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A Chave do Enigma

by Antonio Feliciano de Castilho · Portuguese · Gutenberg #32002 · 311,790 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of A Chave do Enigma
    
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Title: A Chave do Enigma

Author: Antonio Feliciano de Castilho


        
Release date: April 15, 2010 [eBook #32002]
                Most recently updated: January 6, 2021

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/32002

Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
        of public domain material from Google Book Search)


*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A CHAVE DO ENIGMA ***




Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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                          OBRAS COMPLETAS

                                DE

                   ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

                             VOLUME 2.º




VOLUMES PUBLICADOS:

I--Amor e melancolia.

II--A chave do enigma.

NO PRÉLO:

III--Cartas de Ecco e Narciso.



[Ilustração]

CASTILHO

AOS CINCOENTA E NOVE ANNOS

(Reproducção de uma litographia feita em Paris por Desmaisons sobre
photographia feita em Lisboa por Nasi)



                   OBRAS COMPLETAS DE A. F. DE CASTILHO

        Revistas, annotadas, e prefaciadas por um de seus filhos

                                     2.º

                             A CHAVE DO ENIGMA

                                NOVA  EDIÇÃO


                                   LISBOA
                       Empreza da Historia de Portugal
                             _Sociedade editora_
                              LIVRARIA  MODERNA
                               _R. Augusta 95_
                                 TYPOGRAPHIA
                             _45, R.  Ivens, 47_
                                    1903




ADVERTENCIA ESPECIAL Á «CHAVE DO ENIGMA»


Quando sahiu em 1862 a nova edição do _Amor e melancolia_, entendeu o
poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou _A chave do
enigma_.

N'essas paginas de brilhante prosa explicou ás legitimas curiosidades do
publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro
de Vairão. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice,
illustrando as suas formosas paginas com esboços de retratos de familia:
sua Mãe, seu Pae, seu irmão querido, e outros, que servem de documentos
autobiographicos, entre descripções de sitios, e ricas digressões sobre
variados assumptos.

A incognita de Vairão era a senhora D. Maria Isabel de Baêna Coimbra
Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem
pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de
Novembro de 1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de
D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal.

Algumas rapidas annotações irão acompanhando o texto; no mais deixemos
falar o poeta. Melhor que ninguem nos saberá iniciar nos segredos da sua
vida, que n'este livro decorre desde 1800 até 1837; isto é: desde o
berço d'elle até á campa da sua virtuosa e digna primeira mulher,
inspiradora, companheira, confidente, e amiga.

São paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.

                                                             OS EDITORES.




_Áquella que já não sente, pendura com mão tremula n'um ramo do seu
cipreste esta pequena corôa_

                                                        _O Autor._




A CHAVE DO ENIGMA


                                                        Dezembro de 1861

Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.

Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de
interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr,
por verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos
poucos para quem um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em
quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entrereclamam
emboscadas, supprem conversações, leituras, e até pensar.

Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar,
muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para
quem m'o inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por
ventura o ouve. Será um devaneio, e um solilóquio; será uma folha
sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos
dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou á
fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.

Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que
fosse necessario.


I

Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito facil;
mas tentemos.

Levanta-se logo a primeira difficuldade d'este capitulo na averiguação
da identidade:

Reflicta cada um comsigo mesmo n'este grave ponto: ¿a repetição de nome,
a similhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da
indole primitiva, dos gostos, e das relações activas e passivas com as
pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa
philosophia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e unico
indestructivel no meio da metamorphose universal? ¡Embaraçoso problema!

O espirito immaterial e immorredoiro quer, por instincto, por egoismo,
por fé, acredital-o; mas o estudo da Natureza, e a propria experiencia
quotidiana, desmentem em boa parte essa presumpção.

O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas
vezes a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações;
renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua
carne de hoje era ainda hontem vegetaes, ruminantes, aves, peixes, agua
nas fontes, gazes na atmosphera, calorico no sol, terra debaixo dos pés,
e electricidade sabe Deus por onde; congregaram-se essas myriadas de
particulas... existiu; ámanhan partirão, todas ellas destacadas para
novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a
fuga, porque outras particulas, accorridas do universo, terão vindo
rendel-as sem estrondo nem abalo.

N'este sentido cada individuo é simultaneamente filho, irmão, e pae,
influidor e influido, conservador, destruidor, modificador, herdeiro,
usufructuario, e testador, de quantos entes sensitivos, vegetativos,
inorganicos, imperceptiveis, imponderaveis, são, como elle, parcellas
componentes do planeta em que elle se proclama senhor e potentado.

Mas se esta desidentificação incessante do corpo escapa ás nossas
percepções, por não apresentar de hora para hora mudanças apreciaveis no
ser, no sentir, e no pensar, já assim não é quando nos outros, e em nós
mesmos, confrontâmos a infancia com a puericia, a puericia com a
adolescencia, a adolescencia com a virilidade, a virilidade com a
velhice, a velhice com a decrepidez; ou, supprimindo os graus
intermedios para maior evidencia, a caducidade com a madureza, a
madureza com o desabrochar no berço.

¿Que ha ahi de commum?!

Unicamente o nome, accidente impessoal, insignificativo, nullo.

O corpo é manifestamente diversissimo, e em tudo outro; e com o corpo
outro e tão diverso, outras e diversas egualmente são as faculdades
intimas, outro e diverso o sentir, o querer, o recordar, o ambicionar.

Não são épocas de uma vida; são vidas verdadeiramente distinctas, talvez
contrarias, que se encadeiaram por um trabalho simultaneo e occulto da
Natureza e da fortuna, dos successos e de nós mesmos.

É por isso que o louvor ou vituperio, a recompensa ou o castigo,
conferidos tarde, conteem sempre mais ou menos, uma injustiça
distributiva; e talvez duas: preteriram aquelle que fez, e já não
existe, e vão-se dar ao que existe mas não fez. ¡Que de vezes se não
haverá suppliciado um justo pelo malfeitor que annos atraz o precedêra,
e nada mais lhe legára que o seu nome e umas parecenças no semblante!

A solidariedade do homem comsigo, em remotos prasos da existencia, é
pois tão infundada, como a de um individuo com outros, com quem nenhuns
vinculos o prendem, e que operam, independente cada um na sua esphera,
como elle na sua propria.

D'aqui vem que, sendo altamente suspeita de romance toda e qualquer
historia que se escreva de um personagem, ou de um povo (ás vezes
remotissimos em logar e tempo), sobre tudo quando o narrador pretenda
assignar como causas aos successos o que se passou sem testemunha em tal
ou tal coração, em tal ou tal espirito, pouco menos se eximirá de
similhantes suspeições a noticia que o homem mais sincero pretenda
transmittir-nos de si mesmo. «Escreve o seu preterito»--dirão os
benevolos; mas escrever o seu preterito ¿não é escrever já de outrem?

Demais: ¡quantas perplexidades! ¡quantas conjecturas temerarias!
¡quantas supposições de boa fé, mas erroneas, quando ao clarão
interrupto de reminiscencias enfraquecidas pretender levantar do pó as
flôres, e os espinhos que n'elle se converteram, reedificar edificios,
sobre os quaes se levantaram edificios novos, insuflar vida a sombras,
resuscitar o coração de outr'ora, e achar a harpa interior com todas as
suas cordas e a mesmissima afinação!

São estas, para quem bem o pensar, umas difficuldades, e tambem uns
desenganos, e umas tristezas muito grandes. Nunca tão claro o senti,
como ao reler agora este pobre livro. Forcejarei todavia por trazer á
vossa intimidade, meus amigos, o autor d'elle, se ainda me fôr possivel,
depois de tão apartados um do outro.

Um bem que ha n'esta desidentificação, n'este apartamento dos dois
_eus_, é que, se algum bem me fôr necessario dizer do que foi, já ao que
é se não poderá carregar em conta de vaidade.


II

Presupposto, como bem é de razão, que a Providencia fada para um destino
especial a cada um dos que vimos a este mundo, ¿para que nasceria
eleito, ou precito, um menino que ha hoje sessenta e um annos
desabrochava em plena luz, e recebia um nome que havia de ser meu? Cuido
não me enganar muito affirmando, que simples e exclusivamente para haver
ahi lá para o diante mais um cantor de affectos.

¿Que aproveita ao Pae da Natureza que haja mais um amante, mais um
cantor? Nada sem duvida, pois lá tem em roda de si, para o amarem e
cantarem, os seus Anjos; mas no seu systema de harmonias, entraram
tambem os gorgeios dos passaros cá em baixo, musica das florestas e do
oceano, a voz suavissima da mulher, e os canticos do poeta.

Assim como nem tudo na terra são seáras e frutos, nem tudo na humanidade
lhe prouve a Elle que fosse laborioso e productivo no sentido grosseiro
e restricto da palavra, como presumem economistas.

Emquanto o cavallo peleja, o boi lavra, a ovelha elabora o leite e a
lan, um insecto o mel, outro a seda, plantas a saude, minas os metaes,
ha boninas que só alegram e perfumam; ha murmurios no ar, e visões
coloridas no ceo, que só recreiam: ha pedrarias scintillantes, que só
adornam; ha balsamos, que só rescendem; ha o rouxinol para idealisar os
mysterios da noite; ha no eremita a oração muda que se exhala para as
alturas como aroma; ha na alma que sonha, miragens estereis, mas
voluptuosas; e ha, no sonhar perenne do poeta, com que pague de sobra a
seus irmãos as poucas espigas que rebusca das ceifas, os quatro palmos
de solo em que se alberga, a agua da fonte commum em que se dessedenta,
e o ar de que aspira reclinado o seu quinhão, para o exhalar convertido
em melodias.

Fadada vinha pois, segundo cuido, aquella creança só para poeta, e poeta
unicamente de branduras. Para a realisação do horóscopo se entendeu a
Fortuna com a Natureza, como para o diante vim a reconhecer, quando,
passadas as angustias da preparação, que assaz foram desabridas, e
porventura insólitas, pude, chegado ao alto, abranger com um relance
todos os pontos percorridos, vel-os, por effeito da distancia,
aproximados, e descobrir-lhes então finalmente o systema e a harmonia.


III

Foi a infancia do innocente, que eu ainda me recordo bem de ter
conhecido, rosada, doirada, chilreada, alegrissima, como quasi todas as
auroras. Mas os penates do seu berço haviam sido na cidade; e os
passaros cantores não se criam e educam bem senão pelas amenidades
tranquillas e scismadoras desses campos.

A ser verdade que a sciencia, com a imposição das suas mãos escrutadoras
sobre uma cabeça, pode prognosticar o que a organisação interior contem
de germes intellectuaes e moraes, capazes de grande producção, se as
circumstancias lhes favorecem o desenvolvimento, parece-me que, desde
que essa previdente fada humana,--a sciencia--annunciasse uma indole
poetica, a sociedade mesma deveria tomar á sua conta essa nova indole
privilegiada; e a fim de a pôr no mais seguro caminho para os seus
destinos, fazel-a crear, o mais que possivel fosse, no seio da Natureza,
sobre a terra larga que produz, ri, e canta, e debaixo do ceo que
inspira, brilha, enamora, e enleva.

As forças do camponez, as graças de saude da camponeza, envergonham os
enxames de frivolos e ephemeros dos grandes focos de população, ¿E
porquê? A causa não deve ser outra senão, que das barreiras a fóra,
longe do alcance do immenso carcere, se vive mais conchegado com a
Natureza, mais debaixo da Mão invisivel, mas tepida e suave, do Creador.

Tudo na cidade é artificial (¡e de quão ruim e desentoada
artificialidade as mais das vezes!). São prosaicas as occupações;
prosaicos e arriscados os projectos e os desejos; apertadas, escuras,
doentias, as vivendas; tolhidos os trajos; acanhadas as perspectivas. Se
se escuta uma ave, é mais a queixar-se do captiveiro em que definha, do
que a chamar pela companheira, que não tem, para fabricar berço a
filhos, que nunca ha-de ter. Se se vê uma planta, uma d'estas mudas
filhas de Deus que tanto sabem e dizem, tão bem florescem e medram na
sua pacifica republica, é enfézada e triste na prisão de um vaso,
debruçada para uma encruzilhada immunda lá em baixo, ou alando-se
n'um saguão á espreita do sol quando elle atravessar fugindo lá por cima
pela estreita fita do céo, do céo immenso em toda a parte, e aqui só aos
retalhos e sumiticamente repartido, ¿Que é da viração balsamica por
estas ruas? ¿Que é da madrugada com os seus descantes? ¿o meio dia com
os seus guardasóes verdes e movediços de trinta braças? ¿o crepusculo
com as suas despedidas saudosas? ¿a noite com a sua orchestra suave tão
grata ao amor, e com que se dão tão bem os somnos, os sonhos, as
vigilias? Tudo isto, e infinitamente mais, tudo quanto era Natureza,
desterrou-o a mão do homem quando desarraigou as arvores para plantar os
seus estirados colmeiaes de pedra; desterrou as relvas, e as seáras,
para assentar as praças; calçou as ruas, que não despontasse olhinho
verde; multiplicou as fabricas, o commercio, o estrondo, para que os
harmoniosos filhos do ar só muito por alto, e fugindo, se aventurassem a
atravessar tão desmedida e nevoenta cratéra de prosa, de cuidados, de
fadigas, e de desgostos.

Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo
só que para a poesia se não fizeram ellas, e que, se n'essa frágoa algum
engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão
bom, nem tão innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos
campos; e apostaria eu uma hora de vida aldean, e até casaleira, contra
dez annos bem medidos de um vegetar em côrte (apostaria e ganhava), que
tudo quanto mais deliciosamente cantaram poetas em cidades, se elles
nol-o quizessem ou soubessem declarar, das suas reminiscencias ruraes,
porventura remotas e meio apagadas, lhes proveio.

De Virgilio só tiraria eu provas sobejas, irrefragaveis, se para coisa
tão intuitiva fôssem ellas necessarias. Aquelle Virgilio, que florescia
em Roma para coroar de gloria Cesares e deuses, tinha as mais vivazes
raizes do seu genio, tão suavemente melancolico, longe e bem longe, onde
ninguem lh'as enxergava: pelos cômoros, de murtas da aldeia de Andes,
pelas margens do Mincio ciciadas de cannaviaes.

Redescendâmos de tamanho homem ao pequenino de quem iamos... historiar
não, que lhe não sabemos historia, mas simplesmente conversar.


IV

Importava que lhe chegasse com cedo a iniciação campestre. Com as
impressões iniciaes se cunha a feição caracteristica de muita alma, se
não fôr de quasi todas. Bem estreado aquelle, a quem as primeiras ideias
do mundo exterior, puras e amoraveis, advieram afinadas pelo instrumento
que a Providencia lhe armára dentro. Isso ao menos teve elle em seu favor.

Uma queda, que por pouco lhe não destruiu a vida logo no começo, foi
seguida de resultados assustadores: pallido, descarnado, abatido,
pareceu que poucos passos mediria do berço á sepultura. Uma noite acorda
suffocado; golfa sangue em torrentes; sobresalta-se a casa; acredita-se
que já não tornará a amanhecer-lhe; acodem os medicos; resolve-se como
ultimo e unico regresso fuga precipitada para o campo.

Ao rasgar do dia já transpunha as portas da Capital, reclinado no regaço
materno, rodando a carruagem tão vagarosa e precatada, que facil se
adivinhava ir depositaria de uma existencia que ao minimo abalo se
esvahiria.

Tanta coisa proxima e de vulto se me tem desluzido da lembrança, e ainda
aquella noite angustiosa, e aquella manhan suavissima, aquella morte
pranteada, e aquella resurreição de alleluia atravez de fragrancias,
sombras verdes bordadas de oiro pelo sol, e emboras dos passarinhos, me
estão impressionando como presentes. Não sei, nem ha já quem me diga, a
quantos, nem em que mez, nem em que anno, fôra aquillo; o que sei é que
todas as copas estão folhudas, e muitas floridas; que tudo quanto vem
vindo para nós por um e outro lado do caminho ri contente, como em
domingo de festa: as casas de quinta com as suas varandas e vidraças
illuminadas do sol novo; bosques ociosos debruçando a cabeça por cima de
um muro amarello para nos espreitarem; a porta vermelha entreaberta de
uma horta viçosissima; aqui piteiras esguias e silvas recortadas nos
cômoros; adiante estatuas, e vasos de marmore lavrados; um oiteiro com o
seu rebanho a fluctuar, e lá no cimo um moinho bracejando e cantando
no trabalho, emquanto o dono á janellinha escuta ocioso a viração de
Deus que lhe está chovendo pão lá dentro.

Notava eu, em meio d'este paraizo, lagrimas nos olhos de minha mãe, e
não as comprehendia; deviam ser de commoção.

Minha mãe tinha alma poetica; (lá coração poetico todas as mães o teem).
Se a tivessem apparelhado com educação e instrucção apropriadas, poderia
ter escripto deliciosamente; florejou sem cultura, e sem saber que
florejava. Nos festins de familia, quando a saude dos seus, a presença
de quantos lhe eram caros, e a prosperidade da casa, a exaltavam,
improvisava versos faceis e melodiosos, em que scintillavam faiscas de
talento, e certa graça natural; pareciam aquelles uns meros reflexos
involuntarios do seu contentamento intimo; e eram; mas o contentamento
intimo só tem resplendores taes n'um espirito de eleição.

Meu pae, a quem a severidade da sciencia e a supremacia da razão não
deixavam logar para ser poeta, que não tinha sequer nascido com a
organisação propria para isso, mas que, pelo complexo de outras suas
qualidades eminentes, era uma das pessoas mais proprias que eu nunca vi
para reconhecer, aquilatar, criticar, e dirigir poetas; meu pae,
costumava repetir que, se minha mãe não tivera sido obrigada a repartir
todas as suas horas pelas occupações domesticas, e toda a sua poesia
nativa pela educação dos filhos, se fôsse uma cenobita, por exemplo, com
poucos livros, muito remanso, e a Natureza, por certo deixaria de si boa
memoria para entre as escriptoras portuguezas.

Deviam ser logo aquellas preciosas lagrimas, com que minha mãe me
rebaptisava renascido, menos causadas do manso alvoroço festival de
terra e céo em primavera, que da lucta em que lhe iam, no coração, o
temor e a esperança.

A immensa viagem, que não passou de uma legua, deveu lançar-me no
espirito delicado e absorvente, os primeiros germes dos meus, já agora
indestructiveis, amores, para com as lindezas do universo.


V

¿Conheceis, para além do arvoredo do Campo Grande, no retirado sitio do
Paço do Lumiar, aquelle edificio, nobre sem fausto, que faz frente ao
pequeno Largo do Poço, e que talvez communicou á povoação o seu nome
aristocratico? Eis ahi o termo da piedosa peregrinação de minha mãe; eis
ahi onde a reflorescencia me aguardava, e com ella novas e abundantes
sensações, das que a minha indole ia absorver com avidez, e assimilar,
para fructificar alguma poesia em vindo a quadra.

Recebeu-nos com alvoroço, e com affecto patriarchal nos hospedou, a
familia, ainda nossa parenta, a quem a vivenda pertencia, familia ainda
mais ligada comnosco por laços de amisade, e de leal e não interrompida
convivencia. Compunha-se de mãe, uma filha entre doze e treze annos, e
seu irmão pouco mais idoso.

Amalia (era o nome da minha pequena prima) possuia, com o semblante mais
vivo e sympathico, a indole mais expansiva e carinhosa; os seus olhos,
cujo extraordinario brilho eu estou ainda admirando, eram dotados de um
magnetismo precoce; é tal, que até os de uma creancinha, como eu, se
pasciam n'elles com delicias; mas não era ainda assim nos olhos que
estava o seu maior feitiço; a sua voz tão suave, como nunca depois ouvi
outra alguma, sahia por uma bocca tão singularmente pequenina, que
podéra quasi quasi haver tentação de a extranhar á primeira vista, se
não parecesse, com o seu sorriso habitual, uma rosinha das mais
pudibundas a entreabrir-se; era um ósculo perpetuo da innocencia.

Amalia, com a superioridade que lhe conferia sobre mim a differença dos
annos, quiz tomar-me desde logo maternalmente sob a sua protecção,
prohibindo-me, por interesse na minha saude, o participar dos brincos
tumultuosos, para os quaes seu irmão me provocava. Meu primo era já
então militar por genio; a barretina empennachada, o boldrié lustroso, a
espada de madeira, as dragonas, e a banda de official, com que a si
mesmo se despachára, faziam-n-o preferir aos passatempos
sedentarios, mais conformes aos gostos de sua irman, e á minha fraqueza,
o estrondo e o movimento.

D'ahi provinha que as mais das vezes, emquanto elle marchava a passo
dobrado ao som de um tambor imaginario, esgrimia contra uma estatua, ou
degolava alguma papoila trémula, Amalia e eu, pacificamente sentados
muito mão por mão a uma sombra do jardim, toucavamos de minhonetes e
amores-perfeitos as suas bonecas, emmolhavamos ramalhetinhos para nossas
mães, e interrompiamos a cada momento a esmerada tarefa, logo que uma
abelha doirada, uma borboleta branca ou azul, ou um pio de ave
escondida, como que por malicia, entre as folhas, vinham suscitar a
minha curiosidade, e accender-me exclamações de maravilha e
contentamento. Minha prima gosava-se da minha alegria, e tinha
vaidositamente o ar de ser ella quem me estava fazendo as honras da
primavera.

Dissereis, se reparasseis, como eu, na complacencia com que ella
contemplava, ora o seu jardim tão formoso, ora o seu priminho tão
attento, que era uma poetisa desvanecida com o effeito do seu ultimo
poema n'um ouvinte encantadissimo; e que tudo aquillo que eu amava no
seu jardim, os arbustos enfeitados, os ninhos palreiros, os insectos
volteantes, as aguas harmoniosas, tudo ella tinha feito, ou pelo menos
aconselhado e pedido a um Anjo feiticeiro, feiticeiro como ella. Eu
quasi que assim o acreditava; se me tivessem dito que ao seu mando
podiam rebentar das pedras lyrios e rosas, ia pedir-lhe esse prodigio
como a coisa mais natural de todo o mundo.

Creio que nos amavamos; mais que no sentido da amisade; mais até que no
sentido do amor; ¡no sentido do paraizo terreal, quando a humanidade
vinha despontando resplandecente de innocencia!

Amavamos de certo; posso affirmal-o pela viveza e saudade com que estou,
agora mesmo, sonhando tudo aquillo.

Não sei se o coração me latejava; sei que me palpita agora com a maior
força; sei que dera eu hoje o throno do Celeste Imperio, e todos os
thronos ao mundo, e até a gloria de Homero, e de, todos os poetas, pelo
revivimento para mim de tal primavera com todas suas circumstancias,
embora com a certeza de vir eu proprio a murchar, e destruir-me com a
sua ultima flôr.


VI

Todos os ridentes allegorisadores da antiguidade falaram de um Cupido
filho de Venus, armado de fogo e settas, cruel e suave ao mesmo tempo,
incoercivel e fugitivo como os sonhos. Existe esse, não ha duvida; mas
ha outro amor, podéra eu affirmar-lhes, que nasceu do casamento de uma
açucena com o zephyro; que mesmo suspirando está a rir; que sóbe em
espiraes melodiosas para o ceo até se perder de vista, mas não foge;
reapparece, e redescende fiel ás mesmas amenidades d'onde levantára o
vôo. Não fere, nem envenena; encanta. Não accende fogo para deixar
cinzas; brilha na alma como sol. Não se rodeia de aves de agoiro, nem de
sonhos temerosos. Não desvela as noites, já com prazeres instantaneos,
já com delirios, e arrependimentos contumazes, mas se imbebe na
andorinha do beirado para nos acordar cada ante-manhan com as alegrias
puras que ella sabe. Não cura de ciumes; quizera que todos amassem como
elle. Não é um amor concentrado, exclusivo, incompleto, que só põe a
mira n'um objecto caduco; é outro amor profundo e infinito como a
Creação, com cujas maravilhas, maravilha elle proprio, se renova; a sua
venda, se a tem, não escurece; é toda de brilhantes diaphanos e
prismaticos, que redobram os prestigios do Universo. É o primogenito de
todos os amores, e o que a todos sobrevive. É o que serviram, adoraram,
e nos ensinaram a adorar, sem nome, todos os grandes poetas, desde
Orpheu até o _Thomaz dos passarinhos_. É o que a virgem mais ingenua
está sonhando voluptuosa, quando absorta suspira, e parece triste. É o
que á mente do religioso levanta escadas floridas para o Empyrio. É o
que annuncia, como boa nova, ao caduco, uma arregaçada de saudades, um
chorão, um gorgeio estivo, e prateados raios da lua para cima da cova.
É, em summa, o que aos impotentes da infancia segreda tantas coisas
ineffaveis que os alvoroçam, e de que o outro amor, em chegando, ha-de
receber porventura muita herança. Tal era a mysteriosa divindade que
presidia aos nossos passatempos, sem que eu então a adivinhasse.

Amavamos pois decididamente.


VII

Vigiava-nos inquieta, suspeitosa, sollicita, a mãe de Amalia... Não
riais: o seu coração materno tinha razão; um coração materno tem razão
sempre. Não era um impossivel o que ella temia; apavorava-a um perigo
real; e quanto a ella, segundo todas as mostras, muito provavel, ¿Que
perigo? o da communicação da minha doença a um ente a quem ella sentia
vinculada a sua existencia, e sem o qual, ainda que o quizesse, não
saberia já viver.

O sangue que eu perdêra, a minha debilidade, todo o meu exterior,
induziam a crer que a enfermidade que trabalhava tão activa por dentro
em me destruir, ¡era.... nada menos que a tysica! mal ainda então
rarissimo, com que hoje pela generalidade se vive familiarisado, mas do
qual no começo d'este seculo nem quasi se ousava proferir o nome senão
em baixa voz.

