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O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

by Eça de Queirós · Portuguese · Gutenberg #31971 · 862,674 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of O crime do padre Amaro, scenas da vida devota
    
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Title: O crime do padre Amaro, scenas da vida devota

Author: Eça de Queirós


        
Release date: April 13, 2010 [eBook #31971]
                Most recently updated: January 6, 2021

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/31971

Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
        Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
        produced from images generously made available by National
        Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)


*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CRIME DO PADRE AMARO, SCENAS DA VIDA DEVOTA ***




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     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

                                            Rita Farinha (Abril 2010)




O CRIME

DO

PADRE AMARO




Obras do mesmo auctor:

*Os Maias.* 2 grossos volumes. 2$000

*O Crime do Padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1
grosso volume. 1$200

*O Primo Bazilio.* Segunda edição. 1 grosso volume. 1$000

*A Reliquia.* 1 grosso volume. 1$000

*O Mandarim.* Segunda edição. 1 volume. 500

No prelo:

*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume.




EÇA DE QUEIROZ


O CRIME

DO

PADRE AMARO

SCENAS DA VIDA DEVOTA

TERCEIRA EDIÇÃO

Inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e na acção da
edição primitiva



PORTO

LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON

Casa editora

*LUGAN & GEMELIOUX, Successores*

1889

Todos os direitos reservados




Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70




NOTA

(DA 2.^a EDIÇÃO)


O Crime do Padre Amaro recebeu no Brazil e em Portugal alguma attenção
da Critica, quando foi publicado ulteriormente um romance intitulado--O
Primo Bazilio. E no Brazil e em Portugal escreveu-se (sem todavia se
adduzir nenhuma prova effectiva) que O Crime do Padre Amaro era uma
imitação do romance do snr. E. Zola--La Faute de l'Abbé Mouret; ou que
este livro do auctor do Assomoir e de outros magistraes estudos sociaes
suggerira a idéa, os personagens, a intenção do Crime do Padre Amaro.

Eu tenho algumas razões para crêr que isto não é correcto. O Crime do
Padre Amaro foi escripto em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e
publicado em 1874. O livro do snr. Zola, La Faute de l'Abbé Mouret (que
é o quinto volume da série Rougon Macquart), foi escripto e publicado em
1875.

Mas (ainda que isto pareça sobrenatural) eu considero esta razão apenas
como subalterna e insufficiente. Eu podia, emfim, ter penetrado no
cerebro, no pensamento do snr. Zola, e ter avistado, entre as fórmas
ainda indecisas das suas creações futuras, a figura do abbade
Mouret,--exactamente como o veneravel Anchises no valle dos Elyseos
podia vêr, entre as sombras das raças vindouras fluctuando na nevoa
luminosa do Lethes, aquelle que um dia devia ser Marcellus. Taes coisas
são possiveis. Nem o homem prudente as deve considerar mais
extraordinarias que o carro de fogo que arrebatou Elias aos céos--e
outros prodigios provados.

O que, segundo penso, mostra melhor que a accusação carece de exactidão,
é a simples comparação dos dois romances. La Faute de l'Abbé Mouret é,
no seu episodio central, o quadro allegorico da iniciação do primeiro
homem e da primeira mulher no amor. O abbade Mouret (Sergio), tendo sido
atacado d'uma febre cerebral, trazida principalmente pela sua exaltação
mystica no culto da Virgem, na solidão d'um valle abrazado da Provença
(primeira parte do livro), é levado para convalescer ao _Paradou_,
antigo parque do seculo XVII a que o abandono refez uma virgindade
selvagem, e que é a representação allegorica do Paraiso. Ahi, tendo
perdido na febre a consciencia de si mesmo a ponto de se esquecer do seu
sacerdocio e da existencia da aldeia, e a consciencia do universo a
ponto de ter medo do sol e das arvores do _Paradou_ como de monstros
estranhos--erra, durante mezes, pelas profundidades do bosque inculto,
com Albina que é o genio, a Eva d'esse logar de legenda; Albina e
Sergio, semi-nús como no Paraiso, procuram sem cessar, por um instincto
que os impelle, uma arvore mysteriosa, da rama da qual cae a influencia
aphrodisiaca da materia procreadora; sob este symbolo da Arvore da
Sciencia se possuem, depois de dias angustiosos em que tentam descobrir,
na sua innocencia paradisiaca, o meio physico de realisar o amor;
depois, n'uma mutua vergonha subita, notando a sua nudez, cobrem-se de
folhagens; e d'ahi os expulsa, os arranca o padre Archangins, que é a
personificação theocratica do antigo Archanjo. Na ultima parte do livro
o abbade Mouret recupera a consciencia de si mesmo, subtrae-se á
influencia dissolvente da adoração da Virgem, obtem por um esforço da
oração e um privilegio da graça a extincção da sua virilidade, e
torna-se um asceta sem nada d'humano, uma sombra cahida aos pés da cruz;
e, é sem que lhe mude a côr ao rosto que asperge e responsa o esquife de
Albina, que se asphyxiou no _Paradou_ sob um montão de flôres de
perfumes fortes.

Os criticos intelligentes que accusaram O Crime do Padre Amaro de ser
apenas uma imitação da Faute de l'Abbé Mouret não tinham infelizmente
lido o romance maravilhoso do snr. Zola que foi talvez a origem de toda
a sua gloria. A semelhança casual dos dois titulos induziu-os em erro.

Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade cornea ou má fé
cynica poderia assemelhar esta bella allegoria idyllica, a que está
misturado o pathetico drama d'uma alma mystica, ao Crime do Padre Amaro
que, como podem vêr n'este novo trabalho, é apenas, no fundo, uma
intriga de clerigos e de beatas tramada e murmurada á sombra d'uma velha
Sé de provincia portugueza.

Aproveito este momento para agradecer á Critica do Brazil e de Portugal
a attenção que ella tem dado aos meus trabalhos.


Bristol, 1 de janeiro de 1880.

_Eça do Queiroz._




O CRIME

DO

PADRE AMARO




I


Foi no domingo de Paschoa que se soube em Leiria que o parocho da Sé,
José Migueis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O parocho
era um homem sanguineo e nutrido, que passava entre o clero diocesano
pelo _comilão dos comilões_. Contavam-se historias singulares da sua
voracidade. O Carlos da Botica--que o detestava--costumava dizer, sempre
que o via sahir depois da sésta, com a face afogueada de sangue, muito
enfartado:

--Lá vai a giboia esmoer. Um dia estoura!

Com effeito estourou, depois d'uma ceia de peixe--á hora em que
defronte, na casa do dr. Godinho que fazia annos, se polkava com
alarido. Ninguem o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral
não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos d'um
cavador, a voz rouca, cabellos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fôra querido das devotas: arrotava no confessionario; e, tendo
vivido sempre em freguezias da aldeia ou da serra, não comprehendia
certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao
principio, quasi todas as confessadas, que tinham passado para o polido
padre Gusmão, tão cheio de _labia_!

E quando as beatas, que lhe eram fieis, lhe iam fallar de escrupulos, de
visões, José Migueis escandalisava-as, rosnando:

--Ora historias, santinha! Peça juizo a Deus! Mais miôlo na bola!

As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:

--Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, creatura!

Era miguelista--e os partidos liberaes, as suas opiniões, os seus
jornaes enchiam-no d'uma cólera irracionavel:

--Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guardasol vermelho.

Nos ultimos annos tomára habitos sedentarios e vivia isolado--com uma
criada velha e um cão, o _Joli_. O seu unico amigo era o chantre
Valladares que governava então o bispado, porque o senhor bispo D.
Joaquim gemia, havia dois annos, o seu rheumatismo n'uma quinta do alto
Minho. O parocho tinha um grande respeito pelo chantre, homem sêcco, de
grande nariz, muito curto de vista, admirador d'Ovidio--que fallava
fazendo sempre boquinhas e com allusões mythologicas.

O chantre estimava-o. Chamava-lhe _Frei Hercules_.

--_Hercules_ pela força, explicava sorrindo, _Frei_ pela gula.

No seu enterro elle mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava
offerecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa d'ouro, disse aos outros
conegos, baixinho, ao deixar-lhe cahir sobre o caixão, segundo o ritual,
o primeiro torrão de terra:

--É a ultima pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado;
o conego Campos contou-a á noite ao chá em casa do deputado Novaes; foi
celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre,
e affirmou-se com respeito--_que sua excellencia tinha muita pilheria!_

Dias depois do enterro appareceu, errando pela Praça, o cão do parocho,
o _Joli_. A criada entrára com sezões no hospital; a casa fôra fechada;
o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portaes. Era um gôso pequeno,
extremamente gordo,--que tinha vagas semelhanças com o parocho. Com o
habito das batinas, avido d'um dono, apenas via um padre punha-se a
seguil-o, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz _Joli_;
enxotavam-no com as ponteiras dos guardasoes; o cão, repellido como um
pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã appareceu morto
ao pé da Misericordia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguem
tornou a vêr o cão na Praça, o parocho José Migueis foi definitivamente
esquecido.

Dois mezes depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro parocho.
Dizia-se que era um homem muito novo, sahido apenas do seminario. O seu
nome era Amaro Vieira. Attribuia-se a sua escolha a influencias
politicas, e o jornal de Leiria, _A Voz do Districto_, que estava na
opposição, fallou com amargura, citando o Golgotha, no _favoritismo da
côrte_ e na _reacção clerical_. Alguns padres tinham-se escandalisado
com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor
chantre.

--Não, não, lá que ha favor, ha; e que o homem tem padrinhos, tem, disse
o chantre. A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia
(Brito Correia era então ministro da justiça). Até me diz na carta que o
parocho é um bello rapagão. De sorte que--acrescentou sorrindo com
satisfação--depois de _Frei Hercules_ vamos talvez ter _Frei Apollo_.

Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o parocho novo: era o conego
Dias que fôra, nos primeiros annos do seminario, seu mestre de Moral. No
seu tempo, dizia o conego, o parocho era um rapaz franzino, acanhado,
cheio de espinhas carnaes...

--Parece que o estou a vêr com a batina muito coçada e cara de quem tem
lombrigas!... De resto bom rapaz. E espertote...

O conego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordára, o
ventre saliente enchia-lhe a batina; e a sua cabecinha grisalha, as
olheiras papudas, o beiço espesso faziam lembrar velhas anecdotas de
frades lascivos e glotões.

O tio Patricio, o _antigo_, negociante da Praça, muito liberal, e que
quando passava pelos padres rosnava como um velho cão de fila, dizia ás
vezes ao vêl-o atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão,
encostado ao guardachuva:

--Que maroto! Parece mesmo D. João VI!

O conego vivia só com uma irmã velha, a snr.^a D. Josepha Dias, e uma
criada, que todos conheciam tambem em Leiria, sempre na rua, entrouxada
n'um chale tingido de negro e arrastando pesadamente as suas chinelas de
ourelo. O conego Dias passava por ser rico; trazia ao pé de Leiria
propriedades arrendadas, dava jantares com perú, e tinha reputação o seu
vinho _duque_ de 1815. Mas o facto saliente da sua vida--o facto
commentado e murmurado--era a sua antiga amizade com a snr.^a Augusta
Caminha, a quem chamavam a S. Joanneira, por ser natural de S. João da
Foz. A S. Joanneira morava na rua da Misericordia e recebia hospedes.
Tinha uma filha, a Ameliasinha, rapariga de vinte e tres annos, bonita,
forte, muito desejada.

O conego Dias mostrára um grande contentamento com a nomeação de Amaro
Vieira. Na botica do Carlos, na Praça, na sacristia da Sé exaltou os
seus bons estudos no seminario, a sua prudencia de costumes, a sua
obediencia: gabava-lhe mesmo a voz: «_um timbre que é um regalo!_»

--Para um bocado de sentimento nos sermões da Semana Santa está a
calhar!

Predizia-lhe com emphase um destino feliz, uma conesia decerto, talvez a
gloria d'um bispado!

E um dia, emfim, mostrou com satisfação ao coadjutor da Sé, creatura
servil e calada, uma carta que recebera de Lisboa de Amaro Vieira.

Era uma tarde de agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova.
Andava então a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadiço de
pau sobre a ribeira do Liz tinha sido destruido, já se passava sobre a
Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra, fortes
e atarracados. Para diante as obras estavam suspendidas por questões de
expropriação; ainda se via o lodoso caminho da freguezia de Marrazes,
que a estrada nova devia desbastar e encorporar; camadas de cascalho
cobriam o chão; e os grossos cylindros de pedra, que acalcam e recamam
os macadams, enterravam-se na terra negra e humida das chuvas.

Em roda da Ponte a paizagem é larga e tranquilla. Para o lado d'onde o
rio vem são collinas baixas, de fórmas arredondadas, cobertas da rama
verde-negra dos pinheiros novos; em baixo, na espessura dos arvoredos,
estão os casaes que dão áquelles logares melancolicos uma feição mais
viva e humana--com as suas alegres paredes caiadas que luzem ao sol, com
os fumos das lareiras que pela tarde se azulam nos ares sempre claros e
lavados. Para o lado do mar, para onde o rio se arrasta nas terras
baixas entre dois renques de salgueiros pallidos, estende-se até os
primeiros areaes o campo de Leiria, largo, fecundo, com o aspecto de
aguas abundantes, cheio de luz. Da Ponte pouco se vê da cidade; apenas
uma esquina das cantarias pesadas e jesuiticas da Sé, um canto do muro
do cemiterio coberto de parietarias, e pontas agudas e negras dos
cyprestes; o resto está escondido pelo duro monte ouriçado de vegetações
rebeldes, onde destacam as ruinas do Castello, todas envolvidas á tarde
nos largos vôos circulares dos mochos, desmanteladas e com um grande ar
historico.

Ao pé da Ponte, uma rampa desce para a alameda que se estende um pouco á
beira do rio. É um logar recolhido, coberto de arvores antigas.
Chamam-lhe a Alameda Velha. Alli, caminhando devagar, fallando baixo, o
conego consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre
«uma idéa que ella lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!»
Amaro pedia-lhe com urgencia que lhe arranjasse uma casa de aluguel,
barata, bem situada, e se fosse possivel mobilada; fallava sobretudo de
quartos n'uma casa de hospedes respeitavel. «Bem vê o meu caro
Padre-Mestre, dizia Amaro, que era isto o que verdadeiramente me
convinha; eu não quero luxos, está claro: um quarto e uma saleta seria o
bastante. O que é necessario é que a casa seja respeitavel, socegada,
central; que a patrôa tenha bom genio e que não peça mundos e fundos;
deixo tudo isto á sua prudencia e capacidade, e creia que todos estes
favores não cahirão em terreno ingrato. Sobretudo que a patrôa seja
pessoa accommodada e de boa lingua.»

Ora a minha idéa, amigo Mendes, é esta: mettêl-o em casa da S.
Joanneira! resumiu o conego com um grande contentamento. É rica idéa,
hein?

--Soberba idéa! disse o coadjutor com a sua voz servil.

--Ella tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto que póde
servir de escriptorio. Tem boa mobilia, boas roupas...

--Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito.

O conego continuou:

--É um bello negocio para a S. Joanneira: dando os quartos, roupas,
comida, criada, póde muito bem pedir os seus seis tostões por dia. E
depois sempre tem o parocho de casa.

--Por causa da Ameliasinha é que eu não sei, considerou timidamente o
coadjutor. Sim, póde ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor
parocho é ainda novo... Vossa senhoria sabe o que são linguas do mundo.

O conego tinha parado:

--Ora historias! Então o padre Joaquim não vive debaixo das mesmas
telhas com a afilhada da mãi? E o conego Pedroso não vive com a cunhada,
e uma irmã da cunhada, que é uma rapariga de dezenove annos? Ora essa!

--Eu dizia... attenuou o coadjutor.

--Não, não vejo mal nenhum. A S. Joanneira aluga os seus quartos, é como
se fosse uma hospedaria. Então o secretario geral não esteve lá uns
poucos de mezes?

--Mas um ecclesiastico... insinuou o coadjutor.

--Mais garantias, snr. Mendes, mais garantias! exclamou o conego. E
parando, com uma attitude confidencial:--E depois a mim é que me
convinha, Mendes! A mim é que me convinha, meu amigo!

Houve um pequeno silencio. O coadjutor disse, baixando a voz:

--Sim, vossa senhoria faz muito bem á S. Joanneira...

--Faço o que posso, meu caro amigo, faço o que posso, disse o conego. E
com uma entonação terna, risonhamente paternal:--que ella é merecedora,
é merecedora. Boa até alli, meu amigo!--Parou, esgazeando os
olhos:--Olhe que dia em que eu não lhe appareça pela manhã ás nove em
ponto, está n'um phrenesi! «Oh creatura! digo-lhe eu, a senhora rala-se
sem razão.» Mas então, é aquillo! Pois quando eu tive a colica o anno
passado! Emmagreceu, snr. Mendes! E depois não ha lembrança que não
tenha! Agora, pela matança do porco, o melhor do animal é para o _padre
santo_, vossê sabe? é como ella me chama.

Fallava com os olhos luzidios, uma satisfação babosa:

--Ah, Mendes! acrescentou, é uma rica mulher!

--E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente.

--Lá isso! exclamou o conego parando outra vez. Lá isso! Bem conservada
até alli! Pois olhe que já não é criança! Mas nem um cabello branco, nem
um, nem um só! E então que côr de pelle!--E mais baixo, com um sorriso
guloso:--E isto aqui! ó Mendes, e isto aqui!--Indicava o lado do pescoço
debaixo do queixo, passando-lhe devagar por cima a sua mão papuda:--É
uma perfeição! E depois mulher de aceio, muitissimo aceio! E que
lembrançasinhas! Não ha dia que me não mande o seu presente! é o
covilhete de geleia, é o pratinho d'arroz dôce, é a bella murcella
d'Arouca! Hontem me mandou ella uma torta de maçã. Ora havia de vossê
vêr aquillo! A maçã parecia um creme! Até a mana Josepha disse: «Está
tão boa que parece que foi cozida em agua benta!»--E pondo a mão
espalmada sobre o peito:--São coisas que tocam a gente cá por dentro,
Mendes! Não, não é lá por dizer, mas não ha outra.

O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.

--Eu bem sei, disse o conego parando de novo e tirando lentamente as
palavras, eu bem sei que por ahi rosnam, rosnam... Pois é uma
grandissima calumnia! O que é, é que eu tenho muito apêgo áquella gente.
Já o tinha em tempo do marido. Vossê bem o sabe, Mendes.

O coadjutor teve um gesto affirmativo.

--A S. Joanneira é uma pessoa de bem! olhe que é uma pessoa de bem,
Mendes! exclamava o conego batendo no chão fortemente com a ponteira do
guardasol.

--As linguas do mundo são venenosas, senhor conego, disse o coadjutor
com uma voz chorosa. E depois d'um silencio acrescentou baixo:--Mas
aquillo a vossa senhoria deve-lhe sahir caro!

--Pois ahi está, meu amigo! Imagine vossê que desde que o secretario
geral se foi embora a pobre da mulher tem tido a casa vazia: eu é que
tenho dado para a panella, Mendes!

--Que ella tem uma fazendita, considerou o coadjutor.

--Uma nesga de terra, meu rico senhor, uma nesga de terra! E depois as
decimas, os jornaes! Por isso digo eu, o parocho é uma mina. Com os seis
tostões que elle der, com o que eu ajudar, com alguma coisa que ella
tire da hortaliça que vende da fazenda, já se governa. E para mim é um
allivio, Mendes.

--É um allivio, senhor conego! repetiu o coadjutor.

Ficaram calados. A tarde descahia muito limpida; o alto céo tinha uma
pallida côr azul; o ar estava immovel. N'aquelle tempo o rio ia muito
vazio; pedaços de areia reluziam em sêcco; e a agua baixa arrastava-se
com um marulho brando, toda enrugada do roçar dos seixos.

Duas vaccas, guardadas por uma rapariga, appareceram então pelo caminho
lodoso que do outro lado do rio, defronte da alameda, corre junto d'um
silvado; entraram no rio devagar, e estendendo o pescoço pellado da
canga, bebiam de leve, sem ruido; a espaços erguiam a cabeça bondosa,
olhavam em redor com a passiva tranquillidade dos sêres fartos--e fios
de agua, babados, luzidios á luz, pendiam-lhes dos cantos do focinho.
Com a inclinação do sol a agua perdia a sua claridade espelhada,
estendiam-se as sombras dos arcos da ponte. Do lado das colinas ia
subindo um crepusculo esfumado, e as nuvens côr de sanguinea e côr de
laranja que annunciam o calor faziam, sobre os lados do mar, uma
decoração muito rica.

--Bonita tarde! disse o coadjutor.

O conego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o bocejo:

--Vamo-nos chegando ás Ave-Marias, hein?

Quando, d'ahi a pouco, iam subindo as escadarias da Sé, o conego parou,
e voltando-se para o coadjutor:

--Pois está decidido, amigo Mendes, ferro o Amaro na casa da S.
Joanneira! É uma pechincha para todos.

--Uma grande pechincha! disse respeitosamente o coadjutor. Uma grande
pechincha!

E entraram na igreja, persignando-se.




II


Uma semana depois soube-se que o novo parocho devia chegar pela
diligencia de Chão de Maçãs, que traz o correio á tarde; e desde as seis
horas o conego Dias e o coadjutor passeavam no largo do Chafariz, á
espera de Amaro.

Era então nos fins de agosto. Na longa alameda macadamisada que vai
junto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se
vestidos claros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de
casebres pobres, velhas fiavam á porta; crianças sujas brincavam pelo
chão, mostrando os seus enormes ventres nús; e gallinhas em redor iam
picando vorazmente as immundicies esquecidas. Em redor do chafariz cheio
de ruido, onde os cantaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham,
soldados, com a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam,
meneando a chibata de junco; com o seu cantaro bojudo de barro
equilibrado á cabeça sobre a rodilha, raparigas iam-se aos pares,
meneando os quadris; e dois officiaes ociosos, com a farda desapertada
sobre o estomago, conversavam, esperando, _a vêr quem viria_. A
diligencia tardava. Quando o crepusculo desceu, uma lamparina luziu no
nicho do santo, por cima do Arco; e defronte iam-se alumiando uma a uma,
com uma luz soturna, as janellas do hospital.

Já tinha anoitecido quando a diligencia, com as lanternas accesas,
entrou na Ponte ao trote esgalgado dos seus magros cavallos brancos, e
veio parar ao pé do chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; o caixeiro
do tio Patricio partiu logo a correr para a Praça com o maço dos
_Diarios Populares_; o tio Baptista, o patrão, com o cachimbo negro ao
canto da boca, desatrellava, praguejando tranquillamente; e um homem que
vinha na almofada, ao pé do cocheiro, de chapéo alto e comprido capote
ecclesiastico, desceu cautelosamente, agarrando-se ás guardas de ferro
dos assentos, bateu com os pés no chão para os desentorpecer, e olhou em
redor.

--Oh, Amaro! gritou o conego que se tinha aproximado, oh, ladrão!

--Oh, Padre-Mestre! disse o outro com alegria. E abraçaram-se, emquanto
o coadjutor, todo curvado, tinha o barrete na mão.

D'ahi a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar a Praça,
entre a corpulencia vagarosa do conego Dias e a figura esguia do
coadjutor, um homem um pouco curvado, com um capote de padre. Soube-se
que era o parocho novo; e disse-se logo na botica que era _uma boa
figura de homem_. O João Bicha levava adiante um bahú e um sacco de
chita; e como áquella hora já estava bebedo, ia resmungando o _Bemdito_.

Eram quasi nove horas, a noite cerrára. Em redor da Praça as casas
estavam já adormecidas: das lojas debaixo da arcada sahia a luz triste
dos candieiros de petroleo, entreviam-se dentro figuras somnolentas,
caturrando em cavaqueira, ao balcão. As ruas que vinham dar á Praça,
tortuosas, tenebrosas, com um lampeão mortiço, pareciam deshabitadas. E
no silencio o sino da Sé dava vagarosamente o toque das almas.

