, principalmente
com o Exarchado, por elles emfim destruido em meiados do seculo VIII.

N'este cadinho, se nos consentem a expressão, a arte oriental e a
occidental em contacto não podiam deixar de produzir uma liga especial,
sob o calor de novas idéas e sentimentos, nascidos do rejuvenescimento
de uma importante fracção da Humanidade.

A origem do Estylo Romanico deve ser attribuida a estes factos
historicos, embora n'outros pontos e n'outros seculos se dessem
circumstancias similhantes, que facilitaram tambem a evolução e a
dispersão d'este estylo. Assim, é certo que a constituição da monarchia
franka se deve considerar no occidente o resultado equivalente da acção
das leis historicas, e sabe-se que durante a dynastia merovingiana,
depois da conversão de Clovis, se elevaram muitas construcções; mas os
lombardos encontraram-se na posição singular e favoravel de contacto com
a arte byzantina, cujos edificios e producções se elevavam nos seus
proprios Estados. Esta situação especial envolve logicamente mais
directa e proficua influencia na formação de novas physionomias da arte.

Alem d'isso, os lombardos manifestaram-se sempre bons architectos e
excellentes constructores, quer o fossem por disposições proprias de
raça ou herança do sangue romano, quer o exemplo das construcções
existentes lhes desenvolvessem e aperfeiçoassem estas qualidades. Assim,
quando a monarchia lombarda foi destruida por Carlos Magno e reduzida a
provincia do Imperio, os artistas lombardos espalharam-se pelos
restantes Estados imperiaes, sendo considerados bons architectos e
habeis constructores. Ainda hoje a expressão Estylo Lombardo, applicada
a uma feição do romanico, attesta a grande influencia d'estes artistas
n'este periodo da evolução da arte.

Difficil será, sem duvida, tentar a fixação de datas, embora seculares,
para os factos da genese do Estylo Romanico primario. N'estes remotos
seculos por completo fallecem os documentos e os melhores, os proprios
monumentos coévos, em grande parte desappareceram pela acção de longa
antiguidade e de muitas e profundas catastrophes, offerecendo os que
existem duvidosa classificação. É indiscutivel, todavia, que esse
periodo de transição existiu, porque entre o Estylo Latino primitivo e o
Romanico secundario, constituido no seculo XI, as differenças
manifestam-se tão radicaes que só as pôde explicar uma longa evolução.

O Estylo Byzantino, em verdade, approxima-se mais do Romanico secundario
em certos caracteres fundamentaes; mas ainda entre elles as respectivas
physionomias manifestam-se tão distinctas, que envolvem um longo periodo
intermedio de elaboração. Como as transformações biologicas e ethnicas
das raças animaes exigem gerações successivas e numerosas de verdadeiros
typos intermediarios, assim, entre os estylos christãos primitivos e o
Estylo Romanico secundario é logica e necessaria a existencia de um
periodo de transição.

Alem d'isso, a comparação dos caracteres architectonicos demonstra que o
Estylo Romanico secundario comprehende os de ambos os seus antecessores,
constituindo não uma simples mistura de elementos diversos, mas em
verdade uma sabia e harmonica combinação, que fixou uma feição especial
da arte.[1]

Assim, o Estylo Romanico recebeu do Latino as disposições geraes das
fachadas e os narthexs, a fórma interior das egrejas nas naves, nos
transeptos e nas absides, os triforios, as cryptas, os altares, os
ciborios, as tribunas e outras disposições particulares archictetonicas
e ornamentaes; e do Byzantino as abobadas e as cupulas, os pilares
massiços e as grossas columnas, os pesados e variados capiteis, as
arcadas de volta inteira, os arcos geminados e sobretudo a variedade e
riqueza da ornamentação.

Quando começou a manifestar-se essa transformação, que constitue o
periodo do Estylo Latino de transição, ou o Estylo Romanico primario?

Em geral, as maiores creações do espirito humano, coincidem com os
grandes movimentos historicos. O marasmo politico suffoca a actividade
intellectual e entibia a energia da alma; escravisa e annulla o
pensamento, estancando-lhe as forças creadoras; substitue os grandes
ideaes pelos pequenos interesses, as nobres ambições pelo sordido
egoismo; emfim, reduz o animal humano a um automato, que apenas _sente_
a necessidade e o prazer de uma vida de sensações faceis e vulgares.
Assim, vivem os chinezes ha milhares de annos, adormecidos dentro de uma
formula social crystallisada na sciencia, na moral e na arte.

A constituição do extenso e poderoso Imperio franko de Carlos Magno, em
meiados do seculo VIII, principalmente depois da conquista do Reino
Lombardo, póde considerar-se o inicio provavel do Estylo Romanico
primario. Este grande facto politico, um dos maiores da Historia, deu,
como é sabido, profundo impulso á civilisação, e sob o aspecto da arte
disseminou-a pelas vastas provincias de um vasto Imperio, habil e
energicamente governado por um dos maiores espiritos, com que até hoje
se inflorou a Humanidade.

Foi então que os architectos e constructores lombardos, espalhando-se no
occidente e no centro da Europa, encontraram, sem duvida, excellente
atmosphera para desenvolver as singulares aptidões do seu talento e a
profunda sciencia de longa pratica, creando novos elementos e novas
combinações architectonicas, que prepararam o Estylo Romanico
secundario, a phase pura e perfeita d'este estylo.

Esta revolução na esthetica nasceu indiscutivelmente da acção de um novo
espirito creador, sem a influencia do qual a arte no occidente teria
crystallisado, permanecendo quasi invariavel por longos seculos, como
succedeu no oriente ao Estylo Byzantino, que apenas gerou o Estylo
Russo, cuja physionomia actual conserva ainda accentuados e
caracteristicos os traços, embora orientalisados, do seu antecessor.
Esse espirito innovador, que modificou a politica e a moral das antigas
sociedades, esse forte e benefico movimento, que agitou e saneou o
pantano do mundo classico, esse espirito revolucionario, que das
montanhas da philosophia, da sciencia e da arte classicas fez brotar
poderosos mananciaes de novas idéas e de novas fórmas, foi o elemento
barbaro.

A sua grande qualidade, o amor pela liberdade do pensamento, foi o
sangue forte e generoso, que veiu dar calor e vida á cançada e anemica
compleição classica. Na arte o seu trabalho de regeneração, atravessando
as phases do periodo romanico, devia produzir a definitiva e magnifica
concepção do mais perfeito estylo religioso conhecido, o Estylo Ogival.




PARTE TERCEIRA

OS ESTYLOS CHRISTÃOS DEFINITIVOS

XI SECULO AO XV SECULO




CAPITULO PRIMEIRO

SYNTHESE SOCIAL DOS SECULOS XI E XII


Quando no anno de 814 da era de Christo morreu Carlos Magno, o seu vasto
Imperio, abrangendo a França, a Allemanha, parte da Austro-Hungria, a
Hespanha até ao Ebro e a Italia quasi toda até ao Volturno, entrou em
dissolução, tendo o destino fatal de todas as tentativas de restauração
do antigo poder romano.

A unidade apparente, que reinava entre raças e nações differentes,
proviera do prestigio pessoal de Carlos Magno, do seu talento
administrativo, da bondade do seu caracter, em summa da elevação
intellectual e moral de um homem, que imprimiu ao movimento do espirito
humano, tão abatido n'aquelles tempos, um vigoroso impulso, afrouxado
nos seculos seguintes, mas, ainda assim, não perdido para a Humanidade.

As antigas e inuteis discussões byzantinas tomaram, com effeito, novo
caracter especial, constituindo a philosophia da Edade-Media, a
Escholastica, que na realidade nasceu nas academias e nas escolas,
creadas por Carlos Magno. Este movimento intellectual é
interessantissimo, principalmente nas duas primitivas phases: a primeira
sob a influencia do idealismo de Platão, subordinando a philosophia,
isto é, a sciencia, á theologia; a segunda, sob a acção do realismo de
Aristoteles, durante a qual a sciencia e a theologia caminham a par.

