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Scenas da Foz

by Camilo Castelo Branco · Portuguese · Gutenberg #28310 · 330,248 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of Scenas da Foz
    
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Title: Scenas da Foz

Author: Camilo Castelo Branco


        
Release date: March 11, 2009 [eBook #28310]

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/28310

Credits: Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
        Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
        produced from scanned images of public domain material
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***




Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
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                          SCENAS DA FOZ

                               POR

                      CAMILLO CASTELLO BRANCO.




                          SOLEMNIA VERBA.

                     ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA.

                 O X DE TODOS OS PROBLEMAS DO CORAÇÃO.

          OBRA IMPORTANTISSIMA PARA TODOS OS SEXOS, MASCULINO,
                         FEMININO, E NEUTRO,
                E ESPECIALMENTE PARA AS COZINHEIRAS.

                 EM DOZE VOLUMES; SENDO O PRIMEIRO:


                          SCENAS DA FOZ

                               POR

                           JOÃO JUNIOR.

    SOCIO DA PHILARMONICA, E IRMÃO DA ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO.

                            2.ª EDIÇÃO.


                               PORTO:
                  EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
                 Rua dos Caldeireiros, n.os 18 e 20.

                               1860.


         PORTO--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA,

                       Largo do Laranjal n.º 4.




JUIZO CRITICO.

(DA PRIMEIRA EDIÇÃO.)


Li, como editor, e reli, como critico, as SCENAS DA FOZ do snr. _João
Junior_. Declaro que encontrei uma serie de scenas, que tanto podiam ser
de S. João da Foz como de Freixo-de-Espada-á-Cinta. Entretanto, os
quadros comicos são desenhados com um pouco mais sal que um artigo de
fundo. Os episodios funebres estão escriptos em estylo de cavallo de
carruagem, como dizia _Voltaire_.

Outro sim declaro, que não vi neste livro doutrina, palavra, phrase, ou
virgula, que destoe dos maus costumes da época em que é escripta. Como
cousa offerecida á humanidade, a offerenda é digna da deusa e do
sacerdote.

Porto 2 de Junho de 1857.

                                                 O EDITOR,

                                          _Camillo Castello Branco._




DEDICATORIA.


Á ESPECIE HUMANA INCLUSIVE OS BARÕES.

Senhora! O sacerdocio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do
seculo XIV,[1] é a mais augusta das funcções, depois da «Arte de
cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida proposição, quando os
exemplos saltam como camarões em terra secca. A rotundidade dos
abdomens, e a estupidez prodigiosa dos proprietarios dos ditos, senhora,
é a mais persuasiva prova de que a culinaria tem sobre a imprensa a
primasia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome,
embebecidos, no paradoxo da sciencia.

Sem embargo, porém, desta verdade, que palpita como um aneurysma, eu não
posso deixar de reconhecer as grandes vantagens que podem provir a v.
exc.ª da mirifica invenção dos typos.

Senhora! eu sou um desses poucos bipedes que reagem, por instincto,
contra os quadrupedes que gratuitamente se dizem meus irmãos. Saturado
de estudos longos e substanciosos sobre a alveitaria, tenho querido
organisar um _Manual de pharmacia_, dedicado ao utilissimo curativo de
alguns desses meus irmãos, que me ameaçam as tibias, quando a dôr do
alifafe moral os faz pinotear desencabrestadamente.

Neste intuito, cuja extensão eu deixo á penetração de v. exc.ª,
confeiçoei algumas receitas, que puz em systema pathologico,
subordinadas a bases symptomatologicas, palavra grande que v. exc.ª
soletrará de seu vagar.

Senhora! A hygiene moral, depois de Broussais, tem feito progressos que
demandam um compendio novo, e uma diversa iniciativa no systema de
applical-os com aproveitamento.

O romance, senhora, é a mais proficua das pharmacias, porque neste
laboratorio douram-se as pilulas com maravilhosa limpesa. O romance,
caldeado na forja onde Voltaire assacalou as armas com que feriu no
coração o «ridiculo» de v. exc.ª, n'aquella época, será, se me não
engana o muito amor da humanidade, um sodorifero por meio do qual
faremos transpirar as muitas fezes que v. exc.ª traz no sangue, e das
quaes se originam muitos miasmas de febre da pouca vergonha, para a qual
não ha quarentena possivel, nem conselho de saude, por ventura o mais
necessitado, na presente conjunctura, de ser esfregado com as baêtas da
zombaria.

Pelo que: considerando maduramente quão proveitosa devia ser a v. exc.ª
a divulgação de trabalhos que o zelo da minha especie me impoz, ouso
recorrer á egide da sua protecção, offertando-lhe o primeiro da serie de
livros que vou atirar á humanidade.

Senhora! Fiquemos aqui, se lhe parece.

     [1] Preparo uma dissertação a este respeito.




                           SCENAS DA FOZ.

                           LIVRO PRIMEIRO.

                          A SORTE EM PRETO.


I.

Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. João da Foz, uma familia
de Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:

Pantaleão de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto
de Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega
Andrade Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara,
com todos os appellidos paternos, e cinco de sua mãi. Duas criadas
graves. Uma cozinheira, casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um
gallego adjuncto á cavallariça. Dous cães de lobo; e, finalmente, uma
cadellinha atravessada de cão d'agua e galga.

Eu, João Junior; que estas cousas ponho em escriptura para memoria
eterna, morava na rua de Cima de Villa, e da minha janella vi muitas
vezes na sua o snr. Pantaleão, homem côr de lagosta cozida, com
cabelleira azulada pela acção do tempo, olhos refegados com debrum
escarlate, papeira ampla como a dos _cretins_ nos Alpes, e nariz
poliédro como uma castanha do Maranhão.

A snr.ª D. Amalia, se bem me recordo, era uma serpente. Orelhas, nariz,
queixo, e todos os districtos da cara (nesse tempo eram comarcas) era
tudo aguçado e verrugoso, como uma mólhada de nabos velhos, em que as
fitas amarellas da touca representassem a rama das nabiças.

A menina Hermenigilda tinha cara de seraphim de côro d'aldeia: gorda e
vermelha, cheia de vida estupida, olhos grandes como bogalhos, dentes
anarchicos mas brancos como o seu nedio pescoço, braço rico de tecidos
cellulares, rendilhado de tumidas veias vermelhas, onde borbulhava o
sangue cruorico de felicissimas digestões de cabeça de porco com feijão
branco.

Os servos não me lembra bem como tinham a cara, excepto uma das criadas
graves, que diziam ser filha bastarda d'um frade bernardo, irmão do snr.
Pantaleão. Eu fiz tres dias descabellado namoro a esta rapariga, que
tinha setenta e seis pollegadas. Ao quarto, vi-lhe um calcanhar aberto
como ouriço velho, e desanimei.

De quem me recordo muito é do escudeiro preto, que tinha a cara mais
velhaca da raça de Ismael. Assobiava com perfeição a _Marìa Caxuxa_, e
jogava a marrada magistralmente com o gallego, supplementar aos machos
da liteira, deixando-o quasi sempre estatellado no chão em fórma de
meia-lua. E muitas vezes vi eu com estes olhos invejosos a menina
Hermenigilda a brincar com o preto na sala, onde eu podia devassar estes
innocentes brinquedos. O gosto d'ella era puxar-lhe a carapinha, e o
gosto d'elle era, ao que parece, dar-lhe surras, que terminavam sempre
quando a mãi, ou o pai, ou alguma das criadas appareciam no limiar da
porta da sala.

Um meu amigo visitava esta familia, e d'ella soube eu que o snr.
Pantaleão era senhor de casa vinculada, e a snr.ª D. Amalia tambem era
morgada, e a snr.ª D Hermenigilda, por consequencia, uma opulenta
herdeira. Soube mais que o snr. Pantaleão remontava a sua fidalguia a
uma personagem importante na dynastia goda, e não me recordo bem se era
Athanaulfo, ou Roderico.

A genealogia da mulher diziam lá em casa que era a mais antiga da velha
Lusitania, e contavam maravilhas de seus avós na India, e na Amarante. A
herdeira, por segunda e inevitavel consequencia, tinha nas veias doze
canadas bem medidas de sangue gothico, e por isso, a architectura
externa fazia lembrar Orense ou S. Thiago de Compostella.

Entre os rapazes meus conhecidos da provincia, o meu inseparavel
companheiro dos passeios a Carreiros era um mancebo de trinta annos, que
tem hoje os seus sessenta e um, e está litteralmente escangalhado, como
eu que o digo. Então era elle esbelto, e galhardo, amigo de mulheres
novas e vinho velho, como Byron, que elle vira no theatro de S. Carlos
em 1813, e affirmava que bebeu com elle uma garrafa de aguardente de
canna no _Nicóla_, botiquineiro do Rocio. Parece-me pêta, porque Byron,
se emborcasse uma botelha de aguardente em Portugal, não nos chamava
_barbaros_. Paiz onde um inglez se embebedar, será sempre um paiz
civilisado.

Como quer que seja, o meu amigo provinciano era homem do _grande mundo_.
Chamava-se Bento de Castro da Gama, e não sei que mais. Era natural de
Cabeceiras de Basto, filho segundo da casa denominada do _Olho-vivo_,
não sei porque derivação.

Seus pais mandaram-no estudar latim e logica no seminario de Braga.
Bento corrompia o porteiro, e sahia de noite, a provar que a logica,
sendo a arte de bem pensar, não exime um fraco mortal de pensar o peor
que é possivel. D'essas envestidas nocturnas á moral, resultou um
escandalo em casa d'um chapelleiro da _Senhora á branca_, e o seductor
teve de fugir do seminario, onde estava debaixo de olho, pendurando-se
para a rua nos lençoes.

Contava elle que o pai lhe abanara as orelhas, em quanto a mãi lhe
preparava algumas tigellinhas de gelêa de mão de vacca, para o
indemnisar das succulentas bochechas que deixara no seminario,
emmagrecidas sobre o Novo Methodo do Pereira; e o desabrido Genuense.

