Amor de Salvação
by Camilo Castelo Branco · Portuguese · Gutenberg #26988 · 317,366 chars · public domain (US)
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Title: Amor de Salvação
Author: Camilo Castelo Branco
Release date: October 21, 2008 [eBook #26988]
Language: Portuguese
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AMOR DE SALVAÇÃO
AMOR DE SALVAÇÃO
POR
CAMILLO CASTELLO-BRANCO
A heavy price must all pay who thus err,
In some shape; let none think to fly the danger,
For soon or late Love is his own avenger.
BYRON--_Don Juan, c. IV. est. 73_.
L'amour n'a point de moyen terme: ou il perd, ou il sauve.
V. HUGO--_Les Misérables_.
PORTO
EM CASA DA VIUVA MORÉ--EDITORA
PRAÇA DE D. PEDRO
A mesma casa em Coimbra, rua da Calçada.
Casa de Commissões em Paris, 2bis, rua d'Arcole.
1864
PORTO--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
Cancella Velha, 62
A JOSÉ GOMES MONTEIRO
_Meu amigo_
_Peço licença para inscrever o seu nome na primeira pagina d'este livro.
Esta fica sendo para mim a mais prestante da obra. As outras são
futilidades; por que lagrimas e alegrias de romance é tudo futil._
_No Minho, em 1864._
_Camillo Castello-Branco._
OBSERVAÇÃO
O leitor folhêa duzentas paginas d'este livro, e o amor de felicidade e
bom exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Tres partes do
romance narram desventuras do amor de desgraça e mau exemplo. A critica,
superintendente em materia de titulos de obras, querendo abater-se a
esquadrinhar a legitimidade do titulo d'esta, póde embicar, e
ponderar--que o amor puro, o amor de salvação vem tarde para desvanecer
as impressões do amor impuro, do amor infesto.
Respondo humilimamente:
Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e
deshonra. Então é que o senso intimo amostra ao coração a sua ignominia
e miseria. A consciencia regenera-se, e o coração, rehabilitado,
avigora-se para o amor impolluto e honroso. Assim é que as enseadas
serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem o naufrago
aferrado á sua tabua. Sem o impulso da tormenta, o naufrago pereceria no
mar alto. Foi a tempestade que o salvou.
Além de que a felicidade, como historia, escreve-se em poucas paginas; é
idyllio de curto folego: no sentir intraduzivel da consciencia é que
ella encerra epopeas infinitas;--em quanto que a desgraça não demarca
balizas á experiencia nem á imaginação.
Para o amor maldito, duzentas paginas: para o amor de salvação as poucas
restantes do livro. Volume, que descrevesse um amor de bem-aventuranças
terrenas, seria uma fabula.
O AUTHOR.
AMOR DE SALVAÇÃO
I
Estava claro o céo, tepido o ar, e as bouças e montados floridos. O mez
era o de Dezembro, de 1863, em vespera do Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que paiz do mundo florecem, em
Dezembro, bouças e montados.
Respondo que é em Portugal, no perpetuo jardim do mundo, no Minho, onde
os inventores de deuses teriam ideado as suas theogonias, se não
existisse a Grecia. No Minho, ao menos, se buscariam aguas lympidas para
Castalias e Hipocrenes. No Minho, a Cythéra para a mãe dos amores. Nos
arvoredos d'esta região de sonhos, de poemas, e rumores de conversarem
espiritos, é que os satyros, as dryades e os sylvanos sahiriam a
cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a
natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se á
phantasia de poetas.
Mas que flôres... quer o leitor saber que flôres vestem os calvos e
denegridos serros do Minho, em Portugal. São flôres a festões, cachos de
corolas amarellas, viçosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados
em jardins: é a florescencia dos tojaes, plantas repulsivas por seus
espinhos, alegres de sua perpetua verdura, unicas a enfeitarem a terra
quando a restante natureza vegetal amarellece, definha, e morre. E
d'esse privilegio como que o agreste arbusto se está gozando
soberbamente; pois que vos amostra as suas pinhas de flôres, e com os
inflexiveis espinhos vos defende o despojal-o d'ellas.
E n'aquelle dia 24 de Dezembro de 1863 andava eu no Minho, por aquella
corda de chans e outeiros, que abrangem quatro leguas entre Santo
Thyrso, Famelicão e Guimarães.
Eu, homem sem familia, sem mão amiga n'este mundo, ha trinta annos
sósinho, sem reminiscencias de caricias maternaes, bem-quisto apenas
d'uns cães, que pareciam amar-me com a clausula de eu os sustentar e
agasalhar; eu, que, n'aquelle tão festivo dia da nossa terra, não tinha
colmado onde me esperasse um amigo pobre para me dar entre os seus um
lugar no escabello, nem parente abastado, que de mim se alembrasse á
hora dos brindes com generosos vinhos em lucidos crystaes, eu, vendo-me
com lagrimas em minha sombra, assim me fôra a contemplar a felicidade
alheia pelas chans e outeiros do devoto Minho.
Eu caminhava a pé, guiando-me ao sabor da imaginativa idéa, que se
deleitava em vestir de folhagem a arvore nua, e tristemente inclinada
sobre o colmado do casalejo. Parava em frente de cada choupana, e
meditava, e escutava o rumor das vozes que lá dentro, ou no ressaio da
horta, se misturavam em dizeres alegres ou cantilenas allusivas ao
nascimento do Deus-menino. Diante dos portões gradeados do proprietario
rico é que eu não parava, nem meditava. Se lá dentro de suas salas iam
alegrias, como em casa do jornaleiro, não sei: o certo era que as
paredes da habitação opulenta não deixavam sahir uma nota para o hymno
geral de graças e jubilo com que a pobreza saudava o Emancipador dos
desherdados, o Senhor dos mundos, nascido e gasalhado nas palhinhas de
um presepio.
O sol, desnublado de vapores, como nas tardes serenas de Julho,
oscillava nas montanhas do poente, e azulejava as grimpas dos
pinheiraes, d'onde eu, a contemplal-o, me esquecera da distancia a que
me alongára da casa hospedeira d'aquella noite. Transmontado o sol,
desceu das cumiadas um toldo pardacento a desdobrar-se pelos plainos, a
confundir-se no fumo das aldêas, a identificar-se com o escuro dos
arvoredos. Fez-se um silencio progressivo e rapido em redor de mim.
Começava a noite sem bafejo de vento. Nem já a rama dos pinhaes
rumorejava aquelle seu saudoso sonido, que se me figura sempre a
inarticulada toada de mui remontadas e remotissimas vozes de mundos que
giram nas profundezas do espaço.
Tirei-me do meu enleio contemplador, e retrocedi pelo mal sabido atalho,
antes que a cerração completa me tolhesse de enxergar ao longe o alvejar
da casa, entre dous outeiros. Não valeu a precaução. Ás abas do
declivoso montado, eram muitos os caminhos a cruzarem-se. Segui um á
sorte; e, como prova de que a sorte nem em escolha de caminhos deixou de
ser-me sempre boa, segui o peor e o mais transviado de todos. Por volta
de sete horas, depois de dobrar uns serros inhabitados, achei-me n'uma
póvoa, onde me disseram que eu, por aquelle caminho, chegaria mais cedo
a Roma que ao local onde me destinava.
A pessoa, que respondeu assim á minha pergunta, fallou-me d'uma janella
envidraçada, e acrescentou:
--O senhor, se não sabe o caminho, como de facto não sabe, pelo tino é
incapaz de acertar. O que eu posso fazer é mandar alguem ensinal-o; mas,
se não é força ir hoje, pernoite n'esta casa, e amanhã irá. Verdade é
que, n'esta noite, custa muito a ficar em casa estranha; porém...
--Todas as casas são estranhas para mim...--respondi eu.
--Pois então, aceite esta que se lhe offerece da melhor vontade. O
portão está aberto. Lá vou abaixo recebel-o.
Entrei n'um vasto pateo, contornado de arcadas semelhantes ás da
claustra monastica. Logo em seguida, o hospitaleiro senhor do magnifico
edificio sahiu do escuro da arcaria, e disse-me antes de me vêr de
perto:
--Eu já sei quem recebo em minha casa, e o meu hospede, se tiver memoria
dos seus relacionados de ha quinze annos, tambem me vai conhecer.
--Pela voz ainda não--disse eu, encarando-o, sem vislumbres de vaga
recordação.
--Alli temos luz--replicou elle--Muito velho e desfigurado devo estar,
se nem á candêa me reconhecer vossê!...
Examinei-o á luz attentamente; e, como nem assim me acudisse á memoria
semelhança de tal homem, retorqui:
--O senhor talvez esteja enganado commigo. É provavel que nos vejamos
agora pela primeira vez.
--Então qual de nós é o romancista? Vossê que os anda a procurar, ou eu
que estou manso, quieto, e estupido em minha casa? Quererá vossê ir
dizer em alguma novella que encontrou n'um recanto do Minho um
visionario chamado Affonso de Teive...
--Affonso de Teive!--exclamei eu--Affonso de Teive... o senhor?! Essas
barbas... essa nutrição...
--E estes oculos...--atalhou elle.
--É verdade... esses oculos...
--E estes tamancos!...
--Pois, devéras, o senhor é Affonso de Teive... tu és Affonso... aquelle
que tinha em Lisboa...
--Uma casa no Campo Grande, e uma parelha de hanoverianas, e um
phaetonte, e uma berlinda, e cavallos arabes, e paixões ideaes, e muitas
paixões sem faisca de idéa... Sou eu! É este homem gordo, intonso, de
oculos, de tamancos, este lavrador, que aqui vês, possuidor d'um
thesouro que os reis do universo disputam ha dezenove seculos uns aos
outros, e as nações disputam aos reis, e os individuos disputam ás
nações, e cada individuo disputa e destroe em si proprio e com as suas
proprias mãos: sabes que thesouro eu possuo, homem?
--A paz?
--A felicidade.
--Isso é uma historia!--atalhei eu--Pois tu achaste a felicidade?... e
tu és realmente Affonso de Teive?... E estes dous pequenos?--perguntei
eu, quando vi dous meninos entre seis e oito annos a correrem em
direitura d'elle--são teus filhos de certo...
--São, e lá em cima não ouves o tropel que fazem os outros seis?
--Pois tens oito filhos?
--Espero o nono brevemente.
--E és...
Retive a palavra. Ia eu perguntar-lhe grosseiramente se elle era feliz
com oito filhos; pergunta desculpavel ao Affonso, que eu conhecera desde
1845 até 1851.
Eu tinha visto Affonso de Teive, em Coimbra, n'aquella primeira época,
matriculado no curso philosophico. Pertencia ao circulo de litteratos,
creadores da _Revista Academica_ e _Trovador_; e tambem, nas horas
furtadas ás palestras litterarias--quasi sempre controversias ácerca da
primazia de Lamartine ou Victor Hugo--pertencia á grande tribu dos
_trossistas_, gente arruadora e desatinada, para quem as saudosas
tradições do famigerado José Lobo não tinham ainda esquecido. Esta
dualidade em Affonso de Teive era uma distincção, que o tornava menos
agradavel aos litteratos circumspectos, e menos estimavel tambem aos
camaradas das assuadas e motins nocturnos. Affonso era poeta n'um genero
galhofeiro, quando queria; e dedilhava o alaude das elegias, se lhe dava
para lastimar-se, ou carpir saudades imaginarias de mulheres, suas
amadas, fugidas d'este lamacento globo para os plainos balsamicos do
céo. É o que me parecera a mim. Tinha dias de escrever jaculatorias em
verso, que dariam fama a um eremita da Thebaida; n'outros dias,
satyrisava a religião, os dogmas, e a propria divindade com os apódos e
dialectica d'um desbragado discipulo de Voltaire. E o mais para assombro
é que elle parecia sentir no coração o ascetismo de hoje, e a impiedade
de ámanhã: agora, iria de poz o pallio da extrema-uncção murmurando as
preces do povo, que não se peja de orar em publico e alta voz; e logo
bem poderia succeder que, encontrando o mesmo prestito, não levasse a
mão á fronte para tirar o gôrro. A um homem assim dotado de tão
contradictorios espiritos, facil seria agourar-lhe grandissimos
dissabores no trajecto da existencia: para os semelhantes d'aquelle
funesto modêlo, as estradas communs da humanidade não conduzem a paragem
nenhuma certa; nem o coração nem o espirito aceitam leis immutaveis; a
moral é um facto, cujas condições deve e póde infringir aquelle a quem
ellas não aproveitam; em summa, Affonso de Teive dava a prever um
desgraçado, a menos que em sua indole não sobreviesse uma das raras
revoluções, que inopinadamente transfiguram o homem moral, se não é o
abalo da mesma desgraça que opera esses prodigiosos reviramentos.
Tal conheci em 1845 em Coimbra o meu hospedeiro minhoto de 1863.
Encontrei-o, depois, no Porto em 1848.
Achei-lhe a mudança que influem os salões nos espiritos, para assim
dizer, incultos da cortezania e graciosidade de que em geral carecem os
mancebos sahidos dos cursos escolares.
Affonso de Teive tinha fama de rico. Escutei o que diziam os almotacés
dos haveres de cada sujeito admittido á sociedade portuense--pessoas,
que á vista do zelo com que indagam os minimos valores do sujeito,
parecem habilitar-se para mordomisarem os bens de quem chega--e ouvi que
Affonso era natural do Minho, filho unico já orphão de pae, e senhor de
sua casa, estimada em cento e cincoenta mil cruzados. Em quanto a
costumes, dizia-se que o rapaz era dado ao namôro, borboleteava por
diversos camarotes do theatro de S. João, assoprava zelos e raivas entre
umas tantas senhoras nos bailes, e pouco mais digno de censura. De
escandalos, não rosnava cousa importante a opinião publica. A mocidade
do Porto, por despeito, ou por outro qualquer sentimento igualmente
natural que desculpavel, é que, no intento de deprimir o Tenorio do
Minho, divulgava, como quem diz muito secretamente a cousa, que varios
maridos andavam enganados com Affonso de Teive; porém, como acontecia
que os maridos indigitados se satyrisavam uns aos outros, observando e
censurando cada um a demasiada confiança do outro, é hoje cousa
difficilima de tirar a limpo se algum dos maridos se enganava, ou se
todos se enganavam, ou se não se enganava nenhum. Se o leitor considera
que seria curioso esquadrinhar o caso, eu de mim entendo que a
humanidade não ganha com isso nada, e por tanto n'este, e em muitos
outros artigos advenientes de moral duvidosa, ponho, e porei ponto,
quando não seja preciso á contextura d'este romance desvelar factos
censuraveis.
Affonso sahiu do Porto n'aquelle mesmo anno de 1848, com destino a
França, segundo uns, e á Turquia, segundo outros. Os d'esta opinião
diziam que elle, convencido de que tinha uma cara oriental, ia para
terra onde podesse vestir-se de modo que o rosto lhe sahisse melhor do
que entre uma gravata de laçarias portentosas e um canudo de felpo
lustroso. E certo era que o typo physionomico do cavalheiro minhoto era
sobremaneira arabe, por causa do nariz fino, dos olhos coruscantes, da
tez azeitonada, do espesso bigode negro, e do comprimento e magresa do
rosto. Se ajuntarmos a este composto de venturosas e aventureiras
feições o estar elle sempre fumegando por cachimbo turco, dir-se-ha que
os turcos é que propriamente, lá na sua terra, o andavam imitando a
elle.
Se foi á Turquia, é de presumir que rivalidades com o sultão, ou--peor
ainda--tentativas de invasão ao harem o obrigaram a voltar a Portugal,
onde os direitos de cada homem e de cada mulher estão muito mais
razoavelmente definidos e garantidos. A verdade é que eu, no fim do anno
seguinte, encontrei Affonso de Teive em Lisboa, cavalgando um donoso
alazão ao lado de uma amazona, cujo mursello fazia admiraveis gentilezas
de picaria. Deu-se este encontro no Campo Grande, n'uma tarde de
corridas equestres. Alguem cuidaria que a soberba cavalleira, d'uma
formosura invejavel na Circassia, devia de ser a esposa raptada d'algum
_gran-visir_; pessoas, porém, melhor informadas, disseram-me que a
esvelta dama era portugueza de lei, portugueza do Minho, dos arrabaldes
de Braga, onde os reaes sensualistas do Islam mandariam subornar as suas
sultanas, se soubessem que n'estas regiões as mulheres, que, por acaso,
sahem feias das mãos da natureza, aprendem a ser bonitas com as flôres.
Releve-se este orientalismo a quem está tratando de cousas asiaticas
como a cara de Affonso, e o garbo peregrino de Palmyra.
Palmyra me disseram que se chamava a gentil creatura.
Posto que eu, em Coimbra e no Porto, me houvesse relacionado algum tanto
intimamente com Affonso de Teive, ainda assim, azado o ensejo de
perguntar-lhe promenores d'aquella conquista--_conquista_ se diz
vulgarmente do que devêra mais de siso chamar-se, fartas vezes,
_derrota_--nada indaguei, visto que elle, com insolito resguardo, se
absteve de me dar ansa a esgaravatar-lhe cousas particulares da
vida--_particulares_, dissemos, para sustentar á palavra a fama que o
diccionario faz correr; sendo aliás de toda a evidencia que não ha ahi
cousa mais nua, mais publica e assoalhada que tudo quanto se chamam
_particularidades da vida privada_, mormente quando o divulgarem-se
torna e redunda em philaucia d'uns tolos celebres, que seriam
invejaveis, se as proprias corôas, com que cingem as frontes, lhes não
dessem muito que doer com os espinhos escondidos--quero dizer em estylo
espalmado: se as proprias mulheres, que lhes dão os triumphos, não
fossem os instrumentos com que a justiça infinita inflige aos
vangloriosos o castigo infernal do seu orgulho.
Foi-me preciso escutar os boatos correntes á conta da mulher que Affonso
de Teive me não apresentou. Observei que ninguem a julgava honestamente,
e assim mesmo ninguem lhe dava um epitheto indecoroso. A civilisação
beneficia assim as mulheres que não podem adjectivar-se publicamente
virtuosas, nem mesmo quando visitam com a esmola a mansarda do doente
desvalido. N'esta especialidade, o jornalismo comporta-se louvavelmente.
Quando um localista pregoa o donativo de alguns lençoes que opulenta
matrona, por variar prazeres d'alma, já cançada dos transitorios gozos
d'outra especie, mandou a um asylo de lazaros, e diz que a humanidade
abençôa a virtuosa senhora, não nos havemos de entalar com este decreto
de virtude: a humanidade manda que o engulamos. O localista tem razão: é
bom que a palavra _virtude_ sirva de piedoso visco á liberalidade de
pessoas, que desejam alguma vez, ao lerem-se _virtuosas_, experimentar a
satisfação de se verem ir á posteridade na secção do noticiario.
O _noticiario_! Ninguem, que me conste, aprofundou ainda o que esta
palavra encerra em si de humanitario! S. Paulo, todos os evangelistas,
as catecheses derramadas de angulo a angulo da terra, em materia de
caridade, não se avantajaram á missão do noticiario.
Se eu não tivesse de convicção minha que as acções meritorias dos gabos
do mundo, quando disparam em proveito geral, não podem desmerecer no
juizo divino, havia de cuidar que a mão, aberta em fontes caudaes de
ouro vertido, como balsamo, sobre as chagas sociaes, bateria ás portas
da região pavorosa, onde o peccado da soberba, alliado da vaidade,
soffre a condemnação prescripta nos codigos de todas as religiões. A
vaidade levanta o palacio em que se acolhem os desamparados d'um tecto
de palha e d'uma enxerga de folha. A vaidade doura-lhe os frontaes do
asylo, atapéta-lhe os porticos, ventila-lhe por janellas de luxuosa
alvenaria os dormitorios, tudo lhe magnifica e opulenta em pedra e
estofo: tudo lhe dá em desconto das dôres da velhice alanceada de
enfermidades; tudo, excepto o pão da alma, a doutrina da paciencia, a
communhão santissima, que refaz o espirito quando o corpo desfallece.
Tudo lhe dá, excepto um padre, um interprete do Christo, que dê vida de
amor ao seio traspassado, e palavra de pae aos labios roixos d'aquelle
crucificado, que lá do fundo do dormitorio contempla inertemente o
deslaçar-se fibra a fibra d'aquelles corpos, alli postos como prêsa
disputada, por mais alguns dias, á aniquilação...
--E não é isto o maximo quilate da beneficencia?
Que hei-de eu responder ao leitor illustrado, que me interrompe, assim
de golpe, um discurso que lhe havia de mortificar o folego, pelo menos?!