O seculo XIII, como veremos, foi o da lucta mais activa entre
_realistas_ e _nominalistas_, entre as influencias de Aristoteles e de
Platão, lucta formidavel, nem sempre incruenta porque teve perseguidoras
e martyres, sendo uma das origens da reforma religiosa do seculo XVI e
do movimento philosophico e positivo das sciencias nos seculos
seguintes.

O Imperio de Carlos Magno constituiu, pois, um periodo curto e brilhante
depois d'esse espaço obscuro e terrivel das invasões, em que tantos
povos de origem differente se precipitaram sobre o esqueleto do antigo
mundo romano.

Sob a acção poderosa de Carlos Magno, a unidade administrativa do
Imperio podia considerar-se completa. Os delegados do poder central,
duques, condes, vigarios e outros funccionarios, governavam os diversos
Estados, quasi reduzidos a provincias, em nome do imperador, em quem
residia o poder supremo indiscutivel e respeitado. Já no tempo de Carlos
Magno, comtudo, o espirito de rebellião lavrava entre estes
funccionarios, cujo caracter germanico, guerreiro e independente, altivo
e ambicioso do poder, os levava a pensar na hereditariedade dos cargos e
na permanencia das funcções. O prestigio pessoal do imperador
contrariára-lhes os designios, que tomaram vulto e animo depois da sua
morte. Estas tendencias definem a origem e são a causa da organisação do
_feudalismo_, constituido no seculo XIII, em que tambem se manifesta o
primeiro periodo do Estylo Ogival.

Os filhos e netos de Carlos Magno não lhe haviam herdado nem o prestigio
nem as qualidades pessoal. Tibios e ambiciosos, em continuas guerras,
enfraqueciam-se mutuamente, deixando engrossar a idéa de independencia,
que sempre germinára entre os delegados imperiaes. Assim, o fraco
Carlos-o-Calvo, rei de França, reconheceu aos senhores, que o eram já de
facto, o direito da hereditariedade e certa independencia, na
_Capitularia_ de 877, anno da sua morte, que define historicamente o
começo do feudalismo.

Ao mesmo tempo, nas classes sociaes inferiores, constituidas
principalmente pelos vencidos e pelos pobres e trabalhadores, lavrava
tambem o espirito da liberdade, animado pelo Christianismo e pelas
tradições das antigas instituições romanas. A Republica excitára sempre
a vida local. O Imperio, depois, restringira-a successivamente;
conservando-lhe, apenas, as funcções indispensaveis para facilitar o
exercicio do poder central. Esta acção, a decadencia dos costumes dos
cidadãos dos ultimos tempos e as responsabilidades fiscaes dos
municipios romanos, fizeram decaír as _curias_ da sua primitiva
grandeza.

É sabido que nos ultimos tempos do Imperio as funcções municipaes,
consideradas de perigo e onerosas, não eram disputadas, como outr'ora;
para obter os _curiales_, os imperadores viram-se forçados a obrigar os
cidadãos a desempenharem estes cargos, com penas e multas
correspondentes. O espirito communal, todavia, não se extinguira de todo
nem com a depravação dos costumes romanos, nem com a conquista dos
barbaros. No sul da França, por exemplo, mais livre das invasões, os
antigos municipios romanos haviam-se conservado com maior ou menor
pureza.

Além d'isso, a tradição d'estas instituições locaes mantinha-se, e os
seus principios existiam vivos, com o brilho das legislações theoricas,
no antigo direito romano. É muito provavel, tambem, que o espirito de
fraternidade e de solidariedade de certas classes romanas, como as dos
artifices e dos operarios, tivesse atravessado o longo collapso do V ao
X seculo. Pelo menos parece serem d'isto exemplo as associações
_franco-maçonicas constructoras_, que tanta influencia tiveram na arte
ogival e, a nosso ver, se não se filiam nas similares romanas, pelo
menos derivam d'ellas, como exporemos a seu tempo, n'outro ponto d'este
livro.

Seja como for, julgamos que os dois principios, o _feudalismo_, nascido
do espirito barbaro, e o movimento das _communas_, insufflado pelo
espirito christão, sem duvida os agentes principaes da civilisação dos
seculos XI ao XV, manifestaram as primeiras tentativas de evolução entre
o Imperio de Carlos Magno e os começos do seculo XI, no qual na
realidade começa a _Renascença,_ que se operou durante um longo periodo,
com relampagos admiraveis nos seculos XIII e XVI, sobretudo sob o
aspecto da arte.

De facto, a Edade-Media parece dividida em dois periodos distinctos: o
primeiro do seculo V ao seculo X, o das terriveis luctas entre os tres
principios, o classico, o christão e o barbaro; o segundo periodo do
seculo XI ao seculo XV, o da lenta combinação e fusão d'estes
principios. No seculo V, a luz já quasi crepuscular do grandioso mundo
classico perde-se na noute, longa e tempestuosa noute d'alguns seculos.
A pallida aurora do mundo moderno começa a despontar a partir do seculo
XI.

Estes dois periodos são definidos por um facto historico interessante e
de alguma importancia. O espirito mystico do Christianismo e as
profundas miserias, soffridas pelo mundo romano logo após a victoria
d'esta religião, geraram a lenda do _millenio_ periodo de mil annos
durante o qual a humanidade dos vivos e os martyres e adeptos do
Christianismo resuscitados gosariam, sob o proprio reinado de Jesus
Christo, todas as felicidades e os maiores bens sobre a terra. O
principio d'estes seculos de Justiça implicava logicamente o fim de um
mundo cheio de dores e flagellos, que assim foi prefixado para o ultimo
dia do seculo X.

A superstição teve sempre grande presa sobre os espiritos ignorantes e
fracos; julgue-se, pois, da influencia na Edade-Media d'esta prophecia,
fundada em textos sagrados, tendo uma longa tradição e admittida por
homens superiores, até por alguns papas. Nos fins do seculo X, a
approximação d'este dia tremendo amortecera todas as expansões da
actividade humana. Para que servia, com effeito, trabalhar, produzir,
construir, fazer esforços, quando estava prestes o fim d'este mundo e o
principio d'aquelle em que todos seriam eguaes e felizes, reinando sobre
a terra a justiça e a felicidade sob o sceptro do proprio Christo?!

Por isso, a historia descreve o collapso profundo e crescente, que se
apoderou do mundo christão, quando se avisinhava esse dia de Juizo, tão
admiravelmente traduzido pelo desconhecido poeta medieval de um dos mais
bellos canticos da egreja:


Dies irae, dies ille
Solvent seculum in faville.


N'esse dia um panico profundo envolveu todos os espiritos. As egrejas
encheram-se de fieis, que esperavam a catastrophe entre prantos e rezas;
ora, por uma doce ironia da natureza, a aurora do primeiro dia do seculo
XI raiou esplendida.

Para apreciar bem a importancia d'este facto, que hoje parece pueril, é
preciso transportarmo-nos aos primitivos tempos da Edade-Media,
avaliarmos a ignorancia extrema de todas as classes sociaes, com
rarissimas excepções e essas escondidas principalmente nos conventos;
apreciarmos, emfim, o espirito publico n'um tempo em que primava a idéa
religiosa, não tendo outros competidores.

A passagem do perigo imminente alliviou a alma humana, dando-lhe
expansão ás faculdades creadoras e activando-lhe o exercicio do
trabalho. Assim, o segundo periodo da Edade-Media é bem differente do
primeiro.

No seculo XI, a sociedade christã entrou n'uma evolução accentuada. O
feudalismo achava-se quasi constituido. Esta nova organisação social
espalhou-se pela superficie do antigo imperio de Carlos Magno. A terra,
toda dividida em _feudos_, pertencia aos suzeranos; mas os _senhores_
tinham n'esses feudos quasi absolutos direitos de soberania, absorvidos
a pouco e pouco aos reis, agora confinados em pequenos Estados
propriamente seus.