A casa paterna era estreito horisonte para o nosso amigo. Uma bella
manhã fugiu de casa, veio ao Porto, e assentou praça em infanteria. O
pai, sabendo-o, mandou-lhe os documentos para se habilitar a cadete, e
estabeleceu-lhe avultada pensão para se habilitar a exercer todas as
travessuras e maroteiras de que o seu caracter era susceptivel. Em seis
mezes de praça estivera tres na cadeia, por causa de varios sôcos com
que mimoseou os sargentos do corpo. Pediu a baixa, deram-lh'a
promptamente, e recolheu a casa, onde não encontrou já vivo o pai.

Pouco depois, morreu a mãi. Bento de Castro pediu por conta da sua boa
legitima alguns mil cruzados, foi gastal-os em Lisboa o melhor que pôde,
e tornou para casa, onde o irmão morgado o recebeu de braços abertos.

N'esse tempo é que eu o conheci na Foz, onde viera pela primeira vez a
banhos, em 1825. Relacionei-me com elle na caça das gaivotas, e
convivemos alguns mezes na sua casa de Cabeceiras de Basto. Passavamos
ahi excellentes tardes no convento de Refojos, onde elle tinha tres
tios, que eram santos varões, doutos, e alegres. Ahi conhecemos José
Pacheco d'Andrade, morgado de uma casa illustre, que nos ensinou a jogar
o pau, como bom mestre que era! Na feira do Arco vimol-o nós uma vez
varrer a feira com admiravel limpeza! Saltava como um gamo, e apanhava
pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador de Barroso! Fui
amigo d'este homem e vi-o morrer vinte annos depois n'um palheiro onde
mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo é uma
historia muito longa, e que já vi fugitivamente esboçada nos versos de
não sei que livro.

Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?

Se me começam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha
idade, com a reputação feita, escreve as cousas como ellas lhe
escorregam dos bicos da penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o
pensamento, nem traço plano. Não me apoquentem. Lá vamos á Foz.


II.

O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do
Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um
relogio, dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2
horas, bateu-me á porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um
pathetico discurso:

«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia
em que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o
meu abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é
contrario. Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir
dinheiro ao moço de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá,
alli no castello do Queijo, tive vontade de atirar ao mar com esta vida
diabolica!... Se o não fiz, outra vez será. É no que ha-de parar este
negro fado que me traz a pontapés da desgraça... Não me dirás tu que
hei-de eu fazer para ser o que tu és?

--E que achas tu que eu sou?--perguntei eu, porque não sabia ainda então
o que era. «És homem de juizo. Tens ha dez annos um cavallo velho e
magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de pão e
quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos
rapados, e vives feliz.

--Muito feliz.

«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho
gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.

--Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos
cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser
cantado pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros
de pão e quinze pipas de vinho verde e serás feliz.

«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não
posso matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde
vier.

--De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho
este anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei,
parece que desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que
tinhamos. Tu não tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?

«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas,
sou tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.

--Ridiculo é esse susto. A experiencia ainda te não amadureceu quanto é
necessario para viver neste mundo. Ridiculo só conheço um homem neste
planeta: é o que não tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para
alcançal-o, são sempre sérias, heroicas, e até épicas. Se fizeres namoro
a uma rapariga rica, riem-se de ti os zombeteiros candidatos á rapariga,
mas esse riso só póde ser penoso se a mulher te não indemnisar com o
sorriso d'ella. A questão é _To be or not to be_: ser ou não ser amado.
Sirvo-me deste fragmento de Shakspeare por que não está ainda estafado
pelos folhetinistas.

«_Folhetinistas_! que são _folhetinistas_?

--Folhetinistas são uns pataratas que hão-de vir d'aqui a vinte annos,
trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos
coeiros, virão para a imprensa com seu cabedal de erudição empalmado nos
romances de certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e será então o
primeiro corruptor da litteratura em França. Saberão menos latim do que
tu quando saltaste pela janella do seminario de Braga, e dirão que o
latim é uma cataplasma que mata a originalidade nativa, e a natividade
original, e não sei que outras sandices usadas na linguagem delles
pataratas. A respeito de logica e rhetorica dirão que antes do diluvio
já estavam banidas das escólas mais illustradas. Hão-de provar que o
talento não precisa desses causticos para ressumar a materia do
espirito, e, provando-o, dirão tolices em que ficará salvo o Genuense e
o Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de
Refojos. Fallarão muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito,
e dirão dellas cousas maravilhosas que terão o superior merecimento de
não serem ditas em portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os
folhetinistas serão...

«Não me importa saber o que serão os folhetinistas, o que eu quero é
saber o que serei d'hoje a vinte annos.

--Serás folhetinista, visto que te não vejo com habilitações para seres
cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra
para depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos
contraltos, e dos bassos, e deste Curti que hoje está creando uma
reputação no Porto, e eu espero ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo
timbre, o mesmo volume de voz, e a mesma precisão de notas graves em
_sibmol_.

«Que diabo de embrulhada é essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes
tu á tentativa d'um casamento rico?

--Digo-te que conheço grandes alarves que tentaram e prosperaram. Quando
um homem se diz: «hei-de casar rico, apesar de todos os contratempos»
casa rico. O primeiro passo a dar é convencer-se de que a vergonha é uma
excrescencia que nos magôa, e deve ser amputada da consciencia como quem
corta um callo. O segundo é procurar a mulher, através de todas as
torpesas, como o mineiro procura o ouro através do saibro e dos charcos
lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos pés. O terceiro é levar com a
porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O quarto é
teimar. O quinto é teimar. O sexto...

«É teimar. Tenho entendido. Mãos á empreza. Cobrei espirito novo. Dentro
d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente,
virtuosa...

--Alto lá! isso é muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas
disseram-lhe que não... Rica? d'accordo: isso é possivel. Intelligente?
Deixa-te d'isso: mulher intelligente não se deixa engodar por
especuladores matrimoniaes: é-lhe mais facil ceder ao coração toda a
liberdade dos seus desejos os menos puros, do que algemar-se com
grilhões que ella parte facilmente no momento em que a razão illustrada
lhe diga: «Entre ti e o homem são iguaes os direitos...» Formosa?
Pieguice e contrasenso. Mulher formosa é sempre a mesma cousa, e aos
olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da belleza. Mulher feia,
pela continuação da convivencia, perde pouco e pouco a fealdade, e chega
a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem inspirado
paixões ardentissimas. Dizem que ha uma compensação de graças ocultas as
quaes fazem ganhar raizes no coração do homem. Eu não sei se é no
coração, se no figado: o que posso asseverar-te é que tenho visto
mulheres formosas apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos.
Dido, Helena, e Cleopatra dizem que foram lindas mulheres, por terem
apaixonado Eneas, Paris, e Antonio. O que de certo se não sabe é se eram
feias. Verdadeiramente feio, meu amigo, é o diabo, como diz a ama de
leite dos teus sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse
respeito tinhamos muito que dizer, se eu não tivesse somno. A virtude é
o escolho de muitas posições sociaes. Felizmente que ella vai em
decadencia, e por isso veremos, de hoje a trinta annos, muitas posições
brilhantes com um pé no pescoço da virtude. Virtude é uma sociedade
mercantil, em que a maior parte dos empresarios se sustentam á custa da
pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.

Fóra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de
casamento, indico-te uma mulher.

«Qual?!

--A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleão.

«Pois achas que está no caso?

--Muito no caso.

«Sei que é rica, não é feia, é estupida, é fidalga; mas... em quanto a
virtude, não sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva
aspar a palavra do meu programma!

--É que eu desconfio do preto!

«Do preto?! que preto?

--Fallaremos ámanhã. Agora quero dormir.

Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o
preto.

..........................................................................

Suaves recordações da mocidade, sêde a cebola destes olhos que já não
podem chorar!


III.

No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de
acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.

Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira
a respeito do preto.

«Não valia a pena--disse eu--perturbares o meu somno da manhã por
similhante insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das
historias. Não sei se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo
que o Othello era preto, e sentiu a mais negra das paixões por uma
branca. Não sei tambem se a filha de Brabante lhe puxava a elle a
carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao dito preto. Em todo o
caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o plagiato do
amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se, por
imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se.
Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o
preto no coração?

--Estás a mangar!--respondeu o meu amigo Bento--Póde lá dar-se
similhante asneira!

«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima...
dás licença que te conte a historia de minha prima?

--Se não fôr muito estirada...

«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de
Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um
bom patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos
casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem
perigoso em casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de
casa. Partem emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e
depois de varejarem e farejarem todas as casas suspeitas, todas as
igrejas onde o mysticismo a poderia ter em extasis, e até um poço onde
uma allucinação a poderia ter precipitado... depois de muitas
diligencias, e lagrimas, e gritos, e informações, minha prima
apparece... imagina lá aonde?

--Eu sei cá!...

«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro
arrobamento do amor com...--meus illustres avós! perdoai-me a
revelação!--com um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço
de gallego!

--Que se seguiu? mataram o bruto?

«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia.
Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia
de casar com o gallego.

--E casou?

«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e,
o que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires
hoje, não dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.

--E ella ama-o?!

«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o como o amou sempre, bebe
a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura,
das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do conjuge
inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o
mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos
como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está
gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude
da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que
esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um
melindre d'orgãos, e d'uma susceptibilidade de emoções, que fazia
receiar muito pela sua vida.

Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida,
fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava
parte nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia
do seu modêlo, a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como
diabo desceu do céo cá para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu
vivia persuadido de que o céo não importava aquelle genero.

Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos
casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival
temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha
visinha não dá ares de quem procura no céo a realização das suas
esperanças; e, se procura, quem me diz a mim que o preto não desceu de
lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá em baixo o gallego? Que me dizes tu a
isto?

--Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao
preto em boa paz.

«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.

--Mas o que tens tu visto?

«A pequena a brincar com o preto.

--De que modo?

«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro: invenção rara que se
deve á estrategia do amor, assim como o xadrez se deve á estrategia
militar.

--E que mais fazem?

«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas
palmadas bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os
pontapés. O preto perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a
moral domestica folga do resultado. Já vês que não ha aqui bastante
motivo para renunciar uma conquista de dez mil cruzados de renda, e uma
mulher que promette estar contente dando-lhe o comer ás horas, e tres
duzias de gallinhas para tratar... Das duas uma: ou a mulher ama o
preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e acceita. Que
perdes tu na tentativa?

--Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que
esperdice o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?

«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes
rodeios, que estás ferido.

--Será demasiada liberdade...

«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas
mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa
visinha é d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no
pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro.
Põe o teu codigo de civilidade ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada
de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que é da
tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases
que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os
caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito longe do
alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar
tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um
habil caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu Genuense, a
alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma,
o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das
ondas.

Espera... ouço-a fallar... Olha...

Ella lá está na janella.


IV.

O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de
1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica
laryngéa. Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a
cara do meu amigo Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou
depressa os olhos, mas depressa obedeceu com elles ao magnetismo das
olhadellas do visinho. Eu cá da minha alcova, por entre os farrapões das
cortinas amarellas, estava presenceando o introito comico do acto mais
solemne da vida dos povos, que era o casamento então, e hoje são as
eleições.

O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e
vinha; olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre
um terço do olho esquerdo compromettido.

Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na
victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O
nariz, considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima,
interprete da linguagem muda da ternura, exerce a mais nobre das missões
corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois
do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de
simonte.

Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle
radioso de gloria.

«Então?--disse-lhe eu--quantos graus acima de zero marca o thermometro
da visinha?

--Está pegado o namoro.

«Eu vi tudo.

--Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse
que não...

«Que não sabia lêr?

--Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal
affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.

«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde
mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a
compelliu!

--Tu estás caçoando!

«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas
da linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.

--É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será
muito estupida?

«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola.
Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.

--Valeu! nota lá a carta.

«Senta-te, e escreve.

Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei
em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que
offereço como norma aos amadores das Hermenigildas:

                                                     «Meu adorado Bem.

«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á
vossa compaixão o triste sudario da minha alma.

«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem
a vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as
melodias do rouxinol do salgueiro.

«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo
para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.

«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á
dôr, os olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse
peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da
ingratidão!

«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade,
que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o
trilho aerio da sua patria, e ficou erma e só na região das neves...»

--Ella não entende isto!--exclamou o meu amigo!

«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta
dous papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:

«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede,
pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos
raios do sol oriental!

--Isto parece-me asneira!--replicou o amanuense--_Bebendo candeias!_
Viu-se já um similhante disparate!

«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?

--Quero que entenda: é boa a pergunta!

«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar
de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella
perfeitamente o que são; e linguas, em quanto a mim, só conhece a de
porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a
inspiração, e deixo-te nas trevas. Escreve lá:

«Nos meus sonhos...

_Entre parenthesis._ Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro o
escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres
achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario
ter um talento creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu
fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla.
Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo
que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.

«Escreve lá, Bento de Castro.

«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens
coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada
na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés.
Ereis vós, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso
reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a
acolheita.

«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem
vêr-vos, só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?

--Acaba depressa com isto!--interrompeu o meu amigo--Vêr-vos, não
vêr-vos, amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada
é esta!?

«Tu és um tolo!--redargui eu--Está explicado o segredo da tua nullidade
perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas
reduzem-se á filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em
Portugal, se ao teu patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente
figura, quasi em decadencia, juntasses um pouco de estylo. Todo a
conquistador deve ter um arsenal bem fornecido de bombas phraseologicas.
A idéa não é que persuade uma mulher, é a palavra. O que tu chamas
_embrulhada_, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha
nada que se diga.

--Suppomos---replicou elle--que esta mulher não me entende?

«Certo disso estou eu.

--O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua
ignorancia.

«É justamente o que te convem, tolo.

--Que me convem!

«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que
lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?

--Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz
mais alguma asneira.

«Onde estavamos nós?

--Estavamos no _vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos_...

«Ah! já sei... põe lá:

«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa
coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!

«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós
ser a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor;
subjeitai-a aos decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei
esta monarchia com o absolutismo despotico da vossa augusta vontade.

«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de
que acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,

                                            _Bento de Castro da Gama._»

O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na
janella. Hermenigilda appareceu. A carta foi-lhe mostrada; ella fez
menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta, lançou-a no
pateo, e tornou para a minha janella.

Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os
jeroglificos druidicos da carta.

O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.


V.

A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo
resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.

Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao
pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes
caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido
zoologicamente da aproximação das duas especies, visto que a careta era
de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de
sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, mas a bota de
montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.

Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos
cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com
cara de paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais
significativa de que não entendêra palavra da carta arripiada.

Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.

«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.

O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na
palma da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá
respondeu que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os
hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem
melancolicamente sandia.

«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.

--Podeis fallar-me?--disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo
porta-voz.

Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:

--Se podeis fallar-me...

Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com
toda a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta,
reluzirem os olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se
não podesse supportar o magnetismo hediondo d'aquelles olhos,
recolheu-se para dentro, murmurando:

--Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.

Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo.
Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de
paciencia. Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo
jogando o sopapo com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no
deserto das piramides, etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da
historia, e resolveu tolerar com paciencia todas as caretas do preto.

«A ti o que te convem--disse-lhe eu--é relacionares-te com o Pantaleão.
Tu não conheces o Miguel das Infuzas?

--Quem é o Miguel das Infuzas?

«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.

--Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido _Infuzas_.

«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel.
Chamam-lhe o _das Infuzas_, porque elle, amador das artes, viu duas
pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do
Porto, e quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que
pôde nas algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das
infelizes lobrigou-as em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito
genealogico as pozera no prego, divulgou o feito do illustre neto dos
Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em diante, a classe media associou
as infuzas aos appellidos deslumbrantes do fidalgo, que continua a
esmerilhar na genealogia do proximo um casamento desigual de quinto ou
sexto avô, para, nos seus momentos de soberba aristocratica, mostrar aos
primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que ousa chamar-lhe primo.

«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque
não pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado,
procura-o com o fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô.
Logo que fallares em oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te
onde estás hospedado.

--E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!

«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô
instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a
segunda ou terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu
oitavo avô foi casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber
d'um oitavo avô, pois não ha!

--Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?

«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete que elle tinha
no pé esquerdo. Conseguido o primeiro passo, pergunta-lhe se uma senhora
da tua familia é exacto ter casado, ha 327 annos, na casa de Villar de
Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. Consegue que elle te chame
primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não casares com Hermenigilda,
apesar de todas as caretas do preto.

--Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?

«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem
jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no
proximo domingo.

Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.

Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar,
disse, affectando muito receio de ser ouvida:

«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi
estiverem deitados.

--A que horas?

«Ás nove.

--Ás nove!?--replicou elle maravilhado.

«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.

--Isto vai bem!--exclamou Castro--Mas ás nove horas! tão cedo!

«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares
gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito,
deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma
massa bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu
futuro em casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no
thalamo conjugal com o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove
has-de resonar o mais estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua
mulher.

--Estás enganado!--replicou elle--Se eu casasse com ella, pensas que me
ia degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha
mulher, e dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de
Hermenigilda? Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate
da gotta, está a filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella
virá quando vier, e virá sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres
tu viajar comnosco?

«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo
Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por
largo, iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!

--És um pateta!--redarguiu lisongeiramente o meu amigo.--Não se póde
fallar serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove
horas, é escusado procurar a protecção do Miguel das Infuzas.

«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim
fosse seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro
clandestinamente, evitando relações com o pai. Mas tu queres casar, e
casar com brevidade; precisas ser admittido ao gremio da familia; dar ao
teu namoro um ar de honestidade boçal; cabecear com somno todos os dias,
meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de nove com tua sogra, e
representares, em fim, de palerma até ao dia em que se cruzarem
definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel das
Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma
cousa do teu oitavo avô.»

Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares,
como são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.


VI.

Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e
plantou-se debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e
espreitava pelos buracos da cortina o introito do _rendez-vous_.
Espreitava, e escutava, não por mera curiosidade, porque não sou
curioso, mas por utilidade propria, visto que me tinha encontrado em
grandes apertos de eloquencia nos primeiros encontros com trinta e oito
mulheres.

O leitor casto--(para não ser sempre _pio_), que chegou aos cincoenta
annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista,
está muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!

Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais
um bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha
quarenta annos, diante dos meus namoros.

A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera
bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por
causa d'um ajudante d'ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa
celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus para o
dominio da historia.

Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava
admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção
immoral que a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões
lisbonenses. Dizia ella, com um riso sarcastico nos finos labios, que os
inglezes vieram executar em Portugal as theorias livres da França.
Acrescentava que o fardamento dos officiaes de Beresford conseguira das
mulheres lusitanas, raça das Brites, e das Vilhenas, o que os romances
de Voltaire, não poderam fazer.

Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o
travesso Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!

Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites
sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e
cahirem no espaço infinito dos conquistadores aleijados.

Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que
escorregára do _penedo d'Apollo_ ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o
casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a
ressaca levava para o mar, e, como Camões,

      Dos procellosos baixos escapado,

vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.

Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no
seu quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem
agradecer-lh'os, porque os queixos faziam uma traquinada diabolica,
metti-me á cama, onde transpirei tres dias, bebi dez garrafas de tizana;
puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e ao cabo d'uma semana fui
deixar um bilhete á exc.ma dona da cadella, que mandára saber de mim
todos os dias duas vezes.

Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:

«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me
dê o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e
ri, e conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da
sua visita?

--Oh minha senhora!...

«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer...
(Em 1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos
de s. exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que
progresso immenso em quarenta annos!)

«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter
feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.

--Oh minha senhora!...

«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É
ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações
de infancia. (_Nota_: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha
ella então _trinta e dous annos_... que _infancia_! e que relações!)
Calcule o impagavel serviço que recebi...

--Oh minha senhora!

Nunca pude passar desta apostrophe palerma: _oh minha senhora!_

Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro
_eu_.

Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.ma snr.ª D.
Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.

(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia! Já agora, leitor,
não queiras que eu perca duas tiras de papel, escriptas debaixo da
inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas entrei, fui rodeado de
caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a um canto da sala.
Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou bamboar um
pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu. Este
_quem é_ ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D.
Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador
intrepido da minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era
habilitação bastante para ser apresentado.

Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem
era, d'onde era, que modo de vida tinha.

O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de
ser o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera
nascer. Que o meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos
tolos que o acaso do nascimento fizesse mais tolos do que eu.

O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do
que era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.

Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com
as liberdades da sua conversação.

Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo
deste grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a
ella o sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.

Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela
primeira vez, e não sentira ainda o que era amor.

«Sim!?--atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.

--Sim, minha senhora.

«Um coração virgem! É crivel! Qual será a feliz mulher que se aqueça ás
primeiras chammas da sua alma?

Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impressão! Se lhe
respondesse, diria necessariamente uma futilidade chôcha. Calei-me, e,
se bem me recordo, córei.

Se dispensam saber o resto, não leiam o capitulo seguinte.


VII.

Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé
de D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a
pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D.
Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel
general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII
florescera o tronco d'um cavallo pigarço que lhe morrera d'um aguamento
na estalagem de Vallongo.

Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de
cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação,
poderia apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras
d'uma egua em que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.

Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal,
principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto
ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos
principiou a sahir, e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas
por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D.
Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.

Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas
palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas
da sua alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta
annos que meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade
da ceia, dôce amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um
Vitellio de meia tigella.

Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a
mulher que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do
corpo não entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da
nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos,
que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem
chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.

Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito
da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa
madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma
enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:

     Meu amante coração.

É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda
lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema
poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu
asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu
talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu
glorio-me de ter feito obra que muitos annos depois encontrei executada,
com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um
arraial.

Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do
poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do
vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, _ipso facto_,
dispensava o almoço,--enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia,
quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos,
começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia
ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o
motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha:
_panem_, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o _et
circenses_ traduzi-lh'o em café com leite.

Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um
soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a _Vicencia_; mas
como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a
difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras.
Encontrei _Raposo_; por consequencia--VICENCIA RAPOSO!

Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar
a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e
cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a
vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada.
Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma
cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!

Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos!
Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros
encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais
desengraçada! D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo
corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do
forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho.
Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado,
quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com
sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada
os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando
n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o
patrio ninho.

Não o quiz assim a minha desventura.

D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao
cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre
as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre
Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres
espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora,
Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!

O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua
do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com
as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de
castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno,
e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha
em mim!

Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce,
deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices
habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de
susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava,
avisinhei-me com o chapéo na mão.

--Como passou a noite, snr. João Junior?--acudiu ella ao meu embaraço.

«Muito obrigado, minha senhora...--gaguejei eu.

--Passou bem, não é assim?

Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria
eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.

--Então passou mal?--tornou ella.

Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei
do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella
fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os
patetas bisonhos, e respondi bruscamente:

«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»

Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá
muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa
mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa
gargalhada.

--Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?

«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...

--Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria
tomar banho cedo!

Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!


VIII.

--Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...

«Ah... não? eu pensava...

--Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.

«Agora entendo! Ora sente-se...

E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu
fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna
sobre a outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era
signal de má criação cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento
angustiado ter nascido na Laponia, ou encurtar em corpo na razão directa
da pequenez do espirito. Experimentei variadas attitudes: uma vez,
ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o joelho esquerdo formava com
o direito o apice d'um triangulo isosceles. Resolvi, por fim, estender
uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa. Isto em quanto ás
extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador tambem fez
as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão
direita andou longo tempo em busca de uma posição, desde o seio do
collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A esquerda
inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição,
immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as
minhas attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para
destruir o mau effeito do involucro.

--Não toma banhos?--disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as
bellas cousas que tencionava dizer-me.

«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.

--Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...

«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a
ingenuidade.

--Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.

«E v. exc.ª padece do coração?--disse eu com sincera condolencia.

--Muito...

«Algum aneurisma?

--Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de
soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.

«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é
todo de intestinos.

--O coração--tornou ella sorrindo de um modo celebre--o coração tambem é
um intestino.

«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do
estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e
nunca lhe ouvi dizer que o coração era um intestino.

D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido
deste mau gosto de discutir ás gargalhadas.

«De que se ri v. exc.ª?»--interpellei eu, desarranjando um pouco a minha
attitude, que tanta arte me custára, e tanto me custou a restaurar.

--Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da
anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João
Junior sabe perfeitamente o que é allegoria.

«Pois não sei?--repliquei eu com ar de triumpho--_Allegoria est
tropus_... V. exc.ª sabe latim?

--Não, não sei.

«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas
palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando
todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha
duas especies de Allegoria, que são: a _total_, e a... V. exc.ª ri-se?
Cuida que eu estou a mentir?

--Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando
de ouvir um sabio...

«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu
Quintilliano...

--E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?

«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida
ecclesiastica. Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho
que não se póde ser bom frade, quando se fazem versos.

--Pois o senhor é poeta?

«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.

--Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz,
cantando o Neptuno, e as deusas do mar?

«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns
versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que
deixei em casa.

--Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?

«Não, minha senhora.

--Qual foi o motivo?

«O motivo... o motivo...--gaguejei eu, esfregando os dedos da mão
esquerda na palma da mão direita--O motivo... bem sabe v. exc.ª qual
foi...

--Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha
cadellinha!...

«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos...
a v. exc.ª

--A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser
retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus
versos, snr. João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?

Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa
não vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me
parecia azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do
peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.

Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus
versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e
interrogo uma velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus
poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o
que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á
mingua de carqueja, accendera o fogão com uns papellitos que achára
sobre a mesa.

Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos
de idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva.
Entrou em mim o _delirium tremens_... Foi a imagem de Vicencia que me
salvou... se não... ai da velha! e ai de mim tambem!

Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a
longos tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á
carqueja, e outras novas suggeridas por um novo ardor. Ó poder do genio!
Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou d'um
vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um
tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da
1.ª edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e
não ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe
faziam.

Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se,
fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que
nunca, através de trinta annos, pude esquecer:

--O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais
seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração,
annunciando talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que
o ensinem a chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o
offerecimento do seu coração.

Felizmente para mim entrou gente na sala.

O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr
alguns das _Confissões de J. J. Rousseau_ para me animar.


IX.

Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos
da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas
de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o
seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao
cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do
redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam,
cousa de que não faço questão.

E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso;
quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme
chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas,
a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem
com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu
espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do
céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das
chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.

Eram dez horas da noite.

Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me
machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que
abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.

Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de
tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da
janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para
ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de
modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.

Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais
bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com
vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos
tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas
cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo,
conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do
Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros,
que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca _Charpentier_.

Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos,
divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face
voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.

Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto _eburnea_.
Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos.
Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao
escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa
no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as
de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso,
e sahe-me a cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um
clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.

_Com geito encantador na mão eburnea_: reparem que é um verso
hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem
desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a
estrangeirice?

Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: _á-propos_) para dizer que, estando
eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente
a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.

Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na
apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de
conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja
sempre _potencias_) para vencer o acanhamento, murmurei:

«Sou eu...

--É o snr. João?

«É verdade, minha senhora.

--Então que faz por aqui?! versos?

«Estava a admirar a natureza, minha senhora.

--E admiravel que ella está!

«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!

--Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a
noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se
me dá licença, recolho-me...

«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite...
Quem ama, não tem medo ás constipações...

Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei
satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:

--O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a
deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos, snr. João Junior. Venha
cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo
desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade,
peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã,
constipando-se hoje... Promette ir?

«Sim, minha senhora...

--Então, boas noites.

E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da
travessa, que era de pouquissima passagem.

Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença
gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa!
N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram
fugir com mais presteza.

O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o
piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns
passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!

O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de
mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:

--Que quer vossê aqui?

«Não quero nada...--gaguejei eu.

--Pois então, mude-se.

Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o
homem recalcitrou:

--Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.

A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo
deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio
offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas
appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.

Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle
homem um amante de Vicencia?!»

O ciume deu-me intrepidez, quero dizer--a intrepidez de parar e
esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o
leitor tem noticia!

A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que
ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no
peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do
embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela
janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...

..........................................................................

E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça
de estatua que um raio fulminou.

Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das
solidões compadecidas.

Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a
vida não era uma grande patacuada.

O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.

Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha
do instrumento.

Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!

A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo
expedientes muito safados.

Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde
chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o
jantar, e a ceia.

Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual
inventou: O ARTIGO DE FUNDO.


X.

Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para
outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante
como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra,
respeito a arte antiga, admiro a boa ordem das _Pastoris_ de _Longus_,
do _Jumento_ de _Lucius de Patras_, e outros venerandos monumentos da
arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas
horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope,
e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte
que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por
introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a
occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de
litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter
lido duas comedias de Scribe, a _Dama das Camelias_, e--se o
principiante fôr extremamente estudioso--o _Chatterton_, o _Bug Jargal_,
afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes,
uma capacidade mediocre abrange todas as ramificações da sciencia
humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter
produzido quarenta volumes.

Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez,
prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este
o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente
pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero
intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos
acabam.

