O Romance d'uma cantora
by Alfred Sirven · Portuguese · Gutenberg #32380 · 357,886 chars · public domain (US)
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Title: O Romance d'uma cantora
Author: Alfred Sirven
Translator: Salvador de Medonça
Release date: May 15, 2010 [eBook #32380]
Most recently updated: January 6, 2021
Language: Portuguese
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/32380
Credits: Produced by Pedro Saborano
*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***
Produced by Pedro Saborano
Nova Bibliotheca Economica
Leitura para todos
Travessa da Queimada, N.º 35
LISBOA
Alfredo Sirven
O ROMANCE
D'UMA
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TRAD. DE S. DE MENDONÇA
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Vai (em 1897) no seu 18.º anno.
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Anno, 5$000 réis fracos; Semestre, 3$000 réis
Numero avulso, 200 réis
_EM PORTUGAL:_
Anno........... 2$000 réis
ANNUNCIOS
Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis.
Artigos e communicados contractam-se:
EM LISBOA--Travessa da Queimada, 135.
NO RIO DE JANEIRO--No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º 89--1.º andar.
O ROMANCE D'UMA CANTORA
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ROMANCES PUBLICADOS
1--Luiz Noir--A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.
2--Eugenio Chavette--Os companheiros do crime, trad. de A. Sarmento.
3--Visconde Henri de Bornier--Romance d'um auctor dramatico, trad. de
Portugal da Silva.
4--Mauricio Drack--A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato.
5--Edgar Montell--João das Galés--traducção de C. Dantas.
6--Eugenio Chavette--Lili, Tútú e Babette--trad. de A. Sarmento.
7--Arsenio Houssaye--Joanna d'Armaillac, trad. de H. de Oliveira.
8--Paulo Féval--A rainha dos estudantes, trad. de S. de Mendonça.
9--Mayne-Reid--Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.
10--Victor Perceval--Uma mulher perigosa, trad. de S. de Mendonça.
11--Mauricio Talmeyer--Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento
12--Heitor Malot--Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.
13--Alfredo Sirven--O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de Mendonça.
A SEGUIR:
14--F. Champsaur--Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.
ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35
LISBOA
ALFREDO SIRVEN
O ROMANCE
D'UMA
CANTORA
TRAD. DE S. DE MENDONÇA
LISBOA
1895
TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO»
35--Travessa da Queimada--35
LISBOA
O ROMANCE D'UMA CANTORA
I
A catastrophe
--Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... Ora
adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso!
Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.
E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse
illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da
paixão que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.
--Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia, procurando qualquer
coisa pelo quarto, destrahidamente, porque nada lhe faltava, a não ser
que chegasse a hora d'ir para a Opera.
Os labios diziam: _hei de ver_, mas o coração tinha visto já.
Amava Linda, a _estrella_ do dia, a diva que, do ceu da Opera,
scintillava sobre Paris fascinado.
O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações,
fugindo assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle.
Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava.
Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de
vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.
O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um
magnifico espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.
Cantavam-se os _Huguenottes_, desempenhando Laura Linda, pela primeira
vez, a parte de Valentina.
Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação,
porque no camaroteiro não restava um só bilhete.
Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.
Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a
melhor.
--Irei aos _Huguenottes_! resolvera elle, depois de curta discussão
comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente
curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão,
simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que
ámanhã de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno
voltarei a Paris.
E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura,
abandonada por mais de quinze dias.
Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos
que encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:
--Adeus, formoso bretão!
Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.
A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a
mais completa linha d'elegancia.
Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o
verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção.
O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.
Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma
d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na
memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.
Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.
Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se
ter deixado de a ver por alguns dias.
Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que
fôra apenas a artista que o emocionára.
Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque
Laura, afinal,--tinha de confessal-o,--possuia raro talento.
Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas
admirára Valentina.
O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa
de inconsciente embriaguez.
Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que
trasborda.
Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes,
apparecendo sempre sorridente, formosissima.
Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.
E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria,
incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia.
Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.
Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos
espectadores, que sahiam.
Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?
Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.
Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.
Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de
desancar o porteiro.
Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida.
Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e
retrocedeu, entrando novamente na platéa.
Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.
Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:
--Olhe!... alli!...
--Que desgraça!... Fujamos!...
Não havia que duvidar.
O fio de fumo engrossava progressivamente.
Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.
Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas
atraz do visconde corria o porteiro, gritando:
--Fogo!... Fogo:!...
As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro.
Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda,
immediatamente.
A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de
se poder salvar?
As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.
O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando
já a muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os
corredores.
Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a
rua Drouot, na outra extremidade do edificio.
Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que
chegavam.
Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia
aos camarins dos artistas.
O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.
Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com
claridade amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa
cinzenta, que enchia os corredores, pouco a pouco.
Sombras corriam para todos os lados, espavoridas, sem responder ás
perguntas afflictas de Antonino, sem as ouvir.
Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam
os camarins.
Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar
tempo a que lhe respondessem, e entrou.
Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero:
--Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada!
--Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.
--Sim!... O medico... onde está o medico?
--O camarim?... Diga-me onde é o camarim!
Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada
vez mais espesso.
Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.
O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se
desenvolvia um calor violento.
Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com
voz forte:
--Linda!... Linda!... Onde está?
Mas ninguem lhe respondia.
Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez com mais força, e
arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.
Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.
Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a,
accendeu um.
A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.
Entrou por ella precipitadamente.
Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio
desmaiada.
O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se.
Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu
designio.
--Onde estou eu? perguntou Laura de repente.
--Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.
Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos
braços para a conduzir.
--Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão.
Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.
Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto,
onde se immobilisava em camadas cinzentas.
Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores,
onde dançavam já as chammas do incendio.
Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino
experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura.
Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava
sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto
que lhe ficava superior. O calor abrazava.
--É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a
presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco.
--Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á scena.
O visconde seguiu a cantora.
Dirigiram-se para a escada de serviço.
Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas
as direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em
voz breve.
Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela
potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes
vomitados por boccas invisiveis.
Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta
crepitamentos seccos.
O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e
invencivelmente, a nave immensa da platéa.
A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que
pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.
O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do
salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.
--Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam
todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós!
O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam.
--Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos saltar
para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será tarde.
--Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara para
traz.
--Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a salvar
uma mulher.
O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino:
--Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu
levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a.
O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando o peito na borda
do camarote, estendeu os braços para Laura, que, elevada pelo bombeiro,
poude agarrar-se ao seu salvador.
Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:
--Agora fujam depressa, porque...
O desgraçado não acabou.
O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem,
que repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.
--Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...
Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de
muitos esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em
que cahira, e muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda
estavam Laura e o visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação.
Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.
Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos.
--Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz.
E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar.
De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada
d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.
Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela
imminencia do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle
com força.
Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se
por puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.
Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu
escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella
fornalha monstro.
O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!
E mais nada!
Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.
A cantora perdera os sentidos.
O visconde estava meio asphixiado.
Parecia-lhe que respirava fogo.
Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas
d'agulhas.
Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre
os dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar
do oxido de carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões.
Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a
cantora, como se ella fosse uma creança, e sahiu do camarote,
percorrendo o corredor.
Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.
O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade.
O lustre abateu, produzindo ruido enorme.
A grande escadaria estava ainda praticavel.
O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os
cabellos queimados.
Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada.
N'esse instante abateu o tecto do salão.
Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas.
O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente,
polvorisado de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.
A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas.
Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se
distanciavam em espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma
dança macabra, no espaço afogueado.
II
Antonino de Bizeux
Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.
Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de
Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de
Rascoff.
O visconde viajára muito.
Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.
Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas
possuido do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se
tornar distincto na distincta sociedade, de que passava a fazer parte.
Caracter firme, sincero, honrado--honrado até á ingenuidade--os seus
pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o
que pensava.
Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito
d'um phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.
Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e
tomando pé na encapellada torrente parisiense.
Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo
cunho d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das
mulheres, as eternas curiosas.
Tinha poucos ou nenhuns amigos.
O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros
conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse
retardado da civilisação, a quem chamavam _formoso bretão_ e _selvagem_.
Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas
porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos,
conservava puro o coração.
Sobre o ponto _mulheres_, absolutamente sem importancia para homens que
frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e
procedia contrariamente aos seus companheiros, porque elles tinham
os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor.
Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar;
estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido.
Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do
seu compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu
dolente aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se.
O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era
um litterato e um _dilettante_.
Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era
apaixonado pela musica.
Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos _habitués_
da Opera.
A sua cadeira raras vezes ficava vazia.
N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella
de primeira grandeza que eclipsava todas as outras.
Antonino era ardente admirador da diva.
Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto.
Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era
formosissima.
Poderia passar dias inteiros a admirar a grande artista
interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não
voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a
qualquer outra mulher.
