Transviado
by Jaime de Magalhães Lima · Portuguese · Gutenberg #25945 · 477,126 chars · public domain (US)
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Title: Transviado
Author: Jaime de Magalhães Lima
Release date: July 1, 2008 [eBook #25945]
Most recently updated: January 3, 2021
Language: Portuguese
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ROMANCES ILLUSTRADOS
JAYME DE MAGALHÃES LIMA
TRANSVIADO
ROMANCE ILLUSTRADO
COM MAGNIFICAS GRAVURAS
LISBOA
EMPREZA EDITORA T. da Queimada, 35
TRANSVIADO
JAYME DE MAGALHÃES LIMA
TRANSVIADO
Romance illustrado com magnificas gravuras
LISBOA
EMPREZA EDITORA
35--Travessa da Queimada--35
1899
EMPREZA EDITORA
A
LUIZ DE MAGALHÃES
Dedico-te este livro que é simultaneamente uma recordação e uma promessa
da nossa amizade. Nasceu da vida commum do nosso espirito, da
experiencia na aspera e triste jornada pela terra que temos feito juntos
e em que caminharemos unidos até que o destino lhe ponha termo.
I
Nos campos do Mondego, abaixo de Coimbra, a primavera é frequentemente
agreste e fria. Quando o vento do mar sopra rijo sobre os brancos
lençoes de malmequeres a surgir da terra humida e paludosa, ainda farta
das aguas do inverno, as tardes são inclementes para o corpo ávido do
repouso e doçura da natureza.
Este rapaz que além se apeou d'uma carruagem, em frente da estação de S.
Braz, na estrada que vem dos lados de Albergaria, atravessou a linha
conchegando o gabão que o vento desconcerta, e, mal entrado na gare, em
que só destaca uma carreta abandonada com poucos fardos, procura onde se
abrigue. Estamos todavia n'uma tarde d'abril.
O rapaz seguiu vagarosamente, ao longo da gare; na porta em que leu
«sala d'espera» abriu e entrou. A um canto, sobre o duro banco de
madeira, dormitava um homem gordo, de lunetas, mãos nos bolsos e chapéu
derrubado para os olhos; ao lado uma mulher esbelta e franzina, um olhar
brilhante sob o véo que lhe cobria o rosto. O homem levantou-se
levemente turbado, com modos submissos, e pareceu hesitar.
--Eu agora... contra a luz..., não distinguia bem. Perdoe v. ex.ª!
disse dirigindo-se ao recem-chegado.
--Eu tambem, como vinha de fóra e a sala estava um pouco escura, não o
conheci á primeira vista. Foi necessario reparar um pouco...
--Então como tem passado v. ex.ª depois da sua jornada ao
estrangeiro?... Será melhor sentar-nos, acrescentou apressadamente o
homem das lunetas sem esperar resposta... V. ex.ª tem aqui logar...
dizia affastando um cesto de morangos d'um sofá que parecia mais
commodo.
--Muito obrigado, muito obrigado... Não se incommode... Em qualquer
sitio...
E o rapaz ia a sentar-se quando o outro, abruptamente, o obriga a
aprumar-se apontando-lhe a mulher.
--Minha mulher... o sr Claudio de Souza Portugal, um cavalheiro muito
illustrado e do meu maior respeito!
Trocaram-se as palavras sacramentaes e todos se sentaram.
--Que extravagante modo de vêr! começou Claudio. Nas cidades, onde não
faltam recursos, a _Companhia_ dá-nos uma sala de espera com certo
conforto, e aqui, n'este deserto, no meio d'um charco, reduz todas as
commodidades dos pobres passageiros a um banco mal pintado e frequentado
sabe Deus por quem. Na Suissa chega a haver, nas estações que estão nas
circumstancias d'esta, uns pequenos quartos em que se pernoita com
agasalho e aceio. Aqui, que barbarie!... Havemos de ser sempre assim; um
paiz de toiros ha-de ser forçosamente um paiz de campinos. Tambem tem a
sua belleza, é verdade; mas, quando se tem frio, uma manta do Ribatejo e
duas taboas de pinho, confessemos, são pouco.
E fitava a mulher, nervoso, contente com esta apparição inesperada,
captivo da sua graça.
Ella respondia:--E v. ex.ª bem o deve estranhar. Segundo tenho ouvido,
fez ha pouco uma linda viagem pelo estrangeiro. Provavelmente, agora
mesmo, vae aproveitar a primavera em melhores terras.
--Não, venho aqui apenas para vêr um meu amigo que passa para Lisboa e
volto já a Albergaria. Não é sacrificio, para mim, viver ali. Em Paris,
em Vienna d'Austria, por toda essa Italia que é a melhor galeria do
mundo, no meio de riquezas artisticas sem numero, nunca houve prazeres
sufficientes para me apagarem as saudades do meu paiz. Pelo contrario,
tinha horas d'uma tristeza prolongada. Creio até que mais d'uma vez caí
na fraqueza de chorar. Porque, não sei bem; não eram saudades com um
objecto determinado, era uma dôr vaga mas penetrante.
Ella, sorrindo, replicou:--Bem diz o ditado que dá Deus nozes a quem não
tem dentes. Só eu aborreço cordealmente a vida de provincia e estou
condemnada a soffrel-a. Já não queria Paris nem Vienna, com Lisboa me
contentava. Nem isso!... Não posso comprehender o mundo sem muita gente.
A Avenida e S. Carlos e o Campo Grande e as praças e as ruas, tudo isso
é para mim encantador, e infinitamente melhor que o pó e os tamancos da
villa de Albergaria. Eu sei que é de máu gosto não elogiar as bellezas
do campo, mas fui educada em Lisboa e hei-de ser lisboeta até ao fim da
vida. Não... Parece-me sentir se o comboio. Até já, que nós tambem não
saimos, concluiu ella, erguendo-se, com visivel interesse em continuar a
palestra.
O comboio entrava na gare e separaram-se, dirigindo se cada um ás
carruagens em que descobriam as pessoas que procuravam. Depois,
rapidamente, bateu o signal da partida, a confusão de pregoeiros de
jornaes e de passageiros que corriam do restaurante dissipou-se, e,
novamente, na gare ficaram sós Claudio, os seus interlocutores, e poucos
empregados que arrastadamente recolhiam da sua tarefa a dormitar pelos
armazens, entre as bagagens.
Claudio approximou-se do par que momentos antes tinha deixado e
offereceu-lhe logar na sua carruagem para regressarem juntos a
Albergaria.
--Não, muito obrigado, vamos incommodal-o. Temos ali um carrito em que
viémos.
Instou; que a tarde estava horrorosa, que iriam talvez um pouco mais
agasalhados, que lhe davam o maior prazer com a sua companhia.
--A Emilia dirá, respondeu o homem de lunetas voltando-se para a mulher.
--Ah! por mim, acudiu ella muito alegremente, acceito e agradeço; não
sei desprezar tão boa fortuna. Desculpe-me v. ex.ª a franqueza...
Conheço o apenas ha uma hora e vou dispondo já das suas cousas com uma
familiaridade que póde induzil-o em mau juizo...
--Oh! pelo amor de Deus, minha senhora, não diga mais, que
blasphemias!... Muito prazer, fico muito reconhecido a v. ex.as.
Encaminharam-se, atravez da linha, para a carruagem, que era um vasto
_landau_ tirado por dois possantes cavallos, e Claudio sentou-se em
frente de Emilia e do marido.
Apenas sairam da estação, a conversa reatou-se no tom de banal animação
em que a vimos começada. Claudio ia inquieto, um pouco embriagado pela
belleza da mulher que tinha deante de si.
Examinava-a á claridade d'este poente coado pela leve neblina do norte;
ha pouco, na escuridão da sala, mal a tinha visto, só agora podia julgar
inteiramente da estranha seducção que logo ao primeiro encontro o
impressionára. Emilia era uma mulher de feições quasi vulgares, magra,
testa alta, rosto oval com as faces ligeiramente angulosas, a bocca
grande, os labios delgados, o nariz secco e pronunciado; mas uma
mobilidade d'olhar, de gestos e de sorrisos, desprendidos entre um
collar de dentes sem mancha, que enfeitiçava. Com excepção dos olhos que
eram soberbos de doçura e languidez, nem uma só feição que merecesse a
arte atteniense; ainda assim, um poder d'attracção enebriante.
Com esta superior espiritualidade contrastava a grosseria do marido,
trigueiro, quasi calvo, o olhar embaciado, taciturno, todos os signaes
de vida interior apagados. Era escrivão de fazenda, chamava-se Ricardo
Dias d'Almeida, e na villa conheciam-n'o pelo _Canadas_, porque a sua
medida habitual, nas noites d'alegria, era uma canada de vinho.
A carruagem seguia vagarosamente, pesadamente, a estrada desabrigada que
ia ladeando os campos despovoados; o crepusculo approximava-se e a
conversação corria sempre viva, sem repouso. Eram Claudio e Emilia que
sós a alimentavam, ella não cessando de interrogal-o sobre as suas
jornadas, elle descrevendo e contando, ora relembrando as maravilhas de
luxo e de arte que tinha visto, ora referindo incidentes alegres da vida
nomada. Quando jornadeava mais assiduamente, as paixões não tinham fim,
uma cada dia, quasi invariavelmente. No lago de Como o amor fôra grande
por uma sueca de cabellos dourados e bocca pequenina, que passara uma
tarde com elle na villa Carlota, onde ha plantas exoticas e esculpturas
de Canova; mas nenhum como o que tivera por uma ingleza com quem viajara
seis horas no Rheno, de Mayance a Colonia. Eram incendios romanticos,
labaredas ephemeras a que a sua imaginação por momentos se entregava
caprichosamente. O que não pensou quando viu essa rapariga ingleza?!
Sonhava-a filha d'um lord que por ali, algures, nas margens do rio,
devia ter um castello para descansar no estio. Via-a nas torres,
roupagens brancas, tranças ao vento e havia de raptal-a por uma noite de
luar montado n'um soberbo cavallo arabe, veloz e nobre. Ao amanhecer
andaria tudo em correrias doidas pelo castello, o pae espumando
vinganças, os creados atonitos, chorando; e já longe, em mysteriosos
campos desconhecidos, o cavallo jazendo extenuado e elle moribundo de
fadiga e amor a deixar-lhe nos labios o ultimo alento. Depois, ao cair
da noite, os pastores que o sepultavam na montanha e os soluços da sua
amada sobre o corpo hirto e frio, e tarde, em tempos distantes, a scena
ultima, o perdão do pae e a solidão no convento.
Emilia ouvia attenta esta indiscreta revelação d'uma alma. Com breves
perguntas provocava ou novas confissões ou narrativas em que o espirito
femenil se deleita. E Paris? Devia ser deslumbrante de luxo e de
prazeres. E o _Bois_ e a Opera e os Campos-Elysios e as corridas em
Longchamps? Vinham então as descripções de soberbas equipagens e de
magnificos espectaculos. E diziam que agora era uma sombra do passado!
Um fidalgo francez, com quem Claudio se relacionara, levou-o uma noite,
depois da opera, ao Tortoni, quasi deserto, só para lhe mostrar logares
que elle reputava celebres. Aqui se sentara o duque de X..., aqui o
marquez de Z... Na rua a fila das carruagens não tinha fim. Então, sim,
então havia luxo em Paris, dizia o fidalgo. Tambem passara quinze dias
em Londres, na _season_, admirara muito a solidez do luxo britannico e,
estava mesmo em dizer, o seu bom gosto, uma sobriedade de linhas e de
decoração que tocava o atticismo.
--Mas tudo isso, concluia Claudio, não vale aquelle cantinho, e apontou
para fóra da carruagem, atravez dos vidros.
Era quasi noite e estavam em frente das azenhas dos Casaes. Entre os
troncos de choupos, as aguas espumantes sarjando a terra e as
madresilvas debruçadas nos vallados, entre os vultos mal distinctos que
a obscuridade confundia e deformava, a porta do moinho lançava um clarão
e ao fundo via-se, em volta da lareira, o moleiro, a mulher e os filhos,
abrigados do vento frio que corria no valle, sobre a ribeira.
--Que mau gosto! Perdoe-me a franqueza, respondeu Emilia. É impossivel
que o sinta, está a brincar. Ou então, como já me percebeu a fraqueza,
quer-me ouvir.
--Não, replicou Claudio, é a verdade. Se vivesse um pouco commigo, havia
de convencel-a. Estou certo de que mudaria de sentimentos.
Fez-se um breve silencio; e houve entre os dois como uma commum
necessidade de recolhimento intimo. Elle pensava com mágoa quanto a
concepção vulgar da belleza estava longe do seu ideal, ella ficára
indecisa perante uma affirmação tão cathegorica, porventura
instinctivamente subjugada pelo poder de insinuação de Claudio.
--Nem v. ex.ª imagina o que isto é, disse Ricardo julgando de boa
educação não deixar cair a conversa. Tudo uma miseria! O que eu não sei
é como esta gente vive. Só no anno passado houve mais de cento e
cincoenta contribuições relaxadas. Isto na predial, porque na
industrial, com a lei nova, ninguem paga.
--É verdade, é, são pobrissimos, respondeu pacientemente Claudio, mas a
pobreza tambem tem as suas alegrias e até a sua belleza.
Nova pausa, novo silencio, o silencio proprio do contacto de duas almas
que se sentem em desharmonia e que ao mesmo tempo se veem attrahidas por
mutua fascinação. O certo é que a conversa perdeu todo o movimento e,
entre desconnexas interrogações, variando sempre de assumpto, assim
chegaram a casa do escrivão de fazenda.
--E então até amanhã, por certo não falta em casa do dr. Carvalho. Tem
grande festa, disse Emilia.
--Que remedio! São os annos d'elle e eu sou-lhe tão obrigado...
E no dia seguinte, emquanto Claudio se sentava a uma mesa do whist,
ouvia entre duas solteironas o seguinte dialogo:
--Já reparaste como a Emilia está hoje elegante?
--É verdade, já vi. Está bonita. E é singular! Ella que costuma cuidar
tão pouco de si...
Só Claudio podia suspeitar o segredo d'aquella transformação. Via a com
uma vaga, quasi inconsciente impressão de triumpho e de vaidade
satisfeita. Nem sequer sonhava quantas batalhas lhe reservava esta
primeira gloria, tão tentadora como traiçoeira na facilidade com que se
deixava conquistar.
II
A estrada que partindo de Albergaria para o nascente se interna nas
serras, segue paralellamente á ribeira que vem de Alcofa, ao lado de
campos ferteis, copiosamente banhados pelas aguas da rega. O valle vae
apertando e, passado um estreito em que os montes lateraes quasi se
tocam, deixando apenas uma apertada passagem para o rio, a estrada
bifurca-se; um dos ramos segue para a esquerda entre montes desertos,
calcinados, de longe em longe marcados por oliveiras solitarias, com a
vegetação rachitica dos terrenos calcareos que se esboroam em pó fino e
branco. A breve distancia, a encosta começa a ser aspera, de todos os
lados apparecem miserrimos campos fechados por muros de pedra solta;
acima, n'uma quebrada, avistam-se os telhados da aldeia entre bastas
ameixieiras e o olivedo já mais viçoso do que o deixamos em baixo. No
latido dos cães e no cantar do gallo sentem-se uns prenuncios de vida,
signaes de habitação humana com os seus guardas, as suas provisões e os
seus pomares.
Essa aldeia é Villalva, um montão de casebres cortados de caminhos
cheios de matto, de tojo, de urze e de carrasco, degráus informes dando
accesso a casitas negras de fumo, cortelhos de magros porcos fossando na
estrumeira. Á entrada, uma casa caiada, com tres pequenas janellas, uma
escada ao lado, acompanhando a encosta, por detraz os curraes formando
pateo; e por baixo, pelas frestas vedadas com um varão de ferro,
espreitam palhas soltas e os cestos da vindima, advinha se o celleiro, a
adega e o palheiro. Fôra ali, n'aquella aldeia e n'aquella casa, que
nascera Claudio.
Os paes eram lavradores, tinham bons campos na varzêa, um vasto pinhal
no Bunheiro, e bastas courellas dessiminadas nos montes onde colhiam o
centeio, o vinho e o azeite. Os filhos foram poucos; dois morreram
novos, n'uma epidemia de variola, uma filha, a mais velha, casara cedo
com um lavrador da Alumieira, a poucos kilometros d'ali, e Claudio
ficára só em casa, desde os sete annos.
Um tio que se ordenára e era abbade n'uma freguezia do Minho queria que
elle fosse padre; escrevia ao irmão lembrando-lhe que era tempo de
mandar o rapaz á escola, se queriam fazer d'elle alguma cousa, que pela
sua parte estava prompto a ajudal-o, como elle bem o sabia, e que emfim
não tinha outros parentes e o pouco que possuia havia de deixal-o aos
seus. Precisava mesmo de tratar das suas ultimas disposições; já no
inverno passado a gotta o tinha tido preso em casa mais de dois mezes e
sentia-se muito fraco.
O pae hesitava. Era um homem austero que tinha feito da vida uma tarefa
de trabalho. A pé desde o romper do dia, ao lado do unico creado que
tinha, vigiando tudo, adeante do gado pelos ingremes atalhos da serra,
nas veigas, em noites de estio, com agua até ao artelho, guiando as
regas pelos milharaes, curvado, ceifando, sob o sol ardente, o seu corpo
não tinha repouso. Pouco fallava; a mulher e os filhos respeitavam-n'o
mas temiam-n'o, conheciam as suas duras reprimendas, se o creado tardou
a fazer a cama ao gado, se a enxada ficou no campo e o milho mal coberto
na eira.
Era para aquillo que ensinava o filho; muitos louvores déra a Deus
quando elle nasceu por ter quem o ajudasse e continuasse o amanho do seu
casal. Para que fazel-o padre? Tinha ali com que viver. Mas o Veiga, que
fôra recebedor lá na terra em que estava o irmão e que o tratava como
cliente abastado, tinha-lhe dito, quando elle foi pagar a decima, que o
irmão estava muito rico. Era um unhas de fome, não gastava um real,
sempre de tamancos, com meias de lã no inverno, e de verão nem meias
trazia. Tudo para poupar!
E já outros lhe tinham dito a mesma cousa. Ao certo nada sabia, que o
padre nunca lhe disséra quanto tinha; receiava que lhe pedissem alguma
cousa. Só quando foi pelo casamento da sobrinha lhe mandou uma peça em
ouro.
Seria tudo isso verdade? Tambem não queria privar o rapaz d'uma fortuna.
Toda a vida tinha trabalhado para os filhos; se agora podia deixal-os
ricos, era sua obrigação fazer deligencias para isso.