A familia, em cujo seio despontava tal phenomeno, forcejava pelo
encobrir a todo o custo aos de fóra, como um castigo divino e uma
ignominia; e abria ella mesma uma area de respeitoso terror, em cujo
centro languescia, soccorrida, mas desamparada, a pobre victima. A
roupa, os moveis, até a loiça do seu serviço, tinham marca, para que
ninguem lhes tocasse. O confessor, o medico, o amigo, os filhos, a
esposa, não chegavam ao alcance do seu halito; era o leproso; era quasi
o damnado aquelle triste esqueleto vivo, envolto na sua pelle livida e
ardente, e a quem, para luxo de desgraça, a Natureza subtilisava a vista
e o ouvido, conservando-lhe inteiras a memoria e a intelligencia até á
ultima. Emfim, logo que o espelho apresentado aos labios por um braço
estendido de longe, e tremente, testemunhava com o seu cristal não
empanado, que o ultimo bafo se esvaecera, ainda a terra o não tinha
recebido, quando já os seus vestidos, o seu leito, a sua cadeira de
martyrio, o livro das suas derradeiras orações, tudo era entregue ás
chammas, e as mais prolixas ceremonias de lustração, tanto religiosas
como physicas, acudiam á poisada; acontecendo, muitas vezes, que nem
depois de picadas e renovadas as paredes, havia temerario que se
aventurasse a occupal-a.

Deus louvado, o tempo não tardou em mostrar, pelas mais irrefragaveis
provas, que a minha enfermidade, com toda a sua carranca de profunda e
fatal, era passageira, e que d'aquella frágoa poderia sahir, como de
feito sahiu, uma constituição vigorosa e duradoira.

Aos nossos amores, tão bem correspondidos de parte a parte, nem sequer
faltou pois o estimulo de uma quasi prohibição, e o sainete de terem de se
andar recatando, sobresaltados ao minimo rumor, como verdadeiros
criminosos. Se não fosse a presença de minha mãe, e o affecto e delicadeza
com que sua prima a tratava, ter-nos-hiam, provavelmente, separado,
enclausurando na casa a amante, e deixando livres, mas desertos, para mim,
o jardim e a quinta, largo e formoso banho dos ares balsamicos, de que eu
então sobre tudo necessitava. Quem havia de lucrar com isso era João, meu
primo; o que sua irman perdia, ganhava-o elle; era um namorado de menos, e
um soldado de mais para o seu regimento, em que até então era elle só a
força e o commando, o porta-bandeira e o tambor.

Havia muitas horas, entretanto, em que a mãe de Amalia, com a razão, ou
com o pretexto do estudo ou dos bordados de sua filha, a retinha no
gyneceu da casa; essas horas (bem o sabem todos os que amaram) deviam-me
parecer eternidades; para as abbreviar, ora ia sentar-me n'um banquinho
ao pé do seu bastidor, enlevado em vêr rebentar flôres debaixo dos seus
dedos, e ouvindo os contos, que ainda hoje me lembram, da velha e gorda
cosinheira Escholastica; ora me detinha encostado ao grande portão de
grade de ferro no lado fronteiro do pateo, com os olhos pregados na
janella do quarto de lavor; feliz quando de traz da vidraça me alvorecia
a miude, saudando-me com um sorriso, aquella pequena rosa que eu
esperava, e que já de lá como que me estava ensaiando os beijos que eu
d'ali a pouco havia de colher ás escondidas no caramanchão, especial
asylo, e o mais seguro, dos nossos furtos.


VIII

É uma grande pena que não saibam as creanças escrever, e não registem,
para depois as lerem, as suas memorias, e que a torrente caudalosa dos
successos ulteriores lh'as desgaste e confunda quasi todas; a sua
historia poderia ser muito mais gentil, muito mais elegante, muito mais
instructiva, que as historias e novellas de outras idades.

Á mingoa de taes documentos, que bem preciosos me seriam agora, fui
hontem 19 de Dezembro d'este 1861 visitar, ao cabo de tantos annos,
logares tão queridos, e evocar n'elles os phantasmas verdes dos arbustos
do meu tempo, o phantasma candido d'aquella que eu tantas vezes arraiei,
como gentil Maia, á custa d'elles, e o meu proprio phantasma pequenino,
alegre, buliçoso, tão puro, tão amante, e diante do qual, como diante
d'ella, eu me ajoelharia, se o encontrasse. Palpitava devéras ao
approximar-me, como sem falta deve acontecer a quem se acerca de um
logar de mysterios, ou a quem excava um solo, de que espera enthesoirar
reliquias santas da antiguidade. Parecia-me que o mal transparente veo,
que, tanto ha, me collocou o mundo n'uma penumbra, de repente se
levantaria por um milagre da vontade e do affecto, e que eu ia rever
tudo tal como o levava no coração e na saudade.

¡Ai ninho de tantas delicias! ¡quem se atreveu a desfazer-te! De tudo
que ali havia, e que era tantissimo, ¡quasi que só eu resto! Não
importa: profanados, perdidos mesmo, esses logares conservam, indelevel
ainda para a minha alma, a sua primitiva sagração. Tornarei a visital-os
na proxima primavera; talvez se me recordem então do que hontem só
confusamente lhes lembrava; encontrarei porventura valverdes florídos,
rainunculos matizados, quinquagesimos descendentes, e mais, dos que tão
suavemente brilhavam no meu tempo; e esses alguma coisa saberão
relatar-me de tão antiga historia. O portico viçoso, estrellado de
jasmins, que bordava de sombras graciosas o vestido branco de Amalia,
quando, abrigados ali n'um meio dia de verão, escutavamos as cigarras
emboscadas, ha-de por força com a sua fragrancia falar-me d'ella, e
avivar-me no espirito um cardume de sensações lyricas ineffaveis.

Por agora, que estou dictando a uma legua de distancia estas paginas,
talvez indifferentes a todo o mundo, e frias como a estação em que
nascem, que me acho diante de outras arvores nuas, que aguardam,
saudosas como eu, dias de festa, o mais que posso dizer é que a primeira
impressão photographica da bella Natureza, toda esplendida e de uma
admiravel nitidez, foi ali que a minha mente a recebeu. Um tal quadro,
que tinha de me ficar no sanctuario intimo para todo sempre inspirativo,
fecundo, milagroso, e contendo a synthese da galeria do Universo real e
imaginario, mal podéra haver tido tal perpetuidade e tal virtude, se lá
m'o não collocassem uma fada e um genio, uma mulher e um amor; mulher
recem-cahida das estrellas e ainda ignorante da sua destinação; amor
puro como o dos Anjos encarregados de enfeitar a Natureza, e que,
terminada a tarefa, dormitam entre os obeliscos que levantaram, e sonham
céo.

Assim, ao mesmo tempo que as minhas forças medravam a olhos vistos de
dia para dia, e que os diversos receios das duas mães diminuiam de
manhan para manhan ao alegre florir do meu aspecto, se foi a minha
indole compondo com duas religiões, que a final se reduzem a uma só: o
culto das gemeas e eternas amantes universaes,--a Natureza e a Mulher.


IX

De tão ameno passeio na alva da vida chego de repente á escarpa de um
precipicio, d'onde é inevitavel o despenho para um abysmo.

Encetava eu apenas a carreira do estudo, tão menino, tão menino, que o
ouvirem-me já ler, e verem-me formar caractéres, era (nunca a minha
vaidade o esqueceu) um thema de admirações e de felizes prognosticos
para os parentes e amigos da familia. De repente outra doença, mais
terrivel que a primeira, e menos esconjuravel do que ella, não paga com
martyrisar-me, não contente de balançar-me por um fio largos mezes entre
a vida e a morte, me atira vivo para um sepulcro! Eu respirava; mas os
bellos olhos, idolatras das flores e de Amalia, e vangloria de minha
mãe, não sabiam se havia ainda no ceo o sol de Deus! É impossivel
recordar-me d'esse prazo, prazo de não sei quantas eternidades, sem que
ainda agora o coração se me confranja.

Imaginae um homem á hora em que se fosse embarcar n'um bergantim
doirado, por um mar de prata, com virações balsamicas dos vergeis da
terra, cuidando já velejar horizonte em fóra para um mundo de
delicias... e lançado de improviso no mais fundo subterraneo de uma
torre. Esse homem tão desafortunado, e desafortunado tão sem culpa, que
nem ainda era homem, fui-o eu; e tanto mais sem-ventura, quanto ninguem
então, nem eu por conseguinte, me julgava possivel a ressurreição, e a
soltura.

Convalesci; d'esta vez sem os soccorros do campo. Tinha as forças e a
edade para folgar, tinha o desejo e a precisão do movimento, da
convivencia, da fraternisação geral, da conquista, emfim, que pelos
olhos se opera de continuo nos inexhauriveis dominios da Natureza e da
sociedade; não podia permanecer immovel; mas o meu carcere sem lanterna
me seguia por toda a parte. A ave da poesia, que me pipilava dentro,
debatia-se contra as grades, quando ouvia lá de fóra estrondear a vida
festival, e pelo ecco deshumano das suas vozes se lhe revelava o sem
numero de bellas coisas, que até os insectos e vermes senhoreavam pela
vista.


X

Dera-me a Providencia, entre meus irmãos, um, dois annos mais novo do
que eu, cuja indole sympathica inteiramente com a minha, cujos gostos em
admiravel harmonia com os meus, nos constituiam mais que irmãos,--duas
metades inseparaveis do mesmo todo. Ardia tambem n'elle a faisca
sagrada. Não era tudo o palpitar o coração de cada um dentro no peito do
outro; os nossos espiritos se adivinhavam de parte a parte; a nossa
conversação tinha... (¿como hei-de dizer isto?) o que quer que fosse de
um solilóquio, ou de um cantar ao ecco. Levava-lhe eu a vantagem de
vinte e quatro mezes mais, elle me levava a de mais um sentido. Havia
equilibrio, e compensação; cada um dava, e cada um recebia. Este mesmo
interesse mutuo contribuia para a espontaneidade da nossa fuzão
necessaria e suavissima.

Chegou a edade dos estudos. Era tempo de aparelhar com as chamadas
humanidades para as sciencias. ¡Que inveja e que tristeza, quando meus
irmãos, ambos mais novos do que eu, sahiram pela primeira vez
deixando-me só para se irem inscrever na classe de latim!
Permittiu-se-me accompanhal-os; attendi; devorei; li pelos ouvidos;
corri aposta com os mais applicados.

O preceptor, bom e honrado velho, que, trinta annos havia, professava
com devoção o idioma de Cicero e Virgilio, observa a minha attenção;
interroga-me curioso; reconhece e declara não ter discipulo que mais em
cheio haja absorvido as suas doutrinas.

D'essa hora em deante fui eu o filho adoptivo, o predilecto, o mimoso, do
seu enthusiastico romanismo. Não só erudito de amplos cabedaes, mas
poeta, poeta elle mesmo, poeta _utriusque linguæ_, julgou reconhecer em
mim, pelo modo como lhe eu traduzia as paginas inspiradas que elle me
lia com fogo, e pela promptidão, sobre tudo, com que eu lhe restituia
nos versos originaes os trechos que elle para isso me recitava das Musas
cesáreas reduzidos a proza portugueza, julgou, digo, reconhecer uma
indole fadada para a poesia; e pôz com generoso exforço peito a cultival-a.

Tratar as Musas, e em particular as latinas, é desenvover a um tempo
phantasia e sensibilidade:

    _......lecto carmine doctus amet._

O poeta que assim cantára, logo ali se apossou de mim para toda a vida.
O seu estudo, que eu nunca mais interrompi, que depois alarguei, e que
ainda agora me é delicias, entrou pois como elemento energico, tanto
como as amenidades do Paço do Lumiar, e os amores infantis de minha
prima, na composição mysteriosa e providencial do meu verdadeiro
destino, que nunca foi desde o principio, nem já agora póde ser outro
até ao fim, senão, repito, a poesia.

Meus irmãos passaram-me dentro em pouco de condiscipulos a discipulos; e
o mais novo, Augusto, de discipulo a inseparavel. ¡Que annos! ¡Que
annos esses! ¿Quem, tendo-os uma vez desfructado, os esqueceria em
nenhum tempo, em nenhuma fortuna?!

Augusto e eu, que afinal já éramos um só, fanatisados deveras com as
grandiosidades heroicas, com as fabulas ridentes e floridas que nos
surdiam de continuo ao excavarmos por aquelle mundo fossil e classico,
pode-se dizer que nos naturalisámos Romanos antes de sermos Portugueses;
fomos antiquarios enthusiastas na puericia; os cobres, que os d'aquella
edade desbaratam em doces e brinquedos, convertiamol-os nós em qualquer
_alfarrabio_, que no frontispicio nos trouxesse um dos nomes Romanos
immortaes, cuja ladainha sabiamos de cór, e recitavamos com veneração,
desde o principio da _edade aurea_ até ao cabo da _edade ferrea_ e
_lutea_, desde Livio Andronico até aos escriptores já christãos, ultimas
reliquias do Imperio e da lingua a desfazerem-se. Devoravamos tudo
aquillo sem guia, sem escolha, temerariamente, mas com uma perseverança,
com um affecto, com um encantamento, inexplicaveis. Excusavamos,
repelliamos qualquer outro passatempo; visitas, passeios, tudo nos era
enfadonho, comparado com a delicia de vaguearmos pela Italia velha, de
ouvirmos os seus heroes pela bocca de Tito Livio, de entrarmos com
Virgilio familiarmente no palacio rustico d'el-Rei Evandro, de nos
espairecermos com elle, Calpurnio, e Nemesiano, por entre as amenidades
campestres, e ouvirmos cantar Horacio n'um pomar da sua Tibur:

    _...... ad aquæ lene caput sacræ_

coroando-nos como elle

    _...flore, terræ quem ferunt solutæ_

ou de escutarmos suspiros e galanteios de Tibullo, Propercio, Gallo,
Catullo e Ovidio. Ovidio mais que todos nos levava traz si as vontades.
(Não prégo moral; historío).

A poder de lidarmos com aquella gente, aformosentada pela distancia, e
tão ideal vista de cá; tudo gue não era ella, o seu viver, o seu pensar,
o seu idioma, as suas festas, nos parecia mesquinho, insipido,
repugnante; sonhavamos acordados.

D'isso me adveio, cuido eu, e não podia deixar de ser em edade tão
branda para receber cunho, uma confirmação não pouco efficaz para a poesia.


XI

E na verdade, já que estamos conversando desenfadados, sinceros, e sem
armar a vanglorias, ou, por outra, já que me estou confessando dos meus
peccados de poesia pratica, direi aqui (embora quebre o fio da narração,
depois o atarei) que, estendendo a consideração por todo o longo e
variado decurso da minha vida até hoje, não descortino em toda ella
senão... (¿como direi isto que me não afronte em demasia?) senão um
predominio constante da phantasia sobre a realidade; uma extranheza
activa e passiva dos homens, successos e coisas do mundo, em que vivo
como que emprestado, semi-pagão, semi-classico, semi-republicano dos
Gracchos, semi-conviva de Mecenas, semi-Tityro, semi-captivo das
Corinnas e Delias, e, com tudo isto, a esvoaçar-me sempre da poesia que
foi, ou que se nos figura lá traz, para outra que lá adiante ri aos
santos amigos da humanidade, aos utopistas.

Sempre que o individuo, de quem falo, entrou, ou cuidou entrar, na politica
(n'esta parte, Deus louvado, já escrevo o necrológio) foi sempre levado do
enthusiasmo, ignorante da historia contemporanea, e da mesma politica, não
ajuramentado a bandeira de côr alguma, não adstricto a tal ou tal plano de
estadista, curando pouco de nomes, e menos ainda de interesses proprios;
foi campeão sem divisa de uma causa apenas prophetisada, vaga, confusa,
remotissima.--a civilisação pela moral, pelo amor, pelo trabalho, e pelo
saber. Pueril e incorrigivelmente seduzido por miragens humanitarias e
poeticas, nunca passou entre os politicos positivos de alvitrista
chimerico, e homem para nada; pugnou com o ardor de quem reivindicasse
algum morgado pingue, pugnou até vencer (¡vêde isto!) para que se fechasse
aos tentados de suicidio a paragem vertiginosa que mais por seu contagio os
attrahia; empenhou sabios em procurarem remedio, se o houvesse, que
diminuisse as duas pestes:--duello, e infanticidio; incitou para o cultivo
serio das Lettras quantos talentos esperançosos descobriu; foi de todos
amigo sem inveja, pregoeiro sem restricções; propoz para os veteranos dos
estudos e da poesia uma Runa gloriosa, abundante, e aprazivel, em vez do
hospital que ainda não mandou queimar a enxerga de Camões, á espera dos que
poderão vir; pediu, e tambem debalde (¡debalde até isto!) um Campo Elysio
terrestre para os mortos memoraveis; suas effigies postas pelo publico
agradecido nos passeios, e uma lamina commemorativa pregada pelo Municipio
na frontaria de cada casa, testemunha do nascimento, dos trabalhos, ou do
obito, de um benemerito; procurou e descobriu as reliquias do Cantor dos
_Lusiadas_, para que as desagravassem; forcejou com a persuasão para que se
desse á agricultura o seu apreço, á imprensa o mais amplo favor, premios
reaes aos talentos operosos e productivos, subsistencia e honra aos
educadores, ensino liberal, christão e ameno á puericia; pela puericia, que
é a nação de amanhan, fez mais, muito mais, quanto poude e mais do que
podia: invocou por ella ceo e terra, throno e plebe, sabios e ignorantes,
ricos e miseraveis, o clero e as mulheres; foi na vanguarda dos consociados
para se promover a educação popular; fez-se, a expensas de tudo seu,
mestre-escola de plebeus e descalços; evangelisou de terra em terra o novo
ensino, o ensino racional, a centenares de professores honestos; pelejou na
imprensa, com o amor e com o odio, desde a supplica até á verrina, em prol
dos calcados direitos da infancia, da maternidade, e da Patria; e
convencido, pela evidencia dos factos, resposta eloquente e peremptoria aos
negadores das vantagens da reforma, que riem, que riem da caridade, que
riem da philosophia, que riem do progresso, que riem de seus filhos, que
riem de si mesmos, deixou pendente a envelhecer por dez annos, desenfeitada
e esquecida, a sua lyra (¡oh! ¡milagre summo de uma fé verdadeira!), para
andar sollicitando a redempção e o baptismo de luz dos captivosinhos de
sete e menos annos; foi levar o beneficio espontanea e gratuitamente ao
Brazil; ambicionou que lh'o acceitassem do mesmo modo na Hespanha e na
Italia. Se n'estes dois lustros de lidas obscuras, só pagas com desgostos,
alguma hora se recordou de poetar, foi só para convidar com o exemplo
e com o discurso talentos melhores que o seu a encetarem cantares
de civilisação, a enxertarem nos loireiros estereis alguns ramos
fructuosos; e não se levantou da cadeira de um ensino quasi ignobil aos
olhos do mundo, senão para escrever livros sem vulto, mas necessarios ou
uteis:--_Noções rudimentaes_;--_Guia pratica de mestres_;--_Tratado
de Metrificação_;--_Tratado de Mnemonica_;--_Felicidade pela
instrucção_;--_Felicidade pela agricultura_;--_Tentativas grammaticaes_--um
_Curso de lingua latina_;--e, de envolta com tudo isso, requerimentos
reiterados e instantes aos poderosos, ás sociedades, ás academias, aos
principes, aos tribunaes de instrucção, para que o ajudassem.

Quando um Rei _amigo dos que trabalhavam_, e cheio elle mesmo de nobres
ambições, convidava ao poeta de outr'ora para ir colher fructos de oiro
num ensino altamente litterario, ousou o poeta pedir-lhe commutação no
serviço, offerecendo-se-lhe operario para a trasladação dos monumentos
classicos romanos á lingua patria, por entender que ia n'isso muito
maior vantagem aos estudos e á poesia, ainda que para elle menos lucro e
menos brilho.

Todos estes rasgos de loucura se provam e documentam d'aquelle pobre
sonhador, a quem, deneguem tudo mais, coração e muitissimo não lh'o
podem contestar.


XII

¡Que digo! ¿Esta mesma digressão aqui não é porventura uma sobreprova de
quanto o amor, na sua mais vasta accepção, o amor que não suppre assim a
poesia senão porque o é, constitue o caracter do pobre homem? Nem os
desenganos o desenganam; nasceu affectivo; affectivo tem vindo
caminhando pela vida fóra, da primavera para o estio, do estio para o
outomno, que já se lhe desverdece, e nem os gêlos do inverno lograrão
provavelmente resfrial-o.

Na festa da Primavera, n'esses dias do amor só sensual e egoista, bem
que innocente, ¿que pedia elle aos amigos para quando já não existisse?

Deixae-me escutar n'um ecco d'alma aquelles versos:

    Depois que entre os abraços delirantes
    de todos os que amei findar meus dias,
    sepultae-me n'um valle ignoto e fertil.
    Para marcar da sepultura o sitio,
    sobre o cadaver que vos foi tão caro
    mangeronas plantae, cuja verdura
    em roda fecham variados lirios.
    Na raiz funda da soberba olaia
    poise a minha cabeça, e o tronco amigo
    sobre mim curve a copa florescente.
    Mil piteiras unidas, ostentando
    na hastea vaidosa as flores amarellas,
    em quadrado não grande me defendam
    das incursões das cabras roedoras.
    Em meu tronco se escreva este epitaphio:

       _Foi poeta amador da Natureza:_
       _d'entre as sombras ancioso a procurava,_
       _qual terno amante a bella fugitiva._

    Sobre isto pendurae sonora flauta,
    que se revolva á discreção do vento.
    Não cerque os ossos meus, não m'os ensombre,
    nem teixo nem cipreste; arvores quatro
    quizera só no meu jardim de morte.
    N'um canto a laranjeira graciosa,
    que mescla util e doce, a flor e o fructo;
    n'outro a figueira sob as amplas folhas
    modesta occulte seus nectáreos mimos;
    defronte um pecegueiro em fructos mostre
    que amavel é pudor, quando enche faces
    de penugem subtil inda cobertas;
    no ultimo canto... (a escolha me confunde)
    plantae no ultimo canto uma ginjeira;
    é a arvore da infancia, até na altura;
    d'esta por sua mão colhe um menino
    a mui ridente baga, e ri de ufano.
    Alguns tempos depois que a fria terra
    meus restos encerrar, á minha olaia
    vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
    pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.

    Dos guerreiros nos tumulos afiem
    faminta espada os barbaros guerreiros;
    no sepulcro do sabio o sabio estude;
    e dos Reis nos marmoreos monumentos
    vá sonhar a ambição grandeza e pompas;
    vós soltos de freneticas loucuras
    aqui vireis mil vezes visitar-me,
    na amizade pensar que nos unira,
    e unir-nos deverá transposto o Lethes.
    ¿Por que me interrompeis com taes suspiros?
    ¡ah! deixae-me acabar. Quando sentados
    em torno a mim na flórida alcatifa,
    guardardes meditando alto silencio,
    se d'entre as mangeronas que me cobrem
    sahir acaso a borboleta errante,
    ¿não vereis n'ella o espirito do amigo
    que vem gozar do sol a claridade?
    Quando o suave rouxinol de noite
    da minha olaia gorgear nos ramos,
    ¿não pensareis, de santo horror tranzidos,
    que feito rouxinol, meus cantos sólto?
    Sim, pensareis, e erguendo-se inspirado
    algum lhe ha-de bradar: «¡Oh! ¡meu amigo!»
    Responderão: «Oh meu amigo» os bosques;
    e vós direis que o meu phantasma errante,
    da argentea lua á muda claridade,
    á conhecida voz d'alem responde,
    e em tudo encontrareis a imagem minha.

    Se inda então meus costumes vos lembrarem,
    se vos lembrar meu coração piedoso,
    velae que em meu retiro as bellas aves
    de caçador cruel cantem seguras;
    Amor, o leve Amor, com arco d'oiro,
    só elle, e mais ninguem logre atirar-lhes;
    careço de amorosa melodia
    que me poetize o somno derradeiro;
    morto que nada tem, preciza d'estas
    pobres delicias rusticas, se folga
    que a namorada moça, o terno amante,
    juntos, ou sós, a visitál-o acudam.
    Então ao som de languidos suspiros,
    de alegres cantos, de amorosos versos,
    de ternas queixas, de perdões suaves,
    muitas vezes contente a minha sombra,
    formando ao pôr do sol vermelha nuvem,
    girará n'estes ares revolvendo
    da passada existencia almas lembranças.

Andaram tempos. Amores mais serios, mais vastos, mais duradoiros, mais
uteis, ainda que menos entendidos das turbas a quem se referiam,
inspiraram já outros desejos:

    Ó terra de Colombo, um navio de esmola
    do abysmo te evocou, e aurea brotaste á luz.
    Por outra regia Heroina esmolada uma escola
    vai transformar-te em ceos, terra de Santa Cruz.

    E eu, que já uma vez, largando o patrio ninho,
    romeiro do progresso em balde te busquei,
    retomarei de novo o undívago caminho,
    e irei juntar meu hymno ao seu triumpho; irei

    pender na escola-templo os festões da poesia,
    e, novo Simeão, findar a vida em paz.
    Onde o homem que se humana affoito invoca o dia
    direi:--«A patria é esta; aqui viver me apraz;

    «apraz-me aqui morrer, onde as mães porventura
    co'os filhos pela mão me hão-de vir visitar;
    saudades esparzir na minha sepultura,
    e dizer: _Este sim, que soube o que era amar._»

Passaram tempos ainda, e até essa esperança consolativa se desfloriu.
Ouvi o esmorecimento não já cantar, mas gemer, no seio da amizade:[1]

«Depois vem a reparação, a rehabilitação, não ha duvida. Do sepulcro
brota o loiro, e a posteridade amarra a elle os inimigos dos amigos dos
homens, os areopagitas idolatras envenenadores dos Socrates crentes. Mas
as cinzas não sentem; as estatuas não vêem nem ouvem.

«O premio que eu devaneava a principio, quando via tão ás claras a
bondade da obra que estava fazendo, era que os filhinhos, e as mães, me
acompanhariam, chorando, ao cemiterio. A esse côro de amor imaginava que
até o cadaver se me alegraria. Não dava aquelle triumpho posthumo pelas
torrentes de carroagens e salvas funebres dos magnates. Pois nem já
com isso conto. Conseguiu esta gente, não sei se invejosa, se quê,
diffundir tão copiosamente os seus preconceitos, escurecer em tanta
maneira a luz do beneficio, que nem já espero aquillo. As mães
ver-me-hão passar, sem saberem quão grande amigo de seus filhos e netos
ali vai; e d'estes só porventura me irão dar despedida os que n'esta
hora estão cantando e amando por essa meia duzia de escolas regeneradas».


XIII

Saiamos d'aqui a toda a pressa, leitores amigos, antes que nos degenere
em paginas de santa mas feia indignação, um escripto que eu vos prometti
e destinei todo pacifico e amoravel. Torno-me pois á minha Arcadia da
mocidade, como o soldado mal ferido das guerras, e ainda mais dos
menoscabos que dos golpes, se acolhe á quieta poisada em que se creou.