O conego Dias ia explicando pachorrentamente ao parocho «o que lhe
arranjára». Não lhe tinha procurado casa: seria necessario comprar
mobilia, buscar criada, despezas innumeraveis! Parecera-lhe melhor
tomar-lhe quartos n'uma casa de hospedes respeitavel, de muito
conchego--e n'essas condições (e alli estava o amigo coadjutor que o
podia dizer), não havia como a da S. Joanneira. Era bem arejada, muito
aceio, a cozinha não deitava cheiro; tinha lá estado o secretario geral
e o inspector dos estudos; e a S. Joanneira (o Mendes amigo conhecia-a
bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas, muito economica e
cheia de condescendencias...

--Vossê está alli como em sua casa! Tem o seu _cozido_, prato de meio,
café...

--Vamos a saber, Padre-Mestre: preço? disse o parocho.

--Seis tostões. Que diabo, é de graça! Tem um quarto, tem uma saleta...

--Uma rica saleta, commentou o coadjutor respeitosamente.

--E é longe da Sé? perguntou Amaro.

--Dois passos. Póde-se ir dizer missa de chinelos. Na casa ha uma
rapariga, continuou com a sua voz pausada o conego Dias. É a filha da S.
Joanneira. Rapariga de vinte e dois annos. Bonita. Sua pontinha de
genio, mas bom fundo... Aqui tem vôsse a sua rua.

Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da
velha Misericordia, com um lampeão lugubre ao fundo.

--E aqui tem vossê o seu palacio! disse o conego, batendo na aldraba de
uma porta esguia.

No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam
saliencia, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos
cantos em caixas de madeira; as janellas de cima, pequeninas, eram de
peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata
amolgada.

A S. Joanneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e
sardenta, alumiava com um candieiro de petroleo; e a figura da S.
Joanneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda,
alta, muito branca, d'aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham
já em redor a pelle engelhada; os cabellos arripiados, com um enfeite
escarlate, eram já raros aos cantos da testa e no começo da risca; mas
percebiam-se uns braços rechonchudos, um collo copioso e roupas aceadas.

--Aqui tem a senhora o seu hospede, disse o conego subindo.

--Muita honra em receber o senhor parocho! muita honra! Ha de vir muito
cansado! por força! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrausinho.

Levou-o para uma sala pequena pintada de amarello, com um vasto canapé
de palhinha encostado à parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de
baeta verde.

--É a sua sala, senhor parocho, disse a S. Joanneira. Para receber, para
espairecer... Aqui--acrescentou abrindo uma porta--é o seu quarto de
dormir. Tem a sua commoda, o seu guarda-roupa...--Abriu os gavetões,
gabou a cama batendo a elasticidade dos colxões--Uma campainha para
chamar sempre que queira... As chavinhas da commoda estão aqui... Se
gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor só, mas querendo...

--Está bem, está tudo muito bem, minha senhora, disse o parocho com a
sua voz baixa e suave.

--É pedir! O que ha, da melhor vontade...

--Oh creatura de Deus! interrompeu o conego jovialmente, o que elle quer
agora é cear!

--Tambem tem a ceiasinha prompta. Desde as seis que está o caldo a
apurar...

E sahiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:

--Vá, _Ruça_, mexe-te, mexe-te!...

O conego sentou-se pesadamente no canapé, e sorvendo a sua pitada:

--É contentar, meu rico. Foi o que se pôde arranjar.

--Eu estou bem em toda a parte, Padre-Mestre, disse o parocho, calçando
os seus chinelos de ourelo. Olha o seminario!... E em Feirão! Cahia-me a
chuva na cama.

Para o lado da Praça, então, sentiu-se o toque de cornetas.

--Que é aquillo? perguntou Amaro, indo á janella.

--Ás nove e meia, o toque de recolher.

Amaro abriu a vidraça. Ao fim da rua um candieiro esmorecia. A noite
estava muito negra. E havia sobre a cidade um silencio concavo, de
abobada.

Depois das cornetas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado
do quartel; por baixo da janella um soldado, que se demorára n'alguma
viella do castello, passou correndo; e das paredes da Misericordia sahia
constantemente o agudo piar das corujas.

--É triste isto, disse Amaro.

Mas a S. Joanneira gritou de cima:

--Póde subir, senhor conego! Está o caldo na mesa!

--Ora vá, vá, que vossê deve estar a cahir de fome, Amaro!--disse o
conego, erguendo-se muito pesado.

E detendo um momento o parocho pela manga do casaco:

--Vai vossê vêr o que é um caldo de gallinha feito cá pela senhora! Da
gente se babar!...


No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa
alegrava, com a sua toalha muito branca, a louça, os copos reluzindo á
luz forte d'um candieiro d'_abat-jour_ verde. Da terrina subia o vapor
cheiroso do caldo, e na larga travessa a gallinha gorda, afogada n'um
arroz humido e branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma
apparencia succulenta de prato morgado. No armario envidraçado, um pouco
na sombra, viam-se côres claras de porcelana; a um canto, ao pé da
janella, estava o piano, coberto com uma colcha de setim desbotado. Na
cozinha frigia-se; e sentindo o cheiro fresco que vinha d'um taboleiro
de roupa lavada, o parocho esfregou as mãos, regalado.

--Para aqui, senhor parocho, para aqui, disse a S. Joanneira. D'ahi
póde-lhe vir frio.--Foi fechar as portadas das janellas; chegou-lhe um
caixão de areia para as pontas dos cigarros.--E o senhor conego toma um
copinho de geleia, sim?

--Vá lá, para fazer companhia, disse jovialmente o conego, sentando-se e
desdobrando o guardanapo.

A S. Joanneira, no emtanto, mexendo-se pela sala, ia admirando o parocho
que, com a cabeça sobre o prato, comia em silencio o seu caldo, soprando
a colhér. Parecia bem feito: tinha um cabello muito preto, levemente
annelado. O rosto era oval, de pelle trigueira e fina, os olhos negros e
grandes, com pestanas compridas.

O conego, que não o via desde o seminario, achava-o mais forte, mais
viril.

--Vossê era enfezadito...

--Foi o ar da serra, dizia o parocho, fez-me bem.--Contou então a sua
triste existencia em Feirão, na alta Beira, durante a aspereza do
inverno, só, com pastores. O conego deitava-lhe o vinho de alto,
fazendo-o espumar.

--Pois é beber-lhe, homem! é beber-lhe! D'esta gota não pilhava vossê no
seminario.

Fallaram do seminario.

--Que será feito do Rabicho, o despenseiro? disse o conego.

--E do Carôcho, que roubava as batatas?

Riram; e bebendo, na alegria das reminiscencias, recordavam as historias
de então, o catarrho do reitor, e o mestre de canto-chão que deixára um
dia cahir do bolso as poesias obscenas de Bocage.

--Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.

A S. Joanneira então poz na mesa um prato covo com maçãs assadas.

--Viva! Não, lá n'isso tambem eu entro! exclamou logo o conego. A bella
maçã assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona
de casa, cá a nossa S. Joanneira! Grande dona de casa!

Ella ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados.
Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; poz no prato do conego, com
requintes devotos, uma maçã desfeita polvilhada de assucar; e
batendo-lhe nas costas com a mão papuda e molle:

--Isto é um santo, senhor parocho, isto é um santo! Ai, devo-lhe muitos
favores!

--Deixe fallar, deixe fallar..., dizia o conego.--Espalhava-se-lhe no
rosto um contentamento baboso.--Boa gota! acrescentou, saboreando o seu
calix de _porto_. Boa gota!

--Olhe que ainda é dos annos da Amelia, senhor conego.

--E onde está ella, a pequena?

--Foi ao _Morenal_ com a D. Maria. Aquillo naturalmente foram para casa
das Gansosos passar a noite.

--Cá esta senhora é proprietaria, explicou o conego, fallando do
_Morenal_. É um condado!--Ria com bonhomia, e os seus olhos luzidios
percorriam ternamente a corpulencia da S. Joanneira.

--Ah, senhor parocho, deixe fallar, é uma nesga de terra..., disse ella.

Mas vendo a criada encostada á parede, sacudida com afflicções de tosse:

--Ó mulher, vai tossir lá p'ra dentro! credo!

A moça sahiu, pondo o avental sobre a boca.

--Parece doente, coitada, observou o parocho.

Muito achacada, muito!... A _pobre de Christo_ era sua afilhada, orphã,
e estava quasi tisica. Tinha-a tomado por piedade...

--E tambem porque a criada que cá tinha foi para o hospital, a
desavergonhada... Metteu-se ahi com um soldado!...

O padre Amaro baixou devagar os olhos--e trincando migalhas perguntou se
havia muitas doenças n'aquelle verão.

--Cholerinas, das fructas verdes, rosnou o conego. Mettem-se pelas
melancias, depois tarraçadas de agua... E suas febritas...

Fallaram então das sezões do campo, dos ares de Leiria.

--Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Christo, tenho saude, tenho!

--Ai, Nosso Senhor lh'a conserve, que nem sabe o bem que é! exclamou a
S. Joanneira.--Contou immediatamente a grande desgraça que tinha em
casa, uma irmã meia idiota entrevada havia dez annos! Ia fazer sessenta
annos... No inverno viera-lhe um catarrho, e desde então, coitadinha,
definhava, definhava...

--Ha bocado, ao fim da tarde, teve ella um ataque de tosse! Pensei que
se ia embora. Agora descansou mais...

Continuou a fallar «d'aquella tristeza», depois da sua Ameliasinha, das
Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo--sentada, com o gato no
collo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de pão. O
conego, pesado, cerrava as palpebras; tudo na sala parecia ir
gradualmente adormecendo; a luz do candieiro esmorecia.

--Pois senhores, disse por fim o conego mexendo-se, isto são horas!

O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as _graças_.

--O senhor parocho quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S.
Joanneira.

--Não, minha senhora. Não uso. Boas noites!

E desceu devagar, palitando os dentes.

A S. Joanneira alumiava no patamar, com o candieiro. Mas nos primeiros
degraus o parocho parou, e voltando-se, affectuosamente:

--É verdade, minha senhora, ámanhã é sexta-feira, é jejum...

--Não, não, acudiu o conego que se embrulhava na capa de lustrina,
bocejando, vossê ámanhã janta commigo. Eu venho por cá, vamos ao
chantre, á Sé, e por ahi... E olhe que tenho lulas. É um milagre, que
isto aqui nunca ha peixe.

A S. Joanneira tranquillisou logo o parocho:

--Ai, é escusado lembrar os jejuns, senhor parocho. Tenho o maior
escrupulo!

--Eu dizia, explicou o parocho, porque infelizmente hoje em dia ninguem
cumpre...

--Tem vossa senhoria muita razão, atalhou ella. Mas eu! credo!... A
salvação da minha alma antes de tudo!

A campainha em baixo, então, retiniu fortemente.

--Ha de ser a pequena, disse a S. Joanneira. Abre, _Ruça_!

A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.

-És tu, Amelia?

Uma voz disse _adeusinho! adeusinho!_ E appareceu, subindo quasi a
correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bella rapariga,
forte, alta, bem feita, com uma manta branca pela cabeça e na mão um
ramo de alecrim.

--Sobe, filha. Aqui está o senhor parocho. Chegou agora á noitinha,
sobe!

Amelia tinha parado um pouco embaraçada, olhando para os degraus de
cima, onde o parocho ficára, encostado ao corrimão. Respirava fortemente
de ter corrido; vinha córada; os seus olhos vivos e negros luziam; e
sahia d'ella uma sensação de frescura e de prados atravessados.

O parocho desceu, cingido ao corrimão, para a deixar passar, murmurando
_boas noites!_ com a cabeça baixa. O conego, que descia atraz,
pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Amelia:

--Então isto são horas, sua bréjeira!

Ella teve um risinho, encolheu-se.

--Ora vá-se encommendar a Deus, vá! disse batendo-lhe no rosto
devagarinho com a sua mão grossa e cabelluda.

Ella subiu a correr, emquanto o conego, depois d'ir buscar o guardasol á
saleta, sahia, dizendo á criada, que erguia o candieiro sobre a escada:

--Está bom, eu vejo, não apanhes frio, rapariga. Então ás oito, Amaro!
Esteja a pé! Vai-te, rapariga, adeus! Reza á Senhora da Piedade que te
seque essa catarrheira.

O parocho fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva,
tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a
gravura antiga d'um Christo crucificado. Amaro abriu o seu Breviario,
ajoelhou aos pés da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe
grandes bocejos; e então por cima, sobre o tecto, através das orações
rituaes que machinalmente ia lendo, começou a sentir o _tic-tic_ das
botinas de Amelia e o ruido das saias engommadas que ella sacudia ao
despir-se.




III


Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marqueza d'Alegros.
Seu pai era criado do marquez; a mãi era criada de quarto, quasi uma
amiga da senhora marqueza. Amaro conservava ainda um livro, o _Menino
das selvas_, com barbaras imagens coloridas, que tinha escripto na
primeira pagina branca: _Á minha muito estimada criada Joanna Vieira e
verdadeira amiga que sempre tem sido,--Marqueza d'Alegros_. Possuia
tambem um daguerreotypo de sua mãi: era uma mulher forte, de
sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma côr
ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a mãi, que fôra
sempre tão sã, succumbiu, d'ahi a um anno, a uma tisica de larynge.
Amaro completára então seis annos. Tinha uma irmã mais velha que desde
pequena vivia com a avó em Coimbra, e um tio, mercieiro abastado do
bairro da Estrella. Mas a senhora marqueza ganhára amizade a Amaro;
conservou-o em sua casa, por uma adopção tacita; e começou, com grandes
escrupulos, a vigiar a sua educação.

A marqueza d'Alegros ficára viuva aos quarenta e tres annos e passava a
maior parte do anno retirada na sua quinta de Carcavellos. Era uma
pessoa passiva, de bondade indolente, com capella em casa, um respeito
devoto pelos padres de S. Luiz, sempre preoccupada dos interesses da
Igreja. As suas duas filhas, educadas no receio do Céo e nas
preoccupações da Moda, eram beatas e faziam o _chic_ fallando com igual
fervor da humildade christã e do ultimo figurino de Bruxellas. Um
jornalista de então dissera d'ellas:--Pensam todos os dias na _toilette_
com que hão de entrar no paraiso.

No isolamento de Carcavellos, n'aquella quinta de alamedas
aristocraticas onde os pavões gritavam, as duas meninas enfastiavam-se.
A Religião, a Caridade eram então occupações avidamente aproveitadas:
cosiam vestidos para os pobres da freguezia, bordavam frontaes para os
altares da igreja. De maio a outubro estavam inteiramente absorvidas
pelo trabalho de _salvar a sua alma_; liam os livros beatos e dôces;
como não tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e
cochichavam sobre a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de verão.

A senhora marqueza resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida
ecclesiastica. A sua figura amarellada e magrita pedia aquelle destino
recolhido: era já affeiçoado ás coisas de capella, e o seu encanto era
estar aninhado ao pé de mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo
fallar de santas. A senhora marqueza não o quiz mandar ao collegio
porque receava a impiedade dos tempos e as camaradagens immoraes. O
capellão da casa ensinava-lhe o latim, e a filha mais velha, a snr.^a D.
Luiza, que tinha um nariz de cavallete e lia Chateaubriand, dava-lhe
lições de francez e de geographia.

Amaro era, como diziam os criados, _um mosquinha morta_. Nunca brincava,
nunca pulava ao sol. Se á tarde acompanhava a senhora marqueza ás
alamedas da quinta quando ella descia pelo braço do padre Liset ou do
respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, môno, muito encolhido,
torcendo com as mãos humidas o forro das algibeiras--vagamente assustado
das espessuras d'arvoredos e do vigor das relvas altas.

Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao pé d'uma ama velha. As
criadas de resto feminisavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio
d'ellas, beijocavam-no, faziam-lhe cocegas, e elle rolava por entre as
saias, em contacto com os corpos, com gritinhos de contentamento. Ás
vezes, quando a senhora marqueza sahia, vestiam-no de mulher, entre
grandes risadas: elle abandonava-se, meio nú, com os seus modos
languidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As
criadas, além d'isso, utilisavam-no nas suas intrigas umas com as
outras: era Amaro o que _fazia as queixas_. Tornou-se enredador, muito
mentiroso.

Aos onze annos, ajudava á missa, e aos sabbados limpava a capella. Era o
seu melhor dia; fechava-se por dentro, collocava os santos em plena luz
em cima d'uma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfações
gulosas; e toda a manhã, muito atarefado, cantarolando o Santissimo, ia
tirando a traça dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e cré as
auréolas dos Martyres.

No emtanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, miudo e amarellado; nunca
dava uma boa risada, trazia sempre as mãos dos bolsos. Estava
constantemente mettido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas;
bolia nas saias sujas, cheirava os algodões postiços. Era extremamente
preguiçoso, e custava de manhã arrancal-o a uma somnolencia doentia em
que ficava amollecido, todo embrulhado nos cobertores e abraçado ao
travesseiro. Já corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca.


N'um domingo gordo, uma manhã, depois da missa, ao chegar-se ao terraço,
a senhora marqueza de repente cahiu morta com uma apoplexia. Deixava no
seu testamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joanna,
entrasse aos quinze annos no seminario e se ordenasse. O padre Liset
ficava encarregado de realisar esta disposição piedosa. Amaro tinha
então treze annos.

As filhas da senhora marqueza deixaram logo Carcavellos e foram para
Lisboa, para casa da snr.^a D. Barbara de Noronha, sua tia paterna.
Amaro foi mandado para casa do tio, para a Estrella. O mercieiro era um
homem obeso, casado com a filha d'um pobre empregado publico, que o
aceitára para sahir da casa do pai, onde a mesa era escassa, ella devia
fazer as camas e nunca ia ao theatro. Mas odiava o marido, as suas mãos
cabelludas, a loja, o bairro e o seu apellido de snr.^a Gonçalves. O
marido esse adorava-a como a delicia da sua vida, o seu luxo;
carregava-a de joias e chamava-lhe _a sua duqueza_.

Amaro não encontrou alli o elemento feminino e carinhoso em que estivera
tepidamente envolvido em Carcavellos. A tia quasi não reparava n'elle;
passava os seus dias lendo romances, as analyses dos theatros nos
jornaes, vestida de sêda, coberta de pó d'arroz, o cabello em cachos,
esperando a hora em que passava debaixo das janellas, puxando os punhos,
o Cardoso, galan da Trindade. O mercieiro apropriou-se então de Amaro
como d'uma utilidade imprevista, mandou-o para o balcão. Fazia-o erguer
logo ás cinco horas da manhã; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano
azul, molhando á pressa o pão na chavena de café, ao canto da mesa da
cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o _cebola_ e o tio
chamava-lhe o _burro_. Pesava-lhes até o magro pedaço de vacca que elle
comia ao jantar. Amaro emmagrecia e todas as noites chorava.

Sabia já que aos quinze annos devia entrar no seminario. O tio todos os
dias lh'o lembrava:

--Não penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro! Em tendo
quinze annos é para o seminario. Não tenho obrigação de carregar
comtigo! Besta na argola, não está nos meus principios!

E o rapaz desejava o seminario, como um libertamento.

Nunca ninguem consultára as suas tendencias ou a sua vocação.
Impunham-lhe uma sobrepelliz; a sua natureza passiva, facilmente
dominavel, aceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto não lhe
desagradava _ser padre_. Desde que sahira das rezas perpetuas de
Carcavellos conservára o seu medo do inferno, mas perdera o fervor dos
santos; lembravam-lhe porém os padres que vira em casa da senhora
marqueza, pessoas brancas e bem tratadas que comiam ao lado das fidalgas
e tomavam rapé em caixas d'ouro; e convinha-lhe aquella profissão em que
se falla baixo com as mulheres,--vivendo entre ellas, cochichando,
sentindo-lhes o calor penetrante,--e se recebem presentes em bandejas de
prata. Recordava o padre Liset com um annel de rubi no dedo minimo;
monsenhor Sávedra com os seus bellos oculos d'ouro, bebendo aos goles o
seu copo de _madeira_. As filhas da senhora marqueza bordavam-lhes
chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fôra padre na Bahia, viajára,
estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mãos ungidas
que cheiravam a agua de colonia apoiadas ao castão d'ouro da bengala,
todo rodeado de senhoras em extase e cheias d'um riso beato, cantava,
para as entreter, com a sua bella voz:


Mulatinha da Bahia,
Nascida no Capujá...


Um anno antes de entrar para o seminario o tio fel-o ir a um mestre para
se affirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balcão. Pela
primeira vez na sua existencia Amaro possuiu liberdade. Ia só á escóla,
passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exercicio de infanteria, espreitou
ás portas dos cafés, leu os cartazes dos theatros. Sobretudo começára a
reparar muito nas mulheres--e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes
melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava da
escóla, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao
jardim da Estrella. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma
janellinha n'um vão sobre os telhados. Encostava-se alli olhando, e via
parte da cidade baixa que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gaz:
parecia-lhe perceber, vindo de lá, um rumor indefinido: era a vida que
não conhecia e que julgava maravilhosa, com cafés abrazados de luz e
mulheres que arrastam ruge-ruges de sêdas pelos perystillos dos
theatros; perdia-se em imaginações vagas, e de repente appareciam-lhe no
fundo negro da noite fórmas femininas, por fragmentos, uma perna com
botinas de duraque e a meia muito branca, ou um braço roliço arregaçado
até ao hombro... Mas em baixo, na cozinha, a criada começava a lavar a
louça, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e vinham-lhe
então desejos de descer, ir roçar-se por ella, ou estar a um canto a
vêl-a escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas
viellas, de saias engommadas e ruidosas, passeando em cabello, com
botinas cambadas: e, da profundidade do seu sêr, subia-lhe uma preguiça,
como que a vontade de abraçar alguem, de não se sentir só. Julgava-se
infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:

--Então tu não estudas, mariola?

E d'ahi a pouco, sobre o _Tito-Livio_, cabeceando de somno, sentindo-se
desgraçado, roçando os joelhos um contra o outro, torturava o
diccionario.

Por esse tempo começava a sentir um certo afastamento pela vida de
padre, _porque não poderia casar_. Já as convivencias da escóla tinham
introduzido na sua natureza effeminada curiosidades, corrupções. Ás
escondidas fumava cigarros: emmagrecia e andava mais amarello.


Entrou no seminario. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um
pouco humidos, as lampadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as
batinas negras, o silencio regulamentado, o toque das sinetas--deram-lhe
uma tristeza lugubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto
bonito agradou. Começaram a tratal-o por _tu_, a admittil-o, durante as
horas de recreio ou nos passeios do domingo, ás conversas em que se
contavam anecdotas dos mestres, se calumniava o reitor, e perpetuamente
se lamentavam as melancolias da clausura: porque quasi todos fallavam
com saudade das existencias livres que tinham deixado: os da aldeia não
podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de
cantigas e de abraços, as filas da boiada que recolhe, emquanto um vapor
se exhala dos prados; os que vinham das pequenas villas lamentavam as
ruas tortuosas e tranquillas d'onde se namoram as visinhas, os alegres
dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim.
Não lhes bastava o pateo do recreio lageado, com as suas arvores
definhadas, os altos muros somnolentos, o monotono jogo da bola:
abafavam na estreiteza dos corredores, na sala de Santo Ignacio, onde se
faziam as meditações da manhã e se estudavam á noite as lições; e
invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes--o almocreve
que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia
cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos errantes,
apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro.

Da janella d'um corredor via-se uma volta de estrada; á tardinha uma
diligencia costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do
chicote, ao trote das tres eguas, carregada de bagagens; passageiros
alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos
charutos; quantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com
elles para as alegres villas e para as cidades, pela frescura das
madrugadas ou sob a claridade das estrellas!

E no refeitorio, diante do escasso caldo de hortaliça, quando o regente
de voz grossa começava a lêr monotonamente as cartas d'algum missionario
da China ou as Pastoraes do senhor Bispo, quantas saudades dos jantares
de familia! As boas postas de peixe! o tempo da matança! os rojões
quentes que chiam no prato! os sarrabulhos cheirosos!

Amaro não deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto
enfastiado da tia coberto de pó d'arroz; mas insensivelmente poz-se
tambem a ter saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do
gaz e das voltas da escóla com os livros n'uma correia, quando parava
encostado á vitrina das lojas a contemplar a nudez das bonecas!

