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O Conde de S. Luiz

by Thomaz José de Mello · Portuguese · Gutenberg #28928 · 347,446 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of O Conde de S. Luiz
    
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Title: O Conde de S. Luiz

Author: Thomaz José de Mello


        
Release date: May 22, 2009 [eBook #28928]
                Most recently updated: January 5, 2021

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/28928

Credits: Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and
        the Online Distributed Proofreading Team at
        https://www.pgdp.net


*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CONDE DE S. LUIZ ***




Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso, Leonor Silva and
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Notas de transcrição:

O uso do hífen nesta obra é bastante inconsistente; o mesmo se passa
com a ortografia. Assim, ocorrem por exemplo "entregara" e "entregára";
"ante-mão" e "antemão"; "dirigindo se" e "dirigindo-se". A grafia não
foi harmonizada, por não ser possível determinar a intenção original do
autor.

Nesta edição em texto simples, o texto em negrito foi colocado entre = e
o texto em itálico foi colocado entre _. O texto em superscrito está
colocado dentro de ^{ }.




[Ilustração: Capa]

Biblioteca Portuguesa Ilustrada

D. TOMAZ DE MELO

O CONDE DE S. LUIZ

LIVRARIA BARATEIRA

34, Rua do Duque, 36--T. Trind 1264--LISBOA




O CONDE DE S. LUIZ


[Ilustração: Publicidade à "Bibliotheca Portugueza Illustrada"]

EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL

SOCIEDADE EDITORA

LIVRARIA MODERNA: R. Augusta, 95 * TYPOGRAPHIA: R. Ivens, 45 e 47




BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA


*Nova collecção economica a 200 réis o volume*

Contendo 200 a 250 pag. com 5 illustrações originaes de pagina

       *       *       *       *       *

É esta bibliotheca exclusivamente constituida por livros nacionaes, dos
nossos melhores escriptores, custando cada volume de cerca de 250
paginas, em magnifico papel, com 5 illustrações originaes e
expressamente feitas para esta publicação, apenas *200* réis, ou *300*
réis, bellamente encadernado em capas especiaes a côres.


ROMANCES PUBLICADOS

*Os Fidalgos do Coração de Ouro* (Chronica do reinado de D. Sebastião)
por M. Pereira Lobato. Dois vol., broc. 400 rs., enc. n'um só, em capas
especiaes, 500 rs.

*A Queda d'um Gigante*, (continuação do antecedente). Um vol., broc. 200
rs., enc. 300 rs.

*A Baroneza de la Puebla*, (romance do seculo XVI, continuação dos 2
anteriores). Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.

*Estandarte Real*, (conclusão dos romances anteriores). Um vol., broc.
200 rs., enc. 300 rs.

*Lição ao Mestre*, por Teixeira de Vasconcellos. Tres vol., broc. 600
rs., enc. n'um só 700 rs.

*A Mascara Vermelha*, (romance historico) por M. Pinheiro Chagas. Um
vol, broc. 200 rs., enc. 300 rs.

*Juramento da Duqueza*, (continuação do antecedente) por M. Pinheiro
Chagas. Um vol., broc. 200 rs., enc. 300 rs.

*Noites Perdidas*, livro de contos, de Betamio d'Almeida. Um vol., broc.
200 rs., enc. 300 rs.

*Esboços de apreciações litterarias*, de Camillo C. Branco. Um vol.,
br., 200 rs., enc. 300 rs.

*Conde de S. Luiz*, por D. Thomaz de Mello. Um vol. br., 200 rs., enc.
300 rs.

*A PUBLICAR:*

*Duello nas sombras*, por A. F. Barata,--*Annel mysterioso*, de Alberto
Pimentel, etc., etc.

ASSIGNATURA PERMANENTE




BIBLIOTHECA PORTUGUEZA ILLUSTRADA

X

D. THOMAZ DE MELLO

O CONDE DE S. LUIZ

ROMANCE ORIGINAL

SEGUNDA EDIÇÃO

[Ilustração: Logótipo da sociedade editora]

  LISBOA
  EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
  _Sociedade editora_

  LIVRARIA MODERNA  ||  TYPOGRAPHIA
  _R. Augusta 95_   ||  _45, R. Ivens, 47_

1903




I


Era no anno de 18*** N'um palacete proximo á Calçada de Santo André,
vivia, em companhia de seu filho e de duas creadas, D. Marianna de
Mendonça, filha bastarda de Manuel Pires de Athayde, que fôra em tempos
de pouco saudosa memoria alcaide-mór da cidade de * * *

Poucos mezes antes de morrer, Manuel Pires de Athayde, entregára a sua
filha dezeseis mil cruzados em dinheiro, afóra joias e outros objectos
de valor, pedindo-lhe ao mesmo tempo que acceitasse por esposo a Alvaro
de Mendonça seu primo co-irmão, moço serio e de bom porte, e, além
d'isso, possuidor de riquezas quasi eguaes ás que o alcaide-mór lhe
legava.

Recusando, a principio, o noivo que o pae lhe indicava, D. Marianna, por
ultimo, não teve mais remedio senão acceder aos seus desejos.

Tres mezes depois, com grande alegria de todos os parentes, recebeu se
com Alvaro de Mendonça na freguezia dos Anjos.

O pobre velho parecia apenas aguardar a realização d'este ultimo desejo
para volver a alma ao Creador, entre as lagrimas da filha e dos amigos
que o estremeciam. Ao cabo de oito dias de casada, D. Marianna ficava
sem pae.

Manuel Pires de Athayde não se havia enganado na escolha; Alvaro de
Mendonça era o exemplo dos maridos. A sua proverbial honestidade
tornava-o estimado em todos os logares onde apparecia, acompanhado quasi
sempre pela esposa, digna e respeitada como elle.

Ao fim d'um anno, a Providencia, prodiga em lhes proporcionar todas as
venturas, concedeu-lhes a maior que póde dar aos que deveras se amam
sobre a terra, e que medem o mundo todo, pelo curto espaço do seu
domicilio: um filho.

Manuel--tal foi o nome do recemnascido--de dia para dia se tornava mais
robusto. Era um gosto vel os á tarde por sobre os canteiros do seu
pequeno jardim, correndo com o Manuelito, e disputando entre si, qual
dos dois alegraria mais a creancinha.

Marianna, por esse tempo, teria uns dezoito a vinte annos, Alvaro trinta
e quatro.

Amor, saude, mocidade, riquezas e um filho! Que lhes faltava para serem
felizes?

Pelo espaço de doze annos, trabalhando mais do que as forças lh'o
permittiam, afim de melhorar o futuro da creança, correu a vida de
Alvaro de Mendonça, sem que uma só vez podesse D. Marianna deixar de
levantar as mãos aos céus, para agradecer á Providencia o esposo que lhe
havia concedido.

Uma circumstancia apenas lhes toldava de vez em quando o iris da sua
felicidade; eram os continuos receios que um velho primo lhes infundia,
sobre a precoce intelligencia do estremecido fructo dos seus amores
patriarchaes.

«Não puchem pelo rapazola se o não querem ver no cemiterio, dizia-lhes
elle muitas vezes. Um talento como este deve ser muito poupado. Se meu
pae não me tem acudido a tempo, retirando-me do collegio, talvez lhes
não estivesse agora dando este conselho. Eu fui o mesmo que o Manuelito;
aprendi a grammatica portugueza de _fio a pavio_ em menos de um mez. Não
percebia bem o que dizia, é verdade, mas sabia tudo de cór, que era até
um gosto ouvirem-me. Sabem o que fez meu pae? Annuiu aos desejos do
mestre, que era um doidinho por mim, e retirou-me do collegio para que
não estudasse mais. É certo que estou hoje sem saber coisa alguma,
porquanto a grammatica esquece muito, mas pelo menos tenho vida e saude,
que é o principal.»

A despeito d'estas e de outras judiciosas reflexões, Manuel continuou a
frequentar a aula, onde era querido por todos os professores e
condiscipulos. Estes, longe de lhes causar inveja o seu inquestionavel
merecimento, todos á uma se ufanavam em lh'o proclamar.

Aos quinze annos já tinha feito os exames de philosophia e latinidade.

Quando mais venturosa sorria a existencia de Alvaro de Mendonça, coroada
pelos louros de seu filho, a Providencia, como se já estivesse fatigada
de lhe sorrir, fez com que o anjo da morte, descendo lentamente sobre o
seu leito, lhe cerrasse para sempre os olhos.

D. Marianna de Mendonça, ainda que dotada de intelligencia clara e
reflexiva, faltava-lhe comtudo aquella experiencia do mundo impossivel
de conseguir a qualquer senhora que, como ella, tivesse vivido apenas
entregue aos cuidados de sua casa.

Abatida pelo golpe que acabava de soffrer, muito fazia a infeliz viuva
em administrar a sua casa de portas a dentro, e bem assim seguir a
educação de Manuel, que de mez a mez fazia mais rapidos progressos,
continuando a disfructar uma irreprehensivel saude, apezar de todos os
prognosticos de seu primo, o ex-grammatico, que se não cançava de
lembrar á viuva o absurdo da sua insistencia em que o pequeno
continuasse no collegio.

Entre as pessoas que ordinariamente frequentavam a casa da viuva,
distinguia-se o commendador Felix Justino de Araujo, homem probo e
honesto para todos que tinham a honra de lhe merecer a sua confiança, o
que elle prodigamente espalhava afim de conquistar as geraes sympathias.

Corriam varias edições ácerca da sua mysteriosa individualidade,
chegando algumas pessoas a levar o seu arrojo a ponto de dizerem que o
commendador não passava de um refinado velhaco, e que, mais dia menos
dia, as suas gentilezas teriam de ser desmascaradas em praça publica;
isto tudo, já se vê, proferido em voz baixa, depois de com elle terem
gasto os joelhos das calças, nas respeitosas zumbaias que diariamente
lhe dispensavam. É que já n'essa epocha, a raça de commendadores que
hoje invade a capital começava a manifestar-se com toda a força do seu
prejudicial desenvolvimento. Era muito de ver se como toda aquella gente
o tractava no tocante a futeis banalidades. Riam-se uns dos outros, e
todos em sua presença disputavam entre si, qual deveria ser o seu
primeiro thuribulario.

Uns diziam que era viuvo, outros que era casado com uma mulher de baixa
esphera, de quem tinha duas filhas, porém que se não atrevia a
apresental-a na sociedade, em virtude das suas maneiras pouco
distinctas.

A sua riqueza ninguem ao certo a poderia saber; porém o faustuoso luxo
com que se tractava levava a suppôr que enormes rendimentos havia
herdado da sua nobre ascendencia, cujos brazões nobiliarios fariam
estremecer de inveja qualquer puritano.

Uma noite em que D. Marianna de Mendonça se queixava amargamente de um
certo procurador, lembrou-lhe uma das suas amigas que talvez lhe fosse
conveniente entregar a administração da casa ao commendador, se elle
porventura a isso estivesse resolvido, e que ella mesma lhe falaria a
tal respeito.

A viuva acceitou de bom grado o que a sua intima lhe propozera, e
falando esta com o commendador, ao cabo de oito dias Felix Justino de
Araujo tinha geral procuração para arrendar, subrogar, ou alienar
qualquer propriedade, se por ventura assim o julgasse conveniente para o
futuro do seu Manuel que, segundo o dizer do administrador, era tanto
para elle como se fosse seu proprio filho.

Não tardou muito tempo que o magnate fizesse uso de uma das condições da
procuração. Uma fazenda que Alvaro de Mendonça herdára por morte de uma
tia, tres ou quatro annos depois de estar casado com a filha de Manuel
Pires de Athayde, foi-lhe vendida em hasta publica. A venda fôra de um
excellente resultado para a viuva, segundo o commendador affirmava,
porquanto o seu principal rendimento eram arvores de fructa, e essas
mais anno menos anno cairiam todas ao pezo d'uma epidemia que, segundo
as suas observações agronomicas, teria de grassar d'alli a tempo,
assaltando todas as fazendas sem exceptuar uma unica.

Em face d'esta cruel prophecia, quem se negaria a separar-se de qualquer
terreno, por mais dolosa que fosse a venda?

O commendador empregou esse dinheiro n'uma industria cujo dividendo
deveria exceder dez por cento.

Quasi todos deram os parabens á viuva pelo bom negocio que vinha de
fazer, attendendo não só á grande differença do rendimento, como tambem
a ter-se livrado d'esse terrivel cataclysmo, a que estava exposta
conservando uma só arvore.

Assim decorreram dezoito mezes sem que D. Marianna tivesse a mais
pequena razão de se arrepender da plena confiança que tinha depositado
no seu administrador.