Entretanto Claudio frequentava a escola e, graças ás hesitações do pae
sobre o seu destino, não lhe davam na lavoura serviço pesado; cuidava
dos bois, se o creado trabalhava longe de casa, levava o jantar aos
trabalhadores, se os havia de fóra, andava á tarde na apanha da
azeitona. Era uma creança nutrida e forte, pacifica, as faces rosadas,
cabellos e olhos castanhos, uma certa mansidão no olhar; parecia-se
muito com a mãe que fôra sempre um modelo de paciencia. Aprendia mal,
continuamente distraido, e associava-se pouco aos companheiros da
escola; ao peão na barra, nas brigas e nas corridas ficava sempre
vencido. O seu maior prazer estava n'um cantinho do quintal onde
plantava flores que a mãe lhe pedia para pôr n'um vaso, no oratorio, aos
pés d'um crucifixo. Vagueava pelo pateo, ora examinando os bois, ora
afagando o cão, ora debruçado no muro a vêr as gallinhas que na rua
apascentavam as ninhadas. O pae tinha-o em pouca conta.
--Nunca ha-de ser nada com aquella preguiça; comer, dormir e passeiar. O
que elle quer é andar de mãos nos bolsos. Está mesmo bom para abbade.
--Ora deixa lá, respondia a mãe, Deus sabe o que elle será.
Essa sim, essa tivéra sempre grande inclinação para o filho, e muito
mais agora que a rapariga se tinha casado e ficára só com elle.
Ensinava-o a rezar, toda a doutrina christã, e repetia-lhe muito os
mandamentos da lei de Deus e as bemaventuranças.
Bemaventurados os pobres d'espirito, e os que são mansos, e os que
choram, e os misericordiosos, e os pacificos; é para elles o reino dos
céos. Pintava-lhe as penas do inferno para os máus e a presença de Deus,
na companhia dos anjos, para os bons. A creança não se cansava de
interrogar. Como seria? Pelo seu espirito passavam sombras de terror
quando o julgavam e lhe diziam:
--Isso é peccado.
Temia o inferno. Penas eternas! em lá caindo, era para sempre.
Os mendigos vinham á porta da cosinha, andrajosos, esfarrapados,
calcando o matto fôfo e humido com o bordão a que tremulos se arrimavam.
A mãe, para animar o filho na caridade, mandava-lhes por elle um pedaço
de brôa.
--Seja pelo divino amor de Deus. Por alma de quem lá tem: Padre nosso
que estaes nos céos...
O pequenito ouvia silencioso. Era bom; Deus ouvia tambem os mendigos e
perdoava os peccados aos que tinham morrido e estavam nas penas do
purgatorio.
Era preciso, dizia-lhe a mãe, rezar muito, e por muito que se rezasse
nunca era o bastante para alcançar o perdão de todos os peccados;
ficava-se sempre em divida. Scismava n'este mysterio.
A isto se reduzia a educação de Claudio, ás singelas lições do exemplo e
aos piedosos conselhos da mãe quando á noite, findo o trabalho, emquanto
não chegava a hora da ceia, se sentava com elle no chão, sobre a
esteira, ao canto da sala, proximo do oratorio.
Decorreram dois annos n'este abandono. Ao fim, em agosto, veiu uma nova
carta do Minho, decisiva. O abbade voltava a insistir na educação do
sobrinho; as despezas eram por sua conta. Não se prendessem com isso. O
seu amigo padre Netto ia passar as ferias ao Carregal, não tinham mais
do que entregar-lhe o rapaz no primeiro de outubro, viria com elle para
o collegio. Depois o abbade olharia pelos estudos.
O pae d'esta vez não hesitou. A carta era tão terminante que não podia
deixar de fazer a vontade ao irmão sem o risco de perder toda a herança
para os filhos. Sem demora, com a sua habitual firmeza, tratou do
enxoval. Um dia, pela madrugada, metteu algum dinheiro no bolso e foi
com a mulher e com o filho a Albergaria. Ahi tomaram a deligencia e
seguiram para Coimbra. Por lá andaram algumas horas, de loja em loja,
desconfiados dos preços, abrazados de calor, regateando e comprando os
pannos, o chapeu, os sapatos, a gravata e a caixa de folha que havia de
ser dentro de dois mezes a magra bagagem do bisonho estudante. Á tarde
voltaram a Villalva.
Veio a costureira e o alfaiate. Queria-se tudo largo, muito largo,
senão, elle era um latagão, d'aqui a pouco nada lhe servia, era um
desperdicio. N'esse canto da sala, sobre a esteira, entre a janella e o
oratorio, ali onde á tarde Claudio recebia as piedosas lições da mãe, o
chão semeou se de linhas e de farrapos, de pedaços de panno orlados de
grandes alinhavos, entre elles a pregadeira e a thesoura postas a um
lado. Ia n'aquella casa, tão tranquilla, um bulicio desusado; a
costureira cantava, rasgavam-se asperamente as peças de bretanha, e a
mesa animava-se com o novo conviva, a rapariga que tagarellara todo o
jantar, contando o que ia na villa e o muito que brincara quando fôra a
Balmaes, á Senhora da Saude. Tinham andado toda a noite a dançar no
jardim do sr. Cunha, um fidalgo que lhes mandara dar pão dôce e licores.
Claudio estava contente, tudo aquillo era para elle; a singela vaidade
infantil alegrava-se com as parcas riquezas que aos seus olhos tamanhas
pareciam.
O movimento foi baixando, as camisas juntaram-se dobradas sobre uma
cadeira, a costureira não voltou, varreu-se a sala e o pequeno casal de
Villalva caiu no seu habitual silencio.
O pequenito sentiu então o primeiro travo da saudade. Ia partir. Para
onde? Os mestres eram tão maus... E os bois? e o seu cão? e as suas
flôres? Iam talvez seccar. Só se fosse a mãe que as regasse para as pôr
a Nosso Senhor. Já lh'o pedira e ella tinha-lh'o promettido.
O padre Netto mandara dizer que o rapaz devia estar no primeiro
d'outubro, ás tres horas da madrugada, na estação do caminho de ferro,
em Coimbra, para seguir com elle. Precisavam sair de Villalva á meia
noite.
Depois da ceia começou a fazer-se a mala. Já estava tudo na sala,
faltava arrumar a caixa. Claudio assistia e ajudava, allumiando com o
candieiro na mão e ouvindo as recommendações da mãe. Iam duas andainas
de roupa, mas a preta era só para os domingos, para ir á egreja, a
alguma festa, ou para quando o sr. director mandasse; que visse bem, não
se perdesse alguma coisa, tudo aquillo tinha custado muito dinheiro. Iam
tambem uns sapatos pretos, só para trazer com a roupa melhor, não fosse
estragal-os na brincadeira. Juntou-lhes ainda um rosario de contas de
vidro branco e verde enfiadas n'um cordão vermelho, não se esquecesse de
o resar todas as noites a Nossa Senhora, por alma dos avós e para que
ella o ajudasse em todas as afflicções da sua vida e o defendesse das
tentações do mundo.
A creança ouvia, promettendo fazer o que a mãe lhe ia pedindo. Cerca das
onze horas, como já passasse muito da hora a que habitualmente se
deitava, encostou-se sobre duas cadeiras e adormeceu, com a cabeça
repousada sobre o braço. A noite começava a arrefecer. A mãe foi buscar
um chale, abriu-o, afastou-lhe o braço e d'um casaco velho fez um
travesseiro em que lhe pousou a cabeça. O pae estava dormindo na
cosinha, não quizera deitar-se na cama; não valia a pena por tão pouco.
E, n'este silencio que a fadiga trouxera, a mãe ficou só, velando,
ajoelhada em oração perante o Christo, a rogar-lhe fervorosamente
protecção para o filho.
Ao bater da meia noite foi accordar o marido, o filho e o creado que
dormia em baixo, no palheiro.
As despedidas foram breves que nem o marido gostava de expansões nem o
pequeno Claudio, tonto de somno, podia dar-lhes grande attenção.
A mãe acompanhou-os até á porta e logo os viu perderem-se na confusão da
neblina mal illuminada pelo luar, ladeira abaixo, o pequenito pela mão
do pae, atraz o creado, varapau ao hombro e sobre elle a caixa de folha,
vibrando estridula e compassada. Ao fundo estava o carro. Claudio, mal
elle partiu, adormeceu novamente. E assim foi, moido da jornada,
accordando só por breves minutos se o chamavam, até ás alturas de
Espinho.
Quando ali chegou, era madrugada; cedendo ao habito despertou. Onde
estava? Que era feito dos doces ruidos de Villalva, da voz do pae
marcando trabalho ao creado, dos passos da mãe na cosinha, abrindo a
arca para levar o milho á creação? Tinha saudades, as lagrimas
marejavam-lhe nos olhos, mas a novidade da payzagem e a vertigem do
movimento distraiam-n'o e moderavam esta hora de angustia.
Estava ao pé do mar. Não o surprehendia, já o tinha visto na Figueira,
quando lá fôra em romaria com a irmã, pelo S. João, no anno em que ella
se casou; atraia-o esta vastidão inquieta que Deus creára e em que
admirava o seu poder. Apearam-se em Villa Nova de Gaya e causou-lhe
grande estranheza a ponte pensil; mas vira e não comprehendia como
tinham lançado aquellas cordas de ferro, d'um ao outro lado do rio. As
ruas e as praças do Porto pouco o impressionaram; eram semelhantes ao
que havia em Coimbra, na Calçada, na Portagem e na feira de S.
Bartholomeu. O padre Netto mostrava-lhe as estatuas, D. Pedro IV, D.
Pedro V. Sabia quem eram? O mestre escola fallava d'elles, lá em
Albergaria, mas era para os mais adiantados. D'uma só cousa os seus
olhos não podiam desprender-se, cheios de pasmo e curiosidade: os bois.
Estranhava-os muito, com os seus grandes cornos, em lyra, e as mãos
tortas, quasi aleijadas, deformadas pelo trabalho violento na calçada.
Eram feios; os d'elle eram mais bonitos, cornos curtos, pernaltos,
aprumados e nédios.
Ao collegio devia chegar á noite, depois de cinco horas de carruagem.
Iam continuar os aspectos novos que tanto captivavam a sua curiosidade
de creança: Rio Tinto e os seus teares sem conta,--em Albergaria havia
só um,--Vallongo e as pedreiras de lousa, e as vides a trepar pelas
arvores e os valles estreitos e humidos com os seus altos milharaes.
Oliveiras não havia. Com que se alumiavam? perguntava ao padre. O azeite
vem de fóra, respondia. E aquillo o que é? dizia apontando uma
construcção desconhecida, sobre quatro pilares de granito. É um
espigueiro; guardam ali as espigas do milho até ficarem bem seccas e só
depois é que o malham. Assim passou toda a tarde, interrogando, vendo,
observando tudo o que se prendia com os seus habitos e com a propensão
natural do seu espirito. O padre ia-lhe respondendo. Era um homem
paciente e bom, muito habituado a creanças, sabendo conquistal-as.
Os primeiros dias do collegio foram maus, pouco de molde a apagar as
saudades que Claudio tinha da casa. Os companheiros escarneciam-n'o ao
vêl-o nos seus enormes sapatos, a roupa nova, angulosa e hirta, d'uma
vastidão desproporcionada. Perguntaram-lhe quem era o pae.
--Meu pae, respondeu vaidoso, é o thesoureiro da junta de parochia.
Começaram a chamar-lhe o thesoureiro e Claudio, timido, vexado,
sentiu-se só entre aquella multidão desconhecida. O isolamento em que
vivera em Villalva, os aturados conselhos da mãe, ensinando-o cedo a
distinguir entre o bem e o mal, o exemplo da austeridade do pae, mataram
á nascença na sua alma todo o germen de expansão e de lucta, quebraram
todas as forças animaes e deixaram o terreno varrido para n'elle se
alastrar a dolorosa consciencia da obrigação.
Mandavam-n'o ali estudar; era preciso voltar a Villalva, exames feitos,
coberto de louvores, sem uma falta. Temia a severidade do pae e temia
ainda mais as lagrimas da mãe. O espirito da creança concentrou-se na
sua tarefa; os mestres viram com admiração o estudo e a intelligencia do
novo discipulo que vinha com fama de aprender mal.
O abbade, o tio, immundo e gordo, arfando de cansaço, vinha vêl-o
algumas vezes e pagar as mezadas. Pouco fallava ao sobrinho.--Que era
preciso estudar, eram as suas palavras quasi invariaveis. Pelo director
sabia que ia bem e, como não tinha que reprehender, pouco fallava,
porque, na sua opinião e na aridez do seu coração de celibatario, era
preciso chamal-os ao respeito, não dar confiança a esses fedelhos.
Aos sabbados havia lição de doutrina christã. A primeira vez que Claudio
foi interrogado, foi para elle um triumpho. Sabia tudo: os mandamentos
da lei de Deus, os mandamentos da egreja, as bemaventuranças, as obras
de misericordia, os peccados mortaes, tudo, tudo, até os inimigos da
alma. Os camaradas ouviram-n'o com espanto e elle sentiu-se victorioso e
contente. Havia de o contar á mãe; era uma boa nova a levar-lhe quando
fosse a férias.
Um dia o padre Netto espraiou-se mais que de costume na lição; foi até
fallar do inferno, dizendo que os doutores da Egreja ignoravam se era um
logar em que se soffriam todos os tormentos e dores que o corpo póde
soffrer, se um estado em que a alma andava errante, em continua agonia.
Estranha revelação para Claudio, esta que para os seus camaradas passára
incomprehendida! Ficou scismando. Vagamente percebia um céo e um inferno
differentes d'aquelles com que a mãe o embalára. O theologo mostrava-lhe
a dupla natureza do seu ser, sentia uma alma feliz ou torturada, mas
inteiramente apartada do corpo. No seu espirito accumulavam-se os
germens de meditação sobre a consciencia e o destino humano.
N'este mesmo anno levaram-n'o pela primeira vez á confissão. Foi um dia,
que ficou memoravel na sua lembrança, assim como a inquietação que o
precedeu. Quaes eram os seus peccados? Quantas pragas rogára? Tinha
deixado alguma vez de estudar as lições por preguiça? Queria mal a
alguem, aos professores ou aos camaradas? As duvidas traziam-n'o em
sobresalto, porque era preciso dizer tudo para que a confissão fosse bem
feita. Era preciso dizer tudo, e com sincero arrependimento e proposito
de emenda.
Além d'isso,--suprema duvida,--era preciso arrepender-se pelo amor de
Deus e não pelo temor das penas do inferno. Era realmente assim? Por
esforço da vontade procurava obedecer ao amor de Deus, mas a sua
consciencia infantil não podia alcançal-o. O temor do inferno
predominava.
Fosse como fosse, o essencial era fazer a confissão completa e elle ia
dizer todos os peccados de que se lembrasse.
O collegio ficava n'uma encosta; a egreja no valle, sobre a ribeira que
o cortava. Descia-se rapidamente e seguia-se depois pelo valle acima,
n'um caminho quasi plano, de grande lagedo de granito, orlado de
carvalhos enfeitados de videiras; ao fim, um pequeno adro, a egreja e
junto d'ella o cemiterio.
Ao romper do sol, o prefeito fez sair todos os que se iam confessar.
Manhã de primavera, orvalhada, fresca, viçosa nos renovos do arvoredo; e
Claudio opprimido, concentrado nas suas duvidas, sentia pela primeira
vez bem nitidamente o divorcio entre a alma inquieta e a impassibilidade
sorridente da natureza.
Com que delicia beberia o ar de manhã! Mas um demonio interior o
suffocava. Começava a aprender o que era a vida humana.
Entraram na egreja, indo ajoelhar no altar do Santissimo; depois,
levantaram-se e o prefeito mandou-os sentar n'um banco que ficava por
baixo do pulpito.
O confessor era um só, o parocho. Um a um foram chamados os confessandos
que, á maneira que voltavam, ajoelhavam rezando a penitencia. Claudio
foi o ultimo. Rezou a confissão embaraçado e tremulo, mãos postas,
cabeça curvada, os olhos fitos nos pés do confessor.
Começaram as perguntas, a seguir pelos mandamentos da lei de Deus e
depois pelos mandamentos da egreja. A quantos tinha faltado? Mentia? Ah!
n'este ponto tinha um peccado que fôra o seu primeiro grande remorso.
Um dia, um domingo, tinha chovido de manhã, e de tarde o prefeito
mandou-os vestir para sairem; estava uma tarde calma, o ar carregado, os
caminhos cobertos de lama. Claudio vestiu o fato preto e calçou os
sapatos novos para se mostrar aos companheiros em trajos ricos.
--Para que anda o menino a estragar esse fato? perguntou o prefeito.
--Tinha frio, respondeu Claudio.
Mentira; não era frio, era vaidade. O remorso ia ficar-lhe de lembrança.
Para o futuro seria mais corajoso.
O padre, um velhito, magro e bondoso, vendo o mundo já da beira do
tumulo, sorriu com sympathia á pureza da creança, não quiz ouvir mais,
mandou-lhe dizer o acto de contricção e absolveu-o.
A natureza sorria tambem nos gorgeios das aves que esvoaçavam fóra, no
cemiterio, e nos suaves raios do sol da manhã que pela estreita fresta
da sachristia alumiavam docemente a pobreza dos gavetões carcomidos em
que o padre guardava o calice, a alva e as vestes.
Claudio veiu ouvir a missa e saiu da egreja contente. Sentia-se bem, a
consciencia e a virtude tinham vencido todas as duvidas; pela primeira
vez experimentava a grandeza d'um dramatico triumpho intimo.
Com excepção d'estes breves incidentes, que jámais se apagariam da sua
memoria, a vida do collegio foi para elle monotona e triste; timido no
recreio, vivendo pouco intimamente com os companheiros, todo se
entregava ao estudo. Os mestres estimavam-n'o. Um d'elles ficára pasmado
do modo porque Claudio lêra um longo trecho de Garrett contando a
pobreza de Camões. Não se conteve que não exclamasse:
--Muito bem! Torna a lêr para estes meninos ouvirem. Impressionava-o a
emoção com que a creança lia e que provinha d'uma penetrante
comprehensão das dôres que o poeta cantava.
No fim do anno eram os exames, em Braga, onde os pobres rapazes iam
arrebanhados, pallidos, enfermos de desconforto, afflicções e receios.
D'ahi dispersavam em férias, cada um para a sua aldeia.
Claudio veiu em companhia do padre Netto que em Coimbra o entregou ao
pae a quem chamou de parte para lhe dar informações do filho. Ia muito
bem; muito applicado e muito socegado; fizera só instrucção primaria e
portuguez, mas no anno seguinte devia fazer exame de francez, de desenho
e até talvez de geometria. O abbade estava satisfeito; já lhe tinha dito
que se o rapaz assim continuasse, o melhor era mandal o para a
Universidade. Sempre era outra cousa, outra posição, para que servia ser
padre sabia-o elle, por mal dos seus peccados. Isto tudo aqui para nós,
concluia; não se lhe póde dizer nada. Se a gente vae a gabal-os,
fazem-se tolos e ninguem os atura.
O pae levou Claudio para Villalva. No caminho desceu um pouco da sua
habitual frieza, perguntando ao filho o que fazia no collegio, se
gostava d'isto, se não gostava d'aquillo, quantos eram os mestres e se
lhe tinham dado muitas palmatoadas. Começava a respeital-o; o que o
padre dissera, incendiava-o em ambições. Formado e com a fortuna do tio,
a advogar, mandaria em Albergaria; via-o já presidente da camara, talvez
deputado. O filho do Antonio Simões, de Barreiros, não era mais do que
elle e estava em Lisboa nas côrtes, um fidalgo. Pois algumas vezes lhe
tinha emprestado ás tres e quatro moedas para mandar a mezada ao rapaz!