De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a
dar nas vistas.
Nem um _bouquet_ offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo.
Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.
Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas
representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi
extatico d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.
Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.
A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o
julgavam louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se,
convencido de que os seus interlocutores não comprehendiam a que
sentimento obedecia.
Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as
suspeitas.
Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação.
A datar d'esse dia consultou o coração, espiando todos os variados
sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os amigos não
tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome exacto á
attracção que Laura Linda exercia sobre elle.
A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as
noites, da sua cadeira, a seguia com olhar ardente.
De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.
Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador,
da reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que
Antonino estivesse apaixonado por ella.
Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma,
Laura quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe
intimamente a reserva em que elle se conservava, reserva que
desagradaria a qualquer outra.
Uma noite,--é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,--como tinha
d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por
muito tempo.
Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados
pelo formoso bretão.
O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.
É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a
noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar
d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel.
Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido,
como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que
desempenhava.
Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou
d'Antonino.
--Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando muito,
um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei
algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu
papel!
N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.
Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e
zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções
em que a cantora incorrera.
Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista.
Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou
ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.
E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando
a diva.
Pela manhã assaltou-o uma preoccupação.
Porque olhara Laura para elle?
Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a
impeccavel?
Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher,
absorvia-lhe imaginação.
Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto,
despeitado, quasi furioso:
--Não quero!
No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo,
e pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira
commoção.
A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.
Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.
Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só
encontrara em si o simples melómano.
Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta.
Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.
A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a
artista superior que nem um segundo se esquece da personagem que
desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do visconde.
Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas
vezes lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe
uma sensação desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva
n'essa noite foi surprehendente.
Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino
não deu o seu contingente de palmas ou flores.
Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente,
como se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.
Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos,
lançado ao proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.
Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?
E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o
offerecera?
Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor
preferida pela diva.
O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e
levantou-se da sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os
corredores e seguindo para casa sem demora.
N'aquella noite teve febre.
No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella
declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a
estado de só poder ser contratada para theatros d'operetta.
Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal,
a musica, era uma arte secundaria.
Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.
Amava Laura.
Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.
Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do
coração eram d'isso prova irrefutavel.
Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.
Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho
lançar á diva um ramo de que ella gostara?
Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.
Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!
Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda,
porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!
Quinze dias depois de proceder pela fórma que a si mesmo impozera,
convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.
Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir
ao seu divertimento predilecto.
De resto, desejava colher a prova evidente da cura.
Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no
quarto, não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar
as suas forças.
Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo
da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no
capitulo anterior.
III
Laura Linda
Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o
maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o
talento de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que
o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.
Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.
No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de
sollicitações de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de
casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante.
A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.
Laura era hespanhola.
Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia
illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.
Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie
de despreso.
Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a
um rei.
De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias,
era, desde muito tempo, uma casa arruinada.
O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial,
mas a grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.
O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O
pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.
Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de
Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar
a sua reputação e refazer a sua fortuna.
A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á
scena.
Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára o amor pela
musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava já de grande e
merecida reputação de violinista.
Foi o filho que velou pela sustentação do pae.
O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.
Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que
elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao
publico não lhes levasse mais algum dinheiro.
Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma
que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a
realisação da sua gloria posthuma.
Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a
que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle
despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.
Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas
egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais
poderia juntar um pequeno capital.
E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não
sabia tratar dos seus negocios.
Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario
embolsasse a maior parte dos ganhos.
Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel
reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os
que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que
d'ordinario não lhe pagavam.
Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.
Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar
particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.
Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como
tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino
durante o tempo das lições.
Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu
discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a
leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a
remuneração das lições.
Marcia, tentado pelo lucro, continuou.
Mas a tentação durou apenas uma semana.
Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:
«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente
estupido.»
Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.
Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.
Á falta de dote possuia rara belleza.
Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como
o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher
com o canto surprehendente do seu violino.
A joven passava horas a escutal-o, embevecida.
O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi
esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.
Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da
arte.
Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.
Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro
instrumento melhor: a voz.
A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.
A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo,
considerava o palco como um logar de perdição.
Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa,
renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e
feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor
de mãe.
Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa,
acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.
Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um
concerto de beneficencia.
Obteve um verdadeiro successo.
Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo
como ao pae.
José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido
por Laura.
A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e
discipula seria uma artista de primeira ordem.
Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.
A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.
O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a
filha cantasse, senão raras vezes.
Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu
natural emprezario.
Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de
Pozzoli, aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de
theatro, a Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.
Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava
e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma nitidez
d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.
Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua
formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.
O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois
de chegarem.
Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.
E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem
elle lh'o deixou.
José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que
durante a vida sempre tivera.
Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas
conseguia não ter dividas.
E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os
creados gastassem como lhes aprouvesse.
--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar
o meu dinheiro!
Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima.
A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e
guardava-a, como se fosse a propria mãe em pessoa.
Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o
compromisso tomado.
De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente
mesmo com as fraquezas que repudia.
Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se
respeitar.
Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade,
repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que
só lhe fallavam d'amor.
Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava
resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no
theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.
Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta
historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae
da cantora.
Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente,
casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma
_primadona_ de primeira ordem.
Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com
varias das suas contractadas.
Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que
luctava como emprezario.
Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela
diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse que o movia
a dar-lhe o seu nome e a sua vida.
Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que
tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu
de Milão para Florença.
O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que
desejavam casar com ella.
Mas perdiam o tempo e o trabalho.
Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito
infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.
Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.
Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.
Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e
era sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.
Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o
imperturbavelmente.
Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.
Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que
especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á
forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma
frieza que bem se podia alcunhar de desdem.
Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se
possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o
desejo, que sentia pela cantora.
Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu
descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que
se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_.
--Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. Não tenho
paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem
defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida
perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor,
que serei o segundo.
Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um
original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um
verdadeiro artista.
Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o
talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.
Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se
d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.
A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho
um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.
--Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco
como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me
enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria
duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu!
Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E
desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade!
De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.
Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr.
Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos
theatros, sobre tudo dos theatros de canto.
Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol,
mercê das magias homoeopathicas do dr. Despujolles.
Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homoeopathica
tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto,
acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura
lhe confiava.
Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas por Antonino de
Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferença, mas
sentindo na realidade um interesse e emoção de que elle não se
apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem
qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a
ser menos perigosa para elle.
IV
O dia seguinte
Era quasi meio dia.
Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada
ainda, sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um
montão de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o
marmore d'um velador.
Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava
um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a
lapis sobre os papeis que folheava.
Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.
Era de Pozzoli.
Dizia o antigo emprezario de Laura:
«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa
da distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura
escripturada».
Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.
O tenor escrevera:
«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não
estavas junto d'ella para a salvar».
Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.
«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma _alleluia_
triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas
receber o teu mais humilde admirador.
_Remissy_».
A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o
a almoçar no dia seguinte.
Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o
necessario para escrever.
Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.
Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e
cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.
Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.
--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas
entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.
--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.
--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?
--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.
--Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E
eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.
--É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.
--E bonito!
--Jacintha!...
--Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a
qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e
faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!
--Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda
entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.
Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.
--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que
atravessou impunemente as chammas!
--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma
carpa se não tivesse quem a ajudasse.
--Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?
--Sei.
--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno.
--Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.
--Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como
era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.
E chamou.
Appareceu Jacintha.
--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.
--Sim, sr. doutor.
--E então? Há mais juizo agora?
Jacintha tornou-se purpurina.
--De certo, sr. doutor.
--Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens
d'haver-te commigo!
Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.
--É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma
solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!
--Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?
--De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um
precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o
animal na mulher.
--Oh! doutor!
--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o
animal não existe.
--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em
momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama
espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de
fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu
camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do
que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os
joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento.
Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me.
Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que
ia buscar quem me soccoresse.
--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita
dedicação, não haja duvida!
--Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, Jacintha
lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluçando,
querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a matei!
quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar,
levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu
n'um mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido
lançar-se ao Sena.
--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma
verdadeira lenda.
--E parece lenda, com effeito.
Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao
momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido
os sentidos.
--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de
Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria
por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o
fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver
que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos _habitués_ dos
_fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe
que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu?
Isto: «Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo
que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle
me desse o seu cartão.
--E conserva o cartão de tão modesto homem?
--Eil-o aqui... O doutor leu:
--ANTONINO DE BIZEUX.
--Conhece-o?
--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado
como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na
Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela
minha querida Laura.
--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a
vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que
não ha outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de _dilettante_.
--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como
recompensa, elle não se contentará com a promessa d'uma nova
escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?
--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava.
Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o
cartão d'elle entre os outros.
--Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do
meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei
buscar á pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto.
Prohibo-a de receber quem quer que seja.
--Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com
vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com
certeza.
--Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo,
comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o
que é grave.
E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:
--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos
dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve
cahirá n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma
completa tranquillidade d'espirito.
--Comtudo... disse Laura.
--Não ha comtudos...
--Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...
--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias
tratará d'esse negocio.
--Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy,
convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma _alleluia_
que compôz em minha honra...
--Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei
presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.
--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o
para o almoço?
--Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho,
tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.
--Que idéa!
--Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um
apaixonado que salva a vida da sua bella...
--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.
--Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em que
pese á minha numerosa clientela feminina.
--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem;
affianço-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, não sinto a
menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou
não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei
tanto fazer de qualquer homem um amigo.
V
Perplexidades
A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.
Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual
Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar
dos esforços empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie
de preoccupação que se apossára d'ella.
Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor
se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva
mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está
mal?
--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do
seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada,
no bilhete de visita? Parece-me que é no _boulevard_ Hausmann, mas
ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do
visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle está.
Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:
«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O
moral nãe me diz respeito.
_Despujolles._»
Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do
incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura.
Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem
dizer nem deixar o nome.
Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.
Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta
d'Antonino:
--A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de dois
ou tres dias.
E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou:
--O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?
Antonino respondeu em tom breve.
--Visconde de Bizeux.
--N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha ordem,
desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe...
mas só ao sr. visconde.
Antonino interdicto, respondeu:
--Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já é
tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus
respeitos... Eu voltarei.
E sahiu como se fugisse.
Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.
--Singular indifferença essa! disse a cantora.
O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da
indifferença que Laura lhe suppunha.
Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura.
Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.
Mas desejava tanto isso, que tremia.
Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.
E não voltou á rua de Bolonha.
Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse:
--Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente,
que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga?
Afinal, o caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora,
augmentou de intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente
inquietante.
--Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o medico,
mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas
emfim, eu não o tornarei a ver?
--Seria o melhor para ambos.
--Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é
necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos
seus doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu
tenho curas que me honram.
--Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser
generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um
bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.
No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um
cartão de Laura, as seguintes linhas, escriptas pela cantora em
seguida ao nome:
«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe
deve a vida.»
Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste.
Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.
Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino,
disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado
dito que ia ver o pae.
O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou
o caso, ajuntando:
--Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado
até á indelicadeza!
Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a
fuga, Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte,
a Laura, este telegramma:
«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui
subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a
Paris, terei então a honra de lhe apresentar os meus respeitos.»
Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao
contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda
mais da cantora.
Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel
fraqueza.
Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias
d'ella, e quando quizesse podia procural-a.
Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque
nunca soffrera tanto.
Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia,
onde vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda.
Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a
tudo confessar a seu pae.
O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.
Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.
Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o
defeito de ser pobre e plebea.
O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho rigido, intractavel
em questões de nobreza e importancia patrimonial.
Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle
amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de
fortuna avultada.
Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos.
Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle,
tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações.
A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais
devota ainda.
Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que
apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.
Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do
amor por Antonino.
Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse
d'elle emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris.
Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do
passado.
A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por
sua vez tambem, a excessiva indulgencia.
Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu a confidencia
d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão.
O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura.
Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.
Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma
semana, chamou-o e disse-lhe:
--Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris.
Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma
mulher que não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode
ter-te amor, é certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não
virá a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não
amou nunca, não amará talvez. Mas approxima-te, não como uma creança que
teme, mas como um homem que não recua nem ante uma decepção, nem ante um
grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, não acharás que
Laura não corresponde ao teu sonho!
Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle
conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como
deixára Paris.
Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe que o procuraria no
dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura.
Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da
cantora, prevenida antecipadamente pelo medico.
--Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.
Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa
simplicidade:
--Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu
não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou
excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e
que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida
quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos.
Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse
d'elle ao dr. Despujolles.
Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle
indicára incommodar-se.
--E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o
publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que
representamos.
Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio
compromettido.
Fallaram de musica, de theatro.
Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto
Pozzoli lhe ter proposto um bom contracto.
Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle
emprezario, mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.
De resto, não podia passar sem cantar,--por causa da sua bolsa e por
causa do seu espirito.
Cantar era para ella metade da vida.
--A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e
a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima,
uma especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio
aos Loges, etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na
cabeça do rol inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse,
porque é caso para dizer: não haveria festa sem o sr.
Antonino fez um gesto d'assentimento.
Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.
--Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao
visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a
gente por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.
--Assim será! respondeu Antonino.
A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com
desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais.
VI
A festa
No dia fixado, um _mail-coach_, em que tinham tomado logar Antonino,
Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote
largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.
Era a primeira terça feira de setembro.
Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob
as agudas pontas das settas gothicas.
As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.
Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda
áquella hora.
Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.
E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como
estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos,
ao fundo de _callidimos_ entrelaçados em ramos monstros sobre a relva
dos canteiros.
Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação
articulados.
Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre
as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.
O _mail-coach_ que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os
convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que
o _coupé_ de Linda.
Laura vestia uma elegante _toilette_ de seda da India, cinzenta.
O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços
granade.
A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna
fina de parisiense ou de hespanhola.
Estava encantadora assim.
Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem
apresentou a Pozzoli, o amphytryão.
O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos
massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos,
nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos,
libidiminosos.
Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos
appetites sensuaes.
Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.
Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor
Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando
pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que
habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas
imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes
magnificos... mas postiços.
D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas _soirées_ apparecia
sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por
uma pincelada negra.
Tal era Pozzoli.
O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não
sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras
pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples
do gentilhomem bretão.
Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os
excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um
carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.
--Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de
que não faltaria.
--Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar,
porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.
Os _mails-coachs_, os _landaus_ e os _coupés_ embrenharam-se sob as
abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.
Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das
rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.
Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos
multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda
gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no
ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as
aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o
relincho satisfeito d'um cavallo.
--Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.
--Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.
As carruagens pararam.
--Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do _coupé_.
--Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por
de traz do medico.
Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.
Pozzoli offereceu-lhe o braço.
--Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem
cerimonias.
Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido,
sobre uma elevação arrelvada.
Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de
escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de _foie gras_, doze
lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil,
passas de Malaga em caixas.
Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores,
alinhavam-se vinte quatro garrafas de _Bordeus_, e em torno d'um
carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta
garrafas de _moscatel_, de _Madeira_ e de _Champagne_, de gargalos
prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.
Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas
enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se
levemente, e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante
por entre uns fetos proximos.
Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.
Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.
Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á
esquerda da cantora.
Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os
restantes convivas.
Eram uns quarenta ao todo.
O almoço foi pouco ruidoso ao principio.
O appetite é sempre silencioso.
Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.
A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no
liquido do copo.
Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo
tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes,
misturadas com o _pizzicato_ dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore
proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.
Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.
De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de _Champagne_, e disse
com voz entaramelada:
--Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!
Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.
Mas todos levantaram as taças, repetindo:
--Á saude de Laura Linda!
N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante,
apparecia uma duzia de officiaes d'_hussards_, trotando nos seus cavallos.
Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir
o andamento dos animaes.
Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois
caminhou para os officiaes e disse-lhes:
--Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos
a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?
--Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.
E puzeram em linha os cavallos arabes.
Foram as damas que serviram o _Champagne_.
Beberam pela França e pelos francezes.
Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram
as senhoras e partiram a galope.
A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na
profundeza do bosque.
Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé
para a feira das Loges.
Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.
Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se,
naturalmente, grupos e pares.
Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em
falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se
a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.
Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas
vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem
visto.
Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.
Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho
ensurdecedor.
Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos
domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na
alegria da plena liberdade.
Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.
Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de
_clowns_ esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes
porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.
Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus
companheiros.
Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os
objectos n'ellas expostos.
Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma
barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada,
cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o
tom accentuadamente marselhez.
O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.
--É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois _sous_ podem
admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem
entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de
inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam
novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das
ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta
produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é
entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma
belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a
esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo
por um real, contemplar uma maravilha d'esta ordem apenas por dez
centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...
Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado
d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.
Um realejo moia a _Valsa das Rosas_, e ao lado, n'uma barraca de
balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre
gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando
para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.
Um pouco mais longe via-se um _carrousel_ de cavallos de pau, enfeitado
d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.
Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes
por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção
embasbacada dos passeiantes.
De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem
sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um
cornetim.
No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam
em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que
bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e
de tintura de chicoria.
As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.
Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais
invejavel appetite.
A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa,
divertida.
Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos
desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas,
pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores
frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.
Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de
pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu
tambor.
Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam
parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e
leu esta especie de proclamação:
«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um
_punch_ aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o
almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que
não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»
Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no tronco d'uma
arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi
buscar.
Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.
O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.
Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.
A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos
seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens,
na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.