Por este tempo, Manuel, que havia saído do collegio, chegou se a sua
mãe, dizendo-lhe que desejava partir para o Rio de Janeiro, afim de se
dedicar á vida commercial, para que se sentia com decidida vocação.

Recordando lhe ao principio a loucura do seu projecto, a pobre mãe
ponderou-lhe a pouca necessidade de buscar em terra estranha o que já
possuia na sua patria: a riqueza.

Por essa epocha, os bens da casa montavam a uns trinta contos de réis,
graças á herança que Alvaro de Mendonça havia recebido por morte de sua
tia, e ás economias que a viuva fizera durante aquelle tempo.

--Com o dinheiro que possuimos, dizia-lhe sua mãe, poderás dedicar-te ao
commercio, mas aqui em Lisboa. É verdade que não tens um unico parente
que te proteja, mas, graças a Deus, temos meios. Partires, e
deixares-me, filho, acho que será uma grande loucura, ajuntou ella,
arrazando-se-lhe os olhos de lagrimas. Em todo o caso, farás o que te
aprouver. Não quero que um dia me lances em rosto que o muito amor que
te consagro foi a causa de cortar a tua carreira.

N'essa noite, quando appareceu o commendador, D. Marianna manifestou-lhe
os desejos de Manuel.

--Que vá, respondeu elle rapidamente. Seu filho é activo, audaz,
intelligente e emprehendedor. Póde um dia, se Deus o ajudar, vir a ser
um grande homem. Não tenho filhos, acrescentou, porém se um dia os
tiver, nunca os hei de contrariar nas suas resoluções, se ellas forem
justas como as de Manuel.

--Mas que precisão tem elle de expôr a sua saude n'um clima tão
perigoso? Trinta contos ou perto d'elles que possuimos não será o
sufficiente para se viver em qualquer parte do mundo?

-Porém se seu filho é ambicioso, e capricha em adquirir um capital pelo
seu trabalho, é justo que sua mãe lhe impeça a sua determinação? Faça o
que quizer, mas tome o meu conselho, deixe-o partir. Deus ha de guial-o,
porque Manuel é bom, honesto, moral e, sobre todas estas coisas, muito
trabalhador.

--E que dinheiro se lhe deve entregar, sr. Felix? dez contos, quinze,
vinte... que lhe parece?

--Vossa excellencia está louca! acudiu apressadamente o commendador.
Entregar contos de réis a um rapaz da edade de seu filho! Lançar Manuel
n'um paiz como o Rio de Janeiro, proporcionando-lhe os meios de se
perder! Nem por sombras! Quaes contos de réis! Com seis moedas
desembarquei eu em S. Paulo, e ao cabo de doze annos possuia uma fortuna
para cima de dez mil libras! Contos de réis! Só essa me faria rir! A
passagem paga, meia duzia de moedas, e as cartas de recommendação que
para ahi lhe entregarei, são mais do que o sufficiente.

--Mas não me disse v. ex.ª que meu filho era um rapaz de juizo, honesto
e moral? Que receio teremos em lhe entregar o que realmente lhe
pertence? Não é elle o meu unico herdeiro?

--Fará vossa excellencia o que entender, e se lhe quer entregar tudo
quanto possue, faça-o; está no seu direito, e lavo d'ahi as minhas mãos.
Se quer que lhe preste as minhas contas, estou muito prompto a fazel-o.
Sabe que o unico interesse que tenho em tudo isto é apenas o seu bem
estar, e o futuro de Manuel. Se quer estragar tudo quanto tenho feito em
seu proveito, é senhora das suas acções, póde fazel-o, que desde este
momento me considero desligado de todos os meus encargos.

Esta linguagem, rude mas na apparencia sincera, produziu no animo debil
de D. Marianna o resultado que o commendador desejava. Affeita a
obedecer-lhe em tudo, havia-se deixado dominar completamente por aquelle
homem que, segundo a opinião de todas as pessoas que frequentavam a sua
casa, havia sido um anjo salvador.

Dois annos depois da sua administração, os vinte contos de réis, que
rendiam á viuva cem mil réis por mez, haviam subido a um rendimento de
um conto e seiscentos por anno, graças á applicação que elle dera a
esses capitaes. Quanto ao producto da propriedade, era um segredo, que
mais dia menos dia seria revelado como surpreza agradavel. Que razão
teria ella para o arguir de mau administrador?

Estas e outras circumstancias faziam com que D. Marianna obedecesse
cegamente a quanto elle lhe impunha.

No dia immediato, Manuel chegou-se a sua mãe, afim de saber o que se
havia passado entre ella e o commendador.

--Sinto deveras que me queiras abandonar, porém se essa é a tua vontade,
vae, e que as minhas orações, acompanhando-te sempre, te possam salvar
de todos os perigos. Quanto a dinheiro ajuntou ella, esperançada em que
o commendador se resolvesse a entregar-lhe maior quantia, dir me-has
quanto necessitas.

--Nunca pedi contas nem a minha mãe nem ao sr. commendador, mas
supponho que não farão grande differença nos capitaes que devemos
possuir quatro ou cinco contos de réis para me estabelecer, mas ainda
assim, se minha mãe suppõe que essa quantia é muito avultada, contentar
me-hei com menos, ou por ultimo, com aquillo que julgarem conveniente. É
tudo quanto tenho a dizer-lhe, accrescentou elle, pregando os olhos no
olhar turvo e entristecido de D. Marianna.

No dia seguinte a viuva foi ao escriptorio do commendador e contou lhe o
que passára com Manuel.

Felix de Araujo, depois de a ter escutado, insistiu serenamente em que
seria uma grande loucura entregar a seu filho uma quantia superior a
essa de que tinham falado na vespera, repetindo porém, que estava no seu
direito de fazer o que lhe aprouvesse.

Todos os espiritos, por mais debeis que sejam, teem um momento na vida,
em que uma circumstancia, ou um milagre providencial lhes dardeja um
raio de valor.

A maneira, o gesto, o olhar, com que a viuva fitou o commendador, foram
sufficientes para que elle comprehendesse que todos os esforços seriam
inuteis. D. Marianna estava resolvida a entregar a seu filho a quantia
que elle lhe havia, senão pedido, pelo menos indicado.

Não havia remedio! Era forçoso entregar esse dinheiro no momento em que
lhe fosse exigido, para que se não realisassem certos boatos que lhe
tinham chegado aos ouvidos, de que mais dia, menos dia, as suas
gentilezas seriam desmascaradas!

--Seja o que vossa excellencia quizer, disse elle, depois de alguns
instantes de reflexão. Que quantia quer?

--Quatro a cinco contos de réis. Como tudo o que possuo é em dinheiro,
não haverá duvida em os receber por estes oito dias.

--Oito dias! replicou o commendador, simulando grande tranquillidade de
animo, hoje mesmo se vossa excellencia quizer; não tenho mais trabalho
do que tiral-o d'aquelle cofre, ajuntou elle, apontando para um grande
armario de ferro.

--Posso portanto ficar tranquilla?

--Póde, mas lembre-se, minha senhora, que vae fazer a desgraça de seu
filho. Conheço o Rio de Janeiro, e sei o que póde succeder a um rapaz da
edade de Manuel, achando-se possuidor de similhante quantia.

--Será o que Deus quizer, respondeu a viuva despedindo se.

Quem, momentos depois, commettesse a indiscrição de o espreitar, no
pequeno gabinete do escriptorio, conheceria immediatamente pela sua
perturbação, que os trinta contos de réis em que consistia a fortuna
d'aquella familia não estavam tão seguros quanto ella os julgava.

Oito dias depois, quando tudo estava preparado para a viagem de Manuel,
sua mãe dirigiu-se a casa do commendador, afim de receber os cinco
contos de réis, e encontrou-o sereno e bem disposto, mas insistindo
ainda em que tão grande quantia seria prejudicial a um moço inexperiente
como seu filho.

--Já disse ao sr. commendador o que tinha a dizer-lhe, respondeu D.
Marianna, sentando-se tranquilamente a seu lado.

--Visto não haver meio algum de a convencer, queira vossa excellencia
ter a bondade de me passar um recibo d'esse dinheiro. Levantando-se
serena e fleugmaticamente, o commendador dirigiu se ao armario de ferro,
tirou de dentro d'elle um pequeno cofre e collocou-o sobre a secretaria
de que D. Marianna se tinha approximado para passar o recibo. O
commendador, depois de contar os maços de notas de dez moedas, poz junto
de D. Marianna os que prefaziam a quantia exigida.

N'este momento a viuva acabava de assignar o recibo.

--Se não fosse a profunda sympathia que vossa excellencia sempre tem
sabido inspirar-me, creia que de hoje em deante, deixaria de lhe
administrar os seus bens, e pedir-lhe-hia que mandasse buscar vinte e
sete contos de réis que alli tenho n'aquelle cofre; digo que os mandasse
buscar, porque grande parte d'esse dinheiro está em ouro e em prata, com
que vossa excellencia não poderia. Não o faço, porque além de todas as
outras circumstancias, affeiçoei-me ao Manuel, mais do que se elle fosse
meu proprio filho, como já uma vez lh'o disse.

Se algumas desconfianças começassem a agitar o espirito da viuva, todas
se desvaneceriam em presença d'esta scena. Havia uma dupla intenção nas
palavras do commendador: a primeira inspirar á viuva profunda confiança
no deposito dos seus capitaes; a segunda, evitar ainda a entrega dos
cinco contos de réis. A primeira saiu-lhe bem, a segunda não foi tão
favoravel.

--Então quando é a saida da galera? perguntou elle a D. Marianna.

--Ámanhã, ás duas horas da tarde.

--Não me comprometto a ir ao bota-fóra; ser-me-ia penoso acompanhal-o ao
começo da estrada da sua infelicidade.

--Será o que Deus quizer, respondeu tristemente a pobre mãe, pegando nos
maços de notas e mettendo-os dentro do seu sacco de veludo.

Cinco minutos depois, acompanhada pelo commendador, entrava D. Marianna
para uma sege, e seguia caminho de casa.

No dia seguinte, ás duas horas da tarde, desprendendo se dos braços de
sua mãe, entrava Manuel de Mendonça na galera _Boa Ventura_, e ao cair
da tarde perdia de vista o que ha de mais caro na vida: mãe e patria.

«Acautele-se do commendador» foram as ultimas palavras que Manuel
dissera a sua mãe.

Ao cabo de tres mezes, a viuva recebeu uma carta de seu filho, em que
lhe participava que tinha chegado depois de uma feliz viagem, e que
esperava em pouco tempo estabelecer-se vantajosamente com uma casa
commercial.

       *       *       *       *       *

Assim passaram mais oito mezes.

As mezadas que D. Marianna recebia de Felix de Araujo continuavam a
ser-lhe entregues com a mesma religiosa pontualidade, o que fazia com
que todas as pessoas que chegaram a duvidar da honestidade do
commendador começassem a proclamal-o homem de evidente credito.

Durou isto perto de um anno. As cartas que Manuel escrevia a sua mãe
eram cada vez mais consoladoras. N'algumas, mandava-lhe dizer que os
seus maiores desejos seriam tel-a a seu lado.

Um dia, finalmente, escreveu lhe seu filho, mandando-lhe pedir
encarecidamente que retirasse quanto antes os capitaes que tinha na mão
do commendador, porque lhe tinham dado as peiores informações a seu
respeito, sendo a primeira não se chamar Felix Justino de Araujo, mas
simplesmente Domingos de Andrade.

Afflicta com esta carta, a infeliz senhora procurou um advogado, que
fôra muito amigo de seu defunto marido, e communicou-lhe os seus
receios.

N'esse mesmo dia, o doutor acompanhou-a a casa do commendador. Este, ao
vel-a, comprehendeu immediatamente do que se tractava.

--Tencionando retirar-me para o Rio de Janeiro, venho prevenir vossa
excellencia de que desejo levantar da sua mão os capitaes que
honestamente me tem administrado. Se não fosse o desejo de ir ver meu
filho, continuaria a aproveitar me da zelosa e desinteressada
administração do sr. commendador.

--E sabe vossa excellencia se n'este momento lhe poderei entregar esse
dinheiro? Não m'o confiou para negociar, afim de que tivesse maiores
lucros do que estando na sua mão? Na vespera de seu filho partir para o
Brazil, quando dei a vossa excellencia os cinco contos de réis, que me
exigiu, não me promptifiquei a entregar lhe quanto aqui tivesse? Vossa
excellencia não comprehende a possibilidade de que esse dinheiro esteja
empregado em qualquer negocio, e de que n'esse caso me seja difficil
devolver-lh'o de um momento para o outro? Felizmente não succede assim,
pelo que dou graças a Deus! Quanto o estimo! Vossa excellencia, por
qualquer circumstancia, deseja retirar das minhas mãos os seus capitaes,
e não tem o sufficiente valor de m'o dizer de cara a cara! Pois, minha
senhora, continuou elle, simulando um gesto de profundo resentimento, e
levantando um pouco a voz, eu, que tenho a coragem das minhas acções,
escudado pelo meu nome e pela minha honestidade, declaro aqui, alto e
bom som, que sou eu que exijo, que vossa excellencia retire d'aqui os
seus fundos, e quanto antes.