Lentamente, porém, com a sua natureza incaracteristica, foi entrando
como uma ovelha indolente na regra do seminario. Decorava com
regularidade os seus compendios; tinha uma exactidão prudente nos
serviços ecclesiasticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo
diante dos lentes--chegou a ter boas notas.

Nunca pudera comprehender os que pareciam gozar o seminario com
beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabeça baixa, textos
da _Imitação_ ou de Santo Ignacio; na capella, com os olhos em alvo,
empallideciam d'extase; mesmo no recréio, ou nos passeios, iam lendo
algum volumesinho de _Louvores a Maria_; e cumpriam com delicia as
regras mais miudas--até subir só um degrau de cada vez, como recommenda
S. Boaventura. A esses o seminario dava um ante-gosto do céo: a elle só
lhe offerecia as humilhações d'uma prisão, com os tedios d'uma escóla.

Não comprehendia tambem os ambiciosos: os que queriam ser caudatarios
d'um bispo, e nas altas salas dos paços episcopaes erguer os reposteiros
de velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de
ordenados, servir uma igreja aristocratica, e, diante das devotas ricas
que se accumulam no _frou-frou_ das sêdas sobre o tapete do altar-mór,
cantar com voz sonora. Outros sonhavam até destinos fóra da Igreja:
ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lageadas o _tlim-tlim_
d'um sabre; ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um
chapéo desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas
largas eiras cheias de medas, apear á porta das adegas. E, a não ser
alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdocio ou aos destinos
seculares, queriam deixar a estreiteza do seminario para comer bem,
ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.

Amaro não desejava nada:

--Eu nem sei..., dizia elle melancolicamente.

No entretanto, escutando por sympathia aquelles para quem o seminario
era o «tempo das galés», sahia muito perturbado d'aquellas conversas
cheias de impaciente ambição da vida livre. Ás vezes fallavam de fugir.
Faziam planos, calculando a altura das janellas, as peripecias da noite
negra pelos negros caminhos: anteviam balcões de tabernas onde se bebe,
salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo nervoso:
sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir e, no fundo das
suas imaginações e dos seus sonhos, ardia, como uma braza silenciosa, o
desejo da Mulher.

Na sua cella havia uma imagem da Virgem coroada de estrellas, pousada
sobre a esphera, com o olhar errante pela luz immortal, calcando aos pés
a serpente. Amaro voltava-se para ella como para um refugio, rezava-lhe
a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a lithographia, esquecia a
santidade da Virgem, via apenas diante de si uma linda moça loura;
amava-a; suspirava; despindo-se olhava-a de revez lubricamente; e mesmo
a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da tunica azul da
imagem e suppôr fórmas, redondezas, uma carne branca... Julgava então
vêr os olhos do Tentador luzir na escuridão do quarto; aspergia a cama
d'agua benta; mas não se atrevia a revelar estes delirios, no
confessionario, ao domingo.

Quantas vezes ouvira, nas prédicas, o mestre de Moral fallar, com a sua
voz roufenha, do Peccado, comparal-o á serpente e, com palavras
unctuosas e gestos arqueados, deixando cahir vagarosamente a pompa
mellíflua dos seus periodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando
a Virgem, calcassem aos pés a _serpente ominosa_! E depois era o mestre
de Theologia mystica que fallava, sorvendo o seu rapé, no dever de
_vencer a Natureza_! E citando S. João de Damasco e S. Chrysologo, S.
Cypriano e S. Jeronymo, explicava os anathemas dos santos contra a
Mulher, a quem chamava, segundo as expressões da Igreja, Serpente,
Dardo, Filha da mentira, Porta do inferno, Cabeça do crime, Escorpião...

--E como disse o nosso padre S. Jeronymo,--e assoava-se
estrondosamente--Caminho de iniquidades, _iniquitas via_!

Até nos compendios encontrava a preoccupação da Mulher! Que sêr era
esse, pois, que através de toda a theologia ora era collocada sobre o
altar como a Rainha da Graça, ora amaldiçoada com apostrophes barbaras?
Que poder era o seu, que a legião dos santos ora se arremessa ao seu
encontro, n'uma paixão extatica, dando-lhe por acclamação o profundo
reino dos céos,--ora vai fugindo diante d'ella como do Universal
Inimigo, com soluços de terror e gritos d'odio, e escondendo-se, para a
não vêr, nas thebaidas e nos claustros, vai alli morrendo do mal de a
ter amado? Sentia, sem as definir, estas perturbações! ellas renasciam,
desmoralisavam-no perpetuamente: e já antes de fazer os seus votos
desfallecia no desejo de os quebrar.

E em redor d'elle sentia iguaes rebelliões da natureza: os estudos, os
jejuns, as penitencias podiam domar o corpo, dar-lhe habitos machinaes,
mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como n'um ninho
serpentes imperturbadas. Os que mais soffriam eram os sanguineos, tão
doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus nos
punhos das camisas. Assim, quando estavam sós, o temperamento irrompia:
luctavam, faziam forças, provocavam desordens. Nos lymphaticos a
natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os silencios molles:
desforravam-se então no amor dos pequenos vícios: jogar com um velho
baralho, lêr um romance, obter de intrigas demoradas um maço de
cigarros--quantos encantos do peccado!

Amaro por fim quasi invejava os estudiosos; ao menos esses estavam
contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no silencio da
alta livraria, eram respeitados, usavam oculos, tomavam rapé. Elle mesmo
tinha ás vezes ambições repentinas da sciencia; mas diante dos vastos
_in-folios_ vinha-lhe um tedio insuperavel. Era no emtanto devoto:
rezava, tinha fé illimitada em certos santos, um terror angustioso de
Deus. Mas odiava a clausura do seminario! A capella, os chorões do
pateo, as comidas monotonas do longo refeitorio lageado, os cheiros dos
corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria
bom, puro, crente, se estivesse na liberdade d'uma rua ou na paz d'um
quintal, fóra d'aquellas negras paredes. Emmagrecia, tinha suores
eticos: e mesmo no ultimo anno, depois do serviço pesado da Semana
Santa, como começavam os calores, entrou na enfermaria com uma febre
nervosa.


Ordenou-se emfim pelas temporas de S. Matheus; e pouco tempo depois
recebeu, ainda no seminario, esta carta do snr. padre Liset:

«Meu querido filho e novo collega.--Agora que está ordenado, entendo em
minha consciencia que devo dar-lhe conta do estado dos seus negocios,
pois quero cumprir até ao fim o encargo com que carregou os meus hombros
debeis a nossa chorada marqueza, attribuindo-me a honra de administrar o
legado que lhe deixou. Porque, ainda que os bens mundanos pouco deviam
importar a uma alma votada ao sacerdocio, são sempre as boas contas que
fazem os bons amigos. Saberá, pois, meu querido filho, que o legado da
querida marqueza--para quem deve erguer em sua alma uma gratidão
eterna--está inteiramente exhausto. Aproveito esta occasião para lhe
dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o
estabelecimento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de
qualificar: cahiu sob o imperio das paixões, e tendo-se ligado
illegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza,
e hoje estabeleceu uma casa de hospedes na rua dos Calafates n.^o 53. Se
toco n'estas impurezas, tão improprias de que um tenro levita como o meu
querido filho tenha d'ellas conhecimento, é porque lhe quero dar cabal
relação da sua respeitavel familia. Sua irmã, como decerto sabe, casou
rica em Coimbra, e ainda que no casamento não é o ouro que devemos
apreciar, é todavia importante, para futuras circumstancias, que o meu
querido filho esteja de posse d'este facto. Do que me escreveu o nosso
querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguezia de Feirão, na
Gralheira, vou fallar com algumas pessoas importantes que têm a extrema
bondade de attender um pobre padre que só pede a Deus misericordia.
Espero, todavia, conseguir. Persevere, meu querido filho, nos caminhos
da virtude, de que sei que a sua boa alma está repleta, e creia que se
encontra a felicidade n'este nosso santo ministerio quando sabemos
comprehender quantos são os balsamos que derrama no peito e quantos os
refrigerios que dá--o serviço de Deus! Adeus, meu querido filho e novo
collega. Creia que sempre o meu pensamento estará com o pupillo da nossa
chorada marqueza, que decerto do céo, onde a elevaram as suas virtudes,
supplica á Virgem, que ella tanto serviu e amou, a felicidade do seu
caro pupillo.» _Liset_.

«P. S.--O appellido do marido de sua irmã é Trigoso.» _Liset_.

Dois mezes depois Amaro foi nomeado parocho de Feirão, na Gralheira,
serra da Beira-Alta. Esteve alli desde outubro até ao fim das neves.

Feirão é uma parochia pobre de pastores e n'aquella época quasi
deshabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tedio á
lareira, ouvindo fóra o inverno bramir na serra. Pela primavera vagaram
nos districtos de Santarem e de Leiria parochias populosas, com boas
congruas. Amaro escreveu logo á irmã contando a sua pobreza em Feirão;
ella mandou-lhe, com recommendações de economia, doze moedas para ir a
Lisboa requerer. Amaro partiu immediatamente. Os ares lavados e vivos da
serra tinham-lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito,
sympathico, com uma boa côr na pelle trigueira.

Logo que chegou a Lisboa foi á rua dos Calafates n.^o 53, a casa da tia:
achou-a velha, com laços vermelhos n'uma cuia enorme, toda coberta de pó
d'arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria piedosa que abriu
os seus magros braços a Amaro.

-Como estás bonito! Ora não ha! Quem te viu! Ih, Jesus! que mudança!

Admirava-lhe a batina, a corôa: e contando-lhe as suas desgraças, com
exclamações sobre a salvação da sua alma e sobre a carestia dos generos,
foi-o levando para o terceiro andar, a um quarto que dava para o saguão.

--Ficas aqui como um abbade, disse-lhe ella. E baratinho!... Ai! ter-te
de graça queria eu, mas... Tenho sido muito infeliz, Joãosinho!... Ai!
desculpa, Amaro! Estou sempre com o Joãosinho na cabeça...

Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Luiz. Tinha ido
para França. Lembrou-se então da filha mais nova da senhora marqueza
d'Alegros, a snr.^a D. Luiza, que estava casada com o conde de Ribamar,
conselheiro d'Estado, com influencia, regenerador fiel desde cincoenta e
um e duas vezes ministro do reino.

E, por conselho da tia, Amaro, logo que metteu o seu requerimento, foi
uma manhã a casa da snr.^a condessa de Ribamar, a Buenos-Ayres. Á porta
um _coupé_ esperava.

--A senhora condessa vai sahir, disse um criado de gravata branca e
quinzena de alpaca, encostado á hombreira do pateo, de cigarro na boca.

N'esse momento, d'uma porta de batentes de baena verde, sobre um degrau
de pedra, ao fundo do pateo lageado, uma senhora sahia, vestida de
claro. Era alta, magra, loura, com pequeninos cabellos frisados sobre a
testa, lunetas d'ouro n'um nariz comprido e agudo, e no queixo um
signalzinho de cabellos claros.

--A senhora condessa já me não conhece..., disse Amaro com o chapéo na
mão, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.

--O Amaro!? disse ella como estranha ao nome. Ah! bom Jesus, quem elle
é! Ora não ha! Está um homem! Quem diria!

Amaro sorria-se.

--Eu podia lá esperar! continuou ella admirada. E está agora em Lisboa?

Amaro contou a sua nomeação para Feirão, a pobreza da parochia...

--De maneira que vim requerer, senhora condessa.

Ella escutava-o com as mãos apoiadas n'uma alta sombrinha de sêda clara,
e Amaro sentia vir d'ella um perfume de pó d'arroz e uma frescura de
cambraias.

--Pois deixe estar, disse ella, fique descansado. Meu marido ha de
fallar. Eu me encarrego d'isso. Olhe, venha por cá.--E com o dedo sobre
o canto da boca:--Espere, ámanhã vou para Cintra. Domingo, não. O melhor
é d'aqui a quinze dias. D'aqui a quinze dias pela manhã, sou certa.--E
rindo com os seus largos dentes frescos:--Parece que o estou a vêr
traduzir Chateaubriand com a mana Luiza! Como o tempo passa!

--Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.

--Sim, bem. Está n'uma quinta em Santarem.

Deu-lhe a mão, calçada de _peau de suède_, n'um aperto sacudido que fez
tilintar os seus braceletes d'ouro, e saltou para o _coupé_, magra e
ligeira, com um movimento que levantou brancuras de saias.

Amaro começou então a esperar. Era em julho, no pleno calor. Dizia missa
pela manhã em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos e casaco de
ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. Ás vezes ia conversar com a
tia para a sala de jantar; as janellas estavam cerradas, na penumbra
zumbia a monotona susurração das moscas; a tia a um canto do velho
canapé de palhinha fazia _crochet_, com a luneta encavallada na ponta do
nariz; Amaro, bocejando, folheava um antigo volume do _Panorama_.

Á noitinha sahia, a dar duas voltas no Rocio. Abafava-se, no ar pesado e
immovel: a todos os cantos se apregoava monotonamente _agua fresca!_
Pelos bancos, debaixo das arvores, vadios remendados dormitavam; em
redor da praça, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam
vagarosamente; as claridades dos cafés reluziam; e gente encalmada, sem
destino, movia, bocejando, a sua preguiça pelos passeios das ruas.

Amaro então recolhia, e no seu quarto, com a janella aberta ao calor da
noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava
cigarros, ruminava as suas esperanças. A cada momento lhe acudiam, com
rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: _fique descansado,
meu marido ha de fallar!_ E via-se já parocho n'uma bonita villa, n'uma
casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranquillo e
importante, recebendo bandejas de dôce das devotas ricas.

Vivia então n'um estado de espirito muito repousado. As exaltações, que
no seminario lhe causava a continencia, tinham-se acalmado com as
satisfações que lhe dera em Feirão uma grossa pastora, que elle gostava
de vêr ao domingo tocar á missa, dependurada da corda do sino, rolando
nas saias de saragoça, e a face a estourar de sangue. Agora, sereno,
pagava pontualmente ao céo as orações que manda o ritual, trazia a carne
contente e calada, e procurava estabelecer-se regaladamente.

No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.

--Não está, disse-lhe um criado da cavallariça.

Ao outro dia voltou, já inquieto. Os batentes verdes estavam abertos; e
Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete vermelho
fixado com varões de metal. Da alta claraboia cahia uma luz suave; ao
cimo da escada, no patamar, sentado n'uma banqueta de marroquim
escarlate, um criado encostado á parede branca envernizada, com a cabeça
pendente e o beiço cahido, dormia. Fazia um grande calor; aquelle alto
silencio aristocratico aterrava Amaro; esteve um momento com o seu
guardasol pendente do dedo minimo, hesitando; tossiu devagarinho, para
acordar o criado que lhe pareceia terrivel com a sua bella suiça preta,
o seu rico grilhão d'ouro; e ia descer quando ouviu por detraz d'um
reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o lenço o pó
esbranquiçado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho
n'uma larga sala com estofos de damasco amarello; uma grande luz entrava
das varandas abertas, e viam-se arvoredos de jardim. No meio da sala
tres homens de pé conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:

--Não sei se incommódo...

Um homem alto, de bigode grisalho e oculos de ouro, voltou-se
surprehendido, com o charuto ao canto da boca e as mãos nos bolsos. Era
o senhor conde.

--Sou Amaro...

--Ah, disse o conde, o senhor padre Amaro! Conheço muito bem! Tem a
bondade... Minha mulher fallou-me. Tem a bondade...

E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quasi calvo, de calças
brancas muito curtas:

--É a pessoa de quem lhe fallei.--Voltou-se para Amaro:--É o senhor
ministro.

Amaro curvou-se, servilmente.

--O senhor padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi creado de pequeno
em casa de minha sogra. Nasceu lá, creio eu...

--Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro que se conservava afastado,
com o guardasol na mão.

--Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora,--já não ha
d'isso!--fel-o padre. Houve até um legado, creio eu... Emfim, aqui o
temos parocho... Onde, senhor padre Amaro?

--Feirão, excellentissimo senhor.

--Feirão!?... disse o ministro estranhando o nome.

--Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado. Era um
homem magro, entalado n'uma sobrecasaca azul, muito branco de pelle, com
soberbas suiças d'um negro de tinta e um admiravel cabello lustroso de
pomada, apartado até ao cachaço n'uma risca perfeita.

--Emfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguezia pobre, sem
distracções, com um clima horrivel...

--Eu metti já requerimento, excellentissimo senhor, arriscou Amaro
timidamente.

--Bem, bem, affirmou o ministro. Ha de arranjar-se.--E mascava o seu
charuto.

--É uma justiça, disse o conde. Mais, é uma necessidade! Os homens novos
e activos devem estar nas parochias difficeis, nas cidades... É claro!
Mas não: olhe, lá ao pé da minha quinta, em Alcobaça, ha um velho, um
gottoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a fé.

--É verdade, disse o ministro, mas essas collocações nas boas parochias
devem naturalmente ser recompensas dos bons serviços. É necessario o
estimulo...

--Perfeitamente, replicou o conde; mas serviços religiosos,
profissionaes, serviços á Igreja, não serviços aos governos.

O homem das soberbas suiças negras teve um gesto d'objecção.

--Não acha? perguntou-lhe o conde.

--Respeito muito a opinião de vossa excellencia, mas se me permitte...
Sim, digo eu, os parochos na cidade são-nos d'um grande serviço nas
crises eleitoraes. D'um grande serviço!

--Pois sim. Mas...

--Olhe vossa excellencia, continuou elle, sôfrego da palavra. Olhe vossa
excellencia em Thomar. Porque perdemos? Pela attitude dos parochos. Nada
mais.

O conde acudiu:

--Mas perdão, não deve ser assim; a religião, o clero não são agentes
eleitoraes.

--Perdão... queria interromper o outro.

O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras
pausadas, cheias da auctoridade d'um vasto entendimento:

--A religião, disse elle, póde, deve mesmo auxiliar os governos no seu
estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...

--Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo pelliculas
mascadas de charuto.

--Mas descer ás intrigas, continuou o conde devagar, aos _imbroglios_...
Perdôe-me, meu caro amigo, mas não é d'um christão.

--Pois sou-o, senhor conde! exclamou o homem das suiças soberbas. Sou-o
a valer! Mas tambem sou liberal. E entendo que no governo
representativo... Sim, digo eu... com as garantias mais solidas...

--Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero e
desacredita a politica.

--Mas são ou não as maiorias um principio _sagrado_? gritava rubro o das
suiças, accentuando o adjectivo.

--São um principio _respeitavel_.

--Upa! upa, excellentissimo senhor! upa!

O padre Amaro escutava, immovel.

--Minha mulher ha de querer vêl-o, disse-lhe então o conde. E
dirigindo-se a um reposteiro que levantou:--Entre. É o senhor padre
Amaro, Joanna!

Era uma sala forrada de papel branco assetinado, com moveis estofados de
casimira clara. Nos vãos das janellas, entre as cortinas de pregas
largas d'uma fazenda adamascada côr de leite, apanhadas quasi junto do
chão por faxas de sêda, arbustos delgados, sem flôr, erguiam em vasos
brancos a sua folhagem fina. Uma meia luz fresca dava a todas aquellas
alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas d'uma cadeira uma arara
empoleirada, firme n'um só pé negro, coçava vagarosamente, com
contracções aduncas, a sua cabeça verde. Amaro, embaraçado, curvou-se
logo para um canto do sofá, onde viu os cabellinhos louros e frisados da
senhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de
ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda,
sentado diante d'ella n'uma cadeira baixa, com os cotovêlos sobre os
joelhos abertos, occupava-se em balançar, como um pendulo, um
_pince-nez_ de tartaruga. A condessa tinha no regaço uma cadellinha, e
com a sua mão sêcca e fina, cheia de veias, acamava-lhe o pêllo branco
como algodão.

--Como está, snr. Amaro?--A cadella rosnou.--Quieta, _Joia_... Sabe que
já fallei no seu negocio? Quieta, _Joia_... O ministro está alli.

--Sim, minha senhora, disse Amaro, de pé.

--Sente-se aqui, senhor padre Amaro.

Amaro pousou-se á beira d'um _fauteil_, com o seu guardasol na mão--e
reparou então n'uma senhora alta que estava de pé, junto do piano,
fallando com um rapaz louro.

--Que tem feito estes dias, snr. Amaro? disse a condessa. Diga-me uma
coisa: sua irmã?

--Está em Coimbra, casou.

--Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anneis.

Houve um silencio. Amaro, d'olhos baixos, passava, com um gesto
embaraçado e errante, os dedos pelos beiços.

--O senhor padre Liset está para fóra? perguntou.

--Está em Nantes. Tinha uma irmã a morrer, disse a condessa. Está o
mesmo sempre; muito amavel, muito dôce. É a alma mais virtuosa!...

--Eu prefiro o padre Felix, disse o rapaz gordo estirando as pernas.

--Não diga isso, primo! Jesus, brada aos céos! Pois então o padre Liset,
tão respeitavel!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma
bondade... Vê-se que é um coração delicado...

--Pois sim, mas o padre Felix...

--Ai, nem diga isso! Que o padre Felix é uma pessoa de muita virtude,
decerto; mas o padre Liset tem uma religião mais...--E com um gesto
delicado procurava a palavra:--mais fina, mais distincta... Emfim, vive
com outra gente.--E sorrindo para Amaro:--Pois não acha?

Amaro não conhecia o padre Felix, não se recordava do padre Liset.

--Já é velho o senhor padre Liset, observou ao acaso.

--Crê? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que
enthusiasmo!... Ai, é outra coisa!--E voltando-se para a senhora que
estava junto do piano:--Pois não achas, Thereza?

--Já vou, respondeu Thereza, toda absorvida.

Amaro afirmou-se então n'ella. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com
a sua alta e forte estatura, uma linha de hombros e de seio magnifica;
os cabellos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a pallidez do
rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Marie Antoinette; o seu
vestido preto, de mangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as
pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom
monotono das alvuras da sala; o collo, os braços estavam cobertos por
uma gaze preta, que fazia apparecer através a brancura da carne; e
sentia-se nas suas fórmas a firmeza dos marmores antigos, com o calor
d'um sangue rico.

Fallava baixo, sorrindo, n'uma lingua aspera que Amaro não comprehendia,
cerrando e abrindo o seu leque preto--e o rapaz louro, bonito,
escutava-a retorcendo a ponta d'um bigode fino, com um quadrado de vidro
entalado no olho.

--Havia muita devoção na sua parochia, snr. Amaro? perguntava no emtanto
a condessa.

--Muita, muito boa gente.

--É onde ainda se encontra alguma fé, é nas aldeias, considerou ella com
um tom piedoso.--Queixou-se da obrigação de viver na cidade, nos
captiveiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua quinta de
Carcavellos, rezar na pequena capella antiga, conversar com as boas
almas da aldeia!--e a sua voz tornára-se terna.

O rapaz rechonchudo ria-se:

--Ora, prima! dizia; ora, prima!--Não, elle, se o obrigassem a ouvir
missa n'uma capellinha de aldeia, até lhe parecia que perdia a fé!...
Não comprehendia, por exemplo, a religião sem musica... Era lá possivel
uma festa religiosa sem uma boa voz de contralto!?

--Sempre é mais bonito, disse Amaro.

--Está claro que é. É outra coisa! Tem _cachet_! Ó prima, lembra-se
d'aquelle tenor... como se chamava elle? O Vidalti. Lembra-se do
Vidalti, na quinta-feira de Endoenças, nos Inglezinhos? O _tantum ergo_?

--Eu preferia-o no _Baile de mascaras_, disse a condessa.

--Olhe que não sei, prima, olhe que não sei!

No emtanto o rapaz louro viera apertar a mão á senhora condessa,
fallando-lhe baixo, muito risonho. Amaro admirava a nobreza da sua
estatura, a doçura do seu olhar azul; reparou que lhe cahira uma luva, e
apanhou-lh'a servilmente. Quando elle sahiu Thereza, depois de se ter
aproximado vagarosamente da janella e olhado para a rua--foi sentar-se
n'uma _causeuse_ com um abandono que punha em relêvo a magnifica
esculptura do seu corpo; e voltando-se preguiçosamente para o rapaz
rechonchudo:

--Vamo-nos, João?