Apóz algumas tentativas incertas e incoherentes de lavor poetico, de que
o publico se esqueceu, e eu quizera esquecer-me tambem, foi a fabula
selvatica de Narciso e Ecco a primeira producção que me rebentou nativa,
e verdadeiramente congénita áquella indole campestre e amoravel, que os
successos e os estudos me tinham andado a preparar desde o principio.
Nunca jámais essas singelas _Heroides_, impetuosamente e quasi de
improviso brotadas (posso hoje dizer isto sem jactancia, e sem que os
entendidos m'o descreiam) ousaram esperar o extraordinario, o excessivo
favor com que foram recebidas, multiplicadas em edições sobre edições em
Portugal e no Brazil.

¡Ora, quem poderia jámais lembrar-se de que um livrinho assim, todo vão,
todo fabuloso, uma especie de globo de espuma, nascido de um sopro para
boiar nas virações por alguns instantes, espelhando os verdes da terra e
o azul de cima, e apagar-se para sempre, filho do nada restituido ao
nada, conteria o germen de uma historia muito real!

Pois foi assim: Das _Cartas d'Ecco e Narciso_, sahiu, como de flôr
ephemera um fructo, o _Amor e Melancolia_, este _Amor e Melancolia_, que
já não era um devaneio e um canto, mas sim registo disfarçado de uma
historia do coração: _lacrimæ rerum_.


XIV

Tres annos havia que tinham apparecido pela primeira vez as _Cartas
d'Ecco_; e dois os poemetos da _Primavera_.

Residia então o autor de ambas estas bagatellas nos sitios mesmos, que,
em harmonia com os vinte e quatro annos d'elle, lh'as haviam inspirado.
Repoisava, já fóra do estádio academico, nos ocios tão poeticos do seu
Mondego. A casa da vivenda conheceil-a vós, desde que o mais poeta dos
nossos prosadores[2] pela magia da sua penna, que é ao mesmo
tempo varinha de condão, vol-a descobriu, vol-a franqueou, vos fez,
queridos leitores meus, entrar n'ella a visitar-me.

Pois bem: Era ali, n'aquella casa, ainda hoje lembrada do nosso nome,
n'aquelle espaçoso e singular edificio, encostado, de uma parte á
vertente de Subripas, de outra ao Arco moirisco de Almedina; dominando o
rio convisinho e a margem ulterior, e dominado pelo castello de
templarios, theatro do tragico fim de Maria Telles; era ali, n'aquella
estancia, de aspecto meio senhoril, meio claustral, com seu pateo
espaçoso, e escadarias de pedra, suas enormes laranjeiras enclausuradas,
suas varandas ajardinadas, seus erguidos miradoiros; era ali, ali, para
onde eu tantas vezes me recolho em espirito, ainda agora, a escutar os
descendentes dos rouxinoes que festejavam, como nós, a _Lapa dos
poetas_; ali, ali era, que os dias e as noites se nos devolviam, ao meu
inseparavel e a mim, nas leituras amenas, nas conversações mais amenas
ainda, com os bons engenhos juvenis, que a tão hospedeiro retiro nos
acudiam de boa mente.

Era o Setembro de 1824; um donoso Setembro na verdade: estio em cheio e
sombras á farta. Liamos os dois, isto é o um; por outra: recitavamos de
cór pela centesima vez as elegias de Tibullo, á sombra de uma laranjeira
merecedora de as ouvir, e muito bem capaz de as ter ditado, se fôra
em Italia, e para tanto lhe desse a velhice, que todavia não era pouca.
(Nenhuma circumstancia d'aquelle tempo se me desbotou ainda da memoria).

¡Chega uma carta! ¡lettra desconhecida!... Abre-se, reza assim:


    «Azurara, pelo correio de Villa do Conde, 27 de «Setembro de 1824.--


    _«Amar o mais perfeito é um dever:_
    _«Virtudes tantas devem ser amadas:_


    «Se vos apparecesse uma Ecco, imitarieis vós o vosso Narciso?

                                           «A desconhecida

                                «_Maria da Expectação Silva e Carvalho._»


¿Que significava, que podia significar aquillo? ¿Era uma pergunta
candida? ¿era um brinco malicioso? ¿era masculina, era feminina, a mão
que tal escrevêra? ¿como responder? ¿a quem responder? O coração, ou
presago, ou desejoso, dizia uma coisa; a prudencia, outra. O Tibullo era
do parecer do coração; todos os mais poetas votariam como o Tibullo. O
sol, que observa ha tantos mil annos coisas de todas as castas, e de
certo não ignorava o segredo d'aquella, espreitava-nos, e ria. A
laranjeira, scismava calada; como aia e enfeitadeira de noivas, lá se
inclinava para o sim; mas tambem, como velha, desconfiava. O Samsão de
marmore do angulo do terrado, esse continuava a escachar pacificamente o
seu leão, e não se intromettia na contenda.

Por muitas vezes se releu a carta á espera sempre de algum subito
reflexo revelador; ¡e o enigma cada vez mais fechado!

Era caso para pesquizas, pois de qualquer dos oppostos lados que a
verdade estivesse, não faltava que fazer, e tinha-se de lhe acudir com
resposta.

Armou-se uma verdadeira caçada; empenharam-se n'ella quantos visinhos e
praticos de Villa do Conde e Azurara se puderam desencantar; ¡e o
mysterio a cerrar-se cada vez mais! ¡e a curiosidade, o interesse, a
recrescerem-me na mesma proporção!

Respondi emfim ao meu phantasma:--«Que não ousava eu muito acreditar em
apparições de Eccos para quem não fosse Narciso; mas que, se por milagre
houvesse uma, nunca eu seria tão insensato como o filho de Liríope.»--

Até aqui podia eu chegar com a resposta sem me comprometter; para diante
fôra já arriscar-me. Partiu. Fiquei aguardando com certo dessocego pela
réplica. Chegou, correio por correio.

Era a mesma lettra sem disfarce, e a mesma assignatura supposta. Mas
d'esta vez, em logar de linhas contrafeitas, paginas com todo o
desartificio amavel e persuasivo, com toda aquella graça nativa feminil,
que se não imita. Quasi com certeza andava ali mão e espirito de mulher.
¿Era ella porém interprete solitaria de sentimentos proprios?; ou
consocia e agente de uma conjuraçãosinha zombeteira? ¿Como
descriminál-o? Não havia melhores razões para uma, que para outra
supposição.

A substancia d'aquella carta, que eu não devo nem quero tirar do
sacrario em que a enthesoiro como reliquia, reduzia-se a querer-me
convencer de quanto eu era injusto para comigo, e de quão mal conhecia o
sexo amoravel, se o julgava todo unicamente sensivel aos encantos dos
_Narcisos_; emfim: que o poeta, que tão verdadeiros affectos suspirára
por uma deusa ideal,--a Primavera, merecia bem que uma mulher o
procurasse para compôr a felicidade d'elle, e pela d'elle a sua propria.

Isto, e muito mais a este modo, expunha a carta; mas por uns termos tão
obsequiosos, tão lisonjeiros, e ao mesmo tempo tão naturaes, como os eu
não saberia expor aqui em traducção.

O inverosimil principiou ali a figurar-se-me provavel. Nas regiões
imaginarias em que vivem os poetas, não ha extranhezas senão para o que
é natural e corrente; o ordinario são os prodigios.


XV

Sem me atrever a confessar a minha nascente, ou já nascida, persuasão,
senti ir-se-me levantando n'um recanto do animo um altarzinho todo verde
e florido para uma divindade ainda invisivel, mas cuja aproximação já
por um certo calor suave se me denunciava.

Diz que muitas leguas ao largo de Ceylão já o gajeiro, embalado lá em
cima no sol doirado do Mar Indico, percebe na fragrancia das virações
tepidas as selvas de canelleiras da ilha, ainda occulta pela convexidade
marinha, mas que vem correndo a encontrál-o. Assim me sentia eu levado
para uma ilheta de amores, que, já aspirada, e ainda não descoberta,
vinha por cima do seu mar de aljofares offertar-me, toda donosa e
festiva, a hospedagem das suas sombras inebriativas. Um côro de sereias
a meio caminho nos revelava, nos annunciava de parte a parte; e, assim
como se vê tantas vezes no mar um navio pela acertada disposição das
velas demandar a terra, com o mesmo vento que de lá sopra, a aura que me
falava do meu porto, a mesma era que para lá me conduzia.

«Não ha cubiça do que se não conhece,» dizia um antigo poeta; extranha
sentença; e para de poeta, muito mais extranha. A mui veridica historia
que vos narro, duas vezes a desmentiu: nem a que me buscava me conhecia,
nem eu conhecia a que buscava.

E nem por isso é a coisa tão para espantos como de fóra e á primeira
vista se representa. ¡Que de consorcios se não teem celebrado, até com
amor, entre ausentes, pela simples troca de retratos! ¿Que mancebo se
poderá gabar de não ter sonhado muitas vezes, dormindo e acordado, com a
heroina de um romance, ou com o invento prestigioso de um pintor? ¿Quem
ha que não saiba o caso d'aquella moça franceza, que se finou de paixão
pelo seu Telemaco? Ninguem o prediria a Fénelon, quando, accezo no santo
amor do genero humano, compunha para a eternidade o seu homerico poema
social. Temperae de um pouco de poesia a qualquer coração (o nosso
era temperado de muitissima) e vel-o-heis palpitar todo credulo por um
phantasma. Para uma Virginia, este phantasma será Paulo; para um Paulo,
Virginia; para um astronomo, um planeta, que elle, em nome do seu
calculo, intima aos abysmos celestes lhe apresentem; os phantasmas das
religiosas, são os anjos; os dos cenobitas, virgens do Empyrio; o dos
artistas inspirados, a gloria na posteridade; o meu, tinha sido com
effeito a Primavera, continuava a sel-o, mas agora humanada em figura
feminil.


XVI

Se eu me não temesse da gente em prosa, que só acredita no que se palpa,
havia de dizer que a aspiração para o bello desconhecido, para a
perfeição ideal, entresonhada onde quer que seja, e com qualquer dos
milhões de fórmas em que ella se póde metamorphosear, tanto não é
extranha á Natureza, que não são unicamente os individuos privilegiados
da nossa especie, os que a experimentam.

¿A rôla, a pomba, o rouxinol, a gemerem de saudade, a arrulharem de
ternura, a gorgearem de immenso affecto, por que enlevam tanto, e tantas
coisas inefaveis dizem aos animos devaneadores, senão porque os seus
gemidos, suspiros, e canticos, almejam coisa diversa dos deleites faceis
que os rodeiam, e que já possuem?

E depois: o Pae Commum não é avaro de seus dons, e ha-de folgar quando
cada uma de suas minimas creaturas, alando-se quanto póde e sabe pela
esphera dos gosos puros, se aproxima cada vez mais a Elle, que é a Summa
Belleza, o Summo Bem, de que todos os bens são emanações ou reflexos.

¡O rouxinol, a pomba, e a rôla!... mas os insectos mesmos, ¿quem
affirmará que não se pascem, como nós, ainda que muito longe de nós, á
meza infinita, perenne, e perennemente renovada, do amor ideal?

¿Quem sabe até o que irá de mysterios nas flores e nas arvores!? ¡que
idyllios, que elegias, que divinos poemas não correrão nas florestas com
o murmurinho dos ventos em estrophes de aromas, intelligiveis ás
arvores congeneres, e ás flores da mesma especie!...

A carta, que de algures levantára vôo para algum fim, a carta que eu
tinha nas mãos, tão candida, tão vivida, tão palpitante e amoravel, tão
segura e tão certa, podia ser portanto, e, se o podia ser, era-o, uma
especie de borboleta, que sahira das flores de uma alma solitaria e
longinqua, para vir fecundar as da minha com um polen ardente e
inesperado. Os effeitos que ella em mim produzia (logica ordinaria dos
desejos) eram, á mingua de outras provas, uma vehemente presumpção de
que o bom do papel vinha mensageiro leal, e não explorador perfido da
minha credulidade; e entretanto mal sabia eu como lhe respondesse.

Deixar-me ir de vôo rasgado ao reclamo fôra temeridade indesculpavel;
mas fôra tambem excesso de prudencia, repugnante a um sentir delicado,
aventurar offensas, embora leves e disfarçadas, para rebater um aggravo
só possivel; queria-se o meio termo; e esse era difficillimo; e
difficillimo sobretudo como eu o desejava, que era propendendo mais para
o coração, que para o espirito; para abraço, que para duello.

Meditei todo o dia.

O que eu nas falas gracejava por cautella, já no fôro intimo se me
discutia como negocio.

Empenhei todas as potencias da alma, como poderia fazer o Edipo deante
da Esphinge. Levei o serão e a noite a sós, no laranjal, a interrogar a
lua, antiga confidente de namorados.

A lua, ou nada sabia no caso, ou, se o sabia, não o quiz dizer.

Mas a noite, grande terceira e fautora n'isto de amores, segredava-me ao
sabor do appetite, com umas taes razões, tão cheias de poesia, isto é de
verdade, que o genio fogoso dos meus vinte e quatro annos fez sahir, sem
grandes evocações, não sei se de algum tronco, se das nuvens, se d'entre
as pedras e heras da varanda de D. Maria Telles, uma Sombra de mulher,
uma Fada, uma Sylphide, com quem eu tive ali horas ineffaveis de
colloquio, desabroxando e enramalhetando futuros em commum.

Tenho pena de não poder já copiar aquellas praticas, nem as achar mesmo
para mim bem inteiras na memoria.

Se o leitor, ou leitora, tem a edade que eu tinha então, e é poeta, mas
poeta verdadeiro, d'estes que não só lêem e escrevem a poesia, mas a
vivem, lá rastreará por si aquella scena tão cheia, tão real, tão
animada. Se bem a concebem, tenho-lhes inveja eu; digo como a Santa da
lenda:--«Ai! ¡que saudades me não comem do tempo em que eu era tão
infeliz!»--ou, como a outra, toda delirante de ternura:--«Tenho dó dos
demónios; ¡pois se elles não amam!»--O meu Virgilio, tão poeta na voz,
na alma, e no coração, exclamava saudoso:--«¡Oh! ¡quem me dera nos
campos, lá pelas ribas do Sperchio; pelos cumes do Taygéte,
bacchanalmente retoiçado das virgens lacedemonias! ¡Ai! ¡quem me pozera
hoje nos valles, tão frescos, do Hemo, e com a sombra grande de suas
ramarias me protegera!»--

¡Que melhores Sperchio, Taygéte, e Hemo, que melhores campos, delicias,
e feitiços, que a adolescencia com o amor, e o amor com os seus extasis
e raptos!

¡Que de coisas se não descortinam e ouvem então, que depois se calam e
desvanecem!... engano-me: não se desvanecem, nem se calam; são vivazes e
immortaes no seio da Natureza; mas nós, é que transpomos a paragem
bemdita de reconcavos e eminencias, onde se recebem em eccos
augmentativos todas aquellas vozes, d'onde se descortinam em cheio todas
aquellas vistas maravilhosas.

¡Oh! detende-vos ahi; detende-vos; abraçae-vos aos troncos floridos o
mais pertinazmente que poderdes, que em principiando a descida... ¡adeus
primavera! ¡adeus amores! ¡adeus sabedoria das loucuras! ¡adeus miragens
e musicas da vida! ¡adeus de vós a vós mesmos! ¡e adeus esperanças de
reascenderdes nunca mais! Os leitos de rosas e as corôas de violetas, já
lá estão hospedando a outros viajantes que vos expulsaram. Resignae-vos,
se podeis, á peregrinação, por sobre espinhos, e por entre saudades,
cada vez mais espessas.

¡Ah! ¡de quantas, e quantas não vou eu já carregado para o ciprestal que
lá ao fundo me negreja! Tiremos d'elle os olhos, e deixemol-os ir ao que
lá nos fica perdido, ¡perdido para todo sempre!...


XVII

Passeava eu pois com a minha apparição candida; sentava-a ao pé de mim;
apertava-a nos meus braços; mostrava-a com ufania ao astro das noites,
que não era mais puro, nem mais limpido; pedia-lhe, promettia-lhe uma
ventura ainda não experimentada na terra; unificavamos pelas nossas
confidencias o nosso passado; o nosso porvir entretecia-se n'um ser
unico. O existir eu, era para mim, n'aquelles momentos extraordinarios,
a mais solemne e convincente demonstração da existencia, da realidade,
da indispensabilidade d'ella: ella existia, visto que eu existia.

Não riais: eu amava perfeitamente. «¡A um espectro!» não: a uma mulher,
a uma mulher, de quem só o corpo, talvez, ali faltava, e cuja entidade
moral e espiritual me pertencia me acompanhava, me velava.

¿Não me sentia eu repassado do calor das suas azas invisiveis? ¿não
tirava a cada momento de cima do coração palpitante, para a rebeijar, a
carta por onde tinham girado os seus olhos, em que poisára a sua mão,
que aspirára tão de perto as exhalações do seu seio, do seu coração e da
sua alma?

Aquella carta exercia incontestavelmente em mim um influxo magnetico,
dominador, prestigioso; eu não sabia, nem tentava, explicál-o; mas
negál-o, por um scepticismo ingrato e mal philosophico, muito menos o
podia, muito menos ainda o desejava.

Sentia-me tão bem sob aquella dominação absoluta, era tão bom permanecer
assim, que o meu voto summo seria que nunca mais amanhecesse, se as
falsas alegrias da madrugada me haviam de dissipar tão afortunado Elysio.

Mysterios intimos da grande Isis, religião do amor, ¡infeliz quem vos
não conhece! ¡mais infeliz quem chegou a conhecer-vos e vos perdeu! Esse
é como o tronco sêcco: vicejou, florejou cem annos, cantou com todas as
aves debaixo do céo, mimoso da terra, familiar com o sol, confidente das
estrellas, abrigo aos amantes, depositário dos seus nomes e votos,
suspirando suave com elles, inebriando-os com suas exhalações,
promettendo-lhes, e promettendo-se, primaveras sem numero e sem fim;
depois, murchou; cortaram-n-o, cahiu; fizeram d'elle, se o não deixaram
apodrecer, ou o não queimaram, um instrumento grosseiro para revolver o
solo, um barco para transportar mercadorias; ou, quando mais bem
livrado, um Satyro tosco, de quem riem os passageiros, ou uma apparencia
de Bemaventurado para um altar. ¡Oh! ¡como aquelle arado, se podesse
pensar, trocaria com alvoroço o seu prestimo, aquelle barco os seus
serviços, aquelle Satyro o seu arremedo de riso, aquelle Santo a sua
alampada e os incensos, por uma só das horas frivolas e sem historia, da
arvore, que vivia, que amava, e que era amada!

A minha visão, a minha mulher sem nome, nem fórma determinada, prestes
para receber qualquer fórma, e qualquer nome, era, se me podem bem
entender isto, uma cifra, um symbolo, e o ideal da feminidade. No seu
ser se epilogavam para mim todas as perfeições, todos os encantos
dispartidos por quantas existem, existiram, ou poderão jámais existir;
por isso a minha ternura para com ella era sem limites; era um amor, que
n'aquellas horas de enthusiasmo abrangia todos os amores, presentes e
futuros.

¡Oh! ¡O amor! ¡o amor! se ha n'este mundo coisa que nos possa dar ideia
da grandeza da alma, da profundeza da adoração, do infinito da
bemaventurança, é o amor.

Contam que uma só noite de terror e angustia já cobrira de cans e rugas
a um mancebo; uma só noite como esta no meu pomar de estio, abraçado,
confundido com a minha invisivel, remoçaria a um Nestor.

¿Que seriam todos os gosos materiaes comparados com aquella religiosa
voluptuosidade?

¿Onde ha ahi alcova de noivos, estreada apoz dez annos de suspiros, onde
ha ahi harém de hurís circassianas sobre rosas, ao som dos epithalamios
dos rouxinoes do Bósphoro, que se não trocasse por este noivado mystico,
tão sem rumor, tão puramente celebrado debaixo do céo e no seio da
Natureza estiva pela poesia e pelo amor?


XVIII

Em quanto assim me corriam ali horas de feitiço, ¿onde estava e que
fazia realmente ella?

Só muito depois o vim a saber: pela sympathia inexplicavel que nos
attrahia mutuamente, sentia-me tambem comsigo na sua soledade. Eu era lá
o seu phantasma carinhoso, como ella cá o meu; a lua que de cá e de lá
contemplavamos em commum, observava lá e cá as mesmas scenas tão
parecidas, tão eguaes, que a duplicidade lhes não tirava a identidade.
Supprimam os accidentes de logar; era no mesmo ponto do oceano dos
tempos um só ninho de duas alcyones, que, embaladas mollemente no seu
bemquerer, ignoravam que houvesse mundo para fóra da esphera dos seus
affectos. Assim, não eram já imaginarios os abraços que dava, os abraços
que recebia cada um de nós; as nossas declarações, juras, e protestos,
entravam nos ouvidos, desciam ao coração a que se dirigiam.

O amor, a quem os milagres são naturalissimos, triumphava já da
distancia, como havia de triumphar do tempo e da fortuna.

O sol e o movimento mundano e prosaico do dia seguinte, enfraqueceram
seu tanto as impressões do drama nocturno e intimo. Encerrei-me no meu
quarto; fechei as janellas para revocar no remanso de trevas artificiaes
a sombra magica; reappareceu-me, porém não já a mesma; faltava-lhe a
animação que a vehemencia da minha fé lhe prestára; de tão real que
tinha sido, tornava-se de novo problematica. As objecções da razão
gelada e desabrida, oppunham-se outra vez á prophecia da vontade. A
linguagem nativa e sincera da carta, era um protesto eloquente e
energico da innocencia e do amor contra as suspeitas; mas as suspeitas
murmuravam sempre; a vaidade (¿quem a não tem?) a vaidade, similhante
áquelles rhetoricos subtis das escolas antigas, sustentava
alternativamente o pró e o contra: ora pretendia se acreditasse n'um
affecto, que enobreceria a quem lhe servia de objecto; ora repulsava uma
crença, que, a sahir burlada, redundaria em vergonha muito grande e
muito certa.

N'estas alternativas passaram dias e noites; dias penosos, estirados, e
ermos; noites acompanhadas, festivas, instantaneas. Só quando repoisava
tudo, velava e vivia eu. Os meus pensamentos e as minhas alegrias, com
as flores nocturnas se abriam, com as flores nocturnas se fechavam. Só
as estrellas se podiam mirar n'elles, n'elles que tanto se lhes
assimilhavam no brilho e na pureza.

Quando, apagadas em casa as ultimas luzes, e reinando já profundo
silencio ao longe por toda a cidade, cerca de meia noite, eu entrava com
pé furtivo e o coração pulando, no aprazado arvoredo dos meus amores, já
ali encontrava á minha espera a figura branca. Com mil beijos soffregos
nos saudavamos, vingando-nos em minutos da eternidade do sol. Pedia-lhe
de joelhos perdão de a ter renegado, de ter duvidado da sua existencia,
durante as horas insipidamente allumiadas. Com um abraço restauravamos
as pazes.

Sentava-a ao meu lado, n'um banco rustico, afoufado para ella por minha
mão com mangeronas, que as havia em grande espessura á sombra da
laranjeira mais alta. Reclinava ella a sua cabeça languida para cima do
meu hombro, ou eu a minha face ardente sobre o seu seio, a escutar-lhe e
a interrogar-lhe o coração. Repetiamos os nossos incendidos dialogos da
vespera, como novos. Misturavamos lagrimas de ternura e felicidade.
Reviviamos antecipados os mais bellos futuros. A qualquer tenue rumor,
d'estes com que a noite, maliciosa amiga dos namorados, se diverte a
assustál-os, estremeciamos como dois culpados colhidos em flagrante;
ella, forcejava por fugir; eu, escondia-a, rindo, com os meus braços
contra o meu peito; guardava-a ali muito tempo como filha; embalava-a,
adormecia-a, inspirava-lhe com beijos os sonhos que havia de sonhar,
insinuava-me n'elles, e lhe repetia em voz baixinha as mais suaves
coisas d'este mundo. Se um grillo cantava então, se um ramo ciciava lá
por cima, impacientava-me de que m'a acordassem. Perguntava-lhe ao
ouvido pelo seu nome, pela sua familia, pela terra da sua vivenda; não
respondia. Inquiria-lhe, em tom ainda mais leve, se já porventura em
algum tempo outro amor lhe sobresaltára o coração; levantava-se de
repente, grande, sublime, aggravada da suspeita, prestes a
desaparecer para sempre; e fal-o-hia, se ambos os meus braços a não
retivessem pela cintura:--«Se eu não tivesse um coração ainda virgem,
¡como ousaria offerecer-t'o! ¡offerecer-t'o espontanea! ¡a ti! ¡ao meu
poeta!»--dizia ella com uma voz que não saberia mentir por mais que
fizesse. Pedia-lhe outra vez perdão, agradecendo-lhe a ineffavel certeza
que me dava da minha felicidade tambem no passado; outorgava-m'o
generosa; mas impunha-me, como penitencia, que lhe improvisasse poesia.
Era a poesia o que a fascinára? o que a attrahira para junto de mim; e
eu (¡bemditos os vinte e quatro annos!) derramava, inspirado só por
ella, poesia nova e fervente, por entre aquelles troncos mudos, como as
Philomelas no seu enthusiasmo a esperdiçam pelos choupaes do seu Mondego.

Como a das aves, se perdeu a minha; mas nunca a exhalei tão de dentro,
nem tão para a alma, como então.


XIX

Agora caio eu de repente em mim, e me envergonho de tudo que tenho
estado doidejando. ¿Tinha eu direito, ou necessidade, de fazer em
publico similhantes confissões? ¿Não deixarei ahi violados dois pudores:
um meu, outro alheio e mais que meu? ¿Haverá indulgencia que baste para
devaneios tão frivolos e pueris? ¿Não me desdenharão até, como ficções
inverosimeis, absurdas, impertinentes, estes idyllios elegiacos, tão
verdadeiros todavia? São verdadeiros, e eu prometti historiar; eis aqui
a minha unica defensa.

De mais, eu confio em que os leitores, aliás benevolos, se não
esqueceram do que se ponderou no principio d'este escripto; a
saber:--que, nem em bem nem em mal, se póde carregar á minha conta o que
fazia ha trinta e oito annos um que tinha o nome que eu hoje tenho; e
que esse nascêra e se creára, unica, simples, e exclusivamente, para
poeta, poeta de amores e delicias.

