Contos
by Eça de Queirós · Portuguese · Gutenberg #31347 · 434,341 chars · public domain (US)
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Title: Contos
Author: Eça de Queirós
Release date: February 22, 2010 [eBook #31347]
Most recently updated: January 6, 2021
Language: Portuguese
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CONTOS
PORTO--Imprensa Moderna
EÇA DE QUEIROZ
CONTOS
TERCEIRA EDIÇÃO
PORTO
LIVRARIA CHARDRON, DE LELO & IRMÃO,
EDITORES--RUA DAS CARMELITAS, 144
1913
Todos os direitos reservados
Obras de EÇA DE QUEIROZ
*O Crime do Padre Amaro*, 1 vol. 1$200
*O Primo Bazílio*, 1 volume 1$000
*O Mandarim*, 1 volume 500
*Os Maias*, 2 grossos volumes 2$000
*A Relíquia*, 1 grosso volume 1$000
*Correspondência de Fradique Mendes*, 1 volume 600
*A Ilustre Casa de Ramires*, 1 volume 1$000
*A Cidade e as Serras*, 1 volume 800
*Contos*, 1 volume 600
*Prosas Bárbaras*, 1 volume 600
*Cartas de Inglaterra*, 1 volume 500
*Ecos de Paris*, 1 volume 500
*Cartas Familiares*, 1 vol. 500
*Notas Contemporâneas*, 1 volume 1$000
*Últimas páginas* (manuscritos inéditos), 1 vol. 1$000
*Páginas esquecidas*, com um largo estudo de José Sampaio (Bruno) no prélo
*As Minas de Salomão*, (tradução), 1 volume 600
*Revista de Portugal*, 4 grossos volumes (colaboração) 12$000
A propriedade literária e artística está garantida em todos os países
que aderiram à convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de março
de 1911. No Brasil pela lei n.º 2.577 de 17 de Jan. de 1912.)
* * * * *
A obra dispersa de Eça de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na
_Revolução de Setembro_ e na _Gazeta de Portugal_ até à sua assídua
colaboração na _Gazeta de Notícias_, do Rio de Janeiro, e na _Revista
Moderna_, é muito vasta, muito variada e encerra algumas das mais
maravilhosas páginas do grande e saudoso escritor.
Os seus editores começam, com a publicação do presente volume, a
_compilação da obra póstuma e dispersa_, recolhendo cuidadosamente êsse
riquíssimo espólio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o
condenariam a dispersão das fôlhas diárias e a sua efémera vida.
Os _Contos_ compreendem todos os escritos dêste género que Eça de
Queiroz nos deixou, a partir das _Singularidades duma rapariga loura_.
Os seus primitivos escritos na _Revolução_ e na _Gazeta de
Portugal_, obra mixta de fantasia e de crítica, seguir-se hão a êste em
outro volume, já no prelo, e a que uma feliz indicação do snr. Jaime
Batalha Reis[1] nos revelou o próprio título que o autor
determinara dar-lhe: _Prosas Bárbaras_.
Mais três volumes serão destinados a coligir as suas correspondências
para os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como títulos as
rúbricas sob que ali eram publicadas: _Cartas de Inglaterra_, _Ecos de
Paris e Cartas Familiares_; e outros dois encerrarão[2] a
sua copiosa _vária_, onde se misturam impressões de literatura e de
arte, artigos sôbre política geral, estudos biográficos, notas de
viagem, ensaios, críticas, polémica, etc.
Completará esta série um derradeiro volume com o precioso inédito do _S.
Cristóvão_,[3] tal como o admirável artista o deixou: um
esbôço magnífico, um verdadeiro improviso, traçado com largueza numa
primeira factura pronta e fluente, onde a sua imaginação e a sua prosa
brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em contrário da falsa lenda
que fazia de Eça de Queiroz um criador moroso, e um escritor sem
espontaneidade.
A título de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e
ampliação das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus
processos de trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado
_Civilização_, que o autor, amplificando-o, transformou depois na
deliciosa novela _A Cidade e as Serras_.
Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de
testemunhar o seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz,
co-proprietário da _Gazeta de Notícias_, do Rio de Janeiro, que, com o
mais vivo interesse pela publicação dos escritos dispersos de Eça de
Queiroz, lhes forneceu obsequiosamente toda a vasta colaboração do
ilustre romancista no importante jornal fluminense.
Pôrto, 1903.
*_Lelo & Irmão._*
(_Da primeira edição_)
[1] ANTHERO DE QUENTAL, _In Memoriam_, pag. 444.
[2] Publicado num só volume--_Notas Contemporâneas_--1909.
[3] Incluido no volume--_Últimas páginas_--1911.
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
I
Começou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava
Macário...
Devo contar que conheci êste homem numa estalagem do Minho. Era alto e
grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se
lhe erriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda
engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e
rectidão--por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha
a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de
setim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido côr de
pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela
longa abertura do seu colete de sêda, onde reluzia um grilhão antigo,
saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em setembro: já as noites vinham mais cedo, com uma friagem
fina e sêca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência,
fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listas escarlates.
Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram
oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fôsse um
certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da
diligência, ou fôsse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da
paizagem escarpada e árida, sob o côncavo silêncio noturno, ou a
opressão da electricidade, que enchia as alturas--o facto é que eu--que
sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela
imaginação e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de nós, é
certo,--tam friamente educados que sejâmos--um resto de misticismo; e
basta às vezes uma paizagem soturna, o vélho muro de um cemitério, um
ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar, para que êsse fundo
místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a
idea, e fique assim o mais matemático ou o mais crítico--tam triste, tam
visionário, tam idealista--como um vélho monge poeta. A mim, o que me
lançara na quimera e no sonho, fôra o aspecto do mosteiro de Rastelo,
que eu tinha visto, à claridade suave e outonal da tarde, na sua doce
colina. Então, emquanto anoitecia, a diligência rolava contínuamente ao
trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o
capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava o seu cachimbo--eu pus-me,
elegíacamente, ridículamente, a considerar a esterilidade da vida: e
desejava ser um monge, estar num convento, tranqùilo, entre arvoredos ou
na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a água da cêrca canta
sonoramente nas bacias de pedra, ler a _Imitação_, e ouvindo os
rouxinóis nos loireirais ter saudades do céu.--Não se pode ser mais
estúpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposição visionária a
falta de espírito--a sensação--que me fez a história daquele homem dos
canhões de veludilho.
A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma
galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio--e a
criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no
copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava
defronte de mim, comendo tranqùilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com
a bôca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos
dedos--se êle era de Vila Rial.
--Vivo lá. Há muitos anos--disse-me êle.
--Terra de mulheres bonitas, segundo me consta--disse eu.
O homem calou-se.
--Hein?--tornei.
O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo
dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu
sorriso fino.
Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia
de-certo no destino daquele vélho uma _mulher_. Aí estava o seu
melodrama ou a sua farça, porque inconscientemente estabeleci-me na idea
de que o _facto_, o _caso_ daquele homem, devera ser grotesco e exalar
escárnio.
De sorte que lhe disse:
--A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial são as mais
bonitas do Norte. Para os olhos pretos Guimarães, para corpos Santo
Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabellos claros côr
de trigo.
O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.
--Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante--e para isto tudo
Vila Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conheça.
O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.
--O Peixoto, sim,--disse-me êle, olhando gravemente para mim.
--Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar à
Andaluzia--questão de arranjar a fina flor da perfeição.--À sua saude.
Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um
passo pesado, e reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com a
sola forte e atilhos de coiro. E saiu.
Quando pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candieiro de latão
lustroso e antigo e disse:
--O senhor está com outro. É no n.º 3.
Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório
impertinente.
--Vá--disse eu.
O n.º 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os hóspedes tinham
posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar,
enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador;
botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre,
altas, com a sua borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um
estudante; e a uma das portas, o n.º 15, havia umas botinas de mulher,
de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma
criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mór
caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam.
Defronte do n.º 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando
abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça
um lenço de sêda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de
lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.
--O senhor não repare--disse êle.
--À vontade--e para estabelecer a intimidade tirei o casaco.
Não direi os motivos porque êle daí a pouco, já deitado, me disse a sua
história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: o que não contas à
tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na
estalagem. Mas êle teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga
e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fôra
casar a Vila Rial. Vi-o chorar, àquele vélho de quási sessenta anos.
Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava
nervoso e sensível, pareceu-me terrível,--mas conto-a apenas como um
acidente singular da vida amorosa....
Começou pois por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava
Macário.
Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera que tinha o
apelido de _Macário_. E como êle me respondeu que era primo dêsses, eu
tive logo do seu carácter uma idea simpática, porque os Macários eram
uma antiga família, quási uma dinastia de comerciantes, que mantinham
com uma severidade religiosa a sua vélha tradição de honra e de
escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua
mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazêm de panos, e êle
era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrára-se de certos instintos
inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a
escrituração. Macário tornou-se o seu _guarda-livros_.
Disse-me êle que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida
tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e
fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de
roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência nesse
tempo era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os
costumes: os espíritos eram mais ingénuos, os sentimentos menos
complicados.
Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a
água das regas--chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores
do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à
burguesia cautelosa. Alêm disso os tempos eram confusos e
revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira,
simples e fácilmente feliz--como a guerra. É a paz que dando os
vagares da imaginação--causa as impaciências do desejo.
Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha--como lhe dizia uma
vélha tia, que fôra querida do desembargador Curvo Semedo, da
Arcádia,--_sentido Vénus_.
Mas por êsse tempo veio morar para defronte do armazêm dos Macários,
para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto,
uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto
desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar, por cima do
armazêm, ao pé de uma varanda, e dali viu uma manhã aquela mulher com o
cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegar-se
a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macário
afirmou-se e sem mais intenção dizia mentalmente que aquela mulher, aos
vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio:
porque os seus cabelos violentos e ásperos, o sobr'ôlho espesso, o lábio
forte, o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e
imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as
suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto,
que abria sôbre o pátio: era em julho e a atmosfera estava eléctrica e
amorosa: a rebeca de um vizinho gemia uma _chácara_ mourisca, que
então sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa
penumbra doce e cheia de mistério--e Macário, que estava em chinelas,
começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços
que tinham a côr dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou
mórbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos
sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era
monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira
com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro onde viviam
aqueles cabelos grandes--começou a aparar vagarosamente a sua pena de
rama. Mas ninguêm se chegou à janela de peitoril, com caixilhos verdes.
Macário estava enfastiado, pesado--e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe
que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser
mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas
madre-silvas! E, quando fechou a carteira, sentiu defronte correr-se a
vidraça; eram de-certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos
louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um
lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez--fina, fresca, loura como
uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da
transparência das vélhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha
pura como de uma medalha antiga, e os vélhos poetas pitorescos
ter-lhe-iam chamado--pomba, arminho, neve e oiro.
Macário disse consigo:
--É filha.
A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com
pintas azuis, um lenço de cambraia traspassado sôbre o peito, as mangas
perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, môço, fresco, flexível e
tenro.
Macário nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e
a sua figura devia ter aquele ar sêco e nervoso que depois do século
XVIII e da revolução--foi tam vulgar nas raças plebeias.
A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu
a vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas
pequenas cortinas datam de Goethe e teem na vida amorosa um
interessante destino: revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar,
franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor,
agitá-la fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e
espera--são vélhas maneiras com que na realidade e na arte começa o
romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou.
Macário não me contou por pulsações--a história minuciosa do seu
coração. Disse singelamente que daí a cinco dias--_estava doido_
_por ela_. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo
cursivo inglês firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde
estava todo o romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela
manhã: o sol mordente de julho batia e escaldava a pequena janela de
peitoril. Só pela tarde, a cortina se franzia, se corria a vidraça, e
ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha
encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou
Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de sêda branca com dragões
escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e
trémula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas
borlas de fio de oiro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa.
Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de
uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tam
meridional, Macário, com esta intuição interpretativa dos namorados,
disse à sua curiosidade: _será filha de um inglês_. O inglês vai à
China, à Pérsia, a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos
luxos exóticos, e nem Macário sabia porque é que aquela ventarola de
mandarina o preocupava assim: mas segundo êle me disse--_aquilo deu-lhe
no gôto_.
Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira,
que ela, a loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar
mãe dela aquela magnífica pessoa, magníficamente pálida e vestida de luto.
Macário veio à janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazêm. No
seu armazêm! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações.
Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes
defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Êle mesmo mo disse.
--Porque emfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para
si, casimiras pretas.
E não: elas não usavam _amazonas_, não quereriam de-certo estofar
cadeiras com casimira preta, não havia homens em casa delas; portanto
aquela vinda ao armazêm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe
falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse
a Macário que, sendo assim, êle devia estranhar aquele movimento
amoroso, porque denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Êle
confessou-me _que nem pensava em tal_. O que fez foi chegar ao balcão e
dizer estúpidamente:
--Sim senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.
E a loura ergueu para êle o seu olhar azul, e foi como se Macário se
sentisse envolvido na doçura de um céu.
Mas quando êle ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu
ao fundo do armazêm o tio Francisco, com o seu comprido casaco côr de
pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr.
guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco com a sua crítica
estreita e celibatária podia escandalizar-se, Macário começou a subir
vagarosamente a escada em caracol que levava ao escritório, e ainda
ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:
--Agora queria ver lenços da Índia.
E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e
apertados numa tira de papel dourado.
Macário, que tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quási uma
_declaração_, esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da
paixão. Andava distraído, abstracto, pueril, não deu atenção à
escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as
almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos às
três horas, e não entendeu bem as recomendações do tio e a preocupação
dos caixeiros sôbre o desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.
--É o costume de deixar entrar pobres no armazêm--tinha dito no seu
laconismo majestoso o tio Francisco.--São 12$000 réis de lenços. Lance à
minha conta.
Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao
outro dia, estando êle à varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio
encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um
rapaz amigo de Macário, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe,
com uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou
radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia
tinta:
--¿Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazêm?
--É a Vilaça. Bela mulher.
--E a filha?
--A filha!
--Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.
--Ah! sim. É filha.
--É o que eu dizia....
--Sim, e então?
--É bonita.
--É bonita.
--É gente de bem, hein?
--Sim, gente de bem.
--Está bom. Tu conhece-las muito?
--Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.
--Bem, ouve lá.
E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e
falando do amor com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória
da sua vida, _que achasse um meio de o encaixar lá_. Não era difícil. As
Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na
rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam
motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da
senhora D. Maria I, e às 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no
primeiro sábado, Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas
de trama de metal, gravata de setim roxo, curvava-se diante da espôsa do
tabelião, a snr.ª D. Maria da Graça, pessoa sêca e aguçada, com um
vestido bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de
tartaruga, a pluma de _marabout_ nos seus cabelos grisalhos. A um canto
da sala já lá estava, entre um _frou-frou_ de vestidos enormes, a menina
Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de
gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com
um desembargador de figura apoplética. O tabelião era homem letrado,
latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de então, a _Alcofa das
Damas_: porque era sobretudo galante, e êle mesmo se intitulava, numa
ode pitoresca, _môço escudeiro de Vénus_. Assim, as suas reùniões eram
ocupadas pelas belas-artes--e nessa noite um poeta do tempo devia
vir ler um poemeto intitulado _Elmira ou a vingança do veneziano_!...
Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas. As
revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e
saídos da mitologia para os países maravilhosos do Oriente. Por toda a
parte se falava no pachá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente
dêste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas côr de
ámbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do
aloés onde pachás decrépitos acariciam leões.--De sorte que a
curiosidade era grande--e quando o poeta apareceu com os cabelos
compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do
seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão--o snr. Macário é
que não experimentou sensação alguma, porque lá estava todo absorvido,
falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:
--¿Então, noutro dia, gostou das casimiras?
--Muito--disse ela baixo.
E, desde êsse momento, envolveu-os um destino nupcial.
No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macário
não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela
assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o
_Madrigal a Lídia_: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada
sôbre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do
colete branco de gola alta. E em redor, formando círculo, as damas, com
vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas
num fofo de rendas, mitenes de retroz preto cheias da scintilação dos
aneis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e
um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas.--Muito bonito,
diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava
sorrindo--e via-se-lhe um dente pôdre.
Depois a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com
maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária
de Sully:
Oh Ricardo, oh meu rei,
O mundo te abandona
o que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de
Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:
--Reis!... víboras!
Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada
no tempo do senhor D. João VI: _lindas môças_, _lindas môças_. E a noite
ia assim correndo, literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda
cheia de musas.
Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A
mãe convidára-o, dizendo-lhe:
--Espero que o vizinho honre aquela choupana.
E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:
--Choupana?! diga alcáçar, formosa dama!
Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um vélho cavaleiro de
Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua
voz de tiple, e as manas Hilárias, a mais vélha das quais tendo
assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina, à tourada de
Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os
episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara
rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o soneto que um magro
poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou,
fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel
onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento
um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da
côrte, que até a snr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas
ilhargas: depois el-rei o senhor D. José I, vestido de veludo escarlate,
recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo
girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada, e por trás,
imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu confessor: depois o rico
aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos
arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. José I
entrou--Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se
sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás
dêle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo
debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o
capelão da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção.
Ela, Hilária, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois,
gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um vélho,
todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão, debater-se entre
fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bramindo
de raiva! «É o pai do conde!» explicavam em volta. Ela então desmaiara
nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto
da praça; a berlinda rial estava à porta, com os bolieiros emplumados,
os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo, à frente: via-se lá
dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé,
todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à
alta bengala, forte, espadaúdo, o aspecto carregado, o marquês de
Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas
os batedores picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda
partiu a galope, emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!--e
o sino da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei
concedia à casa dos Arcos.
Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças
passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o
que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que tinha ficado
ao lado da menina Vilaça (que se chamava Luísa), que reparara muito na
sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da
sua mão com uma unha mais polida que o marfim de Dieppe. E lembrava-se
tambêm de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde êsse dia,
uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e
ao pé dêle Luísa: Luísa estava toda voltada para êle com uma das mãos
apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no
regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus
óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e
as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas
do crânio como dois postigos abertos. Ora, como era necessário no
fim do jôgo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado
do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça e quando o
cavaleiro, todo curvado e com um ôlho pisco, fazia a sôma dos tentos nas
costas dum az, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sôbre o pano
verde a sua peça de oiro, como um bilro ou um peão. Era uma peça nova
que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de névoa
doirada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo
o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrêlas estavam
naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela
seguia o giro fulgurante da peça de oiro nova. Mas de repente, a peça,
correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e
desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O
beneficiado abaixou-se logo cortêsmente: Macário afastou a cadeira,
olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e
Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa.
A peça não apareceu.
--É celebre--disse o amigo de chapéu de palha--eu não ouvi tinir no chão.
--Nem eu, nem eu--disseram.
O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilária mais nova
rosnava o responso de Santo António.
--Pois a casa não tem buracos--dizia a mãe Vilaça.
--Sumiço assim!--resmungava o beneficiado.
No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:
--Pelo amor de Deus! Ora que tem! Àmanhã aparecerá! Tenham a bondade!
Por quem são! Então, snr.ª D. Luísa! Pelo amor de Deus! Não vale nada.
Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção--e atribuiu-a ao
beneficiado. A peça rolara, de-certo, até junto dêle sem ruido; êle
pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado; depois, no
movimento brusco e curto que tivera, empolgára-a vilmente. E, quando
saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão,
dizia a Macário pela escada:
--¿Ora o sumiço da peça, hein? Que brincadeira!
--¿Acha, snr. beneficiado?!--disse Macário parando, pasmado da impudência.
--Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma peça de 7$000 réis! Só se o
senhor as semeia... Safa! Eu dava em doido!
Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O
beneficiado é que acrescentou:
--Àmanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdôe!
Que diabo! uma peça não se perde assim. Que bolada, hein!
E Macário tinha vontade de lhe bater.
Foi neste ponto que Macário me disse, com a sua voz singularmente sentida:
--Emfim, meu amigo, para encurtarmos razões, resolvi-me casar com ela.
--Mas a peça?
--Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! Resolvi-me casar com ela!
II
Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução
profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas êsse caso, casto e simples, eu
calo-o;--mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da
Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta
escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial,
efémero. Mas isso bastou ao seu espírito recto e severo para o obrigar a
tomá-la como espôsa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida.
Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra das janelas
vizinhas tornara-se para êle um destino, o fim moral da sua vida e
toda a idea dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo,
um alto carácter de santidade e de tristeza.
Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco: a sua
possante estatura, os seus óculos de oiro, a sua barba grisalha, em
colar, por baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz,
a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranqùilidade, os seus
princípios antigos, autoritários e tirânicos, e a brevidade telegráfica
das suas palavras.
Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almôço, abruptamente, sem
transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar» o tio Francisco,
que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher,
devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de sorver pelo pires, com
grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca
o seu palito, meteu-o na bôca e saíu: mas à porta da sala parou, e
voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente:
--Não.
--Perdão, tio Francisco!
--Não.
--Mas oiça, tio Francisco...
--Não.
Macário sentiu uma grande cólera:
--Nesse caso, faço-o sem licença.
--Despedido da casa.
--Sairei. Não haja dúvida.
--Hoje.
--Hoje.
E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:
--Olá!--disse êle a Macário, que estava exasperado, apoplético, raspando
nos vidros da janela.
Macário voltou-se com uma esperança.
--Dê-me daí a caixa do rapé--disse o tio Francisco.
Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.
--Tio Francisco...--começou Macário.
--Basta. Estamos a 12. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.
As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e
idiota. Macário afirmou-me que era assim.
Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria na Praça da
Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No
entanto estava tranqùilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha
relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez
do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu
tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par,
respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi
procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da
sua casa.
--De muito boa vontade, meu amigo--disse-me êle.--Quem mo déra cá! Mas,
se o recebo, fico de mal com seu tio, meu vélho amigo de vinte anos. Êle
declarou-mo categóricamente. Bem vê. Fôrça maior. Eu sinto, mas...
E todos, a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas,
receavam _ficar de mal com o seu tio, vélho amigo de vinte anos_.
E todos _sentiam_, _mas_...
Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à
sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente
livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para êsses, Macário era
desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hábil
trabalho. Se tomavam informações, sabiam que êle fôra despedido da casa
do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa.
Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o
guarda-livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num
momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava,
sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.
Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas,
como fôra sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo
que se encontrava desamparado e solitário--e a vida aparecia-lhe como um
descampado.
As peças findaram. Macário entrou, pouco a pouco, na tradição antiga da
miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por
empenhar--depois vendeu. Relógio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de
alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale,
uma vélha sêca e cheia de asma.
No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar:
uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra,
todo sentado castamente, ao pé de Luísa, a um canto de um vélho canapé
de palhinha. Não a via de dia, porque trazia já a roupa usada, as botas
cambadas, e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas
cambraias asseadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz ténue e
esbatida, êle exalava a sua paixão crescente e escondia o seu fato
decadente. Segundo me disse Macário--era muito singular o temperamento
de Luísa. Tinha o carácter louro como o cabelo--se é certo que o louro é
uma côr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus
brancos dentinhos, dizia a tudo _pois sim_: era muito simples, quási
indiferente, cheia de transigências.
Amava de-certo Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza
débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se
queria: e às vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.
Um dia, porêm, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale
traçado à tôa, olhando sempre para a porta interior.
--A mamã percebeu--disse ela.
E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que
de-certo farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.
--¿Porque não me vens pedir à mamã?
--Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais
um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.
Luísa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.
--¿Mas ao menos--disse ela--emquanto eu te não fizer sinal da janela,
não subas mais, sim?
Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.
--Chut!--dizia-lhe Luísa.--Não chores alto!...
Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando
febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua
quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como
uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:
--É tudo o que tenho--e mostrava-lhe três pintos.--Roupa, estou sem ela.
Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.
O Tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia
amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.
--A sua carteira lá está. Fique--e acrescentou, com um gesto
decisivo--solteiro.
--Tio Francisco, ouça-me!...
--Solteiro, disse eu--continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha
numa tira de sola.
--Não posso.
--Então, rua!
Macário saíu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu.
Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem idea. Estava como uma
esponja saturada. Deixava-se ir.
De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:
--Eh! pst! olá!
Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.
--Que diacho! desde manhã que te procuro
E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e
trazia-lhe um desenlace.
--Queres?
--Tudo.
Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto e duro, para ir numa
comissão difícil e de grande ganho a Cabo-Verde.
--Pronto!--disse Macário.--Pronto! Àmanhã.
E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um último
encontro, aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a
desenlaçar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando
de frio. Macário chorou. Ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:
--Fazes bem. Talvez ganhes.
E ao outro dia Macário partiu.
Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjôo monótono num
beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos
fazendeiros ricos, o pêso dos fardos humilhantes, as dilacerações da
ausência, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das
caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os
rios tranqùilos, donde se exala a morte.
Voltou.
E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara, fresca, repousada,
serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E
ao outro dia, sôfregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um
ganho saliente--e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos,
cheia de exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.
--Porquê?--disse eu a Macário.
E êle explicou-me que os lucros de Cabo-Verde não podiam constituir um
capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação. Trazia de
Cabo-Verde elementos de poderosos negócios: trabalharia, durante um ano,
heróicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.
E trabalhou: pôs naquele trabalho a fôrça criadora da sua paixão.
Erguia-se de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia
visitar Luísa. Depois voltava sôfregamente para a fadiga, como um avaro
para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o
mesmo ímpeto das ideas e dos músculos: vivia numa tempestade de cifras.
Às vezes Luísa, de passagem, entrava no seu armazêm: aquele pousar de
ave fugitiva dava-lhe alegria, fé, reconforto para todo um mês
cheiamente trabalhado.
Por êsse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fôsse
seu fiador por uma grande quantia que êle pedira para estabelecer
uma loja de ferragens em grande. Macário, que estava no vigor do seu
crédito, cedeu com alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o
negócio providencial de Cabo-Verde. Faltavam então dois meses para o
casamento. Macário já sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris
vermelhidões da esperança. Já começara a tratar dos _banhos_. Mas um dia
o amigo do chapéu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu
estabelecimento estava em comêço. Era uma confusa aventura. Não se pôde
nunca precisar nítidamente aquele _embróglio_ doloroso. O que era
positivo é que Macário era fiador, Macário devia reembolsar. Quando o
soube, empalideceu e disse simplesmente:
--Liquído e pago!
E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o
desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada
na opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo-Verde, veio
propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.
--Voltar a Cabo-Verde outra vez!
--Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o diabo!--disse o snr.
Eleutério Peres.
Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava
perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar pacientemente a vida,
voltar às longas misérias de Cabo-Verde, tornar a tremer os passados
desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe.
Depois, rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu
até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar
o desastre, o pavor trémulo de uma separação, o terror de ela se
recusar, negar-se, hesitar! ¿E quereria ela esperar mais? Não se atreveu
a falar, explicar, pedir; desceu, pé-ante-pé. Era noite. Andou ao acaso
pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente
ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a _xácara
mourisca_. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro
que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na
rua onde eram os armazêns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a
sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes
dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma
janela, no segundo andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macário foi
observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à
vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado
simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a vélha
carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por
cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu vélho aparador de
pau preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente
irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu
outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
--Quem é?
--Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se, com um grande ruído
de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mão.
Macário achou-o magro, mais vélho. Beijou-lhe a mão.
--Suba--disse o tio.
Macário ia calado, cosido com o corrimão.
Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sôbre uma
larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
Macário estava calado, anediando a barba.
--Que quer?--gritou-lhe o tio.
--Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.
--Boa viagem.
E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraça.
Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
--¿Onde vai, seu estúpido?--gritou-lhe o tio.
--Vou-me.
--Sente-se ali!
E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:
--O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é
um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O
seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo-Verde!
Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Tambêm sei! Àmanhã faz o favor de ir
para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira.
Faz favor de pôr na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe
preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília.
Levante dinheiro. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.
Macário, estonteado, radioso, com as lágrimas nos olhos, queria abraçá-lo.
--Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
--¿Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E, indo a um pequeno armário, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma
garrafa antiga do Pôrto e biscoitos.
--Côma!
E sentando-se ao pé dêle, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma
lágrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.
De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa
começou a tratar do seu enxoval.
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava quási sempre
em casa da noiva, e um dia andando a acompanhá-la, em compras, pela
lojas, êle mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A mãe tinha
ficado numa modista, num primeiro andar da rua do Ouro, e êles tinham
descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo
prédio, na loja.
O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande céu
azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.
--Que bonito dia!--disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
--Está!--disse ela.--Mas podem reparar; nós sós...
--Deixa, está tam bom...
--Não, não.
E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um
caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
Macário disse-lhe:
--Queria ver aneis.
--Com pedras--disse Luísa--e o mais bonito.
--Sim, com pedras--disse Macário.--Ametista, granada. Emfim, o melhor.
E, no entanto, Luísa ia examinando as _montres_ forradas de veludo azul,
onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares
de camafeus, os aneis, as finas _alianças_ frágeis como o amor, e toda a
scintilação da pesada ourivesaria.
--Vê, Luísa--disse Macário.
O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do
vidro da _montre_, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras,
lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com as pontas
dos dedos, ia-os correndo e dizendo:
--É feio... É pesado... É largo...
--Vê este--disse-lhe Macário.
Era um anel de pequenas pérolas.
--É bonito--respondeu ela.--É lindo!
--Deixa ver se serve--tornou Macário.
E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e
ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.
--É muito largo--disse Macário.--Que pena!
--Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto àmanhã.
--Boa idea--disse Macário--sim senhor. Porque é muito bonito. Não é
verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E
êstes brincos?--acrescentou, indo ao fim do balcão, a outra
_montre_.--¿Êstes brincos com uma concha?
--Dez moedas--disse o caixeiro.
E, no entanto, Luísa continuava examinando os aneis, experimentando-os
em todos os dedos, revolvendo aquela delicada _montre_, scintilante e
preciosa.
Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa,
passeando vagarosamente a mão pela cara.
--Bem--disse Macário, aproximando-se--então àmanhã temos o anel pronto.
A que horas?
O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.
--A que horas?
--Ao meio dia.
--Bem, adeus--disse Macário.
E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco,
dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequeninas
estavam escondidas num regalo branco.
--Perdão!--disse de repente o caixeiro.
Macário voltou-se.
--O senhor não pagou...
Macário olhou para êle gravemente.
--Está claro que não. Àmanhã venho buscar o anel, pago àmanhã.
--Perdão!--insistiu o caixeiro--mas o outro...
--Qual outro?--exclamou Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se
para o balcão.
--Essa senhora sabe--afirmou o caixeiro.--Essa senhora sabe...
Macário tirou a carteira lentamente.
--Perdão, se há uma conta antiga...
O caixeiro abriu o balcão, e com um aspecto resoluto:
--Nada, meu caro senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que
aquela senhora leva.
--Eu!--disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.
--Que é? Que está a dizer?
E Macário, pálido, com os dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro
coléricamente.
O caixeiro disse então:
--Essa senhora tirou dali um anel.
Macário ficou imóvel, encarando-o.
--Um anel com dois brilhantes--continuou o rapaz.--Vi perfeitamente.
O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se
espessamente.
--Essa senhora não sei quem é. Mas tirou o anel. Tirou-o dali...
Macário, maquinalmente, agarrou-lhe no braço, e voltando-se para Luísa,
com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:
--Luísa, dize...
Mas a voz cortou-se-lhe.
--Eu...--balbuciou ela, trémula, assombrada, enfiada, decomposta.
E deixou cair o regalo no chão.
Macário veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto
era tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mão no bôlso,
bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:
--Não me faça mal!--suplicou, encolhendo-se toda.
Macário ficou com os braços caidos, o ar abstracto, os beiços brancos;
mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao
caixeiro:
--Tem razão. Era distracção... Está claro! Esta senhora tinha-se
esquecido. É o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma,
filha, toma. Deixa estar, êste senhor embrulha-o. Quanto custa?
Abriu a carteira e pagou.
Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o
lenço, deu o braço a Luísa, e dizendo ao caixeiro: _desculpe_,
_desculpe_, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.
Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as
seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas
passavam, conversando: os pregões subiam em gritos alegres: um cavaleiro
de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a
rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.
Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma
esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão
pendente, a sua linda mão de cera, com as veias docemente azuladas, os
dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua
noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava, para esta noite,
_Palafoz em Saragoça_.
De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixo:
--Vai-te.