A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade
das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a
intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que
os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o
atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os
portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias
que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço
Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto
sentido, o _illuminismo_, que tambem não sei bem o que é. Pelo que,
muito importa que o leitor saiba

    _Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia
    áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora
    por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do
    capitulo melhor se verá._

Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou
á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração,
desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos.
_Souvent l'onde irrite la flamme_, disse Corneille, e D. Vicencia,
aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo
readquiriu as necessidades velhas, as illusões de 1801, as realidades de
1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época
da sua fatal decadencia.

Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que
pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de
alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.

O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem
apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras,
requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher
disposta a amar.

D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha
volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete
não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a
fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta
o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o
namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde
o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.

Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!...
Bento de Castro.

Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o
meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da
perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus
velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas
contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava
assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso
testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu
primeiro amor.

Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que
o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura,
sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um
enorme oculo de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.

Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda
porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre
as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa
como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e
a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou
barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por
onde possam respirar e gemer.

Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou
em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama
Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de
entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um
homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com
heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa
louros e cabeças!

Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me
do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da
velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui
postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.

Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e
duas da manhã, o nosso homem.

Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha
coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas
pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da
vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções
reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta,
preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a
vanguarda, e diz com voz soturna:

«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!

--Nada...--regouguei eu.

«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não
se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.

O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.

--Eu ao senhor não lhe quero nada.

«Ora venha cá;--tornou elle--vamos passear e conversar. O senhor
chama-se João Junior.

--Seu criado.

«Quiz namorar D. Vicencia.

--Isso lá... é conforme...

«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e
conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir
apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O
senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos,
nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá
da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não
encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma
das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho.
Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o
campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...

--Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu
tenho a pedir-lhe é os meus versos.

«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não
lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com
o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa
de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes
mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos
desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em
fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que
vencer.

--Muito obrigado...--mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão
franco.

E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e
era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.

Dous annos depois, recebia elle de mim lições de _savoir-vivre_. O meu
talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto
social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.

Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas
do coração n'um intervallo de negra tristeza.

A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não
ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o
seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido
o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras,
encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a
amarellidão do tempo.

E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não
póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.

Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os
doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes
quiz supplantar!

De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais
vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o _salve_ compassivo que eu
lhe dou, depois de trinta annos.

..........................................................................

Oh vida! vida!............................................................

..........................................................................

Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do
histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...

Chorar no coração, e rir no espirito...


XI.

Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste
exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar
com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.

Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde
podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente
espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam
fazer outro tanto com o mesmo recato.

Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:

--É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não
posso exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que
vêr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno
peito nutre por vós, acaso ao vosso terá passado?

ELLA.

Eu passei bem, e o senhor?

ELLE (_atordoado como se lhe despejassem de cima um balde_.)

Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?

ELLA.

O senhor tambem sabe cantar a modinha das _vivas chammas d'amor?_

ELLE.

Nada, não sei.

ELLA.

Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.

    Althea, mimosa Althea
    Me maltractas com rigor,
    E eu por ti ardendo sempre
    Em vivas chammas d'amor.

Pois o senhor não sabia este soneto?

EU (_mentalmente_.)

É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!...
Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra
do progresso. Alguns annos mais, e _Paulo de Kock_, e _Pigault Lebrun_,
e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos
namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que
amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de
então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizer _toillette_,
_rendez-vous_, _petit-point_, _crochet_, _soirée_, _boucles_,
_papier-satin_, _enveloppe_, e outros ornamentos de lingua com que farão
a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a
superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A
psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas
abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da
alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com
acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições
corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice
empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para
que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma
e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o
ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne
e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia
que as manufacturas celestes podiam dar-nos.

ELLE (_despeitado_).

Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me
tendes um affecto igual ao meu.

ELLA.

Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...

ELLE.

Pois vosso pái é que vos manda amar?

ELLA.

O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido
muitos senhores de casa, e se elle diz que não...

ELLE.

Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.

ELLA.

Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.

ELLE.

Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...

ELLA.

O que?

ELLE.

O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis
por mim?

ELLA.

Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim
tambem queria ser vossa esposa.

ELLE.

A minha carta que impressão vos fez?

ELLA.

Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de
historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de
Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou
uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.

ELLE (_com a voz suffocada por um vomito moral_).

Boas noites, menina.

ELLA.

Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.

Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu
estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando
de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.

«Pois tu ouviste?--disse elle.

--Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz
Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de
tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás
mulheres em particular!

«Estás enganado--atalhou elle--gosto assim de vêr a estupidez no seu
estado de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher
como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que
arrefeci na empreza? Não tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um
homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigações que se
contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vês,
se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, é a unica mulher
que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe
disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio.
Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia
pura e estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella
tem resquicio de maldade!

Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em
casa d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor
com um toco de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes
berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella
fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado
para dizer que a ouvira estar fallando com um homem que costumava
fazer-lhe acenos da janella fronteira.

Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do
Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e
perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila
tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha
escripto para o bom fim. O pai disse que queria vêr a carta.
Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da colera, deixou cahir
o coto de sêbo, e ficou em trevas.

Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.

«O peor é que a minha carta está assignada!--disse Castro.

No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava
na janella desde o romper do dia.

Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que
elle correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu
fazer á moça varias bugigangas.

Fitou-me com terrivel catadura, e disse:

«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou
homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?

--Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente
pulmão--disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de
Fregim e coutos de Riba-Tamega.

«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o
espinhaço.

--Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a
filha!

«Vossê está a mangar commigo?

--Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que
desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas
patifarias. O direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V.
exc.ª tem carros de razão em quanto sustentar o decoro dos lares, e
mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.

Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu
prosegui:

--Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz
fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho
segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. Por _Gamas_, pertence
ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de
João de Barros, Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real.
Por _Castros_, descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que
veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos
quaes foi dom abbade em Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o
terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de
santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o amante de sua filha não
é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua
iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o intuito
d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.

«Eu não preciso conselhos!--bradou irado Pantaleão--Se elle quer casar
com minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me
ande cá a rentar pela porta.

--N'esse caso--redargui eu--direi ao meu amigo o que deve fazer para
captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a,
conforme o estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu
tive a honra de dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo,
consentirá que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no
oceano.

Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A
seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou
acolhimento digno na soez capacidade do mirifico ornamento da Amarante e
povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não
podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso
que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas
razões para suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha
outros documentos, além de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.

Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para
consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade
el-rei D. Diniz, fôra amigo dos lavradores.

Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora,
finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha
espantado da cordura com que nos travamos.

Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e
dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se
achava o seu consorcio.

Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que
não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva.
Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás
exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas
da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir
sua filha.

Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um
postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau
de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma
melancia.

Horrivel mysterio!


XII.

Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor
honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi
uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de
pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!

Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior
capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no
momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai.
Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos--uma mulher a comer
figos!--Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o
leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar,
porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns
instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no
quarto.

Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia.
O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna
memoria:

1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á
cara do preto.

2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de
Hermenigilda um bocado do coração da melancia.

3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita
melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.

4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da
morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas
vertebras lombares.

5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e
teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o
preto ao chão, e fugiu.

Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios
d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a
cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da
rua, e entrou em minha casa.

Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel
perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e
me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e
dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.

Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior,
que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival
tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço,
vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira,
tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por
ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé
estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe
umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que
por ahi fica archivada a paginas....

«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...»
disse elle.

--Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te
conservares na espectativa.

«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica
verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.

Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á
questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar
namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com
promessa de casamento.

Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta,
e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa
delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em
quanto o pai estava fóra.

Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:

«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que
é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de
brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?

--Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas
provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que
ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de
alguma cousa.

Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me
não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era
possivel educar aquelle espirito.

Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo,
contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir
pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que
o preto fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio
Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é
de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe
dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se
oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do
noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D.
Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de
Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes
de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio
nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda,
e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão
de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre
abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo
Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao
boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa
de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao
encontro na carreira da vida.

Já então se diziam estas tolices.


XIII.

Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão
recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em
virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na
politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios
constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão
prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu
nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam
envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte
do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro
Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu
primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com
Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar,
dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser
informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular
amigo e primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do
padre Albito Buela.

Bento de Castro--digamol-o sem desdouro seu--era ardente correligionario
de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato
do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante
do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado--aliás excellentes
creaturas--uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus
interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos
principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia
de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.

Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido
o _Contracto social_ de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a
Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as
luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de
tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de
sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na
minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove
de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não
refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos
ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel
publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da
sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus
mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra
muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a
sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger
deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a
importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um
romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que
pararam as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de
Castro?

A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão,
dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador.
Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera
das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se
preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma
moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar
espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As
heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os
meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso
regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos
precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a
philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara
de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal
discipulo de Socrates.

Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro
esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.

É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de
Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas
vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India
quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija
d'aguardente _ad hoc_.

Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada,
posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as
sympathias do preto.

Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em
Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.

Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria
na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra
aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais
syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava
angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse
resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a
materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas
pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba,
regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.

Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e
integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito
como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da
minha visinha.

Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte,
respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos
escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei
nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas;
mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.

Veremos.


XIV.

_Em que o author, depois de averiguar profundamente as conveniencias
    inviolaveis, do melindre, resolve não leccionar o publico
       em mathematicas, embora o seu amigo Bento de Castro
         assim fique privado de catalogar-se na phalange
             dos Newtons, Leibnitz, e Descartes; de
                  que resulta ficar o capitulo
                     aqui esganado pela mão
                             da moral._


XV.

O romance tem cousa má!

É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um
titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar
de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author,
respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances
eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume
para diante, como do ultimo para traz.

Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se
desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do
coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de
gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os
«Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère»
excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na
primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse,
que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na
pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem teem sempre
uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar,
sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de
Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle
escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida
por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde
infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás
avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar
capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim,
que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso
de oleo de figados de bacalhau.