Agora era elle que mandava dinheiro ao pae; ainda ha poucos dias déra
mais de sessenta moedas pelo Cerrado de Baixo, na Cruz das Almas.
Os primeiros dias de férias passados em Villalva foram uma festa para
Claudio. Veiu a irmã e ella juntamente com a mãe, ambas contentes e
orgulhosas, pedia-lhe a narração do que se passava no collegio, como era
a jornada, os exames, o Porto, a cidade de Braga e o Bom Jesus do Monte.
Quem lhes dera poder ir lá! Claudio, por seu lado, sentia uma nova
atmosphera; ainda ha um anno esquecido, quasi abandonado, via-se agora
cercado de attenções que eram novas para elle. Convertera-se n'uma
esperança de riqueza e de poderio, lisongeava a ambição do pae, a
vaidade da irmã e a piedade da mãe que tudo attribuia ás suas orações,
ás esmolas que dava e á recompensa divina. O filho ouvia-a; com ella
cria tambem que toda a sua sorte vinha da vontade de Deus, mas a edade e
a alegria de voltar ao seu casal não o deixavam prender-se muito a esses
pensamentos. Os seus cuidados eram a admiração das flôres que deixára
plantadas, os gados, os campos e as colheitas. A sua vida
consubstanciara-se cedo com a d'esse mundo natural que era o companheiro
inseparavel da sua alma e do seu corpo.
Uma tarde, em setembro, a mãe começou a sentir uma pequena dôr no
ventre. Foi continuando no trabalho, arrumando a cosinha e preparando a
ceia, mas as dores repetiam-se cada vez mais frequentes e agudas;
seguiam-se uns ligeiros suores e, depois d'uns instantes de abatimento,
parecia-lhe que ia adormecer, concebia uma vaga esperança de cura. Eram
simples remitencias; o mal estava apenas incipiente. N'uma crise, a mais
violenta, chamou o filho:
--Claudio, estou muito mal. Tenho uma dôr aqui, e punha a mão sobre o
ventre. Valha-me Nossa Senhora! Se eu désse um passeio, talvez me
passasse.
Foram para o quintal e lá se arrastou pelo carreiro junto ao muro.
Poucos passos deu. A dôr voltava, ella encostada ás arvores esperava que
abrandasse para dar alguns passos. Por fim, não poude mais; veiu para a
sua alcova. Era quasi noite e o marido recolhia.
--Não te quiz mandar chamar, disse-lhe, para te não tirar do trabalho...
Ha duas horas que não páro... Não sei o que isto é... E torcia-se
angustiada, os olhos cavados, as faces desfiguradas.
Mandaram chamar o medico.
--Era melhor chamar o padre, dizia ella; e a Maria, a filha. Mas não...
a esta hora... coitada... ficam lá os pequenitos sós... ai! meu Deus...
eu morro... morro... Estorcia-se, desgrenhada, os olhos em alvo, os
braços nús, punhos cerrados.
Veiu o medico e receitou. Emquanto o creado corria á botica, preparavam
um banho. Tudo faltava, agua e banheira. A confusão era extrema; a dôr
não abrandava. Só cerca das dez horas chegaram os primeiros
medicamentos.
Bateram onze horas. O mal não declinava. O pae de Claudio estava
aterrado.
--Isto não melhora, dizia para o medico, fitando-o com olhos
interrogadores e anciosos.
--Espere, espere... por emquanto ainda não é tarde. Então?! Não me
esteja a desanimar. Parece que nunca viu ninguem com uma colica. Pois
olhe que eu não tenho visto poucas e até hoje, graças a Deus, ainda
nenhum doente me morreu d'isso.
Claudio fugira para longe; chorava mas não queria que o vissem chorar,
temia o pae que por certo não deixaria de o reprehender pelas suas
pieguices, como elle lhe chamava. Queria rezar. O oratorio era na sala e
estava lá o medico. Abriu a porta de mansinho, atravessou o pateo e,
seguindo o carreiro onde á tarde estivera com a mãe, foi ajoelhar-se lá
no extremo, debaixo d'uma oliveira. A noite estava serena: o luar cobria
os montes de que vinham as exhalações quentes que succedem ás calmas do
estio. Ajoelhado, de mãos postas, fitando os astros, via a face da
Virgem, sentada no seu throno de gloria, entre nuvens douradas. Orava e
ella via-o:--Ave Maria, cheia de graça... Respondia-lhe um olhar de
doçura e esperança. Quando voltou a casa, finda a oração, a mãe dormia
extenuada e pallida.
Accordou á uma hora da noite. Ainda ali estava o medico.
--Então?! Está melhor? perguntou-lhe.
--Agora estou bem, graças a Deus. Muito cansada.
A fé de Claudio tinha n'este momento confirmação plena; no seu coração
estavam lançadas sementes que o tempo podia transformar, mas nunca
anniquilar.
Estes dois mezes de férias em Villalva foram para Claudio um começo de
revelação consciente da felicidade d'aquelles logares. Ao chegar a noite
da partida, não poude, como da primeira vez, vêr distrahidamente os
cuidados da mãe e adormecer; foi uma noite de lagrimas e de saudade
confessada. Ainda tres dias depois, no collegio, a um canto da sala de
estudo, tinha uma nova crise de lagrimas. Um dos mestres passou n'esse
momento. Vendo-o a chorar e adivinhando o que se passava no espirito da
creança, disse-lhe compassivamente:
--Deixe os livros, deixe os livros, vá brincar.
As saudades não turvavam porém a applicação do collegial. Pelo
contrario, o desejo de voltar a Villalva triumphante, como no primeiro
anno, a alegria dos paes e os carinhos que d'ahi vinham e de que a sua
alma era tão avida, constituiam uma ambição sempre presente á sua
lembrança e que o mantinha invariavelmente no mesmo caminho. Durante
seis annos, que tantos foram os que consumiu n'estes estudos
preparatorios, a sua vida manteve-se n'uma linha ininterrupta de
respeito, de obediencia, de concentração, d'estudo e de fé. Se lhe fosse
possivel fazer parar ali o desenvolvimento do seu espirito, teria ficado
um alto exemplo de caracter e de firmeza. Mas outros destinos e outras
amarguras lhe estavam reservados.
Aos desesseis annos matriculou-se na Universidade. O pae queria vel-o
advogado; Claudio, como de costume, ia fazer-lhe a vontade.
A entrada na Universidade não desvanecia, antes accentuava, os
caracteres da sua alma anteriormente adquiridos. Semelhantemente ao que
lhe acontecera quando entrou no collegio, sentia-se por timidez e por
natural pendor alheio a esta turba multa que o rodeiava, alegre,
buliçosa, fremente de actividade e de pujança; a primeira e a nova
situação eram rigorosamente parallelas, áparte um estado de consciencia
agora mais determinado e em breve na sua plenitude. O mundo era para
Claudio uma obrigação pesada e instante: alegrias, expansões sadias do
naturalismo juvenil, tudo devia ser pautado e regrado pelo dever
immanente. Desgraçado! Mal sabia elle a que abysmo corria.
No inverno immediato á sua entrada na Universidade, deu-se um
acontecimento que havia de ter na sua vida as mais profundas
consequencias. Morreu o abbade e instituiu-o universal herdeiro.
Deixava a quinta da Nogueira, propriedade afamada, inscripções e
numerosas dividas activas, ao todo uns bons quarenta contos de réis,
conforme o pae de Claudio lhe mandou dizer. Fôra elle que cuidára do
inventario e liquidação da herança, visto que o filho era menor ainda,
mas contrariado porque, dizia, estava habituado a cuidar os seus bens,
não sabia cuidar de bens alheios, nunca fôra procurador. No fundo, não
podia fugir a um vago ciume e inveja por se sentir, por aquelle lado, em
grande inferioridade relativamente ao filho. Demais, sempre esperára que
o irmão, embora muito inclinado ao sobrinho, o deixasse ao menos
usufructuario; não podia tolerar sem tentações de revolta esta condição
d'um subordinado que sabia que em breve seria independente de qualquer
auctoridade. Por isso, quando Claudio veio passar o natal a Villalva, o
pae, que desde a morte do tio nunca mais o vira porque evitava a
occasião de o encontrar, addiando um momento que lhe era desagradavel,
disse-lhe seccamente:
--Teu tio deixou-te tudo. Ora tu tens dezesseis annos e a lei dá-me o
direito de administrar o que é teu até á tua maioridade; mas a minha
tenção é emancipar-te aos dezoito annos. Se queres, toma já conta do que
é teu; para mim é um descanço. Sabes muito bem o que tens a fazer, já
não és nenhuma creança.
Vingava-se, desprezando o que a fortuna lhe negára.
Não o comprehendeu assim Claudio, na sua simplicidade; tomando por
generosidade e desinteresse o despeito do pae, commovido, pediu-lhe para
que continuasse a cuidar dos bens da herança. Nada queria senão a mezada
que já tinha; vivia satisfeito.
O pae recusava, mas os rogos e as instancias acabaram por convencel-o.
Cedeu, talvez contente; julgava o filho humilhado e a humilhação
pagava-lhe em grande parte o despeito de não ter sido herdeiro.
Não obstante as circumstancias muito particulares em que Claudio ficava
vivendo, em completa e espontanea dependencia do pae, a herança que
acabava de receber tinha, desde já, na sua vida a mais poderosa
influencia. Affastava de vez todas as preoccupações de ordem material,
garantia-lhe de futuro uma riqueza que era de sobra para os seus
modestos habitos; a salutar necessidade de ganhar pelo seu braço e pelo
seu engenho o pão de cada dia ser-lhe-ia desconhecida.
A sua carreira estava traçada pelas condições particulares da existencia
que agora se reuniam ás lições que aprendera no regaço da mãe. A vida
era uma obrigação de fazer bem. Simplesmente restava determinar o que
era o bem.
Nas poucas relações que em Coimbra creára, veio encontrar uma atmosphera
absolutamente differente da que deixára no collegio.
Deus não existia, era uma invenção do mêdo, conservada pelos reis e
pelos padres que especulavam com a crendice popular. Onde estavam as
provas da sua existencia?
O positivismo, unica sã philosophia, mandava que só na observação e na
experiencia nos fiassemos. Só o que d'ahi vinha era certo, o resto
ficava ao sabor de cada um. Não era pois verdade o que os padres e a mãe
lhe tinham ensinado.
Deixou-se levar n'esta nova corrente. Obedecendo a uma sêde interior de
verdade, ouvia e meditava o que os camaradas estudiosos lhe diziam e lia
com avidez as obras que elles lhe indicavam.
De lições escolares pouco cuidava, que os lentes eram uns velhos
estupidos e ignorantes, do novo methodo nada sabiam. Buchner, Spenser,
Comte, Littré, Darwin, Taine e Haeckel, esses eram verdadeiros mestres.
Era lêl-os, estudal-os, e ficava-se senhor de toda a verdade. A
«Historia da creação», de Ernesto Haeckel, foi para Claudio uma
revelação. Estudou-a, linha a linha, em frigidas noites de inverno,
debruçado sobre a banca de cerejeira, mettido em cobertores de papa, á
luz frouxa do candieiro d'azeite.
Começava a comprehender o novo mundo: a creação foi uma fabula que a
ignorancia inventou, os seres transformavam-se, e a pedra, a rosa, a
salamandra e o homem eram formas d'uma mesma actividade, producto apenas
de leis constantes e universaes; no mundo tudo é rigorosamente derivado
d'um estado anterior, a flôr é uma folha que se transforma. Por
conseguinte, o que é bem e o que é mal? Tudo é relativo, diziam os novos
evangelhos, não ha bem nem mal, o assassino e o santo são dois productos
naturaes do mesmo quilate.
Era n'esta crença que aos dezoito annos Claudio regressava a Villalva,
satisfeito com os progressos do seu espirito, occultando porém á mãe o
seu modo de pensar, resolvido a supportar a sua religião. No fundo, não
tinha mudado; só uma ingenuidade infantil lhe fazia crêr que estava
regenerado e lhe deixava passar ignorada a contradição interior. Não só
todo o seu trabalho provinha d'uma ambição de verdade que não aprendera
nos livros que estudava mas que tinha sido previamente lançada no seu
coração pelo amor e pela piedade maternal, mas ainda todos os actos da
sua vida lhe negavam as affirmações do espirito.
Não o via; o desenvolvimento da consciencia não era ainda sufficiente
para lh'o revelar. Sem embargo, a contradição era completa.
Que o digam os seus primeiros amores que foram d'esse tempo.
Á tarde, Claudio descia de Villalva; vinha á botica da villa, em frente
da praça, ouvir os ociosos que por alli paravam e ensinar-lhes politica.
Que eram o Fontes e o Braamcamp? Idiotas! Sabiam porventura alguma
cousa?! Nem sequer conheciam os grandes livros modernos em que se
aprendia a sciencia social.
O administrador escandalisava-se com a petulancia do rapaz.
--Era para isto, dizia, que os mandavam a Coimbra e que o pae e o tio
tinham andado toda a vida a trabalhar. Se elles lhe tivessem mettido uma
enxada nas mãos, seria bem melhor.
Claudio ouvia as reflexões do administrador que só confirmavam a sua
vaidade. Uns estupidos, uns brutos! Elle é que sabia.
Foi n'uma d'essas tardes, emquanto passeava d'um ao outro extremo da
sala, em frente do boticario a jogar as damas com o recebedor, que, n'um
momento em que assomou á porta, viu passar uma rapariga loira, alta,
reforçada e agil, cantaro á cabeça, a caminho da fonte.
--Quem é? perguntou ao boticario. Que linda cousa!
--É a Conceição, filha do Manuel da Aveleda. Olhe, cuide-me d'aquillo,
cuide-me d'aquillo que está no seu tempo, accrescentou o boticario. A
minha pena é não lhe poder ser bom.
E distraidamente fez avançar a sua «dama».
Claudio ficára profundamente impressionado com a graça e a meiguice da
rapariga, um modelo de mocidade e de doçura. Nos dias seguintes, vinha,
como de costume, á botica, e ao entardecer não tirava os olhos da
estrada, do lado de Villar, onde ella morava.
Ella passava sempre, ora só, sizuda e apressada, ora com as
companheiras, rindo e parando a cada passo.
Já tinha percebido que o estudante a fitava; uma vez mesmo, ao voltar a
esquina, para assegurar o seu juizo, olhára para traz. Não se enganava:
elle lá estava, á porta, fitando-a sempre. Chegára até a dizel-o a uma
das companheiras.
--Vês aquelle rapaz, o filho do José Portugal, de Villalva? disse-lhe.
Quando eu passo, olha muito para mim.
--É bem rico, quem dera! respondeu a companheira.
Calaram-se. A Conceição não adiantou conversa, um pouco arrependida da
indiscrição. Gostava d'elle, e, se ia só, ao passar em frente da botica,
punha os olhos no chão e os passos embaraçavam-se-lhe.
Por seu lado, Claudio soffria o mesmo embaraço. Que fazer? Seguil-a? Mas
ella não olhava para elle; a imaginação representava-lhe a resposta
avessa com que seria repellido e o golpe que o seu coração soffreria.
Depois, seria uma troça do boticario, do administrador, do escrivão... e
elle gostava d'ella, não podia consentir gracejos sobre uma cousa em que
o seu coração era parte. Escrever-lhe? Responderia ella? Estavamos no
mesmo caso. Ia rir-se com as companheiras e d'ahi a dois dias andaria a
carta em todas as mãos. Ainda era peior do que fallar-lhe.
Uma vez chegou a trazer a melhor rosa que encontrou no jardim para lh'a
offerecer. Em logar de ir á botica, passearia e encontral a-ia em baixo,
fóra da villa; ahi ninguem o via, o caminho é deserto, e fosse o que
fosse poderia fallar-lhe sem maior perigo.
Foi. Na sua impaciencia, saiu cedo. Quando chegou á fonte, ainda não era
sol posto. Começou a subir a encosta que liga a fonte com a villa; onde
o caminho é menos devassado, n'uma curva, sentou-se sobre um muro,
esperando a Conceição. O coração batia-lhe ancioso; pela imaginação
passavam-lhe mil devaneios. Com que palavras começaria? Estava quasi
arrependido. Para que se mettia elle n'aquellas cousas? Fugiria? Tambem
não, era fraqueza. N'isto, n'esta oscillação entre o amor e a timidez, a
Conceição appareceu com as companheiras habituaes Não lhe podia fallar.
Para Claudio era um allivio, libertava o d'uma situação afflictiva.
Levantou-se e dirigiu-se á botica.
--Muito tarde, hoje, sr. Claudio, disse o boticario.
--Demorei-me um pouco, respondeu laconicamente.
Ainda bem, pensou, que a penumbra da baiuca encobria o rubor que lhe
viera á face quando o boticario lhe fallou.
Não tardou porém que os seus desejos fossem satisfeitos. Uma tarde
demorou-se na botica e, ao voltar a casa, fez caminho por Villar.
Em boa hora!
A Conceição passava, atravessando a rua para casa d'uma visinha.
--Muito boa noite, meu amor.
--Muito boa noite, sr. Claudio.
--Por aqui, sem medo, a estas horas?
--Ninguem me rouba.
E a conversa continuou ligeira e alegre.
D'ali por deante já Claudio não receiava dirigir-se-lhe, estava certo do
amor da Conceição. Dentro em pouco havia hora aprazada para se
encontrarem.
Esses amores duraram dois annos e foram castos e puros. A Conceição era
para Claudio um culto; tocar-lhe era maculal-a, era destruir o que
n'ella havia de sagrado, a melhor fonte d'amor. As suas cartas respiram
a mais estremada candura. De Coimbra escrevia-lhe:
Querida Conceição
Escrevo-te hoje para te mostrar toda a tristeza em que tenho andado.
Desde que vim, nunca mais tive alegria, nem a terei emquanto não voltar
para ao pé de ti.
Por muito que procure distrahir-me, trago sempre comigo a mágoa de não
te vêr. Só para o natal ahi voltarei. Terei paciencia que outro remedio
não tenho.
Queria ter ao menos a alegria de te fallar um instante mas isso não póde
acontecer. Tu nunca aqui vens e eu não posso sair d'aqui.
Lembro-me de que estou longe de ti e a tristeza não me deixa, porque te
adoro de todo o meu coração e serei até á morte
o teu
_Claudio_
Não podia supportar esta singeleza o rapaz de vinte annos, que do
materialismo positivista tinha passado ao naturalismo na litteratura e
lia agora Zola, deliciando-se no exame das baixezas humanas, sem
attentar no que ellas encerram de grandioso e dramatico, ainda mesmo nos
seus aspectos infimos.
O falso conhecimento das sciencias naturaes, consideradas
superficialmente, junto ao vigor, nunca isento de brutalidade, de gente
moça, haviam necessariamente de dar em resultado o desprezo da castidade
e da pureza que d'ora em diante passariam a cognominar-se ridiculo
sentimentalismo.