Em compensação, estes suzeranos recebiam dos feudatarios o respeito
pessoal e a defeza da sua honra, auxilios prefixados em homens equipados
a cargo dos mesmos feudatarios em caso de guerra e, emfim, rendas
pecuniarias, ou certos impostos cobrados por conta do suzerano, que ás
vezes tambem conservava o direito de justiça, funcção em geral
independente dos senhores feudatarios. Esta organisação politica era, na
realidade, uma federação de pequenos Estados, tendo um soberano ou
imperador mais ou menos nominal.

O direito reconhecido aos senhores feudaes de crearem dentro dos seus
Estados novos feudos, disseminava as baronias e originava uma hierarchia
de suzeranos secundarios, seculares e ecclesiasticos. Os grandes
dignitarios da egreja, os bispos, eram senhores feudaes na sua diocese e
suzeranos nos seus Estados. As grandes doações, feitas á egreja, haviam
multiplicado o numero dos senhores feudaes ecclesiasticos, que chegaram
a possuir em França e Inglaterra o quinto das terras, e o terço na
Allemanha.

N'esta organisação autonoma e guerreira sente-se claramente o espirito
dos barbaros, que seculos antes haviam destruido o Imperio Romano. As
violencias e as luctas intestinas entre estes senhores eram constantes e
traduziam-lhes o caracter audacioso e cupido; o amor pelas aventuras e o
desejo ardente do poder arremessavam-n'os uns sobre os outros,
impondo-se reciprocamente pelo direito da força n'uma sociedade, onde
eram mal reconhecidos pelos fortes e poderosos os principios do direito
e os dictames da justiça. Assim, a egreja, em nome da religião, unica
influencia energica sobre aquellas almas de bronze em corpos vestidos de
ferro, procurou intervir, definindo com modestos resultados a _trégua de
Deus_, a prohibição da lucta em certos dias da semana.

Estas poderosas unidades guerreiras repousavam, como era logico, sobre a
servidão das classes civis, principalmente das mais numerosas e pobres.
Em verdade, o Christianismo tinha adoçado o caracter duro e barbaro da
escravidão classica. No regimen feudal, a classe dos miseraveis, os
_servos de gleba_, que em torno dos castellos agricultavam a terra e
eram herdados como fazendo parte d'ella e sendo verdadeiros instrumentos
de trabalho, tinha subido um pouco na escala da escravatura, cujos
pontos culminantes se desenham no mundo classico e depois no moderno,
quando se desenvolveu o infame trafico das raças de côr, consideradas
inferiores ás brancas. O feudalismo, repassado pela religião christã,
olhava-os como homens, sem direitos politicos e civis é certo; mas
estava longe, muito longe ainda, de os considerar, como o _antigo
regimen_, o das monarchias absolutas fundadas no Catholicismo, o fez
depois, uma multidão de miseraveis, sem garantias, sem direitos e quasi
sem familia, que os cynicos dos seculos XVII e XVIII consideraram massa
_taillable, et corvéable à merci_.

Assim, no segundo periodo da Edade-Media, pelo menos a grande maioria do
povo--digamos a palavra--gozava de certas vantagens, que provinham dos
dois espiritos em acção parallela: o germanico e o christão. A familia
offerecia uma expressão mais elevada e perfeita. Na antiguidade o
casamento era um contracto, na Edade-Media um sacramento, que ligava por
toda a vida. O Christianismo consolidára a pedra angular das sociedades
com a indissolubilidade do matrimonio. Depois, Jesus Christo
encarnára-se no seio de uma mulher, a Virgem. O espirito germanico,
acceitando estas doutrinas, trouxe a essa unidade da familia, onde o
homem se completa, os seus caracteres de hombridade e de liberdade; o
seu _ponto de honra_, emfim, que foi uma feroz creação moral do
feudalismo, adoçada pelo Christianismo.

Ainda foi o espirito germanico que implantou no mundo romano o
julgamento pelos eguaes--pelos pares--origem do moderno jury. Na
Edade-Media o imposto era admittido pelos contribuintes, o que envolvia
_prévia_ consulta, nem sempre talvez respeitada, mas em summa
reconhecida. A egreja, n'esse tempo ainda, conservava o principio
electivo romano para as altas dignidades ecclesiasticas. Estes e outros
principios temperavam um pouco a tyrannia feudal, e quasi todos elles
desappareceram no regimen despotico das monarchias absolutas e da
theocracia pontificia.

As classes civis na Edade-Media agrupavam-se nos grandes centros, onde
se mantinham as transacções e as industrias rudimentares do tempo, e nos
pequenos burgos, povoações dispersas creadas naturalmente, ou
facilitadas pelos senhores dos feudos, que davam guarida e protecção aos
fugitivos dos feudos limitrophes; além d'isso, eram formadas por essa
multidão de _servos de gleba_, que dispersos ou concentrados perto dos
castellos, constituiam os verdadeiros agricultores, como os _sudras_ da
India antiga.

O movimento communal nascera naturalmente nos grandes centros, promovido
pelas causas geraes, precedentemente apontadas. Demos n'este ponto idéa
da essencia e constituição d'este movimento, em que tiveram acção
importante os trabalhadores d'esse tempo, como teem nos tempos modernos
os operarios industriaes na formação das futuras sociedades socialistas.

A acção das associações, ou confraternidades operarias, na constituição
das communas e a influencia que exerceu uma das mais poderosas,
principalmente no periodo ogival, a dos _franco-maçons constructores_,
obrigam-nos a abrir um parenthese para nos occuparmos das suas origens e
dos seus fins. As origens provaveis estão nas associações romanas
similares, ou por filiação directa e successiva, o que aliás não
demonstra a historia no grande collapso do V ao X seculo, ou organisada
sob a acção das tradições e das leis romanas na phase activa das
construcções do primeiro e segundo periodo romanico, nos seculos XI e
XII.

Pelo primeiro ou pelo segundo processo, ou talvez por ambos, ninguem
póde deixar de reconhecer a profunda similhança entre as duas
associações: as romanas e as da Edade-Media. Já no tempo da Republica,
havia em Roma um collegio de pedreiros, cuja existencia se prolongou
durante o Imperio. Constituia uma verdadeira associação de classe no
sentido moderno da expressão, composta de architectos, pedreiros e
canteiros ligados pelos principios da confraternidade moral, mutuo
auxilio e protecção ao trabalho. O Estado reconhecera-lhe a existencia.
Possuia estatutos, propriedades, salas de reunião; era, emfim, uma
instituição legal.

No regimen interno, os associados, classificados mestres, companheiros e
aprendizes, tinham assembléas deliberantes, secretarios, fundos proprios
administrados por um thesoureiro, archivos, escolas, em summa, tudo que
caracterisa uma poderosa associação. As praticas internas, mais ou menos
secretas, empregavam symbolismos, entre os quaes figuravam as
ferramentas dos respectivos officios.

Esta vasta associação espalhava-se por todo o Imperio--ella, as suas
lojas filiaes, ou outras associações congeneres--era privilegiada pelas
leis; por exemplo, não pagava impostos. N'estas condições, abrangia uma
area tão extensa que existem d'ella noticias historicas na Gallia e na
Bretanha, onde provavelmente deu origem, com outras associações romanas,
aos primitivos _guilds_, os antecessores dos poderosos Trade-Unions da
Inglaterra moderna.

Esta simples descripção, fornecida pelos escriptores romanos, manifesta
similhanças tão singulares com os caracteres fundamentaes das grandes
associações constructoras da _franco-maçonaria_, que pela filiação
directa, o que nos parece mais plausivel, ou pela influencia da
tradição, as mesmas idéas e os mesmos interesses approximaram estas
classes de operarios, salvo as differenças provenientes da acção do
Christianismo na Edade-Media.

Dos seculos V ao X, espaço de tempo a que chamamos o primeiro periodo
medieval, as miserias, as crises sociaes e a acção mystica do
Christianismo haviam desenvolvido o espirito cenobitico e monastico,
como necessidade da segurança e do descanço do corpo, e da paz e da
liberdade do espirito. As sciencias e as artes refugiaram-se nos
primeiros conventos. Em 529, por exemplo, S. Benedicto fundou a celebre
ordem dos benedictinos, a cujas praticas religiosas foram impostas
tambem, como obrigações scientificas, a conservação da sciencia classica
e a copia dos manuscriptos. Esta ordem poderosissima, cujos trabalhos
valiosos são conhecidos, espalhou-se por todo o orbe christão,
constituindo grandes e historicas abbadias.