Pressupposto isso, continuemos o pobre romancinho, que nunca o houve
mais historico; e tornemo-nos á carta, que, tantos dias ha, espera uma
resposta.

Ignorava eu pois, e de nenhum modo podia conjecturar, d'onde procedêra,
e que mão a havia escripto; mas propendia, por não sei que vaga
revelação, para crêr que não era senão mulher, poetisa, enthusiasta, e
muito superior ao vulgar pelo talento, quem assim me desafiava o
coração, enamorando-me o espirito.

¿Reflectistes alguma vez no que seja aquelle bichinho de Deus, que pelas
noites de verão está scintillando do fundo de um relvado, sua immensa
floresta? Pois aquillo é uma namorada. O seu resplendor, que allumia as
hervas até á enorme distancia de um palmo em redondo, é a manifestação
esplendida do vago e poetico amor em que ali se consome solitaria; é uma
Hero, mais sublime, chamando e attrahindo com o seu facho um individuo
da sua especie, que ella nunca viu, mas que adivinha ter-lhe sido
predestinado pela Natureza. Deixae-o andar a elle saltitando
inconstantemente pelo labyrinto dos silvados, nas chorêas aereas e
loucas dos seus eguaes, como um cardume de pequenas faiscas
intermittentes; deixae-o volitar tão altivo da sua liberdade, que a
energia do luzeiro lá em baixo, tão formoso e mais vivido que o seu, o
arrebatará em vindo a hora, e no leito de seda de uma florinha, sob o
docel de uma folha verde, o amor e o hymeneu accenderão os seus fachos
áquella duplice chamma confundida n'uma só.

Tal se me affigurava a minha ingenua correspondente, irradiando
d'aquelle modo até a mim, lá do interior do seu pacifico retiro, o
poetico brilho dos seus affectos innocentes.

Na carta refulgia, com effeito, um amor. Era como um carbunculo, que,
trazido para o escuro, continua a expedir os raios de que o impregnou o
sol.

Respondi finalmente. Foi heroica a determinação; foi o salto fatal de
Leucade; foi dar de cabeça para baixo na voragem, que, ou me havia de
atirar arrogado e desconhecivel para cima do lodo, ou restituir-me ao
dia, feliz, glorioso, coroado dos myrthos de Paphos pelas sereias.


XX

Entretanto, no meio da minha allucinação vaidosa, nunca me desamparou de
todo o previdente instincto da dignidade; as minhas paginas confessavam,
sim, o amor; amor profundo, amor immenso; mas este amor immenso e
profundo, qual eu o emprestára á Nympha aerea dos montes, qual eu
proprio o tributára á deidade phantastica da Primavera, e qual mulher
nenhuma deixaria de o colher com avidez, se o encontrasse, apparecia
aqui como um rico fructo do paraizo, ainda pendente no ramo, já maduro,
já proximo a despegar-se, baloiçando-se a um lado e a outro, indeciso
para onde haveria de cahir; era, na realidade, como fôra na fabula o
ramo de oiro, passaporte para os campos ditosos de além mundo,
mysterioso ramo que ninguem por força, nem por fraude, esgalharia da
arvore, mas que por si se deixava tomar da mão chamada pelos destinos
para o haver.

Tal foi, mas em phrase chan, e sem atavios de estylo, a substancia da
minha resposta: enigma contra enigma, oraculo contra oraculo.

N'este vago, de que um e outro, por motivos differentes, mas com egual
cautella, evitavamos deslisar para o positivo, se foi continuando, cada
vez mais frequente, mais ampla, mais amigavel, mais sincera, e mais
interessante, a nossa correspondencia.

Se quem escrevia era aquillo que eu desejava, devia estar contente de
mim; se era outro, e mal benevolo, o empenho que dirigia aquella penna,
esquivava-lhe eu escrupulosamente os azos para triumphos. Eu por minha
parte estava satisfeito de mim, e encantado com tudo quanto se me ia de
novo de dia a dia descobrindo de perfeições na minha Galatéa, que, ao
exemplo da de Virgilio, me atirára a maçan refugiando-se para os
salgueiros; entrevia-a eu por entre as ramas; não a chegava ainda a
conhecer de todo, mas differençava já com evidencia, que não era satyro
travesso, mas sim nympha, namorada e negaceadora como os passaros:

    .............................._lasciva puella_.

Não descontinuavam, no emtanto, diligencias para se descobrir o
esconderijo, em que se homisiava sempre que se presumia ir-lhe já lançar
a mão á ponta do veo. Com a obstinação do mysterio, recrescia o affinco
das pesquizas.

Apparece um fio no labyrinto: as minhas cartas vão por Villa do Conde
para Azurara; mas ¿quem as toma em Azurara? Espia-se, colheu-se: é uma
servente do proximo convento de Vairão. Está pois a caçada circumscripta
a um pequeno recinto, d'onde já não ha fuga possivel para a pobre corça:
agora é deixar-se tomar ás mãos rendida e envergonhada.


XXI

É Vairão um nobre mosteiro de Donas da Ordem Benedictina. Está situado
quatro leguas ao norte do Porto, na terra da Maia (Palencia dos antigos)
entre Douro e Minho; corre-lhe perto o formoso rio Ave, que, por entre
as villas do Conde e de Azurara, entra, grosso de caudaes, e já
senhoril, no mar. As convisinhanças do edificio o tornam grave e
meditabundo: a uma parte, serranias altas e solitarias; a outra, o
Oceano, que rumoreja resguardado da vista por immensidade de pinheiraes.

É tão fidalga a antiguidade de Vairão, que ninguem, ha já muito, nem
elle proprio, lhe conhece a origem. Fundal-o-hia, segundo uns, em 1148,
D. Touris; segundo outros, na muito mais apartada era de 485, certa
senhora nobre, Marispala, de quem se delettreia ainda o nome n'uma
incompleta loisa grande, como campa de sepultura. Fôra, resam memorias,
convento duplex de monjes e monjas da regra de S. Bento, que debaixo dos
mesmos tectos tinham extremadas as clausuras, e communs no templo os
exercicios religiosos. Exhala-se ainda agora d'aquellas paredes um
grande e bonissimo cheiro poetico de seculos e santidade.

Ali pois vivia desde a meninice, secular e educanda, a minha
desconhecida. Não foi difficil adivinhál-a d'entre as companheiras; de
sobejo a denunciavam a notoria superioridade da sua instrucção e
talento, e as suas tendencias todas litterarias e poeticas, herdadas no
sangue e nos exemplos domesticos.

Constava por tradição ter sido uma das illustrações longinquas da
familia o classico Doutor Antonio Ferreira, autor da primeira tragedia
de Ignez de Castro, e particular amigo de Antonio de Castilho. O não
menos classico Nicolau Tolentino de Almeida fôra irmão da avó da nossa
educanda, senhora de virtudes tão iguaes aos seus altos espiritos, que o
grande satyrico usava dizer que só se casaria, se o casamento com irman
fôra permittido.

Desappareceu a mascara: Maria da Expectação Silva e Carvalho é já,
descoberta e confessa, D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal.

O meu romancinho devia terminar n'aquelle ponto, ou proseguir
transformado em historia; estava escripto que proseguiria.

Tal era tambem, e fôra desde a primeira hora, a tenção resoluta e
inabalavel da que viera despertar-me para a festa do coração.

Assenti; deixei-me por ella conduzir, indifferente a calculos, adverso
por natureza a previdencias; tão poeta no real, como no imaginario o
tinha sido, e como o hei-de já agora ser até ao fim; em summa:
verdadeiro crente na Providencia.


XXII

Parecia que eu e Maria tinhamos ouvido da propria bocca do Salvador o
admiravel sermão da montanha; ¡tanto nos estava profundamente impressa
dentro a sua doutrina! Eram com effeito evangelicas, ou de boa nova,
estas palavras de Christo:

--«Não hajais cuidado do vosso viver, d'onde comereis, d'onde bebereis,
ou d'onde vos heis-de vestir.

«Olhae-me para as avesinhas do céo; vêde lá se ellas semeiam, ou ceifam,
ou encelleiram coisa alguma; quem as mantém é o vosso Pae Celeste. Pois
vós sois para elle muito mais que as avesinhas do céo.

«¡Vestido!... ¿A que vem o dessocegar-se por elle? Reparae no como
crescem os lyrios dos valles: não trabalham, nem fiam.

«E mais vos digo, em verdade, que o proprio Salomão nunca trajou galas
como qualquer d'elles.

«Ora: se Deus assim reveste umas hervas do campo, hoje viçosas,
amanhan queimadas no forno, ¿não vos revestirá de muito melhor grado a
vós, creaturas de apoucada fé?

«Portanto, nada de vos inquietardes dizendo:--¿Que havemos de comer, que
havemos de beber, que havemos de vestir?

«Que se desvelem com isso os pagãos; o vosso Pae Celeste bem sabe que
todas essas coisas vos são mistér.

«Não vos atormenteis pelo amanhan; o amanhan lá curará do que lhe
pertence: bem bastam a cada dia as suas penas.»--

Não sei, nem nos importava saber, se Thomaz Roberto Malthus, o
economista algoz dos casamentos pobres, approvaria, ou não, esta nossa
fé tão commoda, e que a mesma Providencia tomou depois a si o justificar.

Se quereis verdade ainda mais em cheio, e sem disfarces, nenhum de nós
ambos se lembrava de pensar no futuro por esse lado; entre nós e o
porvir material, mettia-se uma seve de affectos tão espessa, tão alta, e
tão florída, que não nol-o deixava perceber. Era como o pinhal a
cortinar o Oceano revolto de ante a vista do conventinho descançado.

Olhae que eu não vos prégo ó sermão da montanha para que nos imiteis,
mancebos e donzellas na febre aguda do amor, vós para quem uma cabana,
uma fontinha, quatro raizes do monte, e para postre amoras de silva, e
as glandes do filho prodigo assadas n'uma fogueirinha de gravetos, se
figuram banquete em palacio, sobrando-lhe para salsas o bemquerer; não,
Robinsons do affecto e da adolescencia descuidosa e credula; o que só
faço é relatar-vos, sem apologias nem recommendações, o que por nós
passou n'uns tempos de loucura, que (¡ainda mal!) não podem já voltar.
Lêde muito nas boas horas, como nós a reliamos, a consolativa prégação
dos passarinhos e dos lyrios; mas, se vos parecer, não deixeis de
folhear tambem um poucochinho os economistas; não será mau. Os corvos da
Thebaida acudiam, verdade seja, aos santos eremitas á hora do jantar com
pães tomados sabe Deus d'onde; mas não ha muitos d'esses hoje em dia, cá
pelas cidades. Corvos que vos empolguem o vosso pão da mesa, e até da
mão, isso mais depressa.


XXIII

Maria conhecia-me pelos meus livros e pelas minhas cartas; alguma coisa
era; mas os meus escrupulos melindrosos pediam mais: enviei-lhe o meu
retrato, uma expressiva miniatura em marfim. A mão engenhosa do pintor,
não paga de me reproduzir, enchera de um rosal florescente o fundo do
seu painelinho; era o poeta da _Primavera_, rodeado dos seus preteritos
amores. Guardo-o como preciosidade e reliquia; ¡se andou tanto tempo
occulto no seio com que eu sonhava!... A carta em que ella me agradecia
este pequeno penhor, repoisa, outra reliquia, no mesmo cofre junto
d'elle; seria profanação o publicál-a. Fique ali a sonhar eternamente a
immensa ternura de que a repassou a melhor, a mais carinhosa mão de
quantas jamais pegaram na penna para revelar a uma alma a formosura de
outra.

É a este segundo periodo das nossas relações, começado ao desfazer-se a
nuvem da divindade, deixando apparecer a mais sympathica das mulheres,
que pertence inteiro o livro sobre que emprehendi derramar agora alguma
luz.


XXIV

Lêstes sem duvida a historia de Pygmalião; então sabeis como aquelle
phantasioso escultor, com a arte no coração, e a fé na alma, lavrou uma
estatua, se ennamorou e endoideceu por ella.

O sol da Grecia, que tantos portentos allumiou, nunca vira coisa assim
formosa.

O Real estatuario, pois era Soberano, esqueceu por ella mais que o seu
throno de oiro, e os seus estados que o adoravam; esqueceu todas as
beldades de umas regiões como aquellas, digno berço de Venus e das
Graças, e onde os lacteos marmores e as ceras coloradas, para copiarem
aos olhos as formosas do Olympo, e povoarem os templos com Hebes e
Junos, Dianas e Minervas, de mais não precisavam que retratar os bandos
vivos e buliçosos das filhas da terra. A todas offuscava para elle,
para elle Jupiter do cinzel, a Pallas brotada da sua cabeça poetica
e fogosa; assim a lua cheia, ao levantar-se de traz dos cumes selvaticos
dos Dáctyles, desterra o scintillante cardume das estrellas.

Não contente de a vêr todo o dia, vinte vezes se levantava cada noite
para tornar a vêl-a, e de cada vez lhe descobria gentilezas novas. Com a
alampada trémula na mão, erguendo-a, abaixando-a, ora de longe, ora de
perto, a rodeava, scismando, palpitando, sorrindo, figurando-se-lhe
vêl-a corresponder com a expressão do aspecto ás blandicias com que
elle, mais poeta que Anacreonte, a affagava. ¡Oh! ¡que não daria elle
por ter a lyra de Orpheu e de Amphião, cujos sons escutados pelas pedras
as animavam!

Ás plantas nuas da sua Galatéa, mil vezes rebeijadas, tomava as suas
refeições, offerecendo-lhe sempre com suave convite as primicias de
Baccho e Ceres, os mais perfeitos favos de Hybla e do Hymetto, e os mais
delicados dons de Pomona, que em canistreis de vimes de prata lhe vinham
pôr deante virgens, por quem o Pae dos numes se metamorphosearia vinte
vezes.

Cochichavam ellas entre si, e riam doidinhas á socapa os mais tentadores
risos que sabiam, sem nunca lograrem que os olhos fitos nos da estatua
se abaixassem, nem por descuido, para os d'ellas. Retirada a mesa,
fechava o Principe as portas eburneas do aposento, incendia-se com
segundas libações rituaes de Naxos e Chios; exhalava o seu fogo
tresdobrado em abraços e beijos; cingia de perolas e diamantes o collo e
os pulsos da effigie; banhava-a com essencias de nardo e dictamo;
engrinaldava-lhe a fronte com as rosas mais frescas das emmolhadas em
vasos aureos esculpidos, coroando-se com as restantes a si mesmo;
tornava a encaral-a; e o reflexo das flôres de Amathunta, que Sapho
algum dia havia de proclamar rainhas de todas as flôres, e a que a Mãe
de Cupido fadára as mais extranhas seducções, quando as viu retintas com
sangue do seu Adonis, aquelle reflexo purpurino no alvor das faces lhe
parecia, no seu estatico enlevo, uns assomos do pudor virginal
sobresaltado com a desnudez propria, com a solidão e voluptuoso
desamparo do sitio, com o olhar a um tempo supplicante e audaz do
adorador.

Era então que, delirante, perdido de desejos impossiveis, elle se lhe
pendia amorosamente ao pescoço, forcejava por animal-a com ósculos; e
reconhecendo quanto eram baldados os seus desejos, imbebia o rosto
ardente entre os arfantes seios, frios, de marmore, e os áljofrava com
um chuveiro de lagrimas. Nestas porfias, sem victoria nem derrota, se
lhe exhauriam as forças; deixava-se cahir esmorecido para cima do tapete
de purpura de Tyro, cerrava os olhos, e um somno transparente, um
meio-sonho, dando-lhe por momentos a posse da sua beldade, ouvindo-a,
sentindo-lhe palpitar o coração, repassando-se do seu calor, o
restaurava, para se tornar com mais vehemencia, em acordando, á sua
adoração perpétua, ás suas cubiças insensatas.

A deusa dos mil amores, que perscruta até ao intimo os corações dos
mancebos, podia bem ter ciumes d'aquella pobre e insensivel beldade tão
amada; mas foi generosa; generosa... não: antes muito justa. ¿Não era
aquelle o mais solemne culto, o culto mais sincero e desinteressado que
jámais se rendêra á sua divindade?

Não odiou a Galatéa; sorriu-lhe como para uma irman mais nova; mirou-se
n'ella complacente como n'um espelho. A filha das ondas do Egeu foi
benigna para a filha dos marmores de Paros.

--«¿O amor que nasceu de mim--dizia ella--não me tem a mim propria
ferido e felicitado, tantas vezes? ¿Por que não farei eu que esse amor,
não menos maravilhoso, que nasceu d'aquella, lhe dê tambem um quinhão
nos céos que eu disfructo sem limite?»--

Pygmalião, o Rei artista, havia afeiçoado para muitos altares os mais
perfeitos, os mais adoraveis simulacros da Immortal; e se não se
inflammára por elles, como agora por este de Galatéa, era só por que a
santa majestade do ser divino lh'o prohibira; mas os templos, em que os
milagres d'essa arte crente e inspirada resplandeciam alvejantes, eram
sempre os mais frequentados, os mais servidos com offertas, sacrificios,
e grinaldas. A officina mesma, em que avultava entre um povo de outras
estatuas e grupos a estatua da sua rival em fascinações, era sympathica
aos olhos da Omnipotente, e sollicitava o seu favor. As pombas, que a
ella lhe vogam o carro aereo, jungidas com festões de murta, tinham
ali entrada livre. Dos loireiros rosiflores, e das grutas dos jardins do
palacio, esvoaçavam-se familiares até aos peitoris das janellas, sempre
francas ás inspirações dos ceos diáphanos, do cicío das auras pela
folhagem, e do estrépito das fontes, melodias como de nautas migdóneas.
D'ali observavam, conversando umas com outras, a profusão que lá dentro
ia, de coisas tão brancas, tão suaves: ¡tanta nympha! ¡umas, trajadas
como para chorêas! ¡outras, despidas como para o banho! ¡e entre todas,
e sobresahindo a todas, o vulto da propria deusa, tão sua conhecida, e o
de Galatéa, não menos celeste, candida como ellas, e, a julgar pelo
sorriso, como ellas affectuosa! Alguma das espreitadeiras aladas dizia
então lá pela sua lingua ás companheiras:--«¡Olhae, olhae como está em
ambas enlevado! os escravos chamam-lhe Rei, mas não é tal: é, como nós,
um captivo do amor; ¡e de quão benigna condição!... é reparar-lhe no ar,
nos movimentos. ¿Não vêdes como olha para nós, tão benevolo, e quasi
invejoso, quando nos beijâmos? entremos sem medo, que nos não ha-de
fazer mal. ¡Mal aquelle!... Apostaria eu que já foi pomba, antes de ser
gente. Chôva-lhe a nossa rainha, como sobre nós, amores sem espinhos, e
delicias renovadas de hora a hora.»--

A estancia era então invadida pelo bando festivo. Pygmalião exultava,
tomando por feliz agoiro ver as conductoras do coche de Dióne
arraiarem-lhe a casa toda com os reflexos argenteos das suas azas
irrequietas, e cobrirem de ternura, de voluptuosidade, de poesia, como
um veo alvo, roto, e esvoaçado, as estatuas dos dois idolos do seu coração.

¿Não era tudo isto mais que bastante para merecer á mãe do amor um
prodigio sem exemplo, e que a ficasse glorificando nas lyras namoradas
de todo o mundo?...

Acabava um dia o Principe de queimar aos pés de Venus, segundo o seu
costume de todas as manhans, uma copiosa oblação do mais puro incenso.
Tinha regado o fogo, em que elle fumava n'uma amphora de bronze, com
vinho amadurecido havia cem annos pelos oiteiros pampinosos de Chypre, e
reservado em talhas de barro para sacrificios aos deuses maximos. Tomada
respeitosamente venia da Immortal, transporta por suas mãos o vaso
depositario do fogo para deante de Galatéa. Quer offerecer-lhe, ainda
que em segundo logar, porção igual, tanto da rescendente massa, orgulho
da Arabia, como do liquido generoso. Enganou-se-lhe a mão no incenso, e
lançou nas brazas porção avantajada. Venus sorriu, e não se agastou. As
distracções do amor, ninguem melhor do que ella as conhece por experiencia.

Emquanto o veo alvacento do innebriante fumo, elevando-se d'ante o
pedestal da nympha, a envolvia toda, e tornava a sua presença mais
celestial, Pygmalião, acompanhando-se com a lyra de sete cordas, cantava
de joelhos um hymno, que as pombas escutavam n'um silencio religioso;
pareciam querer decorál-o para o repetirem á sua rainha, quando ella se
jazesse em amoroso ocio, reclinada sobre as violetas em algum secreto
pavilhão de rosaes da sua Paphos:

    --Tu que exhalas de ti, qual vérte a rosa aromas,
    effluvios de prazer, universal ternura,
    Mãe das Graças e Amor, deusa da formosura,
    que envolves a nudez co'o veo das aureas comas,

    Venus; pois que são teus os ceos, a terra, os mares,
    e até ás sombras do Orço abrange o teu poder,
    lança um propício olhar, Venus, aos meus pezares;
    do teu jugo me solta, ou dá-me emfim morrer.

    Com tão cruel supplicio, ignoto á humanidade,
    ria teu filho em vão, tu, deusa, és mais piedosa.
    Ardo por uma pedra em chamma vergonhosa,
    perdi a paz e a gloria, o siso e a liberdade.

    Qualquer ente alardeia ufano os seus amores:
    a ave, piando; o peixe, aos pulos pelo mar;
    o rebanho, mugindo; em cantos os pastores;
    e eu, Venus, só a ti ouso este ardor mostrar.

    ¡Quão menos insensato o moço do Cephyso
    se finou por si mesmo ao pé do espelho aquoso!
    Suppoz a sombra nympha; espera ser ditoso;
    cai no engano; perece; apiadas-te, é Narciso.

    E eu, eu sei que a beldade, iman d'est'alma ardente,
    só a mim deve o ser; nasceu de minha mão;
    não me ouve, não me vê, não se condoe, não sente;
    não lhe pude formar lá dentro um coração.

    ¡Ó Venus! se ha mulher que eu possa crer retrato
    do immenso que sonhei compondo a Galatéa,
    revela-me onde habita a amavel Semidéa;
    assim teu filho Amor jamais te offenda ingrato.

    Seja embora pastora, obscura, humilde, escrava;
    terá por choça um throno, e por captivo um Rei;
    e eu, já salvo da insania, eu, que a teus pés chorava,
    a ti uma hecatomba alegre immolarei.»--

Ainda bem não findára a prece, quando lhe pareceu notar nos labios da
Immortal um sorriso auspicioso. O Cupido, que junto d'ella estava em pé,
e que era tambem obra de suas mãos, agitou as azas de marmore, soprou as
labaredas petrificadas do facho, que instantaneamente coruscaram, e
rompendo por entre a cortina do incenso, que ainda envolvia a nympha,
lhe lustrou com o milagroso calor a fronte, os olhos, as faces, a bocca,
o seio, o coração. Ao fogo d'este segundo e divino Prometheu, a estatua
estremece; a pallida brancura se tinge da côr da vida; o peito palpita;
os olhos se voltam para o céo da Grecia, que logo os embebe do seu mais
brilhante azul; baixam sobre Venus; ¡parecem attonitos! descem;
¡encontram-se com os de Pygmalião! duas rosas subitas se abrem nas
faces; o sorriso, aurora de uma existencia de amores, alvorece em labios
nacarados.

--«¡Filha dos meus sonhos!» «¡Galatéa!--» exclama o artista delirante,
correndo a tomál-a em braços, ao vel-a descer do pedestal. «Galatéa,
¡filha dos meus sonhos! ¡se é esta uma nova illusão que Morpheu me
envia, compassivo, mas cruel, possa eu não acordar jámais!»

¿Vistes vós alguma vez rasgar um dia magnifico depois de uma noite
profunda? ¿Notastes como então sahiam do nada as amenidades das terras e
dos rios, a animação e o movimento dos campos e das cidades, as côres,
os cantares e as esperanças? assim, repassada a subitas de calor e luz
pelo sol dos espiritos, pelo amor, a alma recemnascida de Galatéa
adivinhou para logo a adoração de que era alvo. Comprehendeu a turbação
que inspirava, pela que sentia. Viu nas profundezas interiores do
seu ser, diaphanas como um lago limpido, a sua pureza virginal, a sua
magica-branca, a sua suavidade irresistivel, o seu destino de ser feliz
felicitando.

A turbação instinctiva de um pudor que a si proprio se ignorava, cobriu
o rosto de Galatéa do mais amavel escarlata; abaixou a vista sobre si
mesma, e não sabendo para onde se refugiar, mariposa attrahida da luz,
voou para os braços do amante, escondendo o seio no peito d'elle,
fechando os olhos para não ser vista.

N'este momento a Philoméla, occulta na folhagem de um platano visinho,
entoou um brilhante epithalamio, e o hymeneu fechou as cortinas
purpureas do aposento.


XXV

Despidos os accessorios esplendidos e sobrenaturaes, a fabula de
Pygmalião reproduziu-se na minha historia; o simulacro que eu incensára
e servira, o simulacro filho da minha imaginação, era emfim mulher;
mulher amante, capaz de bemaventurar-me, e desejosa de o fazer. Só a
Philoméla do platano, e o hymeneu, andavam ainda tão longe e tão
emboscados nas brenhas do futuro, que eu mesmo não ousava crer-lhes bem
deveras na existencia.

Entretanto, como a encarnação e os sentimentos do meu idolo para commigo
eram innegaveis, começou logo a haver entre nós uma especie de
semi-consorcio tacito; era já a communidade dos corações, se não era
ainda a dos somnos, visto que o bom Ducis, chamou ao casamento

    _Douce communauté de coeurs et de sommeils._

As nossas mutuas confidencias passaram a ser, por minha parte, o que por
parte d'ella desde o principio tinham sido: reservadas inteiramente de
ouvidos extranhos e curiosos. Com isso lucraram muito maior affoiteza,
e um novo encanto, que nos concitou a ampliál-as de dia a dia.