Por outro lado, a forma impressa na infancia á sua alma permanecia e
permaneceria como o verdadeiro fundamento da sua natureza; a piedade
christã, embora sob aspectos differentes, seria sempre uma fonte
abundante e inexgotavel de idealismo.
Claudio não attingia a contradição intima entre a sua alma e as
doutrinas aprendidas nos livros e nas palestras com os camaradas da
universidade. Não eram as mulheres simples objectos de amor sensual
atravez do qual a natureza assegurava a conservação e a propagação da
especie? Fóra d'isso, tudo era doença, romantismo archaico ou timidez
pueril.
E todavia não supportava sem um fremito de repulsão a lembrança de que a
sua amada, um anjo que a aureola dos anjos envolvia, havia de desfazer
em brutal sensualidade a frescura do seu rosto semi-divino e o meigo
riso, irisiado de cores mimosas, que desabrochava nos seus labios como a
rosa entre o orvalho da manhã.
Ignorava a contradição, parecia-lhe apenas inconstancia, que não
desejava e queria todos os dias a mesma cousa; tomava estas fluctuações
á conta de fraqueza do proprio animo.
Por fim, resolveu acabar com uma situação aos seus olhos ridiculamente
inconfessavel. O que?! Amar uma mulher só para lhe dizer palavras doces,
olhar para ella, contar-lhe o que se fazia em Villalva, ouvir a que
horas ella ia á fonte e a que horas lavava a roupa?! Não era um homem!
Não se atrevia a ir mais adeante, não queria tomar as responsabilidades
do descredito d'uma rapariga? Por si não se importava com essas
pieguices da aldeia, mas a mãe com certeza não gostava, iria magoar-se
com o seu proceder. Elle tambem... não gostava; repugnava-lhe, embora as
doutrinas que aprendera em Coimbra lh'o admittissem. Precisava fallar
com franqueza á Conceição.
Uma manhã, em que ella tinha de vir a Alcofa, foi encontral-a na estrada
e conversaram de pé, á sombra d'uma oliveira.
Eram oito horas; dos montes requeimados reflectia se um sol penetrante,
na atmosphera quieta das varzeas o arvoredo esperava sequioso que a
briza do norte viesse beijal o, um calmo torpôr invadia toda a natureza.
Claudio sentia-se mal, sentia-se fraco; talvez d'aquelle calor, pensava,
mas na realidade a agonia vinha-lhe do coração, da vaga consciencia de
que ia quebrar uma urna de affectos limpidos e sãos cujos pedaços jámais
poderia soldar e cujo licor sagrado para sempre se perderia no pó em que
tão impensadamente o derramava.
Aquelle momento havia de lembrar-lhe, muitos annos depois, com um
arrependimento lancinante quasi com remorso.
A Conceição veio alegre e risonha, como de costume, entregue sem reserva
á alegria de vêr o seu Claudio; elle opprimido.
Com um miraculoso poder de sympathia que tudo adivinha, a Conceição
perguntou-lhe immediatamente:
--O que tem? Vem hoje tão triste!
--Tenho a dizer-te uma cousa que te vae fazer chorar, mas é preciso que
t'a diga. Isto não póde continuar, disse Claudio brutalmente. Olha,
Conceição, meu pae nunca consentiria que nos casassemos e então para que
hei-de enganar-te? Hei-de ser sempre teu amigo, mas por isso mesmo não
quero prejudicar a tua felicidade. Não te faltam bons casamentos, pódes
ser ainda muito feliz. O mal é para mim que vou perder-te.
A Conceição chorava de dôr e de surpreza; nada sabia dizer.
Se era por ella ter feito algum mal, que lh'o dissesse, que não podia
ser senão intriga; que só pelo amor que lhe tinha lhe custava
deixal-o...
Claudio porém insistiu no proposito de terminarem as suas relações e
apartaram-se, ella banhada em lagrimas, elle cruelmente alliviado por se
libertar d'uma situação que começava a pesar-lhe.
No fim d'um anno a Conceição casava com um carpinteiro. Passa ás vezes
na villa, o cesto á cabeça, quando leva o jantar ao marido, o farto
collo a entrevêr-se pelo chambre desabotoado no pescoço para respirar na
pesada atmosphera do estio. Claudio via-a, contente por se convencer de
que os amores idyllicos não tinham sido estorvo á sua felicidade. Um dia
a veria com saudades da ventura que perdera!
N'estes errores do espirito se consumiram os cinco annos que Claudio
passou em Coimbra; ao fim d'elles era necessario voltar a Villalva.
O problema da sua existencia apresentava-se-lhe cada vez mais urgente,
cada vez mais confuso, a alma dilacerada entre os impulsos mysticos que
vinham da sua primeira infancia, as instigações do espirito inquieto por
uma sciencia estreita e incompleta e vagos ardores de mocidade que o
aconselhavam a calcar sciencia e mysticismo e entregar-se sem reserva ás
expansões do instincto. Que fazer?
Poucos mezes depois de regressar a casa, vieram o administrador do
concelho, o reitor do Ervedal, o prior de Villar, o regedor do Sabugal e
o Rodrigues, grande influente nas freguezias da serra, convidal-o para a
presidencia da camara.
Diziam-lhe que a eleição era segura, por esse lado nada tinha a receiar,
ninguem lh'a disputava, mas, quando a disputassem, estava alli força
sufficiente para a vencer, pois que os homens que alli via representavam
mais de dois terços da votação de todo o concelho.
Tambem não faziam questão de lista, elle escolheria os collegas que
quizesse; o que desejavam era um homem sério e capaz, porque não
imaginava o que ia na camara. Uma ladroeira! Traziam toda a sorte de
vadios a receber por conta do cofre municipal e até se dizia que o
presidente estava alcançado.
--Dizia! Era certo, accrescentava o reitor do Ervedal. Ainda ha pouco,
quando foi obrigado a entrar com a receita da viação, teve de pedir
oitocentos mil reis ao José Maria, das Aranhas, e hypothecou-lhe a terra
da Preza.
Claudio defendia-se; que estava muito novo, queria estudar e não se
mettia em politica. Tudo intrigas, tudo dissabores!
--Não era politica, replicavam-lhe, era um serviço que prestava ao
concelho. Visse o que o pae tinha feito na junta de parochia. Nas obras
do cemiterio deixava tudo para estar ao romper do dia ao pé dos
trabalhadores. Poupou muito dinheiro á freguezia com o seu zelo e a sua
economia, e prejudicando-se porque para isso tinha de deixar a sua vida.
Agora elle que era um rapaz formado e rico!... Até o entretinha! Que
fazia alli, sempre agarrado aos livros?...
Depois... precisava pensar, em tres dias responderia
definitivamente,--foi a evasiva com que Claudio se libertou dos seus
interlocutores que começavam a fatigal-o com rogos e instancias.
Ao fechar a porta, recolheu murmurando:
--Pois sim! Contem com isso, não me faltava mais nada do que metter-me
n'essa vinagreira.
O seu proposito de recusa era formal, mas temia o desgosto do pae que
adivinhava de opinião differente. Só perante este queria desculpar-se,
porque para os outros a resposta estava feita.
Consultou-o. Com grande surpreza sua viu que não o animava. Que não se
illudisse, dizia-lhe, já sabia muito bem o que era tudo aquilo. Todos os
que alli vieram tinham as suas pretensões; não o queriam na camara senão
para as satisfazer. Bem se importavam elles com as cousas do concelho!
Cada um cuidava de si, da sua fonte e da sua estrada. Quando esteve na
junta, o Mattos, da Azenha, ficou de mal com elle porque não lhe mandou
compôr o caminho do Freixial. Queria que lhe fizessem estradas para as
suas quintas e não se importavam de mais nada! Tambem lhe não
aconselhava que recusasse; um homem precisa servir para alguma cousa.
Mas se imaginava que nos cargos publicos havia só honra e gloria, estava
muito enganado; trabalhos e desgostos é que lá encontraria.
No fundo desejava que o filho acceitasse, considerava como um triumpho
para a sua vida a situação de Claudio; mas já velho, conhecendo o mundo
e amando o filho, invadia-o o desprendimento das vaidades e o egoismo do
repouso, não se atrevia a aconselhar uma vida de inquietações.
Claudio, percebendo a hesitação do pae, recusou, e este, quando mais
tarde foi prevenido pela mulher da resolução do filho, respondeu:
--Não está para os aturar. Faz muito bem. Tem que comer e quer viver
descansado.
Não passavam porém sem deixar vestigios estes incidentes. Que fazer? que
fazer? Não era a vida qualquer cousa que elle tinha obrigação de
aproveitar em beneficio dos outros?
Toda a hypothese de solução, ainda que ephemera, fazia reviver o
problema. Bastava uma proposta dos politicos da villa para que comsigo
trouxesse longas meditações sobre a escolha entre uma vida d'acção e uma
vida de estudo e meditação.
Os dias corriam longos entre o fastio dos livros, por uns vagos desejos
da acção, e o desgosto da acção, por uma interior necessidade de
recolhimento. Amores não os havia profundos, que este estado tudo
turvava e embaraçava, só a duvida imperava dissolvendo e quebrando toda
a energia e todo o movimento salutar e espontaneo.
Necessariamente haveria remedio para esta situação.
Era preciso procural-o no estudo, deveria estar n'esses montões de
livros que se lhe accumulavam sobre a mesa.
O melhor era estudar, mas d'esta vez com methodo e conforme os bons
principios, que nem os padres nem os lentes da Universidade lhe tinham
dado instrucção aproveitavel. Começava-se pela mathematica e seguia-se
pela physica, pela chimica, pelas sciencias naturaes, a terminar na
historia, nas sciencias sociaes, nas bellas artes e na litteratura.
Quando tivesse levado a cabo esta empreza, então poderia fazer alguma
cousa com plena consciencia.
E a pequena sala de Villalva encheu se de estantes de livros, de
retortas e de apparelhos estranhos que a rude gente da aldeia olhava com
curiosidade e desconfiança.
Não podiam porém varrer-se n'um dia os velhos habitos, mórmente no
proprio local em que se tinham creado; não podia supportar o estudo
aturado aquelle que fôra educado na liberdade dos campos e nos prazeres
da vida rustica.
Claudio sentia-se fraco, incapaz de levar a cabo a sua empreza com a
tenacidade que ella, no seu entender, reclamava; aborrecia-se do estudo,
a cada passo trocava a leitura dos livros de chimica por um romance ou
por um trecho poetico, vinha á botica saber dos namoros das raparigas e
dispendia longas horas em um novo jardim que fizera no cerrado, á
entrada da aldeia, onde o pae cavára uma cisterna e tinha a eira e os
abrunheiros. Era quasi um escandalo. Que rapaz aquelle! Não fazia nada,
ninguem sabia o que elle queria, alli mettido com os livros.
O regedor passou uma tarde de maio em que Claudio com uma thesoura
limpava as roseiras dos pedunculos das flores desfolhadas.
--Tenha v. ex.ª muito boa tarde, disse-lhe.
--Ora viva o sr. regedor! Então como vae?
--Obrigado, como velho.
--Por aqui está a passar um bocado de tempo?
--É verdade.
--Tambem não sei que gosto é este. Ainda se fossem cousas que déssem
fructo... mas a modo que não vejo por aqui senão estas ameixieiras.
--Eu gosto d'isto, respondeu Claudio já com certo fastio da conversa.
O regedor fez uma pausa e, bem ruminado o pensamento, exclamou:
--E a respeito de advogar, nada?!...
Foi a voz do povo, toda a aldeia assim pensava; não comprehendia aquelle
viver mysterioso, aquella inercia, aquella ausencia de vulgares ambições
mundanas.
O pae de Claudio tambem não estava contente, sonhára o filho dominador e
poderoso, e via-o recolhido, calado, indifferente.
--Elle lá sabe! pensava comsigo.
Os camaradas de Claudio que tinha conhecido quando ia a Coimbra
levar-lhe a mezada, diziam que elle era muito intelligente. E depois era
rico, podia fazer o que quizesse...
Não queria metter-se em politica? Talvez fizesse bem. Para que? Para lhe
gastarem dinheiro e no fim dizerem mal d'elle. Lembrava-se do que
passára na junta de parochia, das ingratidões e desgostos que soffrêra.
--Elle lá sabe, elle lá sabe...
Era assim que concluia sempre as suas reflexões, continuando no trabalho
como se não fosse rico, tal qual nos tempos em que todas as suas
ambições se limitavam a ter mais uma junta de gado.
Demais, sentia-se muito cansado para vêr sem indifferença as cousas
d'este mundo. A cada instante, nas palestras em que ficava ao domingo
depois da missa, no adro da egreja, com os magnates da freguezia que o
ouviam como a homem de muito juizo, dizia:
--Estou com os pés para a cóva.
--Ora deixe lá, está novo ainda para gosar esta vida. Os filhos ricos,
agora é que é viver!
--Eu cá me sinto, respondia.
E ficava a scismar n'um abatimento, n'uma fadiga que o opprimia e que
tinha como prenuncio de curta duração.
Não se enganava. No mesmo anno em que Claudio viera de Coimbra, o pae
soffreu um ataque de _grippe_. Tinha ficado muito fraco; durante muitos
dias arrastou-se pela lareira e pela sala, quasi sempre sentado,
somnolento, caindo bastas vezes em prostração. O medico vinha vel-o,
desconfiando d'aquella moleza, e um dia em que elle se queixou de que os
pés lhe inchavam, auscultou-o.
--Ha alguma novidade? perguntou-lhe Claudio que o acompanhou até á porta
do pateo.
--Parece haver ali qualquer embaraço de circulação, respondeu o medico
com um gesto de descontentamento.
O velho ao fim d'um mez parecia restabelecido, sómente um pouco mais
lento no trabalho. Esta fraqueza, esta fraqueza... Isto vae mal, dizia
ás vezes. Mas a continuação dos seus lamentos sem symptoma de molestia
notavel acabou por convencer a familia de que não havia perigo
imminente. Assim se passaram cerca de dois annos depois do ataque de
_grippe_ em que o medico confessára as primeiras suspeitas.
Uma tarde, ao recolher a casa, disse á mulher:
--Andei a podar as pereiras e vi geitos de lá ficar. Deu-me uma tontura
que, se não me encosto a uma arvore, caia. Isto vae mal!...
Mas a mulher não deu grande importancia ao succedido. Seria fraqueza.
Elle tambem não comia nada... disse-lhe. Sempre aquelle fastio... Era
preciso chamar o medico a ver se lhe receitava alguma coisa que lhe
désse apetite.
Alguns dias depois, já quasi esquecido aquelle breve incidente, o pae de
Claudio deitou-se á hora habitual e adormeceu. O filho estava ainda para
a villa, a mulher ficára a costurar e o creado preparava as estacas para
a vinha. Estavam em fevereiro, as noites eram longas, ainda se fazia
serão. De repente, da alcova em que o velho dormia, veio esta voz
angustiada:
--Carmo, Carmo, acode-me, estou muito afflicto.
Ella correu ao quarto.
--Olha, disse elle, vê se me ajudas, quero levantar-me, falta-me o ar.
Lançou-lhe o braço pelas costas, a mão apoiada no hombro, e, quando
procurava erguer-se, tombou sobre élla, com todo o seu peso, morto, a
cabeça pendida sobre o peito.
Para Claudio a comoção foi extraordinaria. Agora, perante os restos
inanimados que tinham sido d'aquelle que mais respeitára, via em toda a
luz o que significava uma vida de honestidade e de trabalhos, a riqueza
e a ordem que em volta de si derramara durante tão longos annos. Para
aquelle não tinha havido hesitações e o triumpho fôra completo;
augmentou os bens, serviu os seus e os estranhos, toda a existencia foi
um combate com a natureza, com os homens, com os acasos do destino. Os
braços cairam de fadiga, mas o animo não esmoreceu até ao derradeiro
alento. Quem lhe déra ser assim!...
Para isto, para estas reflexões, não precisava dos livros, nem leituras
nem sabios o inspiravam; o pensamento vinha-lhe do coração, espontaneo,
brotando da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez fosse vão
todo o caminho andado, tempo perdido o que gastára á procura da verdade,
folheando com avidez os tratados de philosophia d'esses homens que
diziam serem os mestres da humanidade!
O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, cada vez mais
instante, aggravado pelas muito particulares circumstancias que a morte
do pae trouxera. Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior que a
toda a hora lhe eccoava no peito.
Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se a um modo de cousas
transitorio. Considerara a herança do tio como fortuna do pae e não
consentiu que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente
com as flores e os livros, ora no seu jardim, ora na sala alumiada e
silenciosa do modesto casal de Villalva, ora nas palestras da villa, ora
em solitarios passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando e
estudando, quando não se quedava a fallar com a gente do campo,
interrogando-a sobre os seus rebanhos e as suas lavouras. Estudava
agora, depois decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os
livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel de tudo aquillo
e advinhava em si, sem as poder definir, outras ambições, outras
esperanças, outros desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae
vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus bens.
Hoje as circumstancias são differentes. Passados os primeiros dias de
mais pungente saudade, começa a pensar, com um firme proposito de
resolução, no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com vinte e
quatro annos, que iria fazer da mocidade e da fortuna? Ficar ali?
Era um convento, uma vida estreita, e os livros com que se tinha
aconselhado diziam-lhe que a existencia era uma lucta, o ascetismo uma
doença, e a expansão de todas as forças, de todos os apetites e de todas
as paixões uma lei natural, porventura a condição do vigor e da saude. O
luxo e todos os seus prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso
offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo; eram vencidos,
seres inferiores que o progresso da especie exigia que se consumissem na
miseria. Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente sentia-se
inclinado á piedade, á modestia, á doçura e á tranquillidade? Vicios
hereditarios, casos atavicos, que a regra era luctar, o signal de
superioridade vencer.
Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito mal, sem commodidades e sem
conforto, que queria frequentar mais assiduamente algumas relações que
deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer em Albergaria,
d'onde mais facilmente poderia sair.
Demais, pensava em fazer uma longa viagem que era necessaria para se
instruir; custava-lhe deixar a mãe em Villalva, entre uma gente
estupida, sem recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse
n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se do que acontecera com a morte
do pae; por pouco deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.
A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na sua simplicidade, tinha
imaginado que tudo estava muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de
boas teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do mundo, não o
considerava ella como supremo favôr de Deus e premio do ardor com que
lhe orava? Isolamento não o sentia, que as horas eram poucas para o
trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. Tambem não
comprehendia a falta de recursos; a doença e a morte vêm quando Deus
quer, não temos mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a Claudio
convinha sair d'ali, fizesse como melhor fosse para elle. Vivera sempre
para os outros e agora que já não tinha marido nada lhe custava obedecer
ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam limites n'aquella
alma.
Claudio começou pois a cuidar com impaciencia da sua nova installação.
Arrendou um palacio, á entrada da villa, do lado do poente, com pateo
nobre, escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas janellas
saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim e pomares. Tinha sido,
segundo se dizia, dos duques d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento
rico de Coimbra que o arrendava barato porque não o queria improductivo,
não queria, na sua expressão, cavallos d'estado.