Peço-lhe que me deixe contar-lhe em cincoenta linhas, pouco mais ou
menos, como eu vi, n'uma terra d'estes reinos, crear-se, e prosperar um
asylo de pobres.
D. Elvira era uma dama casada, que não tinha por seu marido aquelle amor
que dá ao peito da boa esposa arnez de aço contra as frechas de um
cupido estranho. O marido, nimiamente confiado em seus direitos,
descuidou-se. Aqui está um mal enorme d'onde vamos vêr brotar uma
enchente de beneficios á humanidade. O paradoxo demonstra-se d'este
theor:
D. Elvira, desconfiada dos seus servos e servas, tomou como medianeira
dos seus illicitos amores, uma octogenaria, que tinha quatro irmãos
velhos, um marido velho, duas cunhadas velhas, e cinco sobrinhos velhos,
todos mais ou menos glutões que ella, e alguns muito mais ociosos e
patifes. D. Elvira occorreu por algum tempo ás precisões de toda esta
tribu de immoraes, em obsequio á interventora indispensavel. Uma vez, D.
Elvira orçou as despezas annuaes d'esta peccaminosa obrigação, e pasmou
do seu desperdicio. As avultadas esmolas, de mais a mais, eram secretas,
porque o descobrirem-se daria rasto á suspeita. Na terra havia dous
jornaes, e nenhum lhe tinha ainda chamado virtuosa, ao passo que a sua
presumida rival D. Benedicta por mais d'uma vez tinha sido abençoada
pelas gazetas; em nome do genero humano, em virtude de ter mandado aos
presos os sobejos d'um jantar dado no dia natalicio do marido, a quem
ella estimava tanto como a mim, quando souber que eu duvidei grandemente
da virtude que os jornaes lhe deram. D. Elvira despeitada, um dia que o
marido entrára d'ouvir o tocante sermão de um missionario ácerca de
caridade, commoveu-se, e prégou tambem sobre a mesma virtude theologal.
O marido maravilhou-se, enterneceu-se, e ouviu com lagrimas a proposta
da fundação d'um abrigo de velhos e velhas desamparados, com as
economias da esposa. Discutido o programma, escolhido o edificio,
orçadas as obras de pedra e madeira, chegou a noticia ás gazetas. No dia
seguinte, ambos os jornaes da terra retiraram os seus artigos de fundo
para darem a circumstanciada noticia do caritativo instituto da
virtuosissima senhora D. Elvira. Ambos os periodicos, á compita, lhe
deram estes regalados e maviosos nomes: Pomba de beneficencia; anjo da
caridade; sacerdotisa da lei de Jesus; mãe dos pobres; balsamo dos
afflictos; esteio da decrepidez; lampada do Evangelho!
Lampada não gostou ella que lhe chamassem, porque já a sua rival D.
Benedicta costumava, não sabemos bem porque, chamar-lhe lampadario;
seria talvez porque D. Elvira usava muito de vidrilhos na cabeça, os
quaes brilhavam e scintillavam á maneira de lustre. Seria isso; mas D.
Elvira aceitou os outros nomes com muita satisfação, e com grande faina,
em menos de tres semanas, recolheu os doze velhos que estavam no segredo
da sua caridade. O asylo tinha capacidade para vinte e quatro. Oito dias
depois o numero estava preenchido.
E vai depois D. Benedicta, ciosa da popularidade que a sua rival
vingára, combina-se com o marido, e delinea um outro asylo com
capacidade para quarenta e oito velhos. Os jornaes que tinham gasto com
a outra senhora os adjectivos, substantivos, e pronomes, empregaram em
honra de D. Benedicta as interjeições. O artigo d'um começava por _Ah!_
o artigo do outro jornal por _Oh!_ Fundou-se o asylo de D. Benedicta.
Como na terra não havia tanto velho, alguns marmanjolas de trinta annos,
inimigos do trabalho, ou encanecidos nas cadêas, apresentaram certidão
de idade de sessenta, e esconderam a sua bargantisse sob as azas
caritativas de D. Benedicta, a quem as gazetas chamavam _a santa_!
Aconteceu que passados quatro annos D. Elvira mudasse de residencia para
outro mundo, onde os necrologistas disseram que ella ia receber a palma
do triumpho. A caridade do viuvo esfriou, e veio a um accordo com o
marido da _santa_. Transformaram-se n'um os dous asylos, já abundantes
de esmolas d'outras senhoras virtuosas, e assim chegou este humanissimo
estabelecimento a um grau de prosperidade que não deixa nada a desejar,
segundo asseveram as gazetas da terra.
Agora queira o meu leitor curvar-se um pouquinho, e contemplar a raiz
d'esta arvore evangelica, que braceja tão ridentes frondes e tantos
fructos de benção! Veja que herpes, que podridão, que bicharia lá vai!
E com este episodio respondi á sua pergunta; e peço perdão de ter
ultrapassado as cincoenta linhas promettidas.
II
Sinceramente não sei corrigir-me do vicio das divagações. Ha quem
defenda e demonstre que o romance philosophico deve ser assim alinhavado
a exemplo de Balzac, Sainte-Beuve, Stael, etc. Na Alemanha então
dizem-me que as novellas são tractados de metaphysica. Se as minhas
derramadas e extraviadas divagações fossem ao menos metaphysica! Ser eu,
sem dar tino de mim, um escriptor subtil, imperceptivel, impertinente,
medonho, e, acima de tudo, serio! _Escriptor serio!_ quando se agarra a
fama pelas orelhas, e a gente a obriga a dar pregão da nossa seriedade
de escriptor, a gloria vai procurar os nossos livros serios ás estantes
dos livreiros, e lá se fica a conversar delicias com as brochuras
immoveis, em quanto a traça não dá n'elles e n'ella.
O universo, e a humanidade principalmente ganha muito com os romances
serios: exceptuam-se da humanidade os editores. Um meu amigo publicou
seis volumes de novellas de costumes moraes a ponto de toda a gente
dizer que não haviam taes costumes em Portugal. Recebeu muito abraço
d'umas pessoas que tinham ouvido contar que o meu amigo aconselhava aos
filhos a obediencia aos paes, aos proximos o mutuo amor, e á humanidade
o temor de Deus. As seis novellas eram glossas aos dez mandamentos.
Esperava-se a regeneração das velhas virtudes portuguezas, logo que o
espirito publico se balsamificasse da uncção dos seis livros. Volvidos
porém, uns dous annos, as estatisticas iam delatando em augmento a
criminalidade publica. Espanto no meu amigo author, e desanimação
melancolica nos editores! Não obstante, a gente grave continuava a dizer
que o meu amigo, continuando a escrever por aquelle theor e geito,
endireitaria o mundo. Os editores, porém, observando que o mundo se
entortava cada vez mais para elles, recommendaram ao escriptor moralista
que vendesse a elles romances, e a quem quizesse os sermões. Ora, deu-se
o caso de que este meu amigo era eu em pessoa.
Apesar dos baixios em que foram a pique os meus livros serios, teimo em
ir n'este rumo, discorrendo opportunamente ácerca das grandes cousas e
dos grandes factos como se viu do anterior capitulo.
Volvendo a concluir as reminiscencias que tenho do antigo Affonso de
Teive, resta-me ajuntar que o deixei em Lisboa no anno de 1851, e vim
para o Minho onde me disseram quem era Palmyra, fallando eu em Affonso
de Teive a um cavalheiro de Braga.
Em primeiro lugar, Palmyra tinha outro nome na sua terra. Fôra educada
n'um convento; sahira do convento para casar com o filho do seu tutor,
moço idiota e abominavel; e sahira de sua casa para a de Affonso de
Teive, o qual por um acaso a vira nos arvoredos do Senhor do Monte, e de
se verem á mesma hora em que ambos, embellesados no rumorejar d'arvores
e fontes, pediam ao céo, ella o homem, e elle a mulher do seu destino,
resultou amarem-se tanto que logo d'alli protestaram tacitamente immolar
aos deuses infernaes o marido idiota--destino miserrimo que não
descrimina entre idiotas e atilados. Estas informações sahiram-me com o
tempo inexactas em muitos accidentes.
Não adiantou mais nada o cavalheiro bracharense; e isto já não era pouco
para o meu espanto.
N'essa mesma época, occasionou-se-me conhecer o marido de Theodora,
melhorada em Palmyra. Andava elle na feira do S. Braz em Landim, a
tantos de Fevereiro, comprando bois, e vendendo cevados. Não lhe vi no
semblante leve sombra de dissabor, nem osso descarnado. Vi que elle
comia á tripa fôrra um chorumento jantar de carnes frias, em que
predominavam as galhinaceas. Á sua direita estava uma mocetona
espadauda, escarlate, alta de peitos, e refractaria a toda a idéa de
amor fino.
Disseram-me que esta moça apreciára devidamente o coração rejeitado por
Theodora, e assava com perfeição as louras galinhas de que o marido
abandonado hauria vigor com que resistia briosamente á sua desgraça. Vi
tudo isto; e fiquei satisfeito. A gente folga de vêr assim remediadas as
enfermidades da natureza. Quando em casos analogos, não ha victima nem
algoz, e os personagens se acommodam na livre pratica da liberdade dos
cultos, bem que o vicio não deixe de ser vicio, é comtudo consolador
observarmos que uma certa philosophia é a melhor orthopedia para os
aleijões de nascença de que a torta humanidade coxêa ha dezenove
seculos.
É o que eu sabia e mais nada.
Como Affonso cahiu em esquecimento, nunca me deu para perguntar que
feito era d'elle. As minhas desventuras não me davam ferias para farejar
as alheias. Se alguma vez me passou pela idéa a esposa infiel do
feirante de bois e cevados, imaginei-a reconciliada com o marido, e
assim duramente castigada pela Providencia. Em quanto ao seductor,
apostaria que elle, depois de ter desbaratado a casa, andava por Lisboa
obscuramente solicitando um lugar de amanuense de secretaria ou
aspirante de alfandega, se é que não tinha ido para o Brazil, com o seu
diploma de bacharel em philosophia, colleccionar conchas por conta
d'algum muzeu de historia natural.
Agora vê o leitor o meu assombro justificado! É inquestionavelmente este
homem gordo, de barbas intonsas, oculos, e tamancos o Affonso de Teive
da Palmyra de Lisboa.
Elle aqui vai subindo as escadas, que nos levam á primeira sala. Cá
estão em redor d'elle e de mim os oito filhos, que fazem bulha como
trinta e dous. Creio que estou no pateo d'um mestre-escóla á sahida
d'aula. Dous d'estes ferozes meninos tiram-me da mão o guarda-sol,
abrem-n'o e fecham-n'o repetidas vezes, arremettendo contra os irmãos,
que se defendem espancando a murros as varas da umbrella que gemem e
entortam. Affonso gosta de vêr aquillo, e eu finjo tambem que não
desgosto, nem receio de ser esfarrapado por aquelles innocentes.
Passamos ao seguinte repartimento da casa: era a sala de visitas,
mobilada de alfaias antigas, cadeiras encouradas com chapas reluzentes,
grandes bancas de pau santo, com gavetas atauxiadas de frisos metallicos
e de marfim.
--A decoração diz com as minhas barbas!--reflectiu o risonho Affonso.
Aqui é tudo portuguez--acrescentou, mandando inutilmente calar a
gritaria dos meninos que, a meu vêr, legitimavam a raiva infanticida do
Herodes--Até a linguagem é portugueza de lei: olha que estou fallando
vernaculamente, meu amigo. Ha quatorze annos que tu me convidavas
urbanamente a não insultar os Lucenas e os Sousas com as minhas
francezias. Vem vêr a minha livraria; se não queres primeiramente vêr
minha mulher.
--Tenho muita honra e satisfação em ser apresentado a tua
senhora--atalhei eu.
--Joaquim!--disse Affonso ao filho mais velho--Vai vêr onde está tua
mãe; se estiver na cozinha, diz-lhe que temos cá um hospede, que não
exige vestido de sêda. Que appareça como estiver.
O menino sahiu aos saltos de cegonha, e Affonso ajuntou:
--Minha mulher é um anjo, cujas azas brancas se não mancham na felugem
da cozinha. Eu gosto que ella por lá se entretenha, se não bate-me
n'estes bregeiros, que, como vês, são dignissimos de grossa pancadaria;
mas eu amo estes diabinhos, que zombam de mim, e aturo-os, por que a
dizer-te a verdade já me dóe a cabeça quando não ouço esta algazarra. E
tu gostas de rapazes?
--Gosto muito, acho muito galantes os teus meninos; mas se me dás
licença, dir-te-hei que em doenças de enxaquêca, o teu remedio não seria
tão efficaz nas minhas como nas tuas.
--Bem sei--atalhou Affonso--Falta-te cabeça de progenitor, falta-te
ouvido de pae que converte em musica no coração estes berreiros, que nem
no inferno se poderiam receber como orchestra.
Não se fez esperar a esposa de Affonso.
Era uma senhora para senão descrever em romances, e para admirar-se
entre seus filhos.
É muito difficil e requer engenho grande tirar as semelhanças d'uma
mulher, que se apresenta simples, modesta, e, logo á primeira vista,
impropria de novella.
--Aqui está, e te apresento, minha mulher--disse Affonso, e tomou-lhe
dos braços a creança mais nova, que lhe saltára ao pescoço, apenas a
vira entrar na sala.
A esposa de Affonso de Teive respondeu acanhadamente ao meu palavroso
comprimento, e tomou nos braços outro filho, que marinhava pelas costas
da cadeira, e mostrava a cabeça sobre o alto espaldar de couro.
Como se não ageitava outra especie de conversação, fallei nos meninos,
gabando-lhes a formosura e a esperteza. Affonso, que parecia não querer
outra cousa, começou a contar-me anedoctas das suas creanças
enthusiasticamente, algumas medianamente engraçadas, e outras que eu não
pude ouvir, á conta da bulha que os pequenos faziam em volta da mãe. No
entanto, fiz reparo n'ella.
A senhora teria trinta e oito annos, e formosura, por força natural, já
decadente. Trajava roupas largas, talhadas sem esmêro, de droga
ordinaria; a belleza das fórmas corporaes, denunciava-se apesar do trajo
descuidado. Semblante assignalado de tanta doçura e bondade não sei que
o haja. Poderia chamar-se tristeza de santa áquelle mavioso rosto
pallido, quebrantado, e não sei que de scismador; a expressão, porém,
dos olhos brandos, do sorriso quasi imperceptivel, do collo um pouco
inclinado em postura humilde, eram n'ella a alegria exuberante de santa
sim, mas santa como esposa, santa como mãe, santidade de coração e alma
repartidos entre Deus, esposo e filhos.
Pouquissimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve comnosco.
Conheci-lhe a inquietação cuidadosa no relancear d'olhos ao marido.
--Bem sei, disse elle. Vai, vai, que estás a pensar nas rabanadas e nos
mexidos.
E ella, sorrindo, disse:
--Ainda me não apresentaste ao teu amigo como uma soffrivel interprete
da arte de cozinha.
--Interprete!--exclamou elle--Tu és mais! Tu inventaste a sciencia da
cozinha, que é muito mais sublime que arte. A tua modestia é que te não
deixa vir á luz do mundo, d'este mundo cujas aspirações confluem todas
para a gastronomia, com um tractado, que, ao mesmo tempo, me désse
orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a
qual te faltaria espaço e remanso para as tuas especulações, em
resultado do que vamos hoje cear as mais ambroziacas rabanadas que ainda
os deuses coaram em suas celestiaes gargantas. A aldêa, meu bom
amigo--continuou Affonso voltando-se para mim com solemne e galhofeira
seriedade--a aldêa dispensa ao espirito investigador um curso completo
de sciencias. A poesia do estomago, esta mais que todas poesia
humanitaria, não se dá nas cidades; lá come-se materialmente; aqui dá-se
ao espirito a presidencia em todas as materias assimilaveis. Estou com o
nosso admiravel Castilho n'estas memorandas palavras: «Longe de mim
negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo só que para a
poesia se não fizeram ellas; e que, se n'essa fragua algum engenho
poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão bom, nem
tão innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos campos.» E a
poesia que é?--acudiu Affonso cortando-me o riso com que eu celebrava o
desconchavo da citação--o que é a poesia se não aquelle estado diáphano
e sublimado da alma, que se está engolfando e gozando n'um envolucro
sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exhalação crassa d'um
estomago derrancado, azedo, e intumecido? Pois has-de tu saber que um
estomago limpo é a fonte de todo saber; e que a sciencia constructora
dos selectos alimentos do sangue é a que mais de perto se relaciona e
ata com a arte de exprimir cadentemente os affectos da alma--Logo...
A esposa tinha sahido quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com
ameaças de longo fôlego.
Eu estava ouvindo, como quem sonha, Affonso de Teive. Andavam já a
formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto
embrutecido na aldêa; e posto que a defeza do paradoxal consorcio entre
estomago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me
descapacitei de que o espirito de Affonso havia soffrido profundas
commoções que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os
objectos do mundo exterior. Eu não podia convencer-me de que a
felicidade alterasse d'aquelle modo o genio e maneiras d'um homem, que
eu jámais ouvira preconisar as regalias do estomago. Crêr que o
bem-estar da alma procedia d'uma brutificação d'ella mesma, e que o
encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivencia de
sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras, e das magnificencias da
arte, em fim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me
absurdesa, e falsificação no caracter de Affonso de Teive.
Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou
em poucos annos o espirito menos propenso que eu vira á paz dos campos,
e ao absoluto apartamento da sociedade.
Estava a cêa na mesa. Que enorme cêa comemos, e que estrondoso ruido
fizeram os meninos!
III
No dia seguinte, ao domingo de festa que eu passei com Affonso,
reapparecera o sol magnifico da vespera.
Affonso de Teive mandou apparelhar um ordinario garrano, o qual, no
dizer do dono, era um luxo nas suas cavallariças, visto que Affonso
raras vezes sahia para além dos muros da sua quinta. Da residencia do
reitor veio de emprestimo uma egua apparelhada de albardão, e estribos
de pau que pareciam alqueires. Depois de almoço cavalgamos,
embrenhamo-nos por uns quinchôsos pedregosos, e sahimos á estrada entre
Guimarães e Famelicão. Estava destinado um passeio de duas leguas. A
egua abbacial era tão firme no piso, que eu dei de mão ás redeas, formei
d'um estribo o travesseiro, e deitei-me no albardão, para admirar
horisontalmente a natureza, maneira de vêr que eu recommendo aos
curiosos que ainda não viram assim a natureza. Ao meu lado ia Affonso de
Teive, corcovado sobre o pescoço do garrano, que não obedecia á redea
nem á espora: era preciso fallar-lhe rijo, ou espertal-o á paulada. E
Affonso ria-se.
--Quem te viu e quem te vê, Affonso de Teive!--exclamei eu--Quem te viu
em Lisboa n'aquelle cavallo preto, que levantava ferozmente as patas,
como para te cuspir á calçada, e as abaixava humildemente e a tremer, se
tu lhe murmuravas uma palavra. Quem te viu ao lado d'aquella Palmyra...
Mal proferi esta palavra, Affonso cravou-me os olhos subito abrazeados
do antigo fogo. Fingiu que sorria, querendo esconder a mutação de rosto.
Voltou a face para onde eu não podia vêr-lh'a; e, passados alguns
segundos, murmurou:
--Lá se foi a alegria do nosso passeio.
--Porque?!--acudi eu--perdôa-me, se involuntariamente feri a tua
sensibilidade... Eu cuidei que entre ti e o teu passado estava um abysmo
incomprehensivel aos olhos da tua saudade... Pensei que ao homem feliz
eram indifferentes as recordações dos bons e dos ruins tempos da
mocidade.
Affonso deteve-se a encarar-me, e disse de golpe:
--Tu ignoras a minha vida desde 1850?
--Juro-te que não sei nada da tua vida, respondi.
--E d'essa mulher, que chamaste Palmyra?
--Nada sei, senão que...
--Diz o que sabes... que hesitação é a tua?
--Apenas soube que era casada, que sahira d'aqui para Lisboa comtigo, e
mais nada. As pessoas, a quem perguntei por ti eram os teus velhos
amigos, que encolhiam os hombros, e diziam: «quem sabe lá.» Desde 1856
que te esqueci completamente. Argue, se quizeres, a minha desmemoriada
amizade; mas a verdade é esta. Eu sou, pouco mais ou menos como todos os
teus amigos.