Quanto é dado a ausentes conhecerem-se, conhecemo-nos. Pelas mutuas e
circumstanciadas descripções que trocámos das nossas vivendas, dos
nossos gostos, do emprego das nossas horas, e de todos os nossos
pensamentos, podemos, como sylpho e sylphide, visitar-nos de continuo.
Estavamos simultaneamente: eu junto d'ella, no seu mosteiro; ella
commigo, no meu castello. Já não havia lá nem cá, ladrilho de pavimento,
nem abobada, accidentes de luz ou sombra, movel ou planta, que nos não
fosse familiar. Via ella gostosa ao meu lado, o irmão inseparavel que me
excitava a querer-lhe, a amál-a, com a mesma espontaneidade com que me
acompanhava nas outras excursões poeticas; eu, achava ao pé d'ella a
Religiosa sua intima, que a vira crescer, que a estremecia como a filha
e irman, que a ajudava com os seus conselhos, a protegia como Anjo da
guarda, se revia na sua bondade e no seu talento, e que, apesar de não
saber como viveria se a perdesse, nem por isso apressava menos com os
seus votos o momento de m'a entregar.

Assim mesmo, ¡grande era na verdade a minha solidão! mas tenho que a de
Maria era ainda mais profunda, poetica, e enamorada.

Ha uma natural propensão que nos leva sempre o desejo do que possuimos,
para o que não temos, para o que muitas vezes não poderemos alcançar; a
imagem de um ermo attrai o mundano; a do mundo dessocega ao eremita. São
palpitações e adejos da alma captiva para o ideal. Somos assim. Se o não
fôramos, ¿onde estariam os horizontes luminosos da alma? ¿Onde, como, e
de quê, podéra crear-se poesia?

Eu, que tinha em redor de mim uma cidade, e a liberdade de me expandir
para toda a parte, punha as minhas mais cordeaes delicias em me ir
encerrar não pressentido, nem presumivel, n'aquella remota clausura.
Maria, costumada a ella, sem quasi conhecer outra coisa, e devendo
estremecer só ao pensamento de trocar o seu pacifico viveiro pelas
extranhezas e perigos do ar pleno e sem limites, Maria, compunha agora
lá os seus melhores devaneios no phantasiar outro viver, outro sentir,
outros deleites, e de todos os deleites o maior, dizia ella, o de gastar
a sua existencia em amenisar outra; ambição verdadeiramente feminil: ¡a
abnegação absoluta!

Se viessem no futuro a citál-a como a socia, a guia, a auxiliar, a
afinadora da lyra do poeta, e a serva ministra das suas festas, seria
isso para ella um triumpho (mil vezes m'o repetiu). Mas, embora o seu
nome viesse a esquecer de todo (acrescentava com uma effuzão de ternura
encantadora), a certeza de haver obscuramente cumprido todo esse
encargo, já lhe bastava para não trocar a sua dita pela de outra alguma.


XXVI

As abobadas de um claustro encobrem thesoiros de sensibilidade
inapreciaveis, inexhauriveis, e bem mal avaliados dos profanos.

Cada um considera aquelles encerros mysticos á luz dos seus proprios
preconceitos. Um espiritual, vê ali um alfobre de plantas para o Céo;
uma terra de Gessen allumiada de cima pelo sol, no meio de um Egypto
ennoitecido; um paraizo passageiro sotoposto ao Paraiso perennal, com a
mais curta e directa serventia de um para outro. Ao incredulo, figura-se
um pantano antigo de fanatismo e superstições. Um economista, lhe chama
desperdicio anachronico de riquezas, de forças productivas, e de
população. Um naturalista, execra, em nome da Natureza, que se ousem e
se permittam votos de a renunciar; e, propheta de infortunio, commina,
em nome d'ella, como infalliveis penas do desacato, as tristezas, as
enfermidades moraes e physicas, as allucinações, os delirios, o
definhamento, o envelhecimento no incompleto dos annos, a morte
prematura. Finalmente, um romancista licencioso sonha, e se arroja a
escrever os seus sonhos como historia, que o amor, bannido em vão
d'aquelles recintos, em parte nenhuma é tão despota, tão insensato e
monstruoso como lá. Segundo esses moralistas de abominação, os mysterios
vergonhosos da deusa Bona, ter-se-hiam perpetuado ao abrigo e no seguro
inviolavel dos nossos asylos religiosos.

Desprêso a tantos exageradores systematicos. Se um mosteiro não é Céo,
porque o não ha nem cabe na terra, é um santo e bemdito refugio, onde
muitas penas se atalham, e muitas se adormentam.

¿O caracter de contranatural, que acintosamente se exprobra ao mosteiro,
existirá porventura, como se comprazem de declamar os seus
antagonistas? Não de certo; no mosteiro feminil principalmente.

Se a felicidade terrestre, por outra, o contentamento, é o unico alvo
racional, a que tendem por diversas vias todos os exforços humanos,
¿quem affirmará com a mão na consciencia, que a mulher do nobre no seu
solar, a do burguez na sua casa, a do artifice no seu sótão, a do
rustico na sua cabana, a do pescador na sua choça, para não falarmos de
tantas outras mulheres sem poisada certa, sem familia, e sem sociedade,
disfructam maior quinhão de ventura que as Religiosas? ¿Será tudo, será
mesmo o essencial para a felicidade, o ter um esposo e ter filhos, esses
dois bens, essas duas ufanias tantas vezes descontadas pelos mais
pungentes cuidados, pelos mais amargos desgostos, e não raro pelo
encurtamento da existencia?

«Possuem a liberdade,» dirão elles. ¡A liberdade!... ¿que liberdade?
interrogae-as a uma e uma; não ousarão responder-vos; mas um
involuntario sorriso triste vos responderá por ellas. ¿Quantas são das
forçadas que remam n'esta galé mundana, as que não terão muita vez
pensado com inveja no viver manso e sem estrondo d'aquellas solitarias,
sem os cuidados do amanhan, sem as fadigas improbas do hoje, sem os
arrependimentos e os pesares do hontem?...

Cada uma d'estas diversas operarias do futuro, colhe, é verdade, aqui ou
além, mais ou menos abundante, mais ou menos imperfeito, algum deleite
que o mundo nega ás cenobitas; ¡mas quanto não compra ella caro esses
deleites, essas escaças compensações dos seus pobres destinos, que vós,
philosophos exclusivos da população e da riqueza publica, chamarieis
naturaes, se vos atrevêsseis!

A eremita, pelo contrário, privada d'estes gosos passageiros, está livre
das sollicitudes que tantas vezes os precedem, os envolvem, os seguem,
os descontam, os aniquilam.

As faculdades amantes de que se compõe essencialmente o ser feminino,
não se anihilaram entrando para o ermo; exaltar-se-hiam porventura; e,
se lhes faltasse emprêgo e alimento, devorariam afinal miseravelmente, e
com medonha rapidez, as miseras depositarias d'esses dons celestes.
Felizmente não succede assim. Ellas amam tambem.--«¿Amam?!» ¡Oh! ¡e
quanto! ¡e quão bem! ¡e quão satisfeitas! «¿Ellas?!!» Sem nenhuma
dúvida. Os seus amores são melhores que paixões: são simplices affectos.

Uma cultura especial, e o influxo dos ares que respiram, operaram
n'ellas, sem as destruir, uma curiosa transformação: tinham nascido
flores singelas para fructificarem vulgarmente; uma jardinagem milagrosa
as converteu a pouco e pouco em flores dobradas, mais fragrantes, mais
para cubiças. Do que originariamente havia de servir para a reproducção,
fez petalas; fez viço; fez flor de flor: monstruosidade embora para o
botanico e para o naturalista, mas ufania para a terra, e orgulho para a
arte, que, sem destruir a natureza, logrou apresental-a com aspecto mais
formoso. D'estas flores viventes póde coroar-se a Religião, que são
dignas d'ella; póde inspirar-se a Poesia, que em nenhuma outra parte as
encontrará tão celestiaes; e póde a Moral mesma comprazer-se, que tem
n'ellas modelos perfeitos de virtudes, sempre raras, e cada vez mais
recommendaveis.

¿Mas teimais em perguntar que é o que realmente amam estas mulheres?
Tenho medo de que não chegueis a entendêl-o bem, porque eu mesmo,
grosseiro, carnal, mundano como vós, não cheguei ainda bem a
explicar-m'o. Para isto, falta-nos a nós todos um sentido, sentido sem
nome, que descobre mil coisas subtis no mundo moral; a metade mais
delicada da nossa especie é que o possue; as mulheres é que o saberiam
explanar.

Se em espirito devassâmos a furto uma clausura, ¿que é com effeito o que
descobrimos n'aquelle mundo tepido, tão suave, melodioso, e perfumado
por dentro, como triste, áspero e mudo parece cá de fóra? A alteza dos
muros, e as grades de ferro, têem razão: não estão ali para evitar a
fuga; estão porventura para disfarçar a seducção do retiro, que, a ser
conhecido, fascinava excessivamente; estão sobre tudo para rebater
audacias de desejos impuros, qua a pureza mesma attrahiria, como o balir
manso das ovelhas no aprisco está innocentemente chamando os lobos em
seu damno.

Por traz d'aquellas gradarias severas, d'aquellas muralhas ameaçadoras,
está uma cidadinha toda feminina, sempre em paz e em festa; paz
talvez com leves quebras, para melhor se apreciar; festa sem tumulto nem
estrondo, sem custosos preparos, nem recordações afflictivas.

Os dormitorios são bellas ruas direitas, calçadas de lageas polidas, e
onde o silencio, amigo da meditação, se casa harmoniosamente com a
sombra fresca, e deixa perceber o som dos proprios passos que vêem da
extremidade opposta, como se até o andar tivesse ali a sua reflexão.

Por ambos os lados d'estas ruas, abobadadas como hoje as de Herculanum,
e condecoradas cada uma com o gracioso nome de uma Santa, se enfileiram
os modestos palacios das habitantes. As portas sem chave, á primeira
saudação affectiva, ao minimo toque, se descerram. Descobre-se no
interior a riqueza da desambição; um sorriso hospedeiro, que illumina
tudo como sol; o leito alvo para os alvos sonhos; os paineis
meditabundos, que a musa da lenda explica, ora em idyllios, ora em
phantasticos romances, ora em tragedias gloriosas. Sobre a mesa sem
espelho, a jarra de flores entre duas velas de cera alvissima, e alguns
livros, d'estes cuja leitura se interrompe a scismar, e se continua
mentalmente por uns mundos nunca vistos, em que tudo são maravilhas. Um
pintasilgo saltitando e scismando tambem n'alguma coisa do passado, do
futuro, ou do possivel, alterna suspiros e cantares, pendente do tecto
na sua thebaidasinha de arames, enfeitada de ramos frescos; vê de um
lado a arqueta do seu pão sempre cheia, do outro a sua cisterna de
vidro, em que se mira como Narciso, em que bebe como a Samaritana, ou se
banha na sésta como odalisca; em baixo, vê a sua providencia, que em
fórma de boa amiga o considera, lhe fala, e interrompe os seus lavores,
ou orações, para lhe atirar beijos. Emfim: a janella completa as
magnificencias do palacete, juntando-lhe, como dominios contiguos, o
vergel proximo, e o ceo, que pouco mais distante se figura.

Nas casas d'esta singular cidade, que o mundo não vê, e muito d'elle não
quer ver, para mais a seu salvo a poder negar, ajuntam-se frequentemente
assembléas, em que se não gosa por certo á moda de nós outros, mas se
gosa não menos, e talvez mais, á moda do ermo: são conversações entre
espiritos. Se as paixões vehementes as quizessem invadir,
resvalavam-lhes pela superficie. Os affectos sim que as povoam, e
constituem a sua essencia; é um papear como dos passarinhos n'um bosque
ao principio e ao fim do dia; porque n'aquellas vozes meigas, ora
transpiram os influxos de um crepusculo, que apoz as trevas se abre para
um dia grande, ora os de outro crepusculo, que se vai a pouco e pouco
fechando sobre as alegrias, para acabar na escuridão; mas, quer um, quer
outro, todo o crepusculo tem rosas, todas as rosas teem amores.

Não se discutem ali, nem as novidades do periodico, jornal das modas dos
politicos, nem os caprichos dos enfeites, politica das mulheres. Os
eccos dos espectaculos, dos motins, dos escandalos, das heroicidades,
das demolições e das edificações das outras cidades, das grandes, das
Babylonias, ou não chegam até esta povoação, ou lhe entram tão
amortecidos e como de coisa tão extranha, que nada ou pouco desconcertam
a immutabilidade do pensar, e nada absolutamente a do viver.

O amor sensual é da Natureza, não ha duvida, e não entra ali;
afugentam-n-o, exorcizam-n-o, como o demonio do meio dia e da meia
noite; debalde o pobresinho se faz Protheu para as captar: agora
cantando-lhes convites d'entre a copa de uma arvore, agora passando como
viração que vem de ver namorados, e vai correndo por cima das hervas
trémulas a espreitar outros; uma vez é som de flauta longinqua, que
desperta suspiros por onde passa; outras, um nome de homem proferido ao
acaso, palavra sem virtude onde elles abundam, mas ali occasionadora de
devaneios; reveste a fórma de alguma coisa, de alguma pessoa, de algum
sitio, de alguma scena, que se viu em quanto se andava lá por fóra, em
que se ficou pensando, e que ainda na memoria do coração se não apagou.

Sim, sim; não ha negál-o: o Amor, ladeado das Graças, deve espreitar bem
a miude, trepado nas grades exteriores, para o que vai lá dentro, como
os passeantes n'um jardim devoram com os olhos as flores e moveis de uma
estufa, ou como as pombas de Pygmalião lhe consideravam as frias e
ridentes estatuas da officina.

¿Mas que mal faz isso? tambem as Amazonas haviam de ser salteadas,
não raro, por vagas tentações voluptuosas. Todavia, a gloria de lhes
resistirem, junto ás occupações que lhes enchiam a vida, as mantinha
satisfeitas umas das outras, e ufanas do seu forçado celibato.

Toda a differença é: que as heroinas do Thermodonte, cortando o seio
direito para melhor pelejarem, como que despediam de si metade da sua
feminidade, e, endurecidas com a prática das guerras, se indemnisavam
com a alegria de vencer a inimigos, dos deleites de serem vencidas por
amantes; ao mesmo passo que estas amazonas pacificas da Religião,
conservando inteira toda a sua sensibilidade, a enganam, dispartindo-a,
furtada aos impetos da natureza carnal, por um cardume de objectos qual
a qual mais consentaneo á sua indole delicada: é o trato das flores, que
são suas irmans; é a creação dos passarinhos, que são, voadores do ceo,
os irmãos de suas almas; o canto, exercicio de Anjos; é a caridade,
enlevo do Creador; são as miragens infinitas da esperança; são as
perdoaveis altivezes de um estoicismo temperado; são tambem os
entretenimentos manuaes: ora de vestir e ataviar a santa Imagem
predilecta, que para o coração suppre uma filha, ora de coser o enxoval
branco para a creança que está para nascer na cabana visinha, ora tambem
de seroar na grinalda de flores de laranja, com que se ha-de enfeitar no
seu dia grande uma noiva muito amiga.

¿Que são os presentes que saem continuos d'aquelas portas, se não coisas
todas formosas e suaves como a cera e o mel das colmeias? laminas
devotas e scintillantes; doces de mil gostos, de mil côres, de mil
fórmas; flores e fructos artificiaes, com que as abelhas se enganariam;
aromas para toucadores e festas; cartas, mensagens, e convites quasi
pueris na simpleza, e sempre rescendendo á innocencia mais sympathica e
mais alegre.

O segredo de tantas e tamanhas branduras, por si mesmo se descobre: a
mulher no trafego do mundo, se infiltra suavidade para o sexo forte, com
quem convive, recebe d'elle em troca o que quer que seja de mais grave,
que não quero dizer de menos extremoso; e uma beneficiação mutua e
perenne, que a Providencia ideou quando partiu em duas metades a nossa
especie; mas a mulher na convivencia exclusiva do seu sexo, mantem
inteiras, completas, e no mais perfeito estado de graça original, todas
as suas disposições nativas; é como a violeta, que emboscadinha á sombra
conserva o cheiro subtil e o frescor virginal, que as mãos e o sol lhe
estragariam.

A mulher aqui não é esposa nem mãe, porém não deixa de ser mulher, se
não que o é em muito maior auge.

¿Não vos basta? ¿deplorais a encantada cidadinha por estar carecente de
praças, de passeios, de espectaculos? Outro engano; outro engano
manifesto: ¿pois não são donosas praças aquellas crastas arborisadas,
com suas sonorosas fontes de repuxo no centro, e á volta majestosas
arcarias á romana? ¿claustros guarnecidos de baixo a cima com azulejos
de biblica erudição, não recordam os Porticos, em que os antigos
senhores do mundo se espaireciam das calmas por entre estatuas e
pinturas de suas fabulas? ¿não são passeios publicos, e mais apraziveis
por libertos de constrangimentos, os jardins, os pomares, as frescas
hortas da cerca? ¿theatro de espectaculos augustos, não o será o templo
aos olhos da fé e da piedade? ¿não se representam ali em seus dias
prefixos todos os lances da vida do Salvador, desde o Presepio até ao
Calvario, desde o Calvario até á Ascensão? ¿todos os passos da Rainha
das Virgens, desde a sua Natividade até á sua Assumpção? ¿todas as
glorias dos principaes Bemaventurados? ¿Não é ali, no magnifico
santuario, que entre a profusão de marmore, luzes, oiros, sedas, flores,
incenso, resoam em musicas solemnes, que só o orgam é digno de
acompanhar, os mais graves e poeticos pensamentos dos Prophetas, dos
Apostolos e dos Doutores, e que, inspirando-se de todos elles, a
eloquencia sagrada derrama a doutrina para a ignorancia, a esperança
para os afflictos, os desenganos para os vaidosos? aos pobres annuncia
thesoiros, thronos aos conculcados, festins eternos aos famintos,
sobrecorôa aos Santos, invoca luz perpetua para os finados, e vôa, como
o Dante, por uma espiral infinita, do fundo dos abysmos até ao cume do
firmamento.

Cada festividade é precedida de longe pela ancia de a ver chegar, e
deixa apoz si recordações para muitos dias.

As donzellas dos salões, que revolvam e troquem entre si memorias
das contradanças, do valsador infatigavel, do discreto que as entreteve,
dos trajos e penteados que se distinguiram, do novo duetto que se
executou, do romance ou das poesias que se annunciaram de autor querido,
de uma inclinação encoberta de que já todos segredavam, do baile
estrondoso que se ia ter, de uma regata, de um duello, de um passeio a
Cintra, de uma lua de mel, ou de uma exposição de bellas-artes. As
virgens do que se cuida solidão, não acham para si menor nem menos
attractivo assumpto, o revolverem na conversação, o repastarem no
espirito, as circumstancias, os minimos accidentes, de que se acompanhou
o dia festivo do seu templo; os enfeites e a elegancia de cada altar, o
inesperado primor d'esta ou d'aquella cantora, a maviosidade com que o
orgão gemeu na Adoração, o como a ponto acudiram de fóra o repique e a
girandola, o rasgo de pintura, ou de affecto, com que o orador
maravilhou o auditorio, a multidão e a variedade de vestidos que
affluiram á egreja, as largas distancias d'onde accorreu povo a ella, a
satisfação com que todos sahiram, e o bello e saudoso effeito que fazia
aquella torrente ondeante de cabeças, ao engolfar-se e desapparecer da
nave para o terreiro, por baixo do côro, como um rio fugaz por baixo de
uma ponte inabalavel.

Direis que ha um travo particular de tristeza em tudo isto. ¿E quaes são
os prazeres do seculo em que esse resaibo se não mistura? denunciae-me
um unico, se o descobristes.

Murmurais que em tudo isto é sempre mais ou menos a contemplação inerte
e passiva, e que a vida fraudada de todo o movimento proprio e
espontaneo não é vida.

¡Mas então não sabeis que n'aquelle povoado ha tambem, a seu modo, uma
Paschoa de flores, estreias de anno bom, fogueiras de S. João, dias
duplices para regosijos, banquetes e alegrias de abbadessados, visitas
ao locutorio, quanto mais raras tanto mais bem vindas, e em que o ermo e
o mundo se confrontam de perto! e não é por certo o ermo o que mais se
póde queixar do seu quinhão.

¿Que dirieis vós da monja, que negasse existirem passatempos nas nossas
cidades, só porque os não via, e descriptos os não imaginava? Pois outro
tanto podia ella dizer, se o não diz, de vós outros, que descredes
da bemaventurança da sua cidadinha.

O cenobio, tal como o esboçamos aqui, existe em realidade; e contra os
d'esta especie não aventamos que séria objecção possa pôr a philosophia
humanitaria. São refugios para corações feridos, que em nenhuma outra
parte o encontrariam; são asylos para muito desamparo da fortuna; são
taboa de salvação para muito naufragio; repoiso para muito cançaço;
gruta mysteriosa para muito animo poetico; seguro para muita innocencia;
e se a Liberdade os não pode proscrever sem contradicção, sem a si
propria se annullar, a philosophia, mãe, filha, e socia, da mesma
Liberdade, o que só pode contra taes mosteiros, ou antes em favor
d'elles, é exigir que os severos votos, aliás licitos em si mesmos,
sejam soluveis, e se desatem apenas finde a vontade que os dictou; e que
a prepotencia, a ambição barbara, calculos ou vinganças, não atirem para
os pés do altar victimas consternadas, em vez de sacerdotisas radiosas.

Franca a entrada, franca a sahida, o mosteiro não ficará sendo senão a
séde do contentamento, da virtude, da perfeição, e até da Liberdade mais
ampla, mais inoffensiva, mais formosa, mais completa.

Apressemo-nos em confessar, que nem todas as clausuras se assimelham a
esta que entrevimos, de que já existe metade, e de que a outra metade
hade vir por certo, quando ressentimentos politicos emmudecerem, e a
razão dos povos, desassombrada de todo o genero de preconceitos, for
adulta e governar.

Não; nem todas as clausuras são assim; e contra as que assim não são,
pouco nos magôa que a Philosophia troveje, e que a Liberdade se levante.
O convento que amamos e defendemos, o convento que o bom senso applaude,
que a natureza approva, que a cidade deve acarinhar, e o Céo cobrir com
benção de prosperidades, está equidistante do convento fanatico,
suicida, e assassino, e do convento relaxado, vicioso, onde impera, em
odio aos ceos e á terra, o monstro execrado sob o titulo de _crasta_ na
linguagem mesma das chronicas monasticas.

Estes ultimos (¡ainda bem!) dissolve-os a podridão interna; passam, e a
sua memoria só fica subsistindo nos contos asquerosos da escola de
Bocaccio e La-Fontaine; mas a vida d'aquelles, mais dura, mais
resequida, mais resguardada, não se gasta senão muito lentamente.

A Religião e a Humanidade caminham sorrindo uma para a outra; logo que
se encontrem n'um abraço estreito de irmans, para nunca mais se
dividirem, aquelles institutos, que nem uma nem outra reconhecem por
seus, ou hão-de desapparecer com todas as suas sevicias, como
desappareceu a Inquisição, ou se hão-de converter á Natureza, cujas
branduras licitas e bonissimas rejeitavam. Nunca mais uma triste mãe
sentirá estalar-se-lhe o coração a fibra e fibra, vendo sumir-se-lhe
para a catacumba de um claustro a filha mimosa das suas entranhas,
creada com o seu leite, crescida entre os afagos, ufania dos seus olhos,
bordão florido para a sua velhice. ¡Velhice! Que mãe, verdadeira mãe,
poderia chegar até lá, dizendo-se a cada hora do dia:--«¡Nunca mais a
posso ver!, ¡nunca mais a hei-de ouvir, se não fôr por sonhos! quando eu
acabar de morrer, dir-se-ha no meio da communidade, silenciosa como
espectros pallidos, e tremulos todos: _Resemos pela alma da mãe de uma
de nossas irmans_; e nada mais, senão chorarem todas, suppondo-se todas
orphans na orphandade que só é de uma.»--Á mesa, onde não vê sua filha,
salgará com lagrimas o pão, porque a sua innocente, defecada da
penitencia e dos jejuns, não terá, para matar a fome, no seu canto
escuro e solitario, senão um pedaço de pão negro e duro, que o mendigo e
o cão esfaimado de tres dias recusariam. Não poderá encarar com donzella
alheia coberta de galas, e trocando risos de alma com toda a Natureza,
sem logo se atirar de mãos postas, e debulhada em lagrimas, aos pés da
imagem da sua ingrata, coberta de burel sêcco e mordente nas calmas do
estio, descalça, apertada n'um cilicio, cortada das disciplinas,
entregue aos mistéres mais trabalhosos e obscuros, definhando-se de
semana para semana, com o coração já morto, com a alma já meio morta a
pezar dentro na fronte pendida e despojada, ¡que não ha reconhecel-a! ¡e
os olhos sempre no chão, á procura do sepulcro, que assim tarda! ¡Como
dormirá e mãe, quando, encarnada pelo amor na pessoa da filha, cogitar
(e cogita sempre) que a pobresinha nem tem, como a ovelha, um feno
em que descance, mas pernoita vestida, ora n'uma taboa nua com uma pedra
por cabeceira, ora prostrada em oração sobre as lageas regeladas do
pavimento!

Arredemos d'ali os olhos; mas isto existe. O proprio Martyr Sublime, não
n-o póde ver sem pena do alto da sua Cruz, Elle que proclamou que o seu
jugo era suave, e que fez do amar a pae e mãe o primeiro dos seus
mandamentos em relação ao proximo.


XXVII

Vairão era de antigos tempos uma das casas religiosas da especie média
entre os dois extremos, uma das poucas em que as familias piedosas e
discretas punham confiadamente suas filhas a educar, para depois as
reconduzirem ao mundo, graves sem fanatismo, puras sem mingua na
sensibilidade, mulheres emfim, quanto mulheres o podem sêr, anjos
perfumados em paraizo.

Havia em Vairão outras educandas e seculares. Todas ellas, assim como as
religiosas, davam a Maria a preferencia do seu affecto, sem que uma
unica pensasse em lh'o invejar. É porque a doçura da sua indole fazia
esquecer a superioridade do seu espirito.