João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os
seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a
honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi
eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de
idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em
fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor,
depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que
não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra
contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.

Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um
accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente
escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos
da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais
abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma
erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar
que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes
homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas
creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no
cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião
ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe
Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia,
Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama
d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos
anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor
de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de
Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas
da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave,
que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote
de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas
cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa
que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.

Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido
capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram
antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826,
acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu
romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu
romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade.
Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado,
allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias
superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico,
todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a
alma não tem nariz.

Era assim o meu fragmento:

..........................................................................

E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.

E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a
folhinha secca da alga.

E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as
plumas affagadas por um raio de lua.

Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das
igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro
assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos
cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos
e satanicos.

E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a
espadua pela padieira da porta, que se abriu.

Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a
haste melindrosa.

E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se
quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.

E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a
fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!

Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?

Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?

..........................................................................

E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.

E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer
caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta,
meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção
damnada que lhe fallava n'alma.

E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.

Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu
um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou
a fronte, e estalou pelas raizes.

..........................................................................

E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega,
pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos
homens de Celorico.

Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil
duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos
jornaes!

E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas,
como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella............
etc. etc.

E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.

É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um
fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer
editor para as minhas obras.


XVI.

Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:

«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma
suspeita menos casta.

--Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?

«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente
rapariga brincava com o preto puerilmente.

--Valha-te o senso commum, amigo Bento!--repliquei eu--Que terrivel
significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza
d'um brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo
sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para
andar entre mãos da mocidade!...

«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!

--Faz muito: pois já te esqueceu o _pueri ludunt_? os meninos brincam? e
posto que lá não diga _utriusque coloris_, d'ambas as côres, infiro que
ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. Logo
que se dá nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...

«Cala-te, importuno!--atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da
alcôfa um pão e um canto de queijo Chester.--Fica na certeza de que a
minha consciencia está socegada, tranquilla...

--O mesmo não pódes dizer do estomago...--acudi eu, vendo o precipicio
aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu
amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de
Hermenigilda.

Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor
suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto,
desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou
entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos
sustos deu á primeira mulher de Jacob.

Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando
Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli
estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado--bem sabia elle
porque, melhor que eu--e Pantaleão, com semblante rubicundo e
prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.

O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o
seguinte o que elle queria.

Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do
regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e
a prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que
sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante,
que deviam unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.

Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e
chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.

«Vamos a saber, continuou elle--aqui não ha que replicar! O primo Bento
vem já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica
sendo o capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá
amanhar a mala, e amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?

--Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.

«Pois então, eu vou dar ordens.

Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar,
afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala,
escarlate como a flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra
mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.

Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa
encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella,
devia dizer-lhe palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando
o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo
voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraçado e arredondadinho! É
a minha especialidade, leitores.)

O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me
que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento.
Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel
para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me
saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu coração
fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixões,
e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo gêlo dos desenganos
acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o
homem não é, como disse Platão, um animal implume, nem a sombra d'um
sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse Moysés, nem
animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem, vistas
as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim, é um
pedaço d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a
agora.

Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não
fosse o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava
explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades
eternas de que ninguem faz caso por isso que são eternas, e tudo que é
eterno não quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.

O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa
ou má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre
os seus irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a
fórma está no involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos
arminhos recamados de brilhantes.

Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta
annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da
posteridade.

Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.


XVII.

Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e
tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi
todos caseiros e foreiros de Pantaleão.

Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o
primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de
caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo
coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca,
instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante
enthusiasta.

Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam
«amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu
pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr
como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de
Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos
soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos
fugitivos.

Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e
vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas
tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho
do Marão.

Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira
a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.

O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de
soffrer, não lhe arrefecêra o animo!

Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa
Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro,
envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a
pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o
frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de
Bruto.

Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da
Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e
cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous
francezes em 1812.

Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho
militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel
arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João
do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo
na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.

N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um
officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e
pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a
revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a
coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza,
ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e não esperou os salpicões, nem
congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da
capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.

O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio
ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a
espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.

A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França
denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel
a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram
olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das
espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeçava, faziam
n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios
terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um «arre p'ra
diante» outras vezes chamava-lhes _filhos_.

«Quem é este mocetão?--perguntou ella ao marido, fitando Castro.

--É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da
Amarante.

«É valente?--replicou ella.

--Desejo mostrar valor--respondeu Castro.

«Sabe jogar a espada?

--Fui cadete de cavallaria.

«Defenda-se lá d'um sexto!--disse a marqueza, e recocheteou com o
cavallo para entrar em combate.

Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o
estado maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de
mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com
repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu
desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo
para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna
d'um Voltaire zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens de
dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores
felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por
se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas
inequivocas da satanica sympathia da mestra.

Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada
da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem,
subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou
uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou
á evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de
1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes
Freire.

Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto
consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina,
abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os
soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:

    Com dinheiro, pão, e vinho
    Sustenta-se o Miguelzinho,
    Sem dinheiro, vinho, e pão
    Sustenta-se a Constituição.

A _Megera_ de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D.
João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua
_Jeanne d'Arc_, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até
ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras
ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos
Canellas.[2]

O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de
Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou
em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil
cruzados com que resolveu ir viajar, se o _deus_ d'Ourique não
favorecesse a causa do marquez de Chaves.

Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio
de forças, para repassarem as fronteiras.

Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo
brigadeiro Claudino.

Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento
estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel
fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila
que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um
mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao
marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos
rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças
d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,
mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca,
onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á
baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e,
entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas
baionetadas, salvo seja, no costado.

Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me
escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse
a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.

Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta
sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a
familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas
porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.

Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e
praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho
no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito
para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse
da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.

Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu
apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço
laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de
cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da
desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida
impassibilidade, e disse:

«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com
esses herejes!»

Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe
que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para
mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o
receberia em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de
sua familia.

Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e
passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para
isso razões fortissimas.

Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a
sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.

Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração,
ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões
contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as
hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o
casamento, especie de cura homoeopatica.

Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e
continuo a merecer a confiança dos pais de familia.

     [2] D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos;
     igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo
     Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a
     João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o
     thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era
     economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos
     da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram
     enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos
     ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das
     revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage
     caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça.
     Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar
     muitas vezes esta quadra:

        En porfias soy manchega,
        Y en malicia soy gitana;
        Mis intentos y mis planes
        No se me quitan del alma.


XVIII.

Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral
publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para
com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios,
soláus, e varias outras feições do folhetim--a moral publica, dizia eu,
quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o
crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do
mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de
personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza
corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o
paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto
no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de
lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com
singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo
de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da
virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que
tão farto e nedio trazia o coração de Hermenigilda, e outras creaturas
da mesma tempera.

SCENAS DA FOZ é um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha
obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios
immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais
convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros
litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano--que escreve
sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na
perpetua florencia da sua reputação--excepto esse, os nossos primeiros
litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras,
escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em
quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a
phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a
nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario
crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo.
Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal
consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de
escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje
nos limbos da velha academia.

Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu
romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das
vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que
alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de
philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina
finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios
luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor
illustrado, e tambem a minha.

Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente
soêzes, e outros hypocritamente pudibundos. Os primeiros dizem que o meu
romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem
idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.

Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras
estrangeiras, e não é tão bonito como as _historias proveitosas_ do
Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me
pena.

Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos
vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se
mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis
annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!

Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar
fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam
a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos
outros com meia duzia de palavras convencionaes? _Alphonse Karr_ não
conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama elle _mulheres
pequeninas_. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de
certas palavras antiquissimas, como, _verbi gratia_, pudôr, honra,
amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe.
Eu creio na _innocencia_ das mulheres como synonimo de _pureza_; mas de
_simplicidade_, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados
da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do
seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as
suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que
me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do
author de _Les Femmes_.

Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me
quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade--e mais se
doem do pungir do espinho que já se lhes não esconde em flores...
Lembram-me então aquelles versos de Béranger:


    Prudes, qui ne criez plus
        Lorsqu'on vous viole,
    Pourquoi prendre un air confus
        A chaque parole?

Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os
chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada
de ser caritativa.

Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com
deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades;
querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes
buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel,
é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que
não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.

O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma
paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa,
e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma
irreligiosa philosophia.

Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds
melancolicamente piegas.

Não verterei nas almas o nectar libidinoso do _Sophá_ de Crébillon.

Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua
philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão
flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira
que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.

Não direi, como Goethe, aos infelizes que se matem; e, se fôr
necessario, provarei que Werther foi um tolo, se existiu; Gilbert,
Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e
Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.

O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma
o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a
humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos
dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a
philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são.
Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os.
Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que
o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As
paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de
molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu
Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda,
nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.

O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada
importante. O que vem é de certo o melhor de todos.

     [3] Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de
     1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem
     um monumento no cemiterio do _Repouso_, com o seguinte epitaphio
     que não diz nada:

        Saudade perennal, geme, e avalia
        Thesouro de que é cofre a sepultura.

     Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um
     sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o
     amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha
     talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve
     muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte.
     Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite.
     Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho.
     Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné
     de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia
     legar...


XIX.

Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta
annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As
palavras que então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos,
as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me
déra nesse tempo! É o caso:

Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda
da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que
tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia,
D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o
qual casou na dita casa de Cabeça de Veado, como consta da Chorographia
de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente,
nas Nobliarchias ineditas de Alão de Moraes, no appellido «Maldonado».

Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu
primo, reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa
que sabe de sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o
alargamento dos tecidos, accumulados n'uma região, com detrimento
d'outras, é uma pseudo-gordura.

Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou
em averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente
casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o
comêço, e o progresso das relações, excepto o que elle, ainda que
quizesse, não poderia contar em estylo oriental.

Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a
contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.

«Com que então--disse a velha--tu vaes casar, e não me davas parte?!

--O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...

«E gostas muito do teu noivo?

--Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.

«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar
casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te
deixares vencer pela tua paixão...

--Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?

«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era
um malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?

--Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo
machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo,
como quizerem.

«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio
é apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem
vos visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que
acontece na nossa linhagem!... Pois tu...--continuou a velha inexoravel,
em quanto Hermenigilda fazia torcidas nas pontas do lenço do
pescoço--pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa
plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo
mais antigo d'Entre Douro e Minho?

--O amor quando é de raiz...--balbuciou a pobre menina, purpuriada como
a fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.

«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai--exclamou com violencia D.
Mafalda--te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos
appellidos que tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os
ossos de teus ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos
da Carraça, e de Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste
similhante affronta á nossa jerarchia?

D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da
caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo
ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para
lhe pedir que não dissesse ao pai o mal que o seu _amor de raizes_ lhe
fizera.

Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a
descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou
por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa
possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado
em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.

Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara
como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar
d'um bacamarte para arcabusar a filha.

D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o
de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a
Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha.
Pantaleão preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei
cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas
aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.

Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a
postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto.
Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando
pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma
cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.

O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:

«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um
bregeiro!

--Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu
genro?

«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.

--Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.

«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!

--Nas ilhargas! que quer isso dizer?!

«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu
amigo é mandado para o inferno.

--Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...--repliquei eu, sentindo
tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na
compressão do riso.

Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a
cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas
apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe
prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por
sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a
callosidade de um enorme joanete do pé esquerdo.


XX.

Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena
lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não
hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde
muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não
tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a
morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo
que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira
maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o
casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia,
e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das
loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não
fosse muito--disse elle--isso não importava, porque o amor-habito viria
com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e
humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e
fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os
haveres da noiva. É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer
castellos no ar como em Amarante.

N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião,
onde eramos esperados por um extraordinario successo.

Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente,
berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas
palavras, que eu communiquei ao meu amigo.

Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que
parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada,
exclamou:

«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V.
s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»

D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos
berros, e disse com senhoril gravidade:

--O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é
de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está
aqui para remediar o mal que fez.

«De certo, minha senhora--murmurou o meu amigo.

--Pois então--acudiu Pantaleão--trate-se já do casamento.

«Já?! não é possivel!--redarguiu D. Mafalda--A menina está... pois tu
não sabes como ella está?!

--E então que tem lá isso?!--replicou o fidalgo--Chama-se ahi o abbade
ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.

«Eu estou prompto a obedecer-lhe--disse Bento;--mas eu muito queria que
a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa
existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo
seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se
por em quanto não ha receio, por que não ha-de o nosso casamento
espaçar-se para um dia mais alegre?

--Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...--disse D. Mafalda.

Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma
tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a
tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da
bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças
seguras da queda da constituição.

D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha
chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o
levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.

Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas
palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da
sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e
defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos
gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um
passeio no pinhal visinho.

«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já
a sentir o amor paternal?

Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos
de que posso recobrar a minha felicidade perdida.

--Pois, parabens, meu caro Bento!

«Ha nada mais poetico--proseguiu elle, cada vez mais commovido--que o
espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe
desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres
para mim?!

--Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da
minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas
se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e
trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...

«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...--atalhou o meu
amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha
paternidade--Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje
esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se
Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da
minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr
menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar
que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh!
então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!

A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai
de certo perdoa ao meu amigo.

Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me
nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que
fôssemos continuar as doces _réveries_ no nosso quarto.

Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante,
chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a
informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo.
Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende,
um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D.
Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.

Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que
Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes,
quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho
de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos
enfesadinhos.

Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu
do quarto: era D. Mafalda. Cousa extraordinaria! A velha fidalga sahiu
como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente
se benzer!»

--Que diz v. exc.ª, minha senhora?--repliquei eu--É menino ou menina?

«Eu sei cá... Santo nome de Deus!--balbuciou ella.

Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D.
Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração
da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas
minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me
disse que o nascido era rapaz, mas...

«Mas o que, minha senhora, queira acabar...

--Mas é preto!--disse ella, escondendo o rosto nas mãos.

Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de
nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas
o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao
fundo d'alma.

Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:

--Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.

«Pois que é?!

--Já, já, é necessario sahir já d'aqui...

«Por quem és, explica-te, João.

--E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos
apparelhar os cavallos.

Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do
idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não
se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e
disse-lhe:

«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...

--Se elle é meu filho...--murmurou elle.

«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!

--Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!

N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma
filha da caseira:

«Nasceu um menino.

E a caseira respondia:

--Que seja para boa sorte.

«E a SORTE EM PRETO é a melhor...--murmurei eu, segurando o estribo do
cavallo de Bento.

O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de
Castro. Partimos.


EPILOGO.

O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho
d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha.
Quem o esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar
supposições de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a
parteira de Canavezes, e não se sabe o fim que lhe deram. Pantaleão
morreu.

Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais
respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres
vezes deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus
é servido, pasmado do muito que tenho visto.


FIM DO LIVRO PRIMEIRO.




                          LIVRO SEGUNDO.


                            DINHEIRO.




LIVRO SEGUNDO.


DINHEIRO.


I.

Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos,
passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés
sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do
_Pastelleiro_, nos suburbios de S. João da Foz.

Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas
hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre.
Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa
impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de
saber quem morava alli.

Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto
de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar.
Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!

Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O
ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha
cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher
apparecera então para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a
visse.

Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me
entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.

«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo
mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite.
Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através
d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos
meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.

A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com
a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu
podia pouco avistal-a.

Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos
cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as
feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar,
vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma
estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.

Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza
a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração
de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por
esses tempos!

Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não
via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!

Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por
mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso,
florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de
sazonarem.

Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São
essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do
seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde
desarreigal-as.

E por isso aquella mulher do _Pastelleiro_ entrára em minha alma, vaga
de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e
treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com
anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em
todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não
eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!

Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus
numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de
linhaça e oleo d'amendoas doces.

Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de
sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a
perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das
flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz
fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar
com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.

N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga
era d'aquellas que se curam homoeopathicamente, e eu de certo não
conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que
dizem que a homoeopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o
da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá
ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma
tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente
homoeopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado
se consolide. Ninguem como ellas se cura tão depressa das molestias
d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da
mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em
breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar
que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra
que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e
um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.

Acabem as divagações.

Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica
d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude
melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da
porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O
vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as
costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas
palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a
mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com
a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu,
espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e
imaginava.

Não pararam aqui as visões estupendas.

D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que
rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da
vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes
magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais
para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o
acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.

Maravilha!

Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o
suspirar de brisa por entre flores, e o murmurar de fontinha no cristal
da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que
nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era
ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu
exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o
espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Goethe, a
descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que
foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.

Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a
letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez
improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade,
continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir
as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.

    Dai esmola d'amor á desgraçada,
    Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher
enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez
mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel
melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a
tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas
d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro
das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos
rochedos.

Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a
cabeça triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não
era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.

A natureza ouviu-me em silencio.

Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella
faz?!


II.

No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha
mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura,
e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um
soffrivel _baritono sfogato_. Principiei cantando lições da semana
santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar
n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos
consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla
em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.

Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das
margens do seu rio.

E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os
pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora
desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella
espiritual mulher.

Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a
mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de
tristeza.

Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas
sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de
papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:

    Dai esmola d'amor á desgraçada,
    Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio,
e cantei:

    Neste ermo, triste, e só, e abandonada
    Quem desta alma o gemer escutará?
    Dai esmola d'amor á desgraçada,
    Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o
mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a
ver:

    São horas mortas; vem, ó meiga fada,
    E um beijo para o céo leva de cá.
    Dai esmola d'amor á desgraçada,
    Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do
estro. O _Deus_, _ecce Deus_ do famoso poeta, experimentei-o então.
Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara,
febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era
a hora das expansões e eu prosegui:

    Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!
    Meu hymno, triste, como o teu dirá:
    Dai esmola d'amor á desgraçada,
    Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.

Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou
aberta. Decorreu uma longa hora. As orlas do mar arraiavam-se da luz da
aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida
florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.

E a janella ainda aberta.

Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella
vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do
saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de
branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás
primeiras lufadas do sol que ia nascer.

Ver-me-ia ella?

Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de
quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por
longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia
negro e indigno de mim.

Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão
encantador o do mar!

Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!

Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar
esta alma arida!


III.

O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do
Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas
estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido,
que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada
adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de
dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora
das lagrimas, em presença das estrellas.

Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.

A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das
cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava
vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte
ella me inspirava.

Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena
porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta
deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a
fachada trazeira da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres,
uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As
pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O
sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não
pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não
sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do
fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.

Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em
quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia
increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.

Respondi:

--Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava,
entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.

«Então vocemece--tornou a velha--está a banhos?

--Sim, senhora--respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade
de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava
uma demora justificada.

«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas,
tal qual é, está ás suas ordens.--

Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não
lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.

A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu
canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha
sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas
mulheres bellas encontrára.

Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.

Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz mais fino e
transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo,
apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá
incorrectas.

Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos,
menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar
dos olhos negros.

Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que
não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.

Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares,
especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.

Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher,
que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro
material d'um grande espirito.

A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a
custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das
voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade
grosseira.

Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as
caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam
desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.

Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o
leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a
sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença
della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da
alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de
mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo,
entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:

    Dai esmola d'amor á desgraçada,
    Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei
descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos,
d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o
adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta,
respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu
ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!

O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez
magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a
immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....
..........................................................................

Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella
mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva.
Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio
magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem
que não sou visto.