Em volta d'estes conventos, que logicamente comprehendiam os architectos
e os constructores dos mosteiros e dos templos, agruparam-se os
operarios, organisando as primeiras associações christãs. Ora, a
tradição e a essencia das grandes associaçães romanas deviam manter-se
no espirito e nos archivos dos mosteiros d'esse tempo. Por esta fórma se
explica a ligação, directa ou indirecta mas indiscutivel, das
associações romanas e das medievaes.

Assim, os primeiros traços historicos da _franco-maçonaria_ datam do
seculo XI, isto é, do seculo em que se define o segundo periodo do
Estylo Romanico. No seculo XIII, estas associações apparecem já
independentes, com organisação completa e construindo as maiores
cathedraes do Estylo Ogival. Teremos occasião de desenvolver o assumpto
n'outra parte d'este livro.

É indiscutivel que as corporações de artes e mesteres, embora bem
rudimentares n'essa epocha, feitas á imagem e similhança das romanas,
deviam constituir grandes forças revolucionarias nos primeiros
movimentos communaes. A communa nasce, pois, do amor da liberdade,
manifestação do espirito germanico, do principio das organisações
methodicas e regulares, tradição do espirito romano, e dos sentimentos
de caridade e mutuo auxilio, essencia intima do Christianismo. Em nenhum
facto historico da Edade-Media se distingue mais clara e profundamente a
acção parallela e harmonica das tres manifestações d'esse espirito, de
que falavam as escolas de Anaxagoras e de Socrates. A communa, todavia,
representava tambem a ligação dos fracos quasi inermes, contra o
feudalismo guerreiro e potente. A natureza intima d'esta instituição
democratica provém de todos estes principios.

Os primeiros movimentos communaes accentuados datam do seculo XI,
embora, como dissemos, as organisações municipaes romanas tivessem
subsistido nos pontos do Imperio mais livres das invasões barbaras, por
exemplo no sul da França. Nos seculos XII e XIII a organisação communal
era já poderosa. Estas communhões, confederações, ou conjurações,
segundo os nomes caracteristicos do tempo, haviam-se formado nos antigos
centros, ou em centros novos. O seu principal fim, n'esses tempos de
guerras e desastres, foi a defeza reciproca; a primeira obrigação dos
cidadãos consistia em se reunirem armados, quando tocava a rebate o sino
do campanario, em volta do qual se agrupava a communa, e d'onde esculcas
vigilantes, noite e dia, espreitavam os perigos de subitas investidas. A
organisação interna das communas nasceu logicamente d'estas agremiações
primitivas, realisadas á sombra da egreja, que, ás vezes, constituia o
ultimo baluarte das luctas entre os burguezes e a cavallaria feudal.

Pela habilidade, pela pertinacia, aproveitando com astucia as occasiões
favoraveis das luctas entre os senhores feudaes e a sua necessidade de
dinheiro, as communas foram obtendo a pouco e pouco a organisação
autonoma, umas livres constituindo quasi _feudos burguezes_, se nos
consentem a expressão, outras sujeitas ao delegado do senhor ou do
suzerano, o _preboste_; mas todas reunindo uma força respeitavel, depois
aproveitada pelos senhores mais habeis para instrumento dos planos de
restauração da unidade do poder real, que antecedem e preparam a
formação das monarchias do direito divino.

No seculo XIII as communas livres e do _prebostado_ eram numerosas e os
seus direitos mais ou menos reconhecidos por contratos, entre os
senhores feudaes e as agremiações burguezas. Libertadas dos antigos
serviços pessoaes, tendo uma organisação administrativa independente e
electiva, que envolvia, ás vezes, o direito de justiça, em qualquer caso
repousando sobre o julgamento dos _pares_, livres de tributos
arbitrarios substituidos por contribuições fixas, as communas manifestam
n'este seculo certa unidade de organisação e os caracteres de liberdade
e de vida locaes.

Taes foram, descriptas na essencia e em rapidos traços, as duas forças,
o feudalismo e as communas, que fizeram a historia do segundo periodo da
Edade-Media. N'este meio social, se a ignorancia era profunda, as
sciencias e as artes davam os primeiros passos. A Escholastica, nascida
com o Imperador Carlos Magno, depois da morte de Alcuino e de Engenhard,
perdera o brilho que attingira nas escolas e academias imperiaes. Revive
no seculo XI, em que Abelard, celebre pelos seus amores com Heloisa, lhe
imprime um vigoroso impulso, do qual resultará o grande movimento
Escholastico do seculo XIII, com as figuras primaciaes de S. Thomás de
Aquino, o auctor da Summula Theologica, e de Roger Bacon, o sabio
universal e prophetico. Estes dois grandes homens representam duas
escolas, a primeira que por evolução successiva devia produzir a
theologia e a metaphysica, a segunda que originaria o methodo
experimental e é a essencia positiva das sciencias modernas.

No seculo XI começam tambem as guerras religiosas, o embate das grandas
forças do islamismo, accumuladas ao sul da Europa, e do Christianismo,
occupando o centro e o norte. A primeira lucta corpo a corpo, travada
nos campos da Palestina, constituiu a Cruzada do anno de 1096. O
feudalismo move-se em peso e 600:000 guerreiros reunem-se em
Constantinopla, ponto de partida. As populações servis da Europa christã
respiram, alliviadas d'esta força tremenda, que vae a Jerusalem libertar
o Santo Sepulcro. As fileiras rareadas do feudalismo facilitam a
constituição communal. Alem d'isso, o movimento das Cruzadas, que dura
dois seculos, activa as relações de todas as ordens com o Oriente, põe
as nações occidentaes em mais directa communicação com a arte byzantina,
que tanta influencia tivera já sobre o Estylo Latino, e contribue
poderosamente para a riqueza e dispersão dos Estylos Romanico e Ogival.

N'este pequeno quadro dos seculos XI e XII pretendemos definir o _meio
social_, em que se desenvolveram os mais completos estylos da arte
christã. A pintura é incompleta, mas um trabalho d'esta natureza não se
presta a maiores desenvolvimentos historicos. Os necessarios fal-os-emos
tratando dos Estylos Romanico e Ogival. N'este ponto, basta notar que o
espirito humano teve rapida e ascensional evolução nos dois seculos XI e
XII, o periodo do Estylo Romanico, e que o seculo XIII representa na
historia uma phrase brilhante, um relampago da Renascença, em que
principia o periodo ogival.




CAPITULO SEGUNDO

ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO ROMANICO


Os _meios_ sociaes em que se formaram os Estylos Latino e Byzantino
descrevemol-os, com rapidos traços, em anteriores capitulos. Seguindo o
methodo adoptado, apreciámos as circumstancias historicas em que se
operou a fusão d'esses estylos e fizemos depois o quadro do estado
social dos seculos XI e XII, periodos medios durante os quaes se
definiram as duas feições do Estylo Romanico, o da constituição perfeita
e o da transição para o Estylo Ogival.

D'estes quadros, se embora curtos ficaram perfeitos, devemos tirar
conclusões geraes. A fusão dos tres espiritos, o classico, o germanico e
o christão, está quasi realisada. A homogeneidade do pensamento prepara
a das sociedades. É a aurora do mundo moderno, que desponta ha oito
seculos. São enormes os dias da historia da Humanidade; duram por longo
tempo, como por myriades de seculos se contam os da historia da
Natureza.

O espirito da liberdade começa o seu caminho, nem sempre directo e facil
mas constante e orientado, para as instituições modernas. Essa força
poderosa, a liberdade do pensamento, vae engrandecer as antigas
sciencias, crear outras novas e, como a arte é uma sciencia,
engrandecel-a tambem em todos os ramos, refundindo a antiga esthetica,
como transformou a philosophia classica.