Vieram moveis caros, louças da India, quadros, bronzes e damascos,
comprados nos bazares de Lisboa por onde Claudio andou em companhia d'um
antigo amigo e condiscipulo que era de gente fina e muito entendido em
_bric-à-brac_. Veiu tambem um _landau_ e dois grandes cavallos francezes
que tinham pertencido a um negociante que se arruinára em fundos
hespanhoes.
--Pechincha! dizia-lhe o amigo. Isto que aqui vês por um conto e
duzentos, custou mais do dobro. A carruagem é de Binder, os cavallos
estão novos e os arreios são magnificos! O pobre homem vendeu a medo,
envergonhado; se os tivesse annunciado e esperasse, era impossivel que
não encontrasse quem lhe desse mais.
Gastaram-se n'esta primeira installação uns oito contos de réis dos doze
que o José Portugal tinha deixado em Coimbra, á ordem do filho, em casa
d'um commerciante da Praça Velha, que lhe cobrava os juros das
inscripções e recebia as rendas que vinham do Minho. O velho, na sua
escrupulosa honradez, pensava sempre em não prejudicar o filho em
proveito proprio ou em proveito da filha casada. Por isso punha de parte
aquillo que em sua consciencia entendia sobrar dos rendimentos da
herança.
--Lá lh'o deixo, pensava, elle lhe dará a applicação que quizer. Não lhe
hão-de faltar terras para comprar. Está ahi a casa do fidalgo que, por
morte d'elle, se vem a vender toda. Já não podem com dividas.
Foi o amigo de Claudio, Jorge de Castro, quem veiu mobilar-lhe a casa.
Não havia que fiar em estofadores. Um dinheirão e tudo sem gosto! Ainda
ha pouco vira na Avenida a casa do Antonio Ferreira, um negociante da
praça que enriqueceu com a alta da borracha. Pagou mais de trinta contos
ao Gaspar e não tinha um cantinho que se diga: benza-te Deus. Muita
seda, muitos dourados, uma caixa de amendoas! Emquanto o José de
Menezes, que se casou ha pouco, com um conto e quinhentos poz a casa
como um brinco. A sala de jantar pouco mais tinha que a meza, uma
credencia, velha baixela de estanho, meia duzia de cadeiras, suspensa do
tecto uma lampada de bronze e nas paredes quatro prateleiras com pratos
de Wedgwood, brancos, na sua brancura leitosa, de leite a desnatar n'um
fundo escuro e mate.
--Original! concluia Jorge.
Aquelles objectos pareciam que tinham acabado de servir e que a todos os
instantes estavam em movimento. Davam uma expressão de vida que os
armadores de profissão desconheciam. Que barbaridades iam por essas
casas de Lisboa! Havia-as armadas em capellas, com muitos pannos, papeis
dourados, jarras de porcelana, flores artificiaes e castiçaes de prata;
havia as armadas em tumulo, todas em estuque brilhante e frio; e
havia-as tambem, de amadores improvisados, armadas em museu onde os
moveis, aliás ricos e ás vezes de grande valor, se accumulavam sem
relação, sem parentesco que os ligasse. Se lhes pozessem rotulos e
preços, a loja era completa. O Menezes não; tinha muitissimo gosto. E
sabia comprar: aquella sala de jantar não lhe custou talvez duzentos mil
réis.
Claudio comprehendia mal a lição do amigo e estranhava o calor com que
lhe era dada; no collegio nunca ouvira fallar de estofos e mobilias, em
Coimbra vivera retirado de elegancias e em Villalva trabalhava-se de sol
a sol; a mais brilhante peça da casa era a enxada polida entre os seixos
da serra. Soubera pelos livros que a arte era a corôa da educação d'um
bello espirito e queria-a tambem como tudo o que aos olhos da propria
consciencia podesse engrandecel-o; mas outras eram as suas preoccupações
interiores. Havia de aprender com tempo e paciencia, quando tivesse a
sua vida mais assente. Não tardaria, pensava; tinha uma casa commoda e
de bom gosto, o estudo havia de aproveitar-lhe melhor sob impressões
deliciosas, os progressos seriam rapidos.
Não o pensava egualmente a mãe, abatida com tamanho encargo, a casa, as
salas e os creados. Suspirava pela paz laboriosa de Villalva, baixinho,
em silencio, não fosse o filho ouvil-a e desgostar-se com as suas
saudades.
Estabeleceram-se novos costumes em conformidade com a nova vida, almoço
ao meio dia, jantar ás seis horas, as manhãs para o estudo, as tardes
para os negocios da casa, visita ás propriedades e passeios de
carruagem, as noites... oh! as noites eram realmente um grave embaraço.
A botica enfadava, era mesquinha com a sua baixa e insalubre
curiosidade; o jogo era para velhas, um estupido brinquedo; em casa, o
estomago pesado, frente a frente com a velhita, o tedio era extremo. De
resto, ella gostava de fazer serão ao pé das creadas, na cosinha, com a
sua velha rocca á cinta, fiando o linho de Villalva. Chegando áquella
hora, Claudio não sabia onde se refugiasse.
Valia-lhe ás vezes Coimbra, alguma noite no theatro, onde por accaso
encontrava quem lhe fallasse de Flaubert, de Zola, de Comte ou de
Spenser, as grandes preoccupações de seus estudos. Mas isso mesmo era
raro porque, nos cinco annos que lá tinha estado, levára uma vida
bisonha, retrahida e poucas relações deixára.
D'esse tempo ficaram-lhe apenas dois amigos; Jorge de Castro, que ha
pouco encontramos em Lisboa, aconselhando-o na installação do palacio de
Albergaria, e José d'Albuquerque que mais tarde nos vae apparecer
intimamente ligado á vida de Claudio.
Ambos esses amigos eram fidalgos de nascimento e de habitos. Fôra
curiosa a maneira porque entre elles e Claudio se creára um profundo
affecto, apezar das tendencias e da origem plebeia d'este ultimo.
Claudio passeiava habitualmente só. Vinha porém todas as tardes a uma
livraria da baixa, na Calçada, procurando com avidez as novidades
litterarias chegadas de França e prescrutando, entre os livros alinhados
nas prateleiras, o caminho a seguir na sua ancia de saber. Era ali que
invariavelmente encontrava Jorge de Castro e o Albuquerque, propensos
como Claudio a cousas litterarias. D'este modo, por este unico laço,
começou a constituir-se essa amisade que a uniformidade de sentimentos e
de nobreza d'alma consolidou no futuro. Findo porém o tempo escolar,
Jorge fôra viver para Lisboa e em Coimbra só ficára o Albuquerque, em
casa de quem Claudio raro apparecia emquanto estudante, porque todo o
apparato de luxo que encontrava brigava com os seus habitos e a sua
educação.
Agora que mudára de ideias e de aspirações, aproveitava a hospitalidade
do amigo, para desenferrujar a lingua, dizia, que era uma necessidade
permutar ideias.
Nem assim, com todo este complicado artificio, podia conformar-se com a
vida de estudo que architectara. Ás vezes possuia-se d'um invencivel
fastio dos livros e corria ao jardim, plantando, regando, limpando as
arvores e as flôres, voltando instinctivamente aos bons habitos da sua
educação.
O jardineiro, que contractára em Lisboa, corria logo, que não se
enxovalhasse s. ex.ª, elle faria o que quizesse.
Claudio desculpava-se; era para se entreter, que lhe fazia bem á saude.
--Ora essa! dizia o saloio com espanto e admirando a pericia do senhor.
Já tinha tido um patrão que tambem fazia o mesmo, o seu gosto era andar
a tratar do jardim, mais era um grande fidalgo, empregado no paço da
Ajuda, muito amigo do sr. D. Luiz!
O estudo não o satisfazia. Foi a conclusão a que Claudio chegou no fim
d'um anno de residencia em Albergaria.
Talvez questão de ambiente, falta de incitamento pela ausencia de
camaradagem adequada... O melhor era a experiencia, o conhecimento
directo das cousas e dos homens, sair d'alli, vêr o mundo, os grandes
espectaculos da vida, do trabalho, da arte humana e da natureza. Ainda
sobrára alguma cousa do mealheiro que o pae lhe deixára, iria correr a
Europa.
Começaria pela Hespanha, pelas margens do Mediterraneo passaria a
Italia, regressando iria á Suissa, d'ahi pela Allemanha a Moscow,
voltaria pela Suecia, pela Dinamarca e pela Hollanda, iria a Pariz e a
Inglaterra. Nem valia a pena fazer planos! Dirigir-se-ia a Pariz e faria
alli quartel general, centro de todas as excursões.
Escreveu a Jorge, communicando-lhe o seu plano, dando-lhe conta da
morosidade com que o seu estudo proseguia e da maneira por que pensava
em adeantal-o rapidamente com uma longa viagem.
Veria agora a velha Europa, os paizes de mais antiga civilisação, e
ficariam para successivas jornadas o Oriente e a Grecia, a India, o
Japão e a America do Norte.
O amigo applaudia. Quem lhe déra poder fazer o mesmo! Mas tinha casado
cedo, não podia levar a mulher e os filhos, custava-lhe deixal-os, era
contentar com a sua sorte. Passava o verão com a mãe em Loures, o
inverno em Lisboa, e as suas viagens duravam habitualmente um dia, dois
ou tres em casos muito excepcionaes.
Em Santarem, onde fôra com o Antonio de Mello e o Carlos d'Azevedo,
gastára um dia, a jornada a Evora durou tres dias mas já não parava com
saudades de casa, como quando veio a Albergaria, onde recebia cartas da
mulher que eram um sermão de lagrimas.
Tudo tinha compensações, dizia afinal; se elle, Claudio, tinha a inteira
liberdade de dispender o seu tempo e o seu dinheiro, podia instruir-se e
alcançar uma vasta instrucção, elle, Jorge, tinha os carinhos constantes
d'um lar amado e alegre. Não era aquillo aconselhar-lhe o casamento. Que
se instruisse agora, que aproveitasse, e a seu tempo lá chegaria.
Claudio partiu em abril e jornadeou até ao fim de outubro com uma
impaciencia desusada. Não parava em parte alguma, com sêde de
impressões, uma embriaguez de aspectos desconhecidos propria de quem
fôra creado em horisontes estreitos.
Museus, monumentos, costumes, paysagens, tudo observava, registando na
lembrança conhecimentos novos.
Ás vezes deixava-se possuir d'um extremo cansanço, tinha saudades da sua
terra, parecia-lhe que cousa alguma valia tanto como a paz de Villalva e
até a imagem da sua Conceição d'outros tempos lhe passava meigamente
pelos olhos. Fadiga! Eram momentos passageiros; com esforço e tenacidade
juntaria larga copia de conhecimentos, em casa, no socego do seu canto,
havia de digerir toda aquella massa informe, havia de dispol-a em
theorias e systemas, e então o saber seria completo e o estudo deixaria
de o enfadar.
Uma tarde, na Flandres, teve uma visão que lhe ficou de lembrança. Saira
de Gand, de manhã, a vêr uma propriedade modelo que tinha tido o
primeiro premio no ultimo concurso e, já proximo do pôr do sol, esperava
o comboio n'uma estação de aldeia. A gare estava deserta e silenciosa;
em volta os campos verdes e planos, emoldurados em altas sebes de
choupos que oscillavam ao vento brandamente; raros casaes dispersos; em
frente a casa d'um lavrador, uma velha á porta, fiando na roda, á
maneira do norte, e ao pé uma creança recolhendo as gallinhas ao
poleiro. Que seria da familia? Andava nos campos, certamente.
Em casa ficaram os velhos e as creanças fazendo o pouco trabalho de que
eram capazes. Talvez alli estivesse a suprema sabedoria. Que andava elle
a fatigar-se com vãos estudos? O mais sensato seria voltar a Villalva,
casar-se e trabalhar; fazer como aquelles que alli via. Uma pungente
saude acompanhando o sentimento da inamidade de toda a sua vida lhe
apertou o coração e os olhos humedeceram-se n'um movimento de desalento
profundo.
Pariz apagava essas impressões fugitivas; desfaziam-se rapidamente na
sua atmosphera de luxo, de prazer, de epicurismo.
As theorias materialistas aprendidas nos livros confirmavam as
instigações dos sentidos. Claudio convencia-se de que a verdade era a
riqueza e o progresso dos gozos e das commodidades. A lucta pela vida
reduzia-se á expansão naturalista, á conquista dos regalos do corpo. Que
mais poderia significar? Que valor poderia ter o sacrificio pelos
outros? Não lh'o encontrava, de facto. Talvez utilidade social... mas
isso era uma cousa vaga, indefinida. Guia seguro só a expansão do
individuo, a satisfação dos seus appetites; o resto, preoccupações
moraes, eram vicios hereditarios, remanescente d'um estado metaphysico
que a sciencia condemnava.
E n'estas idéas voltava em fins d'outubro a Albergaria, com um
scepticismo convencional, mal ajudado pela experiencia do luxo dos
hoteis caros das cidades, e sempre em contradição com constantes
inclinações interiores para outras e mais altas paragens.
Os primeiros dias que seguiram o seu regresso foram para ouvir a mãe e
visitar as terras. A mãe contava-lhe ingenuamente o que se passara na
sua ausencia; as colheitas tinham sido boas, regular anno de vinho e
abundante de milho. Não chegaram as vasilhas da adega, mas, como o filho
não estava, não quiz sem consentimento d'elle comprar novos toneis e,
para o que faltava, pediu-os emprestados. Encheu-se tudo o que havia em
casa e mais duas vasilhas de noventa almudes que se pediram. Se o preço
fosse bom, era uma riqueza. Iam agora começar com a azeitona. Tambem não
era mau anno mas o feitor dizia que não passaria de metade da colheita
anterior. Os creados é que muito lhe custavam a supportar, sempre com
intrigas, com invejas, trabalhando pouco e exigindo muito.
--Grande náo, grande tormenta, dizia lembrando-se com saudade dos tempos
de Villalva e do socego em que lá vivera durante quarenta annos.
Claudio ouvia com interesse as palavras da mãe. Involviam-lhe o coração
n'um alento d'amor que ha muitos mezes desconhecia; todo se entregava a
esta caricia que recebia como uma benção. Demais, nunca tinha esquecido
a casa e as lavouras; os habitos da infancia arreigaram-se-lhe no
espirito, o ruminar dos bois, o latido dos cães e o murmurio do
arvoredo, todos os doces ruidos que acompanham a vida dos campos
tornaram-se para os seus ouvidos o mais mavioso dos córos cuja harmonia
lhe fazia esquecer o mundo e os homens para o confundir pantheistamente
no movimento da natureza. No eterno canto que da terra se desprende, a
sua alma vibrava unisona.
Por isso, voltando a casa, tudo corria e via, interrogando secretamente
esses queridos seres que ainda na mudez lhe respondiam. As folhas dos
platanos voavam já pelas ruas do jardim levadas no humido sudoeste que
ia trazer as primeiras chuvas do inverno, os loureiros começavam a
destacar negros entre os choupos amarellecidos, as aguas corriam livres,
á borda dos campos relvosos, frescos dos copiosos orvalhos do outomno;
abria-se a hora do recolhimento e da treva.
Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada a hora de recolhimento
no estudo, pelas noites de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto
ao fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado o espirito
n'esta atmosphera amiga, havia então de estudar e, alliando com as
leituras a recordação do muito que vira, as infinitas impressões que
armazenara na memoria durante seis mezes em que correra sempre, n'este
novo consorcio o estudo havia de ser captivante e util. Passaria ali o
inverno, todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois iria em
nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria na sua educação.
Os dias porém iam correndo, estavamos já em meiado de novembro, e os
livros trazidos de Paris jaziam intactos, em monte, a um canto do
gabinete, entre recordações de viagem, um punhal de circassiano comprado
em Tula, mosaicos de Florença e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de
começar como um estudante relapso; todos os pretextos lhe serviam, a
necessidade de frequentar o lagar que precisava reparação, as visitas a
antigos conhecimentos de Coimbra, um novo curral que construia em
Villalva, á maneira do que vira na Hollanda. Dissipava o tempo n'esta
inquietação, com um inconfessado temor dos enfados do estudo. Lia
desconexamente grande copia de romances, Bourget, Tolstoi e os russos,
cuja fama no occidente despontava a este tempo, mas os volumosos
tratados de sciencia e de philosophia continuavam esperando.
Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e dos seus prazeres.
Estudo, lavouras, deveres sociaes, destino da sua vida, tudo passava
então ao rol das phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna
regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? Não eram o seu
legitimo direito? Amar, beber, regalar os olhos e os ouvidos nas
maravilhas da arte, em artistica sensualidade, era o que lhe convinha,
era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe trazer em recompensa
o riso e a franca alegria de que tanto carecia e em que corpo e alma
haviam de expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra a
clausura.
E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões das almas simples; a
verdade era muito outra. Não tinha sido vão o baptismo nas aguas de
cynismo epicurista em que se iniciára pelos templos afamados da
devassidão cosmopolita.
Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia Emilia.
III
Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a
uma meza do _whist_, para ser agradavel ao juiz que sem isso se
aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz,
as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e
n'esta especie de reuniões, de fluente banalidade. Animavam muito,
dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o
sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem
interrupção. Á meia noite parecia haver certo cansaço, mas, como o
doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria
renovou-se.
--Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior é
ámanhã a _cabra_. Eu ainda não vi nem uma linha da lição. Provavelmente
já não me deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o que ha de ser
de mim!
Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via já ali correspondencia
amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:
--Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Coração
de Jesus. Não falte. Quero ver...
--Se eu poder... Queira Deus que não venha a cahir em férias de ponto!
Cerca das duas horas, o juiz deu a sua partida por finda e Claudio veio
então a uma janella respirar por um momento o ar fresco da noite e
repousar a cabeça aturdida pela immobilidade e pela attenção forçada.
O dr. Carvalho, vendo-o só, abeirou-se d'elle para o distrair.
--Tem-se aborrecido muito, não é verdade?
--Não!... Pelo contrario! Basta a travessura d'estas meninas para nos
communicar alegria. Esta D. Emilia, principalmente, é d'uma
vivacidade...
--Ah! muito galante!
--E fina...
--Parece incrivel que ella ainda conserve estas maneiras fidalgas, a
viver todos os dias com um homem d'aquelles!
--É grosseiro, o marido?
--Não imagina!
--Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um pouco amigo de vinho.
--Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca
vistas. Eu conheço perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um
condiscipulo meu que era muito lá de casa d'ella e creio até que ainda
parente.
E contou:
--Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando
constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito
fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo,
no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,--coitados,
não havia melhor!--viviam lá todo o anno, com excepção do tempo que
passavam na quinta do morgado do Véro que os convidava muito, para os
ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga,
morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, creio que já está
tenente, o outro que era um estroinão, foi para o Brazil, e esta, a
Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era
escripturario de fazenda e que só depois foi nomeado escrivão, por muita
instancia do morgado do Véro com o Marques Lino, deputado pela Louzã.
Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha lá de Lisboa, habituada a
muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se só, não tinha mais
ninguem que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes ainda se
oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança de lhe arranjarem um
casamento rico, mas começaram, com estas cantigas do costume, a
dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era o dinheiro que
fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava
doidinha de todo, lá se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora
o Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é sei-o eu, um
grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se
convenceu de que a protecção da familia da mulher ainda o podia levar a
escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se
então um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em
casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade
deante da mulher e dos filhos... É impossivel que esta mulher, para quem
manobrasse com arte... Deus sabe até o que ella terá feito por outras
terras!... porque não creio que ella com o genio desinvolto que tem e
vendo o que o marido é e como a trata...
--Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.
--Não... mas aquillo não falha. Estava bom para si que é novo e tem
tempo para essas cousas!
--Para mim?
--Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?
--Não são annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se
para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.
--Que boa aventura! pensava Claudio instantes depois, passeando a passos
largos no seu gabinete, de regresso de casa do dr. Carvalho.
Era o que lhe convinha; mulher bonita, graciosa, educação aristocratica.
Que desenfado para os seus ocios de Albergaria!
Ella era captivante, estava alli aborrecida, contrariada, o marido
desleixado, sempre pelas tascas, repellente para quem se mostrava de
habitos tão finos e sensibilidade tão delicada. Não devia falhar a
aventura.
Marcava-lhe prazos: um mez para conquistar a confiança de Emilia, mais
dois de correspondencia amorosa, ao terceiro a primeira entrevista e o
resto estava certo.
Era claro! Uma mulher casada sabia bem para que era que elle lhe fazia a
côrte. Não tinha a esperar casamento. Devia ser boa essa situação em que
nunca podia haver compromissos de futuro. E o marido? Com aquella
obesidade, calvo e de lunetas, não seria de temer.
Depois, tinha com certeza necessidade de dinheiro; não se mostrando
muito avaro, havia de o manter em boa disposição. Um achado, um achado!
O peior era a mãe; não havia de gostar, haviam de lhe produzir grande
impressão os amores com uma mulher casada. Coitadita! Não sabia o que
era a lei soberana da lucta pela vida. Por que privilegio aquelle
immundo bebado guardava para si uma deliciosa mulher?
Elle, Claudio, era novo, rico, agradava-lhe mais do que qualquer outro;
estavam no seu direito, haviam de amar-se livremente.
A natureza não conhecia fidelidades nem infidelidades; os seres
attraiam-se por selecção natural, não havia fugir á lei.
Demais, isto era uma aventura; se a velhita se mostrasse muito
contrariada, punha-se termo ao episodio. Nem a elle convinha
prolongal-o. Um anno, quando muito; na primavera seguinte, malas feitas
e a caminho do Oriente! Nada de se prender com pieguices; isso era bom
para os tempos em que ia ao Outeiro fallar com a Conceição e tinha
escrupulos de lhe tocar. Fôra bem tolo! Se fosse agora, o caso seria
outro. Já era tempo de ser homem.
Meditava todo o plano de campanha. No dia seguinte iria visital-a. Era
correcto. Continuariam a conversação da estrada de S. Braz, que ia em
bom caminho de intimidade, e não sairia sem deixar ajustado sob qualquer
pretexto novo encontro. Era preciso bater a caça sem cessar.
Os devaneios da imaginação amorosa prolongaram-se até altas horas da
noite. E adormeceu contente, nas suas risonhas esperanças.
Pela manhã dirigiu-se ao seu gabinete, para estudar como de costume!
Abriu um livro de botanica, mas não estava em boa disposição de leituras
scientificas.
Era melhor um livro de pura litteratura. O quê? Tourgueneff? Não; eram
tristes estes russos com as suas lamurias sobre a vida, sobre a miseria
e a dôr. Eram fracos; questão de clima, de lymphatismo e inacção forçada
pelos rigores da natureza. Com um sol tão lindo e o jardim como um
açafate perfumado de rosas e de lilazes seria barbaro embrenhar-se em
pensamentos sombrios.
Vejamos outro. Balzac? Tambem não; era uma obsessão de gente fallida,
credores e agiotas por todas as esquinas, outra especie de fraqueza, a
angustia da cubiça.
Outro ainda, vamos correndo a estante. Merimée! Ah! Merimée... este sim,
este era um homem são. Sceptico, dizem. Que importa? Não é o scepticismo
a verdadeira philosophia? Quem póde dizer-me o que é vicio e o que é
virtude? Phantasias! O que existe é a natureza humana com todas as suas
forças e a sua expansão. A harmonia ha-de sair da lucta, deixemos livre
o instincto.
Abriu as _Cartas a uma desconhecida_ e foi sentar-se proximo da janella,
comodamente estirado n'uma poltrona ingleza. De todo o jardim se evolava
uma sensualidade triumphante e cariciosa, murmurios de regatos,
scintillações do orvalho na folhagem mimosa, balsamos das flores que
desabrocham, vozes sentidas das aves que se amam e preparam o ninho.
Sentiu-se levado n'essa onda que o attraia á sua doçura, pousou o livro
sobre os joelhos e, apoz breves minutos de hesitação, lançou-o sobre a
mesa e desceu a vaguear pela sombra dos platanos, á beira dos lagos que
os ramos beijavam, curvados, em mystico amor. A imagem de Emilia não lhe
deixava os olhos e, ancioso por encontra-la, ia pensando no que lhe
diria, todo entregue vaidosamente aos sonhos de conquistador.
Ao meio dia foi almoçar.
De noite fizera somnos curtos, inquieto, o corpo morbidamente irritado
da atmosphera de fumo e de poeira em que permanecera durante cinco
horas. Cada vez que accordava, a custo conciliava novamente o somno; era
um dormir febril em que o retrato de Emilia permanecia como visão
insistente. Por isso, depois do almoço, cedendo á fadiga e ao torpor da
digestão, adormeceu novamente n'um divan do seu gabinete. Quando
accordou, eram cerca de duas horas da tarde. Exultava. Dentro em pouco
estaria ao pé da sua amada.
Foi vestir-se; tirou do guarda-roupa o traje mais elegante que trouxera
de Londres. A gravata era um problema; as mulheres attentam em todas
estas frivolidades e é necessario satisfazer-lhes o espirito. Luvas,
sapatos, meias, bengala, outros tantos pontos a resolver e que Claudio
considerou um a um, experimentando e observando, em frente do espelho.
Saiu de casa proximo das tres horas. A meio da praça, lembrou-se de que
tinha de passar em frente da botica e o pharmaceutico ia estranhar-lhe o
traje. Hesitou; voltaria atraz e sairia pelo jardim. Poderia ser que
elle o não visse... Foi para diante. De facto, o pharmaceutico dormia a
sésta. Por esta vez, estava salvo da interrogações compromettedoras.
Á porta da casa da rua da Cruz, em que morava Emilia, bateu de mansinho
duas pancadas com a bengala, que eccoaram seccamente na pequena escada
despida e núa. Sentiu-se um abafado rumor de passos apressados e veiu
abrir a porta uma rapariga descalça, os cabellos curtos, escondendo as
mãos sob um avental de riscado.
A rapariga olhou Claudio com surpreza.
--O sr. Almeida está?
--O sr. Almeida está a descansar.
--E a sr.ª D. Emilia?
--A sr.ª D. Emilia acabou ha pouco de jantar.
--Leva-lhe este cartão e diz lhe que eu desejava fallar-lhe, sim?
E tirou da carteira de couro da Russia, com monograma de ouro, um cartão
em que se lia: _C. de Sousa Portugal_. Mandara-os fazer em Paris, eram
os que usava no estrangeiro e já por vezes o tinham feito passar por
conde.
A creada voltou:
--Que faça favôr de subir...
Claudio subiu e encontrou-se n'uma sala pequena, rectangular, com uma só
janella saccada, e tendo por toda a mobilia um sofá coberto de palhinha,
algumas cadeiras, um tapete, uma meza com um panno vermelho, sobre ella
um candieiro, dois castiçaes, um par de jarras vasias e um album de
photographias, e na parede um retrato a carvão, mal desenhado. A pobreza
transparecia n'aquella nudez.
Emilia appareceu immediatamente, com um vestido de chita clara muito
singelo, apertado no pescoço por uma larga fita de velludo preto e um
alfinete de prata, um só annel, a alliança, na mão esquerda, o pequenino
pé bem calçado de preto. Apertou a mão a Claudio e, começando a
conversa, disse-lhe que o marido estava a descansar mas que ia chamal-o.
--Não o incommode v. ex.ª por minha causa, vinha só apresentar a v.
ex.ªs os meus respeitos.
--Mas elle é que ha-de sentir não o vêr.
--Pelo amor de Deus lhe peço, não o incommode.
Sentaram-se. Fallaram da reunião da vespera e apreciaram a belleza das
raparigas que lá foram. Claudio teria estado melhor se podesse conversar
um pouco mais, e accentuava significativamente estas palavras; mas o
juiz, coitado! é que já não prescindia do _whist_ e não quiz
contrarial-o. A ella por certo não tinha acontecido o mesmo. Dansára
toda a noite e n'isso estava a suprema felicidade, não era verdade?
A conversação da estrada de S. Braz recomeçava. Pela janella aberta
via-se um largo campo em que uma rapariga graciosamente curvada ceifava,
balouçando a fouce com agilidade, o azevem prestes a amadurecer que se
estendia n'um vasto lençol, ondeando ao vento, em fugidios reflexos
prateados; em baixo, tremiam os choupos verdes e luzentes, bordando os
caminhos e abrigando os regatos; ao longe, a orla negra do horisonte com
os montes cobertos de pinhaes; o ambiente, tepido e perfumado, dos fenos
que seccavam ao sol, as pavêas alinhadas na terra e polvilhadas de
pontos amarellos, murchas flores de malmequeres.
Viver n'aquella casa e dizer mal da vida provinciana era uma injustiça
com a feliz sorte que o destino lhe concedia, dizia Claudio. Que linda
payzagem! Nunca ali tinha vindo e era decerto um dos pontos mais bonitos
da villa.
--Todos me dizem isso mesmo, respondia Emilia; mas ou por estar
habituada ao local ou porque realmente não está no meu feitio apreciar
estas cousas, nunca penso em tal paysagem. Venho á janella para vêr se
temos sol ou se temos chuva. Só este silencio é de morrer! Parece-me que
estou n'uma sepultura, eu que fui educada no meio de tanta gente. Não!
Por emquanto não me dou por convencida!
--Mas hei-de convencel-a, creia v. ex.ª Não me será difficil.
--Talvez...
--Com certeza. E mais tarde v. ex.ª ha-de agradecer m'o. Será o meio de
se aborrecer menos em Albergaria.
N'isto, o escrivão assomou á porta d'uma alcova, em chinellos, sem
luneta e sem collarinho, a camisa desabotoada.
--Oh! disse confuso, queira v. ex.ª perdoar, sr. doutor. Estava a
descançar, senti fallar e levantei-me pensando que era o meu
escripturario que ficou de me trazer esta tarde o borrão das novas
matrizes da Afurada. De fórma que...
--Ora, sem cerimonia, á sua vontade. O que eu sinto é ter vindo
perturbar-lhe a sésta, mas não queria deixar passar mais tempo sem vir
apresentar os meus respeitos a vv. ex.as.
--Muito obrigado, muito agradecido, não era necessario incommodar-se.
--Estava admirando estas lindas vistas de sua casa...
--Ah! sim, não são más, mas a casa não presta para nada. Ora eu lh'a
mostro que ella depressa se vê.
Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.
--Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, sem paradeiro, não póde
ter a casa em ordem. V. ex.ª vae pasmar da nossa sumptuosidade.
--Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embaraço de
Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos lá
contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.
O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de
jantar e para além, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as
creadas. Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, este
pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava o da janella; serve para
os pequenos brincarem.
--Um cantinho delicioso; só esta vista vale um palacio, dizia Claudio.
--Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros
tinha! Esta ao menos é mais limpinha.
De pé, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio
pedia informações da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto
teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de
Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque
elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.
--É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de
fórma que podesse descobrir toda a varzea.
--Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!
--Não me quero prender, tenho ainda uma vida tão incerta... E não
incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo
a mão a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo
perturbar-lhes o seu socego. A culpa não é minha, a culpa é da
amabilidade de vv. ex.as.
--Nós é que ficamos muito obrigados á sua amabilidade, replicava ella.
Quando quizer apparecer... Estamos quasi sempre em casa; á noite mesmo,
só saimos aos sabbados, a casa do dr. Carvalho.
--Não me despeço d'acceitar o favor, ia dizendo já a caminho da escada.
--Mesmo para vêr se me converte á boa doutrina...
--Hei-de converter, por Deus!
Claudio sahiu contente. A sua intimidade com Emilia caminhava a passos
largos; ainda ha dois dias era uma desconhecida e já hoje lhe offerecia
relações continuadas. O escrivão tambem devia estar contente; um
desgraçado, sempre perseguido dos credores, havia de exultar com a
amisade de quem lhe podesse valer com largueza. Era não desanimar nem
perder tempo. Fallavam-lhe em ir lá á noite? Aproveitaria. Excellente! E
depois Emilia cada vez lhe parecia mais tentadora. O que era a educação!
Ainda n'aquella pobreza, que aceio, que ordem, entre quatro paredes
caiadas e núas! Que differença entre aquelles habitos e o desleixo
provinciano. Já mais de uma vez tinha notado como iam bem vestidos, na
sua modestia, os dois pequenitos de Emilia que via á tarde, na botica,
passando da escola. Devia soffrer muito a infeliz rapariga, tão fina de
nascimento, ligada a um homem estupido e boçal que necessariamente a
trataria como a qualquer escripturario de fazenda.
Uma breve impressão de piedade lhe passou no coração, mas immediatamente
procurou affastal-a. Era uma preza que buscava, uma amante delicada e
fina que lhe satisfizesse os sentidos e o espirito, já com pretensões a
gôsos artisticos; nada de romantismos. Se se punha com pieguices,
tinhamos outra Conceição, e para vergonha uma bastava. Aquella
desculpava-se por creancice; agora devia ser homem. Ia gosar, não ia
chorar.
Cuidado, muito cuidado, para que não désse algum passo em falso e
prejudicasse a sua grande ambição! N'isso é que devia pensar. O resto...
nada de escrupulos; se não fosse elle, havia de ser outro; era
impossivel que ella se não aborrecesse d'aquelle bebado que demais
tinha, segundo diziam, uma amante em Coimbra. Deus sabe mesmo o que já
teria acontecido pelas outras terras onde ella andou. Caça d'arribação!
E com estes pensamentos fortalecia o animo para a sua nova empreza.
Emilia dissera-lhe que apparecesse á noite; havia de o fazer, era até a
hora que mais lhe convinha.
Como tudo se encaminhava ao sabor dos seus desejos!
O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite
que até agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.
Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podéra
seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta
ausencia de prazeres.
Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria
perfeição, para alcançar a plenitude de desenvolvimento mental a que
aspirava.
Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma
lacuna da sua existencia.
Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em
esperanças de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre;
e, o espirito enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em que
havia de voltar a casa de Emilia.
Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve pela primeira vez.
Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e
vaidosamente resolbêra usar de todas as precauções que á sua conquista
conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar á
porta.
Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, palestrou
alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim
consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a
Emilia.
Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em boa disposição, a
alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a
tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.
Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanças.
Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse
facto na conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus
olhos o habito elegante de, ainda na provincia e só, mudar de trajo para
se sentar á meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um
espaço de tempo em que não sabia que fazer... Era melhor vestir-se então
e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.
Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava tão profundamente? Sim,
mas por costume, por vicio de educação de que necessitava corrigir-se.
Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque
não o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei!
N'essa é que precisava inspirar-se.
O jantar, em companhia da velha mãe, que lhe chamava ceia e pouco comia
porque, dizia, tinha jantado ao meio dia, foi breve. Quando terminou,
ainda a noite não se tinha cerrado.
Claudio recolheu-se aos seus aposentos; ia vestir-se pausada e
esmeradamente. O relogio, parecia-lhe, caminhava lento; mau grado seu,
achou-se prompto ainda não eram oito horas. Tinha-se impacientado
talvez, apezar do proposito em contrario que fizera.
Era cedo, mas tambem custava-lhe esperar alli, quieto; ia dar um pequeno
passeio e depois das oito horas se dirigiria a casa de Emilia.
Desceu a estrada que vae a S. Braz. Ao fundo da descida, sentou-se n'um
banco de pedra que alli havia. Não iria mais longe. A poeira enxovalhava
o e não queria voltar a casa para se limpar; poderiam estranhar tantos
cuidados.
A noite estava calma e morna; sobre a sua cabeça uma abobada de arvores
colossaes, cortada a espaços breves e raros pelas manchas do céu que
empallidecia á luz do luar nascente.
Além, para lá do valle em que as aguas corriam murmurosas, ficava a
casaria da encosta, ainda na sombra; depois, a viva crista dos montes;
por detraz, erguia-se a lua jorrando silenciosamente a claridade. Nos
loureiros, á beira dos regatos, debruçados sobre alfobres mimosos,
cantavam os rouxinoes.
Claudio sentiu-se penetrado de poesia e de amor. A figura de Emilia
passou-lhe nos olhos como uma apparição de pureza; não era n'aquelle
momento a sensual amante que buscava, era uma belleza ideal que adorava.
Romantismo! oh! o maldito romantismo que o atacava! Quando se veria
livre d'aquella molestia? Porventura seria incuravel e nunca chegaria a
sua hora de forte e viril razão? Procurou dissipar estes sentimentos,
que tinha por fraqueza, e começou a pensar no que iria dizer á Emilia.
Precisava lisongear-lhe os caprichos e instinctos feminis, fallar-lhe de
elegancia, mostrar-lhe com que luxo vivera em Paris, no _Continental_, e
como sabia aprecial-o. Por este meio havia de alcançar a sua admiração;
d'ahi a mostrar-se em confronto com a grosseria e a rudeza do marido, o
caminho era curto. Não poderia escapar-lhe.
Tinham batido oito horas. Emfim!... Era tempo. Podia ir sem risco de
mostrar ignorancia dos costumes elegantes.
Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua
anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis
não, porque aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua
desproporcionada agitação mais o irritava. Que podia temer? Que o não
recebessem? Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus
galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma só batalha.
Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era
a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade
para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! Não havia de succeder assim.
Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita descalça, correndo
pressurosa, da cosinha, onde preparava o chá, mangas arregaçadas e o
lenço mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.
--A sr.ª D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia
o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.
--Os senhores estão na sala, respondeu promptamente a creada. Faça favôr
de subir.
Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava,
um pequeno açafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um
jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que
estendia os braços e o papel.
--Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.
--Eu tinha promettido... começou Claudio.
--Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que não tenho de
ir a Coimbra é sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão
deitados; mal anoitece, começam logo a cair com somno. A Emilia passa o
tempo com os farrapos. A mim, o que me vale é o _Seculo_. É muito bom
jornal. V. ex.ª não costuma lêl-o?
--Não, nunca o vejo.
--Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o que me vale. E ainda
assim, quando Deus quer, ás nove horas estou na cama. Quando quizer...
faz-nos muito favôr.
--Eu receiava vir perturbar o socego d'este cantinho. Imagino que os
celibatarios hão-de ser muito importunos para a gente casada.
--Por mim nunca receie, disse Emilia. Ainda não pude habituar-me a
deitar-me cedo; antes da meia noite não durmo. Por aqui me entretenho
conforme posso. E ainda v. ex.ª quer que me conforme com a vida de
provincia!... Só estas noites são um castigo!