O silencio augmentava á medida que avançavam.
Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.
A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo
contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.
A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as
folhas humidas das arvores.
Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na
clareira onde os esperavam as carruagens.
Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido o almoço,
elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um
_punch_ magistral!
Os reflexos do _punch_ lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.
Remissy não apparecia.
--É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde
estará elle?
No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa,
uma _phrase_ de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.
O violino de Remissy respondia á voz de Laura.
E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos,
uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse
acompanhamento de _pizzicato_ em surdina, a _phrase_ triste repetia-se
como um queixume atravez a noite!
Foi extraordinario, simples, idealmente puro!
Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou
na clareira.
Remissy appareceu por entre o clarão do _punch_, cabeça ao vento,
ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o
seu magnifico _stradivarius_ debaixo do braço esquerdo.
--Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha _Queen Mab_?
disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?
--Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada. Mas isso não
impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e
não appareceu.
--Não me falles em coisas tristes, minha filha!
Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu
novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra
hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que
ouvisses a minha melodiasita.
Creados de casaca serviam o _punch_ em copos de crystal.
Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.
Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.
Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta
que o trouxera.
Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:
--Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois
do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a
promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda;
quero dar uma _soirée_ em honra da realisação d'essa escriptura. Peço,
pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze
dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle. Cantar-se-ha,
dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!
Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.
Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.
--Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que
fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu _coupé_.
--Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante
a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha
feito da diva.
--Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.
--Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o
visconde para o _coupé_. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde
seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde.
Lembre-se do que poderão dizer.
Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:
--O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a
minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar
seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle
é dotado, acharei occasião tão propicia como esta. Supporá o dr. que
ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?
--Eu? não, seguramente, mas.
--Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz.
Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem
e acompanhar-me até Paris?
--Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.
--Então venha. Subiram para o _coupé_ diante de todos.
--Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido
por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um...
porque eu quero ser o numero dois!
VII
Explicações
A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos
indiferentes, e quasi banaes.
Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.
O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.
Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo
enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.
--Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo!
Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto
vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só a admirar e a
applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota
sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos
primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho
horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei
servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em
compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa
era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o _Hymno de
Rakoçki_, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!
Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:
--N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade
que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que
o sr. visconde possue: a lealdade.
--É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a
conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.
--Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me
o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das
vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por
essa razão que lhe desejei fallar hoje.
--Porque? perguntou Antonino surprehendido.
--N'este dia, em que o vi quasi pela primeira vez, occupei-me, sem
querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o
senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em
quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco
leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder,
talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se
passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle
uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...
--Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino
com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.
--Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que
de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam
a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez
que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua
declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra.
Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio.
Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se
inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua
fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes
palavras, no seu aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor
não estava longe de amar-me.
O visconde fez um movimento, e quiz fallar.
Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:
--Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não
quero ouvir-lhe dizer: amo-a!
--Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é
natural, e--o que é triste,--não quer amar-me!
--Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.
Antonino fez um gesto de desgosto.
Laura ajuntou suavemente:
--Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram
o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por
estranhos. Ouça-me agora.
E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras
impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o
pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter
sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.
Depois a cantora disse, pensativa:
--Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de
sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não
basta a sincera affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o
amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um
pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só
se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento
que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento
maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão
inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os
gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma
creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho
do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!
--Porque?
--Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou,
garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem
que não fosse meu marido.
Houve um silencio.
Antonino cortou-o dizendo com voz grave:
--Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas
acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou
daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue
alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites.
Não me amará ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel
que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda,
consentirá em ser minha mulher!
--Sua mulher!... disse a cantora admirada.
Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:
--Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me!
Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não
sei, mas o que é certo,--e já ha bocado lh'o disse,--é que fui attrahida
para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda,
parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir.
Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero
amal-o!
--Mas porque?
--Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.
--E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá
separar-nos?
--Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de
Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não
renunciará á scena.
--É impossivel, disse?
--Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma
excitação de momento. Quando se prende o destino inteiro, deve-se
ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de
todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu
tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se
fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da
alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e
para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico
indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um
theatro.
--E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não
substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?
--Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou
certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio.
Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao
começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse
eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego.
Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que
estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a
que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como
eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande
fortuna. Seu pae por mais condescente que seja, não acceitaria para
nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e
assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae,
desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social,
seria eu a primeira--ouve?--que recusaria semelhante sacrificio.
--Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.
--É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.
--Mas eu que a amo, o que hei de fazer?
--Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel
d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o
fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa
de que não lhe faltarão essas duas qualidades.
--Está-me fallando como me fallaria meu pae!
--Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de
caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a
alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em
Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas
semanas.
--Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o
que resulta d'ella.
Quando o _coupé_ parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura,
Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão
e trocaram amigavelmente um:
--Até ámanhã.
O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos
_boulevards_.
Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.
Caminhou até que os passeiantes rarearam.
Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e
d'angustia.
VIII
Mais perplexidades
Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.
No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se
seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora
indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.
Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles,
sempre alegre, sempre espirituoso.
O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.
Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.
A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com
simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.
Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das
suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.
Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais
insignificantes minucias da vida de Laura.
A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os
exagerava.
No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com
Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a
multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes,
que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção
nervosa.
Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.
Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente
dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o
Theatro Italiano, contra Pozzoli e o _elenco_, que considerou muito
inferior ao do antigo salão Favart.
Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma
companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.
Lauretto Mina e Pozzoli!
Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!
Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!
Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos
italianos.
N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para
assistir á _soirée_ que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na
sua casa da rua Pigolle.
Laura tencionava ir?
Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.
Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.
--Não é um italiano... é um grego!
Laura respondeu com meiguice.
Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre
ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.
Entretanto não podia deixar d'ir á _soirée_, que era dada em sua honra,
e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.
Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a
repugnancia que sentia, e assistisse á _soirée_ tambem.
Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.
--Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura,
rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O
jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro.
Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo,
me deixar influenciar demais.
--A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha
amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.
--Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus
escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem
ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi
coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas
uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta
_luizes_. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma
razão para não deixar d'ir á _soirée_. Vae?
--Irei.
A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o
papel de seu protector e conselheiro.
Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse,
confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.
Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle tinha feito,
pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o
sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o
irmão mais velho.
Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou
entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.
A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.
Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa
modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o
caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais
da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.
E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.
Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.
Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que
experimentava.
Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os
inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.
Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos
antes de ter relações fraternaes com a cantora.
Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura,
tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma
serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de
suspeita.
Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o
tenor Lauretto Mina.
Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só
vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.
Porque?
A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.
Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas
impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas
varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava
o sabre.
Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.
Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.
Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.
Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do
combate.
E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer
acontecimento grave.
Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia
surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem
bretão.
Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.
Comtudo um dia Antonino interrogou-a.
--Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não
lhe fez a côrte em tempo?
A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a
côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira
galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a
continuar.
Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.
De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão
desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante,
suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.
Portanto deixou de ter ciumes.
Mas em compensação o amor augmentou.
IX
A confissão
Um dia,--na vespera da _soirée_ dada por Pozzoli,--Antonino foi a casa
de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.
A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares
hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição
inexcediveis.
Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.
Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.
Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.
Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.
Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:
--Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má
noticia? Estará doente seu pae?
--Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que,
felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim,
e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe
disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.
--Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto?
Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.
--Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.
--Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava
triste...
--Estou...
--E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...
--Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso
que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.
--Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda
satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas
semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de
dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De certo não me quer
entristecer tambem, e ainda menos offender-me.
--Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos
tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada
dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a
mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou
indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois
continuou:
--Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa
vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto
mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela
senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe,
não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel
que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...
Ella soluçou.
--Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de
pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir
ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos
á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a
seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e cuja
posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia
completamente impossivel renunciar á scena para sempre?
--Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma
segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.
--Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez
soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é
para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira!
Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.
E accrescentou com voz firme:
--Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!
Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.
--É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no
theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...
Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não
comprehendia a significação.
Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:
--Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...
Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:
--Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade...
não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...
N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella
em que estavam Antonino e Laura.
Era a voz de Lauretto Mina.
X
O supplicio do silencio
O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.
Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem
a expansiva Jacintha chamava bonitos.
--Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro
nunca incommoda!
E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.
A Linda empallideceu.
O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.
Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.
Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.
--Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de
o cumprimentar... Esta Jacintha a não me querer deixar entrar!...
Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas,
que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!
Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.
Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:
--Com que então cantamos ámanhã juntos, na _soirée_ de Pozzoli, o dueto
da _Lucia_! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos
ensaiar-nos, minha querida.
Antonino estava irritadissimo.
Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!
Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de
quarto!
Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.
Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo
menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse,
dando uma lição ao insolente.
Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do
visconde.
Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?
Do conflicto resultaria um duello talvez...