Asserenou-se o aspecto de Affonso de Teive, e fomos indo silenciosos,
até apearmos em Guimarães na estalagem da Joanninha, que está n'este
mundo a competir em graças, limpeza, e poesia com a Joanninha de
Almeida-Garrett nas _Viagens_.
Jantamos, sahimos a vêr a terra, que eu nunca vira em Dezembro,
enxergamos á luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que
resistiam ao frio da tarde, encostadas aos peitoris das suas janellas;
entrevimos galantissimos olhos d'outras através das rotulas, que ainda
agora nos estão contando virtudes d'outras eras, virtudes, que
precisavam de rotulas, como as bellas flôres exoticas precisam de
estufa.
Voltamos á estalagem, tomamos chá, e uns pastelinhos que hão-de ir
futuro além relembrando o mavioso nome da snr.ª Joanninha. Depois
pedimos duas camas n'um quarto, e tivemos a satisfação de vêr que nos
davam um quarto com cinco camas, ou cousa assim.
--Ha dez annos--disse Affonso--é esta a primeira vez que durmo fóra de
minha casa. Acho-me só e estranho. Penso que estou a mil leguas de minha
mulher e dos meus filhos.
--Eu vou mandar apparelhar as cavalgaduras--disse eu--e vamos embora que
está magnifica a noite.
--Não--redarguiu Affonso--que preciso estar a sós comtigo, uma noite.
Debaixo das telhas que cobrem minha mulher os meus labios não proferem o
nome de outra. Ella já sabe que eu fico em Guimarães. Fallarei, e tu
ouvirás, ou dormirás. Fallarei do homem que conheceste em 1851, para
explicar o homem de 1863. Has-de vêr que lamaçaes atravessei, que
resacas affrontei, como eu me bati de peito com as puas de ferro da
desgraça, para chegar ao abrigo onde me encontraste. Não pasmarás então
da minha velhice precoce: ser-te-ha assombro a minha vida. Se és
infeliz, consolar-te-has. Se o não és, recearás sel-o.
A noite, como sabem, era de Dezembro.
Ás onze horas consummiu-se de todo a vella. Affonso de Teive continuou a
fallar ás escuras. Ao rasgar da manhã, abrimos as portadas, e Affonso
fallava ainda.
IV
No principio d'este anno de 1864, sahi de Ruivães, onde, por espaço de
oito dias, me escondi á minha estrella funesta--a vigilantissima
desgraça, que eu ia esquecendo. No termo d'este praso, estranhei o
socego das minhas noites, faltou-me a mão do demonio que me arregaçava
com dedos de fogo as palpebras quebrantadas de somno, e fui á procura
d'elle.
Deixei o meu amigo na cumiada do outeiro, visinho de casa, com sua
esposa e filhos. As ultimas palavras d'elle foram: «quando tiveres o
livro escripto, deixa-me gozar a não vulgar satisfação de me vêr
personagem, e heroe d'um romance, que me promette uma immortalidade...»
--De quinze dias--interrompi eu.
Não longe da obscura paragem de Affonso de Teive, á margem do córrego
chamado Péle, riacho, que, pela primeira vez, é revelado ao mundo em
letra redonda, assentei eu a minha tenda nómada. A minha tenda são uns
vinte volumes, um tinteiro de ferro, e um cabo de penna de osso, que me
deram n'outro ponto do mundo, onde ha quatro annos assentára tambem a
minha tenda,--ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu
sestro vagabundo: era no anno do Senhor de 1860, nos carceres da Relação
do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homem de gostos
impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, não
impedia que esta minha tão querida penna, tão amiga confidente
d'aquellas trezentas e oitenta noites--de Janeiro todas, que lá a dentro
dos congelados firmamentos de pedra, reina perpetuo inverno, e giam as
abobadas, não sei se lagrimas, se sangue, se agua represada nos poros do
granito,--não impedia, vinha eu dizendo, que a minha penna, com o seu
incansavel fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos
da alvorada, me convidasse para a banca do trabalho, que foi o meu altar
de graças ao Senhor, e o confessionario onde abri minha alma ao
perscrutar do anjo providencial que me dava a uncção dos athletas e dos
grandes desgraçados, para mais affrontosos e excruciadores supplicios.
Os meus vinte volumes, e o meu tinteiro de ferro, estão hoje sob o tecto
gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha
que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para
sempre. Parei aqui, por que ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva
a imagem do passado, ainda aquella alma se me hospeda no coração em
instantes de sonhos do céo, ainda a pedra tumular das affeições, cahidas
á voragem infernal do desengano, está pendida sobre a derradeira: que a
saudade é ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais
incorruptivel que o passado nos herda.
A casa, onde vivo, rodeam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada
desferem suas harpas. Este incessante soido é a linguagem da noite que
me falla: parece-me que é voz d'além-mundo, um como borborinho que
referve longe ás portas da eternidade. Se eu não amasse de preferencia o
socego do tumulo, amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do córrego
onde vou cada tarde vêr a folhinha secca derivar na onda limpida; amaria
o pobre presbyterio, que ha trezentos annos acolhe em seu seio de pedra
bruta as gerações pacificas, ditosas, e incultas d'estes selvagens
felizes que tão illuminadamente amaram e serviram o seu Creador. Amaria
tudo; mas amo muito mais a morte.
Aqui, se Deus se amerciar de mim, embargando o passo ao anjo
exterminador, que continuo me assaltêa os aditos do meu eden de quinze
dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a
narrativa que Affonso de Teive me fez.
Seis mezes ha que se fez noite do meu espirito. Por arrebatados impetos
de quem quer furtar-se ás garras de um imaginario dragão, tenho fugido
para defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as graciosas imagens,
filhas do céo, que, nos dias da mocidade fremente de más paixões, me
refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal, psalmeando-me o
hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi a suprema
provação, a forja ardentissima em que minha alma foi lançada á
voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que
sombreava a negrura do coração, eram tudo trevas, frio, lethargia,
esquecimento.
Não sei de que futuro abril do meu porvir me veio esta manhã um bafejo
aromatico de flôres, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha
juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugace archanjo do
contentamento. Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu
espirito ergueu-se alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso
que na immensidade dos seus mundos ainda guardará para mim um quinhão de
alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciencia
repousada, prelibações de bem-aventurança, e honrada alliança com os
homens.
Penso que estou escrevendo as tuas palavras, ó meu amigo, redemido a
lagrimas, a ultrages, e a desapêgo do mundo. O clarão, que hoje alumiou
a minha alvorada, seria por ventura um reflexo das tuas alegrias. Ha
dias me disseste:
«Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos
louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem encontra
um vazio horrendo, uma respiração afflictiva?» Querias tu dizer-me que
orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação, e ao mundo o
confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam sua alma
antes que a irreligiosidade os escarnecesse: OREI, meu amigo; porque,
n'um dos mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas de
contar, interrompi o teu silencio, perguntando:
--E que fizeste depois?
E tu respondeste-me:
--Depois, OREI.
V
Affonso de Teive estudava, ha hoje vinte annos, em Braga, os elementos
preparatorios para o curso universitario, quando viu Theodora, conhecida
pela morgadinha da Fervença. Era ella então menina de quatorze annos.
Affonso tinha dezesete.
As mães d'estes dous meninos, entre-vistos e amados com o innocente
attractivo do beijo aerio na flôr a desatar-se e a enrubecer na tige,
tinham sido condiscipulas na educação d'um convento. Apartaram-se para
serem esposas, com promessa de se continuarem a amar em seus filhos, se
a sorte lh'os désse com vocação para se unirem. Votos de virgens ainda,
feitos com as faces purpureadas do calor do coração, que as levava
contentes aos seus novos destinos.
A mãe de Theodora igualou em fidelidade da palavra promettida a mãe de
Affonso. Uma tristeza, porém, a desconsolava, e cada dia se espessava
mais a escuridade em seu espirito: sentia-se morrer, aos trinta e tres
annos, de enfermidade de peito, e deixava Theodora em annos verdes,
solteira ainda, á mercê e alvedrio de tutores.
Na ultima phase de sua vida, foi ella a Braga com sua filha, de
proposito a encontrarem-se com o moço predestinado a esposo, já
esquecido, talvez, dos primeiros annos em que se haviam conhecido
creanças. O vêr com que alegria elles se reconheceram, e saudaram, como
avesinhas pousadas em uma mesma fronde ao mesmo arrebol da manhã,
melhorou temporariamente a enferma; porém, a muito rogada vontade do
Senhor não lhe concedeu os dous annos de vida pedidos para a effectuação
do casamento. Segredos do céo previdentissimo; que, a não o serem, estes
rogos de mãe, em favor da virgem, que vai ficar sosinha no mundo, com os
seus dous inimigos--innocencia e formosura--taes rogos baldados, e
indeferidos em Deus, induziriam a argumentar contra a mediação do
Creador nas miserias que creou.
Apenas fallecida sua mãe, Theodora foi recolhida ao convento das
Ursulinas, por deliberação d'um tio paterno, constituido espontaneamente
tutor da orphan.
Affonso, aconselhado pelo coração e por sua mãe, visitava a educanda,
disfarçando as frequentes visitas com a innocente mentira de parentesco.
Theodora, com dous mezes de convento, desenvolveu-se e grangeou sciencia
da vida que não alcançaria em dous annos de aldêa, da sua solitaria
aldêa, onde tinha apenas aves, flôres, e estrellas a segredarem-lhe
iniciações para amor. No convento, as prelecções eram menos vagas, e
mais acommodadas á capacidade das educandas. É certo que as mestras não
leccionavam ternuras; mas o zelo, com que ellas vedavam o pomo, dava a
desconfiar que as precautas religiosas lhes tinham saboreado o travor; a
não ser que o desdenhavam á mingua de dentes incisivos com que entrassem
na casca d'aquelle execravel e tão convidativo fructo de Pentápolis.
Com menos de quinze annos, Theodora completou o exterior de suas graças,
e o interior do seu espirito. A belleza sabia ella já quantas invejas
lhe ganhava entre as condiscipulas, quantas intrigas, quantas
reprehensões da mestra, á conta do muito enfeitar-se e remirar-se ao
espelho. Não importava. A morgadinha da Fervença gostava de ser bella,
de ser invejada, e perseguida das inimigas, com condição e resalva de
ser admirada pelos galanteadores das suas perseguidoras. Em quanto ao
espirito, o saber precoce de grades a dentro igualou-a, se não antes
avantajou-a muito ao estudantinho de Ruivães que, contra toda a natureza
e arte, em colloquio amoroso ficava muito áquem de Theodora, e sahia do
locutorio admirado da esperteza palavrosa da morgadinha.
Estas delicias do palratorio, porém, foram repentinamente suspensas.
O tio e tutor de Theodora, sabedor dos amorinhos, que as religiosas,
contra o seu costume, tomaram entre dentes, impoz a sua jurisdicção
tutelar. A educanda reagiu sem proveito, e Affonso desafogou em lagrimas
a sua saudade.
A velha fidalga de Ruivães, avisada pelo filho afflicto, foi a Braga
consolal-o, e d'alli partiu a casa do tutor, a lembrar-lhe o consorcio
de Affonso e Theodora, desde muito pactuado entre ella e a sua defuncta
amiga. O tutor replicou, dando como nullos taes arranjos, em quanto os
meninos não estivessem em idade de os ratificar.
Affonso esmorecera em dolorosa lethargia, ao passo que Theodora pensava
em fugir do convento. O instincto de associação, irrecusavel em empresa
tão arriscada, deu-lhe a conhecer a unica pessoa capaz de auxilial-a.
Estava nas Ursulinas uma menina de Traz-os-Montes, de familia distincta,
e costumes tambem distinctos em natureza depravada. Entrára alli como em
prisão; não obstante, como o anjo das trevas nunca desampara as suas
dilectas, lá mesmo lhe espiritou traças de poder entender-se com quem
quer que foi que a viera seguindo desde a hora em que a familia a
desterrára. E que traças de infando successo, que revelação affrontadora
da humanidade vai hoje eetampar-se n'esta pagina!
A menina transmontana abrindo á flôr dos labios o sorriso condolente
d'um anjo de candura, assellou com um beijo no rosto da sua recente
amiga o pacto de se coadjuvarem contra a tyrannia de paes e tutores.
E posta, desde logo, em discussão a materia, quiz a morgadinha da
Fervença, sem mais rodeios, saber de que modo poderia fugir do convento.
Libana achou arrojado o intento da fuga, e desesperado sem razão, quando
se podia melhorar de sorte, sem correr o risco de ser presa e reposta no
convento para nunca mais vêr sol nem lua. Contou ella, para exemplificar
o perigo da fuga, a desgraça acontecida n'aquelle mesmo convento, uns
trinta annos antes. Era a longa historia d'uma senhora, reclusa alli por
violencia, que cuidando salvar-se pelos encanamentos subterreos dos
escoadouros do mosteiro, morrera asphyxiada; e quando as freiras, a
familia e as justiças a julgavam foragida no estrangeiro, um operario
occupado da limpeza dos vallos, encontrou um cadaver quasi esphacelado,
mas ainda reconhecivel pelos trajos. Semelhante historia, contada e
ouvida n'aquella casa sempre com horror, fez sorrir a morgadinha, e
tirou-lhe do peito virginal esta observação: «Tendo eu de morrer na
immundicie dos canos, antes me deixaria morrer entre a immundicie das
freiras. Lá em quanto aos aromas enjoativos, tanto faz estar lá em baixo
como cá em cima.» A resposta foi mais estirada e espirituosa no seu
genero; mas assumptos d'esta grossura só podem tratal-os curiosamente
engenhos claros e eminentes como o poeta dos _Miseraveis_, que poetisa
os escoadouros de Paris com o mesmo acume de estylo com que fallaria dos
jardins perpetuamente olorosos do Elysio.
Resolvida a sobre-estar do plano da fugida, Theodora travou-se de mui
intima amizade com Libana, e formavam a sós um partido, que se fazia
respeitar pela audacia da lingua, e soberba de sua prosapia e abundancia
de meios. N'este conloio entrava uma servente de fóra e uma criada de
dentro, mediante as quaes Affonso de Teive recebia cartas de Theodora, e
um cavalheirote imberbe de Traz-os-Montes, primo de Libana, recebia as
cartas de sua prima.
N'uma tarde de Agosto, sahiram as duas meninas a tomarem a fresca na
cêrca. Com o geito scismador e melancolico em que iam, dirieis que eram
as duas graças a procurarem a terceira, que lhes fugira enamorada
d'alguma divindade incognita. Quem as visse, áquella hora, depurativa
das fezes de maus pensamentos e más palavras, havia de cuidar que o seu
dialogo, todo ferventes arrobos e cantares ao empyreo, versava sobre os
céos de Santa Thereza de Jesus, ou semelhantes devaneios do espirito
embebecido no foco luminoso dos bem-aventurados.
Agora se recostam ellas n'um escabello de cortiça, cujo espaldar lhe
formam almofadas de fofas murtas, matizadas da flôr do maracujá. Perto
d'ellas trepida uma fonte; no tanque, onde a lua já principia a
espelhar-se, coaxam as rans; a viração cicia nas ramas do pomar; zumbem
os insectos, espanejando-se ao frescor da tardinha. As duas candidas
meninas, enleadas na poesia do quadro, realçam-no e completam-o.
Ouçamos a musica d'aquelles seraphins.
Dizia Theodora:
--Se me eu pilhasse fóra d'aqui!... N'estas tardes tão bonitas, havia de
ser tão bom andar eu a passear com o meu Affonso!... Queimado morra o
meu tutor e mais o filho! Se não fosse aquelle bruto, não estava eu
engradada! Ó Libana, tu não farás com que nos escapemos d'este inferno!
Olha... lá está a madre porteira a espreitar-nos da grade do canto!...
Libana voltou desabridamente as costas á madre porteira, e acudiu
n'estes termos aos anhelantes desejos da sua amiga:
--Olha, Lóló, não te zangues. A gente, a final, ha-de sahir d'aqui,
muito a tempo de gozar a vida. Se não formos tolas, podemos ir gozando
mais do que temos feito. Queres tu saber o que me diz o meu Alfredo?
Queres vêr quanto elle me ama? que sacrificio quer fazer por amor de
mim? Olha, eu não quiz dizer-te o que me elle pediu na carta de hoje,
com medo que tu me aconselhasses a não ceder; mas cedo, filha, cedo que
a paixão não tem leis. Pede-me para vir ser minha criada.
--Tua criada!--exclamou Theodora.
--Minha criada; pois então?--replicou Libana, abaixando o tom de voz,
abafada pelo frouxo do riso--Não ha nada mais facil. O meu Alfredo tem
cara de mulher, e não tem ainda barba. Diz elle que se veste á moda das
raparigas da minha terra, que me procura com uma carta fingida de minha
mãe a pedir-me que receba a portadora como criada; cá no convento
ninguem póde impedir-me que eu a receba; a gente hade ter todo o cuidado
que se não descubra o logro; e... tu... que me dizes, Lóló!
Theodora acudiu com o rosto chammejante de alegria:
--Olha lá, Lili, o meu Affonso tambem tem cara de mulher, pois não
tem?!... Se elle viesse tambem para minha criada era tão bom!
--O peor é que elle é conhecido, por ter cá vindo muitas vezes--observou
Libana--O meu Alfredo é que só veio aqui no principio uma vez, e ninguem
o conhece... Não vamos nós botar tudo a perder, Loló!
--Que pena!--exclamou a morgadinha com os olhos no céo e a mão direita
sobre o coração latejante--Que pena que o meu Affonso não venha tambem
para cá!... Ó Libaninha, vê se inventas alguma cousa, se não a tua amiga
morre de tristeza!...
E, dizendo, escondeu o rosto, aljofrado de quatro lagrimas, no seio da
amiga.
Que lagrimas! D'onde veio ou para onde foi o anjo da innocencia, quando
um peito virgem tem d'aquellas lagrimas, e uns olhos, que ainda não
viram os hediondos espectaculos da farça do mundo, podem choral-as!
Fechou-se a noite. Já a sineta havia chamado as duas meninas rebeldes ao
primeiro e segundo aviso. Ergueram-se, deram-se o braço, e foram, na
cella de Theodora, continuar o recendente colloquio do jardim.
Theodora, a não poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga.
Animou-a á temeridade de receber o atrevido rapazola de Tras-os-Montes,
idolatra d'um personagem de romance, unico que em sua vida lêra, o
_Lovelace_, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo!
Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida
real, umas sahidas muito desgraçadas ou irrisorias! Ainda bem, para
desdouro dos livros desmoralisadores, e luzimento d'outros livros de san
moral, que só fazem mal ao publicador que os não vende.
Este Alfredo, que vivia occulto nas cercanias de Braga, applaudido por
Libana em seu projecto, foi á sua terra preparar os vestidos, e
ensaiar-se em tregeitos mulheris.
Libana tinha uns irmãos, oriundos do mesmo tronco de pae e mãe, os quaes
pelos modos, não tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino
da filha e irman; d'onde vinha o serem elles grandemente avelhacados,
astustos, e espiões das tramoias de Alfredo.
A villa era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas boccas, até
aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e
outros atafaes de mulher, afeiçoados ao corpo de Alfredo. Sem detença,
um dos irmãos de Libana sahiu para Braga; o outro ficou d'atalaia aos
movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi
avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinação
com as authoridades lançou a rede tão a ponto que o infeliz foi
capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponeza transmontana,
e d'alli, entre baionetas, e escoltado de rapazio, percorreu todas as
estações judiciarias desde o regedor até ás caricias do carcereiro.
As religiosas, conscias do escandalo, requereram ao prelado bracharense
a expulsão da reclusa que deshonrava o convento e contaminava de sua
desmoralisação as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu
irmão, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzella,
agourada para estremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres
desgarradas do trilho da virtude. Os prognosticos da opinião publica
erraram, como se ha-de vêr n'um futuro livro.
A gente não sabe ainda bem como este mundo está feito.
VI
O escandalo, que felizmente abortou á portaria do convento, poz de
sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas
Ursulinas, e deu ás insomnes freiras um sexto sentido de observação.
Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Theodora tinha bastante
capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Além
d'isto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de
quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com
invectivas e chacotas ás freiras velhas, clamando a vozes descompostas
que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A communidade
offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda,
assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no
seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu
diante da força mixta das freiras e dos padres capellaens, que
promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva.
Vagamente informado da situação da sua amada, Affonso de Teive foi á
portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de
sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e
de muita virtude, offereceu peito de martyr ás injurias impias do
acriançado amante. Porém, como quer que o acaso alli encaminhasse um
cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau
improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça,
correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o
allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros,
chamando Theodora a clamorosos gritos.