«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.

--Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta
casa pelo S. João.

«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?

--Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem
alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a
apparecer.

«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.

--Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.

«E que diz a criada?!

--Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não
pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.

«E como se chama a tal senhora?

--É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.

«E ella não toma banhos?

--Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa
do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.

«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a
bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.

A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do
rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha
generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai
denuncial-a:

«V. m. vai áquella casa?

--Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.

«E quem lhe faz os recados?

--Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se
demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a
vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer
o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a
mim--concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva--em quanto
a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.--

Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta.
Não vi Felismina, nem a criada.

Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.


IV.

Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se
acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela
superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a
crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do
oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se
de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente,
menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros
ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.

E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este
espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando
observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as
janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo,
povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios
d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos,
fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida
senhora, de joelhos com a aterrada Thereza, estivesse resando a
_Magnificat_ e jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de
um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de
pavôr... não a verei hoje!

Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe
que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.

Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo
pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa
quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,--o que é
peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede,
e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no
peitoril da janella!

Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os
olhos mergulhados nas trevas onde me vira.

Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria
era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção
d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a
minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!

E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na
face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me
os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da
chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que
fôra um engano. Ai! não era, não!

«Póde abrir--disse ella--esse portal grande, e recolher-se da chuva.

--Não a sinto, minha senhora--balbuciei eu.

«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não
pára tão cedo--tornou ella.

--As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...

«Como?!--interrompeu ella.

Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer.
Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.

Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua
encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as
jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a
esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e
scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.

Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje
sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei
suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica,
aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!)
e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as
costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o
sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.

A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no LIVRO PRIMEIRO, a
folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos
desambiciosa.

«Credo!---exclamou ella--o senhor está de menores! isso é feitio! Olha
que preparo!

--Não fuja, tia Poncia--disse-lhe eu, meditativo e funebre como o
fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres--Venha cá, tia Poncia,
que eu preciso das suas consolações.

«Valha-o Deus!--tornou ella--Suou tres camisas, e pranta-se no meio do
soalho com o _cadable_ ao ar!

--Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem,
exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.

«Que está ahi a _alanzoar_ o snr. João? Se eu o percebo, cebo! Ora vá-se
vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra
arrijar.

--Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a
vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o
Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre
incessante.

«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram
alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo
caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da
cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus
quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que
clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua
é um patacão. Má breca os tolha!

--Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher
experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me
cá aquellas pantalonas, e fallaremos.

«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora
queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno
que lhe pôz o sal na moleira...

--Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.

«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os
sinos a defuntos?

--Não me córte o discurso. Esta mulher vive...

«Ah! sim? inda bem, inda bem!

--E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher
vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem
nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as
estrellas...

«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?

--Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos
annos, e parece que está cada vez mais tonta!

«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe
disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!?
Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com
a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se
lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E
agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só
apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer,
e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que
anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que
mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o
mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar
arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para
estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!

Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente,
foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de
azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S.
Cyprianno--tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha
pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de
orações _ad rem_.


V.

Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a
apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais!
Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se
retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda
todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára
na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina.
Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu
amor-proprio.

Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que
Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu
colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse
o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis:
pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não
viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de
saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula
das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia,
quando tres vultos, vindos do lado de Lordello, passaram defronte da
casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para
me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que
machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta,
e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros
pareceram-me armados de paus.

Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das
portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a
distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do
patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres
marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e
viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo.
Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi
subitamente aberta.

Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina
deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura.
Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o
caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma
pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos
de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce
encavada n'um pau.

Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de
Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella,
porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.

Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:

«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram
a um homem só.»

A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em
fralda, com um bacamarte engatilhado. Vendo-me, veio direito a mim na
melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou:
«Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»

O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote
vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este
senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina
provava que ella não carecia d'esta novidade.

Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro
interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli
áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou,
pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal
desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga
d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento,
que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da
senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa,
cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice:
sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se
na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos
salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da
noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos
na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito
algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.

Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a
pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e
feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da
bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche.
Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o
bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto
estava impregnado d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo
o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora
popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que
tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um
possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui
adormecer embalado pelas minhas esperanças.

No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a
maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me
o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao
encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa,
parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza
fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em
redor com desconfiança, e disse-me:

«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e
pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta
foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»

Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado!
Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu,
caminhando com ella, lhe disse:

--A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?

«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o
que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se
fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina
custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse....
Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.--»

Não esperou resposta.

Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio
o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.


VI.

O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos
treguas dava á minha ancia.

Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance,
Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para
cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças
d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer
a resistencia magnetica que me lá prendia.

Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um
vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando
eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim.
Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me
todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser
prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois
do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante
prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me
atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.

A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me
sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu
caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...

O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho,
e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada.
Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse.
Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não
podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me,
causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.

Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei,
e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se
estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da
Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella:
«Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós
feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»

Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por
fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da
noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir
alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre
Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»

Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a
primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida
senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu
contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com
ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o
exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da
reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que
de dia compozera o meu exordio; porém, atido ao improviso do coração,
iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou
desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.

Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis
passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas
pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir
antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse
Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle
instante. Um tal _Estevão_, em presença d'uma tal _Magdalena_, não
podendo vencer o susto do primeiro encontro, _faz um esforço como um
homem que fecha os olhos para saltar um fôsso_. É bem dito isto; não se
diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da
janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a
certeza da minha ida.

«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia
dizer, depois d'uma investida tão vehemente.

--Boas noites--murmurou ella com voz abafada e tremula.

«V. exc.ª conhece-me?--tornei eu, querendo dar á pergunta um tom
melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.

--Parece-me que é a pessoa que hontem...

«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar
perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...

--Devo-lhe um grande favor--atalhou ella, não menos agitada que eu--e
por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...

«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª
me diga se eu devo pedir-lhe perdão...

--De que?!

«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...

--A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será
sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á
fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros...
Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...

Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina
acabava de apagar a luz, e estava já na janella.

Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa
entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se
mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das
serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos
malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr
sulphurea e phantasticamente prosaica.

Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado
pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse,
logo que eu voltei de espionar o quinteiro:

--O senhor de certo me não conhece...

«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse
dizer como eu a conheço...

--Queira dizer...

«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se
conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina;
como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos
homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de
encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se
conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o
nas alturas do céo.»

Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não
disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no
_Renegado_ de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella
me não interrompesse com vehemencia:

--Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...

«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!

--_Felismina!_ (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que
me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a
caseira, não é verdade?

«Sim, minha senhora.

--Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...

«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o
depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A
mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...

--Não me surprehende...--tornou ella vivamente commovida--Eu sei que me
ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que
n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que
cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa
saudade como as eu chorava então...

«Que faria a esse homem?

--Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha
fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não
queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é
trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho
sobre o meu coração para jámais se alliviarem...

«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas
confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até
com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?

--Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não
póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão,
dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que
fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta
franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o
conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina
fatal enganar-me.

«Enganal-a...--interrompi eu, com exaltado resentimento.

--Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso
julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e
d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação
d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não
voltar aqui?

«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com
que a pergunta me era feita.

--Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas
relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz;
eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso.
Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto
desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero
habituar-me á sua voz.

«Só por compaixão de si mesma?--atalhei eu, sinceramente commovido--Não
será antes pena de mim?

--De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que
não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande
dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.

«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer
_irmãos_?

--Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo... quantas vezes eu lhe
peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e
virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão
afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo...
Creia-me, se poder.

«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que
eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para
suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da
vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito
desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D.
Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe
acudir.

--Não póde, não póde...--interrompeu ella soluçando--O mais que póde é
compadecer-se.

«E não é a compaixão um lenitivo?

--É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não
imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente
entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei
martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o
melindre da minha infelicidade...

«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?

--Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu
delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.

«Como?!--interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da
bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e
metade de D. Quixote de la Mancha.--Como?! pois ha, para vergonha da
minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma
victima tão resignada!

--Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja
luz n'uma casa que está ao fundo do quinteirão. Quem sabe se os caseiros
estão comprados? Veja, veja.

Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas
rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na
averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim
dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem
estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha.
Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de
observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido
estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a
marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico
para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.

A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã.
Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os
passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a
disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como
elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em
harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu
escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas
e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime
romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as
suas palavras:

--É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me
deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas
vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não
me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem
persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu
bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as
colloque em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é
porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena
d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É
preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo
deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que
muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se
primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza,
nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe
confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca
esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.»
Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse,
sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois
da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de
tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa
criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga
incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.--

Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.

Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a
baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande,
extraordinario, e fadado para grandes lances.

Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia
estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que
Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os
brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com
a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma
alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me
fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não
obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo o meu fastio ao
jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o
estomago.

Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor
vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a
esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão.
Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um
tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu
verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:

«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás
almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e
o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e
tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais
acertado.

Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.


VII.


Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o
meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto
muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella
ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos
por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que
morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não
resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o
periodo é uma especie de machina pneumatica.

Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina;
mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu
tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos
fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e
enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas
imaginarias victimas--esse, que a maior parte das vezes é um pobre
homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com
que se fascinam as mulheres.

Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do
Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.

Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa
commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a
reputação desta senhora.

D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste
historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não
eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no
seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas
o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume
continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito
um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar
interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado
disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno,
cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos
o seu nome.

Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi
sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma
contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que
estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de
mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de
barbaros--essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos
que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar
dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora
que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum
dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de
grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre
os meus herdeiros.

Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou
contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar
aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu
promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então,
pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella
rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate.
Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na
terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo
repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu,
velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a
alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e
toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge
posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu,
finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar
com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões
d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.

Ahi vai agora o conto:

Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz

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