Aquelle miseravel mataria Antonino.
Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:
--Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...
--Como queiras, _cara mia_, replicou o tenor.
E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.
Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo
alegrava-se com ferocidade.
Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições
do visconde a indignação e o furor.
Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.
De resto, que podiam elles fazer ou dizer?
Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao
silencio.
Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma
palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida,
o visconde tinha o direito e o dever de intervir.
E o que se seguiria?
Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas
perigosas consequencias.
Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella
e levantasse qualquer termo insolente de Lauretto, faltaria ás mais
rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se
daria ares de mandar mais que a dona da casa.
O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da
cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.
E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.
Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia
desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.
--Não necessitas ensaiar o dueto, _cara_? Eu, desde que o cante comtigo,
estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta
correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se
canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro
successo! Ah! _cara mia_, que alegria sinto por cantar de novo a teu
lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me
que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das
affirmações d'aquelle demonio.
--É verdade, respondeu Laura em francez.
O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e
continuou na sua lingua:
--Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo! bravissimo! Se
elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da
melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do
nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir á
_soirée_ do nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder
d'outra fórma.
--Effectivamente era difficil recusar.
--Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a _casta diva_ não
acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos,
evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que
na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos
desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me
importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais
sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de
sultanas,--aquelle sultão!--o pobre tenor é forçado a ser,
successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que
fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?
--Não, respondeu Laura com firmeza.
--Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer
de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma
prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não me incommoda
com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de
baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã
dansarão na _soirée_ um bailado a caracter. Não te assustes, _casta
diva_, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros
divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é
verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que
calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas
isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta
descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli
é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos
decerto jogarás algumas _mãos_ de _baccara_.
--Não sei, respondeu Laura impaciente.
Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:
--E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por
outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha
uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse
um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é
por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um
pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou
apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos,
porque já matei dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo
quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não
admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de
o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é
apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como
os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?
Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.
Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.
Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala,
e annunciou:
--O sr. dr. Despujolles.
O medico cumprimentou Laura e o visconde.
Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser
muito familiar com elle.
Disse apenas:
--Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles.
Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega.
Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no
_Barbeiro_. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos
preparativos para a _soirée_. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr.
visconde... um seu humilde creado...
Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.
--Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!
Laura e Antonino não responderam.
Elle olhou-os admirado.
--Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!
--Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe
chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se
atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux
desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do
nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o
primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é
immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os
homens bem educados,--e no theatro tambem os ha, e muitos,--quando
encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe
fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas
ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto
o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um
pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto
fallou, Laura nem por um instante desfitou Antonino, cujas feições
indicavam um profundo desgosto.
Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou
de intervir como calmante, dizendo:
--O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por
completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o
que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois,
que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de _tu_, que,
comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.
--Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino
com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da
linguagem foi a propria linguagem.
--Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com
vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.
--Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um
olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.
Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle.
Portanto Laura limitou-se a responder:
--Não quiz dar importancia ás inconveniencias d'esse homem, para
que elle julgasse que nem reparava n'ellas.
--O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior
cotação para que se dê importancia ao que diz.
Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.
--Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez
tinha uma importancia enorme...
E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar,
confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe
muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me
propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.
Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se,
dizendo a Laura:
--Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na _soirée_ de Pozzoli.
Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou
antes, soffrer sem testemunhas.
Fez parar Despujolles com um gesto.
--Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que
desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.
Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:
--Espero que cumpra a palavra dada. Irá á _soirée_, a que eu não posso
deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a
promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e
como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:
--Sim, irei á _soirée_ de Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe
por completo nos habitos dos artistas!
Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no
coração.
XI
Ouro, lama e sangue
A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.
N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se
escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as
salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser
d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.
Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor
sociedade parisiense.
As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.
Encontravam-se alli artistas de primeira ordem, como a Linda, e
outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham
direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza
ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.
O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem
dividido para recepções e festas de qualquer natureza.
Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um
certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.
A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.
Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo
patamar, protegido por elegante cobertura.
O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e
vermelho, em losango.
A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco,
e de marmore vermelho o corrimão.
Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das
folhas largas e flexiveis.
As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas
de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma
claridade discreta.
O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre
enorme, e ornado de oito espelhos.
N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.
No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho
elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal
simples, o busto de Rossini.
Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado
d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.
A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.
A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram
no primeiro andar.
A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de
velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.
Parecia que não se poderia respirar á vontade.
Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.
Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos
candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia
penetrar alli.
As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados,
estavam como que impregnados d'um perfume capitoso, que tornava
pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.
Ás onze horas os salões começaram a encher-se.
Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.
Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de
dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:
--Tens a certeza de que a tua _casta diva_ não deixa de vir? Não achas
possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?
--Acho...
--Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a
custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a _soirée_ d'esta
noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas,
escriptas a seguir ao nome: _acceita o convite do sr. Pozzoli_.
Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!
--E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.
--Sim!... Porque?
--Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o
visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura.
Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta do
successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!
--Com a Linda?
--Não... Vem com o conde de Vireuil.
--Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!
--Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.
--Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!
--Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o
dinheiro...
--Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não
estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!
--Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com
elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.
Alguns minutos depois chegava Laura Linda.
Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.
Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia
resaltar admiravelmente a brancura _mate_ da sua cutis d'andaluza.
Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de
margaritas em brilhantes.
Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.
Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas
semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez
dos pés.
Esta _toilette_ um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel
belleza da cantora.
Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da
cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva
do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense,
para quem o verdadeiro sol é a luz das _soirées_.
Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.
--Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela
sua chegada...
--Porque?
--Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...
Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os
convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.
Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.
Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma
nuvem de tristeza.
O concerto começou pouco depois.
Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da
_Lucia_, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo
trecho.
Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou
podia ter de sentimento.
Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais
vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez,
não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.
Ainda assim o successo não foi menor.
Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações
sobre o _Carnaval de Veneza_, a que deu o mais extraordinario e
admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.
Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um
trecho da _Mancenilheira_.
N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!
Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!
Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se
esforçava por cantar com surprehendente habilidade.
O effeito foi extraordinario.
O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.
Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar,
abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.
Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e
columnas de marmore.
Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.
Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.
Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de
Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe
depois:
--Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.
E accrescentou:
--O sr. visconde de Bizeux.--_Madame_ Elvira.
A Elvira gorda,--porque era a dona da casa em pessoa que fôra
apresentada a Antonino--desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.
Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer
tão distincto gentilhomem!
Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás
expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.
Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das
mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.
A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o
ainda.
Era branca e loira.
Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.
O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo,
admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços
soberbos.
Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia
com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.
Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de
lhe apontar o mais insignificante defeito.
--Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista.
Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de
brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis
predicados de coração.
E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para,
disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.
Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe
fazer as honras da casa.
Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas
de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por
originaes authenticos.
Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual
_pousara_, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples
pelle de panthera.
E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou
admiraveis as formas.
--Quer vir á sala do jogo? Gosta do _bacura_? perguntou ella.
--Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles
surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como
está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.
Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo
inexplicavel inquietação.
Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.
Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do
tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o
visconde.
O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas
attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.
Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.
Era o ciume.
O que quereria aquella mulher a Antonino?
Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão
que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.
Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli
dispensava ao sr. de Bizeux?
Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.
Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de
mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.
Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as
phrases ternas d'aquella mulher?
E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.
Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.
Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe
dissera o emprezario.
Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos _habitués_ sob a designação da
sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados
de veludo d'aquella côr.
Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis
que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes
cada um, collocados nos angulos da casa.
Laura sentou-se, pensativa.
Ao principio não quiz jogar.
Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a
tomar pelo jogo o mais vivo interesse.
Chegou-lhe a vez de fazer _banca_.
Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença
d'espirito.
Perdeu todos os _baccaras_.
A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil _luizes_ n'um
instante.
Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:
--Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!
A previsão não se realisou.
Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.
O azar continuou.
Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte
singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe
pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.
A gorda Elvira segui-os de longe.
Laura viu o visconde assim que elle entrou.
--Ha vinte mil francos de _baccara_, dizia Pozzoli.
--Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de
desafio.
Pozzoli deu as cartas e ganhou.
--Ha quarenta mil francos... disse elle.
Laura ia abrir a bocca.
Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe
em voz baixa e supplicante:
--Peço-lhe que não jogue mais!
Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:
--Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.
--Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para
outra vez!
Pozzoli empallideceu.
Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.
O emprezario ganhou ainda.
--Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.
--A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma
sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.
E levantou-se da mesa.
O _banqueiro_ que se seguia, deu ainda quatro _baccaras_.
Antonino continuava sorrindo.
O emprezario não o desfitava.
O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.
Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte,
e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de
Antonino, a quem disse em voz baixa:
--Não joga, senhor visconde?
--Não...
--Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...