Travado pelos braços pujantes das authoridades, Affonso não pôde
resistir á surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as
forças da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braços da lei,
balbuciando ainda «Theodora!» Estava a instaurar-se-lhe processo, quando
a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitavel presença, e
auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade
pueril do filho.
Affonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se
morrer. Cahiu de cama, e tresvariou em febres de mau caracter. Todavia,
os cuidados maternaes, cooperados pela robusta natureza dos dezeseis
annos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença,
choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda supplicios de que
despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora,
é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de
uma lagrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuraveis são os que
desabafam em rancorosas explosões.
A parentela do illustre pimpolho, alvorotada pelas lastimas da fidalga,
reunira-se em conselho, e alvidrára que Affonso de Teive fosse completar
os estudos preparatorios em Lisboa, hospedando-se em casa d'um seu tio
desembargador. O moço obedeceu ás exhortações e rogos de sua mãe, depois
que a extremosa senhora lhe prometteu e asseverou que, a despeito de
tudo e de todos, Theodora, no praso de um anno, seria sua esposa.
Os parentes embicaram, resmoneando que o morgadio da Fervença o era só
em nome, sem vinculo, nem fôro em ascendente conhecido. Contra estas
razões se insurgiu Affonso em termos que fariam a illustração
democratica d'um botequineiro antes de ser cavalleiro do habito de
Christo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos
christãos, iguaes entre si e iguaes ante Deus, que vaidosa de
aparentar-se com os Pinheiros de Barcellos, e os Corrêas e Lacerdas da
Honra de Farelaens, votou com seu filho, dizendo «que na casa de Ruivães
sobejava a fidalguia e faltava a felicidade.»
Foi Affonso para Lisboa com o capellão. O tio desembargador gasalhou-o
nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, á mingua d'um
irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não
deixariam voltar mais, sem ellas, á provincia.
Pouco montam tantas caricias para o contentamento de Affonso. Ralam-no
saudades, emmagrecem-no os jejuns, amarellece-o a tristeza. Nas aulas é
mau estudante; no circulo dos condiscipulos é um automato que ri por
comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impellem; em casa com as
primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem scisma
sequer em adivinhar as charadas metricas, e logogriphos figurados, em
que todas são eximias, e sobre modo impertinentes.
A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de
Affonso accelerando as diligencias para o casamento. A consternada mãe
já por terceiras pessoas mandou sondar as difficuldades que importa
combater. De Braga dizem-lhe que Theodora já sahiu do encerramento da
cella, e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratorio e a
cêrca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada frequenta
semanalmente o convento, e algumas vezes vai com elle um filho, rapaz de
figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de
pretos, e uma casaca archeologica, de cabeção tão copioso que parecia
enrolar um capote.
A descripção poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hyperbole não.
Este sujeito chama-se Eleuterio Romão dos Santos, por ser filho de
Eleuteria Joaquina, e de Romão dos Santos, tutor de Theodora, lavrador
abastado, visinho do mosteiro de Tibães.
Eleuterio tem vinte e dous annos; quiz aprender a lêr com seu tio padre
Hilario; mas a natureza oppoz-se-lhe, logo que elle, apoz um anno de
canceira, entrou a soletrar palavras de tres syllabas. Vencido pela
natureza, padre Hilario desistiu, visto que lhe era vedado arejar o
cerebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.
O filho unico de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a noticia
da sua incapacidade para soletrar nomes de tres syllabas. No dia
seguinte, o pae mandou-o á feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz
effectuou a venda dos bois com tamanha astucia e vantagem que logo
d'alli se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia
robusteceu-lhe o credito, que outras vieram confirmando, até que Romão
deu ordem illimitada de dinheiro a Eleuterio para poder negociar em
bezerros e vitellas.
Estava o rapaz n'este auge de glorificação propria, e inveja dos
visinhos, quando falleceu a mãe de Theodora. A orphan, apenas sua mãe
cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A
criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma
senhora, que lhe fallasse a linguagem polida á qual estava afeita. Em
casa de Romão havia sómente a snr.ª Eleuteria Joaquina, creatura chan,
que, a cada soluço da sobrinha, dizia quasi sempre:
--Não chores, pequena; que a morte é portêllo que todos temos de passar.
E, para não dizer sempre o mesmo, variava d'este theor:
--Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.
Eleuterio, porém, menos versado em lugares communs de pezames aldéãos,
querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:
--Senhora prima, olhe que o chorar faz mal ás meninas dos olhos.
Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remedio. Agora o mais
acertado é divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de
Famelicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr.ª
prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso á minha
vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho
com que ha-de comprar um grilhão de duzentos mil réis, e umas arrecadas
de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos
velhos.
--Quem morreu é rezar-lhe por alma--atalhou com má grammatica, mas com
piedosa intenção, o tio padre Hilario.
Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho
das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.
Ahi está uma amostra de Eleuterio Romão dos Santos.
O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A
menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da
oppressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se
deve permittir á bondade de uma pessoa qualquer.
Logo que a mãe de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos
bens, lançou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que
vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que
a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros
venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fôra creada com
mestras, e de todo estranha á vida agricola.
Entretanto, Romão predispoz o filho a cuidar seriamente no _bonito
arranjo, que lhe sahia a talho de fouce_: estylo figurado e pittoresco
em que são inventivos os nossos camponezes, e em que Romão primava
sempre que tinha entre mãos algum _bonito arranjo_, o qual vinha a ser
sempre um arranjo feio para o proximo.
Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque.
Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de
Theodora. Entre os galans da estôfa de Eleuterio mulher de encher olho
queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa
de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as
facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos
beiços grossos e oleáceos. Theodora era o envez de tudo isto.
Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica tão
de perto.
Theodora, aos dezeseis annos, era um modêlo acabado de formosura, como
raras se vos deparam nas raças patricias, que o concurso de
circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A
pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleição,
á escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e não
do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida é a que vem cantada em
poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a
dar a realesa do amar e padecer á mulher pallida, havemos de curvar-lhe
o joelho, na certeza de que ella se fará amante e martyr, por amor do
poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o
coração d'aço. Póde ser que semelhante clausula, no decurso d'este
livro, acuda á retentiva do leitor.
Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, não vivos,
antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias
azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e
regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feição, a mais
rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrára ella, que
bastante lhe fôra aquella perfeição para desmentir os que a taxam de
desprimorosa. Em labios, não sei se me valha das figuras antigas--rosas
e coraes, romans e carmim--se me avenha com esta verdade prompta e
fluentissima que d'um traço copia como o pincel, e d'uma phrase exprime
tudo, como em phrases de Castilho: «era um osculo perpetuo de
innocencia.» Como isto sahe bem na musica da expressão; e que bello
seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no
osculo perpetuo da innocencia! Ó Theodora, se tu então morresses, o teu
rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios
nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da
voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu
cresceste, e deformaste-te, ó chrysalida! A tua essencia de céo vaporou
para lá no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na
ante-manhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi
a formosura e a desgraça da mulher.
Mas, afóra a essencia pura do céo, que esvelta, que peregrina mulher cá
se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do
altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podridão!
Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora.
Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na lagôa fétida da
verdade. Achei-me como ás margens d'uma sepultura regélida do giar d'uma
noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os
dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos
jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas corôas humidas de
orvalho, crystallizado em lagrimas; são corôas de perpetuas sagradas á
formosura, que se julgou immorredoura, á sexta hora do seu breve dia. Lá
vão as corôas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão
e do cypreste; lá vai tudo; a memoria dos vivos lá se foge tambem d'esta
sepultura: tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!
VII
Belleza absoluta, de têlhas abaixo, ha uma só, que é a da mulher
formosa; e, na variada manifestação de belleza em diversidade de typos,
ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que
prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona
o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e
arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento.
Dá-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora
influição dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina
de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque,
appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço,
querendo exprimir ao pae a sensação recebida n'aquella hora, disse com
expansiva naturalidade:
--Quando ella me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma
estava fóra do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma cousa, e a lingua
grudava-se-me ao céo da bocca. Quem me dera ser rei, e que ella fosse
uma pastora de cabras!
Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeismos, a concisão da idéa
poderia attribuir-se a Shakspeare. A mais crystallina agua é a que
rebenta de penhascos ermos: assim, de espiritos selvaticos, resaltam por
vezes umas idéas limpidas, d'uma sensibilidade original, que faz pensar.
Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a
Theodora. A menina, vesada á linguagem mais florida ou mais delicada de
Affonso, riu interiormente dos termos rusticos do primo, e de fóra
compoz o gesto para fingir que o não entendera. O tutor, porém,
instinctivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas
inglezes chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as
palavras de Eleuterio, aproando o discurso ao ditoso remanso do
casamento, que elle, na sua locução figurativa, denominava um _lindo
arranjo_.
A morgadinha ouviu anciada o tio, e respondeu com um ataque de nervos,
que era já o terceiro que a insultava; sympathica doença em meninas
pallidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o apparelho
nervoso. Theodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos
dormitorios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na á sua cella. A
prelada foi á grade averiguar do accidente, e sahiu convencida de que a
orphan era uma douda, a quem Libana, de impudíca memoria, ensinára a
fingir ataques nervosos. Romão dos Santos sahíra do convento no
proposito de consultar um egresso do Carmo sobre os tregeitos e feitios
que vira em sua sobrinha, para applicar-se-lhe a reza purgativa de
demonios, se o frade entendesse que ella os tinha no corpo. O zeloso e
invencivel demonifugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita
energumena, mandou ás freiras que depozessem ácêrca das malfeitorias
attribuidas ao espirito immundo, e retirou-se capacitado de que a
morgada da Fervença estava possessa d'uma legião de travessos e
intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre
religiosas, não as poupando mesmo, quando ellas tomassem o expediente
salvador do conhecido gallego da fabula de Almeida Garrett. Era
illustrado o egresso.
No entretanto, soubera Theodora que Affonso de Teive fôra para Lisboa.
Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a
destemperada arremettida que elle fizera contra a porteira, e as
vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquella façanha.
Porém, ninguem lhe dissera que dôres o pozeram á borda da sepultura, que
saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitações fazia a mãe
de Affonso para assegurar á filha da sua defunta amiga a certa
realisação do casamento.
Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa,
sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram á sua
conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais
frequencia, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleuterio.
D'antes, a cabeça exterior do moço era horrida, toda escadeada da
tesoura habil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas rêpas
caracoladas sobre as orelhas, e aquelle todo lustroso de azeite. Depois,
appareceu Eleuterio com o cabello cortado á escovinha, e os caracoes
banidos. Depoz a casaca no gavetão-museu da familia, e envergou uma
judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas
de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até á ponta
do pé, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de
madre-perola. Além d'isto, o pae deu-lhe o relogio avoengo, que, no
continente e conteudo de caixas sobrepostas, parecia a baixella d'uma
familia, desde a tina do banho até á bacia do lavatorio. Os berloques
d'este thesouro, que não regulava ha quarenta annos, eram placas de
differentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam
armas de defeza.
Theodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleuterio, afóra mãos e pés,
que nenhuns outros podiam confundir-se com os d'elle, a despeito mesmo
das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de
sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para
dentro do coração da menina.
Li em algures, e estou convencido d'uma verdade que sôa como paradoxo: e
é que o espirito de cada pessoa tem muito que vêr com o modo como ella
está entrajada. A intellectualidade apouca-se e confrange-se quando o
sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O
desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As idéas
sahem coxas e esconças do cerebro; a expressão tardia e canhestra
denuncia o retrahimento da alma: ha o quer que seja phenomenal que eu
tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem
confessado semelhantes segredos de psycologia, em que o alfaiate
exercita importante alçada.
Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleuterio se
sahiu no palratorio, no dia em que se mostrou desfigurado a Theodora. De
vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os
berloques, e ao levantal-os para sua prima já nos beiços lhe borbulhava
alguma idéa bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por
acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canella, que se
ficava algum tempo narcisando nos pés.
D'este primeiro colloquio sahiu a morgada pensativa. Algumas senhoras,
grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cella da menina a
perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleuterio o paralta que a
visitára. Theodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As
freiras benziam-se, e exclamavam:
--Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia
d'alli! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
--Seu primo é uma figura que dá na vista!--ajuntava a mais maliciosa das
freiras para não ficar em peccado com a sua consciencia.
Theodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a
ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não póde já reter: era
a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços,
radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romão dos
Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do céo
que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que
volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que
á menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ella Eleuterio Romão?! Não amava, disse-o ella, e eu juro nas
palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de
sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava
pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não
perdôa. O que ella via em Eleuterio era o homem já desfigurado da
repulsão primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer
encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai
descancellar os adytos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado
aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por não haver mais
elastico epitheto que dar á cousa, é que surdem os irremediaveis
infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as
campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de pé sobre ás lousas
infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e
amaldiçoados na infamia de suas mães... Colho as vélas; que, n'este
rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: cousa duas vezes
importuna.
Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das
Ursulinas entregasse uma carta á morgada, carta de esperanças, alento, e
consolações, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e
das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta
promettendo á menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de
todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora
con-servasse firmeza, coragem, e constancia.
--Dous annos!--disse entre si a morgada--Esperar dous annos n'este
purgatorio!... Se Affonso me ama, porque não ha-de vir já roubar-me
d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo á espera de
não sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a
divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam
menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle está gozando,
esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que
Affonso, n'este espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se
me elle ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de
casarmos já? Se somos muito novos, lá virá occasião de envelhecermos. O
que eu tenho, meu é já; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do
conselho de familia... Dous annos!...
E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco
minutos, dizia: _Dous annos!_ e ficava meditativa, até de novo exclamar:
_Dous annos!_
Respondeu a morgada á mãe de Affonso que a sua saude se havia perdido na
oppressão e dissabores d'aquella vida, em que tão contrariada se via.
Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a
dar-se como esposa a um homem que ella não amasse. Queixava-se da
ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana
como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas
as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar
todas as desditas.
A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se á
sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo á Virgem que
defendesse Theodora dos seus funestos instinctos.
E, desde aquella hora, a mãe de Affonso, com quanta delicadeza de
admoestação e brandura affectuosa pôde, desviou o filho de pensar em
Theodora como futura companheira de sua vida. Affonso pedia
instantemente explicações de tal mudança no espirito de sua mãe; e ella,
podendo responder com o mais idoneo documento, que era a propria carta
da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo,
escrevendo a Theodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade,
descrevia-lhe o quasi nada que conhecia do mundo, citava-a para diante
da virtuosa memoria de sua mãe; mas não mais lhe fallou de Affonso.
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou rasoavel o
sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao
artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto
que a sua saude corria perigo.
Eleuterio, cada vez mais assiduo na grade, já tinha uma outra judia côr
de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um collete de veludo
escarlate, e um cavallo de marca, apparelhado a primor, e obediente ao
freio para todo o genero de upas e galões. Theodora gostou d'isto, por
que um dos anhelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando
selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo véo ondulando no
phrenesi de desapoderado galope. O cavallo--faz pejo dizel-o! foi muito
no determinar-se a morgada a responder categoricamente ás timidas
perguntas do primo Eleuterio. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina,
balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar
estado, visto que a idade lh'o permittia. Eleuterio, perplexo, de
ouvil-a, sem ousar suppor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito,
cuidando que estava alli o coração; quando, porém, a prima lhe disse:
--Faço aquillo que meu tio Romão quizer... Caso com quem elle
determinar...
Eleuterio expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as
mãos.
Por amor d'este successo vim eu a desenganar-me de que a natureza anda
muito abastardada e contrafeita no theatro e nos romances. Casos
analogos d'aquelle tenho-os visto remedados com tregeitos e exclamações
inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou
Ernestos, ao saberem que são amados, empallidecem, suam, ajoelham,
declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher
amada. No theatro, em lances identicos, tenho visto desmaiar sujeitos,
que matariam a futura sogra e o proprio pae, se lhe atravancassem o
caminho da felicidade. Rir ás cascalhadas é que eu ainda não vi amante
ditoso nenhum, no instante solemne de se crêr amado. Eleuterio Romão dos
Santos é o primeiro modêlo que a natureza me offerece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta,
o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui
calcinado de coração. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são
umas pessoas aridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois
que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas commoções que
receberam d'ella.
Theodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ella o queria
falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe
emprestára; mas, ainda assim, aceitou com paciencia a linguagem
desartificiosa d'aquella ingenua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleuterio Romão dos Santos fallou assim:
--Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser
tão rico como Sansão. (O padre Hilario quizera leccional-o em sagrada
escriptura: fallou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como
odiava o soletrar palavras de tres syllabas, deve suppôr-se que tambem
em materia de historia, preferia os individuos de duas aos de tres
syllabas.)
E continuou:
--Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Theodora...
N'isto, como lhe não occorresse idéa nenhuma com que fechar a oração
condicional, levou a mão á testa, e roçou a epiderme com o aro d'um
robusto annel que trazia no dedo indicador. Idéa magnifica! Tirou o
annel, e lançou-o ao regaço de Theodora. Tinha o annel um grosso
topazio, engastado n'um circulo de perolas. Theodora examinou o objecto,
e enganada pela circumferencia do aro, esteve quasi a pensar que era uma
pulseira.
--Faz favor de encaixar no dedo, prima--disse Eleuterio.
--Não me serve--disse a menina.
--É que está magrinha das mãos...--replicou o moço--Pois guarde-o, e
quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima ha-de engordar com os
ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa, e
acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.
VIII
As filhas do desembargador Figueirôa rodeavam o primo Affonso de
agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de
sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão,
pedia-lhe que se descuidasse em materia de estudos, e tomasse muito a
peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ella
houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda
para a idade de Affonso. Bailes e theatros atediavam-no só em cuidar que
havia de ir affrontar-se com centenares de mulheres entre as quaes nem
sequer em sombra se lhe offerecia, como agro alimento de saudade, a
imagem de Theodora. O pudor dos dezesete annos, a indole nada
communicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas,
encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprára-lhe o
tio, por ordem de sua irmã, um cavallo. Affonso recebeu a dadiva com
satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e
refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limitrophes de Lisboa.
O local mais attractivo do seu espirito era a quinta dos condes de
Pombeiro, em Bellas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes
arvores d'aquella magestosa ancian estavam frondeando, e asylando as
gerações de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com
suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por alli as horas
lhe corriam placidas, contentes nunca, bem que a tristeza d'entre
arvoredos, ao murmuroso cahir d'agua em sonora bacia, seja uma
particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade,
saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das
breves e donosas verduras da vida.
De cada vez que Affonso ia á quinta predilecta, em cada arvore nova
entalhava as letras iniciaes dos dous nomes, que elle imaginava, apesar
da distancia e dos revezes, atados para sempre com applauso de Deus.
Este pagão d'amor e por amor, á imitação de todos os amadores
visionarios, cuidava que a divindade se intromette n'estas brincadeiras
da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas
vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta, e
lá se atira em corpo, deixando cá fóra a alma infernada na deshonra e na
execração. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas
chimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!...
E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por
Theodora, e, alteando o rosto ao céo, pedia ao Senhor que lhe visse as
lagrimas, e houvesse piedade d'ellas.
O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas
não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do
primo, que se ia á aldêa a conversar com arvores e penedos, e deixava
suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes
das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e
de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em
ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moço,
que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da
orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em
disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Theodora, não faria menos que
odial-as. Estes escrupulos são a religião, o ascetismo dos illuminados
de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de
trinta annos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos tambem
illuminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados n'este
lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos
vêr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do céo da
nossa mocidade!
Affonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado ás
tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com
uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si.
É o que Affonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.
Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que
não voltára a Lisboa. O tio, como elle não voltasse ao segundo dia,
metteu-se á sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas
recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra d'um seu tio paterno,
fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um
Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia
elle, por nome não perca.
A carta da mãe dizia simplesmente:
«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o coração
estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o
tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.» E poucas mais
expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as
mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.
A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o
casamento de Theodora com Eleuterio.
Parecem-me dignos de extracto uns relanços d'esta carta, que eu copiei
do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo
picaresco do folhetim:
«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do
Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio.
Predominavam as eguas de albardão e rabicho na parte equestre do
prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente
as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para
isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara
relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio
dia, pasmada de vêr que ellas não vinham á janella admiral-a. Eu,
lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos
troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos
antepassados!.............................................................
..........................................................................