Havia tanta dignidade nas palavras do commendador, a sua voz era tão
firme, tão altivo e tão seguro o seu olhar, que D. Marianna chegou a
convencer-se de que era uma ingratidão o que vinha de fazer.

--Ha perto de quatro annos, continuou o commendador dirigindo se ao
advogado, que eu administro os bens d'esta senhora. O seu rendimento,
que não chegava a um conto e duzentos por anno, subiu a um conto e
seiscentos. Uma propriedade que lhe valia o muito quatro contos de réis,
vendi-lh'a e appliquei o producto d'ella n'um negocio, que rende para
cima de doze por cento. Que necessidade tenho eu d'isto tudo? Tenho
empregado trabalho e tempo; e preciso eu por ventura de capitaes alheios
para fazer as minhas transacções? Escusado será dizer que não. Para que
o fiz? Para o seu bem! Boa paga, não haja duvida. Que esta lição me
sirva! Pois, minha senhora, ajuntou elle, voltando-se para D. Marianna,
rogo a vossa excellencia que ámanhã, sem falta, até ás onze horas da
manhã, encarregue alguem de me tomar contas, e queira vossa excellencia
vir tambem, afim de me passar recibo do dinheiro que tenho na minha mão.
Hoje mesmo, se lhe fosse possivel, apezar de ser tarde, muito prazer me
daria.

--Ámanhã aqui estarei, visto assim o exigir, respondeu D. Marianna,
olhando ao mesmo tempo para o advogado, como que esperando a sua
opinião.

--Sendo onze horas aqui viremos, disse o jurisconsulto, despedindo se do
commendador.

--Que lhe pareceu? perguntou a viuva ao chegarem á porta da rua.

--Um homem honesto, ferido pela ingratidão que acaba de receber,
respondeu fleugmaticamente o doutor. Em todo o caso, accrescentou elle,
faça vossa excellencia o que quizer; sendo dez horas estarei em sua
casa.

No dia immediato, conforme haviam combinado, apresentou se o advogado em
casa de D. Marianna de Mendonça.

Ás onze horas metteram-se n'uma traquitana, e dirigiram-se ao
escriptorio do commendador.

Contra todos os usos da casa ainda estava fechado.

--Que lhe parece isto? perguntou D. Marianna ao advogado, com mais
receio do que na vespera ao perguntar-lhe como lhe havia parecido.

--Que é um homem ferido pela ingratidão, e que anda a tratar de levantar
dinheiro para a embolsar d'essa quantia, respondeu elle ingenuamente.

Momentos depois começaram a apparecer varios individuos. O physionomista
que de perto os observasse, veria em todos elles a mesma sombra de
receio que se revelava no rosto pallido e transtornado de D. Marianna de
Mendonça.

D'alli a duas horas ainda Felix de Araujo não tinha apparecido.

--Que lhe parece isto tudo doutor? dizia a viuva ás cinco horas da
tarde, olhando para o advogado, que a contemplava com uma physionomia
alvar.

Que é um refinado ladrão que nos deixa a todos desgraçados! accudiu um
individuo que ouvira a pergunta feita pela viuva.

O commendador Felix Justino de Araujo havia fechado o escriptorio.
Domingos de Andrade fugira, roubando dinheiro a todos aquelles que, como
D. Marianna de Mendonça, o haviam depositado nas suas mãos.

Cinco dias depois D. Marianna, com a razão perdida, entrava para a casa
dos doidos no hospital de S. José.




II


Pelos fins do anno de 1858, vivia n'uma pequena casa da Rua do Meio,
freguezia de Nossa Senhora da Lapa, Jeronymo de Almeida, honrado mestre
de obras, em companhia de sua mulher e de uma filha de dezeseis annos,
chamada Martha. A excentricidade de caracter do operario, fazia com que
todos os visinhos o detestassem. Para elle, não havia domingos nem dias
santificados que o obrigassem a distrair-se do seu trabalho. A sua
janella encontrava-se sempre fechada.

O cultivo do microscopico jardim era a unica distracção que n'esses dias
se permittia. Alli entre sua mulher e sua filha, Jeronymo mondava o
pequeno canteiro de hortaliça, que duas horas depois tinha de fazer as
delicias da refeição domingueira. No armario da cozinha, esperava desde
a vespera a garrafa do Cartaxo que figurava á sua meza, sobria sempre,
porém honradamente disfructada com o suor do rosto.

Emquanto Jeronymo trabalhava no pequeno horto, Balbina, a esposa,
assentada na cadeira de costura, largava apenas a agulha para agradecer
a Deus o marido que a Providencia lhe havia destinado.

Martha, a preguiçosa Martha como Jeronymo n'esses dias lhe chamava,
escondia os ferros de engommar, para seguir seu pae, sorrindo-se e
gracejando a cada passo que elle dava pelo jardim.

Toda a visinhança da rua do Meio se mordia de despeito ao contemplar a
beatifica tranquillidade d'aquella pobre mas venturosa familia; até uma
sobrinha do sr. regedor, que se finava de inveja ao contemplar os olhos
verdes de Martha, chegou a dizer ao sr. padre prior que era impossivel
que toda aquella gente não tivesse grande peccado na consciencia,
attendendo á constante reclusão em que vivia. O sacerdote, que conhecia
o invejoso caracter da menina Gertrudes, passou de leve sobre o caso, e
contentou-se apenas em responder-lhe que era tal a confiança que
depositava na virtude d'aquella familia, que não teria duvida alguma,
embora se sacrificasse a pôr fóra de casa a velha ama, a admittir Martha
a viver em sua companhia, entregando-lhe nas mãos as chaves da dispensa,
e tudo quanto possuia de mais valor. Gertrudes desanimou na lucta,
contentando se apenas em desacredital-a em voz baixa, quando por ventura
alguma das amigas lhe falava a seu respeito.

Defronte da casa de Jeronymo morava uma pobre velhinha, que se tornava
um mysterio para toda a visinhança, passando apenas despercebida da
familia do operario, pouco affeita a importar-se com as vidas alheias. A
apparencia de sua casa, o seu trajar emfim, tudo revelava summa pobresa,
porém nunca a sua mão se estendeu a pedir o obulo da caridade.

A velha costumava sair todas as manhãs a fazer as compras. Um dia a
porta conservou-se fechada, e a tia Marianna, segundo lhe chamavam, não
apparecia. Ou por curiosidade, ou por interesse, não faltou quem lhe
batesse ao postigo. Em resposta ouviram-se apenas uns gemidos. O regedor
chamou dois cabos de policia e mandou immediatamente arrombar a porta.
Encontraram-n'a exanime sobre o leito. A infeliz havia adoecido com a
febre amarella; foi esse um dos primeiros casos que se dera na freguezia
da Lapa. Atterrados, não houve quem quizesse approximar se da enferma.
Não tardou muito que o facto transpirasse por toda a visinhança. No
momento em que o regedor, dois metros affastado da porta, dava as suas
ordens para que fossem buscar a maca afim de conduzirem a velha ao
hospital da rua do Sol, Martha, a loira Martha, saiu de casa e
atravessou a rua, dirigindo-se ao logar do sinistro.

--Onde vae a menina? perguntou o sr. Venancio da Conceição.

--Levar esta gotta de caldo á visinha, respondeu Martha ao previdente
regedor.

--Não consinto similhante loucura! disse elle; a velha foi atacada pela
febre amarella, e vae immediatamente para o hospital.

--O que vocemecê não me póde impedir, é que eu pratique uma obra de
caridade; e demais, veja se está no seu direito de mandar para o
hospital uma pessoa que se póde curar em sua casa.

--Essa mulher não se póde tratar em sua casa, não tem familia.

--E quem lhe disse ao sr. que não tem quem a trate? acudiu Martha,
afastando o regedor e dirigindo se para o interior da casa da tia
Marianna. Ora essa! ajuntou ella, e se eu a quizer tratar, ha de alguem
oppôr-se?! Creio que não. Com sua licença, sr. regedor; e entrando
animosamente, dirigiu-se a uma alcova, onde a desgraçada, extorcendo-se
em dolorosas agonias, cravava os olhos n'um pequeno crucifixo, collocado
sobre uma commoda.

Os cabos, regedor, e todos quantos alli se encontravam, olhavam-se
mutuamente sem proferir uma só palavra.

--Assim o quer, assim o tenha, disse a auctoridade, depois de alguns
instantes de reflexão. Se ella fosse minha filha ou coisa que me
pertencesse, por certo que não havia de lá entrar. Eu cá é que não tomo
nada, acrescentou elle olhando com receio para dentro da casa.

Instantes depois, saía Martha de casa da velha.

--Mandem chamar immediatamente um medico, disse ella voltando-se para o
regedor. Póde ser que ainda lhe possamos acudir. Pelo facto de ser uma
pobre mulher, bem vê que não a devemos deixar morrer ao desamparo. E
dizendo estas palavras, tornou a entrar para dentro da casa da tia
Marianna.

--Vá á botica pedir soccorros, disse o regedor, voltando se para o cabo
geral, e que venham immediatamente; porquanto, esta mulher pelo facto de
ser pobre, não devemos deixar morrer ao desamparo, ajuntou elle,
secundando as palavras de Martha, e repetindo-as como se fossem suas
proprias.

O cabo geral, sem mais hesitar, voltou as costas aos circumstantes, e
resmungando subiu a rua do Meio, dirigindo-se aonde a auctoridade o
havia mandado.

Não tardou muito que á porta da tia Marianna se ajuntasse um circulo de
curiosos. As visinhas a quem o terror da cruel epidemia havia infiltrado
nos animos o mais terrivel desalento, debalde vociferavam contra a
estulta caridade de Martha, e a pueril condescendencia do regedor, em
annuir aos desejos da filha do mestre de obras. Revestindo-se emfim de
todo o seu poder, o sr. Venancio da Conceição convenceu o auditorio,
repetindo-lhe pela segunda vez, que, pelo facto da tia Marianna ser uma
pobre, não a deviam deixar morrer ao desamparo.

N'este comenos, appareceu o mestre Jeronymo.

--A sua filha está doida de todo! diziam uns.

-Já tres vezes que vamos avisar a sr.ª Balbina para que a retire
d'aquella casa e ainda não houve meios, acudiu uma ajuntadeira de
calçado, que nem por isso gozava de muitos bons creditos na visinhança.

--Que loucura! que loucura! dizia a capellista.

--Parece que está a zombar da cholera do Senhor! acudiu respeitosamente
a tia Monica, beata que vivia de resas por conta das fidalgas de Buenos
Ayres, quando os seus affazeres não lhe permitiam conversar com o Todo
Poderoso por conta propria.

--Se Deus a arrasta ao leito da moribunda, elle mesma a salvará,
respondeu fleugmaticamente mestre Jeronymo, lendo-se-lhe, apezar de
tudo, um certo receio pela vida da criança que estremecia.

--Muito estimo que assim penses, acudiu Balbina, que saira n'este
momento de casa. O mesmo pensei eu quando Martha me foi pedir uma gotta
de caldo; entregando-lh'o, entreguei a a Deus.

--Pois olhe, sr.ª Balbina, disse a capellista, fosse ella minha filha,
não lh'o consentia.

--Cada qual tem o seu modo de pensar, sr.ª Margarida, e Deus fez-me
assim; mas deixemo nos de mais dize tu, direi eu, e vamos a ver o que se
poderá fazer por aquella infeliz. E sem mais reflexionar, entrou n'esse
recinto mortuario, por onde momentos antes sua filha havia
desapparecido.

--_Avé Maria, cheia de graça, o senhor é comvosco, benta sois vós_,
dizia a beata. Forte impostora! accrescentou ella; aquillo não é senão
para se fazer valer na visinhança.




III


Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever,
appareceu o medico.

--É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.

--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.

O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a
má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de
susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.

Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha,
a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar
turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.

Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma
tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este
doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.

Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e
voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor
analysar a vista da moribunda.

--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr
que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle
cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.

Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os
que o seu estado exigia.

--Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para
Jeronymo.

--Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta
desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o
hospital.

--Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver,
retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.

--Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha,
approximando se do leito.

--Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e,
despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa
na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.

Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro
onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de
palhinha, completamente estragadas nos assentos.

Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder,
nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a
casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no
que podesse os incommodos da enferma.

--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes
alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar
estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não
era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de
Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital.
Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?

--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual
que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto
com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da
capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam
Martha e seu marido.

A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do
operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a
Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de
suprema angustia.

Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro
enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe
livrassem sua pobre filha.

Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada.
As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco,
e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.

Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos
indagar o estado da sua doença.

Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma
estava livre de perigo.




IV


Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna,
envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.

Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua
organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa
mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes
d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas
immediações.

Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da
Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação
da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.

Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis
soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não
existe mais do que a inveja e a podridão!

Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o
coração, que se entrega aos deleites da caridade.

A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve
produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela
pobresa, no tympano do avarento.

Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem
repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé,
salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do
operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as
costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe
prodigalizava.

Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de
Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e
acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella
pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma
se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.

Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de
Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando,
acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as
visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço
estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já
começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos
continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe,
por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.

--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr.
Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará
muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem
render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a
castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom
cordão de seis moedas ao pescoço.

--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não
tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me
deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.

--Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o
mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã
tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma
esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de
obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no
gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas
suas visinhas.

--Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu
a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da
morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de
fome.

--De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro
de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que
punhamos no leito.

--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos
frio...

--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa
Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe
calcular o calor.

--Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as
reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a
felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos
agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.

--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse
Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que,
apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição
particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.

--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que
frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas
maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não
foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo
se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a
casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me
convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna,
quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que
abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se
tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para
uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem
proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos
finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca
foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é
necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a
começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu
suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe
cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo
este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja
chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.

N'este momento bateram apressadamente ao postigo.

--Que teremos? disse Balbina.

Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu
immediatamente a porta.

Era a tia Monica.

--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a
sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de
todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre
amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me
estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre
a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as
visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem
praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se
compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho
com que tornou á vida a tia Marianna.

--Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia
Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha
ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão
chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os
soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente.
Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes
emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira,
maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica.
Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse
por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro,
ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto
da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar
na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não
foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem
como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela
minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha
filha.

[Ilustração: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)]

--Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que
julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus
descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores,
resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde
momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para
Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia
produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.

--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de
alguns momentos de profunda reflexão.

--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa
pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.

--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude,
e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.

Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta
curta, mas eloquente oração:

          Bom Jesus, todo Poderoso,
          Filho da Virgem Maria,
          Soccorrei-nos esta noite
          E ámanhã por todo o dia.

          Se na terra não coubermos,
          Levae-nos Senhor aos céos,
          Rogae por nós peccadores,
          Virgem Santa, Mãe de Deus.




V


Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um
abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu
passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.

Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de
Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a
casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta
capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo
facto de já ter fallido tres vezes.

O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu
recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de
mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto
escasseia.

Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para
succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores
da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.

Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de
Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de
experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar,
quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou
pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.

Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por
zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa
inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na
sua aurifera individualidade.

Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que
uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior
intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor
dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.

Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle
conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser
visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se
aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo
relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a
sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se
aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no
Brazil com o unico fim de matar o tempo.

Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu
preterito.

«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle,
passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que
pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis
se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus
fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje
pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui
Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra
Domingos de Andrade.

«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver
minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus
caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes
sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente
encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de
grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal.
Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de
alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma
avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me
recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o
ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de
familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei
o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos
olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a
adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»

N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e
entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

--Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e
dirigindo-se para o salão.

O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter
quarenta quando muito.

Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus
fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia
disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta
terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete
annos, graças á temperatura do seu clima.

Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se
curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.

Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras
que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror
da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do
mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em
resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia.
Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de
Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!

Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze
dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a
viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen
Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para
melhor falar com o marido da viscondessa.

Como se vê, era um homem completo.

Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando
sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma
multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do
visconde.

Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo
deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções
que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo
delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o
verdadeiro sybarita da estroinice.

Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse
desbaratada em custosas viagens.

Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio
de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com
que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida,
onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu
no começo da sua jornada.

Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos
ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos
abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou
brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião
das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de
Coruche.

As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde
que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento
excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus
crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco
brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o
capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo
d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura,
reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou
a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas
se recordava d'elles.

A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava
arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo
do apogeu da sua riqueza.

D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa
alguma era dado descortinar.

Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado
que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação
era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.

Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos.
Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma
industria.

Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe
apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio,
anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava
colocando-os no rol de seus intimos.

Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o
visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero
de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.

Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi
todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia,
nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de
desconsideração.

Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade,
ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior
exactidão desta veridica historia, foi apresentado.

--Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro
amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha
muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre,
cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde
calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem
espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho
uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta
innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é
pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do
cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é
que foi uma epidemia, meu amigo.

--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o
commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o
visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou
elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.

--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para
brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento
sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando
realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude.
Prefiro-a a tudo, até á riqueza.

--Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de
Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.

--Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo.
Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro.
Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se
consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e
dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com
elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu
sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa
alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que
tantos deleites me faz experimentar?

--Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos,
ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude
e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos
sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de
Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado
dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta
visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade
que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.

--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a
primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante,
continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava
fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião?
Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que
teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.

--Nada, não se trata d'isso.

--Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das
carruagens, ou dos cavallos?

--Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará
para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de
misericordia;--fazer bem aos desgraçados.

--Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em
tudo quanto me seja possivel.

--Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa,
que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os
seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um
asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?

--Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia
m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª
condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o
iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais
assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que
não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas
as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a
repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.

--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não
me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e
creio que será muito mais razoavel.

--Sim?...

--É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados
de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel
flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que
teve minha mulher.

--Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua
excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.

--Approva?

--Applaudo.

--E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?

--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e
offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.

--Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão
de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.

--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira
do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.

--Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de
Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em
muito.

--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o
a Tristão de Almeida.

       *       *       *       *       *

Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a
carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o
cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo,
deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.

Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para
o hotel de Bragança.

Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por
excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o
atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não
havia tornado a si.

Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com
profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou
verdadeira caridade? Sabia o Deus!

Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que
havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.

É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão,
disse o doutor tomando o pulso do enfermo.

Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão
de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre
um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.

--Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde
com falsa ingenuidade.

--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido
causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr.
visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será
bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a
cabeceira do ferido.

--Será uma grande alma, pensava o visconde.

--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.

Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.

[Nota de rodapé 1: Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir
Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira
que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar
desconhecido de si mesmo.]




VI


--E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar!
Virgem Santissima que lhe terá acontecido?

Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma
pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a
luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.

--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a
tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem
nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez;
morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore.
Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar.

--Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é
tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi.
Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não
havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha
senão desgostos para os que são bons como vossemecê.

--Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente
quer--como o outro que diz--estar nas graças de Deus, mais o demo que as
tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha
se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a
_ambos e dois_. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a
pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do
quarto.

--Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se
ambos se encontraram?...

--Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz
o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa
uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos
olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos
rogou...

--Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom
de mais para conceder similhante poder aos mortaes.

--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella!
Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um
sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o
pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz,
que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e
desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois
serem quatro.

--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda
muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja
tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse
conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido
se demora mais duas ou tres horas!

--E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar?

--Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar
algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a
familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta
e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.

N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente
atravez das fendas do postigo.

Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.

Martha vinha desfigurada.

--O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir
jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro
para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e
esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se
para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria,
ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os
seus magnificos cabellos.

--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.

--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e
quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de
mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de
um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha.
Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido
atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte.
Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve
apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo
a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria
offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.»

Esperei, chegaram duas traquitanas.

--Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe
affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae,
que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo
mettendo-me no trem.

Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem
a trote.

De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha.

Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os
cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae.
Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns
minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa.

Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.

Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a
tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da
manhã.

--Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.

Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.

Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não
acceitei por causa da visinhança.

--E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos?
exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.

--Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta
fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa,
que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»

--E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.

--Uns trinta annos.

--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de
todo.

N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para
sair.

--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha
prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse
acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos
hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.

--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar
volta á chave para sair.

Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam
impedir-lhe a passagem.

E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos
deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna
acompanharam-n'a na sua oração.

E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material
indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que,
batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle
quadro de amargura.




VII


Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se
primeiramente a casa de Vaz Mendes.

Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu
recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao
seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.

D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.

Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa
exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias
antes.

Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á
Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do
excellentissimo commendador.

Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros
epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o
que se havia passado com o operario.

--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou
certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao
mesmo tempo o olho para o visconde.

--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes
de Miranda.

--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios,
ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.

Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e
dirigiam-se ao quarto do ferido.

O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia
podido arrancar-lhe uma só palavra.

A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico
esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de
vez em quando approximavam se do quarto.

Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se
ao enfermo.

--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre
homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma
lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a
familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa
excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com
que todos estejam em cuidados.

--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se
sobre o leito do operario.

O enfermo continuava no mesmo lethargo.

Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma
palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar
emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a
um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.

Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida,
aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para
desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu
Magdalena, a irmã mais velha.

O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão
de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos
contos de reis, que lhes poderia faltar?

Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor
do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco
que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da
sella, discutiu-se a fundação do hospital.

D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo,
falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os
hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que
defendia.

Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de
cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que
apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado
se mergulhava!

Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais
desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo
de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de
admirar o bom gosto do estampador.

Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem
que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada
n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a
indigestão de bom grado.

Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo
era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas
se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde
entrava o criado com o seguimento do _menu_.

E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava
dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que
tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,
como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de
inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas
paginas se debruça.

Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico
desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto
pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de
Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.

Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia
julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.

De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia
insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe
merecer sympathia.

Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de
melancolia que prendiam quem a contemplasse.

Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz.
Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus
canticos a musica da palavra.

Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por
calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a
sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que
ella se compõe!

Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre
os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira
o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?

Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado
a estudar aquella peregrina organização.

Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de
amar como os pulmões do ar que respiram.

Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara,
quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o
vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima
realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas
lagrimas.

Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela
historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais
tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!

Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de
Olympia.

Era invulneravel!

--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar
calado.

--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da
insaciavel voracidade da filha!

--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria
Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia!
ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.

--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no
momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito.
Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me
trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.

--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando
no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.

--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria
Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.

--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito
envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o
que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.

--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.

Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.

N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de
jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos
instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o
criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir
reconhecer o doente.

--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.

--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á
familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado
pela febre.

--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.

--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.

--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.

--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.

--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca.
Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre
gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes
retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.

--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de
caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.

--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do
Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam
ardentemente n'uma torta de maçã.

--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se
ao mesmo tempo da cadeira.

--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o
movimento do seu amigo.

--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará
muito que lá vamos, eu e minhas filhas.

--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para
o commendador.

--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.

Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.

       *       *       *       *       *

--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos
visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de
comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente
voltando se para sua mãe.

--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.

--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.




VIII


Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a
inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca
abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma
epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão,
a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.

Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente
sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se
tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima,
que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do
commendador.

Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de
Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu
conselho salvar as victimas do fugitivo.

Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a
entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da
sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava,
perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o
commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.

--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o
suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer.
Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,
quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais
tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o
sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia
entrado.

Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para
casa.

--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem
quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos
ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a
senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr.
regedor.

--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á
justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a
ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu
Maria Gertrudes.

--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E
demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me
quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor
ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se
gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o
bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.

É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus,
para que estava guardada.

--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.

--Então o que havia de fazer?

--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.

--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?

--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não
viesse.

--E sabemos por ventura aonde está o filho?

--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes
não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa
talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os
correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo:
pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.

--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?

--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes,
se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego
de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor.
Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê
que isto não póde durar por muito tempo.

--Lá n'isso tem muita razão.

--Ora ainda bem; então mãos á obra.

       *       *       *       *       *

Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.

N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se
considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas
como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes
depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava
passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de
dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e
entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as
suspeitas da visinhança.

A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de
Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum
dos creados fosse indagar o seu estado.

No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e
depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles
dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem
ao menos saberem se ainda existia ou não.

Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S.
José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.

Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar
todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua
enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.

Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o
director levou-a para casa da sua familia.

Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse
do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois
contos e duzentos mil réis.

Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto
para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino,
cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as
felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!

Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua
desventura.

Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções,
juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que
sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D.
Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse.
Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas
pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se
aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á
sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito
envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que
tinha sobre a terra: o director e sua esposa!

Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!

Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á
sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver
para a Lapa.

Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do
Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli
a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada
pela febre amarella.

A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho,
economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe
restavam.

«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções,
não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me
fôr para lh'o augmentar.»

Explicado está portanto o seu modo de viver.




IX


A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o
desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.

Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos
para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de
quatro individuos que estavam discutindo.

--Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente
estava preso, dizia um d'elles.

--Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro.

--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.

--Mas elle morreu ou não morreu?

--Dizem que está melhor.

--Veremos como se porta o brazileiro.

--Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um
bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as
duas filhas.

--Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes
enfermeiras.

--Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a
descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na
minha terra?

--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela
rua do Chiado.

Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o
mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até
á sua entrada no Marrare de Polimento.

Entrou tambem.

O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando
alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.

--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido
interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um
individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no
Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que
tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os
escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.

--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram
dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que
está no Hotel de Bragança.

Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o
protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam
indicado.

Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que
de manhã fôra pizado por um brazileiro.

--E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o
guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o
atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por
todos quatro.

--É possivel falar lhe?

--É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o
guarda portão. Ainda não tornou a si.

--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.

Minutos depois entrava no quarto do ferido.

Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das
feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue
tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir
que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se
recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as
visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.

Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o
coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida
pelo terror.

Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.

Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez
em quando a mão á fronte.

Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados,
abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o
parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre
Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse
falar.

Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se
suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.

--Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair
sobre o colchão o braço direito que tentára levantar.

O desconhecido approximou-se ainda mais.

--E ainda não houve meio de se saber quem é este homem?

--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu
o creado.

--Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre
o leito.

--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á
Lapa.

--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o
criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia,
encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.

Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas
as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao
Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel.

Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a
Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.

Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do
hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando
no quarto do ferido.




X


--Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de
Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me
tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que
involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.

--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde
approximando-se de Tristão.

--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo,
como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se
passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas
que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que
tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado
direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me
mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher
e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos
senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava
pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e
o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha
e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a
esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha
procura por toda a parte.

--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará
dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a
mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.

--Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao
mesmo tempo uma dolorosa contracção.

--Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se
ao mestre de obras.

--É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle,
levando á fronte ambas as mãos.

--Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos
immediatamente chamar a sua familia.

--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde
dirigindo-se para a porta.

--Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa
descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.

--Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande
obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.

--Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza
que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.

N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas
duas filhas.

--Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse
a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com
o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.

--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os
seus grandes olhos azues.

--Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para
Olympia.

--Talvez que nem hoje tivessem que jantar.

--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por
alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve
esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo,
e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou
ella dirigindo-se ao esposo.

--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador
intromettendo-se na conversação.

--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o
banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.

--Do hospital?! perguntou admirado o commendador.

--Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?

--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um
pequeno sophá.

N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente
a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta
e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido
seguia-as de perto.

No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de
Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que
lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o
completamente.

Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a
propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera
onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em
turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.

O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a
physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse
acudido á memoria.

O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era
estranho.

Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua
familia tudo quanto tinha acontecido.

O mesmo fez Balbina e sua filha.

--É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto
folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou
elle extendendo a mão ao desconhecido.

Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas
as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.

--Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.

--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.

--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.

--Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente
fina, disse D. Maria Egypciaca.

--Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um
trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este
quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena?
ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.

--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr.
Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de
Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião
nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os
elogios de que é merecedor.

--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?

--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O
elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia
pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que
anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está
muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é
incenso.

--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam
offender? perguntou o visconde.

--Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção,
respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.

--Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em
voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão
approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou
sentindo uma fraqueza...

--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em
comer.

--Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se
vermelha como a fita que lhe cingia o collo.

No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em
voz baixa n'um dos angulos do quarto.

--O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua
filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria.
Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu
homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não
consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão
dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas
estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos
immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.

Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.

Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as
palavras de Tristão como se não as comprehendessem.

--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de
perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam
á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza,
ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que
assombrada.

--Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que
provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda
approximando-se do visconde.

--Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando
protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos
dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos
da pobre Martha.

--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente,
disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.

--Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em
comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus
hospedes, saía do quarto de Jeronymo.

       *       *       *       *       *

--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e
aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde
atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao
seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!




XI


Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario,
debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella
imagem que o perseguia.

«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um
capricho de phantasia?

«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha
vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar
como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua
intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas,
e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da
mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da
tua existencia.

«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que
sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que
sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito
que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua
imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.

«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco,
bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação
das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha
galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos
marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa
e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que
me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de
saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.

«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir?
Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo
para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu
cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis
annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe.
Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista
para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe
pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não
tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube
vencer.

«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver
minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a
pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a
terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!

«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de
uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta
que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir
minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a
proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a
terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber
lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a
minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?

«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do
hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o
negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»

N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.

--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.

Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou
no gabinete.

O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_.

A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a
bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de
mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar
tudo quanto lhe apparecesse.

Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio
o arrastava:

N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação
que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz
a preciosa planta que começava a escassear-lhes.

Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou
mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!

Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais
reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas
seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.

--Forte velhaco! diziam uns.

--E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos
havanos!

--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por
elle um mez da minha soldada.

--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a
sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.

--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva
mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.

E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre
sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.

Finalmente chegaram a Macau.

Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse
afim de o acompanhar a terra.

O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as
ordens do commandante.

Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos
e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma
bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher
completamente franjado.

O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o
cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de
atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por
ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.

Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz
foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.

O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam
com que todos o estimassem.

Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo
foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram.
Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de
Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança
que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos
seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros
jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu
companheiro de perigos.

Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que
elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo,
como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade,
entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!

Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem?
Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da
sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.

Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em
religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o
céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam
dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a
Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que
sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.

Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em
cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.

--Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de
cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que
estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a
uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal
acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado
a vir a Portugal.

-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta
occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas
palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios
que atormentavam a sua alma.

--Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de
alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia
era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita
que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?

--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei
como hei de chamar?

--Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que
o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo.
Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de
trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do
mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca
sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os
filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro,
açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha
mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de
sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe
feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma,
resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o
que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.

O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto
amado, era mais uma prova do seu amor.

Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.

--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se
saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.

[Ilustração:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da
cadeira... (_pag. 85_)]




XII


No dia immediato aos acontecimentos que presenceamos no hotel de
Bragança, a saude de Jeronymo melhorou consideravelmente. O medico que
pela manhã o fôra visitar declarou as feridas de pouca importancia,
aconselhando, a despeito de tudo, que seria muito mais prudente não
removerem d'alli o ferido, attendendo ao estado anormal em que Lisboa se
encontrava.

Tanto o mestre de obras como a sua familia não se cançavam de agradecer
á Providencia a felicidade que tinham achado no meio da sua desventura.

Não houve delicadeza que lhe não fosse dispensada por aquella santa
familia. A tal ponto foi levada a dedicação de D. Maria Egypciaca, que
por tres vezes se levantou da cama afim de se informar do doente.

Foram taes as promessas feitas por Tristão ao pobre Jeronymo, que este
quasi que dava graças a Deus de ter sido atropellado pelos cavallos do
visconde.

Phantasiando trezentos planos de vida, o operario julgou ver realizado
o seu sonho de vinte annos: um pequeno casal nas proximidades de Lisboa,
onde tivesse uma ou duas vaccas, e um garrano que de vez em quando o
trouxesse á cidade.

Via Balbina com a quarta rasa de milho dirigindo-se á estrebaria para
arraçoar a cavalgadura, Martha seguindo-a a poucos passos, em busca da
creação, e elle, no centro da horta, ao lado dos seus trabalhadores, ora
regando o milho, ora arrancando-lhe as bandeiras, e enfeixando as para
as levar á vacca malhada, a sua favorita, essa a quem devia pôr o nome
de Estrella, por ser o nome de uma vacca torina que seu pae lhe dera no
dia em que Jeronymo fazia quinze annos.

Embevecido no seu phantasioso sonho, com as palpebras semi-fechadas,
extendia de vez em quando a mão para sua filha, a qual, beijando lh'a
n'um transporte de amor filial, fazia ao mesmo tempo votos ao Todo
Poderoso para que lhe melhorasse quanto antes o seu querido pae.
Balbina, assentada no canapé, olhava ora para Jeronymo, ora para sua
filha. Esta, sorrindo meigamente, apontava para o leito de seu pae, como
se tentasse mostrar-lhe o socego em que elle repousava.

De repente o ferido abriu os olhos, e, como se despertasse de um sonho,
apertou brandamente as mãos da filha, fitando-a com toda a ternura do
amor paternal.

--Como se acha? perguntou Martha levantando-se da cadeira e
debruçando-se-lhe sobre o leito.

Balbina approximou se.

--Tenho menos dôres, balbuciou o enfermo, e espero em Deus que não
tardará muito que eu te possa extender estes braços que a muito custo
levanto. Mas não me dirão quem é esta santa familia que com tanto amor
nos tem tractado? acrescentou elle, dirigindo-se a sua esposa.

--Ignoro, respondeu Balbina.

--Foi alguem mandado por Deus para nos valer com a sua protecção,
continuou elle, como se ainda o acompanhasse aquelle sonho.

--Pois olhe, meu pae, acudiu Martha, apezar de tudo, preferia estar em
nossa casa a vêl-o aqui entre estas cortinas.

--Se d'isto resultar a tua felicidade, e a tua, ajuntou elle voltando-se
para Balbina, terei de agradecer a Deus estas dôres que me atormentam.

--Pois eu, Jeronymo, ainda que tudo quanto Deus faz é para melhor,
desejava bem vêr-te fóra d'este quarto, disse a pobre Balbina olhando ao
mesmo tempo para a porta.

Esta abriu-se e entrou Tristão de Almeida.

Depois de as cumprimentar approximou se do leito de Jeronymo.

--Como se sente? perguntou Tristão pegando brandamente na mão do
operario.

--Melhor; muito melhor.

--Quanto folgo! disse Tristão, puchando uma cadeira e abeirando-se do
leito. É forçoso que se restabeleça quanto antes para tomar conta da sua
obra: um hospital para as pessoas pobres atacadas da febre.

--Pelo que vejo, disse Martha, vossa excellencia não se occupa senão da
sorte dos desgraçados.

--É essa a minha unica ambição, respondeu o magnata fitando o rosto
ingenuo da filha do operario. Ámanhã por estas horas já devemos saber o
logar designado para o hospital, e, como desde hontem o considero meu
empregado, accrescentou dirigindo-se a Jeronymo, não pense que vossemecê
e sua familia se estão aqui tornando pezados. Se alguma cousa tem que
fazer em sua casa, sr.ª Balbina, disse Tristão voltando se para a mulher
do operario, eu lhe mando chamar um trem para que a demora não seja
muita.

--Não tenho outro remedio senão ir a casa, respondeu Balbina, mesmo por
causa da tia Marianna, ajuntou ella voltando-se para Martha.

--Visto isso, vou dar ordem a um criado para que lhe chame um trem, e
sem attender a Balbina, que pretendia dissuadil-o da sua determinação, o
protector da familia de Jeronymo desceu ao primeiro andar.

--Ainda não vi melhor coração, murmurou Jeronymo voltando-se para sua
filha.

--Tudo é muito verdade, meu pae, mas torno a dizer-lhe, preferia que
nada d'isto tivesse succedido.

Meia hora depois, com grandes esforços de Tristão de Almeida, Balbina
dirigia-se n'um trem de bandeirinha para sua casa.




XIII


Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do
visconde de Coruche.

--Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando
as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_.

--Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem.

--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena
excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho.

Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de
dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde.

--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito
tinhas razão.

--D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o
criado.

--Queres tu comparar a tua á minha pelle?

--Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a
sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se
vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr.
visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que
tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom
no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam
levantados.

--Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa.

--Que camisa quer?

--Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.

--Ou é _serviço_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa,
abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma
finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle
approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um
individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.

--Dize-lhe que volte no fim do mez.

--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é
o ultimo de outubro.

--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o
mez que vem.

--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou
elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um
cofre de tartaruga.

--Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.

--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da
camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo
com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em
casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.

--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova
de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao
bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos
mezes.

--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é
o ultimo de outubro.

--Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro,
respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio
inferior, e deixando o côr de chocolate.

--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por
causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de
novembro.

--E elle insiste em não querer a reforma?

--Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas
baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no
primeiro de novembro.

--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma
essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia.
Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que
me mande uma duzia de camisolas.

--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado,
abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de
seda.

--Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte
antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o
visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo
bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.

--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?

--O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim,
continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que
me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias
que não sáe.

Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu
a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão
lhe dera.

--Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para
comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O
credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que
seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a
negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e
tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.

«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo,
ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina,
seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me
assusta.

«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas;
não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes
essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não
tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta
falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não
dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem
me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os
encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos
dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios!
Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam
as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.

«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com
as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a
contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios,
desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.

«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse
objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das
minhas paixões.

«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada,
porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia?

«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida,
sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã,
completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma
vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de
Lisboa? e para onde?

«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o
sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu
bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não
estivesse em harmonia com o que hoje tenho?

«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos
de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o
commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu
me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho.

«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem
remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde
abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a
pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de
Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis,
separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E
quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira!

«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas
ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse
estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já
dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se
fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo...

«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não
forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita
um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro».

Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de
Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar
aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu _groom_
annunciando lhe o commendador.

--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as
esporas.

--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a
sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala.

--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como
mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para
aqui mesmo.

O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.

--Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador,
dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em
voga.

--Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.

--Podemos conversar á vontade?

--Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença
do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações.

Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella
entrevista, o visconde não havia mandado retirar o _groom_.

Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.

Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando
retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao
commendador.

--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida?

--A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso
de todas as grandezas do mundo.

--Fala serio?

--Quanto se póde falar.

--Julga portanto?...

--O quê?

--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e
simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?

--Assim o creio.

--Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um
_arrière pensée_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde
os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.

Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do
commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico
partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das
suas suspeitas.

--Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu
dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto
se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se
deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o
contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda.
Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão
desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de
hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o
interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e
calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos
pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma
credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se
Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um
titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente
tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido
muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem
ser um d'esses individuos.

--Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte:
Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em
resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem
n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que
propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze
contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde.
Que lhe parece?

--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa
alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em
segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a
propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a
outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor
que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de
mudar de assumpto.

Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou
immediatamente de conversação.

Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de
Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz
Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.

Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche
n'um irreprehensivel _pied fé_ fazia em branda flexão voltar o pescoço á
_Andorinha_, a egua lazã que mandara apparelhar.

Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde,
que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança.




XIV


Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa,
encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.

A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era
uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.

Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da
galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos
conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.

Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e
companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais
concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.

Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no
serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer
circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e
elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses
homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir
as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em
phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.

Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela
colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.

A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia
na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.

Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado
á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á
janella a criança que volve ao lar.

Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando
anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.

E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem
esperal-o inquieta.

Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada
de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.

Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e
ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples
navegante.

Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em
companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia
começado no hotel Europe.

--Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro.
Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos
escuta.

--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto
quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma
hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo
de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella
reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu
dormir, parece que é acordar n'um tumulo.

--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns
instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que
ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas
falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida
em ir procurar essa familia da minha parte?

--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que
o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o
sitio onde tenho de me dirigir.

--Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao
guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por
Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da
saude de Jeronymo.

--É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou
Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.

--É só isto.

--E o sr. fica á minha espera, aonde?

--A bordo.

--Volto portanto aqui?

--Já se vê.

--Quer que vá já?

--Quero.

--Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o
marinheiro.

--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.

--Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei
sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias
poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de
temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim
entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na
melancolica physionomia do seu commandante.

--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com
aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás
mysteriosas influencias do amor!

--Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo
está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa
serena.

--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de
nenhuma tormenta.

--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante,
disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do
seu capitão.

--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.

Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao
convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.

--Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas
longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares
entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.




XV


Desembarcando no Terreiro do Paço, Mascatudo tomou o rumo do hotel.
Desde que saira de bordo, o dedicado amigo em mais alguma coisa havia
pensado senão em Martha.

O seu caracter concentrado e ao mesmo tempo sensivel, levava o a
acreditar na impossibilidade de ventura na terra, e, muito menos sobre
as aguas do mar, sem se possuir um coração fiel e dedicado, qual a sua
imaginação o phantasiava.

A mulher, essa divina creação que Deus lançou ao mundo para inseparavel
companheira do homem, que deante de nossos sorrisos levanta o rosto
brilhante de felicidade, e que desmaia a fronte pallida e inquieta, ao
enxugar-nos as lagrimas de desventura, concebia-a Mascatudo no seu
coração selvatico com toda a força de um vigoroso sentimento.

É que a esse espirito, agitado pelas luctas infrenes dos elementos,
descêra um dia o anjo do amor, e pousando-lhe as brancas azas na fronte
crestada pelos soes, imprimira-lhe o osculo indelevel do soffrimento.

Amára uma vez na vida! Amára com toda a força da sua alma, alma joven e
inexperiente, para quem o mundo era um jardim florido, e cada pomo um
goso, e cada goso uma esperança, e cada esperança uma existencia de
immorredouras felicidades!

É que a sós entre o mar e o céu, o grito raivoso das paixões humanas,
ferindo-lhe os ouvidos, jámais lhe havia interrompido os extasis, quando
assentado ao leme da embarcação contemplava os astros que se reflectiam
nas aguas prateadas do oceano, vagas como o seu pensamento,
indecifraveis como as suas aspirações!

Conhecia apenas a ira do mar, mas a colera do homem envenenado pela
inveja ou pela traição, jámais a havia sonhado o seu instincto.

Por isso vira na mulher o anjo, na sua convivencia a felicidade unica e
possivel.

Amou!

E quão grande teria sido o affecto n'aquella grande alma?!

Possuia algum dinheiro das suas economias, julgou-se em circumstancias
de casar.

Dois mezes depois, Mascatudo realizava no casamento todas as suas
aspirações. Curta, porém, foi a sua ventura. A brisa da morte,
agitando-se mysteriosamente sobre o tecto do seu ninho, devastou-lhe ao
cabo de um anno flôres e fructo!

O triste voltou á vida do mar; e quando por noites caladas o seu barco
sulcava as aguas do oceano, via-se ás vezes o tio Luiz encostado á
amurada da embarcação, contemplando o firmamento, como que perguntando a
cada nuvem em que paragem se occultava aquella metade da sua alma.

Desde então, Mascatudo viveu apenas para duas sepulturas: a da esposa e
a da mãe!

--Hei de saber tudo, dizia elle, ao chegar á porta do hotel. Se fôr como
a pintam, serei o primeiro a aconselhal-o a que não perca esta occasião.

Cumprindo á risca as instrucções que recebera, Mascatudo foi conduzido
pelo guarda portão ao quarto de Jeronymo.

Balbina já estava de volta de sua casa, aonde tinha ido mais com o
intuito de tranquillisar a pobre Marianna do que para tractar dos
arranjos domesticos.

--Venho aqui da parte do meu commandante, para saber como está o sr.
Jeronymo, disse Mascatudo, olhando desassombradamente para o operario e
para a mulher e filha.

O enfermo, que nada comprehendêra, ficou como abysmado olhando para
Balbina.

--Creio que me não expliquei bem, ajuntou o marinheiro; venho da parte
do individuo que avisou a sua familia do sitio onde vossemecê estava.

--Ah! já sei; vem da parte d'esse sujeito a quem somos tão obrigados,
exclamou Martha, fazendo-se vermelha como o estofo do sophá onde estava
assentada.

--Até que perceberam, continuou Mascatudo, approximando-se do leito de
Jeronymo. Foi esse mesmo o que me mandou saber da sua saude.

--Quanto lhe estamos agradecidos, interrompeu Balbina, dirigindo-se ao
marinheiro. Se não tivesse sido aquelle excellente senhor, talvez que
ainda a estas horas estivessemos sem saber onde elle parava. Diga-lhe
que graças a Deus, o Jeronymo está muito melhor, e que tanto elle como
eu e minha filha desejamos saber onde o podemos encontrar para lhe
darmos os nossos agradecimentos.

--O sr. Manuel, respondeu o marinheiro, póde encontrar-se a bordo da
sua galera, e quando alli não estiver, accrescentou, fixando
ardentemente os olhos em Martha, que parecia escutal-o com interesse,
está no hotel d'Europe, na rua Nova do Carmo. Mas lá por isso não seja a
duvida; deixem estar, uma vez que elle se interessa tanto pelos seus, eu
farei com que ámanhã ou depois, se por acaso ainda estiverem n'esta
estalagem, elle os venha ver a vossemecês.

--Quanto estimaria conhecel-o, interrompeu Jeronymo voltando-se para o
maritimo.

Martha empallideceu ligeiramente.

--N'esse caso eu farei a diligencia de o trazer aqui, respondeu
Mascatudo, satisfeito por comprehender o que se passava no coração de
Martha.

Despedindo se de todos, o marinheiro saiu do hotel.

--É um anjo, ou eu sou um grande asno, dizia elle comsigo mesmo,
emquanto se dirigia para bordo.




XVI


Deixemos Mascatudo participar a Manuel de Mendonça os resultados da sua
entrevista, e encaminhemo-nos a um pequeno gabinete do hotel onde
Tristão costuma receber as visitas de mais confiança.

O visconde, como o leitor não ignora, tinha resolvido tirar o maior
partido que podesse do seu novo amigo; com este fim se havia dirigido
para o hotel.

Tristão acabava de chegar de casa de um banqueiro, a quem fôra consultar
ácerca de uma transferencia de fundos para o Banco de Portugal na
importancia de 650:000$000, para lhe não succeder o mesmo que lhe
acontecêra com quantia superior a essa, que tinha no banco de Havana,
d'onde havia dois annos não recebia juro algum.

Vê-se portanto quaes eram as riquezas d'aquelle homem!

Ao ouvir estas palavras, ainda mais seguro ficou o visconde no bom
exito da sua tentativa, e, ampliando apenas a cifra resolveu-se a
preparar quanto antes o terreno que tinha a explorar.

--Com que então, meu amigo, disse-lhe o visconde, já sei que os seus
protegidos dormem em leito de rosas o doce somno da esperança,
acalentados pelas azas brancas do anjo dos tristes.

Por esta exuberancia de imagens, poderá o leitor formar a sua idéa
psychologica ácerca do caracter do visconde de Coruche.

--Assim o creio, respondeu Tristão, offerecendo-lhe um magnifico charuto
havano.

--E quando principiam os nossos trabalhos do hospital?

--Pela minha parte hoje mesmo, se vossa excellencia quizer; porém, vejo
que tem tantos negocios a tractar...

--Por Deus, meu caro amigo! Para uma coisa d'essas deixaria tudo de
parte. Hoje mesmo, se lhe apraz, iremos escolher o local.

--Isso é que era ouro sobre azul! Não calcula a anciedade de minha
esposa em vêr realizados os seus desejos. Quando se propôe qualquer
coisa, não ha quem a dissuada, nem eu o intentaria n'este caso.

--O mesmo sou eu. Veremos quem se lança denodadamente na arena da
caridade. E como vossa excellencia vae lucrar n'esta obra! Como se
conceituará na opinião publica? De que serve a riqueza, se não fôr
applicada ao bem? Quantas ha em Lisboa que para nada servem, a não ser
para satisfazer os olhares cubiçosos dos avarentos que as possuem!
passam miseravelmente emquanto vivos, e, quando morrem teem por unico
elogio dos seus herdeiros, o dizerem que sempre foi um homem muito amigo
de olhar pela sua casa. É que esses entes, na minha opinião, esquecidos
de Deus, atravessam a vida sem conhecerem a verdadeira felicidade que
sente aquelle que, extendendo a mão á pobreza, leva o consolo ao ninho
do desamparado. Muitos d'esses miseraveis, renegando o povo d'onde
sairam, querem chegar-se á aristocracia, transpôr os humbraes do chefe
do Estado, e nem ao menos se lembram de seguir o exemplo, abrindo como
elle a sua bolsa aos desvalidos, e os seus pulmões á atmosphera
corrompida pelos miasmas da epidemia. E ainda a semana passada o joven
monarcha desceu ao leito de um moribundo e passou-lhe a regia mão pelo
peito, como para sondar se o coração ainda batia. Já que pessoa alguma o
segue no seu heroismo; já que a maior parte d'esses satrapas o
abandonam, seja vossa excellencia o heroe que venha a empallidecer-lhes
o rosto de vergonha, tomando o exemplo d'aquelle santo rei.

Havia tanta verdade nas palavras do visconde; era tão singela a sua
dicção, tão arrobadas de sentimento as phrases que acabava de proferir,
que Tristão, apezar do seu profundo conhecimento do coração humano,
hesitou por alguns instantes, sem poder avaliar se essas palavras seriam
calculadas, ou se eram apenas dictadas por um coração votado á caridade.

Tristão era homem de arrojado animo. Por mais de uma vez sorrira para a
morte que se lhe approximava sem que os lábios houvessem mudado de côr
ou o seu coração pulsado com maior violencia.