A condessa disse-lhe então:

--Sabes que o senhor padre Amaro foi creado commigo em Bemfica?

Amaro fez-se vermelho: sentia que Thereza pousava sobre elle os seus
bellos olhos d'um negro humido como o setim preto coberto de agua.

--Está na provincia agora? perguntou ella, bocejando um pouco.

--Sim, minha senhora, vim ha dias.

--Na aldeia? continuou ella, abrindo e cerrando vagarosamente o seu
leque.

Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse,
acariciando o cabo do guardasol:

--Na serra, minha senhora.

--Imagina tu, acudiu a condessa, é um horror! Ha sempre neve, diz que a
igreja não tem telhado, são tudo pastores. Uma desgraça! Eu pedi ao
ministro a vêr se o mudavamos. Pede-lhe tu tambem...

--O quê? disse Thereza.

A condessa contou que Amaro requerera para uma parochia melhor. Fallou
de sua mãi, da amizade que ella tinha a Amaro...

--Morria-se por elle. Ora um nome que ella lhe dava... Não se lembra?

--Não sei, minha senhora.

--Frei _Maleitas_!... Tem graça! Como o snr. Amaro era amarellito,
sempre mettido na capella...

Mas Thereza, dirigindo-se á condessa:

--Sabes com que se parece este senhor?

A condessa affirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.

--Não se parece com aquelle pianista do anno passado? continuou Thereza.
Não me lembra agora o nome...

--Bem sei, o Jalette, disse a condessa. Bastante. No cabello, não.

--Está visto, o outro não tinha corôa!

Amaro fez-se escarlate. Thereza ergueu-se arrastando a sua soberba
cauda, sentou-se ao piano.

--Sabe musica? perguntou, voltando-se para Amaro.

--A gente aprende no seminario, minha senhora.

Ella correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas,
e tocou a phrase do _Rigoleto,_ parecida com o _Minuete de Mozart_, que
diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da senhora de
Crécy--e cujo rhythmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que
findam, e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas.

Amaro estava enlevado. Aquella sala rica com as suas alvuras de nuvem, o
piano apaixonado, o collo de Thereza que elle via sob a negra
transparencia da gaze, as suas tranças de deusa, os tranquillos
arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéa d'uma existencia
superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em _coupés_
acolchoados, com arias de operas, melancolias de bom gosto e amores d'um
gozo raro. Enterrado na elasticidade da _causeuse_, sentindo a musica
chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu
cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e,
assustado, demora o seu prazer--pensando que vai voltar á dureza das
côdeas sêccas e á poeira dos caminhos.

No emtanto Thereza, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga aria
inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:


_The village seems dead and asleep
When Lubin is away!..._


--Bravo! bravo! exclamou o ministro da justiça apparecendo á porta,
batendo dôcemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!

--Tenho um pedido a fazer-lhe, snr. Correia, disse Thereza erguendo-se
logo.

O ministro veio, com uma pressa galante:

--Que é, minha senhora? que é?

O conde e o sujeito de magnificas suiças tinham entrado discutindo
ainda.

--A Joanna e eu temos que lhe pedir, disse Thereza ao ministro.

--Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.

--Mas, minhas senhoras, disse o ministro sentando-se confortavelmente,
com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata? É uma
coisa grave? meu Deus! prometto, prometto solemnemente...

--Bem, disse Thereza batendo-lhe com o leque no braço. Então qual é a
melhor parochia vaga?

--Ah! disse o ministro comprehendendo e olhando para Amaro, que vergou
os hombros, córado.

O homem das suiças, que estava de pé fazendo saltar circumspectamente os
berloques, adiantou-se, cheio de informações:

--Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital do districto e séde do
bispado.

--Leiria? disse Thereza. Bem sei, é onde ha umas ruinas?

--Um castello, minha senhora, edificado por D. Diniz.

--Leiria é excellente!

--Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, séde do bispado, uma
cidade... O senhor padre Amaro é um ecclesiastico novo...

--Ora, snr. Correia! exclamou Thereza, e o senhor não é novo?

O ministro sorriu, curvando-se.

--Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coçava
ternamente a cabeça da arara.

--Parece-me inutil, o pobre Correia está vencido! A prima Thereza
chamou-lhe novo!

--Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece que seja uma lisonja
excepcional; eu não sou tambem tão antigo...

--Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te que já conspiravas em 1820!

--Era meu pai, calumniador, era meu pai!

Todos riram.

--Snr. Correia, disse Thereza, está entendido. O senhor padre Amaro vai
para Leiria!

--Bem, bem, succumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas é uma
tyrannia!

--_Thank you_, fez Thereza, estendendo-lhe a mão.

--Mas, minha senhora, estou a estranhal-a, disse o ministro fixando-a.

--Estou contente hoje, disse ella. Olhou um momento para o chão,
distrahida, dando pequeninas pancadas no vestido de sêda, levantou-se,
foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeçou a dôce aria ingleza:


_The village seems dead and asleep
When Lubin is away!..._


Entretanto o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.

--É negocio feito, disse-lhe elle. O Correia entende-se com o bispo.
D'aqui a uma semana está nomeado. Póde ir descansado.

Amaro fez uma cortezia e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto
do piano:

--Senhor ministro, eu agradeço...

--Á senhora condessa, á senhora condessa, disse o ministro sorrindo.

--Minha senhora, eu agradeço, veio elle dizer á condessa, todo curvado.

--Ai, agradeça a Thereza! Ella quer ganhar indulgencias, parece.

--Minha senhora... foi elle dizer a Thereza.

--Lembre-me nas suas orações, senhor padre Amaro, disse ella. E
continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano--as tristezas da
aldeia quando Lubin esta ausente!


Amaro d'ahi a uma semana soube o seu despacho. Mas não tornára a
esquecer aquella manhã em casa da senhora condessa de Ribamar,--o
ministro de calças muito curtas, enterrado na poltrona, promettendo o
seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e
louro que dizia _yes_...Cantava-lhe sempre no cerebro aquella aria
triste do _Rigoleto_; e perseguia-o a brancura dos braços de Thereza sob
a gaze negra! Instinctivamente via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em
torno do pescoço airoso do rapaz louro:--detestava-o então, e a língua
barbara que fallava, e a terra heretica d'onde viera; e latejavam-lhe as
fontes á idéa de que um dia poderia confessar aquella mulher divina e
sentir o seu vestido de sêda preta roçar pela sua batina de lustrina
velha, na escura intimidade do confessionario.

Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraços da tia, partiu para
Santa Apolonia, com um gallego que lhe levava o bahú. A madrugada
rompia. A cidade estava silenciosa, os candieiros apagavam-se. Ás vezes
uma carroça passava rolando, abalando a calçada; as ruas pareciam-lhe
interminaveis; saloios começavam a chegar montados nos seus burros, com
as pernas balouçadas, cobertas de altas botas enlameadas; n'uma ou
n'outra rua uma voz aguda já apregoava os jornaes; e os moços dos
theatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.

Quando chegou a Santa Apolonia a claridade do sol alaranjava o ar por
detraz dos montes da Outra-Banda: o rio estendia-se, immovel, riscado de
correntes de côr de aço sem lustre; e já alguma vela de falua passava,
vagarosa e branca.




IV


Ao outro dia, na cidade, fallava-se da chegada do parocho novo, e todos
sabiam já que tinha trazido um bahú de lata, que era magro e alto, e que
chamava _Padre-Mestre_ ao conego Dias.

As amigas da S. Joanneira,--as intimas--a D. Maria da Assumpção, as
Gansosos, tinham ido logo pela manhã a casa d'ella _para se pôrem ao
facto_... Eram nove horas; Amaro sahira com o conego. A S. Joanneira,
radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas
arregaçadas, nos arranjos da manhã; e immediatamente, com animação,
contou a chegada do parocho, as suas boas maneiras, o que tinha dito...

--Mas venham vossês cá abaixo, sempre quero que vejam.

Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o bahú de lata, uma prateleira que
lhe arranjára para os livros.

--Está muito bem, está tudo muito bem, diziam as velhas andando pelo
quarto, devagar, com respeito, como n'uma igreja.

--Rico capote! observou D. Joaquina Gansoso apalpando o panno das largas
bandas que pendiam ao comprido do cabide.--É obra para um par de moedas!

--E a boa roupa branca! disse a S. Joanneira erguendo a tampa do bahú.

O grupo das velhas curvou-se com admiração.

--A mim o que me consola é que elle seja um rapaz novo, disse D. Maria
da Assumpção, piedosamente.

--Tambem a mim, disse com auctoridade a D. Joaquina Gansoso. Estar a
gente a confessar-se e a vêr o pingo do rapé, como era com o Raposo,
credo! até se perde a devoção! E o bruto do José Migueis! Não, lá isso
Deus me mate com gente nova!

A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do parocho,--um
crucifixo que estava ainda embrulhado n'um jornal velho, o album de
retratos, onde o primeiro cartão era uma photographia do Papa abençoando
a christandade. Todas se extasiaram.

--É o mais que se póde, diziam, é o mais que se póde!

Ao sahir, beijando muito a S. Joanneira, felicitaram-na porque
adquirira, hospedando o parocho, uma auctoridade quasi ecclesiastica.

--Vossês apparecem á noite, disse ella do alto da escada.

--Pudera!... gritou D. Maria da Assumpção, já á porta da rua, traçando o
seu mantelete.--Pudera!... Para o vermos á vontade!

Ao meio dia veio o Libaninho, o beato mais activo de Leiria; e subindo a
correr os degraus, já gritava com a sua voz fina:

--Ó S. Joanneira!

--Sobe, Libaninho, sobe, disse ella, que costurava á janella.

--Então o senhor parocho veio, hein? perguntou o Libaninho, mostrando á
porta da sala de jantar o seu rosto gordinho côr de limão, a calva
luzidia; e vindo para ella com o passinho miudo, um gingar de quadris:

--Então que tal, que tal? tem bom feitio?

A S. Joaneira recomeçou a glorificação de Amaro: a sua mocidade, o seu
ar piedoso, a brancura dos seus dentes...

--Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura
devota.--Mas não se podia demorar, ia para a repartição!--Adeus,
filhinha, adeus!--E batia com a sua mão papuda no hombro da S.
Joanneira.--Estás cada vez mais gordinha! Olha que rezei hontem a
Salve-Rainha que tu me pediste, ingrata!

A criada tinha entrado.

--Adeus, _Ruça_! Estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãi dos
Homens.--E avistando Amelia pela porta do quarto entreaberta:--Ai, que
estás mesmo uma flôr, Mélinha! Quem se salvava na tua graça bem eu sei!

E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada
rapidamente, ganindo:

--Adeusinho! adeusinho, pequenas!

--Ó Libaninho, vens á noite?

--Ai, não posso, filha, não posso!--E a sua vozinha era quasi
chorosa.--Olha que ámanhã é Santa Barbara: tem seis Padre-Nossos de
direito!


Amaro fôra visitar o chantre com o conego Dias, e tinha-lhe entregado
uma carta de recommendação do senhor conde de Ribamar.

--Conheci muito o senhor conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta
e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso:
ha que annos isso vai!

E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, fallou com satisfação do
seu tempo: contou anecdotas da Junta, apreciou os homens de então,
imitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excellencia), os _tics_,
as caturrices--sobretudo Manoel Passos, que elle descrevia passeando na
Praça Nova, com o comprido casaco pardo e o chapéo de grandes abas,
dizendo:

--_Animo, patriotas! o Xavier aguenta-se!_

Os senhores ecclesiasticos da camara riram com gozo. Houve uma grande
cordialidade. Amaro sahiu muito lisonjeado.

Depois jantou em casa do conego Dias, e foram passear ambos pela estrada
de Marrazes. Uma luz dôce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia
nos outeiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga
tranquilidade; fumos esbranquiçados sahiam dos casaes, e sentiam-se os
chocalhos melancolicos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da
ponte, e disse, olhando em redor a paizagem suave:

--Pois senhores, parece-me que me hei de dar bem aqui!

--Ha de se dar regaladamente, affirmou o conego, sorvendo o seu rapé.

Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joanneira.

As velhas amigas estavam já na sala de jantar. Ao pé do candieiro de
petroleo, Amelia costurava.

A snr.^a D. Maria da Assumpção vestira-se, como nos domingos, de sêda
preta: o seu _chinó_, d'um louro avermelhado, estava coberto com as
rendas d'um _enfeite_ negro; as mãos descarnadas, calçadas de mitenes,
solemnemente pousadas no regaço, reluziam de anneis; do broche sobre o
pescoço até ao cinto, um grosso grilhão d'ouro cahia com passadores
lavrados. Conservava-se direita e ceremoniosa, com a cabeça um pouco de
lado, os oculos d'ouro assentes sobre o nariz acavallado: tinha no
queixo um grande signal cabelludo; e quando se fallava de devoções ou de
milagres dava um geito ao pescoço, e abria um sorriso mudo que descobria
os seus enormes dentes esverdeados, cravados nas gengivas como cunhas.
Era viuva e rica, e soffria d'um catarrho chronico.

--Aqui tem o senhor parocho novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joanneira.

Ella ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, commovida.

--Estas são as senhoras Gansosos, ha de ter ouvido..., disse a S.
Joanneira ao parocho.

Amaro comprimentou timidamente. Eram duas irmãs. Passavam por ter algum
dinheiro, mas costumavam receber hospedes. A mais velha, a snr.^a D.
Joaquina Gansoso, era uma pessoa sêcca, com uma testa enorme e larga,
dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida.
Embrulhada no seu chale, direita, com os braços cruzados, fallava
perpetuamente, n'uma voz dominante e aguda, cheia de opiniões. Dizia mal
dos homens e dava-se toda á Igreja.

A irmã, a snr.^a D. Anna, era extremamente surda. Nunca fallava, e com
os dedos cruzados sobre o regaço, os olhos baixos, fazia girar
tranquillamente os dois pollegares. Nutrida, com o seu perpetuo vestido
preto de riscas amarellas, um rolo de arminho ao pescoço, dormitava toda
a noite, e só accentuava a sua presença de vez em quando por suspiros
agudos: dizia-se que tinha uma paixão funesta pelo recebedor do correio.
Todos a lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papeis
para caixas de dôce.

Estava tambem a snr.^a D. Josepha, a irmã do conego Dias. Tinha a
alcunha de _castanha pilada_. Era uma creaturinha mirrada, de linhas
aduncas, pelle engelhada e côr de cidra, voz sibilante; vivia n'um
perpetuo estado de irritação, os olhinhos sempre assanhados, contracções
nervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor
Godinho chamava-lhe a _estação central_ das intrigas de Leiria.

--Então passeou muito, senhor parocho? perguntou ella logo
impertigando-se.

--Fomos quasi até lá ao fim da estrada de Marrazes, disse o conego,
sentando-se pesadamente por detraz da S. Joanneira.

--Não achou bonito, senhor parocho? acudiu snr.^a D. Joaquina Gansoso.

--Muito bonito.

Fallaram das lindas paizagens de Leiria, das boas vistas: a snr.^a D.
Josepha gostava muito do passeio ao pé do rio; até já ouvira dizer que
nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja
da Encarnação, no alto.

--Desfruta-se muito d'alli.

Amelia disse sorrindo:

--Eu por mim gósto d'aquelle bocado ao pé da ponte, debaixo dos
chorões.--E partindo com os dentes o fio da costura:--É tão triste!

Amaro olhou para ella, então, pela primeira vez. Tinha um vestido azul
muito justo ao seio bonito; pescoço branco e cheio sahia d'um collarinho
voltado; entre os beiços vermelhos e frescos o esmalte dos dentes
brilhava; e pareceu ao parocho que um buçosinho lhe punha aos cantos da
boca uma sombra subtil e dôce.

Houve um pequeno silencio--o conego Dias com o beiço descahido ia já
cerrando as palpebras.

--Que será feito do senhor padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.

--Está talvez com a enxaqueca, pobre de Christo! lembrou piedosamente a
snr.^a D. Maria da Assumpção.

Um rapaz que estava junto do aparador disse então:

--Eu vi-o hoje a cavallo, ia para os lados da Barrosa.

--Homem! disse logo com azedume a irmã do conego, a snr.^a D. Josepha
Dias, é milagre ter o senhor reparado!

--Porquê, minha senhora? disse elle erguendo-se e chegando-se ao grupo
das velhas.

Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pelle branca, regular,
um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, cahido
aos cantos, que elle costumava mordicar com os dentes.

--Ainda elle o pergunta! exclamou a snr.^a D. Josepha Dias. O senhor,
que nem lhe tira o chapéo!

--Eu!?

--Disse-m'o elle, affirmou ella com uma voz cortante. E acrescentou: Ai,
senhor parocho, bem póde chamar o snr. João Eduardo para o bom
caminho!--E teve um risinho maligno.

--Mas eu parece-me que não ando no mau caminho, disse elle rindo, com as
mãos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para Amelia.

--É uma graça! exclamou a snr.^a D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o que o
senhor disse hoje lá em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, não ha de
ganhar o céo!

--Ora essa! gritou a irmã do conego voltando-se bruscamente para João
Eduardo. Então o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que é
uma impostora?

--Credo, Jesus! disse a snr.^a D. Maria da Assumpção apertando as mãos e
fitando João Eduardo com um terror piedoso. Pois elle havia de dizer
isso? Cruzes!

--Não, o snr. João Eduardo, affirmou gravemente o conego, que espertára,
desdobrando o seu lenço vermelho--não era capaz de dizer uma d'essas.

Amaro perguntou então:

--Quem é a Santa da Arregassa?

--Credo! Pois não tem ouvido fallar, senhor parocho? exclamou n'uma
admiração a snr.^a D. Maria da Assumpção.

--Ha de ter ouvido, affirmava a snr.^a D. Josepha Dias com auctoridade.
Diz que os jornaes de Lisboa vem cheios d'isso!

--É com effeito uma coisa bem extraordinaria, ponderou com um tom
profundo o conego.

A S. Joanneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:

--Ai, não imagina, senhor parocho, é o milagre dos milagres!

--Se é! se é! disseram.

Houve um recolhimento devoto.

--Mas então...? perguntou Amaro, todo curioso.

--Olhe, senhor parocho, começou a snr.^a D. Joaquina Gansoso
endireitando-se no chale, fallando com solemnidade: a Santa é uma mulher
que aqui ha n'uma freguezia perto, que está ha vinte annos na cama...

--Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assumpção, tocando-lhe
com o leque no braço.

--Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.

--Vinte e cinco, vinte e cinco, affirmou a S. Joanneira. E o conego
apoiou-a, oscillando gravemente a cabeça.

--Está entrevadinha de todo, senhor parocho! rompeu a irmã do conego,
avida de fallar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos são isto!--E
mostrava o dedo minimo.--Para a gente a ouvir é necessario pôr-lhe a
orelha ao pé da boca!

--Pois se ella se sustenta da graça de Deus! disse lamentosamente a
snr.^a D. Maria da Assumpção. Coitadinha! que até a gente lembrar-se...

Houve entre as velhas um silencio commovido. João Eduardo, que por traz
das velhas, de pé, com as mãos nos bolsos, sorria mordicando o bigode,
disse então:

--Olhe, senhor parocho, a coisa é o que os medicos dizem: é que aquillo
é uma doença nervosa.

Aquella irreverencia fez, entre as velhas devotas, um escandalo; a
snr.^a D. Maria da Assumpção persignou-se logo «á cautela».

--Pelo amor de Deus! gritou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor diga isso
diante de quem quizer, menos de mim! É uma affronta!

--É que até póde cahir um raio, dizia para os lados, baixo, a snr.^a D.
Maria da Assumpção, muito aterrada.

--Olhe, tambem lh'o digo, exclamou a snr.^a D. Josepha Dias, o senhor é
um homem sem religião e sem respeito pelas coisas santas.--E voltando-se
para o lado de Amelia, muito azeda:--Olhe, filha minha é que eu lhe não
dava!

Amelia córou; e João Eduardo, fazendo-se vermelho tambem, curvou-se
sarcasticamente:

--Eu digo o que dizem os medicos. E de resto, acredite que não tenho
prentenções a casar com pessoa da sua familia! Nem mesmo comsigo, snr.^a
D. Josepha!

O conego deu uma risada muito pesada.

--Arreda! Cruzes! gritou ella, furiosa.

--Mas que faz então a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.

--Tudo, senhor parocho, disse a snr.^a D. Joaquina Gansoso: está sempre
de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ella peça tem a graça do
Senhor; é a gente apegar-se com ella e cura-se de toda a molestia. E
depois, quando communga, começa a erguer-se, e fica com o corpo todo no
ar, com os olhos erguidos para o céo, que até chega a fazer terror.

Mas n'este momento uma voz disse á porta da sala:

--Ora viva a sociedade! Isto hoje está de truz!

Era um rapaz extremamente alto, amarello, com as faces cavadas, uma
grenha riçada, um bigode á D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na
boca, porque lhe faltavam quasi todos os dentes de diante; e nos seus
olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas.
Trazia uma guitarra na mão.

--Então como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.

--Mal, respondeu elle com voz triste, sentando-se. Sempre as dôres no
peito, a tossesita ...

Então não se dava bem com o oleo de figados de bacalhau?

--Qual! fez elle desconsoladamente.

--Uma viagem á Madeira, isso é que era, isso é que era! disse a snr.^a
D. Joaquina Gansoso com auctoridade.

Elle riu, com uma jovialidade subita:

--Uma viagem á Madeira! Não está má! A D. Joaquina Gansoso tem-nas boas!
Um pobre amanuense de administração com dezoito vintens por dia, mulher
e quatro filhos... Para a Madeira!

--E como vai ella, a Joannita?

--Coitadita, lá vai! Tem saude, graças a Deus! Gorda, sempre com bom
appetite. Os pequenos, os dois mais velhos é que estão doentes; de mais
a mais agora a criada tambem cahiu de cama! É o diacho! Paciencia!
paciencia!--E encolhia os hombros.

Mas voltando-se para a S. Joanneira, dando-lhe uma palmada no joelho:

--E como vai a nossa Madre-Abbadessa?

Todos riram: e a snr.^a D. Joaquina Gansoso informou o parocho que
aquelle rapaz, o Arthur Couceiro, era muito engraçado e tinha uma bella
voz. Era a melhor da cidade para modinhas.

A _Ruça_ tinha então entrado com o chá; a S. Joanneira, enchendo as
chavenas d'alto, dizia:

--Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este é do bom! É da loja do
Sousa...

E Arthur offerecia assucar com o seu antigo gracejo:

--Se está azedinho é carregar-lhe no sal!

As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente
as torradas, sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos
pingos da manteiga e das nodoas do chá estendiam prudentemente os lenços
sobre o regaço.

--Vai um docinho, senhor parocho? disse Amelia, apresentando-lhe o
prato. São da Encarnação, muito fresquinhos.

--Obrigado.

--Aquelle alli. É toucinho do céo.

--Ah! se é do céo... disse elle todo risonho. E olhou para ella, tomando
o bolo com a ponta dos dedos.

O snr. Arthur costumava cantar depois do chá. Sobre o piano uma vela
alumiava o caderno de musica; e Amelia, logo que a _Ruça_ levou a
bandeja, accommodou-se, correu os dedos sobre o teclado amarello.

--Então hoje que ha de ser? perguntou Arthur.

Os pedidos cruzaram-se:

--_O guerrilheiro! O noivado do sepulchro! O descrido! o Nunca mais!_

O conego Dias disse do seu canto, pesadamente:

--Ó Couceiro, vá lá aquella do _Tio Cosme, meu bréjeiro!_

As mulheres reprovaram:

--Credo! por quem é, senhor conego! Que lembrança!

E a snr.^a D. Joaquina Gansoso resumiu:

--Nada: uma coisa de sentimento para o senhor parocho fazer idéa.

--Isso, isso! disseram: uma coisa de sentimento, ó Arthur, uma coisa de
sentimento!

Arthur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente á face uma expressão
dolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:


Adeus, meu anjo! eu vou partir sem ti!