--Ouve!...--rogou ela, com a cabeça toda inclinada.
--Vai-te.--E com a voz abafada e terrível:--Vai-te! Olha que chamo.
Mando-te para o Aljube. Vai-te.
--Mas ouve, Jesus!
--Vai-te!--E fez um gesto, com o punho cerrado.
--Pelo amor de Deus, não me batas aqui!--disse ela, sufocada.
--Vai-te! Podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te!
E chegando-se para ela, disse baixo:
--És uma ladra!
E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a
bengala.
A distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.
Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela
rapariga loura.
UM POETA LÍRICO
Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do
poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é
êste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de
Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do
continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar!
E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma
capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo
morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa
que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões--parecia-me um
tufão dos mares da China...
Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do
perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala
estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa
escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de
casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a
taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambêm os carvões
ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a
minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao _bureau_. A _guarda-livros_,
tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu
_crochet_ ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gesto doce os
dois bandós louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar,
fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,--quando
a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês
silabado:
--Já está servido o almôço das sete...
Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.
Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante
para o _lunch_, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga
janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz
parda; os fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo, nas
ruas mudas, a neve caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via
apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco
dobrada uma expressão tam evidente de desalento, que me interessei por
aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sôbre a gola da
casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza
friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na
sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a
sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um
carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e
frisada, uma barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas
que, em boa literatura, se chama, creio eu, _fronte_; era larga e era
lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho
nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a calça
curta torcia-se em tôrno da canela como pregas de bandeira em tôrno dum
mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e
agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almôço,
sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o _comptoir_ onde o
_maître de hotel_ lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto
errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:
--Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...
O _maître de hotel_ afastou a _Bíblia_, inscreveu o _menu_--e eu
acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para
almoçar comigo--porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem
jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A
uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de
suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca
aberta, e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz
gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte
garganteava um psalmo... Um domingo de Londres.
Foi o magro que me trouxe o almôço--e apenas êle se aproximou, com o
serviço do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas
mãos o tinha interessado e impressionado: foi um olhar rápido,
gulosamente fixado na página aberta, um estremecimento quási
imperceptível,--emoção fugitiva, de-certo, porque depois de ter pousado
o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi plantar-se,
melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. Eu
atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume,
que eram os _Idílios de El-Rei_, em marroquim negro, com o escudo de
armas de Lançarote do Lago--o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.
Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado
York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado
romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao
voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura
lenta e fatal atravessar com um prato de _roast-beef_ numa das mãos e na
outra um _puding_ de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa
noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de
entrever um fragmento do seu passado. Era já tarde e eu voltava do
_Covent-Garden_, quando no perístilo do hotel encontrei, majestoso e
próspero, o meu amigo Bracolletti.
¿Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão
pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá
gordo; mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti,
pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar
o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu
fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o
sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a
mais rica das expressões humanas; há finura, inocência, bonomia,
abandono, ironia doce, persuasão, naqueles dois lábios que se descerram
e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem... Ah! mas
tambêm êste sorriso é a fortuna de Bracolletti.
Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é
tudo o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu
passado, o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde
sob as palpebras cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o
sorriso duma doçura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em
bondade e em enternecimento:
--_Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!_...
Nada mais. Parece, porêm, que viajou,--porque conhece o Perú, a Crimeia,
o Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos--tam bem como Regent-Street:
mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a
dos vulgares aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e
pelintrices: é um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico
solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o
surpreendeu sem uma pelissa de dois mil francos: e nunca deixa de
ganhar, todas as semanas, no _Fraternal Club_, de que é um membro
querido, dez libras ao whist. É um forte.
Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze
a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de
praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com método.
Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola,
metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso,
animando-as a que lhe roubem os _shillings_ da algibeira, gozando o
desenvolvimento dos vícios naquelas flores, pondo-lhes ao alcance as
garrafas de _gin_ para que os anjinhos se embebedem;--e quando alguma,
excitada de álcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuría, o
arrepela, baba obscenidades,--o bom Bracolletti, encruzado no sofá, de
mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, murmura no
seu italiano da costa síria.
--_Piccolina! Gentilleta!_
Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa
noite, em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear
juntos ao restaurante. O criado triste lá estava no seu _comptoir_,
curvado sôbre o _Journal des Debats_. E apenas Bracolletti apareceu, na
sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi
um _shake-hands_ solene, enternecido e sincero.
Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e
vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o
nome do homem.
--Chama-se Korriscosso--disse-me Bracolletti, grave.
Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática
que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti
refugiou-se na sua vaga reticência.
--_Eh! mon Dieu!..._ _Eh! mon Dieu!_...
--Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face
fatal e baironeana deve ter uma história...
Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e
as suas barbas--e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que
tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu
secretário... Boa letra... Tempos difíceis... _Eh! mon Dieu!_...
--De onde é êle?
Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado
de desconsideração:
--É um grego de Atenas.
O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem
viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o
hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se
vêem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o
entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas
glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as
linhas augustas do Pártenon. Mas, depois de os ter freqùentado, às
mesas redondas e nos tombadilhos das _Messageries_, e principalmente
depois de ter escutado a lenda de velhacaria que êles tem deixado desde
Esmirna até Túnis, os outros que se vêem provocam, apenas, êstes
movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar fortemente os braços
sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para rechassar a
_escroquerie_. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que
emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e
parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas
soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de
Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do
quarto, e recordei o olhar de gula e de prêsa que cravara nele
Korriscosso... Era um bandido!
E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro
criado, rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do
_comptoir_ abismado no _Journal des Debats_.
Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O
hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de
Charing-Cross, numa complicação de corredores, escadas, recantos,
ângulos, onde é quási necessário roteiro e bússola.
De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de
viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões
colados onde estavam inscritos nomes: _John Smith_, _Charlie_,
_Willie_... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma
porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo
Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de
testa pendida sôbre a mão, escrevendo.
--¿Pode-me indicar o caminho para o número 508?--balbuciei.
Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir
de muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:
--508? 508?...
Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e
um rosário--o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e
acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu
primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento
bom, e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o;
apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providência irritada,
disse-lhe:
--É o meu Tennyson...
Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado
tambêm pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego
sentimental, acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:
--¿Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se
entusiasmou...
Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador
surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o
seu gôsto poético adivinhados--e de ter no corpo a casaca coçada de
criado de restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu
abri, responderam por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob
uma rêde de comentários a lápis: _Sublime!_ _Grandioso!_
_Divino!_--palavras lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão,
agitada por uma sensibilidade vibrante...
No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça
baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre
Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem
sorte, tantas tristezas de dependência... Lembrei-me que nada
impressiona o homem do Levante como um gesto de drama e de palco;
estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma, e disse-lhe:
--Eu tambem sou poeta!...
Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do
Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. ¿Porque,
não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel,
eram estrofes: era uma ode.
Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua
história--ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É
tam triste, que a condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de
anos;--e eu não posso reconstituir com lógica e seqùência a história
dêste sentimental. Tudo é vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas;
seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos Korriscosso
servia de criado a um médico, e nos intervalos do serviço freqùentava a
Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes _là-bas_, como êle
dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos
difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as suas
primeiras elégias num semanário lírico intitulado _Ecos da Ática_. A
literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares.
Uma paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte,
forçaram-no a expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica
empregado numa sucursal do _Banco Otomano_, remeteu endechas
dolorosas a um jornal da província--a _Trombeta da Argólida_. Aqui há
uma dessas lacunas, um buraco negro na sua história. Reaparece em
Atenas, com fato novo, liberal e deputado.
Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em
evidência; a sua palavra colorida, poética, recamada de imagens
engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como
êle dizia, os terrenos mais áridos; duma discussão de imposto ou de
viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao
poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do
Estado: o ministério, porêm, e com êle a maioria de que Korriscosso era
o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica constitucional, num
dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, em que os
governos se aluem, como as casas em Atenas--sem motivo. Falta de base,
decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó
num solo de ruinas...
Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...
Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num
jornal a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de
génios. Publíca então os seus _Suspiros da Trácia_. Tem outro
romance de coração... E emfim--e isto disse-mo sem explicações--é
obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias
posições, coloca-se no restaurant de Charing-Cross.
--É um pôrto de abrigo--disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.
Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É
bem alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de
molas,--mas as delicadezas da sua alma são, a todo o momento,
dolorosamente feridas...
Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a
distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e
copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego
não é particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja
cortês. E, como êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de
Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer _if you
please_; e quando saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do
chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.
Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse
um guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de
sêdas... Nisso há uma sombra de poesia--os milhões que se revolvem, as
frotas mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente
os estofos, os cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos
_moirés_, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num
restaurante como se pode exercer o gôsto, a originalidade artística, o
instinto da côr, do efeito, do drama--a partir nacos de _roast-beef_ ou
de presunto de York?!... Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer
alimento, é servir exclusivamente a pança, a tripa, a baixa necessidade
material: no restaurante, o ventre é Deus: a alma fica fóra, com o
chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de jornais que se deixou
no bôlso do paletot.
E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle
senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os
seus lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para
perguntar:--Mais pão? mais bife?--Esta privação de eloqùência é-lhe
dolorosa.
Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de
memória; quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode
sai-lhe harmoniosa e doce.... Mas a interrupção glutona da voz do
freguês, pedindo nutrição, é fatal a esta maneira de trabalhar. Às
vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no braço, Korriscosso está
fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de virgens
pálidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz;
está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos
acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz
faminta berra dum canto:
--Bife e batatas!
Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o
infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e
as abas da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:
--¿Passado ou meio crú?
Ah! é um amargo destino!
--¿Mas--perguntei-lhe eu--porque não deixa êste covil, êste templo do
ventre?
Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o
prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata
branca no cachaço: Korriscosso ama.
Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o
primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu
lavando as escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos
louros, os fatais cabelos louros, dêste louro que entontece os
meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de oiro mate,
torcendo-se numa trança de deusa. E depois a carnação, uma carnação
de inglesa do Yorkshire--leite e rosas...
E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes--que
passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu
vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de
linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada
arremesados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do céu
frio! É que Korriscosso tem ciumes. A desgraçada Fanny ignora aquele
poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um
_policeman_. Ama um _policeman_, um colosso, um alcides, uma montanha de
carne erriçada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um
couraçado, com pernas como fortalezas normandas. Êste Polifemo, como diz
Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no Strand; e a pobre Fanny
passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos do hotel.
Todas as suas economias as gasta em quartilhos de _gin_, de _brandy_, de
genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental: mantem-no
fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe
em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, arrota
cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue
taciturnamente, sem um _obrigado_, sem um _amo-te_, batendo o lagedo
com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa...
E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no
nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra
entre as mãos transparentes.
Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela
despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende...
Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em
linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na
sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só
um grande homem--em grego...
Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o
visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais
fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo
restaurante com a travessa do _roast-beef_, mais exaltado no seu
lirismo... Sempre que êle me serve dou-lhe um _shilling_ de gorgeta: e
depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mão.
NO MOINHO
D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora
modêlo». O vélho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela,
dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:
--É uma santa! É o que ela é!
A vila tinha quási orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma
loura, de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de
violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e
doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de três sacadas; e era,
para a gente que às tardes ia fazer o giro até ao moinho, um encanto
sempre novo vê-la por trás da vidraça, entre as cortinas de cassa,
curvada sôbre a sua costura, vestida de preto, recolhida e séria.
Poucas vezes saía. O marido, mais vélho que ela, era um inválido,
sempre de cama, inutilizado por uma doença de espinha; havia anos que
não descia à rua; avistavam-no às vezes tambêm à janela murcho e
trôpego, agarrado à bengala, encolhido na _robe-de-chambre_, com uma
face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sêda enterrado
melancólicamente até ao cachaço. Os filhos, duas rapariguitas e um
rapaz, eram tambêm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de
tumores nas orelhas, chorões e tristonhos. A casa, interiormente,
parecia lúgubre. Andava-se nas pontas dos pés, porque o senhor, na
excitação nervosa que lhe davam as insónias, irritava-se com o menor
rumor; havia sôbre as cómodas alguma garrafada da botica, alguma malga
com papas de linhaça; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no
seu gôsto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar
abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era
uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sôbre a
orelha, ou a um canto do camapé, embrulhado em cobertores com uma
amarelidão de hospital.
Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em
casa dos pais, a sua existência fôra triste. A mãe era uma criatura
desagradável e azêda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas
batotas, já vélho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa
passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando
para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João
Coutinho pediu Maria em casamento, a-pesar de doente já, ela aceitou,
sem hesitação, quási com reconhecimento, para salvar o casebre da
penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em
cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o
marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo
rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fôsse pertencer ao
Joãosinho Coutinho, que desde rapaz fôra sempre entrevado. O Coutinho,
por morte do pai, ficára rico; e ela, acostumada por fim àquele marido
rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a
álcôva, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de
consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sãos e robustos. Mas
aquela família que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas existências
hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mãos, a-pesar dos seus
cuidados inquietos, acabrunhavam-na. Às vezes só, picando a sua costura,
corriam-lhe as lágrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como
uma névoa que lhe escurecia a alma.
Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos
choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face
tranqùila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um,
indo animar o outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu
pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada
uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra
senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esfôrço
lhe era fácil quando era para os contentar: a-pesar de fraca, passeava
horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com
as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura:
durante as insónias do marido não dormia tambêm, sentada ao pé da cama,
conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia
caíndo em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda
correcta no seu vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos,
fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua
única distracção era à tarde sentar-se à janela com a sua costura, e a
pequenada em roda, aninhada no chão, brincando tristemente. A mesma
paizagem que ela via da janela era tam monótona como a sua vida: em
baixo a estrada, depois uma ondulação de campos, uma terra magra
plantada aqui e alêm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma
colina triste e nua, sem uma casa, uma árvore, um fumo de casal que
pusesse naquela solidão de terreno pobre uma nota humana e viva.
Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila
afirmavam que ela era beata: todavia ninguêm a avistava na igreja, a não
ser ao domingo, com o pequerrucho mais vélho pela mão, todo pálido no
seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devoção limitava-se a esta
missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar
invadir pelas preocupações do céu: naquele dever de boa mãe, cumprido
com amor, encontrava uma satisfação suficiente à sua sensibilidade; não
necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente
mesmo pensava que toda a afeição excessiva dada ao Pai do Céu, todo o
tempo gasto em se arrastar pelo confessionário ou junto do oratório,
seria uma diminuição cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua maneira
de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama,
todo dependente dela, tendo-a só a ela, parecia-lhe ter mais direito ao
seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma
humanidade pronta. Alêm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de
alma triste que levam à devoção. O seu longo hábito de dirigir uma casa
de doentes, de ser ela o centro, a fôrça, o amparo daqueles
inválidos, tornára-a terna, mas pràtica: e assim era ela que
administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afeição
dirigira, uma solicitude de mãe próvida. Tais ocupações bastavam para
entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de
caras saudáveis, as comiserações de cerimónia; e passavam-se meses sem
que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha à família,
a não ser a do Dr. Abílio--que a adorava, e que dizia dela com os olhos
esgazeados:
--É uma fada! é uma fada...
Foi por isso grande a excitação na casa, quando João Coutinho recebeu
uma carta de seu primo Adrião que lhe anunciava que em duas ou três
semanas ia chegar à vila. Adrião era um homem célebre, e o marido de
Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinára
mesmo um jornal de Lisboa, só para ver o seu nome nas locais e na
crítica. Adrião era um romancista: e o seu último livro, _Madalena_, um
estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e
subtil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara até à vila,
num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante,
um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado
a uma alta situação no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo
notável por ser primo do João Coutinho.
D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via já a sua casa em
confusão com a presença do hóspede extraordinário. Depois a necessidade
de fazer mais _toilette_, de alterar a hora do jantar, de conversar com
um literato, e tantos outros esforços crueis!... E a brusca invasão
daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria
de são, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impressão apavorada
duma profanação. Foi por isso um alívio, quási um reconhecimento, quando
Adrião chegou, e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do
tio André, à outra extremidade da vila. João Coutinho escandalizou-se:
tinha já o quarto do hóspede preparado, com lençóis de rendas, uma
colcha de damasco, pratas sôbre a cómoda, e queria-o todo para si, o
primo, o homem célebre, o grande autor... Adrião porêm recusou:
--Eu tenho os meus hábitos, vocês teem os seus... ¿Não nos contrariemos,
hein?... O que faço é vir cá jantar. De resto, não estou mal no tio
André... Vejo da janela um moinho e uma reprêsa que são um quadrosinho
delicioso... ¿E ficamos amigos, não é verdade?
Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele herói, aquele fascinador
por quem choravam mulheres, aquele poeta que os jornais
glorificavam, era um sujeito extremamente simples,--muito menos
complicado, menos espectaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso
era: e com o seu chapéu desabado sôbre uma face cheia e barbuda, a
quinzena de flanela caíndo à larga num corpo robusto e pequeno, os seus
sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caçadores de aldeia que às
vezes encontrava, quando de mês a mês ia visitar as fazendas do outro
lado do rio. Alêm disso não fazia frases; e a primeira vez que veio
jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus negócios. Viera por
êles. Da fortuna do pai, a única terra que não estava devorada, ou
abominavelmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao pé da vila,
que andava alêm disso mal arrendada... O que êle desejava era vendê-la.
Mas isso parecia-lhe a êle tam difícil, como fazer a _Ilíada_!... E
lamentava sinceramente ver o primo ali, inútil sôbre uma cama, sem o
poder ajudar nesses passos a dar com os proprietários da vila. Foi por
isso, com grande alegria, que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a
mulher era uma administradora de primeira ordem, e hábil nestas questões
como um antigo rábula!...
--Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso
tudo... E na questão de preço, deixa-a a ela!...
--Mas que superioridade, prima!--exclamou Adrião maravilhado.--Um anjo
que entende de cifras!
Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra
dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...
No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de
março fresco e claro, partiram a pé. Ao princípio, acanhada por aquela
companhia de um leão, a pobre senhora caminhava junto dêle com o ar de
um pássaro assustado: a-pesar de êle ser tam simples, havia na sua
figura enérgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos
pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava.
Tinha-se-lhe prendido à orla do seu vestido um galho de silvado, e como
êle se abaixára para o desprender delicadamente, o contacto daquela mão
branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente.
Apressava o passo para chegar bem depressa à fazenda, aviar o negócio
com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento
próprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada
estendia-se, branca e longa, sob o sol tépido--e a conversa de Adrião
foi-a lentamente acostumado à sua presença.
Êle parecia desolado daquela tristeza da casa. Deu-lhe alguns bons
conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida
diversa daquele abafamento de alcôva...
Ela tambêm assim o julgava: mas quê! o pobre João, sempre que se lhe
falava de ir passar algum tempo à quinta, afligia-se terrívelmente:
tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte
fazia-o quási desmaiar; tornára-se um ser artificial, encafuado entre os
cortinados da cama...
Êle então lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfação num dever
tam santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que
desejasse alguma outra cousa alêm daquelas quatro paredes, impregnadas
do bafo da doença...
--¿Que hei-de eu desejar mais?--disse ela.
Adrião calou-se: pareceu-lhe absurdo supôr que ela desejasse, realmente,
o Chiado ou o Teatro da Trindade... No que êle pensava era noutros
apetites, nas ambições do coração insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe
tam delicado, tam grave de dizer àquela criatura virginal e séria--que
falou da paizagem...
--Já viu o moinho?--perguntou-lhe ela.
--Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.
--Hoje é tarde.
Combinaram logo ir visitar êsse recanto de verdura, que era o idílio da
vila.
Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximação maior
entre Adrião e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma
astúcia de aldeã, punha entre êles como que um interesse comum. Ela
falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dêle,
dum respeito tocante, uma atracção que a seu pesar a levava a
revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falára tanto a ninguêm: a
ninguêm jàmais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava
constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sôbre a mesma
dor--a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves... E
vinha-lhe por êle uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter
sempre presente, desde que êle se tornava assim depositário das suas
tristezas.
Adrião voltou para o seu quarto, na estalagem do André, impressionado,
interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava
sôbre o mundo de mulheres que até ali conhecera, como um perfil suave de
anjo gótico entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava
deliciosamente: o oiro do cabelo, a doçura da voz, a modéstia na
melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que
mesmo o seu pequenino espírito burguês, certo fundo rústico de aldeã e
uma leve vulgaridade de hábitos davam um encanto: era um anjo que
vivia há muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados
prêso às trivialidades do sítio: mas bastaria um sôpro para o fazer
remontar ao céu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...
Achava absurdo e infame fazer a côrte à prima... Mas involuntáriamente
pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava
deformado pelo espartilho, e de pôr emfim os seus lábios numa face onde
não houvesse pós de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que
poderia percorrer toda a província em Portugal, sem encontrar nem aquela
linha do corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era
uma ocasião que não voltava.
O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de
Corot, sobretudo à hora do meio dia em que êles lá foram, com a frescura
da verdura, a sombra recolhida das grandes árvores, e toda a sorte de
murmúrios de água corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as
pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por
onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vélha
edificação de pedra secular, a sua roda enorme, quási pôdre, coberta de
ervas, imóvel sôbre a gelada limpidez da água escura. Adrião achou-o
digno duma scena de romance, ou melhor, da morada duma fada. Maria
da Piedade não dizia nada, achando extraordinária aquela admiração pelo
moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada,
sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na água
da reprêsa os últimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no
encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas.
Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do
guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim,
tam branca, tam loura, duma linha tam pura sôbre o fundo azul do ar: o
seu chapéu era de mau gôsto, o seu mantelete antiquado, mas êle achava
nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silêncio dos campos em redor
isolava-os--e, insensívelmente, êle começou a falar-lhe baixo. Era ainda
a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila,
pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos,
pasmada de se achar ali tam só com aquele homem tam robusto, toda
receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento
em que êle falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.
--Ficar aqui? Para quê?--perguntou ela sorrindo.
--Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...
Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mãos. Adrião
receou tê-la ofendido, e acrescentou logo rindo:
--¿Pois não era delicioso?... Eu podia alugar êste moinho, fazer-me
moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...
Isto fê-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os
dentes, a pele, a côr do cabelo. Êle continuou gracejando, com o seu
plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro,
carregado de sacas de farinha.
--E eu venho ajudá-lo, primo!--disse ela, animada pelo seu próprio riso,
pela alegria daquele homem a seu lado.
--Vem?--exclamou êle.--Juro-lhe que me faço moleiro! Que paraíso nós
aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar
êstes melros!
Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se êle fôsse já
arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idea,
pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma
felicidade idílica, naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo,
para o trabalho; depois o jantar na relva à beira de água; e à noite as
boas palestras ali sentados, à claridade das estrêlas ou sob a
sombra cálida dos céus negros de verão...
E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a
sôbre os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado
contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao
comprido da face. Era assim tam dolorosa e fraca, que êle soltou-a; ela
ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dêle, com o beicinho
a tremer, murmurando:
--É mal feito... é mal feito...
Êle mesmo estava tam perturbado--que a deixou descer para o caminho: e
daí a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem
que êle pensou:
--Fui um tolo!
Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa
dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em àgua de
malvas as feridas que êle tinha na perna. E então, pareceu-lhe odioso
distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele
no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da
província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe... A venda da fazenda
estava concluída. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a
dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência: encontrou-a na sala,
à janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas
saias... Ouviu que êle partia, sem lhe mudar a côr, sem lhe arfar o
peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tam fria como um mármore: e
quando êle saíu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela,
escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que
escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caíndo-lhe na costura...
Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus
olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado
da imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua
celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela
aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela
seriedade, aquele ar honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz
tam grave e tam rica: e antevia, para alêm da sua existência ligada a um
inválido, outras existências possíveis, em que se não vê sempre diante
dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se não passam a
esperar as horas dos remédios... Era como uma rajada de ar impregnado de
todas as fôrças vivas da natureza, que atravessava, súbitamente, a sua
alcôva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, tinha
ouvido aquelas conversas em que êle se mostrava tam bom, tam sério,
tam delicado: e à fôrça do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um
coração terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Êste amor
latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta
idea, esta visão--_Se êle fosse meu marido!_ Toda ela estremeceu,
apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se
com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua
fôrça... Depois êle deu-lhe aquele beijo no moinho.
E partira!
Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo
de repente em volta dela--a doença do marido, achaques dos filhos,
tristezas do seu dia, a sua costura--lhe pareceu lúgubre. Os seus
deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados
como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça
excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha dêsses abatimentos,
dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sôbre a cadeira,
com os braços pendentes, murmurando:
--¿Quando se acabará isto?
Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa.
Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dêle e da sua
lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de
proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá
razão à vida. Não quis que nada do que era dêle ou vinha dêle lhe fôsse
alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela _Madalena_ que tambêm
amara, e morrera dum abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe
como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de
romance, parecia sentir alívio às suas.
Lentamente, esta necessidade de encher a imaginação dêsses lances de
amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um
devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu espírito um
mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa,
sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre
agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas.
Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios
sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe
o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das
feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só,
num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a
rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões,
entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num
mistério de noite romântica...
O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se,
estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos
heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha,
sobretudo, a fôrça. Porque era isto que admirava, que queria, porque
ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir--dois braços fortes
como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que,
num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica.
Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de
tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um
desejo de lhe apressar a morte...
E no meio desta excitação mórbida do temperamento irritado, eram
fraquezas súbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma
porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas...
À noite abafava; abria a janela; mas o cálido ar, o bafo môrno da terra
aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma ânsia voluptuosa,
cortada de crises de chôro...
A Santa tornava-se Vénus.
E o romantismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e
desmoralizára-o tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria
que um homem lhe tocasse, para ela lhe caír nos braços:--e foi o que
sucedeu emfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o
praticante da botica.
Por causa dêle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa
desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas
horas, o marido a gemer abandonado na sua alcôva, toda a trapagem dos
emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe--para andar
atrás do homem, um maganão odioso e cebento, de cara balôfa e
gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha, e
bonésinho de sêda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo
de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar
uma Joana, criatura obêsa, a quem chamam na vila a _bola de unto_.
CIVILIZAÇÃO
I
Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num
palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e
gado.
Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-montes,
espalhava, para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fôra
sempre mais resistente e são que um pinheiro das dunas. Um lindo rio,
murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca,
reflectindo apenas pedaços lustrosos de um céu de verão ou ramagens
sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa
barca cheia de almofadas e de Champanhe gelada, mais doçura e
facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. Não teve
sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se lê
Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi
sempre tam feliz como o clássico Orestes. Do Amor só experimentára o
mel--êsse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratíca, como
as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambição, sentira sómente a de
compreender bem as ideas gerais, e a «ponta do seu intelecto» (como diz
o vélho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E
todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto já se vinha repastando de
Schopenhauer, do Eclesiastes, doutros Pessimistas menores, e três,
quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os
dedos finos sôbre as faces, como se nela só palpasse palidez e ruína.
Porquê?
Era êle, de todos os homens que conheci, o mais complexamente
civilizado--ou antes aquele que se munira da mais vasta sôma de
civilização material, ornamental e intelectual. Nesse palácio
(floridamente chamado o _Jasmineiro_) que seu pai, tambêm Jacinto,
construira sôbre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e
branqueada a cal--existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou
da matéria os homens teem criado, através da incerteza e dor, desde que
abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das Águas Fáceis, o
doce país Ariano. A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como
praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caranânia
até ao teto de onde, alternadamente, através de cristais, o sol e a
electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma--continha vinte e cinco
mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim
escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar
espaço, o bibliotecário apenas colecionára os que irreconciliavelmente
se contradizem) havia mil oito centos e dezassete!
Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri,
buscando êste economista ao longo das estantes, oito metros de economia
política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto
de todas as obras essenciais da inteligência--e mesmo da estupidez. E o
único inconveniente dêste monumental armazêm do saber era que todo
aquele que lá penetrava, inevitavelmente lá adormecia, por causa das
poltronas, que provídas de finas pranchas móveis para sustentar o livro,
o charuto, o lápis das notas, a taça de café, ofereciam ainda uma
combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava
logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de
um leito.
Ao fundo, e como um altar-mór, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A
sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brazões, datava do século
XIV, e em tôrno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sôbre os
panejamentos de sêda côr de musgo e côr de hera, pareciam serpentes
adormecidas e suspensas num vélho muro de quinta. Nunca recordo sem
assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos
para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis,
raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos,
carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios,
todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas,
as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas fôlhas de papel
Whatman em que êle escrevia, e que custavam 500 réis, eu por vezes
surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos êle considerava
indispensáveis para compôr as suas cartas (Jacinto não compunha obras)
assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as
enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante
isolada, esguia, em forma de tôrre, que silenciosamente girava sôbre o
seu pedestal, e que eu denominára o Farol. O que, porêm, mais
completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de
civilização eram, sôbre as suas peanhas de carvalho, os grandes
aparelhos, facilitadores do pensamento,--a máquina de escrever, os
auto-copistas, o telégrafo-Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone,
outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios.
Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele
santuário. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, crac, crac! Trrre,
trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos êsses fios mergulhavam em
fôrças universais, transmitiam fôrças universais. E elas nem sempre,
desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto
recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Pôrto, uma voz
oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
--«_Maravilhosa invenção! ¿Quem não admirará os progressos dêste século?_»
Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando
que umas senhoras parentas de Pinto Pôrto (as amáveis Gouveias)
admirassem o fonógrafo, fez romper do bocarrão do aparelho, que parece
uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular.
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital--porque
de repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação,
interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença
do conselheiro:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A
exclamação recomeçava, rolava, oracular e majestosa:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de
panos de Arraz. Em vão! A voz de Pinto Pôrto lá estava, entre os panos
de Arraz, implacável e rotunda:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Furiosos, enterramos uma almofada na bôca do fonógrafo, atiramos por
cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão!
sob a mordaça, sob as grossas lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales
sôbre a cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia,
engasgada e gosmosa:
--_¿Quem não admirará os progressos dêste século?_
Fugimos espavoridos para a rua.
Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes,
passava cantando com braçados de flores:
Todas as ervas são bentas
Em manhã de S. João...
Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor.
Recolhemos ao _Jasmineiro_, com o sol já alto, já quente. Muito de manso
abrimos as portas, como no receio de despertar _alguêm_. Horror! Logo da
ante-câmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: «_admirará..._
_progressos..._ _século!..._» Só de tarde um electricista pôde emmudecer
aquele fonógrafo horrendo.
Bem mais aprazível (para mim) do que esse gabinete temerosamente
atulhado de civilização--era a sala de jantar, pelo seu arranjo
compreensível, fácil e íntimo. À mesa só cabiam seis amigos que Jacinto
escolhia com critério na literatura, na arte e na metafísica, e que,
entre as tapeçarias de Arraz, representando colinas, pomares e portos da
Ática cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente
banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Platão. Cada
garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras dextramente
arranjadas em forma de pensamento.
E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios
dissemelhantes e astuciosos:--um para as ostras, outro para o peixe,
outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro
para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das côres,
faziam, sôbre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes
silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus filósofos,
lembrando o que o experiente Salomão ensina sôbre as ruínas e amarguras
do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de Bordeus
(Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam--Hesíodo no seu _Nereu_, e
Diocles nas suas _Abelhas_. E de águas havia sempre no _Jasmineiro_ um
luxo redundante--águas geladas, águas carbonatadas, águas esterilizadas,
águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras ainda, em garrafas
sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O cozinheiro,
mestre Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava aos Retóricos, aos
oradores, a todos os que sabem a arte divina de «temperar e servir a
Idea»: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam
votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de fôlhas
de ouro e a túnica Milésia que se devia aos bemfeitores cívicos. A
sua sopa de alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado
macerados em vélho Madeira com _purée_ de nozes; as suas amoras geladas
em éter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os únicos que
tolerava o meu Jacinto) eram obras de um artista, superior pela
abundância das ideas novas--e juntavam sempre a raridade do sabor à
magnificência da forma. Tal prato dêsse mestre imcomparável, parecia,
pela ornamentação, pela graça florida dos lavores, pelo arranjo dos
coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini
ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composições de
excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta
superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por
sôbre um tapete, mais fôfo e mole que o musgo da floresta da
Brocelândia, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados
e um pagem preto, à maneira vistosa do século XVIII. As travessas (de
prata) subiam da cozinha e da copa por dous ascensores, um para as
iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; outro, mais
lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e ambos
escondidos por flores tam densas e viçosas que era como se até a sopa
saísse fumegando dos românticos jardins de Armida. E muito bem me lembro
de um domingo de maio em que, jantando com Jacinto um bispo, o
erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo
necessário que acudissem, para o extrair, pedreiros com alavancas.