--Pois sim.
--Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me
uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.
--Queira dizer.
--A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias.
Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.
--Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.
--Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.
E accrescentou em seguida:
--A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor
adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.
Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida
_baccara_, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo
colloquio do visconde com Pozzoli.
Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.
Laura procurou então o emprezario com o olhar.
Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.
Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu
entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.
Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.
Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em
frente do outro, de sabre em punho.
--Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.
Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre
varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao
visconde, sem pronunciar uma só palavra.
Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera,
escolheu um e deu o outro a Pozzoli.
--Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não
será mais do que o effeito d'um accidente?
--Está.
Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam com
curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de
camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.
Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que
deixamos dito sem serem percebidos.
Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a
gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.
Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:
--Vamos para a galeria grande. As _pequenas_ vão executar a dansa das
bailadeiras.
O emprezario franziu as sobrancelhas.
Por fim respondeu com voz brusca:
--Logo dansarão.
Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.
E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um _divan_, e
accenderam umas cigarrilhas.
Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos,
um pouco ironicos, dos assistentes.
O violinista, já cançado, disse:
--Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.
E ajuntou, sorrindo:
--De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.
N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:
--Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide,
para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente
desagradavel.
--D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.
E em voz alta disse:
--Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença,
que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de
ser meu adversario?
--A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.
Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem
os primeiros que encontrassem á mão.
Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:
--Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de
botões dos floretes.
A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre
avermelhado, trabalhada com arte.
Estava suspensa ao centro da casa.
As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na
sombra.
Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.
Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.
Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de
momento a momento.
Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.
Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento,
_parando_ com toda a rapidez e _ripostando_ vigorosamente.
Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira,
percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.
Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de
dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:
--Sabes, Elvira?...
--O quê?...
--Estás prestes a enviuvar, minha querida.
--Pois suppões?...
--Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.
--Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...
--Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja
que o visconde é de primeira força. Repara para elle...
Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a
sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.
Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o
conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:
--Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr.
conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.
O conde inclinou-se e sahiu.
Demorou-se dez minutos.
Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.
Por fim o conde voltou.
Vinha só.
Laura perguntou-lhe, logo que o viu:
--E então?... Pozzoli?
--Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle
na sala d'armas.
--Ah! Fallou-lhe?
--Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um
assalto ao florete.
--Com quem?... com quem?...
--Com Bizeux.
Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.
Estava pallida como uma morta.
Passados instantes disse ao conde:
--Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão
curiosa!
Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.
Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.
Laura apressou o passo.
Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido--porque
tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um
adversasario de primeira ordem,--concentrava toda a sua vontade e todos
os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.
Comtudo sentia-se perdido.
No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli
_parou_, curvando-se.
A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não
tinha botão.
--Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.
Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.
Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois
segundos.
Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o
visconde não teve tempo de defender-se.
A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.
Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.
Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena
tragica.
Transportaram o ferido para um _divan_.
Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:
--Fui eu que o matei.
O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.
Passados momentos, disse:
--Ferida quadrangular!... Não sangra!
Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas
sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia
comsigo.
O rosto alegrou-se-lhe.
Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:
--Então, dr?...
--O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.
Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para
Lauretto Mina com aspecto consternado:
--Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós,
a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma
noite dormirá em minha casa!
E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como
aquelle de que se servira.
Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura,
sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.
Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.
--Pode já ser transportado, disse elle.
--Irá na minha carruagem, observou Laura.
--Não. Uma padiola é mais conveniente.
Foi improvisada a padiola sem detença.
Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.
O visconde continuava sem sentidos.
Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em _toilette_ de
baile, os conductores perguntaram:
--Para onde devemos seguir?
--Boulevard Haussmann.
--Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.
--Mas... ia a observar Despujolles.
--Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para
minha casa!...
--Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se
entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos
significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...
E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:
--Levem o sr. de Bizeux...
--Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que
o levem para minha casa!
Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até
pela manhã.
Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.
Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.
Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o
assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.
Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o _boulevard_:
--Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli.
Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.
Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com
Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:
--Vamos para o salão reservado.
Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam
senão os intimos do emprezario.
Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes
mettidas em vidros de côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e
sensual.
Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um
largo _divan_ baixo, que circundava toda a casa.
Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a
mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.
A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante
do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios,
entre-abertos.
--Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para
o _divan_. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de
mim. Vou desforrar-me!
Carregou n'um botão.
Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.
--Antonio, _chypre_ para mim, e _champagne_ para a senhora e para o sr.
Lauretto Mina.
--Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro,
palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!
--Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou
Pozzoli, tirando das algibeiras, á mistura, notas de banco e moedas
d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.
Depois d'alguns instantes de silencio continuou:
--Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o
diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco
mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de
desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida.
Ah! é tão bom viver!
--O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por
muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste?
A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar
loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos
teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!
--Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.
Lauretto riu-se.
--Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por
elle. Has de ser amante de Laura!
E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.
Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:
--São para ti.
--Obrigado, Eurico!
E accrescentou dando as outras duas ao tenor:
--E estas para ti, Lauretto.
O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.
--Pois nem me agradeces?
--Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam
explicações.
--Então restitue-me o dinheiro!...
--Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que
tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.
Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.
Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.
Os tres começaram a beber em silencio.
Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.
De repente interrompeu as libações para dizer:
--Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...
--Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as _pequenas_.
Carregou no botão d'uma campainha electrica.
Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.
Elvira disse-lhes:
--Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.
Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o
instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando
gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.
As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas,
brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.
Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo
_divan_.
Quando o bailado acabou, elle berrou:
--Mais! mais!...
--Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.
--Então bebamos!
--Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.
E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma
garrafa.
Pozzoli encheu-o de vinho de _chypre_.
Depois de beber a grandes golos, disse:
--Ah! isto consola!
E bebeu o resto.
--Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.
--Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se
dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.
Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e
accendeu um cachimbo.
--Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu
já não bebo...
Mas elle continuou a fumar em silencio.
Pozzoli rolára do _divan_ para o tapete, balbuciando:
--Deem-me de beber!... Quero _chypre_!... Estão na mesa quinhentos
_luizes_... Aposta, visconde?...
As quatro bailarinas descançavam, sentadas no _divan_, de pernas
cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.
Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.
Ellas desappareceram immediatamente.
Entretanto Lauretto bebia e fumava.
--Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira
gorda.
E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o
cachimbo da bocca.
Elle deu-lhe um murro.
--Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas,
não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao
longe... Ah! Laura!...
As palpebras cerraram-se-lhe.
No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.
--Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas
executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos
cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os
fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a
harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas...
Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a
sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...
Calou-se.
Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo
socegadamente a bebedeira.
Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.
Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da
innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos
entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.
Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo
despresadoramente:
--Que dois brutos!
E entrou, só, no quarto da cama.
XII
A cura
Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu,
atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa,
que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para
lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.
Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe
palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam,
socegando-o.
Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.
A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello terrivel,
Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.
A sombra branca lá estava junto d'elle.
Não sonhára, pois.
Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia
por entre as lagrimas.
O visconde reconheceu-a.
Sorriu-lhe tambem e murmurou:
--Laura!
--Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda
completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi
essa a recommendação do doutor.
Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:
--Laura!
Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:
--Onde estou eu?
Despujolles entrava n'esse momento.
--Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que
chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!
--Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse
facto, respondeu Despujolles.
E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:
--Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.
--É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que
succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...
--Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu
amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo
patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa
querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no
salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de
proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana,
o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma
enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse
algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via
de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu
medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.
--Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe
reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.
Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão
descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram
pelas faces:
--Como é estupido chorar d'alegria!
--Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco
d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.
Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento
e amor.
--Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando
estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir,
não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem,
addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao
ferido todos os esclarecimentos necessarios...
--Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.
--O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se
passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe
expliquem o caso...
--Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...
--Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais
de tres palavras.
--Oh! doutor!...
--Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a
condição de que depois serão mudos como dois peixes. Adeus, meu
caro visconde, até ámanhã e juizo.
Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.
O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo,
recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.
O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia
a volta de Laura.
A cantora entrou.
Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente,
ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:
--Amo-o!
Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.
Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe
aquelle amor, que existia latente no seu coração.
Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.
Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a
mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão
e permittindo que ficasse no theatro.
A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu
contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe
torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar
o offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem
hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.
Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento
pelo cego amor do visconde.
Na _soirée_ de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que
sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a
attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como
pertencendo-lhe.
Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases
pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que
experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?
Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da
Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez,
e morto por ella!
Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.
Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou
vivo.
No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle
miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava
assassino, nem mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha
roubado ao jogo.
Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que
possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro
modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.
Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.
Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara,
attribulada, o soffrimento do ferido.
Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de
perigo.
Elle estava salvo, e ella salva tambem!
Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.
Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que
confranger-se, nem que hesitar.
Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que
pertencessem um ao outro para sempre!