Era uma canção dos tempos romanticos de 51, o _Adeus!_ Dizia uma suprema
despedida, n'um bosque, por uma tarde pallida d'outono; depois, o homem
solitario e precito, que inspirára um amor funesto, ia errar desgrenhado
á beira do mar; havia uma sepultura esquecida n'um valle distante,
brancas virgens vinham chorar á claridade do luar!

--Muito bonito, muito bonito! murmuravam.

Arthur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervallos, durante o
acompanhamento, sorria em redor--e na sua boca cheia de sombra viam-se
os restos de dentes pôdres. O padre Amaro, ao pé da janella, fumando,
contemplava Amelia, enlevado n'aquella melodia sentimental e morbida: o
seu perfil fino, de encontro á luz, tinha uma linha luminosa; destacava
harmoniosamente a curva do seu peito; e elle seguia as suas palpebras de
grandes pestanas, que do teclado para a musica se erguiam e se abaixavam
com um movimento dôce. João Eduardo, junto d'ella, voltava-lhe as folhas
da musica.

Mas Arthur, com a mão sobre o peito, a outra erguida no ar, n'um gesto
desolado e vehemente, soltou a ultima estrophe:


E um dia, emfim, d'este viver fatal,
Repousarei na escuridão da campa!


--Bravo! bravo! exclamaram.

E o conego Dias commentou baixo ao parocho:

--Ah! para coisas de sentimento não ha outro.--E bocejando enormemente:
Pois menino, tenho tido toda a noite as lulas a conversar cá por dentro.

Mas chegára a hora do loto. Cada um escolhia os seus cartões habituaes;
e a snr.^a D. Josepha Dias, com o seu olho d'avara a luzir, chocalhava
já vivamente o grosso sacco dos numeros.

--Aqui tem um logar, senhor parocho, disse Amelia.

Era junto d'ella. Elle hesitou; mas tinham aberto espaço, e veio
sentar-se um pouco córado, ageitando timidamente a _volta_.

Fez-se logo um grande silencio; e, com a voz dormente, o conego começou
a tirar os numeros. A snr.^a D. Anna Gansoso dormitava ao seu canto,
resonando ligeiramente.

Com o _abat-jour_ as cabeças estavam na penumbra; e a luz crua, cahindo
sobre o chale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cartões
ennegrecidos do uso e as mãos sêccas das velhas, pousadas em attitudes
aduncas, remexendo as marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela
derretia-se com uma chamma alta e direita.

O conego rosnava os numeros com as pilherias veneraveis da tradição: 1,
cabeça de porco!--3, figura de entremez!

--Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.

--Ternei, murmurava outra com gozo.

E a irmã do conego, sôfrega:

--Chocalhe esses numeros, mano Placido! Vá!

--E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia o
Arthur Couceiro, com a cabeça entre os punhos.

Emfim o conego _quinou_. E Amelia olhando em redor pela sala:

--Então não joga, snr. João Eduardo? disse ella. Onde está?

João Eduardo sahiu da sombra da janella, por traz da cortina.

--Tome lá este cartão, ande, jogue.

--E receba as entradas, já que está de pé, disse a S. Joanneira. Seja o
senhor recebedor!

João Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam dez
reis.

--Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos, excitados.

Fôra a irmã do conego que não tocára no seu cobre acastellado. João
Eduardo disse, curvando-se:

--Parece-me que a snr.^a D. Josepha não entrou.

--Eu!? gritou ella, furiosa. Olha uma d'estas! Até fui a primeira!
Credo! Duas moedas de cinco reis, por signal! Que tal está o homem!

--Ah! bem, disse elle então, fui eu que me esqueci! Cá ponho.--E rosnou:
Beata e ladra!

E a irmã do conego dizia no emtanto baixo á snr.^a D. Maria da
Assumpção:

--Queria vêr se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!

--Só quem não está feliz é o senhor parocho, observaram.

Amaro sorriu. Estava distrahido, e fatigado; ás vezes mesmo esquecia-se
de marcar, e Amelia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovêlo:

--Olhe que não marcou, senhor parocho!

Tinham já apostado dois ternos: ella ganhára; depois faltou a ambos para
_quinarem_ o numero trinta e seis.

Em roda repararam.

--Ora vamos a vêr se _quinam_ ambos, disse a snr.^a D. Maria da
Assumpção, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.

Mas o trinta e seis não sahía; havia outras quadras nos cartões alheios;
Amelia receava que _quinasse_ a snr.^a D. Joaquina Gansoso, que se mexia
muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria,
involuntariamente interessado.

O conego tirava os numeros com uma pachorra maliciosa.

--Vá! vá! ande com isso, senhor conego! diziam-lhe.

Amelia, debruçada, os olhos vivos, murmurou:

--Dava tudo para que sahisse o trinta e seis!

--Sim? Ahi o tem... Trinta e seis! disse o conego.

--_Quinamos!_ gritou ella, triumphante; e tomando o cartão do parocho e
o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito córada.

--Ora Deus os abençôe, disse o conego, jovial, entornando-lhes diante o
pires cheio de moedas de dez reis.

--Parece milagre! considerou a snr.^a D. Maria da Assumpção,
piedosamente.

Mas tinham dado onze horas; e depois da _tumba_ final as velhas
começaram a agasalhar-se. Amelia sentou-se ao piano, tocando ao de leve
uma polka. João Eduardo aproximou-se d'ella, e baixando a voz:

--Muitos parabens por ter _quinado_ com o senhor parocho. Que
enthusiasmo!--E como ella ia responder:--Boa noite! disse elle
sêccamente, embrulhando-se no seu chale-manta com despeito.

A _Ruça_ alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam
ganindo _adeusinhos_. O snr. Arthur harpejava a guitarra, cantarolando o
_Descrido_.

Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviario; mas
distrahia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes pôdres de
Arthur, sobretudo o perfil de Amelia. Sentado á beira da cama, com o
Breviario aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos
pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu
buçosinho gracioso...

Sentia a cabeça pesada do jantar do conego e da monotonia do _quino_,
com uma grande sêde além d'isso das lulas e do vinhito do Porto. Quiz
beber, mas não tinha agua no quarto. Lembrou-se então que na sala de
jantar havia uma bilha d'Extremoz com agua fresca, muito boa, da
nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu
devagarinho. Havia **luz** na sala, estava o reposteiro corrido:
ergueu-o e recuou com um _ah!_ Vira n'um relance Amelia, em saia branca,
a desfazer o atacador do collete: estava junto do candieiro e as mangas
curtas, o decote da camisa deixavam vêr os seus braços brancos, o seio
delicioso. Ella deu um pequeno grito, correu para o quarto.

Amaro ficou immovel, com um suor á raiz dos cabellos. Poderiam suspeitar
uma offensa! Palavras indignadas iam sahir decerto através do reposteiro
do quarto, que ainda se balouçava agitado!

Mas a voz de Amelia, serena, perguntou de dentro:

--Que queria, senhor parocho?

--Vinha buscar agua... balbuciou elle.

--Aquella _Ruça_! aquella desleixada! Desculpe, senhor parocho,
desculpe. Olhe ahi ao pé da mesa, a bilha. Achou?

--Achei! achei!

Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a agua escorria-lhe
pelos dedos.

Deitou-se sem rezar. Alta noite Amelia sentiu por baixo passos nervosos
pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos hombros e em chinelas,
fumava, excitado, pelo quarto.




V


Ella, em cima, não dormia tambem. Sobre a commoda, dentro de uma bacia,
a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de murrão de azeite;
brancuras de saias cahidas no chão destacavam; e os olhos do gato, que
não socegava, reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade
phosphorica verde.

Na casa visinha uma criança chorava sem cessar, Amelia sentia a mãi
embalar-lhe o berço, cantar-lhe baixo:


Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua mãi foi á fonte!


Era a pobre Catharina engommadeira, que o tenente Sousa deixára com um
filho no berço, e gravida d'outro--para ir casar a Extremoz! Tão bonita
era, tão loura--e mirrada agora, tão chupada!


Dorme, dorme, meu menino.
Que a tua mãi foi á fonte!


Como ella conhecia aquella cantiga! Quando tinha sete annos sua mãi
dizia-a, nas longas noites de inverno, ao irmãosinho que morrera!

Lembrava-se bem! Moravam então n'outra casa, ao pé da estrada de Lisboa;
á janella do seu quarto havia um limoeiro e a mãi punha, na sua ramagem
luzidia, os coeiros do Joãosinho a seccarem ao sol. Não conhecera o
papá. Fôra militar, morrera novo; e a mãi ainda suspirava ao fallar da
sua bella figura com o uniforme de cavallaria. Aos oito annos ella foi
para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita roliça e
branca, que fôra tacho das freiras de Santa Joanna d'Aveiro; com os seus
oculos redondos, junto á janella, empurrando a agulha, morria-se por
contar historias do convento: as perrices da escrivã, sempre a
escabichar os dentes furados; a madre rodeira, preguiçosa e pacata, com
uma pronuncia minhota; a mestra de cantochão, admiradora de Bocage e que
se dizia descendente dos Tavoras; e a legenda de uma freira que morrera
de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores,
soltando gemidos dolorosos e clamando:--Augusto! Augusto!

Amelia ouvia aquellas historias, encantada. Gostava então tanto de
festas d'igreja e da convivencia dos santos, que desejava ser uma
«freirinha, muito bonita, com um véosinho muito branco.» A mamã era
muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e
robusto, que soprava de asthma ao subir a escada e tinha uma voz
fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amelia chamava-lhe
_padrinho_. Quando ella voltava da mestra, á tarde, encontrava-o sempre
a palestrar com a mãi, na sala, de batina desabotoada, deixando vêr o
longo collete de velludo preto com raminhos bordados a amarello. O
senhor chantre perguntava-lhe pelas lições e fazia-a dizer a taboada.

Á noite havia reuniões: vinha o padre Valente; o conego Cruz; e um
velhito calvo, de perfil de passaro, com oculos azues, que fôra frade
franciscano e a quem chamavam frei André. Vinham as amigas da mãi, com
as suas _meias_; e um capitão Couceiro, de caçadores, que tinha os dedos
negros do cigarro e trazia sempre a sua viola. Mas ás nove horas
mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ella via a luz, ouvia as
vozes; depois fazia-se um silencio, e o capitão, repenicando a guitarra,
cantava o _lundum da Figueira_.

Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipathicos:
sobretudo o padre Valente, tão gordo, tão suado, com umas mãos papudas e
molles, d'unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe
devagarinho a orelha, e ella sentia o seu halito impregnado de cebola e
de cigarro. O seu amiguinho era o conego Cruz, magro, com o cabello todo
branco, a volta sempre aceada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho,
comprimentando com a mão sobre o peito e uma voz suave cheia de ss. Já
então sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer
«bagatella» fallavam-lhe sempre dos castigos do céo; de tal sorte que
Deus apparecia-lhe como um sêr que só sabe dar o soffrimento e a morte e
que é necessario abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, amimando
os padres. Por isso, se ás vezes ao deitar lhe esquecia uma
Salve-Rainha, fazia penitencia no outro dia, porque temia que Deus lhe
mandasse sezões ou a fizesse cahir na escada.

Mas o seu melhor tempo foi quando começou a tomar lições de musica. A
mãi tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um
pano verde, tão desafinado, que servia de aparador! Amelia costumava
cantarolar pela casa; a sua voz fina e fresca agradava ao senhor
chantre, e as amigas da mãi diziam-lhe:

--Tu tens ahi um piano, porque não mandas ensinar a rapariga? Sempre é
uma prenda! olha que lhe póde servir de muito!

O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da Sé d'Evora,
extremamente infeliz: a filha unica, muito linda, fugira-lhe com um
alferes para Lisboa; e, passados dois annos, o Silvestre da Praça, que
ia muito á capital, vira-a descer a rua do Norte, de _garibaldi_
escarlate e alvaiade n'um olho, com um marinheiro inglez. O velho cahira
em grande melancolia e grande miseria; e por piedade tinham-lhe dado um
emprego no cartorio da camara ecclesiastica. Era uma figura triste de
romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer
até aos hombros os seus cabellos brancos e finos; os olhos, cansados,
lagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e
parecia muito transido, no seu capote côr de vinho que só lhe chegava á
cintura e que tinha uma gola d'astrakan. Chamavam-lhe o _Tio Cegonha_
pela sua alta magreza e o seu ar solitario. Amelia um dia tinha-lhe
chamado _Tio Cegonha_; mas mordeu logo o beiço, toda envergonhada.

O velho poz-se a sorrir:

--Ai, chame, minha rica menina, chame! _Tio Cegonha_?... ora, que tem?
Cegonha sou eu, e bem cegonha!

Era então no inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não cessavam; a
aspera estação opprimia os pobres. Viam-se n'aquelle anno familias
esfomeadas indo á camara pedir pão. O _Tio Cegonha_ vinha sempre ao
meio-dia dar a lição; o seu guardachuva azul deixava um ribeiro na
escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de
velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do
frio das mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado e não o
deixava escrever no cartorio.

--Prendem-se-me os dedos... dizia tristemente.

Mas quando a S. Joanneira lhe pagou o primeiro mez das lições, o velho
appareceu muito contente, com umas grossas luvas de lã.

--Ah, _Tio Cegonha_, como vem quentinho! disse-lhe Amelia.

--Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas
meias de lã. Deus a abençôe, minha menina, Deus a abençôe!

E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lagrimas. Amelia tornára-se a «sua
rica amiguinha». Já lhe fazia confidencias: contava-lhe as suas
necessidades, as saudades da filha, as suas glorias na Sé d'Evora,
quando diante do senhor **arcebispo**, vistoso na sua sobrepelliz
escarlate, acompanhava o _Lausperenne_.

Amelia não se esqueceu das meias de lã do _Tio Cegonha_. Pediu ao
chantre que lhe désse umas meias de lã.

--Ora essa! para quê? para ti? disse elle com o seu riso grosso.

--Para mim, sim senhor.

--Deixe fallar, senhor chantre! disse a S. Joanneira. Olha a idéa!

--Não deixe fallar, não! dê, sim?

Lançou-lhe os braços ao pescoço, fez-lhe olhinhos dôces.

--Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! ha de ser o
diabo!... Pois sim, ahi tens.--E deu-lhe dois pintos para umas meias de
lã.

No dia seguinte tinha-os ella embrulhados n'um papel, que dizia por fóra
em letras garrafaes: _Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discipula_.

Uma manhã, depois, viu-o mais amarello, mais chupado:

--Ó _Tio Cegonha_, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartorio?

O velho sorriu-se:

--Ora, minha rica menina, quanto me hão de dar? uma bagatella. Quatro
vintens por dia. Mas o snr. Netto faz-me algum bem...

--E chegam-lhe, quatro vintens?

--Ora! como hão de chegar!

Sentiram-se os passos da mãi; e Amelia, retomando gravemente a attitude
de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.

E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãi a dar de
almoçar e de jantar ao _Tio Cegonha_ nos dias de lição. Assim se
estabeleceu entre ella e o velho uma grande intimidade. E o pobre _Tio
Cegonha_, sahindo do seu frio isolamento, acolhia-se áquella amizade
inesperada, como a um conchego tepido. Encontrava n'ella o elemento
feminino que amam os velhos, com as caricias, as suavidades de voz, as
delicadezas de enfermeira; achava n'ella a unica admiradora da sua
musica; e via-a sempre attenta ás historias do seu tempo, ás recordações
da velha Sé d'Evora que elle amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando
se fallava de procissões ou de festas de igreja:

--Para isso Evora! em Evora é que é!

Amelia applicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua
vida: já tocava contradansas e antigas arias de velhos compositores; a
snr.^a D. Maria da Assumpção estranhava que o mestre lhe não ensinasse o
_Trovador_.

--Coisa mais linda! dizia.

Mas o _Tio Cegonha_ só conhecia a musica classica, arias ingenuas e
dôces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos
dôces tempos freiraticos.

Uma manhã o _Tio Cegonha_ encontrou Amelia muito amarella e triste.
Desde a vespera queixava-se de «mal-estar». Era um dia nublado, muito
frio. O velho queria ir-se embora.

--Não, não, _Tio Cegonha_, disse ella, toque alguma coisa para eu me
entreter.

Elle tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas
extremamente melancolica.

--Que lindo! que lindo! dizia Amelia, de pé junto ao piano.

E quando o velho deu as ultimas notas:

--O que é? perguntou ella.

O _Tio Cegonha_ contou-lhe que era o começo de uma _Meditação_ feita por
um frade seu amigo.

--Coitado, disse, teve bem o seu tormento!

Amelia quiz logo saber a historia; e sentando-se no mocho do piano,
embrulhando-se no seu chale:

--Diga, _Tio Cegonha_, diga!

Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ella
morrera no convento d'aquelle amor infeliz; e elle, de dôr e de saudade,
fizera-se frade franciscano...

--Parece que o estou a vêr...

--Era bonito?

--Se era! Um rapaz na flôr da vida, rico... Um dia veio ter commigo ao
orgão: «Olha o que eu fiz», disse-me elle. Era um papel de musica. Abria
em ré menor. Poz-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que
musica! Mas não me lembra o resto!

E o velho, commovido, repetiu no piano as notas plangentes da
_Meditação_ em ré menor.

Amelia todo o dia pensou n'aquella historia. De noite veio-lhe uma
grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade
frasciscano, na sombra do orgão da Sé d'Evora. Via os seus olhos
profundos reluzirem n'uma face encovada: e, longe, a freira pallida, nos
seus habitos brancos, encostada ás grades negras do mosteiro, sacudida
pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades
franciscanos caminhava para o côro: elle ia no fim de todos, curvado,
com o capuz sobre o rosto, arrastando as sandalias, emquanto um grande
sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Então o sonho mudava:
era um vasto céo negro, onde duas almas enlaçadas e amantes, com habitos
de convento e um ruido ineffavel de beijos insaciaveis, giravam, levadas
por um vento mystico; mas desvaneciam-se como nevoas, e na vasta
escuridão ella via apparecer um grande coração em carne viva, todo
trespassado de espadas--e as gotas de sangue que cahiam d'elle enchiam o
céo d'uma chuva escarlate.

Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouvêa tranquillisou a S.
Joanneira com uma simples palavra:

--Nada de sustos, minha rica senhora, são os quinze annos da rapariga.
Hão de lhe vir ámanhã as vertigens e os enjôos... Depois acabou-se.
Temol-a mulher.

A S. Joanneira comprehendeu.

--Esta rapariga tem o sangue vivo e ha de ter as paixões fortes!
acrescentou o velho pratico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.

Por esse tempo o senhor chantre, uma manhã, depois do seu almoço
d'açorda, cahiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternação
inesperada para a S. Joanneira! Durante dois dias, esguedelhada, em
saias brancas, chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assumpção, as
snr.^{as} Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dôr: e a snr.^a D.
Josepha Dias resumiu as consolações de todas, dizendo:

--Deixa, filha, que te não ha de faltar quem te ampare!

Era então no começo de setembro; a snr.^a D. Maria da Assumpção, que
tinha uma casa na praia da Vieira, propôz levar a S. Joanneira e Amelia
para a estação dos banhos, para ella espalhar, nos bons ares saudaveis,
em logar differente, aquella dôr.

--É uma esmola que me fazes, dissera a S. Joanneira. Sempre me lembra
que era alli que elle punha o guardachuva... Alli que elle se sentava a
vêr-me costurar!

--Está bom, está bom, deixa-te d'isso. Come e bebe, toma os teus banhos,
e o que lá vai lá vai. Olha que elle tinha bem os seus sessenta.

--Ah, minha rica! a gente é pela amizade que lhes ganha!

Amelia tinha então quinze annos, mas era já alta e de bonitas fórmas.
Foi uma alegria para ella a estação na Vieira! Nunca vira o mar; e não
se fartava de estar sentada na areia, fascinada pela vasta agua azul,
muito mansa, cheia de sol; ás vezes no horisonte passava um fumo delgado
de paquete; a monotona e gemente cadencia da vaga adormentava-a; e em
redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o céo azul-ferrete.

Como se lembrava bem! Logo pela manhã estava a pé. Era a hora do banho:
as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras,
sentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar,
palrando; os homens, de sapatos brancos, estendidos em esteiras,
chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; emquanto o poeta Carlos
Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava só, soturno, junto da
vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ella sahia então da barraca com o seu
vestido de flanella azul, a toalha no braço, tiritando de susto e de
frio: tinha-se persignado ás escondidas e toda tremula, agarrada á mão
do banheiro, escorregando na areia, entrava na agua, rompendo a custo a
maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ella
mergulhava, e ficava aos saltos, suffocada e nervosa, cuspindo a agua
salgada. Mas, quando sahia do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a
toalha pela cabeça, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso
do vestido encharcado, risonha, cheia de reacção; e em redor vozes
amigas perguntavam:

--Então que tal, que tal? Mais fresquinha, hein?

Depois, de tarde, eram os passeios à beira-mar, a apanhar conchinhas; o
recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros,
luzidia sobre a areia molhada; e que longas perspectivas de occasos
ricamente dourados, sobre a vastidão do mar triste, que escurece e geme!

D. Maria da Assumpção tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz,
filho do snr. Brito de Alcobaça, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia
frequentar o quinto anno de direito na Universidade. Era um moço
delgado, de bigode castanho, pera, cabello comprido deitado para traz, e
luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anecdotas de
caloiros, fazia _partidas_, e era famoso na Vieira, entre os homens,
«por saber conversar com senhoras».

--O Agostinho, patife! diziam. É chalaça a esta, chalaça áquella. Lá
para sociedade não ha outro!

Logo desde os primeiros dias Amelia reparou que os olhos do snr.
Agostinho Brito se fitavam constantemente n'ella, «p'ra namoro». Amelia
córava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e
admirava-o, achava-o muito «dengueiro».

Um dia em casa da snr.^a D. Maria da Assumpção pediram a Agostinho para
recitar.

--Oh, minhas senhoras, isto aqui não é forja de ferreiro! exclamou elle,
jovial.

--Ora vá! não se faça rogado, disseram, insistindo.

--Bem, bem, por isso não nos havemos de zangar.

--A _Judia_, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaça.

--Qual _Judia_! disse elle, ha de ser mas ha do ser a _Morena_!--E olhou
para Amelia.--Foi uma poesia que fiz hontem.

--Valeu, valeu!

--E cá o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de caçadores, tomando
logo a guitarra.

Fez-se um silencio: o snr. Agostinho deitou o cabello para traz, fincou
a luneta, apoiou as duas mãos ás costas d'uma cadeira, e fitando Amelia:

--Á _Morena_ de Leiria! disse.


Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria é famosa,
Tens a frescura da rosa,
E o teu nome sabe a mel...


--Perdão! exclamou o recebedor, a snr.^a D. Juliana não está boa...

Era a filha do escrivão de direito de Alcobaça; tinha-se feito muito
pallida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com os **braços**
pendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de agua, levaram-n'a
para o quarto de Amelia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram
vinagre a respirar, ergueu-se sobre o cotovêlo, olhou em redor,
começaram a tremer-lhe os beiços e rompeu a chorar. Fóra, os homens em
grupo, commentavam:

--Foi o calor, diziam.

--O calor que ella tinha sei eu... rosnou o sargento de caçadores.

O snr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a
casa acompanhar a snr.^a D. Juliana. D. Maria da Assumpção e a S.
Joanneira, atabafadas nos seus chales, iam tambem. Havia vento, um
criado levava um lampeão, e todos caminhavam na areia, calados.

--Tudo isto é teu proveito, disse a snr.^a D. Maria da Assumpção baixo á
S. Joanneira, demorando-se um pouco atraz.

--Meu!?

--Teu. Pois tu não percebeste? A Juliana, em Alcobaça, era namoro do
Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beiço pela Amelia. A Juliana
percebeu, viu-o recitar aquelles versos, olhar para ella, zás!

--Ora essa!... disse a S. Joanneira.

--Deixa lá, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as
tias. É um partidão!

Ao outro dia, á hora do banho, a S. Joanneira vestia-se na sua barraca,
e Amelia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.

--Olá! sósinha! disse uma voz por detraz.