II
Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos
essas festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia
ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso
Jacinto--onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque
as usava alternadamente de sêda, de pano, de flanelas Jaegher, e de
_foulard_ das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por
duas vastas janelas, providas magnificamente (alêm das cortinas de sêda
mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro, duma vidraça
interior de cristais miudos, dum tôldo rolando na cimalha, dum estore de
sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam como nuvens, e duma
gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos êstes resguardos (sábia
invenção de Holland & C.ª, de Londres) serviam a guardar a luz e o
ar--segundo os avisos de termómetros, barómetros e higrómetros, montados
em ébano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as
semanas, verificar a precisão.
Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de _toilette_, uma mesa
enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos
micróbios, e coberta de todos êsses utensílios de asseio e alinho que o
homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o conjunto
suntuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas
engenhosas chinelas de pelica e sêda, se acercava desta ara--eu, bem
aconchegado num divã, abria com indolência uma Revista, ordináriamente a
_Revista Electro-Pática_, ou a das _Indagações Psíquicas_. E Jacinto
começava... Cada um dêsses utensílios de aço, de marfim, de prata,
impunham ao meu amigo, pela influência omnipoderosa que as cousas
exercem sôbre o dono (_sunt tyranniæ rerum_) o dever de o utilizar com
aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de Jacinto
apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos dum
sacrifício.
Começava pelo cabelo... Com uma escôva chata, redonda e dura, acamava o
cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escôva
estreita e recurva, à maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo
sôbre a orelha; com uma escôva côncava, em forma de telha, empastava o
cabelo, por trás, sôbre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com
uma escôva de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escôva leve e
flácida acurvava as sobrancelhas; com uma escôva feita de penugem
regularizava as pestanas. E dêste modo Jacinto ficava diante do espelho,
passando pêlos sôbre o seu pêlo, durante catorze minutos.
Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dois criados, ao fundo,
manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório--que era apenas
um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sôbre o
mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duches (quente e
fria) para a cabeça; quatro jactos, graduados desde _zero até cem
graus_; o vaporizador de perfumes; a fonte de água esterilizada (para os
dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e
botões de ébano que, de leve roçados, desencadeavam o marulho e o
estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os dedos, me
cheguei àquele lavatório sem terror--escarmentado da tarde amarga de
janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de água a
_cem graus_ rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador...
Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o _Jasmineiro_. O vélho
Grilo, escudeiro que fôra do Jacinto pai, ficou coberto de empôlas na
face, nas mãos fieis.
Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo,
de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de sêda
frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.
E era êste bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus
amigos e filósofos. ¿Que faltava a êste homem excelente? Êle tinha a sua
inabalável saúde de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da
inteligência, própria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou
morrão; quarenta magníficos contos de renda; todas as simpatias duma
cidade chasqueadora e scéptica; uma vida varrida de sombras, mais
liberta e lisa do que um céu de verão... E todavia bocejava
constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as
rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E
pela morosidade desconsolada de toda a sua acção parecia ligado, desde
os dedos até à vontade, pelas malhas apertadas duma rêde que se não via
e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que êle, para
apontar um enderêço, tomava o seu lápis pneumático, a sua pena
eléctrica--ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefónico!...
Neste mover lento do braço magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o
nariz, mesmo nos seus silêncios, longos e derreados, se sentia o brado
constante que lhe ia na alma;--_Que massada! Que massada!_
Claramente a vida era para Jacinto um cansaço--ou por laboriosa e
difícil, ou por desinteressante e ôca... Por isso o meu pobre amigo
procurava constantemente juntar à sua vida novos interêsses, novas
facilidades. Dois inventores, homens de muito zêlo e pesquiza estavam
encarregados, um em Inglaterra, outro na América, de lhe noticiar e de
lhe fornecer todas as invenções, as mais miudas, que concorressem a
aperfeiçoar a confortabilidade do _Jasmineiro_. De resto, êle proprio se
correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto não cessava
tambêm de buscar interêsses e emoções que o reconciliassem com a
vida--penetrando à cata dessas emoções e dêsses interêsses pelas veredas
mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a março,
setenta e sete volumes sôbre a _evolução das ideas morais entre as raças
negróides_. Ah! nunca homem dêste século batalhou mais esforçadamente
contra a _séca de viver_! Debalde! Mesmo de explorações tam cativantes
como essa, através da moral dos negróides, Jacinto regressava mais
murcho, com bocejos mais cavos!
E era então que êle se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer
e do _Eclesiastes_. Porque? Sem dúvida porque ambos êsses pessimistas o
confirmavam nas conclusões que êle tirava de uma experiência
paciente e rigorosa: «que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se
sabe, mais se péna, e que ter sido rei de Jerusalêm e obtido os gózos
todos na vida só leva a maior amargura...» ¿Mas porque rolara assim a
tam escura desilusão--o saùdável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O
vélho escudeiro Grilo pretendia que «S. Ex.ª sofria de fartura!»
III
Ora justamente depois dêsse inverno, em que êle se embrenhara na moral
dos negróides e instalara a luz eléctrica entre os arvoredos do jardim,
sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludível de partir para o
Norte, para o seu vélho solar de Torges. Jacinto não conhecia Torges, e
foi com desusado tédio que êle se preparou, durante sete semanas, para
essa jornada agreste. A quinta fica nas serras--e a rude casa solarenga,
onde ainda resta uma tôrre do século XV, estava ocupada, havia trinta
anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre
a fumaraça da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.
Jacinto, logo nos começos de março, escrevera cuidadosamente ao seu
procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que
compuzesse os telhados, caiasse os muros, envidraçasse as janelas.
Depois mandou expedir, por combóios rápidos, em caixotes que transpunham
a custo os portões do _Jasmineiro_, todos os confortos necessários a
duas semanas de montanha--camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de
Carcel, banheiras de níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros,
tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um
copé, uma vitória, um breque, mulas e guizos.
Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais
de trufas, caixas profundas de águas mineráis. Desde o amanhecer, nos
pátios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construção
de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma página de
Heródoto ao narrar a invasão persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados
daquele Êxodo. Por fim, largamos numa manhã de junho, com o Grilo, e
trinta e sete malas.
Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guiães, onde vive minha tia,
a uma légua farta de Torges: e íamos num vagom reservado, entre vastas
almofadas, com perdizes e Champanhe num cêsto. A meio da jornada
devíamos mudar de combóio--nessa estação, que tem um nome sonoro em
_ola_ e um tam suave e cândido jardim de roseiras brancas. Era domingo
de imensa poeira e sol--e encontrámos aí, enchendo a plata-forma
estreita, todo um povaréu festivo que vinha da romaria de S. Gregório da
Serra.
Para aquele trasbôrdo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia
três minutos avaros. O outro combóio já esperava, rente aos alpendres,
impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo
atender às lindas môças que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de
lenços flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo
espetada no chapéu--corremos, empurrámos, furámos, saltámos para o outro
vagom, já reservado, marcado por um cartão com as iniciais de Jacinto.
Imediatamente o trem rolou. Pensei então no nosso Grilo, nas trinta e
sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da
estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de boné
agaloado que, diante delas, bracejavam com desespêro.
Murmurei, recaindo nas almofadas:
--Que serviço!
Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:
--Que massada!
Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o
sol batia nas vidraças, quente e poeirento, quando chegamos à estação de
Gondim, onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia
esperar com cavalos para treparmos a serra até ao solar de Torges. Por
trás do jardim da estação, todo florido tambêm de rosas e margaridas,
Jacinto reconheceu logo as suas carruagens ainda empacotadas em lona.
Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco--só houve em
tôrno de nós solidão e silêncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da
estação, a quem eu perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o snr.
Sousa, se não conhecia o snr. Sousa», tirou afavelmente o seu boné de
galão. Era um moço gordo e redondo, com côres de maçã camoesa, que
trazia sob o braço um volume de versos. «Conhecia perfeitamente o snr.
Sousa! Três semanas antes jogara êle a manilha com o snr. Sousa! Nessa
tarde porêm, infelizmente, não avistara o snr. Sousa!» O comboio
desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem sôbre o rio. Um
carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma
vélha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante duma cêsta de
ovos. ¿E o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu
risonhamente os ombros nédios. Todos os nossos bens tinham
encalhado, de-certo, naquela estação de roseiras brancas que tem um nome
sonoro em _ola_. E nós ali estávamos, perdidos na serra agreste, sem
procurador, sem cavalos, sem Grilo, sem malas.
¿Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da estação, numa
quebrada da serra, havia um casal foreiro à quinta, onde alcançamos,
para nos levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento
branco, um rapaz e um podengo. E aí começamos a trepar, enfastiadamente,
êsses caminhos agrestes--os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de
monte a rio, os Jacintos do século XV. Mas, passada uma trémula ponte de
pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta
adorável) os nossos males esqueceram, ante a inesperada, incomparável
beleza daquela terra bemdita. O divino artista que está nos céus
compuzera, certamente, êsse monte numa das suas manhãs de mais solene e
bucólica inspiração.
A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fôfos de verdura, os
bosques quási sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das
águas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas
musgosas, o ar de uma doçura de paraíso, toda a majestade e toda a
lindeza--não é para mim, homem de pequena arte. Nem creio mesmo que
fôsse para mestre Horácio. ¿Quem pode dizer a beleza das cousas,
tam simples e inexprímivel? Jacinto adiante, na égua tarda, murmurava:
--Ah! que beleza!
Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:
--Ah! que beleza!
Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de
arbustos floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho.
Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando
os nossos louvores. Serra bem acolhedora e amável... Ah! que beleza!
Por entre _ahs_ maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos
pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à
égua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:
--Aqui é que estêmos!
E ao fundo das faias havia, com efeito, um portão de quinta, que um
escudo de armas de vélha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava.
Dentro já os cães ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrás dêle no
burro de Sancho, transpuzemos o limiar solarengo, correu para nós, do
alto da escadaria, um homem branco, rapado como um clérigo, sem colete,
sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os braços desolados. Era
o caseiro, o Zé Brás. E logo ali, nas pedras do pátio, entre o
latir dos cães, surdiu uma tumultuosa história, que o pobre Brás
balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de
cólera. O caseiro não esperava S. Ex.ª Ninguêm esperava S. Ex.ª (Êle
dizia _sua inselência_).
O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a
mãe que levára um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas
perdidas... Porque o snr. Sousa só contava com S. Ex.ª... em setembro,
para a vindima. Na casa nenhuma obra começára. E, infelizmente para S.
Ex.ª, os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidraças...
Cruzei os braços, num justo espanto. ¿Mas os caixotes--êsses caixotes
remetidos para Torges, com tanta prudência, em abril, repletos de
colchões, de regalos, de civilização?... O caseiro, vago, sem
compreender, arregalava os olhos miudos onde já bailavam lágrimas. Os
caixotes?! Nada chegára, nada aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás
procurava entre as arcadas do pátio, nas algibeiras das pantalonas... Os
caixotes? Não, não tinha os caixotes!
Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as
carruagens) se acercou, gravemente. Êsse era um civilizado--e
acusou logo o govêrno. Já quando êle servia o snr. visconde de S.
Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do govêrno, da cidade
para a serra, dous caixotes com vinho vélho da Madeira, e roupa branca
de senhora. Por isso êle, escarmentado, sem confiança na nação, não
largára as carruagens--e era tudo o que restava a S. Ex.ª: o breque, a
vitória, o copé e os guizos. Sómente, naquela rude montanha, não havia
estradas onde elas rolassem. E como só podiam subir para a quinta em
grandes carros de bois--êle lá as deixára em baixo, na estação, quietas,
empacotadas na lona...
Jacinto ficára plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:
--E agora?
Nada restava senão recolher, cear o caldo do tio Zé Brás, e dormir nas
palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia
a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do
casarão e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes
cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o
meu pobre Jacinto contemplou, emfim, as salas do seu solar! Eram
enormes, com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandôno
tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como
vestígio de habitação e de vida, pelos cantos algum monte de cestos
ou algum mólho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho negro alvejavam
manchas--que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido através
dos buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os
nossos passos, uma tábua pôdre rangia e cedia.
Paramos, emfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras
para guardar o grão; e aí depuzemos, melancólicamente, o que nos ficára
de trinta e sete malas--os paletós alvadios, uma bengala e um _Jornal da
Tarde_. Através das janelas desvidraçadas, por onde se avistavam copas
de arvoredos e as serras azuis de alêm-rio, o ar entrava, montesino e
largo, circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro
bravo. E, lá debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de
pegureira cantando. Jacinto balbuciou:
--É horroroso!
Eu murmurei:
--É campestre!
IV
O Zé Brás, no entanto, com as mãos na cabeça, desaparecera a ordenar a
ceia para _suas inselências_. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo
desastre, sem resistência contra aquele brusco desaparecimento de toda a
civilização, caíra pesadamente sôbre o poial duma janela, e daí olhava
os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro
sabiam bem, terminei por descer à cozinha, conduzido pelo cocheiro,
através de escadas e becos onde a escuridão vinha menos do crepúsculo do
que de densas teias de aranha.
A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, côr de fuligem,
onde refulgia ao fundo, sôbre o chão de terra, uma fogueira vermelha que
lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade
escassa que no alto coava a luz. Aí um bando alvoroçado e palreiro de
mulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo
fervor... Do meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim
jurando que «a ceia de _suas inselências_ não demorava um credo». E como
eu o interrogava a respeito de camas, o digno Brás teve um murmúrio
vago e tímido sobre «enxergasinhas no chão».
--É o que basta, snr. Zé Brás--acudi eu para o consolar.
--Pois assim Deus seja servido!--suspirou o homem excelente, que
atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.
Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei
ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz
crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sôbre vale e monte.
No alto já tremeluzia uma estrêla, a Vesper diamantina, que é tudo o que
neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto nunca
considerára bem aquela estrêla--nem assistira a êste majestoso e doce
adormecer das cousas. Êsse ennegrecimento de montes e arvoredos, casais
claros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas
quebradas, o cochichar das águas entre relvas baixas--eram para êle como
iniciações. Eu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como
um homem que emfim descansa.
Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás, com o doce aviso de
que estava na mesa a _ceiasinha_. Era adiante, noutra sala mais nua,
mais negra. E aí, o meu supercivilizado Jacinto recuou com um pavor
genuíno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos, encostada à
parede sórdida, uma vela de cebo meio derretida num castiçal de latão,
alumiava dous pratos de louça amarela, ladeados por colheres de pau e
por garfos de ferro. Os copos, de vidro, grosso e baço, conservavam o
tom rôxo do vinho que neles passára em fartos anos de fartas vindimas. O
covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza
ática, o coração de Diógenes. Na larga brôa estava cravado um
facalhão... Pobre Jacinto!
Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o
seu lenço o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado,
provou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e
levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam,
surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais
lenta... E sorriu, murmurando com espanto:
--Está bom!
Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume
enternecia. Eu, três vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi
Jacinto que rapou a sopeira. Mas já, arredando a brôa, arredando a vela,
o bom Zé Brás pousára na mesa uma travessa vidrada, que
transbordava de arroz com favas. Ora, a-pesar da fava (que os gregos
chamaram _cibória_) pertencer às épocas superiores da civilização, e
promover tanto a sapiência que havia em Sycio, na Galácia, um templo
dedicado a Minerva Ciboriana--Jacinto sempre detestára favas. Tentou
todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo
assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis
que o meu dificíllimo amigo exclama:
--Está ótimo!
¿Eram os picantes ares da serra? ¿Era a arte deliciosa daquelas mulheres
que em baixo remexiam as panelas, cantando o _Vira_, _meu bem_? Não
sei:--mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em
amplidão e firmeza. E diante do frango louro, assado no espêto de pau,
terminou por bradar:
--Está divino!
Nada porêm o entusiasmou como o vinho, o vinho caíndo de alto, da grossa
caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em
si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando à luz de cebo o
copo rude que êle orlava de espuma, eu recordava o dia geórgico em que
Virgílio, em casa de Horácio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da
Rética. E Jacinto, com uma côr que eu nunca vira na sua palidez
schopenháurica, sussurrou logo o doce verso:
_Rethica quò te carmina dicat._
¿Quem dignamente te cantará, vinho daquelas serras?!