Ás prendas manuaes, em que primava, reunia o gôsto da leitura, até algum
tanto o do estudo, e a meditação reflexiva, que extrema em cada
escripto, como em cada conversação, o verdadeiro do supposto, e o
proficuo do prejudicial:

    _Florigeros ut apes per saltus......_

Entretanto, dotada de um tacto verdadeiramente feminino, possuia a
grande e difficil arte de se mostrar ao nivel do commum do seu sexo,
quando mesmo as ideias que expunha desciam o vôo de mais alta esfera. Um
veo de modestia, que ás vezes chegava a parecer timidez e acanhamento,
temperava, por assim dizer, o brilho do seu saber, da sua imaginação, e
do seu juizo, para não offender a miopía dos espiritos vulgares. Era-lhe
até facil e usual o calar-se, simulando ignorar as coisas que melhor
sabia, quando se arreceiava de humilhar a vaidade de quem quer que
fosse; o que não tolhia que até as mais edosas a tomassem por
conselheira, convencidas, pela experiencia, de que ninguem calculava com
mais acerto do que ella, de que ninguem poderia guiar por mais seguro
caminho a um alvo honesto e proveitoso.

O melhor da herança de sua avó e de seu tio, o poeta, reduzira-se a uma
boa porção de livros, francezes, hespanhoes, e italianos, quasi todos
escolhidos e de substancia, e classicos portuguezes. Devorára, relêra
tudo, comparando, assignalando o que tinha por mais ou menos bom, e
enthesoirando o optimo em volumosos cadernos de excerptos, que,
folheados por um litterato de lei, para logo lhe revelariam o apurado
gôsto da collectora. O francez, o italiano e o hespanhol, se lhe
tornaram d'esta sorte familiares. Quanto á lingua patria, essa, tradição
e gloria de sua familia, foi a que sempre lhe attrahiu particulares
desvelos; e em verdade, que ninguem a conhecia mais por dentro; ninguem
a tratava com mais acerto, graça, e facilidade. Não é louvor pequeno
este, mesmo para dama, e dama em provincia; em nossos dias sobre tudo.

Sem pejo declararia eu aqui, se tal noticia podesse a alguem interessar,
que do meu trato com ella é que principalmente se originou o meu
empenho, não digo de classicismo, mas de vernaculidade em todo o caso.
Não ha estudo, nem mais apetitoso, nem mais aproveitado, que o da fala
da nossa terra, quando se tem por mestra uma mulher a quem se ama.

Ahi me ia eu agora desviando por um atalho que não convém. Tornemo-nos á
educanda de Vairão.


XXVIII

Cuido que não haverá ledor que não tenha lá o seu livro predilecto, para
o qual de todos os outros se aparte por natural tendencia. O escriptor
mais do nosso peito pode variar, e varia, com as transformações da
edade, da saude, da fortuna, das circumstancias; mas ha sempre um, com
quem melhor nos entendemos; com quem nos parece conversarmos; com quem
permutâmos o nosso espirito, porque nos entende, e o entendemos, porque
nos parece vivo e presente, e o qual por derradeiro chega a
encarnar-se em nós, e a influir nos nossos actos e na nossa vida.

A preferencia de Maria para as suas leituras, começadas n'uma pagina, e
continuadas quasi sempre nos espaços imaginarios, não acertava porém
n'uma só obra: pendia indecisa entre Petrarcha e Santa Theresa de Jesus.
Eram dois caudaes brilhantes, ainda que tristes, que iam, patentes ao
Céo um e outro, parar ambos n'um mar de affecto.

¿Que alma houve jámais tão namorada como a da formosa de Burgos, a não
ter sido a do cysne de Arezzo? ¿ou que espirito sé haveria de equiparar,
na doce melancolia da adoração, ao segundo Dante, mais sympathico, se
menos colossal, ao poeta, não já do _Inferno_, mas do _Purgatorio_ e do
_Céo_ do amor, ao bom Petrarcha emfim, se a Hespanha, est'outra Italia
das graças e das paixões, se esquecesse de procrear a Matriarcha das
Carmelitas?

¡Que espantosa similhança entre ella e elle!

São dois corações desmedidamente grandes, a quem não basta para os
encher qualquer affeição terrestre e vulgar, e que só em flôres e
fructos de paraizo poderão achar confôrto.

_Fulcite me floribus, stipate me malis, quia amore langueo. Loeva ejus
sub capite meo, et dextera illius amplexabitur me._[3]

O Cantor tão religioso, e a Religiosa tão cantora, como que só teem de
corpo e sentidos quanto baste para os reter na terra dos deleites
ephemeros, e retardar a sua fuga para regiões de affectos sem limite.

Um e outro amam no intimo, pela delicia do amar, pela necessidade de
amar, e sem pedirem mercê nem recompensa.

Um e outro fabricam da sua ternura, religiões attractivas, dominadoras,
perduraveis: elle, a dos trovadores mysticos e fervorosos; ella, a das
noivas para a eternidade.

Petrarcha tinha-se criado com as poesias voluptuarias da Roma classica:
mas, de amavel pagão, que o estudo o podéra ter feito, se converteu em
eremita namorado.

Theresa, segundo ella mesma se nos historía, seduzida nos primeiros
annos pelos feitiços do mundo, dominada da turbulencia da phantasia, e
escandecida pelos fogos da juventude, só muito a poder de exforços, só
depois de muito bafejada pela Graça, logrou desenlear-se das vaidades,
pegar e lançar raizes no retiro.

Ella e elle podem exclamar como S. Bernardo:--_¡O beata solitudo! ¡o
sola beatitudo!_--porque para um e para a outra o ermo é egualmente
povoado por um phantasma luminoso: lá, pela imagem de Laura; cá, pela de
Jesus; dois verdadeiros ideaes dos amores ao mesmo tempo mais ferventes
e mais castos.

Petrarcha, sabe que não ha-de gosar Laura em toda a vida; espera e
anceia, como Theresa, pelas bodas celestes.

Theresa, desafoga a sua impaciencia, como Petrarcha, em jaculatorias tão
mimosas, que a Esposa dos cantares se deteria para lh'as ouvir.

          O POETA

      Tennemi Amor anni ventuno ardendo
    Lieto nel foco, e nel duol pien di speme,
    Poi che Madonna, e'l mio cor seco insieme
    Saliro al Ciel, dieci altri anni piangendo.

      Ornai son stanco, e mia vita riprendo
    Di tanto error; che di virtute il seme
    Ha quasi spento; e le mie parti estreme,
    Alto Dio, a te divotamente rendo.

      Pentito e tristo de' miei si spesi anni,
    Che spender si doveano in miglior uso,
    In cercar pace, ed in fuggir affanni,

      Signor, che 'n questo carcer m' hai rinchiuso,
    Trammene salvo dagli eterni danni,
    Ch'i 'conosco 'l mio fallo, e non lo scuso.


            A RELIGIOSA

      ¡Ay! ¡que larga es esta vida!
    ¡que duros estos destierros,
    esta carcel, y estos hierros,
    en que está el alma metida!
    solo esperar la salida
    me causa un dolor tan fiero,
    que muero porque no muero.

      Acaba yà de dexarme,
    vida, no me seas molesta;
    porque muriendo, ¿que resta,
    sino vivir, y gozarme?
    No dexes de consolarme,
    muerte, que assi te requiero,
    que muero porque no muero.


            O POETA

      Io vo piangendo i miei passati tempi,
    I quai posi in amar cosa mortale,
    Senza levarmi a volo, avend' io l' ale,
    Per dar forse di me non bassi esempi.

      Tu, che vedi i miei mali indegni, ed empi,
    Rè del Cielo invisibile, immortale,
    Soccorri all'alma disviata, e frale,
    Él suo difetto di tua grazia adempi.

      Sicchè, s' io vissi in guerra, ed in tempesta,
    Mora in pace, ed in porto; e se la stanza
    Fu vana, almen sia la partita onesta.

      A quel poço di viver che m' avanza,
    Ed al morir, degni esser tua man presta:
    Tu sai ben, che 'n altrui non ho speranza.


            A RELIGIOSA

      Ay! que vida tan amarga
    dò no se goza el Señor!
    Y si es dulce el amor,
    no lo es la esperanza larga.
    Quiteme Dios esta carga,
    mas pesada que de azero,
    que muero porque no muero.

      Solo con la confianza
    vivo de que he de morir:
    porque muriendo el vivir
    me assegura mi esperanza.
    Muerte, dó el vivir se alcanza,
    no te tardes, que te espero,
    que muero porque no muero.

¿Não parecem duas rôlas melancolicas respondendo-se lá do fundo de suas
apartadas espessuras? E ainda n'este momento foi mais o cançaço da vida
que lhes escutastes, do que verdadeiramente o impeto dos seus amores;
esse é tal, que a muitos periodos da prosa da Hespanhola só falta
mudar-se o nome de Jesus no de Saint-Preux, por exemplo, para se
imaginar que se está ouvindo Julia de Wolmar; ao mesmo passo que muitos
sonetos e canções do Italiano, trocado o nome de Laura no da Rainha dos
Anjos, e encorporando-se n'um horario, muitos olhos devotos os regariam
com lagrimas.

_Valchiusa_ ou, como dizem, _Voclusa_, onde Petrarcha passa tantos annos
sonhando com o espectro, primeiro de uma viva, que não vive para elle, e
depois, de uma defuncta que nunca para elle morrerá, Valchiusa é para
todos brenha alpestre, cavernosa, brava, despovoada, mas é vergel e
universo para elle, e o casebre do seu refugio, palacio oriental.

Outro tanto se figuram aos olhos de Theresa o escuro, o desconforto, a
austeridade do seu mosteiro, e da sua cella.

Aos eccos da voz italiana sahida d'aquelle esconderijo, como de um vaso
rustico um perfume precioso, todos os espiritos poeticos se innebriam, e
lhe respondem, imitando-a; o Camões cá no Tejo é um d'elles. Ás melodias
da Castelhana, cardumes de almas suspiram de toda a parte, e vão
procurar nos cenobios as voluptuosidades da penitencia.

Ambos ficam sendo mythos: um, da perfeita idolatria tributada á mulher;
a outra, da adoração perfeita, offerecida ao Salvador.

Petrarcha, emfim, apparece á nossa imaginação, qual Roma o applaudiu em
realidade, cingido no Capitolio com triplice coroa; _ter geminis
honoribus_; a corôa de hera, como poeta; a de loiro, como triumphador; a
de murta, como amante.

Santa Theresa tambem a não concebemos senão tres vezes coroada: como
escriptora e poetisa, pelos estudiosos; como virgem, pela Rainha das
Virgens; como Santa, pela Egreja Romana.

Não maravilha que a leitura assidua de taes obras, e então n'uns sitios
e edificios tão moldados para as fazerem resoar em cheio, elevasse a
alma poetica de Maria até ao enthusiasmo. Não admiraria mesmo se tivesse
feito d'ella uma fanatica. Felizmente não succedeu assim, porque a
absorpção ascetica da Bem-aventurada diluiu o que tinha de excessivo e
perigoso, nas tendencias mais suaves e humanas do Visionario de _Laureta_.


XXIX

A secular amava o convento pacifico onde se criára, e que era, por que
assim o digâmos, a sua patria, e o seu mundo; amava-o sim, mas nem por
isso deixava de se inclinar insensivelmente para outro viver mais
liberto e amplo, sobretudo mais natural, mais completo para o coração,
mais conforme aos instinctos femininos. De tudo isto é que resultou o
ennamorar-se, sem saber como, de um phantasma de poeta, que se lhe
revelára como dotado de uma grande faculdade de amar, e cujos gostos
amenos, e facillimos de preencher, tanto com os seus se harmonisavam.

D. Anna Lucinda, a sua inseparavel e confidente (repisemos embora isto
que ha pouco tocáramos) não se animou a contrariar-lhe a inclinação. Era
freira, mas de grande juizo casado com grande virtude; não se
assimilhava ás que parecem querer vingar-se do seu captiveiro, retendo
n'elle, e attrahindo para elle com seducções de todo o genero, a
incautas; portanto secundava, se não com exhortações, ao menos com o
benevolo sorriso de amiga desinteressada, as visões mundanas de Maria.
Autorisara-lhe a primeira carta; felicitara-a pelo exito que lhe ella
surtira; deixara-a progredir; e fôra vendo com satisfação, ainda que não
sem alguns longes de cuidado pelas incertezas do futuro, os progressos
de um primeiro affecto, que de dia para dia se foi activando, até que
chegou a verdadeiro amor, apaixonado e invencivel.

Ora, em quanto Maria, de quem eu por então ignorava quasi todos estes
pormenores, vivia, sem que as outras lh'a suspeitassem, vida tão
romantica no seu mosteiro, outro tanto, pouco mais ou menos, acontecia
ao que tinha a gloria de lhe occupar os pensamentos. Se ella se havia
comprazido de crear nos dominios da phantasia uma especie de Ossian, sem
cans na fronte nem rugas no coração, e disfructava o nobre prazer de ser
apontada como a sua companheira, a sua guia até aos cumes de Morven, a
aurora da sua alma, a interprete da Natureza para com elle, e d'elle
para com os homens; eu da minha parte queria-lhe como á minha Malvina, e
não dava já um passo na existencia sem me acompanhar do meu phantasma
candido.

Nunca então pensei em que d'esses meus sonhos acordados se podesse
jámais fazer um livro, e muito menos que o houvesse eu em tempo algum de
explicar, como agora estou fazendo.


XXX

¿Onde, quando, e como o compuz? ao acaso; por toda a parte; e sem me
sentir. Não o poetei, trovei-o; menos ainda que isso: trovou-se-me elle,
e eu colhi-o.

Em realidade, e em mais de um sentido, reconheço eu ao presente que
estes versos se aparentam muito menos com obra de poeta, que de trovador.

¿Que eram com effeito, e que faziam, esses filhos prodigos do undecimo,
duodecimo e decimo terceiro seculo, a que chamamos trovadores?

Era o trovador pelo commum um moço de phantasia e arrojados espiritos,
nascido as mais das vezes n'uma choupana entre a floresta e o castello
feudal. Ainda no berço uma cigana lhe lêra a _buena-dicha_, em que
ninguem creu.

O unico livro em que solettrou foi a Natureza. O rouxinol, veio de
proposito, mandado por Deus, um mez em cada anno, para lhe ensinar o
canto; e quando elle repetia mais ou menos imperfeitamente essas lições
selvaticas, a andorinha do seu beirado debruçava a cabeça fóra do ninho
para o ouvir, e o animava a ir por diante; de cantigas de ternura,
entende a andorinha como ninguem. Depois, a fonte prateada nas
noites de luar o instruia nas sonatas argentinas da mandora; e as
virações, depois de se terem detido no cimo dos carvalhos a
escutar-lh'as, proseguiam o seu caminho aereo, comprazendo-se de as
diffundir. Isto nos annos a crescer, mas ainda mancebinho, e ainda não
trovador.

Trovador, sagrava-o de repente um dia a dama do castello, sem attentar
n'elle nem lhe saber da existencia. Foi elle, que do fundo da sua
humildade a enxergou na capella á Missa por manhan cedo, ou na caça,
montada no seu palafrem branco, ou á tardinha, entre as aias, no vergel.
Desde essa hora perdeu liberdade e alegria; fez voto de não querer a
alguma outra; pediu á fortuna, a todos os Santos e a Virgem, não que lhe
obtivessem mercê de correspondencia, que fôra temeridade e loucura o
esperál-a, mas unicamente o fazer-se d'ella conhecido por seus cantares
nas _côrtes de amor_, quando já não fosse por seu denodo contra
inimigos. Este voto secreto, sem testemunhas na terra, ignorado
d'aquella mesma a quem se referia, improvisava algumas vezes um heroe;
mas quasi sempre um poeta, em quem o fogo da paixão suppria a sciencia e
a arte, duas coisas que faltavam ambas n'aquelles Orpheus da Provença,
obscuros fundadores da poesia de toda a Europa.

O ecco dos applausos, que lá em baixo no burgo animavam a nova musa
elegiaca, pouco tardava que penetrasse até ao salão onde cavalleiros e
damas se reuniam.

O castellão desejava conhecer o talento seu vassallo, que algum dia
porventura lhe immortalisaria as proezas; o villão, não sem pasmo seu e
inveja dos visinhos, era chamado para vir com a sua mandora entreter uma
hora do serão de inverno. Na enorme chaminé, estralava a fogueira; de
seus espaldares lavrados, as nobres o consideravam curiosas; ¿quem
poderia dizer a cada uma d'ellas se lhe não estava destinado um papel na
historia, ainda sem titulo, que por acaso se ia abrir?

O mancebo, em pé, de olhos baixos, na postura de um peregrino devoto
perante um mausoleo de esculturas nobiliarias sob uma abobada de
cathedral, começava a sua primeira recitação; se o effeito correspondia
nos ouvintes á espectativa, o serão seguinte já lhe dava assento n'um
escabello; tão insigne favor, redobrava-lhe posses ao talento;
excedia os prestigios da vespera.

Ao terceiro dia abria-se-lhe inesperadamente o Capitolio; era proclamado
pelo marido, pagem, ou escudeiro da senhora, que muitas vezes era ella
propria trovadora tambem, como Azalais Porcairagues.

D'ahi ávante progrediam as coisas pelo seu álveo natural. A senhora era
sensivel; a proximidade, tentadora; a poesia e uma gloria a nascer, mais
tentadoras ainda que a proximidade. O pagem, a principio, contemplára
com terror o abysmo que separava as duas situações. Voar da profundeza
do seu valle natal até á altura vertiginosa em que se via, fôra um
milagre; mas para se despenhar, sobrava a minima imprudencia. Era-lhe
mister cantar o amor, sem denunciar a amada, nem a ella mesma. Mais e
peior: era-lhe forçoso dizer muito, calando tudo; desconcertar ou
prevenir suspeitas de rivaes, de invejosos, de cortezãos, e de soberbos;
arrastar cadeias de bronze; como quem passeasse sôlto e alegre pelo
relvado de um parque; ter a mira interior n'um ponto fixo, e a pontaria
da bésta sempre n'outro.

Tão desinteressado, tão heroico servir, não escapava á perspicacia de
quem o inspirára. É a gratidão uma ternura, que sem custo fermenta e se
faz amor.

Um dia, não sei em que estação... talvez no estio, que é fogo; talvez no
inverno, que é frio; no outono, que é melancolia; ou na primavera, que é
amores; n'uma certa hora, d'aquellas em que uma estrella cai do ceo sem
se entender como, um olhar da castellan baixava sobre o pagem, e lhe
revelava a sua dita. D'ahi avante, eram dois segredos para esconder, em
logar de um; eram dois infortunios occultos, fundidos n'uma felicidade
ainda mais occulta. ¡Occulta! Nem sempre. ¡Que de tragedias, como a de
Faiel, se não misturam com as festivas delicias na historia dos
trovadores! ¡laudas de sangue por entre paginas doiradas!

Alguma vez, ainda que rara, era a dama que tomava n'estas difficeis
declarações a iniciativa: Margarida, mulher de Raymundo, senhor do
Castello de Roussillon, fez a primeira proposta ao trovador, seu pagem
Guilherme de Cabestaing.

¿A que veem sorrisos de estranheza? a dama era tanto, e o servo tão
pouco, na estimativa da sociedade de então, e a Natureza tendia tanto
por todos os modos, pela magia do amor sobretudo, para a realisação do
seu bemdito sonho da igualdade humana, que onde ao villão falleciam azas
de atrevimento para se remontar até á esphera da castellan, emprestava o
amor as suas á castellan, para ella baixar até á cabana do trovador.
D'ali subiam juntos á felicidade. A abelha rainha da colmeia, e o
insecto que ella escolhe d'entre os seus adoradores, vão, dizem os
naturalistas, consummar nos ares, longe do alcance d'olhos, o mysterio
por onde o enxame se regenera.

Assim se ajudava com estas mui frequentes descidas das aristocratas a
fusão das castas, e a restauração da dignidade humana. Talvez se possa
presumir sem temeridade, que as fraquezas das grandes senhoras para com
os seus subditos mais distinctos por gentileza, valentia ou talentos,
não concorreriam menos para a demolição do feudalismo, que os
monstruosos direitos dos senhores, ás primicias nos casamentos das
villans suas vassallas.

Deixemos porém philosophias tamanhas, que não cabem em tão pequena
historia, e tornemo-nos a ella. Só digo que a humilde consciencia que eu
tinha de mim, nunca me haveria permittido abalançar vôo até á eminencia
moral onde habitava Maria; e que, se a minha alma era, como talvez
fosse, a que Deus talhara para a sua, muito bem fez ella em vir provocar
o seu trovador.

Trovador, repito, e não cuido haver presumpção, nem modestia, se não
verdade muito chan e muito clara, em appellidar assim o autor d'esta
collecção; quando não, consideremol-a, se vale a pena, e comparemos.

¿Que era com effeito o nativo e desartificioso trovar da edade média?
falo do trovar namorado, e não do guerreiro, nem do satyrico; falo do
que se comprehendia sob a denominação de _gaia sciencia_, e que dava
assumpto ás discussões e sentenças das famigeradas _côrtes de amor_: era
um verdadeiro trovar; uma caçada á ventura, sem guia nem itinerario,
pelos campos da phantasia e do sentimento.

A elegia dos Gregos e dos Romanos, começára chorosa, e passára, sem
mudar de nome, a interpretar igualmente os desejos bem succedidos; e as
festas do coração. A _gaia_, ou folgasan, _sciencia_, pelo contrario,
tendo devido começar, como o seu nome o inculca, por celebrar as boas
fortunas, foi por natural pendor descahindo a pouco e pouco para a
tristeza, para a saudade, para a desesperança, que vieram por derradeiro
a constituir o habito e principal caracter da poesia da edade média.

O cantor apaixonado era o proprio heroe dos seus cantos. A historia que
celebrava, em termos vagos, mysteriosos, sem referencia a nomes certos
de pessoas nem logares, não era d'estas que podem ser vistas em quanto
se operam; não se compunha de actos exteriores; corria toda no mundo dos
espiritos; entrevia-se apenas sob um veo de mysticismo, muito similhante
áquelle com que a linguagem theologica obumbrava os mysterios da
Religião; percebia-se sempre pelo fundo da scena ir e vir uma figura de
mulher, encarregada de algum papel singular. ¿Mas quem era ella? Ninguem
o affirmaria. ¿Amava? sabia-se que era adorada; sabia-se que o merecia;
nada mais.

O espirito do adorador attrahido, mas ao mesmo tempo intimidado, pela
auréola, esvoaçava-se-lhe em roda, ora mais perto, ora mais longe,
esperando e desesperando, impondo silencio aos sentidos, e cilicio aos
appetites, sem de todo os poder domar; feliz como um anjo, infeliz como
um demonio; invejando toda a especie de glorias para merecer, invejando
a paz dos mortos para descançar; maldizendo e apertando os laços;
misturando, como as creanças, o riso com as lagrimas; e não admittindo
para confidente senão as arvores e o vento, os rios, as flores, e as
estrellas.

Tal foi o trovar nas eras juvenis dos enthusiasmos, quando os homens que
não eram cavalleiros eram poetas, os que não eram poetas eram
menestreis; quando a mulher na Europa tinha um altar, e Christo na Asia
um sepulcro, e a devoção d'aquelle sepulcro e a d'este altar traziam em
fluxo e refluxo contínuo as povoações. ¡Extraordinarios tempos, em que a
heroicidade era lyrica, e as fraquezas heroicas! tempos extraordinarios,
resumidos em dois versos pelo seu chronista epico, o Ariosto:

    _Le donne, i cavalier, l'arme, gl'amori,_
    _Le cortesie, l'audaci imprese io canto._

Abstrahi do que se referia ás guerras dos Logares santos; recordae só os
cantares de galanteio ascetico, e, sincera paixão do fim do seculo
undecimo, do duodecimo, e do principio do decimo terceiro, se porventura
os lestes; sentireis isto mesmo que eu vos confesso: que toda a presente
poesia não parece senão um ecco tardio do cantar nativo e ainda inculto
dos Provençaes. Não os conhecia eu ainda quando a compuz, nem me parece
que se os conhecesse os tomaria para exemplares; mas o certo é que os
meus amores se assimilhavam aos de muitos d'elles em mais de um ponto; e
portanto, sendo eu sincero, como elles o tinham sido, era impossivel que
a lyra em que eu improvisava, não gemesse, sem o cuidar, no estylo da
mandora, da mandora pendurada ha mais de seiscentos annos no cemiterio
das litteraturas.

Maria continuava a ser portanto para mim, ainda depois de convencida de
existir, a minha nobre dama encantada no seu solar remoto e
inaccessivel; e eu, o servo seu poeta, cantando-a só pelo gosto e pela
necessidade de a cantar.


XXXI

A maior parte dos meus versos não lhe chegava ás mãos, nem mesmo
apparecia ao publico, ou se revelava aos amigos. Recatava-os a ella,
parte, porque os sentia inferiores ás continuas, tão gentis e tão
admiraveis paginas das suas cartas; parte, porque aqui ou acolá
desdiziam d'aquella virginal e santa pureza, de que a minha imaginação e
a sombra do mosteiro m'a revestiam, e que realmente era, e foi sempre,
um dos seus maiores attractivos; então aos olhos extranhos sonegava-os,
e mesmo aos ouvidos dos intimos, porque me repugnava poder outrem
espreitar para dentro do ninho das nossas almas. Amava só para mim;
poetava só para mim; e poetava como amava: sem premeditação, sem
esforço, sem reconsiderações, e sem emendas.

¿Bons tempos, que tão verdadeiros fostes, como vos desvanecestes?
¿como passastes vós, eternidades voluptuosas?

Compunha eu tudo isto como as arvores ora murmuram, ora rugem, ora gemem
varrendo o pó com as ramas, segundo passam por ellas os zephyros ou os
furacões. Toda a differença era: que a mim, as bonanças e as tempestades
não me vinham de fóra; formavam-se umas e outras inesperadamente na
phantasia.


XXXII

Aqui uma voz imperiosa da consciencia me intíma que não demore por mais
tempo uma solemne reparação. Faço-a de joelhos abraçado a um cipreste.
Concluida ella, espero que me levantarei da terra alliviado.

Os ciumes que obscurecem a ultima parte d'estes cantos, existiram sim;

    _........quis enim securus amavit?_

mas causa, mas pretexto, mas sombra de pretexto para as suspeitas, nunca
jámais a encontrei no pobre Anjo que eu flagellava. ¿Mentia eu pois?
¿Calumniava para ser algoz? ¡Longe tão infame supposição!

Houve delirios na minha alma, e reproduziram-se nos meus versos. Eis ahi
tudo.