A tendencia para a ordem social produz a riqueza, a relativa instrucção
desenvolve o gosto, elementos que constituem a melhor atmosphera do
trabalho intellectual e da sua applicação pratica. As sciencias e as
artes saem dos conventos, onde a barbarismo dos primeiros seculos as
obrigára a procurar refugio. Os senhores fazem os seus votos e
cumprem-n'os, elevando templos, e constróem castellos e palacios nos
seus Estados. As communas nascentes edificam os seus campanarios e
tambem os seus muros e fortalezas. A emulação estabelece-se. Os pequenos
tyrannos até procuram salvar as almas, mercadejando com Deus e cobrindo
o sangue dos assassinios e as torpezas dos actos com templos admiraveis.
Sirva de exemplo a grande Cathedral de Milão, construida em 1386 por
João Galeas Visconti, duque de Milão, um dos maiores malvados do seu
tempo, aliás bem fertil em individualidades d'esta especie, dispersas
por toda a Europa feudal.

O Christianismo domina sem rival; para elle começára tambem a unidade
que teve depois n'outros seculos. Chame-se Catholicismo, religião
reformada ou orthodoxa grega, é sempre o mesmo espirito tendo acção
identica sobre os destinos do orbe christão, que nós e os hespanhoes
havemos de alargar mais tarde, descobrindo os mais longinquos confins do
mundo.

Este bello movimento do espirito humano, iniciado nos seculos XI e XII,
avigora-se no seculo XIII, cuja atmosphera facilitou a formação do
Estylo Ogival, aquelle que até hoje produziu, em menos tempo, a maior
quantidade de monumentos de todas as ordens, admiraveis manifestações de
grandeza e de qualidades de arte. Agora, porém, circumscrevamos os
nossos raciocinios ao Estylo Romanico secundario e ao terciario, chamado
de transição, porque n'elle, durante o seculo XII, se opera a passagem
para o Estylo Ogival.

As grandes provincias occidentaes do Imperio Romano, a Gallia, a Iberia,
a Bretanha, haviam sido devastadas pelas invasões germanicas; a propria
Italia, como vimos, soffrera os maiores flagellos, perdera primeiro a
hegemonia e depois fôra arrancada á corôa imperial do oriente. A miseria
era extrema em toda a parte. Na Italia, por exemplo, no principio do
seculo VI, S. Benedicto retirava-se para Subiaco, a cem kilometros de
Roma, para n'este _vasto deserto_ levar vida contemplativa e ascetica,
creando depois com os adherentes, que dia a dia se agrupavam em volta
d'elle, a celebre ordem dos Benedictinos. Este estado social, perigoso e
incerto, e o proprio mysticismo da religião christã crearam as primeiras
associações religiosas, que satisfaziam ás necessidades do espirito e á
segurança e ao socego dos homens, que não andavam envolvidos nas
tremendas luctas do tempo. Taes são na essencia as origens das ordens
religiosas, que, a pouco e pouco, principalmente depois das Cruzadas, se
organisaram regularmente.

N'estas associações se refugiaram a sciencia, a philosophia e a arte,
que precisam para boa cultura o socego do corpo e a tranquillidade do
espirito. Algumas ordens religiosas, como as dos Benedictinos, tinham
nos seus estatutos escriptos, além de regras e praticas religiosas,
obrigações de caracter scientifico; ora, esta ordem teve, como é sabido,
uma expansão enorme e rapida, depois da fundação, no seculo VI, do
primeiro mosteiro em Monte Cassino. De facto, esta poderosa e sabia
associação espalhou-se pelo occidente, dando origem a abbadias que ainda
hoje teem nome na historia: em França as de Cluny e Citeaux, construidas
nos seculos X e XI, na Allemanha as de Ratisbonne e Salsburg, em
Inglaterra as de York e de Westminster, para não citar ainda mais
outras. Tambem, nos ultimos seculos do primeiro periodo da Edade-Media
até ao principio do seculo XI, se formou em Italia a associação civil
dos _irmãos pontifices_, que depois se constituiu em ordem religiosa; os
seus fins consistiam em construir e reparar pontes, facilitando assim o
caminho das peregrinações, que se dirigiam aos logares santos e a outros
pontos de veneração christã.

A existencia d'estas associações religiosas exigia a construcção de
grandes edificios, para a vida em communidade, e a da egreja para os
exercicios divinos. Os primeiros associados em Christo foram assim,
logicamente, os architectos e constructores dos proprios templos; quasi
os unicos quando as miserias da sociedade se accentuaram ainda mais nos
seguintes seculos. Em volta dos conventos e das egrejas em construcção,
agrupavam-se os operarios, os restos das antigas associações romanas,
talvez, ou pelo menos gremios nascentes que mais tarde deviam dar origem
á _franco-maçonaria_. Assim, ao lado da sociedade religiosa
constituia-se outra associação civil, que os proprios superiores ou
abbades cultivavam pela sciencia e pela religião, organisando-as e não
desdenhando a honra de fazer parte d'estas corporações de artes e
officios.

O movimento iconoclasta favorecia estas organisações, trazendo artistas
experimentados do oriente, que no occidente procuravam o trabalho e a
protecção dos conventos. Entre os grandes serviços que o Christianismo
prestou á Humanidade, durante a Edade-Media, não foi este o menos
importante: conservar a sciencia e a philosophia classica e desenvolver
novas feições estheticas.

Assim correram as cousas até ao seculo IX, quando sobreveiu a grande
invasão dos normandos, que, descendo do norte, infestaram o occidente da
Europa, a França e principalmente a Bretanha. Estes grandes _piratas_ do
mar, que _as tempestades levavam aonde elles queriam ir_, assolavam,
saqueavam e queimavam tudo na sua passagem, mais sequiosos de presa e
mais brutos de sentimentos do que os proprios hunos de Atilla. A pouco e
pouco, é certo, uma civilisação superior infiltrou-se-lhes no sangue e
adoçou-lhes os costumes selvagens; mas os grandes males estavam feitos e
era indispensavel reconstruir os edificios, as egrejas e os conventos,
cujas ruinas, ainda negras do fumo dos incendios, attestavam a
brutalidade dos novos invasores.

Os primeiros constructores christãos tinham encontrado edificios feitos,
as basilicas; apropriaram-se d'ellas, imitaram-n'as por toda a parte,
saqueando as riquezas dos antigos templos classicos para as adornar.
Agora, os architectos occidentaes, os frades principalmente,
encontravam-se em circumstancias differentes. As necessidades do culto
tinham modificado as egrejas, embora conservando-lhes a antiga feição; a
estabilidade das associações religiosas manifestava outras exigencias na
duração dos edificios. O tempo e os flagellos da guerra haviam esgotado
os thesouros, d'onde os antigos architectos tinham tirado a ornamentação
dos templos primitivos; emfim, ao novo Estylo Byzantino, espalhado e
conhecido no occidente, offerecia-se campo largo e aberto, onde a sua
influencia se podia exercer com grande actividade. Todas estas condições
especiaes tendiam a imprimir novos caracteres ás construcções
architectonicas.

A solidez do edificio e a sua maior duração envolviam o problema da
natureza da cobertura. Os novos constructores resolveram-n'o empregando
a _abobada_, que fôra excluida das construcções primitivas do Estylo
Latino e tinha sido raras vezes usada no Estylo Romanico primario. A
abobada de volta inteira ou abatida era muito usada em Roma; mas os
edificios escolhidos para egrejas ou para modelos dos templos do Estylo
Latino, as basilicas, não a tinham, nem a comportavam, dadas as
condições de estabilidade e de espessura dos muros, ou das columnas,
sobre as quaes repousava a cobertura. A tradição, principalmente em
materia religiosa, tem sempre grande força; por isso, as tradições da
basilica foram, n'este ponto, quasi absolutamente conservadas.