Assim jantamos deliciosamente, sob os auspícios do Zé Brás. E depois
voltamos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas,
a contemplar silenciosamente um suntuoso céu de verão, tam cheio de
estrêlas que todo êle parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa,
imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na
cidade nunca se olham os astros por causa dos candieiros--que os
ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o
universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem
fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o
separa da restante natureza--os prédios obstrutores de seis andares, a
fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama
encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte,
como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de pérto,
rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime
indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz
que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os
nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre
êsses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos obra da
mesma vontade. Todos vivemos da acção dessa vontade imanente. Todos,
portanto, desde os Uranos até aos Jacintos, constituimos modos diversos
de um ser único, e através das suas transformações somamos na mesma
unidade. Não há idea mais consoladora do que esta--que eu, e tu, e
aquele monte, e o sol que agora se esconde, somos moléculas do mesmo
Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se
sómem as responsabilidades torturantes do individualismo. ¿Que somos
nós? Formas sem fôrça, que uma Fôrça impele. E há um descanso delicioso
nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e
passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente!
Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem êle nem eu sabíamos os nomes
dêsses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável
ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coímbra, minha mãe
espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha _trezentos
e dezoito_ tratados sôbre astronomia! ¿Mas que nos importava, de
resto, que aquele astro alêm se chamasse Sírius e aquele outro
Aldebaran? ¿Que lhes importava a êles que um de nós fôsse José e o outro
Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno--e em nós havia
o mesmo Deus. E se êles tambêm assim o compreendiam, estávamos ali, nós
à janela num casarão serrano, êles no seu maravilhoso infinito,
perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça--que era
sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante,
na consciência, a nossa divinização.
Assim ennevoadamente filosofávamos--quando Zé Brás, com uma candeia na
mão, veio avisar que «estavam preparadas as camas de _suas
inselências..._» Da idealidade descemos gostosamente à realidade, ¿e que
vimos então nós, os irmãos dos astros? Em duas salas tenebrosas e
côncavas, duas enxergas, postas no chão, a um canto, com duas cobertas
de chita; à cabeceira um castiçal de latão, pousado sôbre um alqueire: e
aos pés, como lavatório, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!
Em silêncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu
nela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos
murchos, considerou que, perdidas as suas malas, não tinha nem
chinelas nem roupão! E foi ainda o Zé Brás que providenciou,
trazendo ao pobre Jacinto, para êle desafogar os pés, uns tremendos
tamancos de pau, e para êle embrulhar o corpo, docemente educado em
Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais aspera que
estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em
madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o
_Banquete_, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores
catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas--e é só vestido de
estamenha que se penetra no Paraíso.
--¿Tem você--murmurou o meu amigo, desatento e sêco--alguma cousa que eu
leia?.... Eu não posso adormecer sem ler!
Eu possuia apenas o número do _Jornal da Tarde_, que rasguei pelo meio,
e partilhei com êle fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor
de Torges, acaçapado à borda da enxerga, junto da vela que pingava sôbre
o alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos sócos, perdido dentro
da camisa da patrôa, toda em folhos, percorrendo na metade do _Jornal da
Tarde_, com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes--não pode saber o
que é uma vigorosa e real imagem do desalento!
Assim o deixei--e daí a pouco, estendido na minha enxerga tambêm
espartana, subia, através dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus,
onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Platão e Zé
Brás, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rética pelos
copos de Torges! Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sôbre
o século XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas
que carvalhos, alvejavam os mármores duma cidade e ressoavam cantos
sacros. Não recordo o que Xenofonte sustentou àcêrca da civilização e do
fonógrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, através das
quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que êle impelia
furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os
lados do _Jasmineiro_!
V
Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as
mãos sôbre o peito, dormia plácidamente no seu leito de granito--parti
para Guiães. E durante três quietas semanas, naquela vila onde se
conservam os hábitos e as ideas do tempo de El-Rei D. Dinís, não
soube do meu desconsolado amigo, que de-certo fugira dos seus tetos
esburacados e remergulhára na civilização. Depois, por uma abrasada
manhã de agosto, descendo de Guiães, de novo trilhei a avenida de faias,
e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir dos
rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a
sua nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha
dom) andava lá em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.
--¿Então, ainda cá está o snr. D. Jacinto?!
_Sua inselência_ ainda estava em Torges--e _sua inselência_ ficava para
a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham
vidraças novas; e a um canto do pátio pousavam baldes de cal; uma escada
de pedreiro ficára arrimada contra a varanda; e num caixote aberto,
ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos.
--E o Grilo apareceu?
--O snr. Grilo está no pomar, à sombra.
--Bem! e as malas?
--O snr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro...
Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilização! Subi
contente. Na sala nobre, onde o soalho fôra composto e esfregado,
encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com
louça branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes
muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra
sala, tambêm de faiscante alvura, havia o confôrto inesperado de três
cadeiras de vêrga da Madeira, com braços largos e almofadas de chita:
sôbre a mesa de pinho, o papel almasso, o candieiro de azeite, as penas
de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um
estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa de dois
pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e
usados, o _D. Quixote_, um Virgílio, uma História de Roma, as Crónicas
de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto
claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de
ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio
e ordem. As janelas cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava
fóra os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de água, subia uma
fresquidão consoladora. Num vélho vaso azul um mólho de cravos alegrava
e perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sésta. E
envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender
numa cadeira de vêrga junto à mesa, abri lânguidamente o Virgílio,
murmurando:
_Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota_
_Et fontes sacros frigus captabis opacum._
Já mesmo irreverentemente adormecera sôbre o divino bucolista, quando me
despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o
comparei a uma planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fôra
profusamente regada e revivera em pleno sol. Não corcovava. Sôbre a sua
palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconciliação com a vida
tinham espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente.
Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava
agora um brilho de meio dia, decidido e largo, que mergulhava
francamente na beleza das cousas. Já não passava as mãos murchas sôbre a
face--batia com elas rijamente na côxa... Que sei eu?! Era uma
reincarnação. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos
brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges,
como desanuviado, mandára comprar um colchão macio, reùnira cinco
livros, nunca lidos, e ali estava...
--Para todo o verão?
--Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoçar umas
trutas que eu pesquei, e compreende emfim o que é o céu.
As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambêm uma salada fria
de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azães... ¿Mas quem
condignamente vos cantará, comeres e beberes daquelas serras?
De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta
quinta, que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com
carinho os milhos altos. Com a mão espalmada e forte batia no tronco dos
castanheiros, como nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de água,
todo o tufo de erva, todo o pé de vinha o ocupava como vidas filiais
porque fôsse responsável. Conhecia certos melros que cantavam em certos
choupos. Exclamava enternecido:
--Que encanto, a flor do trevo!
À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio
teria dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Heróico) conversamos sôbre
o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta malícia, Schopenhauer e o
_Eclesiastes_... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdêm. A sua
confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e
irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol
espalha. Tremenda tolice! afirmar que a vida se compõe, meramente, duma
longa ilusão--é erguer um aparatoso sistema sôbre um ponto especial
e estreito da vida, deixando fóra do sistema toda a vida restante, como
uma contradição permanente e soberba. Era como se êle, Jacinto,
apontando para uma ortiga, crescida naquele pátio, declarasse,
triunfalmente:--«Aqui está uma ortiga! Toda a quinta de Torges,
portanto, é uma massa de ortigas.»--Mas bastaria que o hóspede erguesse
os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!
¿De resto, dêsses dois ilustres pessimistas, um o alemão, que conhecia
êle da vida--dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma
teoria definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como êste
genial farçante, viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da
província, levantando apenas os óculos dos livros para conversar, à mesa
redonda, com os alferes da guarnição! E o outro, o israelista, o homem
dos _Cantares_, o muito pedantesco rei de Jerusalêm, só descobre que a
vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa
das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se torna
ridículamente supérfluo à sua carcassa frígida. Um dogmatiza
fúnebremente sôbre o que não sabe--e o outro sôbre o que não pode. ¿Mas
que se dê a êsse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a
de César, e onde estará o seu schopenhaurismo? ¿que se restitua a êsse
sultão, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou
em Jerusalêm, a sua virilidade--e onde estará o _Eclesiastes_? ¿De
resto, que importa bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa,
fecunda ou vã, ela tem de ser vida. Loucos aqueles que, para a
atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e
desilusão, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja negrume, não só as
léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila um sol
amável. Na terra tudo vive--e só o homem sente a dor e a desilusão da
vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa
inteligência que o torna homem, e que o separa da restante natureza,
impensante e inerte. É no máximo de civilização que êle experimenta o
máximo de tédio. A sapiência, portanto, está em recuar até êsse honesto
mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira
de terra e o grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade,
é necessário regressar ao Paraíso--e ficar lá, quieto, na sua fôlha de
vinha, inteiramente desguarnecido de civilização, contemplando o anho
aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore
funesta da Sciência! _Dixi!_
Eu escutava, assombrado, êste Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma
ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao _surge et ambula_
que lhe tinham sussurrado as águas e os bosques de Torges, êle erguia-se
do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-se das suas casacas de
Poole, _et ambulabat_, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu
quarto, àquelas horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo, tomei
entre as minhas a mão já firme do meu amigo, e pensando que êle emfim
alcançára a verdadeira rialeza, porque possuia a verdadeira liberdade,
gritei-lhe os meus parabens à maneira do moralista de Tibur:
_Vive et regna, fortunate Jacinthe!_
Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada
fresca, môça, genuína e consolada. Era Jacinto que lia o _D. Quixote_.
Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e
recuperára o dom divino de rir!
Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu
solar continuam bem caiadas, mas nuas.
De inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar
o Grilo ou a môça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus
deliciosos vagares, já leu a _Ilíada_.
Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças.
Todos os casais da serra o bemdizem. Ouço que vai casar com uma forte,
sã, e bela rapariga de Guiães. De-certo crescerá ali uma tríbu, que será
grata ao Senhor!
Como êle, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma
_Vida de Buda_, uma _História da Grécia_ e as obras de S. Francisco de
Sales) fui, depois dêstes quatro anos, ao _Jasmineiro_ deserto. Cada
passo meu sôbre os fofos tapetes de Koranânia soou triste como num chão
de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas
paredes pendiam, como olhos fóra de órbitas, os botões eléctricos das
campainhas e das luzes:--e havia vagos fios de arame, soltos,
enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na
livraria, todo o vasto saber dos séculos jazia numa imensa mudez,
debaixo duma imensa poeira. Sôbre as lombadas dos sistemas filosóficos
alvejava o bolôr: vorazmente a traça devastára as Histórias Universais:
errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:--e eu abalei, com o
lenço no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes não restava uma
verdade viva! Quis lavar as mãos maculadas pelo contacto com estes
detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do
lavatório, da sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, não
largaram uma gota de água; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de
saír à varanda, pedir ao céu que me lavasse.
Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num
montão negro de ferragens, rodas, lâminas, campainhas, parafusos...
Entreabri a janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fonógrafo,
outros aparelhos, tombados das suas peanhas, sórdidos, desfeitos, sob a
poeira dos anos. Empurrei com o pé êste lixo do engenho humano. A
máquina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as
letras desarraigadas, era como uma bôca alvar e desdentada. O telefone
parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame. Na trompa do
fonógrafo, torta, esbeiçada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E
ali jaziam, tam lamentáveis e grotescas, aquelas geniais invenções, que
eu saí rindo, como duma enorme facécia, daquele super-civilizado palácio.
A chuva de abril secára: os telhados remotos da cidade negrejavam sôbre
um poente de carmesim e oiro. E, através das ruas mais frescas, eu ia
pensando que êste nosso magnifíco século XIX se assemelharia, um dia,
àquele _Jasmineiro_ abandonado, e que outros homens, com uma certeza
mais pura do que é a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o pé no
lixo da super-civilização, e, como eu, ririam alegremente da grande
ilusão que findára, inútil e coberta de ferrugem.
Àquela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e
sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde,
ao tremeluzir da primeira estrêla, a boiada recolher entre o canto dos
boieiros.
O TESOIRO
I
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em
todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levára vidraça e telha,
passavam êles as tardes dêsse inverno, engelhados nos seus pelotes de
camelão, batendo as solas rotas sôbre as lages da cozinha, diante da
vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a
panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro,
esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a
neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas
lazarentas que, esfaimadas como êles, roíam as traves da
mangedoura. E a miséria tornára êstes senhores mais bravios que lôbos.
Ora, na primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos
três na mata de Roquelanes a espiar pègadas de caça e a apanhar
tortulhos entre os robles, emquanto as três éguas pastavam a relva nova
de abril,--os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de
espinheiros, numa cova de rocha, um vélho cofre de ferro. Como se o
resguardasse uma tôrre segura, conservava as suas três chaves nas suas
três fechaduras. Sôbre a tampa, mal decifrável através da ferrugem,
corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava
cheio de dobrões de oiro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos
do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no oiro,
estalaram a rir, num riso de tam larga rajada, que as fôlhas tenras dos
olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam,
com os olhos a flamejar, numa desconfiança tam desabrida que Guannes e
Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que
era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro,
e começou por decidir que o tesoiro, ou viesse de Deus ou do demónio,
pertencia aos três, e entre êles se repartiria, rígidamente,
pesando-se o oiro em balanças. ¿Mas como poderiam carregar para
Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam cheio? Nem convinha
que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso
êle entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia trotar para a
vila vizinha de Retortilho, levando já oiro na bolsinha, a comprar três
alforges de coiro, três maquias de cevada, três empadões de carne, e
três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para êles, que não comiam
desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores
e cavalgaduras, ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para
Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.
--Bem tramado!--gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de
longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de
sangue até à fivela do cinturão.
Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando
entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
--Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e
levar a minha chave!
--Tambêm eu quero a minha, mil raios!--rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves
que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a
sua fechadura com fôrça. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na
égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos
ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! olé!
Sale la crus de la iglesia,
Vestida de negro luto...
II
Na clareira, em frente à moita que encobria o tesoiro (e que os três
tinham desbastado a cutiladas) um fio de água, brotando entre rochas,
caía sôbre uma vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e
quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de
uma faia, jazia um vélho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram
sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os
joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoulas e
botões de oiro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro
errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o sol,
bocejava com fome.
Então Rui, que tirára o _sombrero_ e lhe cofiava as vélhas plumas rôxas,
começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa
manhã, não quisera descer com êles à mata de Roquelanes. E assim era a
sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só êles
dois teriam descoberto o cofre, e só entre êles dois se dividiria o
oiro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve
dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
--Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sòzinho, tivesse
achado êste oiro, não dividia comnosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
--Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te
lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis
emprestar três para eu comprar um gibão novo!
--Vês tu?--gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma
idea, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas
altas silvavam.
--E para quê?--prosseguia Rui,--¿Para que lhe serve todo o oiro que
nos leva? ¿Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em
que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às
outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que
deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres
ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como
compete, a quem é, como tu, o mais vélho dos de Medranhos...
--Pois que morra, e morra hoje!--bradou Rostabal.
--Queres?
Vivamente, Rui agarrára o braço do irmão e apontava para a vereda de
olmos, por onde Guannes partira cantando:
--Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E
hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe
de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas
vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes te tratava de _cerdo_ e de
torpe, por não saberes a letra nem os numeros.
--Malvado!
--Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho,
estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na
vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arripiou na encosta as
fôlhas dos álamos--e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho.
Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava
para as serras. Um bando de córvos passou sôbre êles, grasnando. E
Rostabal, que lhes seguira o vôo, recomeçou a bocejar, com fome,
pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.
Emfim! Àlerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos
ramos:
Olé! olé!
Sale la crus de la iglesia
Toda vestida de negro...
Rui murmurou:--«Na ilharga! Mal que passe!» O chouto da égua bateu o
cascalho, uma pluma num _sombrero_ vermelhejou por sôbre a ponta das
silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa
espada;--e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes,
quando ao rumor, bruscamente, êle se virára na sela. Com um surdo
arranco, tombou de lado, sôbre as pedras. Já Rui se arremessava aos
freios da égua:--Rostabal, caíndo sôbre Guannes, que arquejava, de novo
lhe mergulhou a espada, agarrada pela fôlha como um punhal, no peito e
na garganta.