O meu amor era verdadeiro; e todo o verdadeiro amor é visionario, é
supersticioso, é pessimista; e, similhante áquelles enfermos que
preferem aos alimentos sãos e agradaveis, substancias amargas e nocivas,
procura por uma tendencia irresistivel, desencanta, cria para si
tormentos reaes, e com aquillo mesmo que o devêra destruir se vai cevando.

Se eu ouvia o caso de uma infiel, de uma enganadora qualquer, de que
tantas se nos deparam nas historias, nos romances, nos poemas, nos
dramas, e na vida contemporanea, perguntava-me logo, com terror, ¿quem
me affiançava a lealdade de Maria? ninguem, senão as suas cartas. Então,
esquecendo que a assiduidade, e sobretudo o estylo d'ellas, excluiam
toda a razão de desconfiança, a poder de meditar no possivel,
convertia-o em provavel, e do provavel me abortava o certo. ¿A
paixão com que eu me lisonjeára nas horas desanuveadas e alegres,
merecia-a eu porventura? Sabia que não. ¡Logo, que insensatez no contar
com ella! ¡depois, a distancia! ¡depois, as suggestões da solidão, mais
tentadora ás vezes que o povoado! ¡depois, annos preteritos que podiam
ter semeado tanta coisa! por ultimo, ¡uma indole tão manifestamente
inflammavel! Tudo, até as suas cartas mais ardentes, até a sua insolita
deliberação de se me offerecer, tudo então depunha conteste contra ella
no tribunal tumultuoso da minha alma. Os sonhos se me tingiam na cor dos
pensamentos lugubres de todo o dia; e eu, carecente de noticias reaes e
positivas com que os rebater, acceitava os seus embustes como revelações
vindas, fosse d'onde fosse, mandadas não sabia por quem nem para quê,
mas nem por isso menos attendiveis.

Sonhos, acceitos como prophecias, e meditações extravagantes como os
sonhos, ahi tendes as unicas fontes d'onde rebentaram essas elegias
tormentosas, que eu haveria queimado quando acordei e volvi a mim, se já
então se não tivessem derramado por esse mundo.

Desabafei-me de um peccado horrendo; levanto-me, e prosigo.


XXXIII

O mais do volume dimanou puro e sereno do coração namorado, mas em paz.
A essa procedencia é que eu lhe attribuo, conforme toquei no prologo, a
boa fortuna que logrou; que outros merecimentos não lh'os posso
descobrir, por mais que lh'os procure. Como eram taes affectos os que
n'elle predominavam, por isso levou, e conserva, o titulo de _Amor e
Melancolia_; _Melancolia_ não ha separal-a do _Amor_.

Affirma a Baroneza de Staël, com razão, que amor verdadeiro e alegre não
cabe n'este mundo. Aos que levianamente a contradissessem,
responderiamos com palavras tambem d'ella:--que ha mais gente habilitada
para entender Newton, que para tratar a fundo d'esta paixão.

Eu por mim cuido ter sido do escaço numero: o amor pareceu-me sempre um
prado florescente de primavera, mas coberto de um ceo triste. O
mesmo se representava a Maria, e isso explica a variante do titulo da
obra _Novissima Heloisa_, designação que n'estas alturas já dispensa
outros commentarios.

O mais d'esta poesia, e muita outra a este modo, que depois se
desaproveitou, (_trovas_, _tenções_, _solaus_, ou como melhor se lhe
possa chamar) germinou com intervallos, ás vezes largos: que não foram
tão poucos os annos que duraram estas relações. Ao longo d'elles,
confesso que a intensidade do meu fogo não foi sempre a mesma. Não pode
haver amor platonico sem um certo exforço da vontade; e exforços teem
sempre isso comsigo: que o fragil da nossa natureza os obriga a
remittirem a sua energia de vez em quando. Confessarei até que, se a
minha vestal invisivel não fosse tão assidua em me velar a chamma, e
alimental-a quando a pressentia enfraquecer-se, já póde ser que tivesse
alguma vez chegado a apagar-se-me.

Emquanto o coração estava em férias, emmudecia a Musa; mal que elle a um
suave toque despertava em sobresalto, recomeçava ella os seus cantares;
e o amor n'estas ressurreições não era menos vehemente do que a
principio o tinha sido. Quem não dissimulou aquelle vicio, adquiriu
algum jus a gloriar-se d'este pequeno merito.


XXXIV

¡Os arredores tão poeticos da minha Coimbra conspiraram com o amor para
se me florirem estes improvisos! O Penedo da Saudade, a Lapa dos Poetas,
a Fonte das Lagrimas, o Ó da Ponte, os sinceiraes do Mondego, tudo sabia
dos meus segredos; tudo, em me vendo chegar, me perguntava por ella e
m'a pedia. Mas era especialmente o Real cenobio de Santa Cruz o meu
grande manancial.

¡Quantos domingos de verão não voava eu sosinho para ali, a gosar curtas
horas, mas tantas, que ás vezes se mettiam pela noite, tendo começado
antes do meio dia! parecia-me que era para mim que D. Affonso, o
Conquistador, e D. Sancho, o Povoador, que lá dormem como em casa sua,
tinham edificado aquelle refugio; para mim só, e não para os Conegos
regrantes, que D. Manuel e D. João III o engrandeceram e aformosentaram
com tão regia, com tão prodiga bizarria.

Ainda hoje, como no meu tempo (ainda no meu tempo, como em seculos
atraz), pombas, pardaes, e outros passarinhos, se aninham, contubernaes
e familiares com os carcomidos Santos de pedra, pelos nichos da alterosa
frontaria exterior, como em poisadas tambem proprias e muito suas, e
amollecem com a sua presença amante e festiva a austeridade do
monumento; emquanto os orgãos gemiam lá dentro, cantavam elles cá por
fóra. Quando as rezas matutinas começavam a espertar eccos pelos desvãos
das abobadas sobre as campas de marmore brunido, já elles tinham dado as
alvoradas ás virações do Mondego seu visinho. O rebentar estrondoso das
horas na torre proxima, não os assustava; os sinos eram para elles aves
de outra especie, inoffensivas tambem, só com a differença de se estarem
captivas n'uma gaiola alta, e cantarem mais elevadas coisas, e para mais
longe, pela terra fóra e pelos ares acima, caminho do Ceo.

Na lyrica dos antigos poetas mesclava-se commummente com o folgar de
festins e amores, quanto bastava do pensamento da brevidade da vida para
mais avidamente se colherem as rosas ephemereas das voluptuosidades;
aqui o fundo do poema era pelo contrario a melancolia saudavel, e as
delicias mimosas da Natureza o seu accessorio.

Isto, que em breve sigla se lia no rosto do convento dos quatro Reis, ia
depois encontrar-se em copiosissima profusão no interior e nos vastos
dominios campestres da vivenda. É assim que n'um esmerado volume
biblico, paciente lavor de algum obscuro Raphael da edade media, o
frontispicio floreteado e doirado annuncia logo as maravilhosas paginas,
em que o texto devoto irá manando todo por entre um perpetuo paraizo de
primaveras, animaes, sonhos, e devaneios. É assim tambem, que no sorrir
de um bom velho se resumem os castos alvoroços que lhe abundam pelo animo.

N'um festim opiparo toma cada um d'entre as iguarias e licores o que
mais lhe desafia o paladar; a mim não me chamavam para Santa Cruz nem o
templo, que deu brado em S. Pedro de Roma, e que Paulo III cubiçou
conhecer; nem o santuario, orgulhoso museu de reliquias; nem a
bibliotheca, assoberbada de sciencias sacras e profanas: ia girar á toa,
e inebriar-me, sem ninguem saber, no dormitorio do _Silencio_; depois no
da _Manga_, aviventado do estrépito de cascatas, que um sultão de
Granada cubiçaria para os pateos da Alhambra. D'ali, escadarias de
marmore, bem minhas conhecidas, me subiam para o meu passeio de
predilecção: era o dormitorio de Nossa Senhora do Pilar.

Pintae na ideia um corredor immenso, largo, alto, abobadado, pavimento
de lagedo, paredes alvas, luz copiosa por zimborios no tecto, e janellas
amplas ao comprido de um dos lados; do lado fronteiro, enfileirae portas
de cellas; ponde n'um dos extremos uma grandiosa sala vaga; no outro,
rasgae um portão bipatente que dê sem subida nem descida para um
terreiro ajardinado; postae á direita do portão, como porteira
obsequiosa, uma agigantada magnólia a emborcar das suas enormes urnas de
prata reviradas, olores americanos, que Marco Antonio pagaria por um
milhão de sestercios para a sua Cleópatra; moldae todo o terreiro, á
direita com arvores, á esquerda com um extenso e levantado viveiro
gradeado, compartido em republicas de aves de toda a especie. Ahi tendes
o passeio amores dos meus amores; ahi tendes o foco mais activo das
minhas inspirações.

Eram as cellas habitadas; mas o corredor permanecia quasi sempre deserto
e mudo, o que deixava as minhas phantasias em completa liberdade. Por
mais de uma vez se me deu occasião de travar conhecimento com alguns dos
religiosos; esquivei-a sempre. ¿Que tinha eu com elles, ou elles comigo?
pelo contrario: necessitava de que nada me recordasse que elles
existiam. Todos os seus cubiculos os tinha eu melhor empregado n'outras
tantas virgens do Senhor. N'um dos mais centraes, fronteiro a uma
janella de assentos, habitava Maria; D. Anna Lucinda á direita, no
immediato. Voltado de costas para a janella, ou passeando por diante
d'aquellas portas, distinguia, ora n'uma ora n'outra cella, as praticas
de ambas; ouvia as suas conversações em voz baixa; deliciava-me com a
doçura das suas falas, que eu não conhecia.

[Ilustração]

QUINTA DOS AZULEJOS (no Paço do Lumiar)
Tal como era ainda em 1862

Das innumeraveis cartas de ambas, que eu sabia de cór, me raiavam para
dentro da alma as intuições de tudo que estavam de parte a parte
pensando, sentindo, dizendo. Era o meu nome o centro fixo, em torno do
qual volteavam todas as suas ideias, como um turbilhão de planetas de
Venus, scintillantes, mas celestialmente immaculados. Tinham-me comsigo,
como eu as tinha commigo. Maria e a sua satellite se animavam com meu
fogo, e m'o reflectiam virginisado; irradiação argentina e mysteriosa,
de que se formam sonhos candidos, transpirações de um coração que se
coagulam em rosas, sobre as quaes logo outro se reclina.

Eram estas visões tão claras, e estes extasis tão reaes, que bem
provavam haver no mundo, como diz Shakspeare, alguma coisa mais do que
os philosophos presumem; havia por força uma corrente e contra corrente
de affectos sympathicos e harmonicos d'ella para mim, e de mim para
ella; fluidos ethereos e celestes, que a Sciencia ainda não descobriu,
mas que pelos effeitos se manifestam.

Dizem que entre o Mediterraneo e o Atlantico, por baixo das aguas que
passam contínuas pelo estreito, repassam encobertas outras tantas; são
oppostas as direcções; mas os impetos caudalosos são eguaes, e não se
contrariam. Cada mar toma quanto enviára, e restitue quanto recebêra. As
columnas do _non plus ultra_ ficam desmentidas. Os dois mares, graças a
esta corrente e subcorrente, não são mais do que um só com dois álveos e
duas denominações.

¿Estava Maria n'aquelle quarto? ¿ou n'outro, bem, bem longe? ¿Que
importava esse accidente fortuito e impessoal? Longe ou perto, ali ou
n'outra parte, estavamos, e sentiamos estar, em communicação directa. A
corrente superior e clara, era para ella a dos meus transportes; para
mim, a dos transportes--d'ella; mas ella e eu percebiamos não menos que
enviavamos affagos, e que elles chegavam aonde se dirigiam.

¡Ai, hora incendida e imperiosa de um meio dia de verão! ¡hora em que os
passaros se calam a dormitar a sesta debaixo das folhas mais espêssas, e
as cortinas das alcovas se fecham! via-a eu estar-se recreando n'um
crystallino banho de affectos, que eu mesmo lhe andára enchendo, que
a sua amiga lhe toldára de confidentes sombras, e onde a vigilancia de
ambas não deixava penetrar olhos extranhos. Aquelle deleite, de que eu
era tambem autor, me endeusava.

Estava fóra de mim, sem saber onde. Por uma d'essas incoherencias que
tão frequentes são nos sonhos, o logar era muitos logares ao mesmo
tempo: era Vairão; era a Capital; agora, uma sala entre uma bibliotheca
e um jardim; logo, um refugio campestre; e os moradores de cada um
d'estes paraizos, sempre os mesmos dois, e mais ninguem. O phantasma das
primeiras noites do laranjal de Almedina, era agora uma verdadeira
donzella, vivente como eu, incontestavel como eu, que me falava, que me
respondia em voz humana, a quem eu apertava e beijava com fogo a mão
elastica e macia.

Se algum som inesperado me quebrava a allucinação, e eu, reconhecendo o
dormitorio, advertia na imprudencia de permanecer tão pertinazmente no
mesmo pequeno espaço, retomava triste o meu passeio longo e solitario da
porta do terreiro até a da sala vaga, e d'esta até á magnolia.

A pouco e pouco me revertiam as fugidas illusões; as duas cellas
tornavam a ser o meu sacrario, o meu palacio, a minha Cythéra. Mais
cauteloso então o somnambulo, em vez de parar, afrouxava e emmudecia,
quanto lhe era possivel, o passo por diante do asylo dos seus mysterios;
applicava o ouvido da alma, e tornava a perceber, em termos sempre
novos, e com circumstancias sempre diversas, as mesmas confidencias que
o enlevavam.

Mais de uma vez aconteceu abrir-se inopinadamente uma porta no corredor,
e sair... ¡um Religioso! Áquella apparição mal agoirada, dissipava-se
todo o mundo phantastico; ¡era como se um abutre se tivesse precipitado
sobre um bando de pombas! As sombras de Maria e Anna recebiam um suspiro
saudoso já a vinte leguas de distancia; e eu sahía pelo terrado dos
viveiros, subia o arvoredo da quinta, e ia procurar junto ao Lago dos
Cedros refrigerio contra os ardores da febre, que indubitavelmente me
abrazava.


XXXV

O Lago dos Cedros de Santa Cruz de Coimbra era (não sei se o será ainda
hoje) uma das mais donosas curiosidades de Portugal. Parece impossivel
que o riscassem assim para Conegos regrantes de Santo Agostinho, para
successores de S. Theotonio. Que o traçasse D. João V para uma cêrca de
freiras de Odivellas, ou Luiz o grande, de França, para se estar com
Racine ou Molière, ou com as gentis collaboradoras dos seus romances,
nada mais natural.

Era no cimo de um suave oiteiro, uma esplanada espaçosa, toda em
derredor cerrada de uma alta muralha de cedros, tão a prumo, tão massiça
e de tão renteada superficie, que não parecia senão muro solido pintado
de verdenegro por algum Cinatti. Portas arqueadas, rotas na muralha a
distancias eguaes, mettiam para alamedas seculares, que, descendo, e
dispartindo-se, todas ennoitecidas, murmurantes, gorgeadas, cheirosas e
ermas, iam buscar por outros pontos da cêrca novas amenidades, ou
taboleiros de flores, ou fontes e repuxos, ou obeliscos de murta, ou
estatuas devotas, ou inscripções meditabundas. Aos pés da muralha dos
cedros corre um canapé rustico de porta a porta. O chão, atapetado de
fina relva, abre-se no meio em um lago amplo e redondo, com sua ilheta
ao centro, toucada de laranjeiras viçosissimas, a namorarem-se com toda
a razão, verdes e doiradas, como o ceo azul, nas aguas crystalinas. Duas
bateiras sem dono, mas que o amor e o prazer podiam com iguaes direitos
reivindicar, são a flotilha d'este pequeno mediterraneo, d'onde, por
mais que faça a circumfusa mystica do ermo, não logra desterrar umas não
sei que lembranças e saudades da ilha de Chypre, e das nymphas que a
imaginação grega enxergava por entre as ondas do Egeu. Ali ao menos é
que eu ideára o _Banho das Graças_, descripto por Narciso n'uma das suas
cartas; e ali é que eu devaneei o _Barquinho do lago encantado_, que vós
lestes n'este livro.

Nos assentos de cortiça, ou no velludo do relvado, folgava de me estirar
a sós com o coração ainda agitado das scenas do dormitorio do Pilar.
¡A taciturnidade do sitio, todavia tão melodiosa, vinha tão de molde aos
soliloquios da Musa interior! Eu não pensava: borboleteava: deixava-me
boiar na viração pelos dominios infinitos da alma, ora tocando n'um
espinho e fugindo, ora poisando n'um jasmim e adormecendo.

Ha horas d'estas em que a gente senhoreia o planeta, e não é d'elle; em
que tudo quanto é solido, isto é, duro,--fixo, isto é, estorvo,--temido,
isto é, tirannia,--elementos de que se nos compõe a vida real a todos
quantos somos, se afunde a pouco e pouco e desapparece, e um relampago
de bemaventurança nos envolve com a sua luz visionaria. N'estas horas,
em que nos vingamos dos positivistas, recambiando-lhes o titulo de
doidos com que elles nos calumniam, forçamos nós o destino a servir-nos,
como escravo docil aos nossos minimos desejos.

Fundia eu o possivel e o impossivel; corporificava-os; disfructava-os.
Dos raios do sol fabricava palacios de oiro para Maria; das balsamicas
exhalações dos cedros, mocidade perpetua para ambos nós. Conversávamos
com os nossos irmãos passaros, perguntando-lhes se os seus ninhos
continham tanta ternura como os nossos berços.

¡E haver quem deplore a vida como breve, guando n'ella cabem d'estas
immensidades! ¡Grande ingratidão! ¡profundissimo desconhecimento!

«¡Delicias são, mas delicias que passam!» vocifera um incontentado. ¡Oh,
que não passam! quando se cuidam idas, nol-as vem restituir a saudade.
As proprias lagrimas, com que então as acolhemos, nol-as reverdecem;
outra vez as gozamos, porventura mais formosas que no seu primeiro ser;
e mais formosas e mais queridas sempre, de apparição em reapparição.
Negue-o quem quizer; não se lhe inveja a philosophia. Eu por mim sei que
tudo isto é muito verdade.

N'esta propria hora, já tão remota, me estou eu ainda saboreando, como
presente, nos feitiços do meu Lago dos Cedros; sou um espelho que
embebeu a visão, e já não a perde.

¡_O meu Lago_, disse eu! ¿e por que não? ¡se eu possui a pleno tudo
aquillo, o possuo, e não ha força nem jurisprudencia que de tal me
possam despojar! ¡Imaginavam os bons dos Conegos regrantes que eram
elles os senhores d'aquelles dominios, _mea regna_!... e um sopro, que
se levantou da parte do seculo, lhes sumiu todos os titulos de
propriedade. Os meus não se escreveram em pergaminhos, e existem; e
estão-se rindo de revoluções do mundo: _mea regnas_. ¿Sabeis porquê?
porque a mim foi a Natureza, e seu filho o Amor, quem me fez a doação; e
a elles, tinha-lh'a feito um chimerico direito regio sobre todo o solo,
bens, e futuros, de nossa terra.

No dia em que os despediram, como illegitimos detentores de uma
propriedade commum, perderem um gozo material; e nada mais perderam,
porque posse espiritual, comparavel á minha, nunca elles a chegaram a
tomar. Não era para elles que as aves cantavam contentamentos, que as
arvores vicejavam esperanças, que as fontes murmuravam nomes de
ausentes, que as virações calidas exhalavam phyltros, que os effluvios
das flores namoravam, e que a solidão era povoada; tudo isto, quem o
disfructava era o poeta, que o está ainda disfructando.


XXXVI

¡Que grande erro social, que nefando peccado de prosa, não foi: que na
hora audaz, em que se arrancaram do solo os troncos seculares carcomidos
e sêccos das Ordens religiosas, se não mettessem logo para o logar
d'elles plantações novas, de optima qualidade, que tão bem haveriam
pegado! Extirpavam um preterito que ensombrava e assombrava; bem era;
¡mas quantos queixumes e clamores se não teriam afogado á nascença, se
logo semeassem, ali mesmo, futuros apropriados ás necessidades já
conhecidas da presente edade, e das edades ulteriores!

¿Estes conventos-palacios, estas cêrcas-principados e paraizos, estas
grossas rendas, por que se não applicaram a abrigar e manter, isto é, a
salvar, recompensar, e aproveitar, poetas, artistas, e sabios, que são,
cada um a seu modo, outros tantos solitarios por vocação, e que do fundo
dos seus ermos encantam o mundo com prodigios? Não ha Religiosos que
mais deveras honrem e manifestem a Potencia Creadora. ¡Como a
convivencia quotidiana, de todas as horas, diurna e nocturna, com
tantos engenhos e talentos variadissimos, fecundaria a cada um com o
polen de todos! ¡Como o pintor influiria no poeta, o poeta no musico, o
musico no estatuario, o estatuario no historiador, o historiador no
philosopho, o philosopho no moralista! ¡Como os bisonhos reaqueceriam
com o seu fogo aos veteranos! ¡e os invalidos, se os lá houvesse,
encaminhariam com a sua experiencia ás aguias no seu primeiro adejar á
borda do ninho!

Então sim, que todo este maravilhoso poema de Deus, chamado Creação, no
qual todas as artes se travam e permutam em harmoniosa competencia,
seria lido se traduzido em voz alta ás multidões; e em quanto o mundo
physico se dilatasse em riquezas e commodidades palpaveis, haveria, aqui
e acolá, grupos seriamente religiosos, que lhe estariam elaborando ares
mais respiraveis para o espirito.

Não é, não é utopia; que o digam, e infinitamente _a fortiori_, os
caudaes litterarios e scientificos, de que foi matriz a ordem Benedictina.

Depois de cahido o colosso monacal, sepultado no desprêso, quasi no
esquecimento, e recoberto com montanhas de odios como o Typheu sob os
promontorios da Sicilia, fôra valentia covarde hoje em dia, zêlo
superfluo, e actividade ociosa e ridicula, restaurar o processo
condemnatorio das Ordens religiosas, já trancado. Permitta-se-nos
entretanto ponderar em proveito da ideia que aventavamos: ¡quão inuteis,
comparados com estas congregações de sabios, de artistas, de poetas, não
eram, por exemplo, aquelles reclusos de Santa Cruz de Coimbra! ¿Que
beneficios lhes deveu o mundo em tantos seculos? ¿que vestigio deixaram
da sua existencia? ¿que tradição, ao menos, de santidade? ¿Alcançámos
nós ali algum successor de S. Theotonio, ou de Santo Antonio, d'este
sympathico e popular Santo Antonio, que experimentou Santa Cruz e a
refugiu por mal conforme ao seu espirito humilde e penitente? De todo em
todo, nada.

Estava sendo um feixe de homens absolutamente negativos:--nem
illustrados, nem ignaros; nem aristocratas, nem democratas; nem
beneficos, nem maleficos; nem do povoado, nem do ermo; nem
desconsolados, nem contentes; nem escandalosos, nem edificativos.
Apenas tinham de vida quanto bastava para não serem enterrados. O seu
Prior subia uma vez por anno á Universidade, a abrir como Cancellario a
sala dos exames privados, e voltava para a hybernação. Mostravam a sua
livraria, como os tumulos dos dois Monarchas: sem tomarem d'elles, nem
d'ella, coisa alguma; mostravam o seu santuario, como a espada de D.
Affonso I: tudo reliquias sem virtude excitativa; mostravam as suas
quintas com desvanecimento, mas bocejando. As Imagens de pedra, lá fóra,
na frontaria da egreja, geladas e immoveis entre ninhos e hervinhas
floridas, não eram menos insensiveis do que elles n'este banho da
Natureza tão viva e voluptuosa. Tanto lhes diziam já a elles as harpas
eólias das ramadas, como os vultos de marmore dos quatro Evangelistas,
ou das tres Virtudes theologaes, o do seu Patriarcha Santo Agostinho, ou
os conceitos mysticos estampados pelos azulejos. Indifferença para o
Céo, indifferença para a terra.--Viver tal não valia a pena.

Quando o anjo da espada de fogo os pôz fóra do eden, só poderam levar
saudades do ocio descuidoso e farto que se lhes acabava; mas que
deixasse nenhum vacuo a sua ausencia.... não deixou de certo. Não houve
perda; mas podéra ter havido lucro, se, como vinhamos conversando,
áquelle solipsismo de todo o ponto esteril, tivera succedido uma
congregação nova:--a dos crentes no bello, a dos devotos das artes, das
sciencias, da poesia; e dos que tecem coroas de luz para a civilisação.

¿Mas que digo eu _não houve perda_? assim mesmo a houve, e, se bem se
considerar, não tão pequena.

Estes dominios arrancados ás Ordens religiosas, que lhes mantinham o seu
cunho de perpetuidade, e os facultavam ao usofruto de toda a gente,
passaram, pelo engôdo de quatro cobres, com que nem a pedra dos
alicerces se pagaria, para a mão de um particular qualquer: um Silva, um
Guimarães, ou um Vianna, que apeteceu palacio, hortas, e parque para a
sua familia. Desde logo, trancados os portões a poetas, a amantes, a
meditativos, dispersos os livros e os quadros, o espirito burguez
começou por dentro a desfigurar tudo, a compartir, a amesquinhar, á sua
imagem e similhança. Os Evangelistas, que escreviam tão attentos os seus
livros havia tantos seculos, no estio á sombra das copas, no inverno
á dos troncos, foram talvez dormir para algum recanto. O arvoredo, que
só produzia meditações, produziu taboado ou carvão, e deixou livre a
terra para crear mais algum moio de milho; o Maio levou tambem d'ali os
seus ermitães, os rouxinoes, para onde houvesse menos especuladores e
mais sombras, menos estrondo e mais Natureza, menos mundanidades e mais
ninho.

Inuteis por inuteis, excusados por excusados, antes aquelles semimortos,
a quem acabámos de matar, do que estes taes vivos; e antes mil vezes que
todos elles, a nossa ideal republica de talentos e de genios.

¡Dá gosto a quem sabe dizer, como Christo ao Diabo, que o homem não vive
só de pão, phantasiar o que haviam de dar de si estas novas colmeias,
estes mixtos de gymnasios de exercitação, e Runas de repoiso! ¡os favos
que ali se espessariam de poemas, de operas, de musicas populares, de
romances, de historias, de philosophia, de sciencias, de tudo quanto ha
de mais saboroso e nutritivo para a alma! ¡Como o soldado dos _Lusiadas_
seria feliz, e quão mais copioso testamento de versos de oiro houvera
deixado, a ter existido no seu tempo um tal refugio! Poupava-se ao amigo
Jáu o trabalho de mendigar para elle, e á velha Barbara o vexame de lhe
esmolar da sua pobreza

¡E de Camões para cá, quantos até hoje, da sua familia poetica, que
morreram á nascença ou se extraviaram e perderam, não estariam agora por
cima das nossas cabeças a resplandecer!