«Perguntei quem eram os figurões do prestito. O meu sapateiro conhecia
quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e só me lembro que levavam
cara de terem bebido em jejum á saude da noiva. O lapuz do noivo queria
montar á Marialva; mas o ginete, quando chegou á Cárcova, festejou a
suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como
amostra dos que ella ha-de levar do marido................................
..........................................................................
«Tinhas a côrte celestial a pedir por ti, Affonso! Quando te deu na
venêta ser marido de Theodora, em quanto a mim tinhas lido o folheto que
reza de uma que era formosa e sábia. Vai ás arcadas do Terreiro do Paço,
que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Theodora por
Theodora, antes a do papel de mata-borrão, que est'outra é um borrão da
tua mocidade, que felizmente o tempo ha-de gastar.........................
..........................................................................
«Agora é tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se
a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Está senhora, e
foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pae,
Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras é discreta como se os
cabellos, em vez de puro ouro, lh'os tivesse embranquecido a
experiencia. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não
deva honrar, e bemdizer a mãe que a educou, e o sangue illustre que lhe
fórma o coração.
«Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras
d'uma mocidade bem encaminhada, e recebe a benção de teu tio
_Fernão de Teive_.»
Lidas estas cartas, Affonso levou o lenço ao suor da testa e ás
lagrimas, que lhe cahiram a quatro. O tio, já avisado do successo de
Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os oculos montados na
mais grave das attitudes. Affonso diz que o não ouvira longo tempo, e o
abominára depois que o ouvira.
Quizera o desembargador leval-o comsigo na traquitana; mas o moço
rebellou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da
pertinacia do sobrinho em ficar, terceira noite, fóra de casa. Affonso
internou-se de corrida entre o arvoredo, n'um impeto de desesperação ou
loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, d'onde participou á
irmã o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que
Affonso ia caminho da demencia a passos de gigante.
Disse-me Affonso que, n'aquella noite, fôra ter a Mafra; e repousára, na
madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do sol,
quiz agitar-se em nova caminhada; mas o cavallo, prostrado de fadiga e
fome, resistiu impassivel á espora. Esta contrariedade, que faria rir o
leitor, pungiu acerbamente Affonso. A mais tragica desventura tem uma
physionomia comica, se bem lh'a procuramos. Escusavel seria o riso de
quem observasse o cavalleiro, roxo de febre e colera, esporeando os
ilhaes do esbuxado cavallo, decepado de jejuns, e correrias arabes pelos
descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta
sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do
dom da palavra, nem sequer póde questionar com o dono a supremacia da
sua racionalidade!
Em quanto o cavallo reparava as forças na manjadoura, Affonso escreveu a
sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença
para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de
Theodora. Escreveu tambem ao tio Fernão, lastimando-se de não poder
aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.
Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena
tristeza.
O céo negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava
elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se
com ella a uns rapidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de
esperança, esperanças tão amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe já
uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum
outro lenitivo humano lhe poderia já valer.
Embebecido n'esta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se
tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As
primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O
velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle ácerca das paixões;
abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas
frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e
proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas
acções, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas
transviadas do caminho direito; porém, confessa o inattento sobrinho do
apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as
maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo
e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso não
aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.
Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.
N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar
com a sua dôr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Affonso, desgostoso
da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vêr sua mãe, receiou
que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a
demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu
benignamente, e disse-lhe:
--Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sahir de tua
patria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para
nunca mais a tornares a vêr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas
aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas
vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca sahirem
da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos
e os generaes já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se
dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mães tinham orado
com elles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa familia antiga,
meu filho, e não sei por que não ha-de continuar comnosco tão salutar
costume. Aos pés da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em
meu seio, e lá aprendeste de minha bocca as tuas primeiras orações.
Sempre pensei que o meu nome ao menos--nome dôce de mãe que te
estremece--seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria
a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a
sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com
anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida.
Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a
Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam
chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirás o que queres, que
prompto está. Prasa a Deus que elle te não sirva de ruina ou deshonra.
O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura,
quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com
severidade, e clamou:
--Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e dôa-te o arrependimento,
filho mau!
--Meu mano--disse a senhora--o nosso Affonso não é mau filho, nem tem
acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que
elle tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta má vereda fui eu.
--Tu, Eulalia?! Como assim?--perguntou o desembargador interdicto.
--Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o
coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade.
Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar
fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna
de o ser do filho da mais illustre mãe. Eu enganei-me, e elle foi
enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era
tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo,
poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe
chamei fraco.
Affonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulalia; e, após
curtos instantes de offegante silencio, exclamou:
--Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em
sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o
que eu mais necessito é a sua vida!
--Graças vos dou, meu Creador e Redemptor!--clamou a senhora, muito
commovida, com as mãos postas--Grande é o poder que daes ao coração
maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia
não mede os merecimentos pela afflicção com que as mães vos chamam!
E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio
com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia.
O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de
contentamento.
IX
Verei se posso repetir, sem inexactidão sensivel, o que Affonso de Teive
me contou, com seguimento aos successos descriptos.
«Nenhum rapaz dos meus annos--dizia elle--exerceria tão dolorosa
violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o
nome de Theodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido
d'ella. Eu não sabia a que porta do inferno fôra bater, sacrificando-me
puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos
experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de
minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia,
contra a qual minha propria mãe involuntariamente dardejava insultos.
Quando ella me dizia: «Estás esquecido d'aquella louca, meu filho! as
minhas orações foram ouvidas no céo» ou quando meu tio, com alegres
gargalhadas me applaudia, dizendo: «Sempre entendi que eras homem, meu
rapaz!» então a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as
attenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com
as mãos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar á piedade divina,
erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava,
antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites
aquellas!...
«Minha mãe deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me
trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia não podia levar tão
longe a abnegação. Recordar estes sitios, vêr além os horisontes de
Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou
alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a
alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi
precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.
«Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de
todas as condições e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam
em suas folias, ou me habituariam o espirito ás consoladoras occupações
do estudo.
«Minha mãe accedeu promptamente á minha vontade.
«Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me
matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fôra um
erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me
primeiramente na roda dos moços-velhos, gente ridicula; mas d'uma
ridiculez que não distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous
oraculos na cabeça: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se á
escuta da inspiração; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das
escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sóco para escutal-os.
Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos
litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas,
questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da
leitura, emfim, futuras esperanças da patria, que bem sabiam que uma
diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos
sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma
das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos
tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá commigo
a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa
suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do coração virgem.
Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia
quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu não tinha ainda lido
Lamartine: fui lêl-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado
commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns
ares de tolice muito por ahi fóra dos limites rasoaveis. Passados tempos
dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada,
vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas
avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarára que eu
traduzira Victor Hugo. Fui lêr depois Victor Hugo, e lastimei que os
soberanos do genio estivessem sujeitos ás chufas de todo o mundo, sem
excepção dos litteratos meus contemporaneos da universidade.
«Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com
os _trossistas_, iniciando-me para isso nas libações homericas da
genebra e cognac do Troni. Á primeira vez que me embriaguei, recobrando
o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha mãe, e chorei. Não impediu isto
que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu,
embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico,
eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de
razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra côr, e de
haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas
auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no
uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite
infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco
acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo á luz que
me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha
alma, toda oração, toda absorvida, se evolava em effluvios de admiração
para o Altissimo.
«N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvação
plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa.
--Com approvação plena!--atalhára eu Affonso de Teive.
«Por que não?--respondeu elle--As minhas noites eram quasi todas
desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios.
Se o torpor me não adormecia, a visão de Theodora sentava-se em frente
da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher
ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem já não tem
que pedir senão piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com
desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os;
mas, esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia
entender, decorar, e expôr com clareza, uma ou outra vez, as idéas dos
compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei
vantajosamente n'uma lição.
«Pediu-me minha mãe que a visitasse em ferias, embora me demorasse
poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao
Porto passar commigo a estação dos banhos de mar. Annuiu a santa
senhora.
«Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde
se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das
outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial
pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fôra a minha companheira dos
brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois á verdadeira
luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse
vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua
innocencia. «Se eu podesse amal-a!» dizia eu a minha mãe, que se tornára
para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E
minha mãe, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me
obrigasse a fallar, que me fizesse lêr alguns livros recreativos em voz
alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da _Noite do Castello
ou os Ciumes do Bardo_. Comecei a lêr pelo livro; porém, á segunda
pagina, dei de mão insensivelmente ao livro, e declamei de côr com
tamanho enthusiasmo, e com a voz tão vibrante de lagrimas, que minha mãe
rompeu em soluços, e minha prima empallideceu de assustada da minha
intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem
rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos,
e através d'estes oculos de tres graus!
«Minha mãe impediu a continuação da leitura, e Mafalda nunca mais
desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa,
minha prima, desde aquella explosão de ciumes, por conta do poeta
Castilho. Isto inquietou-me tão de leve, que nem a vaidade me magoou.
«Estavamos em Setembro, e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a
Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais
tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei á
ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado
conventinho de extinctos franciscanos. Á sombra d'um arco manuelino, que
havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no
convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas
que mãos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações,
extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a
civilisação, que fechára os aditos da paz, quando a guerra sacudia as
suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustração, que aluira a
enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais
devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu não podia
dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor
mundo.
«Descendo o rio, lá me ficavam ainda os olhos e as saudades nas
ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava
esperando. Detive-me a passear com ella pelo braço, e a referir-lhe as
minhas idéas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e
dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor, e
que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus
religiosos avós, alguns dos quaes tinham morrido martyres da fé nas
pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu
aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na
Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, á sahida
de Matosinhos, com direcção á ponte, uma senhora cavalgando um alentado
cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas
garbosas do seu.
«Minha mãe assestou a luneta, e murmurou:--Valha-me Nossa Senhora dos
Remedios!... Se me não engano...
«Quem é?--atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavalleiros, no
entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o
coração, que me repuxou á cabeça uma onda de sangue... Era Theodora,
Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras
do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de
verem as fealdades d'esta vida... Não te espante o ardor d'esta
linguagem. Eu fiz agora pé atraz vinte e quatro annos da minha vida, e
senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me
tomar fôlego, recordando minha mulher e meus filhinhos.
X
Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da
jovialidade com que principiára.
«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem,
e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas
d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi
paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de
minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica
do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo
vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz
então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.
«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto,
lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do
meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto
de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram
allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando
chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que
salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo
para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e
pedia vingança.
«No dia seguinte, fui para Coimbra.
«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle
adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?--dizia
eu--Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da
tortura?
«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga.
Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me
o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações,
dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão
dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e
assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para
onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o
remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por
diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus
lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes
tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho
na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior?
Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre
alma d'este miseravel corpo.»
«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram
uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia!
Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me
diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas
onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era
indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer
atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era
então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.
«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas
dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me
escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem
excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua
zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da
minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba,
soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.
«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os
fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas,
reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.
«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado
de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou
escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado
d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido
da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda,
com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela
inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou
de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não
podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu
caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor
dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do
covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada
com as pompas da felicidade.
«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a
saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos
olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da
guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se
a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado
de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre
esperança de que me não levantaria mais.
«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o
remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma
que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi
esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que
me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e
viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr,
a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de
encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.
«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra
para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as
montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos
crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a
colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava
então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que
o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal,
aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.
«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e
inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo,
d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava.
Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que
importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor
d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira
refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.
«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta,
relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma
alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa,
senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me
considerei estreado em nova existencia.
«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o
segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos
compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como
desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella.
Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas
que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu
designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as
ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se
sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação
e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me
reapparecesse a visão de Lessa.
«Que presentimento!
«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu
tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima
Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na
volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós
um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o
braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom
ironico:--Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos
felizes verem-se admirados.
«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e
reconheceu-a tambem de instincto.
«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou
cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom
arrogante:--Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O
coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam
arrebatar maior alma que a sua.
«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto
seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso,
lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.
«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto
de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!
«Mafalda ia murmurando:--Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem
desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi
passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo,
com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e
meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e
pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...--Não receies, minha boa
prima--disse eu a Mafalda--que esta mulher na minha vida, já agora,
apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas
Caldas--Minha prima replicou:--Não te illudas, meu primo: esta mulher é
a tua sina maldita.
«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita
preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha
de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e
vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as
madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres:
tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.
«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha
perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem.
Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo!
Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez
escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando
chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da
miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri
de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado _homem_. «Ia depôr as
madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel
dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente,
fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de
noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no
escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.
«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das
auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente.
Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos,
repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a
carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei
dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas
mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava.
Respondeu-me:--São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu
primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar
d'aquella mulher.--E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi
infantil:
--Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa
misericordia não tem querido salvar-me!
«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.
«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta,
vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o
vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma
santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.
«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam
bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno
ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no
descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos
tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á
cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama.
Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom
de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação.
Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta
angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para
exprimir os soffrimentos communs.
«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu
quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua
natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando
provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.
«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso
lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da
authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga
aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!
Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:
«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?
«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um
grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz
saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?
«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu.
As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram
soro do mais nobre sangue.
«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!
«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua
escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que
te ama, que não seja infame, amando-te?!»
N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:
--Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que
interrogatorio!
«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar
uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive--disse o meu amigo.
--Mas o estylo--tornei eu sinceramente agradado da leitura--o estylo
aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia
de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da
inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr»
como diz o Garrett.
--E que lêr--ajuntou Affonso de Teive--continúa, se queres.
Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:
«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro
tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!
«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu
captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?
«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e
me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para
resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das
aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu
destino debaixo dos olhos de Deus?»
--Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os
periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de
mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te
fazia isto ha quinze annos!...
«Lê, e no fim fallaremos--disse Affonso. E eu li:
«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não
respondas. Ri, e escuta.
«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua
mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do
abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as
mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua
de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro
demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me
deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos
ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.
«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos
murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher
sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do
meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a
infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade,
desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia,
não ousam interrogal-o como Job!»
--De mais a mais--reflecti eu--lida nos livros sagrados!... Posso, sem
indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive
escorreitamente?
«Espera que a concatenação dos factos te elucide--respondeu Affonso.
Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar
cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:
«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a
vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que
tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas
que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as
montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se
sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te
vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um
anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de
desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã
não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que
te não insulte.
«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas
palavras queriam dizer:--Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a
infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me
acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu,
contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as
miseraveis, que m'a cuspirem.
«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do
cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios
o sangue do coração, e escarraste-lhe!
«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma.
Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos
quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do
inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te
crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo,
e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe
que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»
Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a
leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.
Como a gente, ás vezes, chora?...
Era o estylo!
XI
Sorriu Affonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu
destrahidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de
fasciculos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro, e continuou:
«Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de lêr esse papel.
Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Theodora. Não ha
vergonha que eu omitta n'esta confissão geral. Sou o juiz do homem que
fui. Julguei-me e condemnei-me ao opprobrio de levantar da lama o
coração velho, e mostral-o com nausea ao enojo dos que vão passando...
--Mas eu não vejo ahi cousa indecorosa de que te
envergonhes!...--atalhei.
«Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa
sandice de pensar que as accusações de Theodora estavam justificadas por
essa frandulagem de palavras sonoras, e apostrophes melo-dramaticas. O
castigo da minha miserrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.
«Li terceira vez a carta, e abri a janella do meu quarto. O vento
ramalhava nas carvalheiras, e o céo d'aquella noite não tinha uma
estrella. Appeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso
a porta do meu quarto, e, pé ante pé, ganhei a varanda d'onde era facil
o salto á rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janella
contigua á varanda, me surdiu a voz de Mafalda.--Não tinhas necessidade
de saltar, primo--disse ella--Chamasses que se te abriam as portas.
«--Estás a pé ainda, minha prima?--perguntei eu, corrido da surpreza, e
algum tanto contrariado da espionagem.--Nunca me deito mais
cedo--respondeu ella com brandura--Quando as noites são assim tristes,
gosto de as vêr... Está vento, primo;--continuou retirando-se--não
estejas ahi ao ar desamparado. Boas noites.»
«E fechou rapidamente a janella.
«Encaminhei-me á alamêda dos banhos, na inepta esperança de vêr alli
vestigios de Theodora, ou não sei se ella mesma. Não sei ao que ia. É
impossivel explicar o intento que nos impelle em casos semelhantes,
quando a gente, alguns annos depois, inquire de si mesmo o sentido das
suas intenções: são actos estranhos á razão, dos quaes só póde
desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui á alamêda, e andei, palmo
a palmo, recordando-me do local em que ella me sahiu, e a direcção que
tomára na retirada. Sentei-me n'um dos bancos de pedra, e conjecturei se
ella teria estado alli sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para
escutar o som das palavras de Theodora, que me ecoavam do intimo
coração. Atirei com a alma supplicante e desesperada áquelle céo de
bronze, negro como ella. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a
vehemencia do justo atribulado que pede a corôa do triumpho.
«Levantei-me, e andei por as trevas, esbarrando nas arvores, e
refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao
arraiar da manhã, estava eu nas raizes da Falperra. Senhoreou-me então
um somno lethargico e invencivel. Adormeci com a face encostada á raiz
d'uma arvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos
primeiros raios do sol. Retrocedi pela estrada das Taipas, e entrei em
casa, quando meu tio Fernão, admirado de minha falta, andava indagando
dos criados, se eu sahira de madrugada.
«Mafalda appareceu-me com o semblante pallido, os olhos raiados do muito
chorar, e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até
meia-face. Meu tio ligeiramente alludiu á minha falta, na presença da
filha. Sahimos da mesa de almoço, e entramos na sala, onde Mafalda
recordava as suas musicas ao piano, e, algumas vezes, se acompanhava
cantando. N'este dia, a adoravel penitente sentou-se ao piano; e, com
uma só das mãos, dedilhou umas toadas monotonas, mas celestialmente
saudosas e melancolicas. O velho acenou-me, a occultas da filha.
Segui-o; sahimos, e caminhamos a pé na direcção das ruinas de Citania. A
meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em
pé. O velho avisinhou-se das ruinas, estendeu o braço com o indicador
apontado, e disse: Aquelles pardieiros pertenceram a teu tio-avô
Christovão de Teive. N'aquelle tempo, os homens de vida infamada, quando
os ultimos invernos lhe geavam na cabeça, e os sinos, dobrando a
finados, lhes attrahiam os olhos para a sepultura, o remorso
penetrava-os até ao amago, e estorcia-os nas roscas das suas mil
viboras, até que Deus se amerceava d'elles, e os tomava para o seu
tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da
côrte entrou-lhe no coração, e apodreceu-lh'o á força de lhe derrancar o
sangue com as torturas da perfidia. O moço empestado veio para a
provincia, e sevou o seu odio em quantas victimas pôde surprehender
adormecidas no regaço do seu anjo de innocencia. Aos quarenta annos,
pesou sobre elle a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabellos até á
raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor
d'elle fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os
engeitadinhos, indigitados como filhos d'elle, ousavam chegar-lhe um
pucaro de agua. Christovão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de
visinhos, construida não sei para que fim ha tres seculos. Aqui se
encerrou e viveu quinze annos aquelle vivo amortalhado nas ulceras da
sua pelle. A sua companhia era a ama, que o amamentára, e que Deus, em
recompensa, preservou da terribilissima enfermidade. Morreu o
desamparado, legando esta casa á mulher que lhe cerrára as palpebras. A
enfermeira foi depós elle, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo.
Cincoenta annos depois, quando eu aqui vim, encontrei estes pardieiros.
Dos nossos parentes ninguem poz pé a dentro das soleiras, que alli
estão, onde existiram as portas...
«Deteve-se meu tio breves instantes, e concluiu:--Affonso, o divino
Mestre doutrinava com parabolas: o homem d'estes calamitosos tempos
moralisa com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho,
se vingas um correr de vida melhor que o d'elle. Se uma mulher te
cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao
mundo a procurar a felicidade do coração. Em quanto esse dia de
regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha
unica, um thesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti.
Affonso, se as lagrimas d'ella te não resgatam das presas d'uma mulher
perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silencio, Affonso...
«Na madrugada do dia seguinte, sahi das Taipas, e fui para Ruivães. Dias
depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Sahia um
vapor para Liverpool: embarquei, e estive na Inglaterra; passei a
França; e de França fui residir na Suissa uns seis mezes. O
arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre.
Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem
que eu via, voando em espirito á patria, não era a de minha mãe. Ella
sempre, Theodora sempre!