A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.
Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e
enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força
e a vida lhe voltavam gradualmente.
A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a
Antonino e não consentia que elle fallasse.
Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se
ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o,
sem que o doente corresse risco de peorar.
Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.
--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor,
fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem
que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero
provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para
satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no
theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido
duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor
está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a
fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito
com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a
pouco exporei, renuncio ao theatro.
--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.
Ella continuou:
--Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me
conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o
nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do
conde de Marcia. A Linda desapparecerá.
--O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu
repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha
querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo
affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do
sacrificio?
--Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha
pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio
firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os
tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o
meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da
mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus
successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou
d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel
necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda
que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora.
Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de
gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte ao que era
no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono
apenas pelo muito amor que lhe tenho.
--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de
satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto,
fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.
--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu
caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel
que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se
eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a
opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente,
Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?
Elle reflectiu alguns instantes.
Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:
«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura
Marcia, minha mulher, e...»
Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:
--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando
quizer, que a porta está aberta.
--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.
E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor.
Concluamos o nosso romance.
A conclusão foi a seguinte:
Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.
Trataram do casamento com todo o segredo.
Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.
Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente
restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação
do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no
consulado de França.
Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.
Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.
Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.
Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a
felicidade diminuisse.
Trespassaram a casa da rua de Bolonha.
Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os
restantes vendidos.
Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann,
residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.
Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da
sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.
Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia
estipulada no contracto para a rescisão d'elle.
--Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao
emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da
virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor
o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.
Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem
informado_:
«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um
contracto fabuloso que assignou para uma _tournée_ nos Estados-Unidos.»
Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_:
«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que
esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante
a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo,
prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»
XIII
Regresso a França
Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de
Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor
de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de
regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.
O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e
aspecto veneravel e terno.
A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.
Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto
das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta
estirpe.
O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia
tornar a vêr depois de prolongada ausencia.
Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára
durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.
A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo
finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e
ternos, de que o rodeava.
Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.
A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições
menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.
O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que
estivera escripturada em diversos theatros.
Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de
Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não
estar em contacto com uma _comediante_.
Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a
desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um
conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.
Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro
amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção
de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto
da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o
amor, o amor profano, que vencera.
Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava,
insultara a memoria de sua mãe.
O vapor de Jersey não tardou a chegar.
Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente
deu um abraço na irmã.
O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e
apresentou as duas senhoras uma á outra.
Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma
identica áquella por que fosse tratada.
Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:
--Senhora viscondessa!...
--Minha senhora...
As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.
Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se
n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas
casas.
O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio,
fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.
As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de
communicação em todos os andares.
Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.
O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos
navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a
cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a
vista do mar.
Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.
Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois
almirantes francezes.
O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida
simultaneamente separada e commum.
Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.
De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas
uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa
ás pessoas mais intimas.
Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a
Saint-Pol-de-Léon.
Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse
ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.
Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a
filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e
encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na
hypothese d'uma revelação sempre possivel.
Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista
que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se
immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e
mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e
hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de
dever ser, no fundo, um pouco monotona.
Laura, porém, não dava por essa monotonia.
Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da
acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.
O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.
A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.
Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o
melhor da vida.
Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil,
visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas
paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.
Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.
Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada
para servir no quadro do seu amor.
Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar
por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.
O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre
aquelle perpetuo colloquio.
Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.
Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante
mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou
nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.
Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do
homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.
--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a
voz.
--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...
E teria ella saudades, effectivamente?
O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por
isso, sem prejuizo d'outros predicados.
Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que,
excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e
mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.
Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo
publico.
Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles
annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham
tambem o seu encanto.
E como estavam d'accordo, regressaram a França.
XIV
A vida no castello
O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de
legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em
que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das
colinas.
Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava
cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito
retirada.
No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.
Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e
encontros.
Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé, as immediações do
castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens,
recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e
ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a
nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.
A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.
A solteirona dizia por vezes comsigo:
--Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a
recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.
Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.
O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a
Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase
brilhante, que lhe occultavam.
Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra
pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.
--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á
mesa com uma _toilette_ que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que
estamos no campo!
--Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.
--Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja
agradar? A meu pae?
--E porque não?
--Agradecido! disse o conde sorrindo.
--A seu marido?
--Certamente...
--Um marido não é um amante, minha querida!
--Para mim é.
E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.
Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto
ironico e altivo.
Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer
Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de
sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.
Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista
religioso.
Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era
crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.
Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens
seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.
Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro
ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.
As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia
em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar
nas vesperas dos dias santificados.
Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma
impia, votada ás chammas eternas!
De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia
da sua convivencia.
Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.
E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos
mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de
sua cunhada.
O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se
verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava
qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.
Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com
indulgencia.
Se, porém, a palavra _amor_ fosse uma só vez pronunciada, levantava-se
cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.
Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema
musical frequentemente usado pelos compositores.
Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.
Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes
parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de
theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.
O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!
Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!
Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo
occupado d'ella!
Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo
percebia que Paris lhe faltava.
Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á
inauguração!
Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no
coração o amor que tinha por Antonino.
É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas
elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao
casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.
O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros
tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.
E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella
manhã de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando
ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam
sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco
as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se
direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto
Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que
Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.
Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso,
ou descia até á praia.
Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle
segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias,
que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas
de liberdade.
Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que
subia.
E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as
saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia
o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.
Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.
Acharam um ninho de melros.
Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.
Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que
os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.
Eram cinco.
No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com
voracidade.
Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.
--Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.
No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.
A mãe estava no ninho.
Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando
depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os
filhos á mercê de seres humanos.
Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos
passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de
bolo, que previamente amolecia entre os labios.
Ao outro dia foram tambem ver o ninho.
Estava vasio.
O pae e a mãe tinham levado os passaritos.
Laura ficou triste, sem saber porque.
Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura
respondeu:
--É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!
Depois d'um momento de silencio, perguntou:
--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?
--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.
--Como as aves são felizes!
Antonino comprehendeu.
Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e
esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.
Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o
bretão é marinheiro.
Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.
Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.
O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga
facha vermelha, e tinha meia coberta.
Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval,
cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.
Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as
provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente
espaço para dormir ao abrigo do vento.
O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma
vela grande e d'uma bergantina.
Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se
inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle
unico panno.
Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a
chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente
á canna do leme.
Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura
toda a manobra das velas.
Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a
embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.
Muitas vezes embarcavam de manhã.
Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.
Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo,
armava a vela.
Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na
camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.
Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:
--Larga!
O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.
O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o
croque, e puchava a canna do leme para bombordo.
A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes
como indecisa, e por fim vogava.
Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.
Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e
mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.
Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com
grande inquietação do conde.
O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia
parar.
O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.
Laura sentia-se bem a bordo.
O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que
faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.
A caça divertia-a muito menos.
Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á
tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.
Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe
offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.
As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe
mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.
Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel
dignidade, que a propria Estephania se admirava.
Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para
Laura, verdadeira importancia.
Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.
Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal,
emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de
Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo
XV, no gosto de Folgoet.
A obra terminara emfim.
Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.
O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria
proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.
Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os
castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar
que só ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.
Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o
conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello,
esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra
tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.
Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por
subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o
arcebispo era presidente.
Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio
principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para
material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.
Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o
arcebispo desejava fallar com o conde.
Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção
de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle
desempenhava.
Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e
coristas da cathedral de Rennes.
A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir
sensação, como effectivamente produziu, mas devido talvez a uma
circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.
Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do _monsenhor_ lhe
merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.
Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se
uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão
d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o
auditorio maravilhado.
A mesma voz cantou depois o _offertorio_ do mesmo compositor, com tal
arte e vigor que a todos causou espanto.
O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa,
balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.
Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade
do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.
Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na
sachristia, foi:
--Mas quem é a admiravel _virtuose_ que a todos nos encantou?
O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:
--Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de
apresentar-lhe, monsenhor.
--Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse
o arcebispo.
E depois accrescentou:
--Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má...
Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.
Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um
certo sabor particular a mistura que havia do padre e do _dilettante_.
Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos;
Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não
sabia se devia estar satisfeita ou vexada.
Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.
Era o seu primeiro successo em dois annos!
XV
Saint-Malo
Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando
chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.
Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de
rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.
Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa
pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente,
diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.
O doutor demorou-se um dia no castello.
A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque,
como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.
Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.
Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e
attenções constantes.
O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que
fazer, pois?
O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.
Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.
Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um
vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.
Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto
do planalto da cidade.
O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello
Antonino e a esposa.
Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:
--Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á
cabeceira do leito da irmã de meu marido.
Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a,
principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:
--Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...
Laura, a _impia_, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto
que Estephania, a _devota_, a temia sobremaneira, como d'ordinario
succede a todos os espiritos fracos.
Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais
opposição, o offerecimento de sua cunhada.
Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo,
Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento
desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.
Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse
simplesmente a Laura:
--Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria
procedido da mesma fórma.
--Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.
D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em
Saint-Malo.
A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta
ao castello.
Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura
apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.
Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto
observar uma e outra.
A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.
Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da
bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o
cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as
sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de
Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas
deixam apenas estreitas passagens aos navios.
O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes
acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e
penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam
arrombar.
Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios,
rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco,
estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva
dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia,
durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.
As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas
muralhas.
Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em
turbilhões d'espuma, a enorme altura.
A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões
da agua.
As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas
geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas
pela impetuosidade das ondas.
Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos
quaes o vento arrebatou as imagens.
A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua,
transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente
larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.
D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus
habitantes.
Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a
sua lealdade rude.
A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da
provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez
emprestaram cincoenta milhões de francos.
Que de mudanças se teem operado!
Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto
periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a
França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão dos
jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o
caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á
França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin,
Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.
O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um
formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.
Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.
Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os
esforços para que o povo adore a republica.
Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos
aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas
e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa,
logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis
intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas,
isolados n'aquelle entorpecimento provincial.
D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.
Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal
facto produziu a mais insignificante mistura de castas.
O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.
Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de
Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.
XVI
A sr.ª baroneza
A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade
em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de
trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a
disputar-lhe a elegante auctoridade.
A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o
conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se
até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.
Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera
d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada,
onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas
recordações.
O barão de Pontual era um insignificante.
Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o
conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse
caminhar.
Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter _alma d'artista_,
o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.
Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á
baroneza faltava simplicidade e sinceridade.
Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a
pintura e a musica.
A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança
da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.
Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da
marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres
estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.
Em pintura _orvalhava_ as suas aguarellas, e _dava vida_ ás paysagens.
Mas a sua arte predilecta era a musica.
Possuia voz agradavel, mas mal educada.
Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de
piano de Lecouppey.
Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.
O seu deus era Gounod.
Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser _quasi
sempre extravagante, mas algumas vezes sublime_.
A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a
viscondessa, inquietou-se.
Laura era mais formosa e mais nova que ella.
Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do
que a do barão de Pontual.
Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.
Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa,
que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.
A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.
--A viscondessinha é encantadora! disse ella.
O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da
fundação do hospicio para marinheiros.
O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da
mesma commissão.
Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.
Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para
prefazer a quantia julgada indispensavel.
Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil
francos.
O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o
restante, dando um grande concerto.
Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.
Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados,
e attrahissem a Saint-Malo a _élite_ da nobreza e da finança de toda a
Bretanha.
A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e
dirigir aquella festa.
Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes
nas classes baixas.
O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu
concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.
O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que
devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos
salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento
dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a
curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.
O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.
O conde de Bizeux offereceu o seu.
A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente, viu-se
obrigada a fazer as honras da casa.
O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de
caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o
brilho do concerto.
Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o
seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa,
tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.
O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.
Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.
A baroneza devia cantar, no concerto, a _Ave Maria_ de Gounod, o seu deus.
D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de
musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.
Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim,
fazer-lhe os seus cumprimentos...
Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.
Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos
cumprimentos com a mais falsa das modestias.
--Não, não... Favores!... Hoje não estava com voz... De certo
reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...
--Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou
Laura com simplicidade.
--Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...
--Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o _crescendo_
phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio,
faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a
intensidade de tom possivel.
--Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.
E depois d'um momento de silencio, perguntou:
--A sr.ª viscondessa sabe musica?
--Um pouco...
--Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria,
cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.
--Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...
--Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.
Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente
conselheira.
Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.
Começou muito _piano_, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.
Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.
Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal,
manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes,
admirados, romperam em bravos e palmas.
Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho
de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.
A baroneza de Pontual ficou abysmada!
A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.
Entretanto assaltou-a uma duvida.
Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente
revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e
mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de
primeira ordem?
Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.
--Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora,
ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?
Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o
logar que lhe pertencia.
É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a
baroneza não desejava occupar o segundo plano.
No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de
Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.
O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome
d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais
brilhante successo.
Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.
Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que
ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto
revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.
Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o
raro talento da nora do conde de Bizeux.
Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse
manifestar o seu talento em publico?
Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser
modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.
Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a
viscondessa.
Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe se
queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.
Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.
Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.
O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a
sua contingente para tão santa obra.
A Linda desapparecera havia mais de dois annos.
Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade
tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao
corrente do movimento dos theatros parisienses?
O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.
--Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.
--Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em
condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o
facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu
filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome,
nem a mim por lhe chamar filha.
Houve um momento de silencio.
O conde, passados instantes, accrescentou:
--Nada tem no seu passado, Laura, de que deva envergonhar-se.
Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria
contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade.
Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão
fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes,
que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o
primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o
pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais
tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais
favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho
foi cantora.
Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou
que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.
De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.
Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e
cantar em publico.
Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.
A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.
Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da
capella.
Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a
_Ave Maria_ de Gounod, experimentára maior satisfação.
Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos
bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.
O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico
numeroso?
Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?
Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!
Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?
Não.
Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura
da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do
novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.
N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas
dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá
dentro d'algumas semanas.
Mas a Linda não estava longe!
Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.
Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel
no seu coração.
Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.
Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e
que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.
Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém,
a coragem de os expôr.
Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella
não devia cantar no concerto de benificencia.
O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do
pae. Ella, por fim, disse:
--Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu
interesse pessoal, mas o interesse da familia?
--Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e
somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.
Laura, replicou então:
--Visto assim o quererem, cantarei no concerto!
N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:
--Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa
X... cantará as arias _Fidelio_ e o _Rei dos Alamos_.
XVII
A tempestade
O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de
setembro.
Faltavam, pois, dez dias.
Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.
Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no
concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?
Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.
Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier,
nunca a tinham visto.
Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os
nomes d'outros artistas.
O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.
Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente,
bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia
do concerto.
Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do
Monte de Saint-Michel.
Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as
costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.
O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida,
receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.
A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a
intervenção da que ella considerava sua rival.
Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais
longa que ainda tinham feito.
A viagem foi encantadora.
A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo
uma verdadeira delicia.
Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam,
jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que
deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.
Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de
carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.
Não abriram um jornal.
Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.
Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.
Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.
Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo.
--Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse
as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.
Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!
Na vespera do concerto estavam em Granville.
Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao
hotel, onde tinham passado a noite.
Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.
--Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente
voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.
--Porque?
--Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar, é provavel que,
antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a
nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem.
--_Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!_
disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de
Chateaubriand.
E accrescentou n'outro tom:
--Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.
Antonino dissera a verdade.
O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens
ameaçadoras.
--Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que
o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a
tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor,
Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu
lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a
nossa socegada viagem.
--Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir
por alguns momentos.
--Quero.
--Que a tua vontade seja feita.
E embarcaram.
Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.
Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se ao largo. Durante as
duas primeiras horas correu bem a viagem.
A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.
O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem
novidade.
Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e
as ondas encapelaram-se.
A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda,
cuja espuma chegava ao cimo do mastro.
O mar embravecia de minuto para minuto.
O vento refrescava cada vez mais.
A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao
nivel das ondas.
Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar
descanço ás vagas.
Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.
Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.
As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento
contrario, elevaram-se a enorme altura.
Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.
Houve um minuto de indiscriptivel cahos.
O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido
ensurdecedor.
A chalupa corria rapida como um vôo.
Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento,
encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão.
Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava
perdida.
Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.
Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da
destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças
naturaes.
O ceu assombreava-se cada vez mais.
Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas
extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a
Antonino:
--Corremos grande perigo, não é verdade?
--O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.
--Para onde diriges a chalupa?
--Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois
kilometros. E agora, minha querida, silencio!
Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre
todos, feliz por se saber protegida por elle.
Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?
Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por
aquelles dois entes cheios de vida.
Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.
Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um
ligeiro calafrio.
Mas, depois, socegou por completo.
Pensava apenas:
--Se nós fossemos separados por alguma vaga?
E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas
forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima
do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço
d'Antonino. Depois disse:
--Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!
A tempestade attingia o paroxismo.
As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.
O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.
As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.
A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso
das ondas.
Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer
pouco depois, continuando na carreira rapida.
A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a
espuma franjava phantasticamente.
Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia
encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.
Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que
corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos
temerosos.
N'essa occasião a vela rasgou-se.
Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.
A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.
A chalupa esteve prestes a submergir-se.
A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.
O porão encheu-se d'agua.
Felizmente chegavam.
A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...
Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma
enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa
afundava-se na areia.
Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.
Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra, que o visconde atou
solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.
Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos
braços.
Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.
Estavam salvos!
XVIII
O encontro
Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto
ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.
Na praia estava amarrado um barco.
Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.
A casa estava aberta e vazia.
Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.
Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sit
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