Além d'isso, o Estylo Byzantino empregára a cupula de construcção
difficil e a abobada em arco de circumferencia, facil de construir;
estamos, pois, plenamente convencidos de que o caracter fundamental do
Estylo Romanico secundario, a _abobada_, foi o resultado da influencia
do novo estylo oriental. Mas o systema de cobertura abobadada exige, sem
discussão, maior espessura de paredes, que lhe possam sustentar o peso e
resistir ás pressões lateraes; por isso, os edificios romanicos
apresentam estes caracteres, pela diminuição dos vãos abertos e pelo
emprego de contrafortes e botareos. Aqui, são as proprias necessidades
da construcção, que levam os architectos a adoptar os processos e as
fórmas do Estylo Byzantino. Emfim, logicamente, se o arco de
circumferencia predomina na parte principal do edificio, a harmonia do
estylo indica-o para os outros elementos, portas, janelas e arcos, assim
tambem traçados no Estylo Byzantino.

Os architectos latinos, acceitando a ordenação classica, preoccuparam-se
pouco com os ornamentos externos; pelo contrario, a interior das
basilicas deparára-se-lhes rica e era-lhes facilitada pelos excellentes
materiaes e productos artisticos, com que topavam por toda a parte,
restos conservados dos precedentes estylos. Os architectos romanicos
trabalhavam em mais perfeita liberdade de acção; mas tinham poucos
thesouros artisticos para ornamentação das egrejas. Além d'isso, a
solidez dos edificios e a sua longa duração provavel convidavam-n'os a
estudar e a realisar combinações estheticas, que os embellezassem no
exterior.

A extensão do uso dos sinos e a invenção dos relogios exigiram a
construcção de elevadas torres, que muitas vezes tambem, como já vimos,
satisfaziam a necessidade de defeza, ultimo baluarte da communa, ou
castello do convento. Era, pois, natural que essas torres symetricas,
por exigencias estheticas e do clima ornadas de agulhas ou de elevados
corucheus, se tornassem elementos principaes das fachadas mais ricas e
grandiosas.

Por esta fórma, muito logicamente, se deduzem os caracteres fundamentaes
do Estylo Romanico, devidos uns a influencias dos anteriores estylos,
outros a necessidades de construcção, a novos usos e ritos e até á acção
do clima, que em certas circumstancias influe sobre a escolha e emprego
dos materiaes e por elles na formação dos estylos.

Expostas estas idéas geraes, que a nosso ver ligam as condições do
_meio_ social dos seculos XI e XII, durante os quaes o espirito humano
manifestou determinada phase, com os caracteres do estylo que é a sua
feição especial nesse periodo da evolução da arte, desçamos a
explanações indispensaveis para melhor distinguir e apreciar o Estylo
Romanico secundario, que reinou no seculo XII.

É bom notar que a classificação dos estylos por seculos é um pouco
arbitraria; querendo, apenas, significar que dentro d'este espaço foi
construida a maioria dos principaes monumentos de determinado estylo; o
que não quer dizer que alguns o não fossem antes ou depois d'esse
limite. Além d'isso, entre as differentes nações, que usaram do mesmo
estylo, não se manifesta elle rigorosamente nos mesmos periodos, nem até
offerece perfeita unidade e similhança de caracteres, que, pelo menos
nos secundarios, apresentam differenças sensiveis provenientes de varias
causas, entre as quaes o clima, os materiaes de construcção e as
tradições locaes se devem considerar importantes.

As disposições anteriores das egrejas romanicas offerecem muitas
variantes. Algumas, talvez as mais numerosas, seguem o typo tradicional
das basilicas; tres naves, cortadas pelo transepto, a do centro mais
ampla e prolongada pelo côro, que n'este estylo se alongou mais,
constituido por um corpo recto terminado pela abside. Como vimos, no
primitivo Estylo Latino a abside formava o _presbyterio_, depois
seguiam-se o altar e o côro, dispostos já na nave central; nas egrejas
romanicas estes tres elementos foram introduzidos na abside alongada por
paredes rectilineas, espaço a que o uso deu o nome geral de côro.
Proveiu este engrandecimento de necessidades do culto, da melhor
separação do sanctuario em relação ao templo e do uso generalisado dos
orgãos.

N'esta fórma, algumas vezes as naves lateraes avançam, ladeando o côro
até á curva da abside, outras vezes circumdam-n'a por completo,
constituindo a _charola, ou deambulatorio_, para o qual nos ultimos
tempos se abriram capellas. Infelizmente, Portugal não possue exemplar
algum completo e rico d'este estylo. Os que existem são pequenos, pobres
e estragados por successivas restaurações antigas que lhes deturpam as
fórmas e a ornamentação: mas a Sé de Lisboa, a que nos referiremos em
capitulo especial, fornece exemplo das disposições particulares do
Estylo Romanico.

N'este plano, o mais habitual, desenha-se com nitidez a cruz latina,
formada pela nave central e pelo côro, cortados pelo transepto. Em
algumas egrejas nota-se o facto singular do eixo do côro, em vez de
prolongar o da nave central, inclinar-se para a direita do observador.
Esta anomalia foi attribuida a defeitos de construcção descuidada,
vulgar nos edificios romanicos menos importantes, ou ao symbolismo da
inclinação da cabeça de Jesus Christo, quando expirou sobre a cruz. A
segunda hypothese parece-nos mais provavel.

Outras egrejas offerecem a disposição octogonal, imitando n'este caso as
byzantinas de S. Vital de Ravenna e do Santo Sepulcro de Jerusalem, que
serviu de modelo, como era natural, a muitos templos, até com identica
invocação. Existe n'este genero uma egreja, que nos parece constituir
excepção muito singular, e onde em cada lado do octogono interior ha uma
abside: a de S. Miguel de Entraigues, em França. Emfim, a planta
circular, se não abunda, tem exemplos n'este estylo.

Em geral, a porta ou as tres portas de entrada defrontam com o côro; mas
egrejas existem de duas absides ou córos fronteiros, isto é, tendo dois
transeptos nos extremos da nave central; n'este caso as entradas são
lateraes.

A cobertura empregada foi a abobada, principalmente a partir dos fins do
seculo XI. Em data anterior nas egrejas subsistiram em geral as
coberturas de madeira; este facto é muito provavel ter-se dado nas mais
pobres e em regiões ricas de florestas. Assim, pareceu-nos que parte das
egrejas das nossas povoações do norte foram do Estylo Romanico
secundario ou do periodo de transição, restauradas no tempo ogival e no
da renascença manuelina, de que teem em geral muitissimos elementos;
ora, estas egrejas tiveram sempre, dada a espessura das paredes e das
arcadas das naves, cobertura de madeira. Talvez possam dar d'isto
exemplo duas pequenas egrejas excellentes, a de Caminha e a de Villa do
Conde. Fazemos esta affirmação com reservas, porque entre nós as
restaurações, em regra, foram tão más e radicaes, que mascararam a
feição anterior dos edificios; mas que tenham sido do Estylo Romanico
secundario ou do terciario, a sua cobertura foi sempre de madeira.

A fórma das abobadas póde reduzir-se a dois typos: o de volta inteira,
ou o que resulta da penetração reciproca de cylindros ou cones de base
circular, constituindo as abobadas de arestas, ou as de arco de
claustro. Estas fórmas são fundamentaes nas construcções do segundo
periodo romanico, porque a ogiva, quando apparece nos começos do seculo
XII, caracterisa o terceiro periodo, o de transição, como veremos em
breve.

Tambem o Estylo Romanico tem as cryptas do latino, maiores ou menores e
em geral debaixo do côro, nas egrejas mais importantes.

Ainda as torres caracterisam este estylo. São relativamente pouco
elevadas, massiças, ornadas de _arcaturas_, ou de arcos de volta
inteira, e cobertas por agulhas de pequena altura. Umas vezes ficam
separadas do corpo do edificio, como é de uso nos de Italia, outras
vezes, fazendo parte d'este corpo, ou ornamentando-lhe a fachada.
Algumas egrejas teem mais de uma torre, dispostas duas symetricas na
fachada e uma outra sobre o cruzeiro, interiormente aberta, formando uma
especie de zimborio, ou fechada pela propria abobada d'este cruzeiro. A
Sé de Lisboa offereceu a primeira disposição. A terceira torre, caída
pelo terramoto de 1755 e de que existem evidentes vestigios,
denominava-se _torre sineira_, o que explica os seus fins especiaes, a
que foram depois applicadas as grandes torres da fachada.