«Ao cabo de um anno de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então
como curado. A memoria d'ella era já fria: o pulso não se accelerava,
nem do coração me subia á cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar
minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia á
convalescença d'uma perigosa enfermidade. Notei sensivel mudança no
rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao céo no
perfume de suas orações. A coruscante luz d'aquelles olhos tinham-na
apagado os prantos. As madeixas cahiam-lhe soltas sem flôres, sem
ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que elles valham
ás venturas da existencia. Porém, formosa da aureola santa da dôr sem
culpa. Que paixão me avassallou n'aquelles primeiros dias! com que
religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos labios
d'ella! Recordo-me de a encontrar sosinha no pomar. Sentei-me ao lado da
mulher purissima. Tomei-lhe com subita sofreguidão os dedos que me
offereciam um pomo. Não ousei beijar-lh'os... apenas balbuciei: minha
querida irmã!... Mafalda respondeu--Deves assim chamar-me, por que eu já
me afiz a chamar minha mãe á tua, meu primo.
«A paz dos primeiros dias, aquelle suave repousar do espirito, entre as
duas carinhosas almas, que m'o distrahiam com as indiziveis doçuras da
domesticidade, durou menos de tres semanas. Ao sentir-me fatigado da
igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu
futuro. «Que abominavel homem sou!» dizia eu no meu intimo senso,
repellindo-me a mim proprio com uma restante força de virtude--Se me
repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para
que me devoro n'estas covardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e, em
minha alma lhe exoro perdão d'este odio. Se me doe o coração saudoso
d'ella, abomino-me, e recurvo sobre mim proprio as unhas d'esta feroz
paixão.
«A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ella via
nos meus olhares a submissão imploradora, e não entendia a covarde
procedencia d'aquelle fital-a com tanta brandura. Apreciou-me
erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado
pelejava com a visão de Lessa e da lamêda das Caldas, Mafalda rehavia do
céo os jubilos de outros dias, e a purpura do rosto. A compadecida
amargura, com que eu a fitava, afigurava-se á ingenua menina a expressão
do amor contemplativo, como ella o sentira e escondera sempre de todos,
salvo de seu pae.
«Minha mãe, a occultas da sobrinha, perguntava-me a respeito d'ella
cousas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade,
como se Deus necessitasse interrogar a minha consciencia. Mostrava
receios de ter desbaratado as flôres do coração, ao apuro de não ter já
virtudes que me fizessem um digno esposo d'ella. Minha mãe não podia
entender-me; obrigava-me suavemente a explicações, e, ouvindo-me, dizia
soluçante: «Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve,
meu desgraçado filho!»
«A quarenta passos de distancia de minha casa está uma cruz de pedra
tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Theodora, na
carta que lêste. Quando ella tinha seis annos, esteve com sua mãe uma
temporada em nossa casa, e voltou alli aos nove. Algumas vezes nossas
mães se sentaram nos degraus do cruzeiro, em quanto nós, com vergonteas
floridas de acacias e arvores de fructa, teciamos uns desageitados
festões que dependuravamos dos braços da cruz.
«Levou-me para lá o coração dez annos depois. Sentei-me na peanha da
cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o sôcco, e vi
letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Theodora. Eram duas datas:
_5 de Julho de 1848_, com a assignatura inicial _T. P._ Seguia-se a
outra, em letras mais de fresco: _10 de Setembro de 1849_, com as mesmas
iniciaes, e as seguintes palavras: _Aqui veio orar a alma penada._ Eu
estava então em 15 de Setembro d'aquelle anno. Cinco dias antes, pois,
alli tinha estado Theodora.
«Recolhi-me com febre. Á celestial graça de Mafalda, que me sahiu ao
tope da escada, respondi com uma affectuosidade falsa. Importunava-me o
anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no
deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da
moral, impassivel carrasco das organisações ardentes. O aspecto mavioso
de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe, e, por alguns
dias, raras horas nos encontramos.
«Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma
corôa de flôres do campo; e, na base, inscripta outra data: _20 de
Setembro de 1849--Meia noite--O sol de amanhã queimará as flôres; mas o
braço da cruz redemptora permanecerá aberto para os desgraçados. T. P._
«Eu queria esconder de minha mãe estas inscripções, feitas a lapis.
Embebi um lenço em agua, e desfil-as. Hei-de agora confessar-te que a
pertinacia de Theodora, por algumas horas, me pareceu ridicula.
--Tambem a mim me está parecendo isso, ainda agora--observei eu, animado
pela confissão da pessoa, menos idonea para embicar no irrisorio
romanticismo da esposa de Eleuterio Romão dos Santos.
«Mas, proseguiu Affonso de Teive--esta judiciosa critica, no dia
seguinte, converteu-se em piedade...
--Em amor--atalhei.
«Amor, sim, amor indomavel, amor faminto de vêl-a e de ouvil-a, de
chorar com ella, de arrebatal-a ao marido, e insultar a sociedade e Deus
na posse d'ella.
«Esporeava-me este designio, quando entrei em casa. Minha prima estava
na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao
coração arquejante, e disse-me:--_Os braços da cruz redemptora estão
sempre abertos para os desgraçados._ As palavras, embora escriptas por
mão criminosa, são santas. Meu pobre Affonso, já que ella te deu a
desgraça, aceita-lhe tambem o conselho.--Beijou-me a palma da mão, e
sahiu da sala.
«Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Theodora.
Comprehendera o mysterio, resistira ao impeto de as tirar, e, desde
aquella hora, promettera a Deus exercitar todos os recursos de seu
coração para me acautelar das cavillações da mulher ardilosa.
«Que poderia fazer a simples creatura? O infinito das forças humanas fez
ella em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe
havia de conceder o céo um pleno dominio em minha razão.
«Logo, ao outro dia, Mafalda pediu-me que sahisse com ella a um passeio
longe por esses pinhaes fóra até ao mosteiro de Landim.
«Sosinhos?--lhe perguntei--Por que não! sosinhos, com os nossos anjos da
guarda, e o coração de tua mãe comnosco, meu querido Affonso.
«Sahimos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito
batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma
constricção de alma, que não atinava com os termos communs d'uma
palestra entre dous primos. No alto d'um sêrro, d'onde haviamos de
descer para umas veigas, Mafalda sentou-se, e abrangeu com os olhos
lagrimosos a redondeza dos horisontes. Perguntei-lhe que razão tinha
para chorar. Respondeu-me que a mortificava a idéa de me vêr ir talvez
para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.
«Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?--redargui--Dizes-m'o
tu, se eu t'o perguntar com as mãos postas--respondeu ella, pondo as
mãos em supplica.
«Tartamudiei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do
espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a
mentir. O coração teve quinhão d'este pejo: a meiga creatura, que me
interrogava, tinha uns ares de divinisação, que me incutiam uma especie
de escrupulo religioso.
«--Vejo que te afflijo, meu primo--interrompeu Mafalda--És ainda bom,
que não podes mentir á tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai,
mas... escuta-me...
«Seguiu-se um longo silencio, que ella mesma interrompeu, exclamando, em
pranto desfeito:--Não posso!... A Virgem do céo não ouviu os meus
rogos!...
«Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que fallasse.
Articulou ainda algumas palavras desatadas, faceis, porém, de se ligarem
em meu espirito prevenido. Atalhei-a muito commovido, n'estes termos:
«Deves ter directo instincto do céo, minha prima, por que a tua alma
virginal é pura de toda a falsidade, e não póde ser enganada. Sabes que
eu vou fugir, sem eu ter annunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo,
minha irmã, por que entre a tua celestial dedicação e as minhas
desvairadas paixões está o infinito. Tu és a creatura que ainda não
sonhou o mal, sedenta d'uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a
minha vida, posta em assedio pelas tentativas da mulher unica do meu
amor, da mulher perdida para mim e para si propria perdida... observas
isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal d'esta
mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo, despido das vestes
que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o
abysmo d'onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da
sociedade. Esconde-te de mim, e de todo homem que viu o mundo;
esconde-te, anjo do paraiso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu
não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua
linguagem perdi-a, quando sahi d'estas florestas, onde nós nos
entendiamos como as avesinhas do céo se entendem. Que hei-de eu dizer-te
hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade!
«Mafalda poz-me com muita suavidade a mão na bocca, e disse:--Não digas
mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... _A mulher unica do teu
amor_... _a mulher unica do teu amor_ é... ella!...--Os soluços
embargaram-lhe a voz. Falleceram-me a mim espiritos com que tentasse
consolal-a. Todas as palavras, sem vehemencia de dentro, seriam pallidas
e vans. Mentir, bem que eu podesse, de que serviria?... O meu silencio
era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto áquelle dialogo...»
«Com satisfação a vi erguer-se, e dizer-me:--Voltemos, primo?... Vamos
para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...»
«N'este momento, á raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava
uma mulher cavalgando a galope. Ia sósinha. Eu não a tinha visto ainda,
quando Mafalda, apontando-a com o braço tremulo disse:--_A mulher unica
do teu amor_...
«N'este instante, esqueci o anjo, que me estava alli chorando, não sei
mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua patria; e adorei o
demonio, que passava lá em baixo, com o véo esvoaçante, por entre nuvens
de pó, sacudidas das patas do arremessado cavallo.
XII
Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo animo
de Affonso de Teive. A obsessão de Theodora não lhe dava treguas. Nas
circumvisinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes
sósinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a
quem ella não prestava mais attenção que ao lacaio. Affonso, em quanto a
mim, resistindo á tentação, iniciava-se para consociar-se no reino
celestial com os santos da sua familia, mortos sob o estandarte da cruz;
mas, a juizo de muita gente, muito menos benemeritos da auréola da
santidade. Morrer com o céo a abrir-se além no horisonte, ouvindo já os
hymnos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em
lagrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estimulo de
predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos
pés do triumphador que a despreza e adora... sublime extravagancia, se
querem que lhe eu não chame santissimo martyrio!
A mãe do lastimavel moço, antes de avisada da intentada partida d'elle,
resolveu impôr-lhe o seu arbitrio de mãe com severidade. Informada por
Fernão de Teive, sabia que Theodora fazia miudas investidas ás
redondezas de Ruivães, e que Affonso não era estranho, bem que a não
houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher. A palavra
«adulterio», no espirito de D. Eulalia, tinha uma significação de
horror, como se o crime não tivesse exemplo na humanidade, nem remorso
que o contrapesasse na balança da misericordia divina. O pavor de que um
filho seu, um descendente de santos, e, pelo menos honrados varões,
podesse dar ao mundo o escandalo de tamanha perversidade, accendeu-a em
louvavel indignação. Inesperadamente é chamado Affonso ao quarto de sua
mãe para ouvir estas pesadas e seccas palavras:
--Eu preciso de morrer em paz com o mundo, que nunca escandalisei, penso
eu, e Deus me perdôe se a minha vaidade me faz esquecer as culpas. Em
quanto viva, peço-te, como amiga, se não devo antes ordenar-te como mãe,
que me poupes á vergonha de esconder a face, quando me pedirem contas
dos sentimentos de religião e honra que te insinuei na alma. Temo que me
perguntem que fiz eu da herança, que teu pae fiou de mim para te eu ir
entregando, assim que tivesses razão para recebel-a... herança de
virtude e probidade que tu levas em principio de desbarate. Mando-te que
te retires para longe d'esta terra. Vai para Lisboa, se te agrada; ou
vai viajar, se antes queres. É bom que saibas os cabedaes que tens. A
tua casa rende seis mil cruzados: conta com elles, e com o valor das
propriedades, se, para salvação de tua honra, precisares que ellas se
vendam. Não voltes para mim sem me poderes jurar, pelas cinzas de teu
pae, que a lembrança peccaminosa de Theodora morreu em teu coração. Deus
Nosso Senhor te abençôe, filho. A minha ultima oração será rogar ao
Creador que restitua á casa onde as gerações legaram umas ás outras a
tradição de grandes serviços a Deus ligados a grandes serviços á patria:
religião, honra, e trabalho, o nobre trabalho da espada de uns, e da
sciencia d'outros. Tu sahes da trilha de teus avós, consumindo tua
mocidade em dissabores de que ninguem, senão eu, póde compadecer-se.
Vai. Se poderes, sê forte, sê homem. Se a ultima fraqueza te levar ao
ultimo crime, guarda ao menos uma parte da alma para a contrição no
remate da vida.
Nunca, até áquella hora, Affonso vira e ouvira assim sua mãe. Mesmo na
admoestação, denotára sempre o pesar com que o fazia; e para o compensar
da magoa, acudia logo com as caricias. Por causa de Theodora, as
reprehensões eram sempre disfarçadas na grave mas dôce persuasão do
conselho. Querer afastal-o de si, nem por sombra de palavra o indicára
nunca. E agora, no semblante, na rigidez da phrase, na postura do rosto,
e arrugado da testa, Affonso achou tanta mudança para espantar-se como
affligir-se.
Ia elle responder, e ella, para logo, d'um gesto de silencio, o fez
calar, dizendo:
--Não te quero ouvir: Deus que te ouça; mas vai. Cá fico eu velando os
dias d'esta menina, que teve a desventura de te amar. Consolar-nos-hemos
eu e ella, orando por ti. Ámanhã partirás. Tua mãe ordena.
Affonso, ao despedir-se de sua mãe, teve a intuição de que a não veria
mais. A maior agonia da sua vida, até áquelle momento, foi essa.
Ajoelhou-se a beijar-lhe as mãos, que molhou de lagrimas. E ella
abençoou-o serenamente, com os olhos no crucifixo do seu oratorio. Ao
lado d'elles, estava Mafalda, livida, hirta, tranzida d'um frio, que a
fazia tiritar. Não chorava. Podia comparar-se a sua atribulação á da mãe
que tambem tinha enxutos os olhos. Porém, quando Affonso lhe estendeu a
mão, e disse: «adeus!» ella, arrancou do intimo um cortante grito, e
lançou-se nos braços d'elle, debulhada em pranto.
XIII
Foi Affonso de Teive para Lisboa. Como ia desgostoso e intratavel,
rejeitou a aposentadoria em casa do tio desembargador. Mobilou casa no
bairro de Buenos-Ayres, na menos frequentada das ruas. Desligou-se do
trato das relações adquiridas em casa do magistrado, e evitou novos
conhecimentos. Vestiu de livros as paredes do seu gabinete, propondo-se
o recreio do estudo, e o trabalho mesmo da composição, sem o intento de
fazer-se conhecido no mundo litterario. Em quanto o espirito se lhe
entreteve nos apetrechos de casa e aconchegos de quem tencionava viver
n'ella os dias e as noites, curtos intervallos de magoa o assoberbaram;
assim, porém, que o bulicio cessou, e os tapetes das elegantes salas não
davam rumor de um passo, e Affonso, sentado á sua banca de estudo, ouvia
apenas as cadencias do pendulo do relogio, condensaram-se-lhe em volta
do espirito as nuvens torvas, que se haviam rarefeito, bafejadas pela
aragem da esperança, e nunca tão compressora o sopesou a mão da
tristeza. Os livros atediavam-no; o escrever acendia-lhe o espirito a um
grau penoso de excitação. Todos os seus manuscriptos fragmentarios ou
desatados, que eu vi treze annos volvidos, accusavam uma obstinada
paixão da qual o poeta hauria argumentos contra a Providencia que o
desamparára, na batalha comsigo mesmo.
Aos vinte e dous annos, aceitar longo tempo e voluntariamente um jugo de
vida assim, é virtude imaginaria. Para outras civilisações, lá estava o
deserto do anachoreta, e a Palestina do cruzado: um e outro se deixavam
devorar das angustias do ermo, ou cortar do ferro islamita; e lá iam
encontrar-se no céo, a cobrarem o seu patrimonio de alegrias infindas,
ganhado a troco d'uma hora de orgulho satisfeito--que mais não é o
contentamento d'esta breve fugida que fazemos do ventre á sepultura.
N'estes tempos, porém, a tanta luz, a tanto estrondo, em tamanho
desentranhar-se a terra em novos enfeites de si propria, agora que o céo
se deixa contemplar, já não como paragem de futuras vidas, senão como
estrellado involtorio d'este globo cujas delicias nos foram dadas em
desconto do breve tempo que as saboreamos; agora, em summa, que o viver
sem gozar é um triste, senão estupido, preludio da morte, em redor da
sepultura, que loucura é esta de Affonso de Teive que não rompe mundo a
dentro, com seis mil cruzados de renda, vinte e dous annos, bizarria de
fidalgo, e physionomia dotada de graças attractivas de todos os olhos?
Era necessario que a sociedade culta delegasse um dos seus ornamentos a
intimar Affonso de Teive para comparecer, réo de lesa-illustração, á
barra do seculo XIX. O enviado, escolhido a ponto, foi, como por acaso,
encontrar Affonso na matta da Penha-Verde em Cintra, onde o tinham
chamado saudades das suas arvores de Ruivães.
D. José de Noronha, sugeito de trinta annos, filho segundo d'uma casa
titular de Lisboa, cursára alguns estudos da Universidade, contemporaneo
de Affonso. Pertencia á tribu dos _trossistas_, e gozava as honras de
caudilho nos disturbios, e maiores honras ainda de primeiro estomago em
digestão de vinho. Contava-se que D. José de Noronha bebia por um pipo
de almude, quando não tinha á mão o alguidar, taça ordinaria das suas
libações. Este facto, presenciado com assombro e inveja, avantajou-o em
consideração aos socios da taberna, e conferiu-lhe voto deliberativo em
todas as barganterias nocturnas. Affonso de Teive, algum tempo associado
aos tonantes, declinou da sua estima o illustre companheiro, indistincto
dos outros em sua opinião. Separados pela mudança de costumes, raras
vezes se viam, e mais raras se tratavam. D. José cognominava de renegado
o fugitivo socio, e divulgava que o miseravel nunca bebera uma garrafa
de genebra, sem se embriagar. Equivalia esta denuncia a uma grave
deshonra.
Abandonada a carreira dos estudos, por força de successivas reprovações,
D. José foi para a familia, que o recebeu sem espanto do mau exito, nem
mesmo pesar. O fidalgo libertino tinha bom patrimonio materno, e um pae,
cujo desregramento de vida absolvia os desatinos do filho. A sociedade
recebeu-o prazenteiramente, deu-lhe a primeira linha na cohorte dos
elegantes, e victoriou-o com alguns tropheus de conquistas, comminadas
no codigo penal, e gloriosas nos salões. D. José absteve-se da ebriedade
em publico, é isso verdade; mas indemnisou-se em vicios, que seriam
muito mais nocivos á humanidade, se as maiorias compartissem dos
ultrages afflictivos, que vão na intimidade obscura, e mesmo na publica
exposição das familias. Não vem isto para dizer que todas as familias
ultrajadas se afflijam. Em Lisboa, principalmente, as excepções são
tantas, que suaria o topete quem quizesse achar a regra. Lá, haveis de
encontrar muito d'uma cousa chamada «philosophia», sciencia, que foi
necessario inventar-se, á medida que umas certas virtudes de portas a
dentro deram em saltar pelas janellas, e voar por ahi fóra, não sei para
onde, naturalmente para a India, onde as viuvas se queimam em
demonstração de fidelidade aos maridos defunctos. Ha-de ser isso.
Affonso de Teive reconheceu D. José, que sahiu d'um rancho de senhoras a
comprimental-o. Eram cousas diversissimas vêl-o em Coimbra, ou alli em
Cintra ao lado das senhoras _da primeira distincção_, como lá se diz, e
quasi sempre em rigorosa verdade, omittindo-se a qualidade distinctiva.
O menos preço em que o fidalgo do Minho tivera o de Lisboa,
desvaneceu-se logo. A compostura, o trajo, a seriedade, os ademanes,
aquillo tudo, digamol-o assim, aromatizado do palacio e côrte, demudou a
má opinião de Affonso em estima attenciosa e quasi amigavel.
Em breves termos, se disseram mutuamente as suas residencias,
convencionando-se logo em se encontrarem e conviverem a miudo. D. José
de Noronha, como da terra, foi o primeiro a visitar Affonso.
Frequentaram-se assiduamente, e chegaram a termos de se hospedarem á
vez, e ás temporadas de tres dias, nas casas um do outro.
Claro é: Affonso contou suas penas, com sincera expansão, ao amigo. Era
o primeiro estranho a ouvir-lh'as. Mostrou-lhe as cartas de Theodora,
encarecendo-lhe a belleza, superior mesmo ao genio revelado na escripta.
Nada menos que genio o meu pobre Affonso descobrira nas cartas da esposa
de Eleuterio Romão. D. José de Noronha, por sua parte, passava do
espanto ao assombro a cada periodo interrogativo da famosa missiva, que
me fez rir e chorar--caso unico na minha vida extraordinaria.