¡A terra e o ar a criarem-nos sempre n'esta região de benção, e nós
sempre n'esta plaga de maldição a desperdiçarmos! Só tres seculos depois
de mortos advertimos em que ainda não morreram, e nos lembramos de lhes
ir buscar uma pedra para monumento. A honra aos ossos, essa que espere
mais dois seculos; não tem pressa; agora descança-se.

¡Pobre Camões! se a tua Santa Cruz, esse torrão inspirativo, onde tu
mesmo havias poetado tambem nos dias da tua mocidade, fosse já então
isto que lhe eu cubiçava nos meus entresonhos á beira do Lago dos
Cedros, e te hospedasse com orgulho nas suas sombras, abastado, seguro,
escutado, e applaudido de outros cysnes, não saberias ter suspirado
no teu ultimo canto aquelle triste verso

    _o gôsto de escrever que vou perdendo;_

nem aquella estancia, que ainda nos faz córar por nossos bisavós:

    Vão os annos descendo, e já do estio
    há pouco que passar até o outono;
    a fortuna me faz o engenho frio,
    do qual já me não jacto, nem me abono;
    os desgostos me vão levando ao rio
    do negro esquecimento, e eterno sono;
    mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha
    das Musas, co'o que quero á Nação minha.

O que tu pedias á Rainha fabulosa das Musas, haver-t'o-hia liberalisado,
sem rogos, a esclarecida previdencia da Nação, então devéras tua, e de
todos os que, como tu, se desvelam pela engrandecer.


XXXVII

Assaz e de sobra tenho sonhado; levantemo-nos, que são horas de nos
irmos chegando ao fim da nossa jornada.

Além de Santa Cruz, outros muitos sitios, onde o acaso me levou pelos
arredores de Coimbra, e mais longe, vieram entretecer na tela do meu
permanente affecto os bordados das suas peculiares inspirações.

As _Ruinas do Mosteiro_, por exemplo, nasceram da contemplação
melancolica dos restos do convento de Santa Clara, á beira do
Mondego[4], e de uma visita de passagem aos destroços de um
cenobio de monjas, não sei já de que Ordem, em Moimenta da Beira.

As _Duas Palmeiras_, colhi-as n'uma excursão á magnifica matta do
Bussaco.

A _Rega dos pomares_, deu-m'a ao descahir de um dia de verão a quinta
suburbana das Setes Fontes.

A _Noite do estio_, passou-se me tal em realidade na quinta de Santa
Margarida, n'um cedral que lá havia n'esse tempo, e já não ha, bem ao
rés do Mondego. Era a noite (¡se podiam esquecer coisas d'estas!) era a
classica noite da romaria annual do Senhor da Serra, quando bandos de
peregrinos e peregrinas de longe, de muito longe, trajados de gala á
moda de suas terras, enramados de verde, seguindo as violas, e
alternando nas cantigas a devoção e os amores, veem pernoitar na cidade,
pelas varzeas, pela ponte, pelas quintas, para seguirem juntos para a
serra em começando o primeiro desmaiar de estrella na antemanhan.

Até a _Feiticeira_ (¡quem o crêra! crel-o-hão agora, porque de vergonhas
ficticias ninguem se jacta) a _Feiticeira_ mesma teve, sob os enfeitos
ou disfarces da poesia, o seu fundo de realidade. Morava a boa da velha
n'um casebre escuro da rua da Figueirinha; tinha fama, n'esse tempo, de
ser uma das sibyllas que melhor atinavam com os futuros, e com mais
certeira mão pescavam o perdido nos abysmos do passado. Rira-me eu
sempre de gente d'esse lote, e espanto-me hoje de quem se não ri d'ella;
mas poeta, criado com os supersticiosos Romanos, amante e com tão poucas
certezas fixas a que me apegar, disse um dia entre mim:

    _................... quid tentasse nocebit?_

e dirigi-me para a nova Cumas, como podéra ter ido á tôa para outro
qualquer passeio. Colhi prognosticos ruins; não lhes dei fé, mas sahi
triste. O tempo (bem haja elle) os desmentiu de todo o ponto.


XXXVIII

Abraçára meu irmão, por muito livre e muito reflectida escolha sua, o
estado ecclesiastico. Pelos meus gostos imaginais os seus; o parochiar
nos campos, bem vedes se lhe não seria incentivo de ambições.

Não ha viver mais poetico para um espirito amante do remanso e do
estudo, e avido de bemquerenças, nem mais talhado para dar largas a
uma actividade bemfazeja; diziam-lhe que era enterrar o seu talento e
saber; respondia que antes era pôl-os, se porventura os possuia, onde,
embora entre humildes, melhor poderiam resplandecer; e que, assim como
uma egreja entre mattos e casaes era mais egreja, que cercada de ruas e
tráfego, tambem a eloquencia podia ser impunemente mais viva, mais
caudalosa, mais remontada e mais pathetica, e sobre mais formosa mais
efficaz, e mais eloquencia em todo o caso, entre os singelos filhos dos
campos, do que entre os zombeteiros moradores das cidades.

A todas estas razões lhe acrescia outra, que elle não declarava, mas que
eu bem sabia ser-lhe a principal: n'um presbyterio rustico, se o
conseguisse, se nos devolveriam em commum dias, á feição d'aquelles que
a leitura dos nossos poetas nos havia costumado a cubiçar.

Cumpriram-se-lhe os votos. A senhora Infanta Regente D. Isabel Maria o
proveu no Priorado de S. Mamede da Castanheira do Vouga.


XXXIX

A 23 de Outubro de 1826 entravamos, com o alvoroço da novidade, e cheios
de vagos projectos não pequenos, pela alpestre região ás abas da serra
do Caramulo.

¡Nada mais avêsso ás amenidades que nos ficavam em Coimbra! ¡solo magro,
ondado, mattagoso, ermo, roto de quebradas e algares, selvoso por
intervallos, salpicado a longe e longe de alguma escassa póvoa recoberta
de loisas ou de feno, e retalhado de rios e ribeiros profundos e
pedregosos! ¡No descampado um passal, antiga quinta das Limeiras dos
Condes da Feira, que ali se iam pelos verões montear javardos! ¡Ao
centro do passal, e á beira da via publica, o templo de S. Mamede com
seu adro arrelvado cingido de cerejeiras, platanos e nogueiras! ¡Por
detraz do templo, emboscada, a residencia parochial! ¡Por detraz d'ella
despenhadeiros até um rio, que o sol não avista em cada dia por mais de
uma hora!

Repicavam os sinos dando as boas vindas ao novo Pastor.

--«¿Onde está a freguezia?» perguntavamos nós maravilhados:



_¿Qui teneant (nam inculta videt) hominesne, feræne?_



--«Dispersa, escondida pelos oiteiros, a uma parte e a outra, distancias
muito largas.» O unico visinho proximo da egreja e do presbyterio era,
lá para a orla do passal, S. Sebastião na capellinha branca, como que
posto de guarda á sua profusa e rumorosa matta de sobreiros.

Solidão silvestre mais caracterisada, não quero que a haja. A poesia e
as festas da serra (que nada ha tão desamparado que não tenha suas
festas e poesia) só depois e com o tempo é que tinham de nos vir
apparecendo.

Entrança tão desabrida infundiu-me tristeza; e o alvoroço em que o
movimento e variedade da jornada nos trouxera, breve me degenerou em
esmorecimento. ¡Se me vinham tão frescas e presentes as memorias, não só
da cidade do Mondego, senão tambem da minha Lisboa natal, d'onde tão
poucas semanas havia que eu sahira! ¡Vermo-nos agora de improviso
sequestrados de todo o trato humano, em paragem na qual não havia porquê
nem para quê numerar as horas, e onde a carranca dos sitios tinha um
cunho tão profundo de immutabilidade, que o espirito se confrangia, e se
gelava o coração!

Pela primeira vez ali o namorado da Natureza se amuou, e teve com ella
os seus arrufos.

Se o permittis, ouvir-lhe-heis versos em que procurou desabafar:

                    A PRIMEIRA NOITE NA SERRA

            _.................ibi hæc incondita solus_
            _Montibus et silvis studio jactabat inani._

    ¿Vélo? ¿Sonho? ¿Deliro?! Em solitario monte,
    que se espanta de ver-me, e cuja austéra fronte
    nada avistou jamais no amplissimo horizonte
    do mundo a tumultuar, de cidades a rir...
            n'este ermo ignaro, frio? mudo...
    aqui... (¿deliro? ¿ou sonho?) aqui meu lar, meu tudo,
            ¡o meu presente e o meu porvir!
            Genio invisivel da montanha,
            de astros, de sol, o ceo te banha;
            o mar de longe te acompanha
            no livre cantico sem fim.
    Escada de Jacob da terra ao firmamento,
            a mansão tua é monumento
    da potencia, do amor, das glorias d'Eloïm.

    Emquanto, em derredor do solio teu sublime,
    a baixa terra vil que a instavel sorte opprime,
    se volve, se transforma, e sua angustia exprime
    n'um continuo anhelar, n'um confuso clamor,
            a variedades sobranceiro
    mantens-te qual surgiste, e do cahos primeiro,
            e do diluvio assolador.

            Silencio e paz comtigo habita;
            o ermo é como o eremita;
            loucas vaidades não cogita;
            ama o seu rustico trajar;
    em apparente inercia ama que ferva occulto
            de seus affectos o tumulto,
    seus extasis, seus ais, seus gostos, seu orar.

    Sim, Genio da montanha, Archanjo de poesia:
    eu creio em ti; eu creio em que alma ingenua, pia,
    póde ouvir de tua harpa a casta melodia,
    e abrazar-se de amor e endoidecer por ti;
            sim; mas eu, frivolo, profano,
    á solidão extranho, affeito ao mundo insano,
            ¿que hei de esperar? ¿que tenho aqui?

            ¿Toda a minh'alma se entristece,
            e se confrange, e se ennoitece,
            ao ver que a sorte lhe destece
            de um sopro os aureos sonhos seus.
    Sonhava applausos, gloria... ¡em desterro desperto!
            sonhava mundo... ¡acho um deserto!
    sonhava inda illusões... ¡e escuto-lhes o adeus!

    Náufrago, perco a lyra em meio da viagem.
    ¡Desço vivo ao sepulcro! ¡Em ti, fatal paragem,
    quem me resurgirá! Dos montes a linguagem...
    oiço... escuto... medito... e em vão quero entender;
            é como uns sons d'ignota fala;
    qual ás penhas o mar, me inunda e me resvala,
            sem me abalar, nem me embeber.

            ¡Oh! ¿á minh'alma taciturna
            que importa, ó montanha soturna,
            que de perfumes sejas urna
            da terra erguida sobre o altar?
    ¿que o ceo te ria azul, mais amplo e mais de perto,
            que o sol doirado, ao teu deserto
    mais cedo suba, e á tarde o desça com pesar?

    Vir mais tardia a noite, a aurora vir mais cedo,
    ¿que me aproveita? Inerte entre o immovel fraguedo,
    só ouvindo os tufões e os corvos no arvoredo,
    bramirei:--«¡Cresce o tempo! ¡oh! ¡supplicio cruel!
            ¡são mais pesares, mais saudades,
    mais estro a arder em vão, mais visões de cidades,
            mais tentações a dar-me fel!...»--

            ¡Ai! ¡mundo! ¡ai! ¡eccos seductores!
            ¡Tanto vate a ceifar louvores!...
            ¡Tanto moço a colher amores!...
            ¡Tantos loireiros e rosaes...
    E eu n'esta solidão a torcer-me arraigado,
            qual roble que geme indignado,
    vendo ao longe no Oceano os lenhos triumphaes!

    Assim ruge, baldão de vingativo nume,
    esse que a argilla outr'ora encheu de ethereo lume;
    assim nos gelos sua, agrilhoado ao cume
    do caucáseo alcantil, seu cadafalso atroz.
            Só o abutre de eterna fome,
    que o grande coração algoz sem fim lhe come,
            responde em ais á sua voz.

            Fenece o dia. ¡Hora jocunda,
            que eu tanto amava! ¡hora fecunda
            dos cantos meus! ¿porque me inunda
            nova amargura o coração?
    ¿Sino crepuscular, tôas funéreo dobre?
            a serra em luto se me encobre;
    a nocturna mudez duplica a solidão.

    Nenhuma luz scintilla; humana voz não sôa.
    De estrellas a accender-se o Empyrio se povôa;
    tal a fada Coimbra, a senhoril Lisboa,
    nest'hora a quem as olha, entram no escuro a abrir
            de luzeiros um labyrinto.
    ¡Ceos! ¡Não oiço eu troar... seus coches!... O que sinto
            é vento em selvas a rugir.

            Calae, fugi, ventos agrestes;
            sumi-vos, lampadas celestes;
            n'um seio a delirios já prestes
            não susciteis mais tentações.
    Ou antes... aturdi-me, Euros bravos; ou antes...
            vós, astros, cifras de diamantes,
    O arcano me aclarae lá d'essas regiões.

    ¡Oh! se á minha razão, contradictoria, altiva,
    que ás trevas sente horror, e á clara Fé se esquiva,
    de vós, faroes do Geo, baixasse a crença viva,
    que aos moradores do ermo inspira a vossa luz!...
            ¡se me volvesseis as ditosas
    esp'ranças que hei perdido, alvas, ethereas rosas,
            com que se enfeita e esconde a Cruz!...

            Tornar-se-me-hiam de improviso
            a solidão, em paraizo;
            a magua, em perenne sorriso;
            em alto cantico, a mudez;
    a mallograda lyra, o não colhido loiro,
            em harpa augusta, em palmas d'oiro;
    e o monte, solio então, veria o mundo aos pés.

    Delirios sempre vãos, fugi d'um peito enfermo;
    tu, só tu, negra morte, has-de ao meu mal pôr termo;
    ermo para ambições, e inferno, e não ermo;
    para a humilde piedade é que elle espelha o Ceo.
            Gentis phantasmas de cidades,
    vinde, escondei-me o ermo em vossas claridades,
            como um esquife em aureo veo.

            ¡Vinde, cercae-me, endoidecei-me,
            (embora em saudades me eu queime)!
            O somno, as vigilias enchei-me
            da vossa esplendida vizão.
    ¿Val o riso choroso as festas da loucura?
            vinde, guiae-me á sepultura,
    crente no amor, na gloria, e rindo á solidão.

    ¡Eu blasphemo, eu desvairo! Aos encontrados votos,
    nem ecco respondeu n'estes covões ignotos.
    Não, cumes glaciaes, tão outros, tão remotos
    dos sitios que eu amava, e em que esperei morrer;
            não, no silvestre seio vosso,
    nem de amenas ficções apascentar-me posso,
            nem menos as posso esquecer.

            ¡Valor! ¡valor! ¿Quem do futuro
            sondou jamais o abysmo escuro?
            ¡Apenas chego e já murmuro!
            ¿O de que tremo acaso sei?
    Esperemos: talvez que inglorios, mas doirados,
            aqui me aguardem, recatados,
    dias de estro e de paz, quaes nunca disfructei.

    Se além, no presbyterio, humillima choupana,
    (Vaticano, e Queluz da pobre grei serrana)
    mais que fraterno amor sollicito se afana
    em me afofar o ninho, a vida em me inflorar;
            se n'um retiro verde e mudo,
    por elle tenho o leito, a mesa, o doce estudo,
            sombras no estio, o inverno ao lar;

            se a solidão que me apavora,
            sómente o fôr vista de fóra;
            se em seus recôncavos demora
            gente feliz, povo de irmãos;
    se do antigo viver, das crenças de outra edade,
            vestigios guarda a soledade;
    se poesia se vive entre estes aldeãos;

    se a alegria, serena, isenta de pesares,
    como a fresca saude, habita os puros ares;
    se em toda a parte ha Deus, em ceos, em terra, e mares,
    se Deus em toda a parte a Natureza ri...
            coração meu, não desanimes,
    gozos que não prevês, e cantos mais sublimes
            encontrarás talvez aqui.

            ¡Ah! sendo assim, que importa a fama!
            Tambem philomela derrama
            sua harmonia ás selvas que ama
            longe de ouvintes e do sol.
    Cantarei. ¿Meu cantar mais ambições teria
            que a viva, a lustrosa poesia
    de perolas que a flux borbóta o rouxinol?

Sete annos se nos gastaram por ali, menos estranhos em verdade, menos
difficeis e arrastados, do que o eu temêra, ao trocar, tão a subitas,
cidades e amenidades por brenhas alpestres, tão desconversaveis á primeira
vista. Tivemos tempo de sobra para nos irmos aclimando e afazendo, e
haurindo poesia mesmo dos penedos, e estillas de mel mesmo dos urzaes. Mas
tudo isso pertence a outro livro, onde algum dia folgarei de hospedar os
meus leitores; chama-se por signal _O Presbyterio da Montanha_.


XL

Tem a solidão isto de commum com o silencio e a escuridade: espanta e
aturde a quem n'ella cái; mas logo que o ouvido, desadormentado dos sons
fortes, aprende a conversar com a mudez; tanto que os olhos,
desoffuscados dos luzeiros intensos, se exercitam em caçar espectros de
raios, phosphorescencias indecisas, que são como que os infusorios das
trevas, descerrou-se o negrume em brilhantismo; a calada aviventou-se de
dialogos; a solidão, que parecia o nada, é o theatro com o seu drama; é
um mundo novo com um systema completo de existencias imprevistas e
apropriadas.

¡Que admira! A solidão medita, e a meditação cria.

Os sentidos pastam só no que lhes offerecem a Natureza, a fortuna, o
acaso; a divindade interior, a alma, tem commercios ineffaveis com o
intimo e ignorado. S. João, entre os nevoeiros de Pathmos, divisa uma
Jerusalem celeste; nas cogitações de Socrates, apparece o Omnipotente:
nos extasis de Platão, reflexos da Trindade; nos calculos taciturnos de
Galileu, firma-se o sol, volteiam os planetas; Colombo faz surgir do
fundo dos mares a America; Leverrier, mais globos no espaço; Fulton, o
hypogripho, o pégaso do vapor, magia, poesia, potencia escrava do homem,
e dominadora, primeiro dos oceanos, depois dos continentes, e amanhan
talvez dos ares; a solidão cismadora, dá a Eneida a Virgilio; mostra a
Linneu os amores e o somno das plantas; a Dante, o inferno; a
Fourier, o paraizo terrestre; a Newton e a Laplace, o codigo dos astros;
a Daguerre, os talentos artisticos do sol; ao Gama, o caminho do
Oriente; ao soldado Camões, o da immortalidade; põe na mão de Guttemberg
a chave do cofre das sciencias; na de Vicente de Paulo, a da caridade;
na de Say, a da riqueza publica; na de Pestalozi e Froebel, a da escola
séria e fecunda.

Assim como na associação está a potencia do effectuar, está na solidão a
potencia ao descobrir, e a ideia germen do facto. Na solidão, a
meditação; a acção, na sociedade. O progresso e a vida do mundo dependem
da cooperação d'estes dois elementos antagonistas, como da attracção e
repulsão a marcha das espheras; e tão fanatico é o fanatico do ermo,
Brahmane, Esseno, ou Monje, que cifra tudo no espirito, como o fanatico
da actividade material, que tudo cifra na materia. Este ultimo é
elemento visivel e palpavel; aquelle, elemento imponderavel dos destinos
humanos; e tão imponderavel e subtil, que muitos lhe contestam de boa fé
a existencia, os influxos, a importancia.

Archimedes, a sós com a Natureza e com o seu genio, descobre os meios de
destruir e incendiar a frota romana. Absorto em suas reflexões
criadoras, no seu gabinete, como n'um antro, não sente o estrondo da
cidade, já senhoreada dos inimigos; não acorda á voz do soldado de
Marcello, que, de espada em punho, lhe ordena que o siga; sem o sentir é
degolado. Cai a grande cabeça, irman entre irmans, no meio das espheras
celestes que está architectando. Só de tão extraordinaria concentração
podiam brotar os seus tão extraordinarios inventos e descobrimentos.

Lavoisier, outro dos martyrisados pelo materialismo descrente e brutal,
depois de haver testado ao mundo a mais opulenta herança scientifica,
condemnado ingrata e cegamente á guilhotina, ¿que é o que pede aos
verdugos revolucionarios seus juizes? uma dilação de quinze dias. ¡Só
uma dilação! ¡só de quinze dias! ¿para quê? para concluir trabalhos
uteis á humanidade, que n'este momento o desconhece; rematados elles, já
não terá pena de morrer. Recusam-lh'a; então caminha sereno a depôr no
cadafalso uma cabeça maior talvez que a de Archimedes, e ainda na
vespera coroada de loiros pelo Lyceu.

Tanto a actividade fecundante, recolhida por instincto para os penetraes
mais sagrados do animo, d'onde se conversa em extasis com Deus e com a
Natureza, com e Pae Omnipotente e com a Filha Formosissima, nossa irman,
fica inaccessivel aos maiores cataclysmos externos, ás catastrophes das
Syracusas, ao cahos, providencial porém medonho, de uma revolução franceza.

O homem que nasce pertencente á escassa familia d'este naturalista pae
da Chimica, e d'aquelle geómetra pae da Mechanica, mesmo com os braços
cruzados sobre o peito, mesmo com os olhos fechados, mesmo dormindo e
sonhando, está servindo como operario; mas abaixo d'elle ha ainda, não
menos veneraveis, os prestigiosos scismadores do mundo da Arte, mundo
não menor, nem talvez, em ultima analyse, menos util que o da Sciencia.

André Chénier, especie de Lavoisier da Poesia, convocado tambem para o
festim da morte, não é dos prazeres ephemeros da existencia que leva
saudades;--bate apaixonadamente raivoso na fronte, porque sente se lhe
estava ali dentro formando, como em cerebro olympico, uma nova Musa
gentilissima. ¿Quem lh'a revelára? A meditação solitaria, que sabe tudo,
e tudo prophetisa.

¡Bonissima solidão! Tu és para a sociedade o que as tuas montanhas são
para os valles: nas tuas entranhas se filtram, dos teus reconcavos
rebentam, os genios possantes e profundos que vão derramar por longe a
fertilidade. Mas tu não és só mãe ás torrentes caudaes; uma fontinha
entre lapas, desconhecida, não se goza menos do teu favor. Sobre o pouco
liberalisas dons, como sobre o muito; próvida para o immenso, próvida
para o limitado. ¡Solidão, Egeria das almas eleitas! ¡solidão, buscada
por Christo, abraçada por Jocelyn, adorada por Petrarcha, explorada em
tuas minas de oiro por Zimmermann, inspiradora de Volney, de Rousseau,
do Infante de Sagres, de todos os videntes, de todos os descobridores,
de todos os inventores, de todos os Baptistas! ¡Solidão, ninho das rolas
como das aguias, perdôa, se eu não sabia ainda apreciar-te.

Só agora, depois de arrancado d'ella ha tantos annos que já a
podéra ter esquecido, só agora é que decifro (se porventura não é
miragem do amor proprio), que a seriedade austera e o sorrir melancolico
da montanha vieram tão de proposito entremear-se na minha vida poetica e
amoravel, como a primavera do Paço do Lumiar e as do Mondego.


XLI

Os meus sete annos da serra, só de longe a longe interrompidos por
algumas breves excursões a Coimbra, e uma a Lisboa, contiveram forçados
e sobejos ocios para eu pensar em alguma coisa mais duradoira e menos
egoista que as rosas e os amores; direi melhor:--iniciaram-me um tanto
nos segredos de outra esphera menos baixa, na qual ha flores tambem, mas
que não murcham; ha tambem ternuras, mas que abraçam o genero humano.

O presbyterio, com a nossa bibliotheca semi-pagan, homiziava-se á sombra
do templo do pastorinho S. Mamede. O campanario só chamava para a oração
e para festas um povo que se não via, e que aos eccos d'aquelles
repiques parecia rebentar da terra. Relogio, não o tinha; contentava-se
de pregoar a saudação angelica nos dois crepusculos e ao meio dia. As
horas, que são do tempo, desdenhava-as como alheias ao pensamento da
immortalidade. O silencio era profundo e geral; seria sem quebra, se o
não interrompessem as musicas da Natureza no ermo: os passarinhos por
fóra das duas portas abertas da egreja, as cigarras nas oliveiras do
passal regaladas no seu banho de sol, as rolas e os cucos no sobreiral
de S. Sebastião, as aves domesticas no nosso pateo espaçoso, os grillos
pelos silvados, os álertas dos gallos, os uivos dos lobos, os pios dos
mochos pelas noites, o frémito do vento pelos pincaros do pomar,
enclausurado e protegido com o tugurio no recinto de muros altos, e ás
vezes tambem nos temporaes, pela montanha de heras de que se toucava
entre platanos o portão hospitaleiro da vivenda.

N'este intermundio o que passava lá ao longe pelo Reino era quasi tão
desconhecido como as occupações dos moradores dos outros planetas. Das
raias da serra a fóra só tres nomes nos constavam ao certo, porque
nol-os dava a collecta da Missa: de um Papa, de um Bispo, de um Rei; os
parochianos que não sabiam o latim, nem a tanto chegavam, cuido eu; o
que lhes não vedava serem muito boa gente, muito bons christãos e amigos
da Patria, em que lhes constava achar-se encravada a sua montanha.

Povos de tão benigna condição, facil era, e gostoso, pastoreál-os.
Homens tão montesinhos e sáfaros, mas ao mesmo tempo doceis,
intelligentes e activos, grande obrigação era, além de dever civico,
humano, e religioso, arroteál-os para um pouco de civilisação, ou para
muito, se possivel fosse.

Agras e agerrimas são de si as entreprêzas d'este genero; mas por isso
mesmo é que alliciam almas generosas.

¡Grande era, e excellente, a alma do mancebo Parocho!

Novas leituras, novos estudos, em razão de seu officio, se houveram de
enxertar nos nossos anteriores conhecimentos, só poeticos pelo de mais.
Pegaram ás mil maravilhas; ganharam extraordinaria força em razão da
seiva que já encontraram prevenida.

Pelas suavidades da Litterat

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