--A chave!--gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela
vereda--Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do _sombrero_ quebrada e
torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido,
arripiado com o sabor de sangue que lhe espirrára para a bôca; Rui,
atrás, puxando desesperadamente os freios da égua, que, de patas
fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não
queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada:--e foi
correndo sôbre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que
desembocou na clareira onde o sol já não doirava as fôlhas. Rostabal
arremessára para a relva o _sombrero_ e a espada; e debruçado sôbre a
lage escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a
face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que
Guannes comprára em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois
gargalos de garrafas. Então, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua
larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que
resfolgava, com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se
pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a fôlha toda no largo
dorso dobrado, certeira sôbre o coração.
Rostabal caíu sôbre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os
longos cabelos flutuando na água. A sua vélha escarcela de coiro ficára
entalada sob a côxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui
solevou o corpo--e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do
tanque, fumegando.
III
Agora eram dêle, só dêle, as três chaves do cofre!... E Rui, alargando
os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro
metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra,
subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na
fonte, e alêm rente aos silvados, só restassem, sob as neves de
dezembro, alguns ossos sem nome, êle seria o magnífico senhor de
Medranhos, e na capela nova do solar renascido, mandaria dizer missas
ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como devem morrer
os de Medranhos--a pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez
retinir sôbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o _seu_
oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges--e encontrando as
duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome.
Desde a véspera só comera uma lasca de peixe sêco. E há quanto tempo não
provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas,
a ave loura, que rescendia, e o vinho côr de ámbar! Ah! Guannes fôra bom
mordomo--nem esquecera azeitonas. ¿Mas, porque trouxera êle, para três
convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes
dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas côr de rosa.
Para alêm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas
dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela côr vélha e quente, não
teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à bôca, bebeu
em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho
bemdito, que tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa
vazia--destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a
jornada para a serra, com o tesoiro, requeria firmeza e acêrto.
Estendido sôbre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos
coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e
o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os
alforges. Já, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das
éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro...
Mas oscilou, largando os dobrões que retilintaram no chão, e levou as
duas mãos aflitas ao peito. ¿Que é, D. Rui? Raios de Deus! era um lume,
um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às guelas. Já
rasgára o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua
pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava
como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o
roía! Gritou:
--Socorro! Alguêm! Guannes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro
galgava--sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sôbre
Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que
êle, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sôbre os olhos,
pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fôsse um metal
derretido. Recuou, caíu para cima da relva que arrancava aos punhados, e
que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se
ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente,
esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse emfim
a traição, todo o horror:
--É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegára a
Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma
viela, por detrás da catedral, a comprar ao vélho droguista judeu o
veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a êle, a êle sómente, dono de
todo o tesoiro.
Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alêm nos silvados,
já tinham pousado sôbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o
outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornára
negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
O tesoiro ainda lá está, na mata de Roquelanes.
FREI GENEBRO
I
Nesse tempo ainda vivia na sua solidão das montanhas da Úmbria, o divino
Francisco de Assis--e já por toda a Itália se louvava a santidade de
Frei Genebro, seu amigo e seu discípulo.
Frei Genebro, na verdade, completára a perfeição em todas as virtudes
evangélicas. Pela abundância e perpètuidade da Oração, êle arrancava da
sua alma as raízes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cândida
como um dêsses celestes jardins em que o sólo anda regado pelo Senhor, e
onde só podem brotar açucenas. A sua penitência, durante vinte anos de
clâustro, fôra tam dura e alta que já não temia o Tentador; e agora, só
com o sacudir a manga do hábito, rechaçava as tentações, as mais
pavorosas ou as mais deliciosas, como se fôssem apenas moscas
importunas. Benéfica e universal à maneira de um orvalho de verão, a sua
caridade não se derramava sómente sôbre as misérias do pobre, mas sôbre
as melancolias do rico. Na sua humilíssima humildade não se considerava
nem o igual dum verme. Os bravios barões, cujas negras tôrres esmagavam
a Itália, acolhiam reverentemente e curvavam a cabeça a êste franciscano
descalço e mal remendado que lhes ensinava a mansidão. Em Roma, em S.
João de Latrão, o Papa Honório beijára as feridas de cadeias que lhe
tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos
escravos, padecera a escravidão. E como nessas idades os anjos ainda
viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordão, muitas
vezes, trilhando uma vélha estrada pagã ou atravessando uma selva, êle
encontrava um moço de inefável formosura, que lhe sorria e murmurava:
--Bons dias, irmão Genebro!
Ora, um dia, indo êste admirável mendicante de Spoleto para Terni, e
avistando no azul e no sol da manhã, sôbre uma colina coberta de
carvalhos, as ruínas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egídio,
antigo noviço como êle no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se
retirára àquele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava
uma cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e
regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como
mais de três anos tinham passado desde que visitára o bom Egídio, largou
a estrada, passou em baixo, no vale, sôbre as alpondras, o riacho que
fugia por entre os aloendros em flor, e começou a subir, lentamente, a
colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era
doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os pés
doridos. A meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados,
sussurrava e luzia um fio de água. Estendido ao lado, nas ervas húmidas,
dormia, ressonando consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava
porcos, porque vestia um grosso surrão de coiro e trazia, pendurada da
cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve, afugentou os
moscardos que zumbiam sôbre a rude face adormecida e continuou a trepar
a colina, com o seu alforge, o seu cajado, agradecendo ao Senhor aquela
água, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens inesperados. Em breve
avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob as frondes,
roncando e fossando as raízes, uns magros e agudos, de cerdas duras,
outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos
correndo em tôrno às têtas das mães, luzidios e côr de rosa.
Frei Genebro pensou nos lôbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No
fim da mata começava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se
erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada
sôbre o céu, ou, numa esquina de tôrre, uma goteira que, esticando o
pescoço de dragão, espreitava por meio das silvas bravas.
A cabana do ermitão, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam,
apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em
frente verdejava, com os seus talhões de couve e estacas de feijoal,
entre alfazema cheirosa. Egídio não andaria afastado porque sôbre o
murosinho de pedra solta ficára pousado o seu cântaro, o seu podão e a
sua enxada. E docemente, para o não importunar, se àquela hora da sésta
estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas
vélhas, que não tinha loquete para ser mais hospitaleira.
--Irmão Egídio!
Do fundo da choça rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento
gemido:
--Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer,
meu irmão!
Frei Genebro acudiu em grande dó; encontrou o bom ermitão estirado num
monte de fôlhas sêcas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua
face, outrora farta e rosada, era como um pedacinho de vélho
pergaminho muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas.
Com infinita caridade e doçura o abraçou.
--¿E há quanto tempo, há quanto tempo neste abandôno, irmão Egídio?
Louvado Deus, desde a véspera! Só na véspera, à tarde, depois de olhar
uma derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender
naquele canto para acabar... Mas havia meses que com êle entrára um
cansaço, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.
--¿E dizei, irmão Egídio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu
fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes
vós feito na virtude desta solidão!
Gemendo, arrepanhando para o peito as fôlhas sêcas em que jazia, como se
fôssem dobras dum lençol, o pobre ermitão murmurou:
--Meu bom Frei Genebro, não sei se é pecado, mas toda esta noite, em
verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedaço de carne, um pedaço de
porco assado!... Mas será pecado?
Frei Genebro, com a sua imensa misericórdia, logo o tranqùilizou.
Pecado? Não, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um
contentamento honesto, desagrada ao Senhor. ¿Não ordenava êle aos
seus discípulos que comessem as boas cousas da terra? O corpo é
servo; e está na vontade divina que as suas fôrças sejam sustentadas,
para que preste ao espírito, seu amo, bom e leal serviço. Quando Frei
Silvestre, já tam doentinho, sentira aquele longo desejo de uvas
moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu à vinha, e por suas
mãos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abençoar para serem
mais sumarentos e mais doces...
--¿É um pedaço de porco assado que apeteceis?--exclamava risonhamente o
bom Frei Genebro, acariciando as mãos transparentes do ermitão.--Pois
sossegai, irmão querido, que bem sei como vos vou contentar!
E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o
afiado podão que pousava sôbre o muro da horta. Arregaçando as mangas do
hábito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um serviço do
Senhor, correu pela colina até aos densos castanheiros onde encontrára o
rebanho de porcos. E aí, andando sorrateiramente de tronco para tronco,
surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre
êle, e, emquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois
golpes certeiro do podão, a perna por onde o agarrára. Depois, com as
mãos salpicadas de sangue, a perna de porco bem alta a pingar sangue,
deixando a rês a arquejar numa pôça de sangue, o piedoso homem
galgou a colina, correu à cabana, gritou para dentro alegremente:
--Irmão Egídio, a peça de carne já o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria
dos Anjos, era bom cozinheiro.
Na horta do ermitão arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podão
sangrento, aguçou em espêto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com
zeloso carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para
dar a Egídio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de
mortificação, anunciava com vozes festivas e de boa promessa:
--Já vai aloirando o porquinho, irmão Egídio! A pele já tosta, meu santo!
Entrou emfim na choça, triunfalmente, com o assado que fumegava e
rescendia, cercado de frescas fôlhas de alface. Ternamente, ajudou a
sentar o vélho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces
maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastára. E, para que o bom
Egídio se não vexasse com a sua voracidade e tam carnal apetite, ia
afirmando, emquanto lhe partia as febras gordas, que tambêm êle comeria
regaladamente daquele excelente porco, se não tivesse almoçado à farta
na _Locanda dos Três Caminhos_.
--Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmão! Com uma galinha
inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um
quartilho!
E o santo homem mentia santamente--porque, desde madrugada, não provára
mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola à cancela de uma
granja.
Farto, consolado, Egídio deu um suspiro, recaíu no seu leito de fôlhas
sêcas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justiça,
pagasse a seu irmão Genebro aquele pedaço de porco! Até sentia a alma
mais rija para a temerosa jornada... E o ermitão com as mãos postas,
Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a
necessidade solitária, manda de longe o socorro.
Então, tendo coberto Egídio com um pedaço de manta e posto, a seu lado,
a bilha cheia de água fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a
fresta da cabana, Frei Genebro, debruçado sôbre êle, murmurou:
--Meu bom irmão, vós não podeis ficar neste abandono... Eu vou levado
por obra de Jesus, que não admite tardança. Mas passarei no convento de
Sambricena e darei recado para que um noviço venha e cuide de vós com
amor, no vosso transe. Deus vos vele entretanto, meu irmão; Deus
vos sossegue e vos ampare com a sua mão direita!
Mas Egídio cerrára os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou
porque o seu espírito, tendo pago aquele derradeiro salário ao corpo,
como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra.
Frei Genebro abençoou o vélho, tomou o seu bordão, desceu a colina dos
grandes carvalhos. Sob a fronde, para os lados onde andava o rebanho, a
buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarma e de furor.
De-certo acordára, descobrira o seu porco mutilado... Estugando o passo,
Frei Genebro pensava quanto era magnânimo o Senhor em permitir que o
homem, feito à sua imagem augusta, recebesse tam fácil consolação duma
perna de cerdo assada entre duas pedras.
Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde êsse dia,
a actividade da sua virtude. Através de toda a Itália, sem descanso,
prègou o Evangelho Eterno, adoçando a aspereza dos ricos, alargando a
esperança dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alêm dos que
sofrem, até àqueles que pecam, oferecendo um alívio a cada dôr,
estendendo um perdão a cada culpa: e com a mesma caridade com que
tratava os leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a
neve, vezes inumeráveis dava, aos mendigos, a sua túnica, as suas
alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o
vestiam, para evitar o escândalo da sua nudez através das cidades; e sem
demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, êle se despojava
sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas
igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando,
jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.
Cercado de viuvas, de crianças famintas, invadia as padarias, os
açougues, até as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em
nome de Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhação, eram,
para êle, as únicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que
chegar de noite, molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia
feudal, e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: só então,
agachado nos lôdos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, êle
se reconhecia verdadeiramente irmão de Jesus, que não tivera tambêm,
como teem sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um
dia, em Perusa, as confrarias saíram ao seu encontro, com bandeiras
festivas, ao repique dos sinos, êle correu para um monte de estêrco,
onde se rolou e se sujou, para que daqueles que o vinham
engrandecer, só recebesse compaixão e escárnio. Nos clâustros, nos
descampados, em meio das multidões, durante as lides mais pesadas, orava
constantemente, não por obrigação, mas porque na prece encontrava um
deleite adorável. Deleite maior, porêm, era, para o franciscano, ensinar
e servir. Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu
coração como a água de um rio, oferecendo os seus braços como alavancas
incansáveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, aliviava uma pobre
vélha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem
armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discórdias.
Emfim, uma tarde, em véspera de Páscoa, estando a descansar nos degraus
de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma
vasta mão luminosa que sôbre êle se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:
--Eis a mão de Deus, a sua mão direita, que se estende para me acolher
ou para me repelir.
Deu logo a um pobre, que ali rezava a Avé-Maria, com a sua sacola nos
joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do
Evangelho, muito usado e manchado das suas lágrimas. No domingo, na
igreja, ao levantar da Hóstia, desmaiou. Sentindo então que ia
terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o
deitassem sôbre uma camada de cinzas.
Em santa obediência ao guardião do convento, consentiu que o limpassem
dos seus trapos, lhe vestissem um hábito novo: mas, com os olhos
alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado
como fôra o de Jesus, seu senhor.
E, suspirando, só se queixava de não sofrer:
--¿O senhor, que tanto sofreu, porque me não manda a mim o padecimento
bemdito?
De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o portão do curral.
Contemplou o céu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e
silêncio, começavam a cantar sôbre o beiral do telhado, e, sorrindo,
recordou uma manhã, assim de silêncio e frescura, em que, andando com
Francisco de Assis à beira do lago de Perusa, o mestre incomparável se
detivera ante uma árvore cheia de pássaros, e, fraternalmente, lhes
recomendára que louvassem sempre o Senhor! «Meus irmãos, meus irmãos
passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que vos deu essa árvore para
que nela habiteis, e toda esta limpa água para nela beber, e essas penas
bem quentes para vos agasalharem, a vós e aos vossos filhinhos!»
Depois, beijando humildemente a manga do monge que o amparava, Frei
Genebro morreu.
II
Logo que êle cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou
diáfanamente no curral e tomou, nos braços, a alma de Frei Genebro.
Durante um momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sôbre o prado
fronteiro tam levemente que nem roçava as pontas orvalhadas da relva
alta. Depois, abrindo as asas, radiantes e níveas, transpôs, num vôo
sereno, as nuvens, os astros, todo o céu que os homens conhecem.
Aninhada nos seus braços, como na doçura de um berço, a alma de Genebro
conservava a forma do corpo que sôbre a terra ficára; o hábito
franciscano ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas
rudes; e, com um olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo
compreendia, ela contemplava, num deslumbramento, aquela região em que o
Anjo parára, para alêm dos universos transitórios e de todos os rumores
siderais. Era um espaço sem limite, sem contôrno e sem côr. Por
cima começava uma claridade, subindo espalhada à maneira duma aurora,
cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, até que
resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria
como uma nódoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez
mais baça, mais fusca, mais cinzenta, até que formava como um espesso
crepúsculo de profunda, insondável tristeza. Entre essa refulgência
ascendente e a escuridão inferior, permanecera o Anjo imóvel, esperando,
com as asas fechadas. E a alma de Genebro perfeitamente sentia que
estava ali, esperando tambêm, entre o Purgatório e o Paraíso. Então,
súbitamente, nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma
Balança--um que rebrilhava como diamante e era reservado às suas Boas
Obras, outro, negrejando mais que carvão, para receber o pêso das suas
Obras Más. Entre os braços do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas
o prato diamantino começou a descer lentamente. Oh! contentamento e
glória! Carregado com as suas Boas Obras, êle descia, calmo e majestoso,
espargindo claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se
retesavam, rangiam. E entre elas, formando como uma montanha de neve,
alvejavam magníficamente as suas virtudes evangélicas. Lá estavam as
incontáveis esmolas que semeára no mundo, agora desabrochadas em
alvas flores, cheias de aroma e de luz.
A sua humildade era um cimo, aureolado por um clarão. Cada uma das suas
penitências scintilava mais límpidamente que cristais puríssimos. E a
sua oração perene subia e enrolava-se em tôrno das cordas, à maneira
duma deslumbrante névoa de oiro.
Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou,
finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, lá em cima, não se movia
tambêm, negro, da côr do carvão, inútil, esquecido, vazio. Já das
profundidades, sonoros bandos de Serafins voavam, balançando palmas
verdes. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraíso--e aquela
era a milícia divina que o acompanharia cantando. Um frémito de alegria
passou na luz do Paraíso, que um Santo novo enriquecia. E a alma de
Genebro anteprovou as delícias da Bemaventurança.
Súbitamente, porêm, no alto, o prato negro oscilou como a um pêso
inesperado que sôbre êle caísse! E começou a descer, duro, temeroso,
fazendo uma sombra dolente através da celestial claridade. ¿Que Má Acção
de Genebro trazia êle, tam miuda que nem se avistava, tam pesada que
forçava o prato luminoso a subir, remontar ligeiramente como se a
montanha de Boas Acções, que nele transbordavam, fôssem um fumo
mentiroso? Oh! mágoa! oh! desesperança! Os Serafins recuavam, com as
asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de
terror. O negro prato descia, firme, inexorável, com as cordas retêsas.
E na região que se cavava sob os pés do Anjo, cinzenta, de inconsolável
tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu,
rolou, como a onda duma maré devoradora.
O prato, mais triste que a noite, parára--parára em pavoroso equilíbrio
com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o
trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo,
um porco, um pobre porquinho com uma perna bárbaramente cortada,
arquejando, a morrer, numa pôça de sangue... O animal mutilado pesava
tanto na balança da justiça como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!
Então, das alturas, surgiu uma vasta mão, abrindo os dedos que
faiscavam. Era a mão de Deus, a sua mão direita, que aparecera a Genebro
na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia
para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o
Paraíso fulgente ao Purgatório crepuscular, se contraíram num
recolhimento de inexprimível amor e terror. E na estática mudez, a
vasta mão, através das alturas, lançou um gesto que repelia...
Então o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braços e deixou
caír, na escuridão do Purgatório, a alma de Frei Genebro.
ADÃO E EVA NO PARAÍSO
I
Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às 2 horas da
tarde...
Assim o afirma, com majestade, nos seus _Annales Veteris et Novi
Testamento_, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath,
Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mór da Sé de S. Patrício.
A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as
manhãs. Mas já não era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em
águas barrentas, abafada numa névoa densa, erguendo, aqui e alêm,
rígidos troncos duma só fôlha e dum só rebento, muito solitária, muito
silenciosa, com uma vida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo
remexer de bichos obscuros, gelatinosos, sem côr e quási sem forma,
crescendo no fundo dos lôdos. Não! agora, durante os dias genesíacos de
26 e 27, toda ela se completára, se abastecera e se enfeitára, para
acolher condignamente o Predestinado que vinha. No dia 28 já apareceu
perfeita, _perfecta_, com as provisões e alfaias que a Bíblia enumera,
as ervas verdes de espiga madura, as árvores providas do fruto entre a
flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as aves
voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sôbre as colinas
viçosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o
cristal, e o ónix, e o oiro muito bom do país de Hevilath...
Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em tôrno da Terra. Ela era
môça e formosa e preferida de Deus. Êle ainda se não submetera à
imobilidade augusta que lhe impôs mais tarde, entre amuados suspiros da
Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente
aos muros do Convento de S. Mateus de Florença. E o sol, amorosamente,
corria em volta da Terra, como o noivo dos _Cantares_, que, nos lascivos
dias da ilusão, sôbre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais
levemente que os gamos de Gaalad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o
fulgor dos seus olhos, coroado de sal-gêma, a faiscar de fecunda
impaciência. Ora desde essa alvorada do dia 28, segundo o cálculo
majestático de Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem
falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, durante oito horas,
numa contínua e insaciada carícia de calor e de luz. Quando a oitava
hora scintilou e fugiu, uma emoção confusa, feita de medo e feita de
glória, perpassou por toda a Criação, agitando num frémito as relvas e
as frondes, arripiando o pêlo das feras, empolando o dorso dos montes,
apressando o borbulhar das nascentes, arrancando dos pórfiros um brilho
mais vivo... Então numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo
Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de árvore onde se
empoleirára toda essa manhã de longos séculos, escorregou pelo tronco
comido de hera, pousou as duas patas no sólo que o musgo afofava, sôbre
as duas patas se firmou com esforçada energia, e ficou erecto, e alargou
os braços livres, e lançou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhança
da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e
verdadeiramente _foi_! Deus, que o amparára, nesse instante o criou. E
vivo, da vida superior, descido da inconsciência da árvore, Adão
caminhou para o Paraíso.
Era medonho. Um pêlo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, maciço
corpo, rareando apenas em tôrno dos cotovelos, dos joelhos rudes,
onde o coiro aparecia curtido e da côr de cobre fosco. Do achatado,
fugidio crânio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva,
tufando sôbre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda
enorme dos beiços trombudos, estirados em focinho, as prêsas reluziam,
afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. E sob as
arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto orlava como um silvado
orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo de ámbar, sem
cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietação e de espanto...
Não, não era belo, nosso Pai venerável, nessa tarde de Outono, quando
Jeová o ajudou com carinho a descer da sua Árvore! E todavia, nesses
olhos redondos, de fino ámbar, mesmo através do tremor e do espanto,
rebrilhava uma superior beleza--a Energia Inteligente que o ia
trôpegamente levando, sôbre as pernas arqueadas, para fóra da mata onde
passára a sua manhã de longos séculos a pular e a guinchar por cima dos
ramos altos.
Mas (se os Compêndios de Antropologia nos não iludem) os primeiros passos
humanos de Adão não foram logo atirados, com alacridade e confiança, para o
destino que o esperava entre os quatro rios do Éden. Entorpecido, envolvido
pelas influências da Floresta, ainda despega com custo a pata de entre o
folhoso chão de fetos e begónias, e gostosamente se roça pelos pesados
cachos de flores que lhe orvalham o pêlo, e acaricia as longas barbas de
lichen branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozára as
doçuras da irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, através
tam longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas
sumarentas, os rebentões mais tenros. Para transpor os regatos, que por
todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazão das chuvas, ainda se
pendura duma rija liana, entrelaçada de orquídeas, e se balança, e arqueia
o pulo, com pesada indolência. E receio bem que quando a aragem restolhasse
pela espessura, carregada com o cheiro morno e acre das fêmeas acocoradas
nos cimos, o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do
peito felpudo um grunhido rouco e triste.
Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam,
esbugalhadas, através da ramaria, procuram para alêm o mundo que deseja
e receia, e a que sente já a zoada violenta, como toda feita de batalha
e rancor. E, à maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai
surgindo, dentro do seu crânio bisonho, como uma alvorada que penetra
numa toca, o sentimento das Formas diferentes e da Vida diferente
que as anima. Essa rudimentar compreensão só trouxe a nosso Pai
venerável turbação e terror. Todas as Tradições, as mais orgulhosas,
concordam em que Adão, na sua entrada inicial pelas planícies do Éden,
tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. E bem
podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que a
dessas mesmas árvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres
tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inércia tam contrária
à sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua
Humanização, o arvoredo que lhe fôra abrigo natural e doce só lhe
pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. ¿E êsses ramos
tortuosos, empecendo a sua marcha, não seriam braços fortes que se
estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos? ¿Êsse
ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossêgo irritado de
cada fôlha, não era a selva toda, num alvoroço, reclamando o seu secular
morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a primeira luta do Homem
com a Natureza. Quando um galho alongado o roçasse, de-certo nosso Pai
atiraria contra êle as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar.
Nesses bruscos ímpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas mãos se
abateram desamparadamente sôbre o sólo de mato ou rocha, de novo
precipitado na postura bestial, retrogradando à inconsciência, entre o
clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfôrço então para se
erguer, recuperar a atitude humana, e correr, com os felpudos braços
despegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humanização!
Esfôrço sublime, em que ruge, morde as raíses detestadas, e, ¿quem sabe?
levanta já os olhos de ámbar lustroso para os céus, onde, confusamente,
sente Alguêm que o vem amparando--e que na realidade o levanta.
Mas, de cada um dêstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais
humano, mais nosso Pai. E há já consciência, pressa da Racionalidade,
nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral,
despedaçando as enrediças, fendendo o bravio denso, despertando os
tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos, ou espantando algum urso
môço e tresmalhado que, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho,
as uvas dêsse farto outono.
Emfim, Adão emerge da Floresta obscura:--e os seus olhos de ámbar
vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o Éden.
Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as
Tradições não exageram) com desordenada e sombria abundância.
Lentamente, através, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em
fecundos e espraiados remansos, as verduras onde já talvez cresce a
lentilha e se alastra o arrozal. Rochas de mármore rosado rebrilham com
um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa
espuma, sobem outeiros cobertos de magnólias, dum esplendor ainda mais
branco. Alêm a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade,
e escorre, por entre os flancos despedaçados, em finas franjas que
refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de rígidas
escarpas, pendem perdidamente, sôbre profundidades, palmeirais
desgrenhados. Pelas lagôas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas
rendas. E o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um
aro de oiro.--Neste fecundo espaço toda a Criação se espaneja, com a
fôrça, a graça, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda
quente das mãos do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de
pelagem ruiva, pastam, majestosamente, enterrados nas ervas tam altas
que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus,
brigando contra gigantescos veados-elefas, entrechocam cornos e
galhos com o sêco fragor de robles que o vento racha. Um bando de
girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, delicadamente, nos
trémulos cimos, as folhinhas mais tenras. À sombra dos tamarindos,
repousam disformes rinocerontes, sob o vôo apressado de pássaros que
lhes catam serviçalmente a vermina. Cada arremêsso de tigre causa uma
debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais
leve, se arqueia o pulo grácil dos antílopes. Uma rija palmeira verga
toda ao pêso da jibóia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por
vezes, aparece, numa profusão de juba, a face magnífica de um leão que,
serenamente, olha o sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes
condores dormem imóveis, de asas abertas, entre o sulco níveo e róseo
das garças e dos flamingos. E em frente à encosta, num alto, entre o
matagal, passa, lenta e montanhosa, uma récua de mastodontes, com a rude
clina do dorso erriçada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes
mais recurvos que foices.
Assim vetustíssimas Crónicas contam o vetustíssimo Éden, que era nas
campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilão, ou entre os quatro
claros rios que hoje regam a Húngria, ou mesmo nestas terras bemditas
onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao soalheiro, cansada de
proezas e mares. ¿Mas quem pode garantir êstes bosques e êstes bichos,
pois que desde êsse dia 25 de Outubro, que inundava o Paraíso de
esplendor outonal, já passaram, muito breves e muito cheios, sôbre o
grão de pó que é o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos?
Só parece certo que, diante de Adão apavorado, um grande pássaro passou.
Um pássaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas como
as pétalas de um crisântemo, que saltitava pesadamente sôbre uma das
patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mólho de ervas e ramos. O
nosso Pai venerável, com a fusca face franzida, no doloroso esfôrço de
compreender, pasmava para aquele pássaro, que ao lado, sob o abrigo de
azáleas em flor, terminava muito gravemente a construção duma cabana!
Vistosa e sólida cabana, com o seu chão de greda bem alisado, galhos
fortes de pinheiro e faia formando estacas e traves, um seguro teto de
relva sêca, e na parede de enrediças bem liadas o desafôgo duma
janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda não compreendeu.
Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da
ourela do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos
herbívoros da planície, com os punhos rijamente cerrados contra o
peito peludo, Adão vai arfando entre o apetite daquela resplandecente
Natureza e o terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com
tam fera turbulência. Mas dentro dêle borbulha, não cessa, a nascente
sublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da
crassa bruteza, e a ensaiar, com esforços que são semi-penosos porque
são já semi-lúcidos, os Dons que estabelecerão a sua supremacia sôbre
essa Natureza incompreendida e o libertarão do seu terror. Assim, na
surprêsa de todas aquelas inesperadas aparições do Éden, reses,
pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Adão solta roucas
exclamações, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por
instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o reboliço
das criaturas, e mesmo o estrondo das águas despenhadas... E êstes sons
ficam já na escura memória de nosso Pai ligados às sensações que lhos
arrancam:--de sorte que o guincho áspero que lhe escapara ao topar um
cangurú com a sua ninhada embolsada no ventre, de novo lhe ressoará nos
lábios trombudos quando outros cangurús, fugindo dêle, adiante, se
embrenhem na sombra negra das caneleiras. A Bíblia, com a sua exageração
oriental, cândida e simplista, conta que Adão, logo na sua entrada pelo
Éden, distribuiu nomes a todos os animais, e a todas as plantas,
muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse o Lexicon
da Criação, entre Buffon, já com os seus punhos, e Linneu, já com os
seus óculos. Não! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente
augustos, porque todos êles se plantavam na sua consciência nascente
como as tôscas raízes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se
humanou, e foi depois, sôbre a terra, tam sublime e tam burlesco.
E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Edénico,
nosso Pai, compenetrado do que _era_, e quanto diverso dos outros seres!
já se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia
soberbamente:--_Eheu! Eheu!_ Depois, alongando os olhos reluzentes por
aquela longa água que corria vagarosamente para alêm, já tenta
exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaços, e rosna com
pensativa cubiça:--_Lhlâ! Lhlâ!_
II
Calmo, magníficamente fecundo, corria êle, o nobre rio do Paraíso, por
entre as ilhas, quási afundadas sob o pêso rijo do rijo arvoredo
todas fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Adão,
trotando pesadamente pela margem baixa, já sente a atracção das águas
disciplinadas que andam e vivem--essa atracção que será tam forte nos
seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera,
estruma, rega, mói e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda o
arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e
dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, preguiçam pedregosos
crocodilos, achatados sôbre o ventre, que arfam molemente, escancarando
as fundas goelas na tépida preguiça da tarde, embebendo todo o ar com um
cheirinho de almíscar. Por entre os canaviais, coleam e refulgem gordas
cobras de água, de colo alteado, que fitam Adão com furor, dardejando e
silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente seriam
pavorosas as tartarugas imensas dêsse comêço do Mundo, pastando, com
arrastada mansidão, através dos prados novos. Mas uma curiosidade o
atrai, quási resvala na riba lodosa, onde a franja de água roça e
marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila de
auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar,
nada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez
já amaduram as espigas sociáveis do centeio e do milho. Nosso Pai
venerável olha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o ennevoado
desejo de tambêm atravessar para aqueles longes em que as ervas
rebrilham, e arrisca a mão na corrente--na rija corrente que lha repuxa,
como para o atrair e iniciar. Êle grunhe, arranca a mão--e segue, com
ásperas patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos
morangos silvestres que ensangùentam a relva... Em breve pára,
considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de
guanos, que espreitam, com o bico atento, para baixo, onde as águas
apertadas refervem. ¿Que espreitam elas, as brancas garças? Lindos
peixes em cardume, que rompem contra a levada, e pulam, lampejando nas
espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas brancas, uma
garça, depois outra, fende o céu alto, levando, atravessado no bico, um
peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venerável coça a ilharga. A sua
crassa gula, entre aquela abundância do rio, tambêm apetece uma prêsa: e
atira a garra, colhe, no seu vôo soante, cascudos insectos que farisca e
trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso
tronco de árvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente,
levando sentados numa ponta, com segurança e graça, dois bichos sedosos,
louros, de focinho esperto, e fôfas caudas vaidosas. Para os
seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengonçado. E os
seus olhos faiscavam, como se já compreendesse a malícia daqueles dois
bichos, embarcados num toro de árvore, e viajando, com a macia frescura
da tarde, no rio do Paraíso.
No entanto, a água que êle costeava era mais baixa, turva e tarda. Já na
sua largueza não verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas
pastagens. Para alêm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem
descampadas solidões, de onde rola um vento lento e húmido. Nosso Pai
venerável enterrava as patas em ribas moles, através de aluviões, de
lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso horror, enormes
rãs coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu numa vasta lagôa,
escura e desolada, resto das grandes águas sôbre que flutuara o Espírito
de Jeová. Uma tristeza humana apertou o coração de nosso Pai. Do meio de
grossas bôlhas, que se empolavam na estanhada lisura da água triste,
constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes,
que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos lôdos
viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a
vermelhidão da tarde, se elevou, se alargou sobre êle uma nuvem
estridente de mos
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