--E tu podeste, Affonso--disse D. José--podeste resistir a esta
mulher?!... És aleijado, ou tens peito de rocha, ou cheiras a santo!
Abre-me bem os refolhos do teu espirito. Esclarece-me este phenomeno. É
certo que nunca respondeste a esta mulher, nem a procuraste?
--É certo--respondeu Affonso, quasi envergonhado da confissão.
--Ó pobre Joseph! ó mallograda Hiempsal! Conheces bem a Hiempsal... a
esposa do ministro de Pharaó! Quantas capas tencionas assim deixar em
lindas mãos?... Ai de ti, Affonso de Teive, que, a final, sahirás do
mundo sem capa, e coberto de lama!... Tu não sabes que estás em 1850, e
que tens de alijar a carga de dous seculos, se não quizeres ir a pique,
varar no ridiculo inexoravel com os homens da tua fortuna e da tua
figura. Origines ficticios, que nem sequer resalvam com o estudo dos
attributos divinos a sua ignorancia dos attributos humanos... Pobre
Theodora... a formosa mulher, que se rojava a teus pés, quando tu, por
brio mesmo de tua vaidade ferida, devias ter ido beijar-lhe os cabellos,
e não arrancar-lh'os. Pobre menina, casada com um homem chamado
Eleuterio... que mais?
--Eleuterio Romão dos Santos--disse Affonso, sorrindo no tom imitante do
dizer galhofeiro do amigo.
--Eleuterio Romão!... Eu não sei--proseguiu D. José--se amaria a esposa
de um homem chamado Eleuterio!... Mas, nas condições de cara e estylo em
que está Theodora, amaria, quer-me parecer que amaria, Affonso,
obrigando-a a promover o chrysma do conjuge... Fallemos serios, serios
como rapazes, que tem o estricto dever de não serem palermas, do
contrario seremos victimas de todos os Eleuterios. É necessario que
escrevas a essa mulher; isso não te priva de escreveres a outras muitas,
visto que estás aqui a ares, e tens ainda a balda de escrever
meditações... Que ratão és tu, Affonso! Eu, em Coimbra, achava-te uma
graça! Quando tu publicavas no «Trovador» umas lamurias lamartinianas,
que davam idéa de seres um desgraçado, que vivias das brizas do claro
Mondego, e tu, meu patarata, em quanto fazias chorar as meninas com os
versos, emborcavas torrentes de cognac por uma catadupa esponjosa que
muitas vezes receei que me apeasses do meu pedestal!... Patusco!...
Fallemos agora serios. Escreve á Theodora, se tens algum resto de
pudor... Não me digas que estás soffrendo por ella, que deixaste por
ella tua mãe, que renunciaste ao amor de um anjo por causa d'ella... Não
me digas tal, que eu nem posso admirar-te a virtude nem a parvoice. A
virtude seria medir o espaço que separa a tua alma do coração atraiçoado
de Theodora, e interpor n'esse espaço trinta mulheres, com tanto que te
não privasses da companhia de tua mãe, nem lhe désses desgostos muito
menores que este. Devias adorar tua prima porque era um anjo, e devias
desejar a outra porque era um demonio. Que fizeste tu quando ella casou?
Choraste, e com tamanho aggravo dos teus brios que consentiste que o
mundo te visse chorar, a ti, rapaz de vinte annos, gentil, e rico!
Pondera bem n'esta vilipendiosa calamidade, meu caro Affonso. Salta
sobre dez annos de tua existencia para diante, e diz-me que nojo te
ha-de fazer este Affonso, quando o Affonso de 1860 achar que tem o mesmo
nome, e quasi a mesma figura!...
E continuou por largo espaço n'este sentido.
Escutava o filho de Eulalia o discurso de D. José, lardeado de facecias,
e, por vezes, attendivel por umas razões que se lhe cravavam fundas no
espirito. As réplicas sahiam-lhe frouxas e mesmo timoratas. Já elle se
temia de responder cousa de fazer rir o amigo. Violentava sua condição
para o igualar na licença da idéa, e por vezes, no desbragado da phrase.
Sentia-se por dentro reabrir em nova primavera de alegrias para muitos
amores, que se haviam de destruir uns aos outros, a bem do coração
desprendido salutarmente de todos. A sua casa de Buenos-Ayres
aborreceu-a por afastada do mundo, boa tão sómente para tolos infelizes
que fiam do anjo da soledade o despenarem-se, chorando. Mudou residencia
para o centro de Lisboa, entre os salões e os theatros, entre o reboliço
dos botequins e concurso dos passeios. Entrou em tudo. As primeiras
impressões enjoaram-no; mas, á beira d'elle, estava D. José de Noronha,
rodeado dos próceres da bizarria, todos aporfiados em tosquiarem um
dromedario provinciano, que se escondêra em Buenos-Ayres a delir em
prantos uma paixão callosa, trazida lá das serranias minhotas. Ora,
Affonso de Teive antes queria renegar da virtude, que já muito a medo
lhe segredava os seus antigos dictames, que expor-ser á irrisão de
pessoas d'aquelle quilate. É verdade que ás vezes duas imagens
lagrimosas se lhe antepunham: a mãe, e Mafalda. Affonso
desconstrangia-se das visões importunas, e a si se accusava de pueril
visionario, não emancipado ainda das crendices do poeta inexperto da
prosa necessaria á vida.
Escrever, porém, a Theodora, não vingaram as suggestões de D. José. Por
ventura, outras mulheres superiormente bellas, e agradecidas ás suas
contemplações, o traziam preoccupado e algum tanto esquecido da morgada
da Fervença.
Mas, um dia, Affonso, n'uma roda de mancebos a quem dava de almoçar,
recebeu esta carta de Theodora:
«Compadeceu-se o Senhor. Passou o furacão. Tenho a cabeça fria da beira
da sepultura, d'onde me ergui. Aqui estou em pé diante do mundo. Sinto o
peso do coração morto no seio; mas vivo eu, Affonso. Meus labios já não
amaldiçoam, minhas mãos estão postas, meus olhos não choram. O cadaver
ergueu-se na immobilidade da estatua do sepulcro. Agora não me temas,
não me fujas. Pára ahi onde estás, que as tuas alegrias devem de ser
muito falsas, se a voz d'uma pobre mulher póde perturbal-as. Olha... se
eu hoje te visse, qual foste, ao pé de mim, anjo da minha infancia,
abraçava-te. Se me dissesses que a tua innocencia se baqueára á voragem
das paixões, repellia-te. Eu amo a creança de ha cinco annos, e detesto
o homem de hoje.
«Asserena-te, pois. Esta carta que mal póde fazer-te, Affonso? Não me
respondas; mas lê. Á mulher perdida relanceou o Christo um olhar de
commiseração e ouviu-a. E eu, se visse passar o Christo, rodeado de
infelizes, havia de ajoelhar e dizer-lhe: «Senhor! Senhor! é uma
desgraçada que vos ajoelha e não uma perdida. Infamias uma só não tenho
que a justiça da terra me condemne. Estou acorrentada a um dever
immoral, tenho querido espedaçal-o, mas estou pura. _Dever immoral_...
por que não, Senhor! Vós vistes que eu era innocente; minha mãe e meu
pae estavam comvosco.
«Abafaram-me n'uma jaula; eu queria amar-vos fóra dos violentos ferros,
deixei-me matar diante da vossa imagem por um sacerdote do vosso culto.
O vosso sacerdote, Senhor Deus da Justiça, praticou uma immoralidade,
levantando sobre as faculdades d'esta alma esmagadas o patibulo do meu
coração. Foi immoral o dever, que me legislaram em vosso nome, Senhor. E
eu, sem vociferar contra o mundo, que me arroxêa a gonilha no pescoço, a
vós ajoelho, Deus dos reprobos das alegrias d'este mundo, exorando-vos
que me deis um amigo.
«É o que eu diria ao Deus da adultera e da Magdalena, Affonso. E o
Senhor piedoso havia de ouvir-me, e de tua alma, fulminada pela
inspirativa misericordia do Justo dos justos, sahiria um gemido piedoso
por a mulher desamparada. Sê meu amigo!»
Recusava-se Affonso a deixar vêr a carta: era, porém, uma descortezia
sonegal-a, entre moços, que francamente haviam alli relatado á
competencia, as façanhas amorosas dos ultimos quinze dias.
--Homem indigno da nossa estima!--exclamava D. José de Noronha--Grande
cynico! podes tu negar aos teus amigos dous minutos do innocente prazer
de ouvirem o estylo d'uma Sevigné provinciana, que, para ser mulher de
época, só lhe falta affeiçoar-se a um homem que lhe rasgue os horisontes
d'um destino esplendido!? Venha a carta!
--A carta! a carta!--exclamaram todos, empunhando os copos.
--Um brinde á formosa das montanhas!--bradou D. José.
--Depois de lida a epistola!--emendou um commensal.
--Antes e depois!--redarguiu o proponente do brinde, e ajuntou:--Á saude
de Theodora, bella e espirituosa, amada e amantissima, pura quanto póde
sêl-o a mulher que nos braços d'um marido reserva para o homem amado a
virgindade do coração!
--Á saude de Theodora--conclamaram todos, exceptuando Affonso, cujo
aspecto arguia tristeza.
Seguiu-se um brinde enthusiastico ao ditoso Affonso, que sobrepunha a
formosa minhota a quantas lisboetas de tez e olhos arabes lhe tinham
offerecido a alma n'um sorriso.
Affonso agradeceu, com gesto de mal dissimulado dissabor.
Reiteraram os convivas o pedido da carta. Affonso hesitava ainda. O mais
ebrio d'aquella mocidade patricia, representante dos mais illustres
appellidos da época heroica de Portugal, ousou tomar a carta de sobre a
mesa, e abril-a com estrondosos applausos dos outros. Affonso de Teive
estendeu impetuosamente o braço, e tirou a carta da mão do hospede.
--Isso é um insulto a todos!--exclamou D. José de Noronha.
--Não é insulto--replicou o de Ruivães--é preito a todas as mulheres, e
com especialidade ás desgraçadas.
Disse, e incendiou o papel na chamma do castiçal em que acendiam os
charutos.
O tom amargo d'aquellas palavras commoveu os convivas, que, por bom
acerto, se encontraram todos de indole sentimental, quando as vaporações
alcoolicas lhes ennublavam a porção intellectual, que era n'elles
diminuta, como de direito heraldico. D. José, compondo o rosto d'uns
vislumbres de rectidão e bom discurso, perorou ácerca da probidade de
Affonso, e, em nome dos communs amigos, agradeceu a lição, e levantou
novo brinde ao hospedeiro moço que tão digno era da estima dos homens
como da confiança das mulheres.
* * * * *
Este capitulo não dispensa uma nota illustrativa, respondendo
temporanmente á critica illustrada que me perguntar como pude eu pôr em
traslado uma carta queimada á luz do castiçal, minutos depois que
Affonso a lêra? É por que o rascunho d'esta carta, escripta com
entrelinhas, emendas, e borrões, escripta por Theodora, estava ainda em
poder de Affonso de Teive em Dezembro do anno proximo passado.
Opportunamente se dirá como Affonso de Teive se apossou do rascunho.
Então a critica verá que poucas cousas succedem na vida tão
naturalmente.
Relevem-me estas demasias de escrupulo: que eu difficilmente consentirei
que a má fé me apanhe em flagrante inverosimilhança.
Assim é que eu quizera que se escrevesse a historia patria, com este
timbre e rigor de verdade. Por mingoa de desvelos analogos na
averiguação dos factos historicos é que nós ainda não sabemos bem
quantos filhos bastardos fizeram os nossos monarchas: falha que desluz
algum tanto o panegyrico das virtudes dos reis portuguezes. Aprendam os
historiadores.
XIV
No mesmo dia, um deputado chegado do Minho, entregou a Affonso uma carta
de sua mãe, incluindo outra de Mafalda. A senhora de Ruivães felicitava
o filho por saber que elle procurava os passatempos da capital,
admoestando-o a que procedesse honradamente no gozo dos prazeres, para
que elles se não derrancassem em flagellos da consciencia, e infamia.
Mafalda, em poucas linhas, pedia-lhe que se não esquecesse d'ella, e
fosse fiel á promessa de estimal-a como irmã.
O deputado bracharense era sujeito que sabia as cousas para as dizer, e
saltava a quatro pés por cima d'isto que chamam delicadeza em assumptos
de coração.
Pelo que, o expansivo deputado fallou assim a Affonso:
--Ainda me lembro de v. exc.ª, quando rapazola estudava rhetorica em
Braga. Está certo de ser agarrado pelo regedor, quando foi ás Ursulinas
atacar as freiras? Pois fui eu quem, a pedido de sua mãe, lhe vali no
processo instaurado.
--Não sabia--atalhou Affonso--Aproveito a opportunidade para agradecer a
v. exc.ª...
--Não tem de que. Mas, com effeito--volveu o deputado, a rir de
esperto--olhe v. exc.ª o que fazem mulheres... ou mulherinhas... por que
a final a morgadinha da Fervença acanalhou-se até ir casar com um bruto
de Tibães... Soube isto v. exc.ª?
--Perfeitamente. Era impossivel que eu o não soubesse...--respondeu
attentamente Affonso.
--Eu conheço Eleuterio Romão dos Santos--continuou o informador--O homem
torce as grandes orelhas que tem, por que ella tem-lhe feito dar a agua
pela barbella. V. exc.ª ha-de saber isto...
--Não sei senão que Theodora é mulher de Eleuterio.
--Então eu lhe conto. A rapariga tem figados, e ninguem o dirá vendo
aquella lesma, que parece feita de manjar branco. Assim que entrou em
casa, e se viu com o sogro Romão e com a sogra Eleuteria deu ao diabo a
cardada, poz-se nas suas tamancas, e mobilou as suas salas e os seus
quartos á moderna. O Eleuterio quiz reguingar-lhe; mas ella, ás
primeiras testilhas, fallou em divorcio, ou cousa peor ainda, que era,
pelos modos, fugir de casa, e procurar v. exc.ª O marido poz as mãos na
cabeça, quando ouviu fallar em divorcio. A fortuna alli é quasi toda de
Theodora. Se ella se levantasse com o seu casal, o velhaco do tio, que
preparou semelhante desgraça de casamento, dava um estouro. Começaram a
fazer-lhe todas as vontades á moça. Para que lhe ha-de ella dar? Imagine
lá v. exc.ª para que lhe deu na veneta?
--Eu sei cá...--disse anhelante de curiosidade Affonso.
--Fez-se doutora!... Mandou comprar dous carros de livros ao Porto;
fechou-se no seu escriptorio, que parecia uma livraria de convento, e
começou a lêr de noite e de dia. Lá de dia passe; mas de noite, dava
isso que pensar a Eleuterio casado á face da igreja, e dono da mulher
pelos seus justos cabaes. Passado tempo, deu-lhe outra mania: fez-se
cavalleira, e rompia a galope pelo campo de Santa Anna em Braga, a
levantar poeira que parecia um esquadrão de cavallaria! Não parou ainda
aqui o desarranjo d'aquella cabeça! Tomou lacaio, deu-lhe libré avivada
de vermelho, e andava por essas estradas do Minho com o lacaio em
correrias de douda. Uma hora viam-na em Landim, outr'ora em Santo
Thyrso, depois em Lessa de Palmeira... Que novidades lhe estou
contando!...--concluiu sorrindo o narrador.
--E do procedimento d'ella que se dizia?--atalhou Affonso, vivamente
empenhado nas revelações do chanissimo legislador.
--Do procedimento d'ella a que respeito?--perguntou o deputado, com
suspeitoso sorriso.
--Amantes, quero dizer se a opinião publica lhe dava amantes.
--Eu lhe digo: quando v. exc.ª estava em Lessa com sua mãe, e a morgada
lá foi com o marido, alguem disse que o marido era um simplorio. Ora
isto parece-me que alguma cousa queria dizer...
O deputado espirrou uma risada de finura velhaca, e ajuntou:
--Depois, quando v. exc.ª esteve em Ruivães uma temporada, e Theodora
sahia para aquelles lados, já todo o bicho careta dizia que o adulterio
estava provado por todos os artigos do codigo, e por mais alguns que
esqueceram aos corpos legisladores.
Aqui deu o representante de Braga uma segunda risada, expressiva de
agudeza muito mais faceta. Affonso sorriu-se, e deixou-o esvasiar a
pojadura da verbosidade chula.
--Não se falla por lá de mais ninguem que eu saiba--tornou o
deputado--Mas o marido! aquelle palerma, que lhe não vai á mão, e a
deixa andar em filistrias de cavallo e lacaio, faz-me pena, sinceramente
lh'o digo, por que houve alguem que me affirmou que a mulher, quando
está fechada na livraria, não o admitte á sua presença, e até me
disseram que ella passa toda a noite a consultar os seus livros! Logo:
aquelle marido está n'uma posição critica, matrimonialmente fallando.
Parece-lhe isso, snr. Affonso?
Aqui expediu o sujeito terceira risada, que tinha idéa occulta, a meu
vêr, inconciliavel com o comedimento desejavel n'uma pessoa grave... de
mais a mais deputado a côrtes!
--E como está ella?--perguntou Affonso--Ainda é bonita?
--Agora é que ella está completa. Encheu muito de hombros, e tudo á
proporção. Está muito alta, e esvelta, que parece ingleza. E o garbo com
que ella sacode um cavallo... V. exc.ª está a mangar commigo?--perguntou
de subito o deputado, após um instante de reflexivo silencio?
--Se estou a mangar com v. exc.ª?! que pergunta!
--Sim! pois o snr. Affonso vem-me perguntar a mim se ella está bonita?!
Quem sabe melhor que v. exc.ª como ella está?!... Ora, meu amigo, vá
contar essas historias aos da Lourinhã. Cá para mim vem barrado!
--Dou-lhe palavra de honra--redarguiu Affonso--que a minha pergunta foi
sincera. Eu vi Theodora; mas tão de relance, que não pude reparar-lhe
nas feições.
--A sua palavra de honra tem para mim o peso d'um Evangelho,--tornou
gravemente o cavalheiro de Braga.--Pois, senhor, o mundo está enganado.
A voz geral dá v. exc.ª como amante de Theodora. Eu não me atrevia a
dizer-lh'o tanto ás escancaras; porém, chegadas as cousas a este ponto,
fique sabendo que ninguem acredita na sua innocencia, excepto o
Eleuterio, que é muito bom homem.
É escusado dizer que o individuo riu de novo, esfregou as mãos, e
exclamou abruptamente aguilhoado pelo instincto oratorio:
--Ainda ha quem case! Ainda ha victimas que espontaneamente se offereçam
no altar das mulheres! Chegamos a um tempo em que ninguem póde
sinceramente dizer que conhece seu pae. Os assentos dos baptismos estão
todos falsificados. Os mandamentos da lei de Deus, o nono sobre todos,
vai ser tirado do cathecismo. Vem ahi um tempo em que o artigo da lei
santa ha-de ser assim reformado: «Não desejarás a tua mulher para não
incommodar os direitos do proximo!» Onde irá isto assim parar, snr.
Affonso de Teive?
O deputado entre serio e risonho, prolongou por tres quartos de hora, em
estylo declamativo, um aranzel de lugares-communs, entremeado de
pilherias, com referencia á degeneração da sociedade, no capitulo
casamento. Affonso achava picante de grosso sal a iracundia comica do
legislador, e estimulava-lhe a veia. A final o deputado, contente de si,
foi para S. Bento, mais que muito persuadido de ser elle o predestinado
para levantar voz no parlamento decretando a moralisação das familias.
Affonso ficou pensativo. As revelações lisongeavam-no. O odioso do
caracter de Theodora desvaneceu-lh'o a impressão já magestosa, já
condolente do viver da morgada. Uma sublime desgraçada!--dizia elle
comsigo--Uma sublime desgraçada, que, ligada a mim, seria a mais sublime
das creaturas!
E, trabalhado por esta idéa que pertinazmente lhe martellou no animo,
Affonso de Teive arrependeu-se de ter queimado a carta recebida na manhã
d'aquelle dia. Queria relêl-a, mettêl-a a beijos na retentiva do
coração!
Á noite foi ao theatro, e entreteve-se largo tempo com D. José de
Noronha. Versou a pratica sobre o aceitar benignamente os
acommettimentos de Theodora. D. José mostrava-se já enfastiado da
imbecilidade moral do seu amigo, e, por tanto lhe pedia, que de todo em
todo esquecesse a mulher, e se portasse como rapaz de certa ordem; ou
obedecesse ao coração, aceitando a felicidade das mãos fosse de quem
fosse.