Affeito a uma existencia aventurosa, ainda o fascinavam os perigos. A
despeito de se considerar bastante avançado em annos, fiava se na sua
robustissima compleição, e, sopesando as forças, distinguiu rapidamente
o que ainda podia fazer, graças ao seu arrojo, intelligencia e capitaes.

Então desenhou-se lhe um mundo inteiramente novo! Julgou-se cercado
pela aureola do prestigio, e ouviu pronunciar o seu nome com todas as
pompas de uma gloria merecida. Viu-se a edificar um hospital, e mais
tarde, elle mesmo, sua mulher e suas proprias filhas, descendo como
anjos á cabeceira dos enfermos. Viu os olhos do monarcha iriados de
angelica expressão, volvendo-se agradecidos para elle e para sua
familia. Fascinou-o a gloria de um renome, e, elevando se nas azas da
caridade, creu subir ao ultimo céu das ledices sociaes!

--Tem razão e muita razão, sr. visconde. Vamos hoje mesmo dar um grande
impulso á nossa idéa. Jeronymo, a quem tenciono entregar a direcção das
obras, segundo me consta, tem tanto de intelligente quanto de honrado. O
pobre homem por estes dois ou tres dias não poderá sair de casa; vamos
nós sem mais delongas escolher o sitio. Em que bairro lhe parece?

--No de Santos. Por exemplo lá para as bandas da Pampulha.

--Visto isso, vou mandar pôr o trem, e entretanto subo ao quarto de
Jeronymo para lhe communicar as nossas intenções. E sem mais demora saiu
do gabinete.

--Esplendido, exclamou o visconde, contemplando ao mesmo tempo um
album de retratos que estava sobre uma banca de jogo. O negocio corre ás
mil maravilhas. Em todo o caso, é necessario espaçal-o por mais alguns
dias, e em vez de dez ou doze contos, serão vinte ou trinta,
hypothecando-lhe... hypothecando-lhe o quê? umas propriedades que eu
desejava possuir no Algarve. O homem está sequioso de gloria. Cega-o a
vaidade. É um zote que eu domino com a força da minha eloquencia.
Bastam-me duas palavras para o conduzir aonde me aprouver.

N'este comenos entrou o magnate, dizendo lhe que já estava o trem á
porta.

Desceram e entraram na carruagem. Tomando pela rua do Arsenal,
dirigiram-se ao Corpo Santo. Proximo á egreja grande multidão
contemplava um pobre velho, que, estorcendo-se em terriveis convulsões,
denunciava ter sido atacado pela febre. Mandaram parar o trem, e
Tristão, apeando-se primeiro, dirigiu-se para o grupo.

O visconde seguia o sem dar uma palavra.

--É um infeliz que foi atacado pela febre, disse um gallego a quem
Tristão se havia dirigido.

--E tambem pela fome, interrompeu uma vendedeira de hortaliça.

--E ainda não appareceu ninguem que lhe fosse buscar soccorros?
perguntou o visconde.

--Saberá vossa excellencia que ainda não _senhora_, respondeu a
vendedeira.

--Pois se vossemecê se interessa por esse homem, peço-lhe que se
encarregue de lhe chamar os soccorros, accudiu Tristão, approximando-se
mais da mulher e entregando-lhe quatro libras. Se elle tem familia,
diga-lhe que me procurem logo no hotel Bragança, e vá vossemecê com
ella, para lhe dar tambem alguma coisa.

O oiro assombrou a vendedeira, que esteve por alguns segundos sem poder
soltar palavra.

--É uma caridade, meu senhor, porque está cheiosinho de familia, disse
finalmente a mulher com voz tremula e commovida. Mas agora outra coisa,
meu senhor, ajuntou ella, por quem devo procurar.

--Pelo excellentissimo sr. Tristão de Almeida disse vivamente o
visconde.

Mettendo-se outra vez na carruagem, abandonaram aquelle grupo, pasmado
por tanta generosidade, e partiram pela rua da Boa Vista.

--A sorte favorece-o, proporcionando-lhe todos os ensejos para pôr em
pratica a sua grande obra, dizia-lhe o visconde, fitando-o com um olhar
de lynce.

--Assim o creio, respondia-lhe Tristão, olhando para todas as ruas por
onde passava, com a curiosidade que todos experimentam, ao contemplarem
pela primeira vez os logares que lhe são desconhecidos.

--Agora me recordo, disse o visconde, parece-me que está uma casa para
alugar na rua de S. Francisco de Paula. Se lhe parece vamos vel-a.

--Deus permitta que esteja nas condições que precisamos.

Finalmente chegaram á rua designada pelo visconde.

A casa, segundo elle havia pensado, era magnifica para aquelle fim. O
dono morava longe, porém a boa vontade tanto de um como de outro
principiava a não admittir difficuldades, e seguiram immediatamente para
casa do senhorio.

No dia seguinte ás oito horas da manhã, na rua de S. Francisco de Paula,
começavam todos os preparativos inherentes á fundação do hospital.

O anjo da caridade, invocado por Tristão de Almeida, elevava as suas
azas brancas sobre os telhados d'aquelle edificio!




XVII


--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente...
e comtudo não me sinto com valor.

--Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles
olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde
ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu
olhar um não sei quê, que me prendeu!

--Será isso uma illusão da tua parte?

--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria
com que o senhor lá fosse...

--Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa
visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a
conversação de Mascatudo.

--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em
seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu
olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que
alguma coisa se passava no seu coração.

--Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina:
iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança,
no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a
Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves
conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.

Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em
companhia de Mascatudo.

Dirigiu se ao hotel.

Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um
mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso
pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia
á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a
realização dos seus desejos!

Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e
melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor;
foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.

Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.

A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de
profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os
contemplava!

Martha ficou immovel!

--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina,
extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.

Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas
aquella mão que se lhe offerecia.

--E como se sente?

--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao
mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma
cadeira.

Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado
do enfermo.

Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando
em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.

Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir
os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua
familia.

--E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse
instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa
protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.

--Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas
que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza.
Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela
febre, hospital de que meu marido é o encarregado.

--E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais
possivel por mim, ajuntou Jeronymo.

--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel
dirigindo-se a Martha.

--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora
para Manuel, ora para a mulher e para a filha.

--Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer!
disse Balbina visivelmente reconhecida.

--É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel
olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.

Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do
maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no
corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.

Eram Tristão e o visconde.

--Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã
por estas horas--graças á actividade do sr. visconde--já devem começar
os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em
Manuel de Mendonça e Mascatudo.

Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as
suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.

--Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde
dirigindo-se a Martha.

--Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça,
accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde
descobriu aonde estava meu pae.

--Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o
conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o
encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria
tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de
Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.

Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se
haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente
o fixaram n'aquelle momento.

O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se
haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse
instante os não illucidava!

O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia
notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a
mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.

A Mascatudo não lhe passou desapercebido.

--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não
comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe
lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil
diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo
ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.

Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois
de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua
familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de
Mendonça.

--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça,
referindo-se a Tristão de Almeida.

--Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto
aquelle individuo, aonde não me recordo.

--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não
engano, tambem o senhor não lhe era estranho.

--O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em
Tristão mais do que o protector de seu marido.

--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de
Jeronymo.

--Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que
principiava a sentir no coração.

--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e
promettendo-lhe voltar no dia seguinte.

       *       *       *       *       *

--Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o
pateo do hotel.

--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as
paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia
ficado a familia do operario.




XVIII


São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e
fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia
convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado,
palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.

Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que
dias antes tinha sido substituida no _prégo_ por outros objectos cuja
ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os
riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e
merito artistico.

Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma
enorme concha.

Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para
sempre chorado tio!

«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz
Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e
intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem
mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao
rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.

«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando
para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina?
Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos
agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir
que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a
braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns
seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que
custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu
infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.

«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me
pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.

«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista
te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que
tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me
enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse
zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia
convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.

Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira,
e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia
em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia.

Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as
levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas
pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho.

Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de
Miranda.

--Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde
conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem
hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse
menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital.
Sabem que já temos a casa arrendada?

--Sabemos, responderam ambos.

--Um magnifico palacio á Pampulha.

--O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador
reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou
Vaz Mendes.

--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que
fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.

--Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz
Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.

--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de
Miranda.

--E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o
visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação.

--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil
contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza?

--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar
um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.

--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator
Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.

Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella
para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava.

Não se enganára.

Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.

Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de
Almeida o encontro dos seus dois amigos.

Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um
variado e bem servido almoço os esperava.

Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador
entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.

Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um
objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata,
de que já falamos ao leitor.

Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não
se conteve.

--É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o
visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças.

--Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista
notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde.

--Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz
Mendes.

«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.

«Está doido! pensou o commendador.

«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.

«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas
physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.»

Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado
com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete
horas da noite.

«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por
qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já
para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze
contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse
subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse
objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi
necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas
quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do
que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo
menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o
presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao
centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o
_groom_ e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de
Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coupé_.

Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de
Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de
Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça.




XIX


O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do
visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de
tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem
reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam
aquella instituição a melhor do seu genero.

Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações.
Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas
que dispendia.

Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de
réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados
ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por
unico legado a fome e a saudade.

Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a
maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os
enfermos.

D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma
equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das
mulheres.

Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.

Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o
estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de
sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão
de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.

As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com
aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar
o seu vôo sobre a cidade agonizante!

Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo
partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.

Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se
uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora
parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a
imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na
morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!

Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça,
Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que
a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do
hotel.

Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a
meia voz, sem que Balbina o notasse.

Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era
totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem
era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um
commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um
operario!

N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um
tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para
comprehender, nem o seu coração para os supportar.

Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.

Tel-a-ia esquecido?

Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras
que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha
inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo,
tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este
mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro
d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua
existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena
contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na
varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia
tudo isso ter sido um calculo.

«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr
que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração
estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo
assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo
recurso á minha desgraça.»

Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do
hospital.

Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.

Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo
Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.

Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na
fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua
saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.

Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a
afflicção, alli se encontrava Martha!

Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do
hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se
retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha
de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando
depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde
a encontrámos no principio d'este capitulo.

Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras
lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.




XX


São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, encostada a um
bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido.

Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, contempla de vez em
quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem
depressa lhe marquem a hora da ceia!

Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite,
que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e
melancholico.

--Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se
para sua filha. A noite, como vês, começa a arrefecer, e os tempos não
estão para brincadeiras.

--Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui tão bem.

--Faze o que quizeres.

--Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu retiro-me, disse
Magdalena saindo da janella.

--Sabes que já me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. São
estas horas e elle sem apparecer.

--E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. São perto de nove e
meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e não se lembra que o
esperamos para ceiar.

--Decididamente não pensas n'outra coisa senão em comer, murmurou
Magdalena sorrindo-se para a irmã. Não sabes que a dieta é o melhor
preservativo.

--Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte,
irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia.

Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer.

--Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria
Egypciaca.

--Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me
dão alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietação!

Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristão acompanhado
pelo visconde.

--Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. Maria Egypciaca
voltando-se para o marido. Não sabes os cuidados em que temos estado,
tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo
e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.

--Desde que sairam do hospital, não podem suppôr o trabalho que tivemos
se não fôra Martha...

--Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o
visconde.

--Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.

Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?

As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento.
Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra
visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas
maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que
se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu
ignoral-o.

Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe.
Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do
operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao
que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de
resolver.

Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico
telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado
á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe
apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando
o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma
embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos.
Manuel saía do escaler e subia para bordo.

Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella
pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça
estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.

--É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia
deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.

--Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão,
passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a
sair da sala.

Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristão havia
comprado, sobresaíam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia
presenteado o seu amigo.

[Ilustração:--Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (_pag. 165_)]

--Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se para o visconde e
apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro.

--O que lhe peço, replicou o visconde, é que me não esteja todos os dias
envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o
de agradar a vossa excellencia.

--Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, offerecendo um logar ao
visconde entre sua esposa e Magdalena.

--Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o
titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde
voltando-se para D. Maria Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me
disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus serviços,
tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me
respondeu? que não queria acceitar coisa alguma; que para recompensa,
bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á humanidade. Isto á
luz da philosophia é uma grande verdade, mas para o mundo acho uma
loucura!

--Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que se chame Tristão de
Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, é
razoavel o seu desejo em o querer conservar até ao ultimo momento da
vida.

--São vossas excellencias da opinião de sua mãe? perguntou o visconde
dirigindo-se ás filhas de Tristão.

--Pela minha parte é-me totalmente indifferente, respondeu Magdalena.

--E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para
Olympia.

--Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo
croquette.

--Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de
conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez.

Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristão brilharam com
uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle
nunca poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde!

O visconde comprehendeu-o immediatamente.

«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; ha de ser hoje mesmo!
Está proximo o dia vinte. Se até esse praso não levanto dinheiro, a
ruina é certa! Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.»

A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa,
pensava de ante-mão na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar.
Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais
harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais
euphonico lhe parecia.

Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora
para as filhas, como que desejando que a conversação continuasse sobre o
mesmo assumpto.

Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que
se lhe preparava!

Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e á ceia, era
Magdalena.

A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! A sua ventura estava
n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares
entristecidos pelo labutar de uma eterna recordação.

       *       *       *       *       *

Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristão,
teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditação,
folheando um livro que mandára comprar, cujo titulo era _Resenha das
Familias de Portugal_.

Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e resonando profundamente.

Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas que se
reflectiam sobre as aguas do Tejo.

E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e
Tristão de Almeida até ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo
dizer em voz baixa ao visconde:

--Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os trinta contos de réis
a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peço
lhe encarecidamente que se lembre de mim.

--Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde.

--Qual?

--Acceitar o titulo de conde.

--Acceito.




XXI


No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que
o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de
Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia,
assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e
ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.

Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle
estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da
sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um
agiota a quem tencionavam vender as dividas.

--Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o
visconde havia arrancado á miseria.

--Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe
havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle
perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, _xó rôlla_.

--Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha
o _baguinho_, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado,
como roubado!

--O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto.
Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor
patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe
apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da
secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o
dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa.

--Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que
está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.

--Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu
os bonecos de prata...

--O quê?

--Lhe tenha emprestado algum dinheiro.

--Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? Lá que
elle tenha querido encostar o homem, não me admira, mas que o brazileiro
caisse ao tiro... essa é que não pega.

--Que elle está muito contente, é que não ha duvida.

--Já tem o _bago_ na mão, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas
ninguem o aturava.

--Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me
dá que a agua corra para baixo como para cima!

--O que parece impossivel é que vossês estejam aqui n'este conluio,
murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um
velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a
quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, e ainda não abri bico
contra elle.

--E o que tem vossemecê com o que nós estavamos falando? disse o
cocheiro approximando-se do ancião.

--Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente
a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a
certeza que vae tudo para o meio da rua.

--E quem lh'o _havera_ de dizer? acudiu um moço de cavallariça.

--Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, _tim tim, por tim tim_?

--Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão.

--Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho
perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a
mão esquerda.

--Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer
fazer _banzê_, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize
tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle
olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança
e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar
as palhinhas por elle.

--Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o
partido do moço da cavallariça.

--Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo
não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se
me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de
vacca que fica sem saber da cara por tres dias.

N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que
mandava chamar o mordomo.

--Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no
escriptorio.

--Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que
apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes
que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta
dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta.
Comprehendes?

--Perfeitamente.

--Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! Não te parece?

--Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. Não ha maior cafila do
que são os criados d'este tempo.

--Porque dizes tu isso?

--Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. Não imagina o prazer
que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente.

--Bem, podes retirar-te.

D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz
Mendes onde Tristão de Almeida havia mandado ordem pela manhã para que
entregasse trinta contos de réis ao visconde de Coruche.

       *       *       *       *       *

       *       *       *       *       *

--E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o
banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobiça. É para algum
outro hospital aonde os meus serviços estão dispensados?

--É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo
n'algibeira--sem os contar--os maços de notas que recebêra da mão de Vaz
Mendes.

--Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, ponderou-lhe o
usurario.

--Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em casa um criado que
não faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche.

Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o banqueiro e
retirou-se para casa.

--Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um sophá.
Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um
magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os
aposentos de um perfume doce e innebriante!




XXII


«Fortes nescios, que idéa formam de mim! O visconde imagina que sou
algum minhoto, que foi d'aqui para o Rio de Janeiro varrer o escriptorio
do patrão, e que por uma fórma ou outra, adquiri a riqueza que hoje
possuo.

«Se elle soubesse que fôra o commendador Felix Justino de Araujo quem
lhe havia emprestado os trinta contos de réis.

«Como a sorte me favoreceu em tudo! continuava elle, passeando ao mesmo
tempo pelo seu gabinete. Emprestei-lhe trinta contos, e é possivel que
nunca mais os torne a ver, mas, quanto vale aquelle magnifico centro de
Benevenuto? Quarenta contos talvez. E dizem que um filho da Grã-Bretanha
veiu expressamente a Lisboa para lh'o comprar, e se retirou deixando-o
aqui. O archeologo tinha bebido muito n'esse dia!

«Não lhe descobriria elle a assignatura? O visconde deve estar
satisfeito de me ter logrado! Como elle dirá de si para si: presenteei-o
com um objecto que vale mil libras, acenei-lhe com um titulo de conde e
o tezo caiu no laço!

«Eu poderia prescindir perfeitamente d'esse titulo. Para que quero eu um
titulo? só se fôr, para satisfazer os caprichos da Maria. O que já me
vae aborrecendo alguma coisa é o tal hospicio. Ainda que nunca houve
molestia que sympathizasse com a minha pessoa, póde apparecer alguma, e
ter o mau senso de me levar d'esta para melhor. Parece-me que vou dar
parte de doente.

«Agora me recordo, ajuntou elle. Quem demonio seria aquella mulher que
veiu hoje procurar o Jeronymo! Pareceu-me reconhecer as feições. Se não
tivesse a certeza que D. Marianna de Mendonça tinha morrido doida no
hospital de S. José, havia de dizer que era essa velha. Que similhança,
meu Deus! E se fosse ella? Se ainda vivesse? Ora adeus! Se eu fôr a
devolver tudo quanto d'aqui levei... Nada... os tempos não estão para
graças. Se Domingos de Andrade não houvesse tido juizo em Pernambuco,
que teria sido do commendador Felix Justino de Araujo, que passou a ser
Tristão de Almeida emquanto se não chamar o conde de... O conde de quê?
do que elles quizerem ou do que minha mulher escolher.

«Agora por isso, não tenho mais remedio senão comprar alguma propriedade
de grande valor. Vou tractar d'isso para a semana que vem. Encarrego o
visconde de me arranjar um palacio em Lisboa e uma quinta nos suburbios.
Está decidido, sympathizei com aquelle estroina. Parece-me que o estou a
ver na casa branca da rua do Arco de Bandeira! Era um verdadeiro
demonio, aquelle visconde! Ainda não vi homem mais intrepido ao jogo!
Agora por jogo, não tardará muito que principiem a fazer todas as
diligencias para me _apanharem_. Vêem bem!

N'este momento abriu se a porta, e entrou um criado annunciando o
visconde de Coruche.

--Que entre, que entre o meu caro visconde, disse Tristão.

O fidalgo não se fez demorar.

--Quanto folgo em tel-o encontrado, disse o visconde extendendo a mão
para o seu amigo. Estive hontem no gremio, e durante a noite não se
falou senão em vossa excellencia. O conselheiro Poderosa, que appareceu
lá á saida do theatro, disse-me confidencialmente que seria o
encarregado por sua magestade de lhe perguntar que nome escolhia para o
titulo de conde, que brevemente lhe ia ser offerecido. Estive hontem
mesmo para lh'o vir participar.

--Dá-me sempre um grande prazer a sua companhia mas para um caso
d'esses, seria desnecessario.

--Vejo pela sua indifferença que ainda insiste, apezar da promessa, em
não acceitar o titulo! Deixe-se d'isso, meu amigo, um titulo é sempre
util; e muito util.

--Façam os meus amigos tudo quanto lhes aprouver; sujeitar-me-hei ao que
fôr do seu agrado.

--Não vê o meu amigo, que esse titulo que lhe vae ser concedido, não é
favor mas sim uma retribuição honorifica pelo muito do que este paiz lhe
é devedor? Diga-me uma coisa, teria vossa excellencia valor de recusar
um habito que o general lhe collocasse ao peito, se vossa excellencia se
tivesse distinguido n'uma batalha? Creio que não. O mesmo se dá n'este
caso. Não está vossa excellencia arriscando a sua vida e a de toda a sua
familia? Parece-lhe immerecida essa recompensa? Pode alguem lançar-lhe
em rosto a injustiça da mercê? Quem teria o descaro de lhe contestar
esse direito? Ninguem, absolutamente ninguem!

--Isso lá é verdade. Que eu tenho arriscado a minha vida e de toda a
minha familia, não merece duvida alguma.

--Então, meu amigo, attendendo a todas essas circumstancias, não falemos
mais n'isso, e deixe correr o negocio.

--Vá feito, vá feito! gargalhou Tristão de Almeida.

--Tem hoje muito que fazer, sr. Tristão?

--O que sabe: ir ao hospital.

--E depois?

--Depois mais nada.

--Dá-me a honra de ir jantar a minha casa?

--Com muito gosto a receberei.

--Vão lá uns amigos a quem desejo apresental-o.

--Fique certo.

--Então ás cinco?

--Conte commigo.

--Peço-lhe encarecidamente que não falte, accrescentou o visconde n'um
cerrado _shake-hands_, e saindo do gabinete.

«Trata-se de me _apanharem_ ao jogo, pensou Tristão. Veremos quem fica
logrado, accrescentou elle extendendo-se sobre um sophá.»




XXIII


Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem
um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.

São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e
sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda
continúa a chuva.

Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna
parece acompanhal a nas suas tristes meditações.

--Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida
se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a
entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e
jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar
de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa.

--Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.

--A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um
copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio
desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle,
voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á
esposa do operario.

--E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se
para seu marido.

--Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem
havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras
quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a
nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma
pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas
o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de
alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é
que ninguem me póde negar.

--Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta
agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste,
respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.

--Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna
voltando se para o operario.

--Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?

--Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me
disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força
um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a
nossa filha.

--Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é
sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que
o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as
dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além
d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é
capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo.

--Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de
morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!

--Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo
isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.

--A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo
do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e
companheira.

--Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia
Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se
Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o
possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe.
Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje
o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa,
não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo
assim, não vejo desegualdade de pessoas.

--E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso...

--Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a
certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer.

--Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos
meios para a ter visto.

N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de
Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga.

--Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha,
quando Martha se apeava do trem.

--Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde
aquillo vae parar.

--Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir
informações a seu respeito.

--Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi?

--Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.

--Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem.
Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas....

--Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha,
mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não
podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos
tristes.

Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa.

Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das
palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais
scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se
tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente
inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.

A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

--Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o
ternamente na fronte.

--Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e
ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos;
onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas
companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a
minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito
dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e
todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que
sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê
franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus
segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre
mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te
consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem,
filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar
para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.

Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna
tinham se afastado para occultarem as lagrimas.

Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.

--Que me respondes, Martha? continuava o operario.

--Que lhe posso eu responder meu pae.

--Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a
cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.

«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua
filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em
seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem
lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle
estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a
filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como
uma louca.

«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!

«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse
prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o
desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.

«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario
principiou a amal-o em silencio!

--Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando
desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.

«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa
criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a
pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como
tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr
assim.»

--Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a
com os olhos cheios de lagrimas.

Martha não proferiu uma palavra.

--Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti.

--Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector!
Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo
desanimada nos braços de seu pae.




XXIV


--Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de ser tão nescio que se
não lembre de arranjar um montesinho antes da ceia.

--Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, não é, decerto.

--Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande
esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o
mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!

--Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em
familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido
testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe
encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é
impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos
de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não
abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu
um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está
arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que
valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar
pobre.

--Isso leva agua no bico!...

--E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de
fazer o que elle tem feito.

--Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.

--E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro
que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande
espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.

--Felix de Araujo? Não me recordo.

--Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando
por ter uma casa commercial.

--Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de
quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital
de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça
de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?

--Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a
terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa
da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.

--O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...

--Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um _salto_ com limpeza,
sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco
dados! e _tirar_ ao pegote!

--É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do
barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca
portugueza.

--Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda
tinha voltado a Portugal...

--O que estará fazendo o visconde?

--Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas
ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos.

Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.

O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual
todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é
susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.

Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde
o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos
principaes salões de Lisboa.

Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre
delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação!

Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que
estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo,
attribuiam lhe riquezas enormes.

Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu
interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e
dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo,
que ainda hoje o dominava com poder immenso!

Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de
Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais
algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas.
Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.

Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu
vivíssimo _esprit_, tinha outra qualidade que o tornava estimado em
todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada,
como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.

Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava
para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos
reposteiros e appareceu o visconde.

--Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel
evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.

--Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva,
sorrindo-se para o visconde.

--Repito o mesmo, acudiu Gil.

--Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao
visconde.

--N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de
Carvalho.

--Não me recordo respond

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