--N'esse ponto concordo. Tambem me custam um pouco.
Ia recomeçar a antiga conversação. Estavam satisfeitos os desejos de
Claudio; teria ensejo de mostrar que, apezar das suas preferencias pela
vida do campo, sabia o que eram os prazeres da vida aristocratica,
experimentára-a, e em Paris tinha andado em todos os regalos do luxo.
Para Emilia devia ser uma fascinação.
Mas em breve a conversação caiu no extremo opposto. Não era de Paris que
se fallava, era de Villalva, da sua paz e das suas alegrias. Emilia
ouvia-o com tanto interesse, tão meigamente o instigava á intimidade que
Claudio, impensadamente, esquecendo todo o proposito anterior, caiu no
mais completo abandono e começou n'uma confissão sincera, espontanea,
d'um coração que estava a trasbordar d'affecto, almejando por um coração
gemeo em que o vertesse.
Contava a morte do pae, a surpreza com que, recolhendo a casa, fôra
encontral-o no leito, os olhos cerrados e a face livida, n'uma
serenidade em que lhe parecia sobreviver um reflexo da sua imaculada
consciencia.
Relembrava as silenciosas lagrimas da mãe junto do cadaver do esposo e
quanta grandeza vira n'aquella mudez de estatua, n'aquella dôr tão pura
que se concentrava recatada, como temendo polluir-se no contacto com a
indifferença mascarada de lucto que sempre apparece n'essas horas. Elle,
Claudio, não chorava. Sentia-se esmagado, mesquinho, perante esse quadro
em que se resumiam tantos annos de communhão no amor e no trabalho.
Intimamente perguntava em que dissipára os trinta e tres annos da sua
existencia.
Só mais tarde é que poude sentir uma infinita saudade; só mais tarde é
que percebeu bem o desapparecimento d'aquella sombra querida a labutar,
a labutar, pelas frescas alvoradas, pela ardencia do sol, pelo frio
penetrante, pelas noites do estio, ao frouxo reverbero das estrellas. No
primeiro instante, fôra apenas uma grande lição. Que era a sua vida de
estudo ao lado d'aquella ignorada epopêa? Aquelle sim, aquelle tinha
chegado ao posto, aquelle tinha sido digno.
A confissão corria torrencial, como as aguas do açude que se despenham.
Ricardo ouvia e vagamente presentia qualquer cousa captivante; Emilia,
na sua delicadeza femenil, deixava-se levar n'um surdo e inconsciente
arrebatamento de admiração. Já não provocava a conversação,
interrogando; o mais espontaneo tornava-se para ella o mais agradavel.
E, quando Claudio vendo o relogio se ergueu, ella exclamou com visivel
pezar:
--Já?!
--São dez horas e não quero contrariar os habitos de v. ex.as Estou
aqui ha duas horas! Para sécca não foi pouco.
--Quer provocar amabilidades, disse Emilia. Pois não lhe faço a vontade!
Não digo nada.
--Faz v. ex.ª muito mal. Quem cála consente e eu sou capaz de voltar.
--Queira Deus que seja breve!
Ricardo acompanhou Claudio até á porta e voltando á sala:
--Parece ter bom coração este rapaz, disse, dirigindo-se a Emilia.
--É muito sympathico e muito fino, respondeu ella. Ninguem ha-de dizer
que foi creado na aldeia.
--Lá estás tu com toleimas. Imaginas que só essa gente de Lisboa é que
sabe conversar. Um rapaz rico e que tem viajado!...
Emilia não replicou. Temia as brutalidades de linguagem do marido e não
queria provocal-as.
Ambos se alegravam com as novas relações: ella, porque via em Claudio
uma boa companhia para attenuar o aborrecimento das noites provincianas
e o marido porque systematicamente cortejava todas as pessoas ricas que
poderiam ter influencia, esperando alcançar melhor collocação. A sua
aspiração, presentemente, era passar para recebedor; teria menos
trabalho e mais alguns proventos.
Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua
inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. Não era
aquella a conversação que tinha marcado como inicio de conquista; tinha
feito tenção de fallar a Emilia da vida elegante e fôra contar-lhe
intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter
na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!
O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes lhe recusavam. E,
depois, praticára uma ruim acção cujos aspectos negros a imaginação lhe
avolumava, dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; fallára a
Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemão tinha considerado sua
amante! Como, por que estranha aberração de todas as regras moraes, que
tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as cousas intimas e
sagradas, aquillo que no seu coração havia de mais recatado e nobre, com
os mais baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, e esta
suspeita torturava-o.
A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppressão. A fadiga e
a frescura da madrugada trouxeram-lhe porém duas horas de repouso. Pelas
sete horas da manhã despertava e a alegria da natureza, o bulicio do
mercado, que era junto á sua casa, todo o fremito de vida proprio
d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a
tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.
Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado da morte do pae,
mas que mal houvera n'isso? Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a
apparencia de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado com que
olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os
amores não tinham passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se na
sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. Não havia de que se
arrepender. Tivera confissões intimas com uma mulher que conhecia ha
pouco, mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; a isto se
reduzia a sua falta, se falta tinha havido. Não era motivo para
inquietações.
Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar os serões de
Emilia, duas ou tres vezes por semana.
Os fumos de conquistador pareciam apagados, lançara-os á conta das suas
bastas phantasias, e entregava-se sem reserva á doçura d'um convivio em
que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar Emilia.
Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de
gostar d'ella.
--Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! Nunca me entendi com
essa gente. Não saio do meu canto, estou velha para aprender costumes
novos. E quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não ha um mez e
já te parece uma santa. Caça d'arribação! dizia teu pae que Deus haja.
--É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo, ha-de gostar
d'ella, verá.
Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não se dava por vencida,
meneando negativamente a cabeça.
Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho. Claudio nunca
faltava. Dispunha sempre as suas cousas de modo a que estivesse livre
n'essas noites.
Emilia pedia-lhe singelamente que não faltasse e elle queria mostrar-lhe
que nunca esquecia os seus desejos.
Demais, se o juiz não vinha, não havia _whist_ e todos se juntavam em
volta da meza do loto, palestrando e interrompendo o jogo a cada
instante.
Então corriam horas deliciosas para Claudio, entregue desprendidamente á
admiração de Emilia cujo espirito d'uma infantil alegria contrastava tão
singularmente com as suas pesadas e sombrias duvidas habituaes. Para
ella, a vida era apparentemente um trinado de aves.
Uma noite fallou-se dos passeios de Albergaria.
--Ha um muito bonito, mas é um pouco longe, disse Claudio, Lourosa.
Ninguem sabia onde ficava.
Claudio explicou:
--Lourosa fica entre Villar e a Ariosa. Sóbe-se a estrada até Villar,
depois começa-se a descer e no fim d'uns tres ou quatro kilometros
encontra-se a povoação. É uma aldeia, sem cousa alguma de notavel; os
pinhaes que ficam entre Lourosa e Villar, esses são d'uma extraordinaria
belleza, cortados de ribeiros orlados de choupos e salgueiros, os montes
abundando em vegetação. Um retalho delicioso de natureza montanhosa!
Todos desejavam vêl-a.
--É bem facil, dizia Claudio. Saimos d'aqui de manhã, levamos o almoço,
passamos por lá o dia e ao anoitecer estamos em casa. Depende só da
vontade de v ex.as. É marcarem o dia e eu me encarregarei de tudo.
--Vamos lá! Estou prompto! Magnifico! Não falto!--grande alarido de
vozes confusas em torno da meza.
Ficou ajustado o passeio; iriam o dr. Carvalho e a mulher, Emilia e
Ricardo, as Silvas, de Barrosas, o reitor, o dr. Maia, um rapaz da Beira
que tinha vindo advogar para Albergaria, e Claudio; ao todo umas dez
pessoas.
Assim é que os passeios são bons, diziam; onde vae muita gente,
d'ordinario não se passa sem qualquer cousa desagradavel.
Tres dias depois, ás seis horas da manhã, no pateo do palacio de
Claudio, um char-à-banc ordinario tirado por dois magnificos cavallos,
nédios e impacientes nos seus arreios burnidos, de ferragens reluzentes,
esperavam os convidados. Em cima do carro havia tres cestos de verga, da
ilha da Madeira, dois fechados e um terceiro coberto com uma toalha por
baixo da qual se adivinhavam as garrafas de vinho.
Os convidados vinham lentamente. Claudio recebia-os á porta. O primeiro
foi o reitor que, contava, já tinha dito missa e tomado a sua chavena de
café; era fraco e ninguem o apanhava em jornada de estomago vasio. A
isso, graças a Deus, devia a sua saude; não havia de fazer como o seu
collega do Eiral que não tinha cuidado nenhum comsigo e agora lá ia para
as Pedras Salgadas a vêr se conseguia algumas melhoras. Incommodo,
despeza, e no fim viria bem ou mal, como Deus quizesse:
Depois do reitor veio o dr. Carvalho; tinha-se demorado um pouco e pedia
desculpa, mas não quiz sair sem vêr a mulher do José Manco que estava
com uma pneumonia, muito doente.
--Tenho feito clinica em muita terra, dizia, mas pneumonias como as
d'estes sitios nunca encontrei. Terriveis! Quasi sempre fataes. Não sei
se é do clima, se da constituição da gente... Ahi vem já o Ricardo e a
sr.ª D. Emilia com o dr. Maia. Bom! Só faltam as Silvas. Não pensei,
ainda assim, que fossem todos tão pontuaes.
Emilia vinha apressada e risonha, ao lado do marido que conversava com o
advogado, queixando-se ambos da madrugada. Trazia um vestido de chita
azul guarnecido de rendas brancas, luvas côr de camurça e grande chapéu
de palha clara com papoulas vermelhas. Trabalhára até á meia noite, a
burnir o vestido, a pregar-lhe as rendas que eram d'um outro, e a
enfeitar o chapéu composto com uma velha carcassa que tinha comprado ha
dois annos e as flores que trouxera no chapéu de inverno.
O marido regateava-lhe uma a uma todas as despezas e envergonhada, ás
occultas, andava constantemente remexendo os farrapos para improvisar
enfeites que satisfazessem os seus appetites de elegancia.
Agora que tinha de acompanhar Claudio, cujo bom gosto começava a
admirar, esmerara-se e vinha contente, julgando que elle havia de
reconhecer no traje a distincção da pessoa.
Não se enganava. Claudio admirou a sua gentileza; intimamente fazia
confrontos entre as senhoras da villa. Emilia era decididamente a unica
com educação. Fina, muito fina! concluia no seu juizo.
Pelo seu lado, procurava tambem não decair no conceito da sua amada e
pedia-lhe agora desculpa da pobreza da carruagém. Uma grande falta de
recursos para fazer alguma cousa em termos! Tinha procurado um _breack_
decente, mas nem em Coimbra o poude arranjar. Uma miseria! Vira-se
obrigado a remediar-se com aquelle que ali estava e os seus cavallos. Se
continuasse por ali, porque pensava em se estabelecer definitivamente em
Albergaria, havia de comprar uma carruagem propria para aquelles
passeios.
Eram quasi sete horas quando appareceram as Silvas, acompanhadas d'uma
creada ofegante, com uma pequena cesta á cabeça.
--Ah! disse a mais velha, julguei morrer! Que estafa! Mas a culpa não
foi minha. A mana não quiz vir sem trazer um bolo de sete cantinhos,--é
muito bom, é ainda feito por uma receita que nos deu a D. Adelaide
Saldanha,--e aquelle forno é um castigo. Primeiro que aqueça...
--Ora v. ex.ª a incommodar-se... interrompeu Claudio.
--Deixe lá, deixe lá, disse o dr. Carvalho, que mostrava com ellas
grande confiança, quem corre de gosto não cansa. E visto que foi para
nosso regalo, havemos logo de lhe fazer uma saude. Olhe, já ali vão,--e
apontava para o cesto das garrafas.
Recolheram-se todos á carruagem que partiu, oscillando ao sair o portal.
O reitor e Ricardo tomaram logar ao pé do cocheiro.
--Vamos aqui melhor, dizia o Ricardo para o reitor, escusamos de aturar
senhoras. É bom para o Maia que está novo e o Carvalho tambem...
chega-se muito para as Silvas. É menino! Eu cá já não faço versos.
Tomára eu mas é o almoço. Parece-me que já ia.
--O sr. tambem está sempre com essas cousas! Ora não seja má lingua...
dizia o reitor.
Ao passarem na botica, estava o boticario á porta a conversar com o
regedor do Sobral.
--A vida está para aquelles, disse despeitado por não ter recebido
convite. O pae e o tio a pouparem para estes agora gozarem!
A companhia ia alegre.
As Silvas palravam com o advogado; interiormente sonhavam ali um
casamento, sua ambição capital. Fallavam das suas flores, das suas
gallinhas, dos cuidados que tinham pela adéga e pelo lagar d'azeite,
procurando com deligencia pôr em relevo as suas virtudes domesticas.
Mutuamente se elogiavam; uma sabia de cosinha como ninguem, não havia má
cosinheira ás ordens d'ella; a outra, diziam, tinha nascido para homem,
constantemente nos campos, á frente dos bandos na apanha da azeitona,
entre as vinhas, no outomno, com grande chapeu de palha, dando ordens e
berrando aos trabalhadores:
--Olha como levas esse poceiro! Não fazem nada em ordem! Que estupidos!
Não póde a gente ter um momento de descanso...
O advogado ouvia e procurava palavras de admiração.
--Isso hoje é muito raro, dizia V. ex.as foram educadas á antiga. Bons
tempos! As meninas d'agora vão para os collegios e vêm de lá anemicas,
sem prestimo nenhum. Levantam-se ao meio dia e só servem para tocar
piano.
Tambem elle pensava em casamento: queria cousa de conveniencia. A sua
ambição era um dote de dez a doze contos de réis. Não o tinha ainda
encontrado, mas não desanimava nas suas deligencias.
O dr. Carvalho procurava associar-se á conversação, ora com gracejos,
ora lisongeando as Silvas.
--Muito tolinhas, pensava. Com algum geito ainda vêm a cair.
Claudio conversava tambem, dirigindo-se á mulher do dr. Carvalho e a
Emilia, empenhado em prender esta ultima aos seus sentimentos. Apontava
tudo o que na estrada ia vendo de pittoresco ou de bello, os carvalhos
nodosos do Casal Novo, projectando-se nos montes nus e asperos, a varzea
de Villar humida e mimosa, emoldurada nas montanhas que se encastellam
em torno.
--N'este tempo, o campo é muito bonito, exclamava a mulher do doutor em
admiração convencional.
Emilia, intimamente insensivel, sómente por ser agradavel a Claudio,
repetia:
--É bonito, é realmente muito bonito.
Sentia-se bem, não pelas impressões da paysagem, mas pelo doce prazer de
ouvir Claudio.
Tinham passado a primeira cadeia de montanhas começavam agora a descer
rapidamente para Lourosa.
Á esquerda, no extremo horisonte, ficavam as corôas de neve da serra da
Estrella, em frente, em toda a sua desdenhosa magestade, erguiam-se as
serras da Louzã, as faldas bordadas de aldeias, de pinhaes e de
campanarios, os píncaros despidos e negros, respirando, no ceu sereno e
mudo, solidão e grandeza.
--Oh! amigo Claudio, disse o dr. Carvalho, parece-me que você se
enganou; isto aqui ainda é mais feio que do outro lado.
--Oh! não. Eu acho este panorama magestoso. Magestoso, meu amigo!
--Será, não digo que não. Eu é que não vejo senão muita pedra. O que
vale é que você hade tratar-nos bem. Que horas serão?
--Oito.
--Uma hora de caminho! Aquella subida de Villar é enorme e nós viemos
devagar. Os seus pobres cavallos vão dizer mal do passeio. Com uma carga
d'estas!
--Não, não é muito. Agora vamos depressa. D'aqui a meia hora estamos em
Lourosa.
A carruagem ia descendo e o aspecto dos montes modificava-se; a
vegetação tornava-se mais basta e os raros casebres dispersos eram
construidos de delgadas laminas de pedra schistosa. Dentro em pouco
atravessavam Lourosa.
--Então? dizia de cima o Ricardo. Cá o nosso reitor diz que estamos em
Lourosa. Para onde nos leva você, ó doutor?
--Não seja impaciente; vá andando, vá andando que não se hade
arrepender, respondia Claudio.
--Eu sei lá! Desconfio...
Apenas se passa a aldeia, a estrada perde-se serpeando nos pinhaes
bastos e sem interrupção que cobrem aquella região de monticulos e
desfiladeiros. Nem a mais pequena planicie; os accidentes do terreno são
continuados e dos valles apertados, entre o matto espesso e tenro,
solta-se um alento de viço e de frescura. As urzes floriam em
quebradiços calices de rosa desmaiada, os fetos espandiam as rigidas
frondes reluzentes e nas palidas giestas desabrochavam as suas fulvas e
aladas flores.
--Ah! isto sim, isto aqui é outra coisa, disse o dr. Carvalho. Dou a mão
á palmatoria. Sim, senhor. Valle a pena vir cá.
--Já vê que não o enganei, respondeu Claudio.
Tinham parado em frente da casa d'um cantoneiro, um pobre abrigo com uma
só porta, sem janellas, feito de lageas toscas, quasi sem argamassa, a
luz espreitando entre as telhas desunidas. Era ali que esperavam os
creados de Claudio que tinham vindo adiante, alta madrugada, para
fazerem os primeiros preparativos. Com a mobilia do cantoneiro
conseguiram montar a mesa, em baixo, ao pé d'uma fonte, longe da
estrada, para fugir aos curiosos, de modo que não fossem vistos de quem
passasse. Eram essas as instrucções de Claudio. Estava tudo prompto,
dizia um dos creados, para quando s. ex.as quizessem.
Claudio propôz á companhia um passeio. Era muito cedo, passeiariam agora
pela fresca viriam depois a almoçar quando o sol apertasse, que o dia
promettia ser quente.
Todos acceitaram. Só o reitor e Ricardo é que se apressaram a pedir que
os deixassem ficar. Já sabiam o que era gente nova e o que eram as
serras; não se fiavam nas pernas. Ninguem insistiu.
--Liberdade! disse o dr. Carvalho, cada um gosa a seu modo; e as Silvas,
aproveitando o ensejo para fallar da sua actividade, diziam ao dr. Maia
que não sabiam que gente era aquella, tão commodista. Para ellas não
havia como andar a pé. Tinham ido uma vez á Senhora da Penha, umas boas
tres léguas por maus caminhos. Pois ainda não era noite quando voltaram
a Barrosas e do dia seguinte, ás cinco horas da manhã, estavam a pé como
se nada tivesse acontecido.
Elle, o dr. Maia, respondia que tambem tinha sido grande andarilho,
quando era mais rapaz, em Coimbra; fôra a Lorvão com os companheiros de
casa. Mas agora não tinha tempo, por causa do escriptorio; uma vida
sedentaria, que o matava. O que lhe valia eram os banhos do mar.
Costumava ir para Espinho.
--Nós vamos sempre para a Figueira, disse uma das Silvas.