N'esta mesma noite, o moço, vencido a final pela irresistivel
necessidade de ser semelhante a todos os homens, escreveu uma estirada
carta. Principiava nas recordações da infancia de ambos: devia de ser
alta e amoravel poesia, como o coração a trasborda, se d'um ponto negro
da vida os olhos rompem as trevas, e vão lá ao longe remergulhar-se no
pelago da luz, que mais não ha-de raiar em nossos dias. Tristeza mais
que todas magoativa!
Depois, memorava os dias de amor, desabrochado já o seio em plena
florescencia, com os seus desejos balbuciados em phrases todas alma e
enleio, dulcissima linguagem, que era ainda a das chimeras pueris, mal
desvanecidas no trajecto da infancia á adolescencia. Poesia ainda, flôr
sempre lustrosa e verdejante, porque a sua tige está continuo a medrar
em lagrimas, d'onde paixão nenhuma hedionda dos vindouros tempos lhe
ha-de extirpar a raiz.
Seguia-se o recordar as dôres atrozes do abandono d'ella, quando o moço
em Lisboa e Ruivães, duas vezes se atirára aos braços da morte,
aceitando o inferno, se o lembrar-se o condemnado da mulher que amou na
terra, não era lá o maximo tormento.
A final, após os queixumes, subia-lhe do coração aos olhos n'uma lagrima
o perdão. Perdão e amor: que não ha ahi, em alma humana, perdoar
ingratidões sem beijar a mão que nos alanceou. Esquecer, sim; mas
esquecer é desprezo, não é perdão.
Escripta e fechada a carta, sobreesteve Affonso no remettêl-a. Acaso
iria ella, sem desvio, ás mãos de Theodora? As injustas suspeitas não
poderiam ter Eleuterio de sobre-aviso? E, de mais, reatadas as ligações
de estima, iria Affonso, contra a vontade de sua mãe, para casa, e
sustentaria alli o cortejo á mulher casada?
Estes quesitos fallavam á razão; porém, a pobresinha da razão, estava já
escondida na consciencia, e a consciencia ensurdecera com a guisalhada
do baile carnavalesco em que seu dono a mandára estudar os costumes do
seu tempo.
Foi a carta com direcção a Braga. Era dia de feira quando ella chegou ao
correio: estava alli o marido de Theodora vendendo cereaes. Foi á lista
postal vêr se seu pae tinha carta de parentes do Brazil; e, como não se
entendia bem com os nomes maiores de tres syllabas, pediu que lhe lessem
a lista inteira. Quando o obsequioso leitor chegou a _Theodora Palmyra
Villar de Sousa_, exclamou Eleuterio:
--É a minha mulher! Ha-de ser carta do livreiro.
Convem saber que a morgada se entendia directamente com os seus
livreiros fornecedores.
Eleuterio foi tirar a carta, e deu-lhe nos olhos, afóra o lustre do
sobre-escripto, o lacre azul fechado com armas, e, mais que tudo, a
marca de Lisboa.
Não me atrevo a compôr o soliloquio de Eleuterio Romão. Sei que elle
andava com a carta ás voltas, entre mãos, e ás vezes esfregava entre
dous dedos o papel, como se pelo tacto podesse inferir do contheudo.
Estava com elle o regedor da sua freguezia, o mesmo que lêra a lista, e
lhe lia na alma agora.
--Que estás a malucar, Eleuterio?--disse elle--A modo que essa carta te
deu no gôto!...
--A fallar a verdade--respondeu o marido de Theodora--esta letra não na
conheço, nem estas armas reaes!... Minha mulher não conhece ninguem em
Lisboa, e estas letras, compadre, parece que rezam Lisboa.
--É como diz: _Lisboa_, sem tirar nem pôr. E então?... achas que ella...
--Estão-me a dar guinadas de abrir isto!... Que dizes tu, compadre?
--Eu cá, se fosse commigo, já a carta estava aberta. Mulher minha a ter
cartas, sem eu saber de quem!... Deus me defenda!
Palavras mal eram ditas, que Eleuterio quebrou o lacre, e passou a carta
ao regedor, dizendo:
--Lê lá... ella é tamanha! parece uma sentença!... Vamos vêr isso, que
eu já me não sinto escorreito.
O regedor tomou o manuscripto de oito paginas entre as mãos, poz-se em
attitude abrindo as pernas em circumflexo, tossiu, tomou folego, deu
crena de saliva aos beiços, e leu engasgadamente: «D'onde vem esta
celestial harmonia, que a minha alma ouviu, quando o céo me bafejava a
infancia, e as delicias todas da existencia me eram prenunciadas nos
sonhos?...»
O regedor revirou os olhos pasmados a Eleuterio, e disse:
--Tu percebeste isto, compadre?
--Assim me Deus salve, que não percebi palavra,--respondeu Eleuterio
Romão esbugalhando os olhos sobre a escripta cabalistica.
--Portuguez acho que é!--tornou o regedor, consultando a opinião do
compadre.
--Isso é, lá portuguez é... Ora torna a dizer.
O leitor repetiu, e disse:
--Falla aqui em _alma_, e _sonhos_, e _delicias_. Sabes que mais? Isto,
seja lá o que fôr, não me cheira bem!... Aqui, Deus me perdôe, ha
maroteira d'aquella casta!... Deixa-me vêr mais um bocado a vêr se pesco
alguma cousa. E, continuando, leu:
«Sonhos de anjo, alumiados pela imagem lucida da filha da minha alma!
volvei, volvei, orvalhai a flôr requeimada, dai uma lufada de primavera
ao meu coração regelado pelos frios d'esta infinda noite... Oh minhas
donosissimas chimeras!...»
--E agora entendeste?--voltou o regedor--eu estou como a Felicia
d'Abrantes, peor que d'antes. Isto se não é latim, é o diabo por elle!
--Queres tu que se pergunte a alguem!?--acudiu Eleuterio--A gente ha-de
achar quem lhe explique isto cá em Braga... Falla-se ahi a um padre que
eu conheço, ao capellão das Ursulinas.
--Dizes bem... Tu não has-de ir para casa sem tirar isto a limpo...
Queres tu vêr que ahi vem o homem que nos explica o negocio?--perguntou
o magistrado administrativo--É meu compadre Fernão de Fonte Boa.
Era Fernão de Teive, conhecido por de Fonte-Boa, por ser lá o seu
morgadio. Com o velho fidalgo vinha Mafalda, apoiada no braço d'elle,
com doentio aspecto.
O regedor descobriu de longe a cabeça, e sahiu ao encontro de Fernão,
que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.
--Que é feito de ti, compadre, que te não vejo ha cem annos?--disse o
velho--Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em
fabricar deputados, e comer os salpicões dos recrutas passados pela
malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o
posto de capitão-mór, que geito para comer os saudosos lombos tens tu.
Então que é feito, rapaz? quem é aquell'outro? Se me não engano, é o
Eleuterio do Romão.
--Para servir a v. exc.ª--disse Eleuterio com tres mesuras de cabeça
exageradas--Sou eu para servir a v. exc.ª
Fernão inclinou um olhar ironico sobre o hombro da filha, e disse com um
mal represo frouxo de riso:
--Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.
Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito, e baixou os olhos com
gesto de notavel commoção.
E o regedor tirando a carta da algibeira, disse:
--Eu queria consultar o meu excellentissimo compadre a troco d'uma carta
que nem eu nem meu compadre Eleuterio entendemos. A gente, como o outro
que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assigna o seu nome. O caso é
este: aqui o compadre achou no correio esta carta p'rá mulher. Teve lá
seus arrepios, e abriu-a. Começamos a lêr, mas nem p'ra traz nem p'ra
diante. As palavras parecem portuguezas, acho eu; mas nós não sabemos o
que ellas rezam. Se o senhor compadre fizesse favor de lêr isto...
Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando
sentiu extraordinario peso no braço esquerdo, olhou em sobresalto, e viu
Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-a, e ella,
expedindo uns agudos soluços, quiz em vão pendurar-se do pescoço do pae.
Tomou-a o velho nos braços com tremente anciedade, e transportou-a para
dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.
O regedor e Eleuterio seguiram Fernão, afflictos do successo. Na mão do
regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do
accidente, olhou machinalmente para o papel, e teve um repellão
intuitivo, sem ainda o comprehender.
Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela
luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de
arremesso o papel ao chão, e disse:
--Deixem-me... não sei o que é... Vão-se embora...
Os homens iam sahir, quando elle os chamou com phrenesi, pediu a carta,
e desfêl-a em pedacinhos, exclamando:
--Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.
Eleuterio estava assombrado, e o compadre abria e fechava a bocca em
signal do seu espanto e compaixão. Em boa fé, o regedor acreditou
atacado de demencia o velho, ao vêr a filha em trances de morte.
Afastaram-se em consultas, dando cada qual sua razão do caso, bem que
Eleuterio ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.
Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pae, e
murmurou mui carinhosa:
--Perdôe-me, por quem é! Perdôe esta fraqueza da sua infeliz filha!
--Pobre anjo--balbuciou o velho--Que has-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te
aquelle desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas
mãos. Precisavas d'isto, para em fim te convenceres.
Mafalda pediu ao pae que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou
ao altar do Senhor dos afflictos, chorou, e viu as lagrimas do velho
ajoelhado á beira de ella. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:
--Estou melhor, meu pae. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem
mesmo aos culpados... Tambem orei pelo primo Affonso.
--Eu não orei--disse o pae--mas rasguei o documento de sua infamia.
XV
Affonso de Teive contava os dias, e, no ultimo dia, a hora e instantes
em que devia receber carta de Theodora. Esperou uma semana em alvoroço,
e já, ao decimo dia a mallograda esperança o atormentava. A incerteza da
recepção alliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que
elle se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher.
O mais graduado oraculo do seu conselho, D. José de Noronha,
racionalmente, opinava que a mulher, authora de taes cartas, por força
devia responder; e do silencio concluia que se transviára a resposta
enviada. Chegou a confirmação d'esta hypothese, na seguinte pergunta de
Theodora:
«Instantemente rogo que no primeiro correio, me digas se me escreveste.
Sobejam-me razões para conjectural-o. Estou em ancias. Esta incerteza
martyrisa-me mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua
resposta--pedida com lagrimas--para Barcellos. Calculo o dia em que ella
deve alli estar. Irei pessoalmente recebel-a. T. P.»
Lida a pergunta, Affonso abancou para responder. Posta a primeira
palavra, ergueu-se de salto. Chamou o criado da cavalhariça. Mandou
pençar os cavallos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de
Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas
antes da sahida do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada
fraquearam os cavallos. Affonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o
preço das novas cavalgaduras, e chegou a Barcellos duas horas primeiro
que o correio.
Quando apeou na estalagem de Barcellinhos, encostou a cabeça esvaida á
borda d'um leito, e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou elle que,
dormindo uma hora, acordára tranzido do horror de um sonho. Vira
Theodora em trajos de bacchante, revolteando umas walsas lubricas, e
atirando-se ebria, e torpe de impudicicia, aos braços d'um homem. Era um
sonho; mas, ao despertar, Affonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes
de arrependimento. A prostração era invencivel: adormeceu outra vez, e
sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou
espavorido; ergueu-se arrancando a mãos freneticas aquella imagem da
fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relogio: viu
que era ainda tempo de fugir... Diz elle que fugiria... ai! eu não creio
que elle fugisse, não! Chamára o criado para arreiar os cavallos... eis
que, ao cimo da rua sôa tropel de ferraduras, e faz-se rapida paragem á
porta da estalagem. Affonso descora, vai de encontro ás vidraças, e vê
apear a morgada.
O quarto d'elle era contiguo á sala commum. Já Affonso lhe ouvia os
passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os
cavallos e fosse receber as suas ordens. Foi elle manso e manso
espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao visinhar-se da porta.
Curvou-se, inspirando sofrego o ar que lhe sahia a sacões do peito.
Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado á mesa central da sala, e a
face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que
fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde escuro. Verde
era o véo do chapéo, que, momentos depois, ella tirou com um rapido
movimento, e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos ás fontes,
afastando os anneis dos cabellos, que se encaracolavam rosto abaixo até
ás espaduas. Demorou-se momentos n'aquella postura. Ergueu-se
impaciente, e passeou d'um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e
tirando com força pelo trancelim d'ouro do relogio. Volveu a sentar-se,
com o rosto voltado em cheio contra a porta, d'onde Affonso a observava.
«Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixára--me
disse elle--Da menina admiravel o que ella ainda tinha era o ar
angelico; mas a belleza da mulher deslumbrava as reminiscencias da
creança.»
Venceu Affonso os impetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou,
sem saber o que: esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra
retrahido ao coração.
Entrou o lacaio que ella mandou logo ao correio com um bilhete alli
escripto a lapis. Desde este momento, Affonso já sabia o que esperava:
queria vêl-a affligida com a falta da carta. No intervallo, Theodora
chamou o criado da hospedaria, e pediu café. O criado, ouvidas as
ordens, dirigiu-se ao quarto de Affonso: este viu-o, e afastou-se.
Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se s. exc.ª queria
almoçar. Affonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta,
perguntou Theodora:
--Quem é que está n'aquelle quarto?
--Não sei, fidalga--respondeu o moço.
Affonso repoz-se á fechadura.
Chegou o lacaio.
--Trazes?--exclamou ella como assustada.
--Não ha, minha senhora.
--Não?!--bradou ella batendo o pé--É impossivel! É impossivel! Deve lá
estar uma carta!...
--Saberá v. exc.ª que eu li a lista primeiro, depois fui dentro
perguntar ao homem que dá as cartas--disse o lacaio, e sahiu.
--Inferno!--clamou ella estorcegando os dedos que estalavam nas
articulações.--Maldita eu seja, que tão aviltada me tornei!
Sentou-se a arfar, e a chorar, e logo depois levantou os pulsos
comprimindo as fontes.
Pôz depois as mãos enclavinhadas junto dos labios, encostou a barba ao
pollex da mão esquerda, abaixou a cabeça, e meditou.
Entrava o criado com a bandeja. Theodora, estremecendo como atemorisada,
relanceou os olhos sobre o criado, e disse-lhe com desabrimento:
--Deixe ficar. Cá me sirvo. O lacaio que almoce, e apparelhe.
N'este momento Affonso abriu a porta, e disse com a voz convulsa:
--Um passageiro pede uma chavena do café de v. exc.ª
O leitor já sabe por todos os romances, por todos os dramas, e por todos
os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que
Theodora fez. Um _ah!_ ou dous, é o nariz de cêra para todas as
surprezas, fabricado desde Homero, ou mais de longe. Adão, quando viu
Eva, devia dizer: _ah!_ A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu eu
vou jurar, sem menoscabo do historiador Moises, que mais ou menos
nervosa, exclamou _ah!_ A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio
de espantos.
Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando
Affonso me disse que Theodora não expediu do seio interjeição nenhuma,
nem _ah!_, sequer.
--Pois que?!--perguntei eu com a respiração abafada--Que disse ella?!
--Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio, postas em oração; depois,
cahiu em joelhos, ia cahir, quando eu, ajoelhado tambem, a recebi, a
desfallecer.
--Não disse nada, por tanto!... E desfalleceu sinceramente?
--Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...--respondeu
Affonso--Asseveras-me que te estão contando factos ignorados?
--Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de
Barcellinhos?!--repliquei--Eu ignoro d'essa mulher tudo, menos o que
toda a gente sabia. Vi Palmyra em Lisboa comtigo... mas, se tu crês que
um homem, acostumado a fazer romances, é uma especie de naturalista, que
só com um osso recompõe um animal desconhecido, admitte-me que eu tenha
adivinhado a alma inteira de Theodora com os poucos, mas caracteristicos
traços que me deste do seu caracter. Authorisado, pois, pela tua
pergunta, afouto-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de
theatral, por que nem sequer foi precedido da inevitavel interjeição.
Assim que me disseste, Affonso, que ella não desentranhou do intimo seio
um estridulo _ah!_ entendi que Theodora era mais artificial que o
proprio artificio, mais theatral que o mesmo theatro.
--A narrativa--redarguiu Affonso de Teive--vai perdendo a seriedade que
demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-hei que me sinto já
constrangido n'estas memorias. Acho-me um pouco identificado com a minha
vida passada; repassei o Lethes interposto, e olho com saudades para as
margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada ha ahi mais triste que
recordar na miseria os tempos felizes, é, pelo menos nauseabundo
recordar em tempos felizes vergonhosas miserias. Todavia, como já agora,
inexoravel romancista, me não dispensas o remate d'este longo prologo do
capitulo final do meu livro--livro que eu chamaria _Amor de
Salvação_--concluirei a historia, e irei depois purificar meus labios no
rosto de meus filhos.
--Theodora--continuou Affonso--quando quiz abrir os olhos, arrancou-se
dos meus braços, exclamando:--Repelle-me, que eu sou indigna de ti.
Agora reconheço a minha miseria, agora que te vejo, ó Affonso, ó anjo da
minha infancia, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da
mulher pura, da creatura perfeita para quem tu nasceste!...
--Ha ahi muito estylo--interrompi--A mulher compunha! Vê-se que leu e
aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña
para as mulheres de letras. E depois?
--Eu venci o espaço que ella deixára recuando e abracei-a. N'este
movimento, senti nas faces o contacto dos caracoes desfeitos. Osculei-a
na fronte...
--Gosto--atalhei--do comedimento honesto da palavra... _Osculei-a_...
sim, senhor... Assim é que um pae de oito filhos conta a historia dos
seus beijos. E ella tambem te osculou?
--Sofregamente, doudamente, segurando-me a face pelos cabellos.
--Isso tambem é de rigor theatral. A mulher conhecia a scena!--perdôa as
interrupções. De proposito as faço para te dar azo a inspirares fôlego
novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...
--Rebentou-me a bolhões do peito a eloquencia da paixão. Era uma alma
virgem que se abria. Abria-se um thesouro intacto, d'onde nem sequer
tirára uma palavra para mentir a outra mulher. Ella entrecortava-me,
sorvendo-me as expressões nos labios, ou abafando-m'as no seio
palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance
febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvêra uma hora, segundo
a vida do tempo...
--E depois--acudi eu--começaram a tratar de assumptos circumspectos com
discreta serenidade.
--Contou-me ella que o marido, com ar de _tyranno tolo_...
--A phrase é d'ella, _tyranno tolo_?--perguntei.
--É. Desgostar-me-hia o tom zombeteiro com que me ella fallava do pobre
homem, se eu não estivesse...
--Corrompido--conclui--Querias dizer isto?
--Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ella que o marido lhe fallava
em correspondencias de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos
pavilhões dos ouvidos, costume d'elle, quando os ciumes lhe faziam
prurido nas orelhas.
--Disse-t'o assim ella?--interrompi com a mais ingenua irritação.
--Disse-m'o assim, com pouca differença, mezes depois, quando eu estava
mais corrompido que ella para provocal-a ás originalidades da sua veia
sarcastica: do que me confesso em opprobrio meu. Delineamos o nosso
futuro. Foi ella quem o programmou. Iriamos para longe. Propuz Lisboa,
ou Madrid, ou Paris. Quiz Lisboa, no intento de requerer divorcio. A
fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcellos,
disfarçado, occulto, durante o dia. Á meia noite apearia a um oitavo de
legua de Tibães. Theodora estaria no seu gabinete de estudo, e as
vidraças coariam a luz da sua lampada, companheira das lucubrações
intellectuaes, insuspeitas ao marido. Referendado o programma e
rubricado com um osculo (repara, que não me descomponho) ouvi estropeada
de cavallo na rua. Momentos depois...
--Querem vêr que chega Eleuterio!--atalhei com alvoroço e alegria
parvoa, senão cruel.
--Eleuterio Romão dos Santos, em pessoa, tropeando nas escadas que
subiam para a sala, onde nós estavamos tranquillos como Paulo e Virginia
(perdoai-me santas almas a comparação!) nos rochedos de S. Domingos!
Agora tu, Caliope, me ensina a contar o successo estranho!... Eleuterio
viu ainda o desencadearem-se os braços de Theodora do meu pescoço.
Parou, estacou, empederniu-se, estupidificou-se no limiar da porta.
--E Theodora? narra-me da esposa surprehendida; que fez ella?--perguntei
com inquieto empenho.
--Theodora, pendidos os braços, fitou Eleuterio com sobranceria, deu
dous passos, postou-se diante de mim, e
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