Era Agostinho. Amelia, calada, começou a riscar a areia com a sombrinha.
O snr. Agostinho suspirou, alisou outro pedaço d'areia com o pé,
escreveu--Amelia. Ella, muito vermelha, quiz apagar com a mão.

--Então! disse elle. E debruçando-se, baixo:--É o nome da _Morena_, bem
vê. _O seu nome sabe a mel!_...

Ella sorriu:

--Ande que fez hontem desmaiar aquella pobre Juliana, disse.

--Ora! importa-me a mim bem com ella! Estou farto d'aquelle estafermo!
Então que quer? Eu cá sou assim. Tanto digo que me não importo com ella,
como digo que ha uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...

--Quem é? É a snr.^a D. Bernarda?

Era uma velha hedionda, viuva de um coronel.

--É, disse elle rindo. É justamente por quem eu ando apaixonado, é pela
D. Bernarda.

--Ah! o senhor anda apaixonado! disse ella devagar, com os olhos baixos,
riscando a areia.

--Diga-me uma coisa, está a mangar commigo? exclamou Agostinho puxando
uma cadeirinha, sentando-se junto d'ella.

Amelia pôz-se de pé.

--Não quer que eu me sente ao pé de si? perguntou elle offendido.

--Eu é que estava cansada de estar sentada.

Calaram-se um momento.

--Já tomou banho? disse ella.

--Já.

--Estava frio hoje?

--Estava.

As palavras de Agostinho eram agora muito sêccas.

--Zangou-se? disse ella dôcemente, pondo-lhe de leve a mão no hombro.

Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo
risonho, exclamou com vehemencia:

--Estou mesmo doido por si!

--Chut!... disse ella.

A mãi de Amelia, levantando o pano da barraca, sahia, muito abafada, de
lenço amarrado na cabeça.

--Mais fresquinha, hein? perguntou logo Agostinho, tirando o chapéo de
palha.

--Estava por aqui?

--Vim dar uma vista d'olhos. E agora toca ao almocinho, hein?

--Se é servido... disse a S. Joanneira.

Agostinho, muito galante, offereceu o braço á mamã.

E desde então seguia sempre Amelia, de manhã no banho, de tarde á
beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos--o
_Sonho_. Uma estrophe era violenta:


Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...


Ella murmurava-os com grande commoção, de noite, suspirando, abraçando o
travesseiro.

Outubro findava, as férias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da
snr.^a D. Maria da Assumpção e das amigas fôra dar um passeio ao luar. Á
volta, porém, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o céo, cahíram
gotas d'agua. Estavam então junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras,
aos gritinhos, quizeram abrigar-se. Agostinho, com Amelia pelo braço,
rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e então, sob o
monotono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:

--Estou doido por ti, filha!

--Creio lá n'isso! murmurou ella.

Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:

--Sabes? talvez eu tenha de me ir ámanhã embora.

--Vai-se?

--Talvez; não sei ainda. Além d'ámanhã é a matricula.

--Vai-se... suspirou Amelia.

Elle então tomou-lhe a mão, apertou-lh'a com furor:

--Escreve-me! disse.

--E a mim escreve-me? disse ella.

Agostinho agarrou-a pelos hombros e machucou-lhe a boca de beijos
vorazes.

--Deixe-me! deixe-me! dizia ella suffocada.

De repente teve um gemido dôce como um arrulho de ave, e
abandonava-se--quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:

--Ha uma aberta. É andar! é andar!

E Amelia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o
guardachuva da mamã.

Ao outro dia, com effeito, o snr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras
chuvas, e dentro em pouco tambem Amelia, a mãi, a snr.^a D. Maria da
Assumpção voltaram para Leiria.

Passou o inverno.

E um dia, em casa da S. Joanneira, D. Maria da Assumpção deu parte que o
Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaça, tinha o casamento
justo com a menina do Vimeiro.

--Caspitè! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus
trinta contos! Olha o méco!

E diante de todos Amelia rompeu a chorar.

Amava Agostinho; e não podia esquecer aquelles beijos de noite no
pinheiral cerrado. Pareceu-lhe então que não tornaria a ter alegria!
Ainda lembrada d'aquelle moço da historia do _Tio Cegonha_, que por amor
se escondera na solidão de um convento, começou a pensar em ser freira:
deu-se a uma forte devoção, manifestação exagerada das tendencias que
desde pequenina as convivencias de padres tinham lentamente creado na
sua natureza sensivel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes
do quarto de lithographias coloridas de santos; passava longas horas na
igreja, accumulando Salve-Rainhas á Senhora da Encarnação. Ouvia todos
os dias missa, quiz commungar todas as semanas--e as amigas da mãi
achavam-na «um modêlo, de dar virtude a incredulos»!

Foi por esse tempo que o conego Dias e sua irmã, a snr.^a D. Josepha
Dias, começaram a frequentar a casa da S. Joanneira. Dentro em pouco o
conego tornou-se o «amigo da familia». Depois do almoço era certo com a
sua cadellinha, como outr'ora o chantre com o seu guardachuva.

--Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joanneira. Mas o
senhor chantre não ha dia nenhum que me não lembre d'elle!

A irmã do conego tinha então organisado com a S. Joanneira a _Associação
das Servas da Senhora da Piedade_. A snr.^a D. Maria da Assumpção, as
Gansosos «filiaram-se»; e a casa da S. Joanneira tornou-se um centro
ecclesiastico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joanneira; «a Sé,
como dizia com tedio o Carlos da botica, era agora na rua da
Misericordia». Parte dos conegos, o novo chantre vinham todas as
sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha.
As criadas, por escrupulo, eram examinadas em doutrina antes de serem
aceitas. Alli muito tempo fizeram-se as reputações: se se dizia de um
homem--_não é temente a Deus_, havia o dever de o desacreditar
santamente. As nomeações de sineiros, coveiros, serventes de sacristia
arranjavam-se alli por intrigas subtis e palavras piedosas. Tinham
tomado um certo vestuario entre o preto e o rôxo: toda a casa cheirava a
cera e a incenso; e a S. Joanneira, mesmo, monopolisára o commercio das
hostias.

Assim passaram annos. Pouco a pouco, porém, o grupo devoto dispersou-se:
a ligação do conego Dias e da S. Joanneira, muito commentada, afastou os
padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tambem--como era
de tradição n'aquella diocese, fatal aos chantres; e já não eram
divertidos os quinos das sextas-feiras. Amelia mudára muito; crescera:
fizera-se uma bella moça de vinte e dois annos, d'olhar avelludado,
beiços muito frescos--e achava a sua paixão pelo Agostinho uma «tontice
de criança». A sua devoção subsistia, mas alterada: o que amava agora na
religião e na igreja era o apparato, a festa--as bellas missas cantadas
ao orgão, as capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o
altar-mór na gloria das flôres cheirosas, o roçar das correntes dos
incensadores de prata, os unisonos que rompem briosamente no côro das
alleluias. Tomava a Sé como a sua Opera: Deus era o seu luxo. Nos
domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com agua de
colonia, de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mór, sorrindo ao padre
Brito ou ao conego Saldanha.--Mas em certos dias, como dizia a mãi,
«murchava»: voltavam então os abatimentos d'outr'ora, que a amarellavam,
lhe punham duas rugas velhas ao canto dos labios: tinha n'essas
occasiões horas d'uma vaga saudade parva e morbida, em que só a
consolava cantar pela casa o Santissimo ou as notas lugubres do toque da
Agonia. Com a alegria voltava-lhe o gosto do culto alegre--e lamentava
então que a Sé fosse uma ampla estructura de pedra d'um estylo frio e
jesuitico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada,
forrada de papel, illuminada a gaz; e padres bonitos officiando a um
altar ornado como uma _étagère_.

Fizera vinte e tres annos quando conheceu João Eduardo, no dia da
procissão de _Corpus-Christi_, em casa do tabellião Nunes Ferral, onde
elle era escrevente. Amelia, a mãi, a snr.^a D. Josepha Dias tinham ido
vêr a procissão da bella varanda do tabellião, guarnecida de colchas de
damasco amarello. João Eduardo estava lá, modesto, sério, todo vestido
de preto. Havia muito que Amelia o conhecia; mas n'aquella tarde,
reparando na brancura da sua pelle e na gravidade com que ajoelhava,
pareceu-lhe «muito bom rapaz».

Á noite, depois do chá, o gordalhufo Nunes, de collete branco, foi pela
sala exclamando, enthusiasmado, com a sua voz de grillo:--É tirar pares,
é tirar pares!--emquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio
estridente uma mazurka franceza. João Eduardo aproximou-se de Amelia:

--Ai, eu não danso!... disse ella logo com ar sêcco.

João Eduardo não dansou tambem, foi encostar-se a uma hombreira com a
mão na abertura do collete, os olhos fitos em Amelia. Ella percebia,
desviava o rosto, mas estava contente; e quando João Eduardo, vendo uma
cadeira vazia, veio sentar-se ao pé d'ella, Amelia fez-lhe logo logar
accommodando os folhos de sêda, agradada. O escrevente, embaraçado,
torcia o bigode com a mão tremula. Por fim Amelia voltando-se para elle:

--Então o senhor não dansa tambem?

--E a snr.^a D. Amelia? disse elle baixo.

Ella inclinou-se para traz, e batendo nas pregas do vestido:

--Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa séria.

--Nunca se ri? perguntou elle, pondo na voz uma intenção fina.

--Ás vezes rio quando ha de quê, disse ella olhando-o de lado.

--De mim, por exemplo.

--De si!? ora essa! Está a caçoar commigo? Porque me hei de eu rir do
senhor? Boa!... Então o senhor que tem que faça rir?--E agitava o seu
leque de sêda preta.

Elle calou-se, procurando as idéas, as delicadezas.

--Então sério, sério, não dansa?

--Já lhe disse que não. Ai, que é tão perguntador!

--É porque me interesso por si.

--Ora, deixe lá! disse ella fazendo um indolente gesto de negativa.

--Palavra!

Mas a snr.^a D. Josepha Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa
muito franzida--e João Eduardo levantou-se, intimidado.

Á sahida, quando Amelia no corredor punha os seus agasalhos, João
Eduardo veio dizer-lhe, de chapéo na mão:

--Cubra-se bem, não apanhe frio!

--Então continúa a interessar-se por mim? disse ella apertando em redor
do pescoço as pontas da sua manta de lã.

--O mais possivel, creia.

Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de _zarzuela_.
Fallava-se muito da contralto, a _Gamacho_. A snr.^a D. Maria da
Assumpção tinha um camarote, levou a S. Joanneira e Amelia--que duas
noites antes estivera costurando, com uma pressa commovida, um vestido
de cassa todo florido de laços de sêda azul. João Eduardo na
platéa--emquanto a Gamacho, empastada de pó de arroz sob a sua mantilha
valenciana, vibrando com uma graça decrepita o leque de lentejoulas,
garganteava malaguenhas agudas--não se fartou de contemplar, de desejar
Amelia. Á sahida veio comprimental-a, offerecer-lhe o braço até á rua da
Misericordia: a S. Joanneira, a snr.^a D. Maria da Assumpção seguiam
atraz com o tabellião Nunes.

--Então gostou da Gamacho, snr. João Eduardo?

--A fallar-lhe a verdade nem sequer reparei n'ella.

--Então que fez?

--Olhei para si, respondeu elle resolutamente.

Ella parou immediatamente, disse com a voz um pouco alterada:

--Onde vem a mamã?

--Deixe lá a mamã!

E João Eduardo, então, fallando-lhe junto do rosto, disse-lhe «a sua
grande paixão». Tomou-lhe a mão, repetia todo perturbado:

--Gósto tanto de si! Gósto tanto de si!

Amelia estava nervosa da musica do theatro; a noite quente de verão, com
a sua vasta scintillação de estrellas, tornava-a toda languida.
Abandonou a mão, suspirou baixinho.

--Gosta de mim, não é verdade? perguntou elle.

--Sim, respondeu ella--e apertou os dedos de João Eduardo, com paixão.

Mas, como ella pensou, «fôra decerto um fogacho»--porque, dias depois,
quando conheceu mais João Eduardo, quando pôde fallar livremente com
elle, reconheceu que «não tinha nenhuma inclinação pelo rapaz».
Estimava-o, achava-o sympathico, bom moço; poderia ser um bom marido;
mas sentia dentro em si o coração adormecido.

O escrevente porém começou a ir á rua da Misericordia quasi todas as
noites. A S. Joanneira estimava-o pelo seu «proposito» e pela sua
honradez. Mas Amelia ia-se mostrando «fria»: esperava-o á janella pela
manhã quando elle passava para o cartorio, fazia-lhe olhos dôces á
noite,--mas só para o não descontentar, para ter na sua existencia
desoccupada um interessesinho amoroso.

João Eduardo um dia fallou à mãi em casamento:

--Como a Amelia quizer, eu por mim... disse a S. Joanneira.

E Amelia, consultada, respondeu ambiguamente:

--Mais tarde, por ora não me parece, veremos.

Emfim accordou-se tacitamente em esperar, até que elle obtivesse o lugar
de amanuense do governo civil, rasgadamente promettido pelo doutor
Godinho--o temido doutor Godinho!

Assim vivera Amelia até à chegada d'Amaro: e, durante a noite, estas
recordações vinham-lhe por fragmentos, como pedaços de nuvens que o
vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou já o sol ia
alto: e espreguiçava-se, quando ouviu dizer a _Ruça_ na sala de jantar:

--É o senhor parocho que vai sahir com o senhor conego; vão á Sé.

Amelia saltou da cama, correu á janella em camisa, ergueu uma pontinha
da cortina de cassa, olhou. A manhã resplandecia: e o padre Amaro pelo
meio da rua conversando com o conego, assoava-se ao seu lenço branco,
muito airoso na sua batina de pano fino.




VI


Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em commodidades,
Amaro sentiu-se feliz. A S. Joanneira, muito maternal, tomava um grande
cuidado na sua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o «quarto do
senhor parocho andava que nem um brinco»! Amelia tinha com elle uma
familiaridade picante de parenta bonita: «tinham calhado um com outro»,
como dissera, encantada, D. Maria da Assumpção. Os dias iam assim
passando para Amaro, faceis, com boa mesa, colchões macios e a
convivencia meiga de mulheres. A estação ia tão linda que até as tilias
floresceram no jardim do Paço: «quasi milagre»! disse-se: o senhor
chantre, contemplando-as todas as manhãs da janella do seu quarto, em
robe-de-chambre, citava versos das _Eclogas_. E depois das longas
tristezas da casa do tio da Estrella, dos desconsolos do seminario e do
aspero inverno na Gralheira--aquella vida em Leiria era para Amaro como
uma casa sêcca e abrigada onde o alegre lume estala e a sôpa cheirosa
fumega, depois d'uma noite de jornada na serra, sob trovões e chuveiros.

Ia cedo dizer missa à Sé, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas
de casimira, meias de lã por baixo das botas de alto cano vermelho. As
manhãs estavam frias: e àquella hora só algumas devotas, com o mantéo
escuro pela cabeça, rezavam aqui e além, ao pé d'um altar envernizado de
branco.

Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os pés no
lagedo, emquanto o sacristão, pachorrento, contava «as novidades do
dia».

Depois, com o calice na mão, d'olhos baixos, passava á igreja; e tendo
dobrado o joelho rapidamente diante do Santissimo Sacramento, subia
devagar ao altar onde as duas velas de cera esmoreciam com uma claridade
pallida na larga luz da manhã, juntava as mãos, murmurava, curvado:

--_Introibo ad altare Dei._

--_Ad Deum qui lætificat juventutem meam_, resmungava, n'um latim
syllabado, o sacristão.

Amaro já não celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma
devoção enternecida. «Estava agora habituado», dizia. E como não ceava,
e áquella hora, em jejum, com a frescura cortante do ar, já sentia
appetite, engorolava depressa, monotonamente, as santas leituras da
Epístola e dos Evangelhos. Por traz o sacristão, com os braços cruzados,
passava vagarosamente a mão pela sua espessa barba bem rapada, olhando
de revez para a Casimira França, mulher do carpinteiro da Sé, muito
devota, que elle «trazía d'olho» desde a Paschoa. Largas resteas de sol
cahiam das janellas lateraes. Um vago aroma de junquilhos sêccos
adocicava o ar.

Amaro, depois de recitar rapidamente o Offertorio, limpava o calice com
o purificador; o sacristão, um pouco vergado dos rins, ia buscar as
galhetas, apresentava-as, curvado--e Amaro sentia o cheiro do oleo
rançoso que lhe reluzia no cabello. N'aquella parte da missa, por um
antigo habito de emoção mystica, Amaro tinha um recolhimento sentido:
com os braços abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza,
a exhortação universal á oração--_Orate, fratres!_ E as velhas
encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa,
apertavam mais as mãos contra o peito, d'onde pendiam grandes rosarios
negros. Então o sacristão ia ajoelhar-se por traz d'elle, sustentando
ligeiramente com uma das mãos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro
consagrava o vinho, levantava a hostia--_Hoc est enim corpus
meum!_--elevando alto os braços para o Christo cheio de chagas rôxas
sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mãos
batiam concavamente nos peitos; e no silencio sentiam-se os carros de
bois rolando, com solavancos, sobre o largo lageado da Sé, à volta do
mercado.

--_Ite, missa est!_ dizia Amaro emfim.

--_Deo gratias!_ respondia o sacristão respirando alto, com o allivio da
obrigação finda.

E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus
dar a benção, era já pensando na alegria do almoço, na clara sala de
jantar da S. Joanneira e nas boas torradas. Áquella hora já Amelia o
esperava com o cabello cahido sobre o penteador, tendo na pelle fresca
um bom cheiro de sabão d'amendoas.


Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia à sala de jantar onde a S.
Joanneira e Amelia costuravam. «Estava aborrecido em baixo, vinha um
bocado para o cavaco», dizia. A S. Joanneira, n'uma cadeira pequena, ao
pé da janella, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia
de luneta na ponta do nariz. Amelia, junto da mesa, trabalhava com o
cesto da costura ao lado: a cabeça inclinada sobre o trabalho mostrava a
sua risca fina, nitida, um pouco afogada na abundancia do cabello; os
seus grandes brincos de ouro, em fórma de pingos de cera, oscillavam,
faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoço uma pequenina sombra;
as olheiras leves côr de _bistre_ esbatiam-se delicadamente sobre a
pelle de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu
peito cheio respirava devagar. Ás vezes, cravando a agulha na fazenda,
espreguiçava-se devagarinho, sorria, cansada. Então Amaro gracejava:

--Ah preguiçosa, preguiçosa! Olha que mulher de casa!

Ella ria; conversavam. A S. Joanneira sabia as coisas interessantes do
dia: o major despedira a criada; ou havia quem offerecesse dez moedas
pelo porco do Carlos do correio. De vez em quando a _Ruça_ vinha ao
armario buscar um prato ou uma colhér: então fallava-se do preço dos
generos, do que havia para o jantar. A S. Joanneira tirava as lunetas,
traçava a perna e, balouçando o pé calçado n'uma chinela d'ourelo,
punha-se a dizer os pratos:

--Hoje temos grão de bico. Não sei se o senhor parocho gostará, foi para
variar...

Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria
affinidade de gostos com Amelia.

Depois, animando-se, bolia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrára
uma carta; perguntou-lhe pelo _derriço_; ella respondeu, picando
vivamente o posponto:

--Ai! a mim ninguem me quer, senhor parocho...

--Não é tanto assim, acudiu elle.--Mas suspendeu-se, muito vermelho,
affectando tossir.

Amelia ás vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo pediu-lhe para
sustentar nas mãos uma meadinha de retroz que ella ia dobar.

--Deixe fallar, senhor parocho! exclamou a S. Joanneira. Ora a tolice!
Isto, em se lhe dando confiança!...

Mas Amaro promptificou-se, rindo, todo contente:--elle estava alli para
o que quizessem, até para dobadoura! Era mandarem, era mandarem! E as
duas mulheres riam, d'um riso calido, enlevadas n'aquellas maneiras do
senhor parocho, «que até tocavam o coração»! Ás vezes Amelia pousava a
costura e tomava o gato no collo; Amaro chegava-se, corria a mão pela
espinha do _Maltez_ que se arredondava, fazendo um _ron-ron_ de gozo.

--Gostas? dizia ella ao gato, um pouco córada, com os olhos muito
ternos.

E a voz de Amaro murmurava, perturbada:

--Bichaninho gato! bichaninho gato!

Depois a S. Joanneira erguia-se para dar o remedio á idiota ou ir palrar
á cozinha. Elles ficavam sós; não fallavam, mas os seus olhos tinham um
longo dialogo mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente.
Então Amelia cantarolava baixo o _Adeus_ ou o _Descrente_: Amaro
accendia o seu cigarro, e escutava bamboleando a perna.

--É tão bonito isso! dizia.

Amelia cantava mais accentuadamente, cosendo depressa; e a espaços,
erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o posponto, passando-lhe por
cima, para o assentar, a sua unha polida e larga.

Amaro achava aquellas unhas admiraveis, porque tudo que era _ella_ ou
vinha d'_ella_ lhe parecia perfeito: gostava da côr dos seus vestidos,
do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabellos, e olhava até
com ternura para as saias brancas que ella punha a seccar á janella do
seu quarto, enfiadas n'uma cana. Nunca estivera assim na intimidade
d'uma mulher. Quando percebia a porta do quarto d'ella entreaberta, ia
resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas d'um
paraiso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficára
sobre o bahú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar
os dentes, todo pallido. E não se saciava de a vêr fallar, rir, andar
com as saias muito engommadas que batiam as hombreiras das portas
estreitas. Ao pé d'ella, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava
que era padre: o Sacerdocio, Deus, a Sé, o Peccado ficavam em baixo,
longe; via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como d'um monte se
vêem as casas desapparecer no nevoeiro dos valles; e só pensava então na
doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou
mordicar-lhe a orelhinha.

Ás vezes revoltava-se contra estes desfallecimentos, batia o pé:

--Que diabo, é necessario ter juizo! é necessario ser homem!

Descia, ia folhear o seu Breviario; mas a voz de Amelia fallava em cima,
o _tic-tic_ das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoção cahia
como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá
voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cerebro, frementes,
arrulhando, roçando-se umas pelas outras como um bando de pombas que
recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, soffria. E lamentava então a
sua liberdade perdida: como desejaria não a vêr, estar longe de Leiria,
n'uma aldeia solitaria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia
de proverbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces
verdejam e os gallos cacarejam ao sol! Mas Amelia, de cima, chamava-o--e
o encanto recomeçava, mais penetrante.

A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor
do dia. A S. Joanneira trinchava, emquanto Amaro conversava cuspindo os
caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre a toalha.
A _Ruça_, cada dia mais etica, servia mal, sempre a tossir: Amelia ás
vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro
queria levantar-se logo, attencioso.

--Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor parocho! dizia ella. E
punha-lhe a mão no hombro, e os seus olhos encontravam-se.

Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estomago,
sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo
copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; ás vezes mesmo,
com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amelia debaixo
da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia «que muito lhe pezava não ter
uma irmãzinha assim»!

Amelia gostava de ensopar o miolo de pão no môlho do guisado; a mãi
dizia-lhe sempre:

--Embirro que faças isso diante do senhor parocho.

E elle então rindo:

--Pois olhe, também eu gósto. Sympathia! magnetismo!

E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas. Mas o
crepusculo crescia, a _Ruça_ trazia o candieiro. O brilho dos copos e
das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava á S. Joanneira
_mamã_; Amelia sorria, d'olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes
cascas de tangerina. D'ahi a pouco vinha o café; o o padre Amaro ficava
muito tempo partindo nozes com as costas da faca e quebrando a cinza do
cigarro na borda do pires.

Áquella hora apparecia sempre o conego Dias; sentiam-no subir
pesadamente, dizendo da escada:

--Licença para dois!

Era elle e a cadella, a _Trigueira_.

--Ora Nosso Senhor nos dê muito boas noites! dizia assomando á porta.

--Vai a gotinha de café, senhor conego? perguntava logo a S. Joanneira.