Um elemento, que nos parece constituir um dos caracteres importantes do
estylo romanico, é a existencia de galerias, mais ou menos largas, sobre
as arcadas que dividem a nave central das lateraes. Estas galerias,
denominadas _triforios_, de pequenos arcos simples ou trilobados, são
verdadeiras reminiscencias dos porticos superiores das basilicas, onde
as viuvas e as virgens assistiam isoladas ás ceremonias religiosas. O
exemplo encontra-se na Sé de Lisboa, guarnecida por um triforio nas
paredes da nave central e nas do transepto. A construcção moderna tem
columnellos com galba e capiteis de dimensões classicas; mas nas
sondagens feitas foram encontradas as verdadeiras dimensões do triforio
primitivo e o seu typo accentuadamente romanico. Tambem a Sé de Coimbra
tem triforio; n'esta egreja, porém, a galeria é muito larga e de fórma
especial.

As portas e as janelas são de volta inteira, onde, ás vezes, os _arcos
geminados_ byzantinos demonstram o parentesco proximo dos dois estylos.
Os supportes, os pilares, as columnas e os capiteis, fugindo a todas as
proporções classicas, manifestam-se rudes e fortes. Os grandes pilares
das naves, até quando já tendem a tornar-se polystylos, são grossos e
curtos. A expressão de força sobrepuja n'elles a de elegancia,
dando-lhes, aliás, um aspecto grandioso; umas vezes, apresentam-se
quadrados e lisos, ou com columnelos nichados nos angulos; outras vezes,
cylindricos ou polygonaes, revestidos de meias columnas. Esta disposição
prepara os pilares polystilos, isto é, ornados de finos e elevados
columnelos, do Estylo Ogival.

Os capiteis apresentam variadissima ornamentação, em geral differente em
todos elles, ainda que pertençam ao mesmo vão. Este facto caracteristico
será explicado, quando tratarmos do Estylo Ogival. Offerecem a fórma de
pyramides quadradas ou conicas, truncadas e invertidas, coroados por um
simples abaco. As columnas desobedecem a todos os modulos classicos, não
teem galba, apresentam-se cylindricas, em geral, ou ligeiramente
conicas.

As arcadas de volta inteira são formadas de varias molduras, as mais
ricas ornadas de desenhos, dos quaes já encontrámos alguns no Estylo
Byzantino. No interior e no exterior dos edificios romanicos, as
_arcaturas_, simples ou entrelaçadas, constituem ornamentos muito
vulgares e elegantes das paredes, sobre as quaes teem maior ou menor
saliencia.

O conjunto exterior dos edificios romanicos produz no espirito uma
impressão caracteristica de força e severidade, embora tambem, ás vezes,
de elegancia e riqueza. Os coroamentos elevados, em alguns edificios
revestidos de ameias, sobre cornijas repousando em _macheculis_, as
torres massiças e quadradas, os muros muito espessos revestidos de
botareos pouco salientes, por entre os quaes se abrem as janelas, dão a
estes grandes edificios um aspecto de fortificação, de que, em verdade,
serviram muitas vezes nos tempos medievaes.

Ao vel-os, melancholicos e sombrios, parece que a sua grande alma de
pedra sente ainda as impressões dolorosas das desgraças profundas e dos
horriveis flagellos, atravessados pela Humanidade durante essa triste
quadra da historia. O seu caracter religioso é para muitos mais completo
e elevado do que o dos edificios ogivaes; por isso, hoje o Estylo
Romanico começa a ser considerado mais verdadeira expressão da arte
christã do que o ogival. Citamos a opinião por curiosidade, embora com
ella não estejamos muito de accordo.

As fachadas romanicas variam muito, conforme a inspiração dos
architectos, para que possam ser descriptas em schema desenvolvido; mas
n'estas fachadas os portaes de entrada, em geral um ou tres, offerecem
grande importancia. São formados de archivoltas de muitas molduras mais
ou menos ornamentadas, repousando sobre capiteis e columnas da natureza
anteriormente descripta. No fundo d'estes portaes de arcadas embocetadas
e decrescentes, abre-se o vão da porta, offerecendo em geral um tympano
de pedra, ora com baixos relevos symbolicos, ora liso ou formado de
pequenos parallelipipedos. D'esta ultima disposição existe entre nós
exemplo na antiga porta lateral da Sé de Lisboa, hoje restaurada.
Algumas vezes o tympano era de pintura polychromica sobre fundo de ouro,
systema que constitue, sem duvida, uma imitação pobre dos ricos tympanos
byzantinos de mosaico, como se vêem em S. Marcos de Veneza. Por cima dos
portaes, janelas da mesma disposição architectonica dão luz ás naves; a
central é a origem da futura rosacea do Estylo Ogival.

O _narthex_, ou galilé, dos primitivos estylos conserva-se nas condições
expostas n'outro ponto d'esta memoria.

A ornamentação geral é variada e caracteristica n'este estylo. Folhagens
caprichosas entre phantasticos corvos e cabeças de expressões grotescas,
combinações geometricas de galões recamados de perolas, zig-zags e
arabescos impossiveis de definir constituem reminiscencias do Estylo
Byzantino e são precursores do Estylo Ogival. Na porta lateral da Sé de
Lisboa foram descobertos e restaurados dois capiteis do lado esquerdo,
que nos parece envolverem uma excepção rarissima no Estylo Romanico. Na
base dos capiteis, em cada um, duas pombas bem trabalhadas parece dão
bicadas em cachos pendentes da folhagem. São dos mais bellos capiteis
que temos visto. A pintura polychromica apresenta-se, ás vezes, nos
capiteis dourados, de que existem traços evidentes na Sé de Lisboa, ou
pintados, assim como os fustes das columnas, as molduras das archivoltas
e certos pontos das paredes.

É evidente que a abundancia e perfeição dos ornamentos dependem da edade
do estylo, mais rudes e simples no primitivo, mais perfeitos e variados
quando se approxima o Estylo Ogival. Assim, quasi todos os elementos
principaes d'este futuro estylo se encontram, mais ou menos esboçados no
romanico.

Seria quasi impossivel comprehender bem os dois estylos sem os comparar,
estudando-os separadamente. No Estylo Romanico, o caracter de todos os
elementos é a força e a severidade: no Ogival a elegancia e a suavidade,
que mascaram a força sem a diminuir, a não ser na decadencia d'este
ultimo.

Eis em rapidos traços os caracteres mais salientes e geraes do Estylo
Romanico secundario. Em verdade, não são muito accentuados, exceptuando
a abobada, por isso, o estylo talvez seja definido, ou pelo menos
completada a definição, pelos caracteres ornamentaes, aliás, tambem
sujeitos ás condições particulares e aos materiaes empregados nos
differentes paizes. Assim, no sul da França, como na Italia, onde reinou
mais accentuadamente o Estylo Byzantino, os edificios romanicos teem
qualidades um pouco differentes, embora sempre subordinadas ás regras
geraes e ás feições do estylo. Os do sul são mais leves e cuidados do
que os do norte; na Allemanha e na Inglaterra manifestam-se mais pesados
e de ornamentação mais barbara e primitiva. Em qualquer caso, a grande
influencia do Estylo Byzantino, na constituição da architectura dos
seculos XI e XII, manifesta-se incontestavel.

O Estylo Romanico terciario--o de transição--apresenta os mesmos
caracteres do secundario; comtudo um elemento não empregado no periodo
anterior, o _arco em ogiva_, produz logicamente importantes modificações
na disposição geral dos edificios. Este arco deve ter sido conhecido em
todas as nações da antiguidade, que tiveram grandes constructores e
edificios importantes. Se o não empregaram em grande escala, foi decerto
porque a natureza dos respectivos estylos, com tendencias horisontaes
nas linhas mais apparentes, não se adequava estheticamente ás
disposições inversas do arco ogival. As investigações scientificas vão
demonstrando este facto e o futuro nos dirá o que se póde ainda
descobrir.

O arco em ogiva tem propriedades mechanicas tão evidentes em si, tão
faceis de provar pelo simples raciocinio e pela mais modesta
experiencia, que seria quasi uma offensa á capacidade, aliás
extraordinaria, de alguns architectos classicos suppôr que não lhes
foram conhecidas e portanto que não applicaram o arco ogival, quando as
condições o exigiram. Todos sabem, com effeito, os extremos cuidados de
construcção, na perspectiva e na disposição dos materiaes, que os
architectos classicos empregaram no Parthenon: sciencia tão profunda,
demonstrada pelo moderno estudo do monumento, como depois não houve
exemplo, e em que foram até attendidos os erros visuaes nas grandes
linhas horisontaes e perpendiculares. Negar a estes e a outros famosos
architectos perfeito conhecimento das vantagens da applicação da ogiva
seria um indiscutivel absurdo.

No arco em ogiva as componentes horisontaes das pressões, exercidas
sobre os pilares, são menores do que no arco de volta inteira e
decrescem successivamente com a maior altura da ogiva. Este theorema é
tão facil que a mechanica de todos os tempos o devia ter demonstrado. As
rasões pelas quaes começou a ser usado no segundo periodo romanico e
depois teve geral emprego no Estylo Ogival, a que deu o nome, eis o que
nos cumpre investigar como inducção interessante.

É muito provavel que a solidez e a economia das construcções fossem a
rasão suprema da sua adopção, sem, todavia, deixarmos de considerar as
condições estheticas de edificios, como os romanicos, que iam tomando
fórmas elevadas e ponteagudas, repellindo por sua natureza as grandes
linhas horisontaes e as curvas continuas. As qualidades estaticas do
arco em ogiva prestavam-se a diminuir a espessura das paredes, isto é,
davam aos edificios egual solidez real e tornavam-n'os mais economicos,
elegantes e ideaes, se nos permittem a palavra; correspondendo, assim,
ao espirito essencialmente mystico e religioso que o Christianismo havia
desenvolvido na Edade-Media. A ogiva apparece, pois, como elemento
logico de um estylo e expressão esthetica do estado especial do espirito
humano no periodo historico, que procurámos definir n'outros capitulos
d'este livro.

Cumpre-nos, todavia, observar que a ogiva, só por si, não caracterisa o
terceiro periodo romanico. Os edificios tomam, sem duvida, um aspecto
mais leve; mas a ornamentação tambem offerece transformações
importantes. O trabalho é mais perfeito. Novo systema de molduras
substitue em parte as primitivas, os ornamentos mais pesados apparecem
rejuvescidos, outros novos são creados; emfim, a guarnição vegetal,
precursora do ogival, desenvolve-se n'este periodo.

Na esculptura e na pintura persiste a fórma ascetica, delgada e alta, de
roupagens de pregas parallelas e apertadas, da arte byzantina. As
physionomias são graves e serenas, traduzindo o extasi mystico, de quem
abandona o corpo esqueletico e macerado n'este mundo e deixa voar a alma
livre para a celeste beatitude do espirito; verdadeiras fórmas
hieraticas e tradicionaes, e porque o são, seccas e sem movimento.

Uma decoração magnifica começa a manifestar grande desenvolvimento no
ultimo periodo do Estylo Romanico: os _vitraes_, as vidraças coloridas
das janelas. O uso dos vidros nas egrejas parece haver começado no
seculo X. É muito provavel que os vitraes ordinarios substituissem longo
tempo antes as laminas de pedra rendilhada, que encontrámos no Estylo
Latino. Que esses vitraes fossem depois superficialmente pintados,
tambem é de crer; mas o verdadeiro vidro polychromico, com a côr fundida
e incrustada na massa, não apparece senão no seculo XII, por modo
incontestavel e com desenvolvida applicação, de que existem ainda alguns
exemplares.

Estes vitraes primitivos offerecem caracteres definidos, pelos quaes é
relativamente facil conhecel-os. O tecido de chumbo, que sustenta e
encastra as pequenas placas de vidro, tem malhas muito miudas, visto que
n'esse tempo cada côr differente correspondia a uma só malha, sendo
divididas em muitas as côres de grande superficie, por necessidade de
construcção da vidraça. O fundo do quadro offerece, em geral, um mosaico
azul. Na parte superior do vitral desenha-se, conforme o periodo, a
ogiva ou o arco inteiro, sobrepujando pequenos quadros de scenas do
Antigo e Novo Testamento ou de lendas christãs, onde as figuras, bem
como alguns ornamentos, manifestam claramente a influencia da arte
byzantina nas disposições, no desenho e nas roupagens. Em geral, a côr
dos objectos representados não corresponde á natural, sendo as côres
escolhidas mais no proposito decorativo do que no da expressão da
realidade, que entre certos limites lhes deu a natureza. Esta admiravel
ornamentação, cujo effeito é surprehendente, attinge a maior perfeição
no Estylo Ogival; para elle, pois, reservamos mais algumas
considerações.

Julgamos haver dito o sufficiente para caracterisar o Estylo Romanico
nos dois periodos, o secundario e terciario. Accrescentaremos, apenas,
que a classificação dos edificios, principalmente nas epocas de
transição de estylos limitrophes, é assumpto delicado, que exige
sobretudo muita experiencia e observação de exemplares bem definidos. As
idéas geraes não bastam, nem é sufficiente o estudo dos livros. É
preciso pela experiencia ter apurado a critica e a sciencia, possuir um
senso esthetico educado; uma cousa correspondente a essa qualidade
singular que teem os grandes medicos de diagnosticar a doença, quasi
adivinhando-a pela simples observação do enfermo.

Além disso, é indispensavel conhecer a historia do monumento, se elle a
tem escripta, aliás refazel-a com successivas investigações, estudando
pedra a pedra, elemento a elemento, porque nos periodos de transição,
principalmente, tudo se sobrepõe e combina por tal fórma que o enygma
parece sorrir dos nossos esforços em cada canto dos monumentos.

Entre nós, citaremos um exemplo: ainda hoje vacillamos sobre se a egreja
de Alcobaça deve ser considerada romanica do terceiro periodo, ou já
ogival. Nas arcadas do côro, mascarada por bellos intercolunmios jonicos
manifesta-se o romanico, talvez do segundo periodo, depois, no corpo da
egreja, as ogivas dos arcos e das abobadas casam-se com pilares ainda de
caracter romanico.

Restaurações successivas, feitas em largos periodos, desnorteiam o
observador. Exceptuando, pois, a fachada, do feio e pesado Estylo da
Renascença dos principios ou meiados do seculo XVII, parece-nos ser esta
egreja um soffrivel exemplar do romanico de transição. Discutiremos este
assumpto, interessante sob o aspecto da classificação architectonica dos
nossos monumentos, em um dos seguintes capitulos d'este livro.




CAPITULO TERCEIRO

A SÉ PATRIARCHAL DE LISBOA E A SUA RESTAURAÇÃO


Não pretendemos fazer uma monographia da Sé de Lisboa; nem o edificio
tem valor architectonico que mereça investigações demoradas, nem ácerca
d'elle existem documentos ou dados provaveis, que possam facilitar
similhante trabalho. A carencia de elementos historicos, regra pelo
menos nos monumentos nacionaes primitivos, não soffre excepção na antiga
cathedral metropolitana, cujos archivos foram em grande parte destruidos
pelo incendio, que seguiu o terremoto de 1755.

Assim, citamos esta egreja como simples exemplo nacional do Estylo
Romanico; porque foi, sem duvida, o melhor dos edificios d'este estylo
existentes em Portugal. Effectivamente, entre nós devem apenas
considerar-se de relativa importancia, como monumentos romanicos, a Sé
de Lisboa, a Sé Velha de Coimbra e a da Guarda, porque, se algumas
outras egrejas começaram por ser d'este estylo, successivas
reconstrucções e restaurações no periodo ogival e no da renascença
mascararam-lhe quasi por completo as feições. Alem d'isso, são estes
templos os de maiores dimensões, e excepcionalmente podemos encontrar
pelo paiz alem d'elles uma ou outra pequena egreja ou capella do Estylo
Romanico, mais ou menos puro.

Ainda assim, dos tres modestos exemplares romanicos

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