Elle sentava-se, exhalando um profundo _uff!_--Vá lá a gotinha do café!
E batendo no hombro do parocho, olhando para a S. Joanneira:

--Então como vai cá o seu menino?

Riam; vinham as historias do dia. O conego costumava trazer no bolso o
_Diario Popular_; Amelia interessava-se pelo romance, a S. Joanneira
pelas correspondencias amorosas nos annuncios.

--Ora vejam que pouca vergonha!... dizia ella, deliciando-se.

Amaro então fallava de Lisboa, de escandalos que lhe contára a tia, dos
fidalgos que conhecera «em casa do senhor conde de Ribamar». Amelia,
enlevada, escutava-o com os cotovêlos sobre a mesa, roendo vagarosamente
a ponta do palito.

Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia à
cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas
negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma maçã
raineta, fazendo debaixo da roupa uma saliencia quasí imperceptivel,
fixava em todos, com custo, os seus olhinhos concavos e chorosos.

--É o senhor parocho, tia Gertrudes! gritava-lhe Amelia ao ouvido. Vem
vêr como está.

A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:

--Ah! é o menino!

--É o menino, é, diziam rindo.

E a velha ficava a murmurar, espantada:

--É o menino, é o menino!

--Pobre de Christo! dizia Amaro. Pobre de Christo! Deus lhe dê uma boa
morte!

E voltavam para a sala de jantar onde o conego Dias, todo enterrado na
velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o ventre,
dizia logo:

--Ora vá um bocadinho de musica, pequena!

Amelia ia sentar-se ao piano.

--Ó filha, toca o _Adeus_! recommendava a S. Joanneira começando a sua
meia.

E Amelia, ferindo o teclado:


Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado...


A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro, soprando o fumo do
cigarro, sentia-se todo enleado n'um sentimentalismo agradavel.


Quando descia para o seu quarto, à noite, ia sempre exaltado. Punha-se
então a lêr os _Canticos a Jesus_, traducção do francez publicada pela
sociedade das _Escravas de Jesus_. É uma obrasinha beata, escripta com
um lyrismo equivoco, quasi torpe--que dá á oração a linguagem da
luxuria: Jesus é invocado, reclamado com as sofreguidões balbuciantes
d'uma concupiscencia allucinada: «Oh! vem, amado do meu coração, corpo
adoravel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixão e desespero!
Abraza-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possue-me!» E um amor divino, ora
grotesco pela intenção, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge,
declama assim em cem paginas inflammadas onde as palavras _gozo_,
_delicia_, _delírio_, _extase_, voltam a cada momento, com uma
persistencia hysterica. E depois de monologos phreneticos d'onde se
exhala um bafo de cio mystico, vêm então imbecilidades de sacristia,
notasinhas beatas resolvendo casos difficeis de jejuns, e orações para
as dôres de parto! Um bispo approvou aquelle livrinho bem impresso; as
educandas lêem-n'o no convento. É beato e excitante; tem as eloquencias
do erotismo, todas as pieguices da devoção; encaderna-se em marroquim e
dá-se ás confessadas: é a cantharida canonica!

Amaro lia até tarde, um pouco perturbado por aquelles periodos sonoros,
tumidos de desejo; e no silencio, por vezes, sentia em cima ranger o
leito de Amelia: o livro escorregava-lhe das mãos, encostava a cabeça ás
costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe vêl-a em collete
diante do toucador desfazendo as trancas; ou, curvada, desapertando as
ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios
muito brancos. Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decisão brutal de
a possuir.

Começára então a recommendar-lhe a leitura dos _Canticos a Jesus_.

--Verá, é muito bonito, de muita devoção! disse elle, deixando-lhe o
livrinho uma noite no cesto da costura.

Ao outro dia, ao almoço, Amelia estava pallida, com as olheiras até ao
meio da face. Queixou-se de insomnia, de palpitações.

--E então, gostou dos _Canticos_?

--Muito. Orações lindas! respondeu.

Durante lodo esse dia não ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste--e
sem razão, ás vezes, o rosto abrazava-se-lhe de sangue.


Os peores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando
João Eduardo vinha passar as noites «em familia». Até ás nove horas o
parocho não sahia do quarto; e quando subia para o chá desesperava-se de
vêr o escrevente embrulhado no seu chale-manta, sentado junto de Amelia.

--Ai o que estes dois têm para ahi palrado, senhor parocho! dizia a S.
Joanneira.

Amaro tinha um sorriso livido, partindo devagar a sua torrada, com os
olhos fitos na chavena.

Amelia, na presença de João Eduardo, agora, não tinha com o parocho a
mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o
escrevente calado chupava o cigarro; e havia grandes silencios em que se
sentia o vento uivar, encanado na rua.

--Olha quem andar agora nas aguas do mar! dizia a S. Joanneira fazendo
devagar a sua meia.

--Safa!... acrescentava João Eduardo.

As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro: detestava-o
pela sua pouca devoção, pelo seu bonito bigode preto. E diante d'elle
sentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.

--Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joanneira.

--Estou tão cansada! respondia Amelia apoiando-se nas costas da cadeira,
com um suspirosinho de fadiga.

A S. Joanneira, então, que não gostava de «vêr gente mona», propunha uma
_bisca de tres_; e o padre Amaro, tomando o seu candieiro de latão,
descia para o quarto, muito infeliz.

N'essas noites quasi detestava Amelia; achava-a _casmurra_. A intimidade
do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidia mesmo fallar á S.
Joanneira, dizer-lhe «que aquelle namoro de portas a dentro não podia
ser agradavel a Deus». Depois, mais razoavel, resolvia esquecel-a,
pensava em sahir da casa, da parochia. Representava-se então Amelia com
a sua corôa de flôres de laranjeira, e João Eduardo, muito vermelho, de
casaca, voltando da Sé, casados... Via a cama de noivado com os seus
lençoes de renda... e todas as provas, as certezas do amor d'ella pelo
«idiota do escrevente» cravavam-se-lhe no peito como punhaes...

--Pois que casem, e que os leve o diabo!...

Odiava-a então. Fechava violentamente a porta à chave como para impedir
que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o _frou-frou_ das
suas saias. Mas d'ahi a pouco, como todas as noites, escutava com o
coração aos saltos, immovel e ancioso, os ruidos que ella fazia em cima
ao despir-se, palrando ainda com a mãi.


Um dia Amaro jantára em casa da snr.^a D. Maria da Assumpção; fôra
depois passear pela estrada de Marrases, e á volta, ao fim da tarde,
encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no
patamar, estavam os chinelos de ourelo da _Ruça_.

--Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi á fonte e esqueceu-se de fechar a
porta.

Lembrou-se que Amelia tinha ido passar a tarde com a snr.^a D. Joaquina
Gansoso, n'uma fazenda ao pé da Piedade, e que a S. Joanneira fallára em
ir á irmã do conego. Fechou devagar a cancella, subiu á cozinha a
accender o seu candieiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da
manhã, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos não faziam
rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da
S. Joanneira, através do reposteiro de chita, uma tosse grossa;
surprehendido, afastou subtilmente um lado do reposteiro, e pela porta
entreaberta espreitou.--Oh Deus de Misericordia! a S. Joanneira, em saia
branca, atacava o collete; e, sentado á beira da cama, em mangas de
camisa, o conego Dias resfolegava grosso!

Amaro desceu, collado ao corrimão, fechou muito devagarinho a porta, e
foi ao acaso para os lados da Sé. O céo ennevoára-se, leves gotas de
chuva cahiam.

--E esta! E esta! dizia elle assombrado.

Nunca suspeitára um tal escandalo! A S. Joanneira, a pachorrenta S.
Joanneira! O conego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os impetos
do sangue novo, já na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrição,
as dignidades ecclesiasticas! Que faria então um homem novo e forte, que
sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!...
Era, pois, verdade o que se cochichava no seminario, o que lhe dizia o
velho padre Sequeira, cincoenta annos parocho da Gralheira:--«Todos são
do mesmo barro!» Todos são do mesmo barro,--sobem em dignidades, entram
nos cabidos, regem os seminarios, dirigem as consciencias envoltos em
Deus como n'uma absolvição permanente, e têm no emtanto, n'uma viella,
uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vão repousar das attitudes
devotas e da austeridade do officio, fumando cigarros de estanco e
palpando uns braços rechonchudos!

Vinham-lhe então outras reflexões: que gente era aquella, a S. Joanneira
e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um
velho conego? A S. Joanneira fora decerto bonita, bem feita,
desejavel--outr'ora! Por quantos braços teria passado até chegar, pelos
declives da idade, áquelles amores senis e mal pagos? As duas
mulherinhas, que diabo, não eram honestas! Recebiam hospedes, viviam da
concubinagem. Amelia ia sósinha á igreja, ás compras, á fazenda; e com
aquelles olhos tão negros, talvez já tivesse tido um amante!--Resumia,
filiava certas recordações: um dia que ella lhe estivera mostrando na
janella da cozinha um vaso de rainunculos, tinham ficado sós, e ella,
muito córada, puzera-lhe a mão sobre o hombro e os seus olhos reluziam e
pediam; outra occasião ella roçára-lhe o peito pelo braço! A noite
cahira, com uma chuva fina. Amaro não a sentia, caminhando depressa,
cheio de uma só idéa deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da
rapariga, como o conego era o amante da mãi! Imaginava já a boa vida
escandalosa e regalada; emquanto em cima a grossa S. Joanneira
beijocasse o seu conego cheio de difficuldades asthmaticas,--Amelia
desceria ao seu quarto, pé ante pé, apanhando as saias brancas, com um
chale sobre os hombros nús... Com que phrenesi a esperaria! E já não
sentia por ella o mesmo amor sentimental, quasi doloroso: agora a idéa
muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panellinha, dava
áquelle homem amarrado pelos votos uma satisfação depravada! Ia aos
pulinhos pela rua.--Que pechincha de casa!

A chuva cahía, grossa. Quando entrou havia já luz na sala de jantar.
Subiu.

--Ih, como vem frio! disse-lhe Amelia sentindo, ao apertar-lhe a mão, a
humidade da nevoa.

Sentada á mesa, costurava com um chale-manta pelos hombros: João
Eduardo, ao pé, jogava a bisca com a S. Joanneira.

Amaro sentou-se um pouco embaraçado; a presença do escrevente dera-lhe
de repente, sem saber porque, o duro choque d'uma realidade antipathica:
e todas as esperanças, que lhe tinham vindo a dansar uma sarabanda na
imaginação, encolhiam-se uma a uma, murchavam--vendo alli Amelia ao pé
do noivo, curvada sobre uma costura honesta, com o seu escuro vestido
afogado, junto do candieiro de familia!

E tudo em redor lhe apparecia como mais recatado, as paredes com o seu
papel de ramagens verdes, o armario cheio de louça luzidia da
Vista-Alegre, o sympathico e bojudo pote d'agua, o velho piano mal firme
nos seus tres pés torneados; o paliteiro tão querido de todos--um Cupido
rechonchudo com um guardachuva aberto erriçado de palitos, e aquella
tranquilla bisca jogada com os dichotes classicos. Tudo tão decente!

Affirmava-se então nas grossas roscas do pescoço da S. Joanneira, como
para descobrir n'ellas as marcas das beijocas do conego: ah! tu, não ha
duvida, és «uma barregã de clerigo ». Mas Amelia! com aquellas longas
pestanas descidas, o beiço tão fresco!... Ignorava decerto as
libertinagens da mãi; ou, experiente, estava bem resolvida a
estabelecer-se solidamente na segurança d'um amor legal!--E Amaro, da
sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do
seu rosto, da virgindade do seu passado.

--Cansadinho, senhor parocho, hein? disse a S. Joanneira. E para João
Eduardo:--Trunfo, faz favor, seu cabeça no ar?

O escrevente, namorado, distrahia-se.

--É o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joanneira a cada momento.

Depois elle esquecia-se de _comprar cartas_.

--Ah menino, menino! dizia ella com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo
essas orelhas!

Amelia ia cosendo com a cabeça baixa: tinha um pequeno casabeque preto
com botões de vidro, que lhe disfarçava a fórma do seio.

E Amaro irritava-se d'aquelles olhos fixos na costura, d'aquelle casaco
amplo escondendo a belleza que mais appetecia n'ella! E nada a esperar!
Nada d'ella lhe pertenceria, nem a luz d'aquellas pupillas, nem a
brancura d'aquelles peitos! Queria casar--e guardava _tudo_ para o
outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o então, d'um
odio complicado d'inveja ao seu bigode negro e ao seu direito d'amar...

--Está incommodado, senhor parocho? perguntou Amelia, vendo-o mexer-se
bruscamente na cadeira.

--Não, disse elle sêccamente.

--Ah! fez ella com um leve suspiro, picando rapidamente o posponto.

O escrevente, baralhando as cartas, começára a fallar de uma casa que
queria alugar; a conversa cahiu sobre arranjos domesticos.

--Traze-me luz! gritou Amaro à _Ruça_.

Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôz a vela sobre a commoda; o
espelho estava defronte, e a sua imagem appareceu-lhe; sentiu-se feio,
ridiculo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma colleira, e por
traz a corôa hedionda. Comparou-se instinctivamente com o outro que
tinha um bigode, o seu cabello todo, a sua liberdade! Para que hei de eu
estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu
nome, uma casa, a maternidade; elle só poderia dar-lhe sensações
criminosas, depois os terrores do peccado! Ella sympathisava talvez com
elle, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar;
nada mais natural! Via-se pobre, bonita, só: cubiçava uma situação
legitima e duradoura, o respeito das visinhas, a consideração dos
lojistas, todos os proveitos da honra!

Odiou-a então, e o seu vestido afogado, e a sua honestidade! A estupida,
que não percebia que ao pé d'ella, sob uma negra batina, uma paixão
devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciencia! Desejou
que ella fosse como a mãi,--ou peor, toda livre, com vestidos garridos,
uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma femea
facil como uma porta aberta ...

--Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada!--pensou,
recahíndo em si um pouco envergonhado. Está claro: não podemos pensar em
mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!

Abafava. Abriu a janella. O céo estava tenebroso; a chuva cessára; o
piar das corujas na Misericordia cortava só o silencio.

Enterneceu-se, então, com aquella escuridão, aquella mudez de villa
adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu sêr, o
amor que sentira ao principio por ella, muito puro, d'um sentimentalismo
devoto: via a sua linda cabeça, d'uma belleza transfigurada e luminosa,
destacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ella n'um
desfallecimento d'adoração, como no culto a Maria e na Saudação
Angelica; pediu-lhe perdão anciosamente de a ter offendido; disse-lhe
alto: És uma santa! perdôa!--Foi um momento muito dôce, de renunciamento
carnal...

E, espantado quasi d'aquellas delicadezas de sensibilidade que descobria
subitamente em si, pôz-se a pensar com saudade--que se fosse um homem
livre seria um marido tão bom! Amoravel, dedicado, dengueiro, sempre de
joelhos, todo d'adorações! Como amaria o _seu_ filho, muito
pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas! Á idéa d'aquellas felicidades
inaccessiveis, os olhos arrazaram-se-lhe de lagrimas. Amaldiçoou, n'um
desespero, «a pêga da marqueza que o fizera padre», e o bispo que o
confirmára!

--Perderam-me! perderam-me! diria, um pouco desvairado.

Sentiu então os passos de João Eduardo que descia, e o rumor das saias
de Amelia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no
beiço, de ciume. A cancella bateu, Amelia subiu cantarolando baixo.--Mas
a sensação d'amor mystico que o penetrára um momento, olhando a noite,
passára; e deitou-se, com um desejo furioso d'ella e dos seus beijos.




VII


Dias depois o padre Amaro e o conego Dias tinham ido jantar com o abbade
da Cortegassa.--Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia ha trinta
annos n'aquella freguezia e passava por ser o melhor cozinheiro da
diocese. Todo o clero das visinhanças conhecia a sua famosa _cabedella
de caça_. O abbade fazia annos, havia outros convidados--o padre Natario
e o padre Brito: o padre Natario era uma creaturinha biliosa, sêcca, com
dois olhos encovados, muito malignos, a pelle picada das bexigas e
extremamente irritavel. Chamavam-lhe o _Furão_. Era esperto e
questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma logica de
ferro; e dizia-se d'elle: _é uma lingua de vibora_! Vivia com duas
sobrinhas orphãs, declarava-se extremoso por ellas, gabava-lhes sempre a
virtude, e costumava chamar-lhes as _duas rosas do seu canteiro_. O
padre Brito era o padre mais estupido e mais forte da diocese; tinha o
aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beirão que maneja bem o
cajado, emborca um almude de vinho, péga alegremente á rabiça do arado,
serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas séstas quentes de
junho atira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O
senhor chantre, sempre correcto nas suas comparações mythologicas,
chamava-lhe--o _leão de Nemeia_.

A sua cabeça era enorme, de cabello lanigero que lhe descia até ás
sobrancelhas: a pelle cortida tinha um tom azulado, do esforço da
navalha de barba; e, nas suas risadas bestiaes, mostrava dentinhos muito
miudos e muito brancos do uso da brôa.

Quando iam sentar-se á mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando
muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:

--Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela
igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma
missa de intenção. Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!

A Gertrudes, a velha e possante ama do abbade, entrou então com a vasta
terrina do caldo de gallinha; e o Libaninho, saltitando em roda d'ella,
começou os seus gracejos:

--Ai, Gertrudinhas! quem tu fazias feliz bem eu sei!

A velha aldeã ria com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a
massa do seio.

--Olhe que arranjo me apparece agora pela tarde!...

--Ai, filha! as mulheres querem-se como as peras, maduras e de sete
cotovêlos. Então é que é chupal-as!

Os padres gargalharam; e, alegremente, accommodaram-se á mesa.

O jantar fôra todo cozinhado pelo abbade: logo á sopa as exclamações
começaram:

--Sim, senhor, famoso! D'isto nem no céo! Bella coisa!

O excellente abbade estava escarlate de satisfação. Era, como dizia o
senhor chantre, «um divino artista»! Lera todos os _Cozinheiros
completos_, sabia innumeras receitas: era inventivo--e, como elle
affirmava dando martelladinhas no craneo, «tinha-lhe sahido muito
petisco d'aquella cachimonia»! Vivia tão absorvido pela sua «arte» que
lhe acontecia, nos sermões de domingo, dar aos fieis ajoelhados para
receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre
os condimentos do sarrabulho. E alli vivia feliz, com a sua velha
Gertrudes, de muito bom paladar tambem, com o seu quintal de ricos
legumes, sentindo uma só ambição na vida--ter um dia a jantar o bispo!

--Oh, senhor parocho! dizia elle a Amaro, por quem é! mais um bocadinho
de cabedella, faça favor! Essas côdeasinhas de pão ensopadas no môlho!
Isso! isso! Que tal, hein?--E com um aspecto modesto:--Não é lá por
dizer, mas a cabedella hoje sahiu-me boa!

Estava com effeito, como disse o conego Dias, de tentar Santo Antonio no
deserto! Todos tinham tirado as capas, e, só com as batinas, as voltas
alargadas, comiam devagar, fallando pouco. Como no dia seguinte era a
festa da Senhora da Alegria, os sinos na capella, ao lado, repicavam; e
o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres á louça, ás bojudas
canecas azues com vinho da Bairrada, aos pires de pimentões escarlates,
ás frescas malgas de azeitonas pretas--emquanto o bom abbade, d'olho
arregalado, mordendo o beiço, ia cortando com cuidado nacos brancos do
peito do capão recheado.

As janellas abriam para o quintal. Viam-se dois largos pés de camelias
vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para além das copas das
macieiras um pedaço muito vivo de céo azul-ferrete. Uma nora chiava ao
longe, lavadeiras batiam a roupa.

Sobre a commoda, entre _in-folios_, na sua peanha um Christo perfilava
tristemente contra a parede o seu corpo amarello, coberto de chagas
escarlates: e, aos lados, sympathicos santos sob redomas de vidro,
lembravam legendas mais dôces de religião amavel: o bom gigante S.
Christovão atravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz
saltar o mundo sobre a sua mãosinha como uma pella; o dôce pastor S.
Joãosinho coberto com uma pelle de ovelha, e guardando os seus rebanhos,
não com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na
sua mão de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do céo!
Nas paredes, em lithographias de coloridos crueis, o patriarcha S. José
apoiava-se ao seu cajado onde florescem lirios brancos; o cavallo
empinado do bravo S. Jorge pisava o ventre d'um dragão surprehendido; e
o bom Santo Antonio, á beira d'um regato, sorria, fallando a um tubarão.
O _tlim-tlim_ dos copos, o ruido das facas animavam a velha sala de
tecto de carvalho defumado, d'uma alegria desusada. E Libaninho
devorava, dizendo pilherias:

--Gertrudinhas, flôr do caniço, passa-me as vagens. Não me olhes assim,
magana, que me fazes revolver os intestinos!

--O diabo é o homem! dizia a velha. Olha p'r'ó que lhe deu! Fallasse-me
aqui ha trinta annos, seu perdido!

--Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto
coisas pela espinha acima!

Os padres engasgavam-se de riso. Já duas canecas de vinho estavam
vazias: e o padre Brito desabotoára a batina, deixando vêr a sua grossa
camisola de lã da Covilhã, onde a marca da fabrica, feita de linha azul,
era uma cruz sobre um coração.

Um pobre então viera á porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e
emquanto Gertrudes lhe mettia no alforge metade d'uma brôa, os padres
fallaram dos bandos de mendigos que agora percorriam as freguezias.

--Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abbade. Ó Dias,
mais este bocadinho da aza?

--Muita pobreza, mas muita preguiça, considerou duramente o padre
Natario.--Em muitas fazendas sabia elle que havia falta de jornaleiros,
e viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos
pelas portas.--Sucia de mariolas! resumiu.

--Deixe lá, padre Natario, deixe lá! disse o abbade. Olhe que ha pobreza
devéras. Por aqui ha familias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem
no chão como porcos e não comem senão hervas.

--Então que diabo querias tu que elles comessem? exclamou o conego Dias
lambendo os dedos depois de ter esburgado a aza do capão. Querias que
comessem perú? Cada um como quem é!

O bom abbade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estomago, e
disse com affecto:

--A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.

--Ai, filhos! acudiu o Libaninho n'um tom choroso, se houvesse só
pobresinhos isto era o reininho dos céos!

O padre Amaro considerou com gravidade:

--É bom que haja quem tenha cabedaes para legados pios, edificações de
capellas...

--A propriedade devia estar na mão da Igreja, interrompeu Natario com
auctoridade.

O conego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:

--Para o esplendor do culto e propagação da fé.

Mas a grande causa da miseria, dizia Natario com uma voz pedante, era a
grande immoralidade.

--Ah! lá isso não fallemos! exclamou o abbade com desgosto. N'este
momento ha só aqui na freguezia mais de doze raparigas solteiras
gravidas! Pois senhores, se as chamo, se as reprehendo, põem-se-me a
fungar de riso!

--Lá nos meus sitios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da
azeitona, como ha falta de braços, vieram as _maltas_ trabalhar. Pois
agora o verás! Que desafôro!--Contou a historia das _maltas_,
trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam offerecendo os
braços pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na miseria.--Era
necessario andar sempre de cajado em cima d'elles!

--Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mãos na cabeça. Ai, o
peccado que vai pelo mundo! Até se me estão a erriçar os cabellos!

Mas a freguezia de Santa Catharina era a peor! As mulheres casadas
tinham perdido todo o escrupulo.

--Peores que cabras, dizia o padre Natario alargando a fivela do
collete.

E o padre Brito fallou de um caso na freguezia de Amor: raparigas de
dezeseis e dezoito annos que costumavam reunir-se n'um palheiro--o
palheiro do Silverio--e passavam lá a noite com um bando de marmanjos!

Então o padre Natario, que já tinha os olhos luzidios, a língua solta,
disse, repoltreando-se na cadeira e espaçando as palavras:

--Eu não sei o que se passa lá na tua freguezia, Brito; mas se ha alguma
coisa o exemplo vem de alto... A mim têm-me dito que tu e a mulher do
regedor...

--É mentira! exclamou o Brito fazendo-se todo escarlate.

--Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, reprehendendo-o com bondade.

--É mentira! berrou elle.

--E aqui para nós, meus ricos, disse o conego Dias baixando a voz, com o
olhinho acceso n'uma malicia confidencial, sempre lhes digo que é uma
mulher de mão cheia!

--É mentira! clamou o Brito. E fallando de um jacto:--Quem anda a
espalhar isso é o morgado da Cumiada, porque o regedor não votou com
elle na eleição... Mas tão certo como eu estar aqui, quebro-lhe os
ossos!--Tinha os olhos injectados, brandia o punho:--Quebro-lhe os
ossos!

--O caso não é para tanto, homem, considerou Natario.

--Quebro-lhe os ossos! Não lhe deixo um inteiro!

--Ai, socega, leãosinho! disse o Libaninho com ternura. Não te percas,
filhinho!

Mas recordando a influencia do morgado da Cumiada, que era então
opposição e que levava duzentos votos á urna, os padres fallaram de
eleições e dos seus episodios. Todos alli, a não ser o padre Amaro,
sabiam, como disse Natario, «cozinhar um deputadosinho». Vieram
anecdotas; cada um celebrou as suas façanhas.

O padre Natario na ultima eleição tinha arranjado oitenta votos!

--Caspitè! disseram.

--Imaginam vossês como? Com um milagre!

--Com um milagre!? repetiram espantados.

--Sim, senhores.

Tinha-se entendido com um missionario, e na vespera da eleição
receberam-se na freguezia cartas vindas do céo e assignadas pela Virgem
Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do inferno, voto
para o candidato do governo. De chupeta, hein?

--De mão cheia! disseram todos.

Só Amaro parecia surprehendido.

--Homem! disse o abbade com ingenuidade, d'isso é que eu cá precisava.
Eu então tenho de andar ahi a estafar-me de porta em porta.--E sorrindo
bondosamente:--Com o que se faz ainda alguma coisita é com o relaxe da
congrua!

--E com a confissão, disse o padre Natario. A coisa então vai pelas
mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.

O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:

--Mas emfim a confissão é um acto muito sério, e servir assim para
eleições...

O padre Natario, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos
excitados, soltou uma palavra imprudente:

--Pois o senhor toma a confissão a sério?

Houve uma grande surpreza.

--Se tomo a confissão a serio!? gritou o padre Amaro recuando a cadeira,
com os olhos arregalados.

--Ora essa! exclamaram. Oh, Natario! Oh, menino!

O padre Natario exaltado queria explicar, attenuar:

--Escutem, creaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja
uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer é
que é um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o
rebanho para aqui ou para alli... E quando é para o serviço de Deus, é
uma arma. Ahi está o que é--a absolvição é uma arma!

--Uma arma! exclamaram.

O abbade protestava, dizendo:

-Oh, Natario! oh, filho! isso não!

O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, «tinha já um tal terror que até
lhe tremiam as pernas»!

Natario irritou-se:

--Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós, pelo facto
de ser padre, porque o bispo lhe impoz tres vezes as mãos e porque lhe
disse o _accipe_, tem missão directa de Deus,--é Deus mesmo para
absolver?!

--Decerto! exclamaram, decerto!

E o conego Dias disse, meneando uma garfada de vagens:

--_Quorum remiseris peccata, remittuntur eis._ É a fórmula. A fórmula é
tudo, menino...

--A confissão é a essencia mesma do sacerdocio, soltou o padre Amaro com
gestos escolares, fulminando Natario. Leia Santo Ignacio! leia S.
Thomaz!

--Anda-me com elle! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando
Amaro.--Anda-me com elle, amigo parocho! Salta-me no cachaço do impio!

--Oh, senhores! berrou Natario furioso com a contradicção, o que eu
quero é que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro:--O senhor,
por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o
seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no
confessionario, ás vezes preoccupado com negocios de familia ou com
faltas de dinheiro, ou com dôres de cabeça ou com dôres de barriga,
imagina o senhor que está alli como um Deus para absolver?

O argumento surprehendeu.

O conego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma
solemnidade comica exclamou:

--_Hereticus est!_ É hereje!

--_Hereticus est!_ tambem eu digo, rosnou o padre Amaro.

Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz dôce.

--Não fallemos n'essas coisas, não fallemos n'essas coisas, disse logo
prudentemente o abbade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a
garrafinha do Porto!

Natario, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:

--Absolver é exercer a graça. A graça só é attributo de Deus: em nenhum
auctor encontra que a graça seja transmissivel. Logo...

--Ponho duas objecções... gritou Amaro com o dedo em riste, em attitude
de polemica.

--Oh, filhos! oh, filhos! acudiu o bom abbade afflicto. Deixem a
sabbatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!

Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com
as precauções classicas:

--Mil oitocentos e quinze! dizia. D'isto não se bebe todos os dias.

Para o saborear, depois de o fazer reluzir á luz na transparencia dos
copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as
_saudes!_ A primeira foi ao abbade, que murmurava:--Muita honra... muita
honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.

--A sua santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo o calix. Ao
martyr!

Todos beberam commovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hymno de
Pio IX: o abbade, prudente, fêl-o calar por causa do hortelão que no
quintal aparava o buxo.

A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natario tornára-se terno,
fallava das suas sobrinhas, «as suas duas rosas», e citava Virgilio,
molhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para traz na
cadeira, as mãos nos bolsos, olhava machinalmente as arvores do jardim,
pensando vagamente em Amelia, nas suas fórmas: suspirou mesmo com um
desejo d'ella--emquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os
republicanos a _marmeleiro_.

--Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou enthusiasmado o Libaninho.

Mas Natario começára a discutir com o conego historia ecclesiastica: e,
muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da
Graça: affirmava que um assassino, um parricida poderia ser
canonisado--se se tivesse revelado o estado de Graça! Divagava, com
phrases d'escóla em que se lhe pegava a lingua. Citou santos que tinham
sido escandalosos; outros que pela sua profissão deviam ter conhecido,
praticado, amado o vicio. Exclamou com as mãos na cinta:

--Santo Ignacio foi militar!

--Militar!? gritou o Libaninho.--E erguendo-se correndo a Natario,
lançando-lhe um braço ao pescoço com uma ternura pueril e
avinhada:--Militar!? E que era elle? Que era elle, o meu devoto Santo
Ignacio?

Natario repelliu-o:

--Deixa-me, homem! Era sargento de caçadores.

Houve uma enorme risada.

O Libaninho ficára extatico.

--Sargento de caçadores! dizia erguendo as mãos n'um impeto beato. Meu
rico Santo Ignacio! Bemdito e louvado seja elle por toda a eternidade!

E então o abbade propôz que fossem tomar café para debaixo da parreira.

Eram tres horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando
formidavelmente, com risadas espessas; só Amaro tinha a cabeça lucida,
as pernas firmes--e sentia-se muito terno.

--Pois agora, collegas, disse o abbade sorvendo o ultimo gole de café, o
que está a calhar é um passeio à fazenda.

--Para esmoer, rosnou o conego erguendo-se com difficuldade. Vamos lá á
fazenda do abbade!

Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia
estava muito azul, d'um sol tepido. A vereda seguia entre vallados
erriçados de silvas; para além as terras lisas estendiam-se cobertas de
rastolho; a espaços as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua
folhagem fina; para o horisonte arredondavam-se collinas cobertas da
rama verde-negra dos pinheiros; havia um grande silencio; só ás vezes,
ao longe, n'um caminho, um carro chiava. E n'aquella serenidade da
paizagem e da luz, os padres iam caminhando devagar, tropeçando um
pouco, d'olho acceso, estomago enfartado, chacoteando e achando a vida
boa.

O conego Dias e o abbade, de braço dado, caturravam. O Brito, ao lado de
Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumiada.

--Prudencia, collega Brito, prudencia, dizia Amaro chupando o cigarro.

E o Brito, com passadas de carretão, rosnava:

--Hei de comer-lhe os figados!

O Libaninho atraz, só, cantarolava em falsete:


--Passarinho trigueiro,
Salta cá fóra...


Adiante de todos ia o padre Natario: levava a capa no braço, arrastando
pelo chão; a batina desabotoada por traz deixava vêr o forro immundo do
collete; e as suas pernas escanifradas, com as meias pretas de lã cheias
de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado.

E no emtanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:

--Eu só me contentava em agarrar n'um cajado e correr tudo! tudo!--E
gesticulava com um gesto immenso que abrangia o mundo.


--Tem as azas quebradas,
Não póde agora...


gania atraz o Libaninho.

Mas pararam de repente: Natario adiante gritava com uma voz furiosa:

--Seu burro, vossê não vê? Sua bêsta!

Era á volta do atalho. Tropeçára com um velho que conduzia uma ovelha;
ia cahindo; e ameaçava-o com o punho fechado n'uma raiva avinhada.

--Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.

--Sua bêsta! berrava Natario com os olhos chammejantes. Que o racho!

O homem balbuciava, tinha tirado o chapéo; viam-se os seus cabellos
brancos; parecia ser um antigo criado de lavoura envelhecido no
trabalho; era talvez avô--e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se
com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os
senhores padres joviaes e excitados da vinhaça!


Amaro não os quiz acompanhar até á fazenda. Ao fim da aldeia, no
cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.

--Olhe que é uma legoa á cidade, dizia o abbade. Eu mando-lhe apparelhar
a egoa, collega.

--Qual historia, abbade, a perninha é rija!--E, traçando alegremente a
capa, partiu cantarolando o _Adeus_.

Ao pé da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido d'um muro
de quinta coberto de musgos e erriçado no alto de luzidios fundos de
garrafas. Quando Amaro chegou proximo ao portão de carros, baixo e
pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande
vacca malhada; Amaro divertido espicaçou-a com o guarda-chuva; a vacca
trotou balouçando a papeira--e Amaro ao voltar-se viu Amelia, ao portão,
que saudava, dizendo toda risonha:

--Então está-me a espantar o gado, senhor parocho?

--É a menina! Que milagre é este?

Ella fez-se um pouco vermelha:

--Vim á quinta com a D. Maria da Assumpção. Vim dar uma vista d'olhos á
fazenda.

Ao pé de Amelia uma rapariga acamava couves n'uma canastra.

--Então esta é que é a quinta da D. Maria?

E Amaro deu um passo para dentro do portão.

Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra dôce, estendia-se
até á casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.

--É. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se tambem por aqui.
Vá, Joanna, avia-te!

A rapariga pôz a canastra á cabeça, deu as boas tardes, metteu pelo
caminho de Sobros, batendo muito os quadris.

--Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade... considerava o
parocho.

--Venha vêr a nossa fazenda! disse Amelia. É uma migalhinha de terra,
mas para fazer uma idéa. Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter lá
baixo com a D. Maria, quer?

--Valeu. Vamos lá á D. Maria, disse Amaro.

Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O chão estava cheio de
folhas sêccas, e, entre os troncos espaçados, moitas de hortensias
pendiam abatidas, amarelladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa,
velha, de um andar só, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes
aboboras amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do inverno,
esvoaçavam pombos. Por traz o laranjal formava uma massa de folhagens
verde-escuras; uma nora chiava monotonamente.

Um rapazito passou com um balde de lavagem.

--Para onde foi a senhora, João? perguntou Amelia.

--Foi p'r'ó olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada.

O olival era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, não
se podia ir lá sem tamancos.

--Vai-se a gente sujar toda, disse Amelia. Deixar lá a D. Maria, hein?
Vamos nós vêr a quinta... Por aqui, senhor parocho...

Estavam defronte d'um velho muro onde cresciam clematites. Amelia abriu
uma porta verde; e por tres degraus de pedra desconjuntados desceram a
uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de
todo o anno; do outro lado, por entre os pilares de pedra que
sustentavam a latada e os pés torcidos das cepas, via-se, batido de luz,
com tons amarellados, um grande campo de herva; os tectos baixos do
curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e d'esse lado um
fumosinho leve e branco perdia-se no ar muito azul.

Amelia a cada momento parava, explicava a quinta:--Alli ia semear-se
cevada; além havia de vêr o cebolinho, estava muito bonito...

--Ah! a D. Maria da Assumpção traz isto muito bem tratado!

Amaro ouvia-a fallar, com a cabeça baixa, olhando-a de lado; a sua voz
n'aquelle silencio dos campos parecia-lhe mais rica, mais dôce; o grande
ar dava-lhe uma côr mais picante ás faces; o seu olhar rebrilhava. Para
saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que
elle entreviu, perturbou-o como um começo da sua nudez.

Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido d'um regueiro.
Amelia riu muito do parocho, que tinha medo de sapos. Elle então
exagerou os seus sustos. Ó menina Amelia, haveria viboras? E roçava-se
por ella, afastando-se das hervas altas.

--Vê aquelle vallado? Pois para o lado de lá é a nossa fazenda. Entra-se
pela cancella, vê? Mas veja lá se está cansado! Que o senhor parece-me
que não é grande caminhador... Ai, um sapo!

Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o hombro. Ella empurrou-o dôcemente, e
com um riso calido:

--Seu medroso! seu medroso!

Estava toda contente, toda viva. Fallava na _sua fazenda_ com uma
vaidadesinha satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietaria.

--A cancella está fechada, parece, disse Amaro.

--Está? fez ella.--Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava
fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as
duas fortes hombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.

--Foi o caseiro que levou a chave!

Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a
voz:--Antonio! Antonio!

Ninguem respondeu.

--Anda lá para o fundo da quinta! disse ella. Que sécca! Se o senhor
parocho quizesse, aqui adiante póde-se passar. Ha uma abertura no
vallado, chamam-lhe o _salto da cabra_. Póde a gente saltar para o outro
lado.

E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:

--Quando eu era pequena nunca passava pela cancella, saltava sempre por
alli. E cada trambolhão quando o chão estava resvaladiço com a chuva!
Era um vivo demonio, aqui onde me vê! Ninguém ha de dizer, senhor
parocho, hein? Ai! vou-me a fazer velha!--E voltando-se para elle, com
um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:--Não é verdade? Estou-me a
fazer velha, hein?

Elle sorria. Custava-lhe fallar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois
do vinho do abbade, amollecia-o: e a figura d'ella, os seus hombros, os
seus encontros davam-lhe um desejo continuo e intenso.

--Aqui está o _salto da cabra_, disse Amelia parando.

Era uma abertura estreita no vallado: a terra do outro lado, mais baixa,
estava toda lamacenta. Via-se d'alli a fazenda da S. Joanneira: o campo
plano estendia-se até um olival, com a herva fina muito estrellada de
pequenos malmequeres brancos; uma vacca preta, de grandes malhas,
pastava; e para além viam-se tectos aguçados de casaes onde voavam
revoadas de pardaes.

--E agora? perguntou Amaro.

--Agora saltar, disse ella rindo.

--Cá vai! exclamou elle.

Traçou a capa, saltou; mas escorregou nas hervas humidas--e
immediatamente Amelia, debruçando-se, rindo muito, com grandes acenos de
mãos:

--E agora adeus, senhor parocho, que eu vou ter com a D. Maria. Ahi fica
preso na fazenda. Para cima não póde o senhor pular, pela cancella não
póde o senhor passar! É o senhor parocho que está preso...

--Ó menina Amelia! ó menina Amelia!

Ella cantarolava-lhe, escarnecendo:


Fico sósinha á varanda
Que o meu bem está na prisão!


Aquellas maneirinhas excitavam o padre--e com os braços erguidos, a voz
calida:

--Salte, salte!

Ella então fez voz de mimo:

--Ai, tenho medinho! tenho medinho...

--Salte, menina!

--Lá vai! gritou ella bruscamente.

Saltou, foi cahir-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou,
firmou-se--e, sentindo entre os braços o corpo d'ella, apertou-a
brutalmente e beijou-a com furor no pescoço.

Amelia desprendeu-se, ficou diante d'elle, suffocada, com a face em
braza, compondo na cabeça e em roda do pescoço, com as mãos tremulas, as
pregas da manta de lã. Amaro disse-lhe:

--Ameliasinha!

Mas ella de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do vallado.
Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou á
cancella, Amelia fallava ao caseiro, que apparecia com a chave.

Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a
parreira. Amelia adiante palrava com o caseiro; e atraz Amaro, de cabeça
baixa, seguia muito murcho. Ao pé da casa Amelia parou, fazendo-se
vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoço:

--Ó Antonio, disse, ensine o portão ao senhor parocho. Muito boas
tardes, senhor parocho.

E através das terras humidas correu para o fundo da quinta, para os
lados do olival.

A snr.^a D. Maria da Assumpção ainda lá estava, sentada n'uma pedra,
tagarellando com o tio Patricio; um bando de mulheres, com grandes
varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.

--Que é isso, tonta? D'onde vens tu a correr, rapariga? Credo, que
doida!

--Vim a correr, disse **ella** toda vermelha, suffocada.

Sentou-se ao pé da velha; e ficou immovel, com as mãos cahídas no
regaço, respirando fortemente, os beiços entreabertos, os olhos fixos
n'uma abstracção. Todo o seu sêr se abysmava n'uma só sensação:

--Gosta de mim! Gosta de mim!


Estava ha muito namorada do padre Amaro--e ás vezes, só, no seu quarto,
desesperava-se por imaginar que elle não percebia nos seus olhos a
confissão do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela
manhã pedir de baixo o almoço, sentia uma alegria penetrar todo o seu
sêr sem razão, punha-se a cantarolar com uma volubilidade de passaro.
Depois via-o um pouco triste. Porquê? Não conhecia o seu passado; e,
lembrada do frade d'Evora, pensou que elle se fizera padre por um
desgosto d'amor. Idealisou-o então: suppunha-lhe uma natureza muito
terna, parecia-lhe que da sua pessoa airosa e pallida se desprendia uma
fascinação. Desejou tel-o por confessor: como seria bom estar ajoelhada
aos pés d'elle, no confessionario, vendo de perto os seus olhos negros,
sentindo a sua voz suave fallar do paraiso! Gostava muito da frescura da
sua boca; fazia-se pallida à idéa de o poder abraçar na sua longa batina
preta! Quando Amaro sahia, ia ao quarto d'elle, beijava a
travesseirinha, guardava os cabellos curtos que tinham ficado nos dentes
do pente. As faces abrazavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.

Se Amaro jantava fóra com o conego Dias estava todo o dia impertinente,
ralhava com a _Ruça_, ás vezes mesmo dizia mal d'elle, «que era
casmurro, que era tão novo que nem inspirava respeito». Quando elle
fallava d'alguma nova confessada, amuava, com um ciume pueril. A sua
antiga devoção renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia um vago
amor physico pela Igreja; desejaria abraçar, com pequeninos beijos
demorados, o altar, o orgão, o missal, os santos, o céo, porque não os
distinguia bem d'Amaro, e pareciam-lhe dependencias da sua pessoa. Lia o
seu livro de missa pensando n'elle como no seu Deus particular. E Amaro
não sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ella em cima o
escutava, regulando as palpitações do seu coração pelas passadas d'elle,
abraçando o travesseiro, toda desfallecida de desejos, dando beijos no
ar, onde se lhe representavam os labios do parocho!


A tarde cahia quando D. Maria e Amelia voltaram para a cidade. Amelia
adiante, calada, chibatava a sua burrinha, emquanto D. Maria da
Assumpção vinha palrando com o moço da quinta, que segurava a arreata.
Ao passar junto á Sé tocou a Ave-Marias. E Amelia, rezando, não podia
destacar os olhos das cantarias da igreja tão grandiosamente erguidas,
decerto para que elle alli celebrasse! Lembravam-lhe então domingos em
que o vira, ao repicar dos sinos, dar a benção dos degraus do altar-mór;
e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a
senhora baroneza de Via-Clara e a mulher do governador civil, tão
orgulhosa, com o seu nariz de cavallete! Dobravam-se sob os seus dedos
erguidos, e achavam decerto tambem bonitos os seus olhos negros! E era
elle que a tinha apertado nos braços, ao pé do vallado! Sentia ainda no
pescoço a pressão calida dos seus beiços: uma paixão flammejou como uma
chamma por todo o seu sêr: largou a arreata do burrinho, apertou as mãos
contra o peito, e cerrando os olhos, lançando toda a sua alma n'uma
devoção:

--Ó Nossa Senhora das Dôres, minha madrinha, faze que elle goste de mim!

No adro lageado conegos passeavam, conversando. A botica defronte já
tinha luz, os bocaes reluziam; e por detraz da balança a figura do
pharmaceutico Carlos, com o seu boné bordado a missanga, movia-se
magestosamente.




VIII


O padre Amaro voltára para casa aterrado.

--E agora? E agora? dizia elle encostado ao canto da janella, sentindo o
coração encolhido.

Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! Não podia continuar
alli, na mesma familiaridade, depois de ter tido «aquelle atrevimento
com a pequena».

Que ella não ficára muito indignada--apenas atordoada; contivera-a
talvez o respeito ecclesiastico, a delicadeza para com o hospede, a
attenção para com o amigo do conego. Mas podia contar á mãi, ao
escrevente... Que escandalo! E via já o senhor chantre, traçando a perna
e fitando-o,--que era a sua attitude de reprehensão--dizer-lhe com
pompa:--«São esses desregramentos que deshonram o sacerdocio. Não se
comportaria d'outro modo um Satyro no monte Olympo!»--Poderiam
desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a
senhora condessa de Ribamar?

E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade, ter constantemente
presentes aquelles olhos negros, o sorriso calido que lhe fazia uma
covinha no queixo, a curva d'aquelle peito--a sua paixão, crescendo
surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia
doido, «podia fazer alguma asneira»!

Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a sua natureza fraca
necessitava sempre receber forças d'uma razão, d'uma experiencia alheia:
costumava consultar ordinariamente o conego que, pelo habito da
disciplina ecclesiastica, elle julgava mais intelligente por ser seu
superior na hierarchia; e não perdera, desde o seminario, a sua
dependencia de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma
criada para ir viver só, necessitava o auxilio do conego, que conhecia
Leiria como se a tivesse edificado.

Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um
murrão avermelhado. Os tições da brazeira, cobertos d'uma pulverisação
de cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado n'uma cadeira de
braços, com o capote pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor,
amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos,
dormitava. Na dobra do cobertor, a _Trigueira_ estirada dormitava como
elle.

Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar os olhos, rosnou:

--Ia adormecendo, hein!

--É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher. Então que
preguiça é essa?

--Ah! é vossê? disse o conego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de
casa do abbade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então que é
feito?

--Vim por aqui.

--Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella estava de mão cheia!
Eu carreguei-me um bocado, disse o conego rufando com os dedos na capa
do Breviario.

Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o brazido:

--Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente. Ia
acrescentar:--Aconteceu-me um caso!--Mas reteve-se, murmurou:--Estou
hoje exquisito; tenho andado ultimamente fóra dos eixos...

-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego, considerando-o.
Purgue-se, homem!

Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.

--Sabe? estou com idéa de mudar de casa.

O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos somnolentos:

--Mudar de casa! Ora essa! Porquê?

O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando baixo:

--Vossê percebe... Tenho estado a pensar, é assim exquisito estar em
casa de duas mulheres, com uma rapariga...

--Ora, historias! Que me vem vossê contar? Vossê é hospede... Deixe-se
d'isso, homem! É como quem está na hospedaria.

--Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...

E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, facilitasse as
confidencias.

--Então só hoje é que pensa n'isso, Amaro?!

--É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. Tenho minhas razões.--Ia
a dizer:--Fiz uma tolice,--mas acanhou-se.

O conego olhou para elle um momento:

--Homem, seja franco!

--Sou.

--Vossê acha aquillo caro?

--Não! disse o outro com uma negação impaciente.

--Bem, então é outra coisa...

--É. Vossê que quer?--E n'um tom magano, com que julgou agradar ao
conego:--A gente tambem gosta do que é bom...

--Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. Vossê, como eu sou amigo da
casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!

--Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.

--Oh, homem! exclamou o conego abrindo os braços. Vossê quer sahir da
casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...

--É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela
sala. Mas estou com esta ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita
barata com alguma mobilia... Vossê entende melhor d'essas coisas...

O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando devagar o
queixo.

--Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.

--Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao conego. A
casa da S. Joanneira...

Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e depois de conversarem
sobre o jantar

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