--Este anno provavelmente tambem para lá irei. Fica-me aqui mais perto e
posso vir ao tribunal quando fôr preciso.
Entretanto Claudio fallava com o cantoneiro que lhe indicava o passeio.
Desciam abaixo, á azenha, subiam pelo carreiro que se via do outro lado,
atravez do monte, depois chegando acima encontravam um caminho; não
tinham mais do que seguil-o e lá iriam ter.
Era um sitio muito lindo! Ainda o anno passado ali tinha estado o
director das obras publicas com uma familia de Coimbra.
Dentro em pouco, Ricardo adormecia na cabana do cantoneiro, sobre uma
esteira estendida n'uma velha arca, o reitor sentava-se n'uma pedra, á
porta da casa, a lêr os jornaes que cautelosamente tinha trazido, e em
frente, na montanha, iam subindo os restantes companheiros.
As Silvas caminhavam adeante, fazendo gala da sua robustez e rindo-se do
Carvalho e do Maia que queriam acompanhal-as e se confessavam já
cansados; atraz, a larga distancia, seguiam Claudio com Emilia e a
mulher do Carvalho.
--Sangue quente! dizia Claudio apontando os que iam á frente. O sr. dr.
Carvalho é que parece um rapaz, alegre e ligeiro...
--Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor. Muito rijo!
Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza infinda das cousas
por que passavam: a suavidade de colorido das _primulas_ que bordavam a
ribeira, os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os choupos tremulos
na aragem da manhã, os pinheiros que se desenhavam nitidos na limpidez
do céu, as vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo. Queria que
ella commungasse nas suas impressões e ella já não resistia.
--É bonito, muito lindo, respondia a cada instante.
O cantoneiro não os enganára. Passado o cume do monte, o caminho era
ladeado de muros baixos, para defender os mattos dos rebanhos que
passassem; continuava assim em longa distancia até que o pinhal começava
a rarear e abria-se uma clareira. Tinham em frente, na margem opposta do
ribeiro, uma ravina apertada por onde a agua corria, em pequenas
cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este logar que o
cantoneiro se referira.
--Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.
Só uma das Silvas fez reservas.
--Sim, é bonito, disse; mas a nossa Albergaria não é peior. Só aquella
abundancia d'agua!...
Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram pelo carreiro que dava
accesso ás azenhas. Pouco caminharam; estavam cansados, o calor já
apertava, e, aos primeiros muros que encontraram entre a sombra do
pinhal e á beira da agua, sentaram-se.
Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo flores agrestes e
fazia-lhe vêr as formas delicadas e os mimos de colorido que se perdiam
ignorados por aquellas serras. Para que os jardins? A belleza
espalhava-se por toda a parte, nas cousas mais triviaes, tudo estava em
a perceber com olhos carinhosos.
Por isso o campo nunca lhe enfadava. A natureza era inexgotavel, as suas
riquezas não tinham limite e a vida inteira era sempre breve, não diria
já para as admirar que seria querer muito, mas para comprehender a sua
existencia.
Quando se chega a isto, quando se adivinha o thesouro que a todos foi
prodigamente aberto e que raros aproveitam, uma absorvente avidez de
sensações nos invade e somos arrebatados por este espectaculo prodigioso
e infindo que nos vem d'aquillo que antes chamavamos mudez e solidão.
Animam-se os rochedos, no maior ermo acompanham-nos vozes desconhecidas;
o coração captiva-se d'um amor puro e largo, immaculado e sereno. E como
as cidades nos parecem então abominaveis, com as suas miserias e a sua
vida de artificio e mentira! Nem satisfazem o espirito nem os sentidos.
Queria que Emilia se penetrasse do mesmo sentimento. Ella já não
luctava; ouvia e nas palavras de Claudio sentia com deleite uma
embalsamada frescura.
O dr. Carvalho e o Maia não deixavam as Silvas. Fallavam agora dos
galanteios da Figueira no ultimo outomno e discutiam o procedimento
d'uma menina de Coimbra que passava a noite a fallar, a uma janella
baixa, com um janota de Lisboa, um tal Couceiro d'Abreu, que se dizia de
boa familia, mas que pelos modos não o parecia.
Era a mais velha das Silvas que sustentava a conversa com o dr.
Carvalho.
--Ella tinha desculpa, dizia. Uma rapariga nova, sem experiencia do
mundo, não podia calcular o que se pensaria no meio d'aquella gente que
morre por dizer mal e, quando não tem que dizer, inventa. Mas elle!...
Um infame! É preciso ser muito canalha para jogar assim a reputação
d'uma rapariga. Que eu não acredito... Os homens são todos assim,
terminava suspirando, com os olhos baixos e fitos na ponta do guarda sol
que cravava entre os seixos.
--Mas que mau humor, que maldade! Parece que já algum homem lhe fez mal.
--A mim?! Estão bem livres d'isso, eu lhe asseguro. Tenho os olhos bem
abertos.
--Ora tem os olhos abertos... Eu queria vêr!... Se gostasse a valer d'um
rapaz...
--Ai, nada, nada! Não sou de pieguices. Que tambem lhe digo: Se gostasse
d'alguem, não havia de ter medo do que dissessem. Havia de lhe fallar
onde melhor me parecesse. Com tanto que estivesse de bem com a minha
consciencia...
--Bravo, bravo! exclamava o doutor, sonhando aventuras. Gosto de gente
assim.
Claudio tinha-se levantado e, apoz elle, toda a companhia. Eram horas do
almoço. Voltaram á casa do cantoneiro, seguindo o mesmo caminho por que
tinham vindo.
A mesa estava posta n'um sitio ensombrado, o reitor já tinha lido os
seus jornaes e contava pormenores d'um crime praticado no Poço do Bispo
ao Ricardo que passeiava impaciente em frente da mesa, olhando sempre o
carreiro por onde os companheiros tinham desapparecido.
Um pouco acima, encostada a uma canastra, uma creada adormecera.
--Olá, seus mandriões, gritou o dr. Carvalho dirigindo-se ao reitor lá
do outro lado do monte.
--Vivam, vivam, respondeu o Ricardo. Já cá tardavam.
A mulher accordou.
--Muito moida, tia Venancia? perguntou o reitor.
--Sai de Albergaria ainda era noite. Já vinha ao pé do Hospital quando
bateram tres horas, respondeu a pobre mulher.
O almoço começou quasi em silencio. Todos tinham estranhado a madrugada
e o passeio; o calor e a fome acabaram de os alquebrar. Sentia-se a
moleza e o cansaço. Só o dr. Carvalho resistia, sempre alegre e
palrador. Estava habituado a não ter horas para dormir nem para comer;
os doentes é que mandavam. Estranhava a Claudio o luxo com que tratava
os seus convivas, que não era preciso; até as taças para o champagne
tinha mandado vir. Um copo para cada um era quanto bastava.
--Principalmente para o Ricardo!... Um só e grande, segredava
maliciosamente.
Pouco a pouco a animação ia surgindo, na excitação dos vinhos e das
viandas; a conversação tornava-se continua, entre o bulicio da baixella
e o riso dos convidados, cada qual elogiando o prato que melhor lhe
convinha ao paladar e todos louvando Claudio.
--É um cavalheiro, um cavalheiro, dizia Ricardo, o prato coberto com uma
enorme fatia de fiambre e lançando a mão a uma farta garrafa de
Collares. Eu cá vou andando com este, não sei que graça acham a essas
limonadas!
E apontava os vinhos do Rheno.
Estavam chegados ao champagne. As rolhas voavam entre os gritos das
Silvas que com grandes gestos defendiam os olhos. O dr. Maia, que ha
muito se calara ruminando o discurso, levantou-se para beber á saude de
Claudio.
Não eram palavras banaes as que queria dizer; pretendia fazer um
discurso que impressionasse os ouvintes e particularmente a mais nova
das Silvas para quem começava a olhar como uma noiva possivel.
«--Minhas senhoras e meus senhores...»
--É muito amavel, não se esquece das senhoras, disse sorrindo com ironia
o dr. Carvalho para a Silva que estava ao lado d'elle; e atrevidamente
chamava a sua attenção, batendo-lhe com a mão no joelho, por baixo da
mesa.
«Não era á minha humilde e obscura personalidade, não era a mim que sou
um forasteiro n'estas terras e tão pobre de dotes de eloquencia, que
competiria talvez saudar o nosso generoso amphytrião; mas a profunda
estima e consideração que tenho pelo illustre doutor Claudio obrigam-me
a levantar a minha fraca voz n'este concerto de bellezas da natureza, de
illustrações e de formosuras que tocam o nosso coração...»
--Toma, diz em segredo o Carvalho para a Silva, aquillo é com a mana. A
menina é que não apanha nada. Só se fosse um beijo que eu lhe désse!
--Não seja atrevido!
--Não seja má. E bateu-lhe novamente com a mão no joelho, procurando
ajuizar da perna.
«O dr. Claudio, meus senhores, a cuja amabilidade devemos as boas horas
que temos passado aqui e que jámais esquecerei, não é um homem vulgar.
Tem seguido a evolução da sciencia e está ao par das modernas
descobertas da sociologia. Eu que deixei ha pouco os bancos da
universidade, não posso acompanhal-o nos arrojados vôos do seu estudo
mas comprehendo a sua bella orientação positivista...»
E continuou assim fazendo o elogio de Claudio, até se lhe esgotar a
provisão de banalidades que tinha adquirido em Coimbra. Ao fim,
sentou-se vaidoso, procurando adivinhar a impressão que tinha deixado
nos ouvintes.
--Muito bem, muito bem, sr. dr. Maia, disseram de differentes lados da
mesa.
A Silva disse-lhe tambem em voz branda:
--Gostei muito de o ouvir, falla realmente muito bem.
--Não, minha senhora, isso é muita bondade de v. ex.ª Não tenho tido
uso. Aqui, na comarca de Albergaria, o movimento é pequeno e com estes
jurados analphabetos não vale a pena estudar.
--Oh! não esteja com modestia... eu reparei que todos o estavam ouvindo
com muito agrado. Na provincia é tão raro encontrar alguem que saiba
fallar...
O reitor contava ao Ricardo dos prégadores que tinha ouvido. O melhor
era o Alves Mendes. O que eu admiro, dizia, é a memoria que elle tem
para metter aquillo tudo na cabeça!
Claudio estava embaraçado. Não contava com o discurso e percebia que os
convivas esperavam a resposta.
Interiormente sentiu um momento de enfado que attribuia á impertinencia
do dr. Maia, mas que de facto vinha do risco, que corria, de desmerecer
no conceito de Emilia, a seus olhos supremo juiz do bom gosto.
Durante alguns minutos pensou no que iria dizer; depois, como impellido
por uma subita resolução, levantou-se e disse:
--Agradeço as immerecidas palavras do sr. dr. Maia, que por certo foram
dictadas pela consideração que me dispensa e não pelo que realmente
valho. Entre aquelles que me honraram acompanhando-me n'este passeio,
não quero fazer senão uma unica distincção, aquella que de justiça é
devida. Saúdo de todo o meu coração as senhoras que com a sua formosura,
o seu espirito e a sua gentileza generosamente nos déram estas tão
breves horas de alegria!
--Vivam, vivam! Á saude de vv. ex.as! D. Emilia... D. Maria.
E todos beberam.
Claudio bebeu tambem, olhando Emilia. Era a ella que se dirigia e era a
admiração pela sua graça que o inspirára.
--Foi pena ser tão pouco, disse o reitor para Claudio, sollicitando um
discurso.
--Não perderam nada. Não sou orador. Isso é aqui para o nosso dr. Maia.
Os brindes não tinham fim. Cada qual bebia pelas pessoas das suas
relações e o dr. Carvalho, que o calor do banquete tinha excitado,
voltando-se para a Silva, disse-lhe quasi em segredo:
--A ultima, a virar e a serio, por uma intenção particular, por uma
menina que sinceramente admiro e estimo!
--Agradeço em nome d'ella e posso assegurar-lhe que é pago com muita
amizade.
--Não acredito, respondeu o Carvalho, fitando-a com olhos languidos.
E, voltando se para Claudio, accrescentou:
--E se nos levantassemos, oh doutor? Olhe que estamos á meza ha duas
horas e não queremos morrer aqui de indigestão!
--Está dito. V. ex.as mandam.
Novamente os convivas se espalharam nos montes, reconstituindo-se os
primeiros grupos; o Carvalho e o Maia com as Silvas, Claudio com Emilia
e a mulher do Carvalho, o reitor ao pé de Ricardo.
Pouco se affastaram do logar do almoço; o calor, a madrugada, o cansaço
do passeio e o pezo da digestão tornaram-os abatidos, molles e
somnolentos. Só Claudio e o dr. Carvalho resistiam, movidos ambos por
identicos motivos.
Ás quatro horas partiram de regresso a Albergaria. Houve um momento de
animação aos primeiros movimentos da carruagem, mas em breve voltou o
silencio proprio da fadiga.
O Ricardo cambaleava dormindo, os olhos cerrados por baixo da luneta, o
collete desabotoado mostrando a camisa enxovalhada de suor. A mulher do
dr. Carvalho, que tinha percebido os galanteios do marido com a Silva,
desesperada com ciumes queixava-se de dores de cabeça. Claudio vinha
scismando.
Porque não havia de casar-se? Que vida daria ao seu lar a graça e a
elegancia d'uma mulher? Mas não era facil encontrar quem com instinctos
d'artista se sugeitasse á vida monotona de provincia.
Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua admiração. Que rara fortuna
possuil-a! E como devia ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e
bestial! Uma irrepremivel compaixão o aproximava d'ella e mais um laço
ligava aquellas duas almas que, n'uma turva inconsciencia, se iam
prendendo e confundindo.
Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio conduziu cada um á
sua casa e todos se apartaram com palavras de reconhecimento e
cordealidade.
--Queira Deus, dizia Claudio á mulher do dr. Carvalho, que v. ex.ª não
fique a dizer muito mal do passeio. Talvez que uns granulos de
antipyrina...
--Não, respondeu o doutor. É muito sujeita a dores de cabeça. Em
dormindo, fica bem. Isto não vale nada. Quem déra que todos os dias
assim fossem!...
Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo. A cada passo se
encontravam juntos: nos passeios, á tarde, pela estrada do Sobral; na
egreja, á missa e em dias de festa; á noite, em casa do dr. Carvalho e
pelos serões da visinhança. Na botica estranhava-se a mudança de
Claudio; commentava-se já com risos maliciosos e palavras mordazes. Só
elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e tão bella amizade, a ella
se entregava inteiramente e ingenuamente transformava em sentimentos
puros, d'esta vez sem plano nem preoccupações scientificas, os projectos
de conquistador com que dois mezes antes entrara em casa de Ricardo.
Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta de habitos e
costumes que é de regra entre amantes; ella cedia dos seus prejuizos
lisboetas para admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana,
elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo e os propositos de
vida laboriosa, para se confundir nas futilidades em que imaginava bom
gosto e arte.
De facto, nenhum mudára; ambos passavam apenas por uma crise d'amor que
lhes transfigurava o aspecto das cousas.
Para Emilia a natureza era um adorno, como as flores na meza do glutão
que, só cubiçando as viandas, se compraz todavia cercando-as de frescura
e perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito a vida gigantesca
da terra, o drama eterno e mudo em que os elementos se combatem e amam,
captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza dos seus destinos.
Nem as arvores nem as aguas nem as montanhas podiam ter significação aos
seus olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces olhos, as brizas
do poente que á tarde varriam a atmosphera ardente do estio, a sombra do
loureiro que á hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos e o
canto apaixonado dos rouxinoes ao luar eram unicamente a faustuosa
decoração do theatro em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas
valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos cristaes, das sedas e
dos salões dourados em que o seu temperamento se formára.
Por sua vez, Claudio caia n'uma illusão parallela: pensava que Emilia
lhe revelava um mundo novo de elegancia e arte, lançava á conta de
rudeza a simplicidade que em tempos, que agora lhe pareciam distantes,
adorava na casa de seus paes, e tomava por alargamento e complemento da
educação do seu espirito a frivolidade a que só o arrastava a anciedade
de se impregnar das graças da sua amada.
Pelo S. João acompanhou Emilia e Ricardo a Coimbra, a uma festa em casa
d'um fidalgo, d'appelido Albuquerque.
Os Albuquerques viviam n'um palacio, proximo da estrada da Beira; a
pouco mais d'um kilometro da cidade, encontrava-se um largo portão de
ferro rematado por um brazão e continuado para um e outro lado pela
gradaria alta que circumdava a propriedade.
De dentro trasbordava o arvoredo, os choupos, os platanos, as olaias, as
palmeiras e as eras que vestiam as paredes d'uma crina frondosa; em
frente do portão, uma alameda, bordada de buxo, que em leve declive
conduzia, em linha recta, a uma curta e larga escada de pedra, de dois
lanços, formando semicirculo, com uma grande taça de pedra ao centro
d'onde a agua se derramava sobre um tanque em fios longos e
scintillantes. A casa era d'um andar, sobre celleiros e adégas muito
baixos, quasi inteiramente enterrados, tendo acima do sólo só as
estreitas frestas que lhes davam luz. Entrava-se n'um largo vestibulo
bem mobilado de escabellos em que destacava o vermelho e ouro do brazão
que os encimava; á direita a larga porta d'uma capella, á esquerda uma
extensa linha de vastissimos salões, em frente a entrada para o interior
do palacio.
O velho Albuquerque, fresco e esmerado na sua velhice, o rosto vivo e
malicioso lembrando os retratos de Henrique IV, com ademanes fidalgos
recebia as senhoras no vestibulo e conduzia-as pelo braço ao coração da
festa. Ao lado estava o filho que o ajudava n'essa tarefa. Fôra
condiscipulo de Claudio e era ainda seu intimo amigo. Quando o viu, veiu
para elle promptamente, e, n'um movimento de jubilo, abraçou-o.
--Mas que feliz surpreza!...
--Tantas vezes me pediste que viesse ás tuas festas e tantas vezes
recusei que algum dia havia de quebrar o encanto. É verdade que faltei
ao dictado... Vim sem ser convidado, mas já sabia que me desculpavas.
--Agradeço-t'o muito. Déste-me agora uma grande alegria.
--Tinha vontade de te vêr, creio que ha tres mezes que não nos
avistavamos. Ultimamente tenho vindo pouco a Coimbra. Depois as
instancias da familia do Almeida...
--Escolheste bem; a companhia é excellente. Gosto muito da Emilia! D'uma
vivacidade... Que pena ter casado com aquelle homem... Mas anda cá,
continuou o filho do Albuquerque pondo as mãos na cintura de Claudio e
olhando o attentamente, reparo agora!... Estás um janota! Que é da
modestia e do estudo e d'essa austeridade d'outros tempos?
--Um pouco mais civilisado, um pouco mais civilisado... Querias-me
eternamente rustico?
--Não, quero-te assim, estás muito bem. Até me pareces mais bonito. Essa
maluqueira de te metteres em casa com os livros, como n'um convento, era
intoleravel! Ainda bem, ainda bem que estás a caminho da salvação! Que
eu, verdade, verdade, tambem gosto de socego...
E entraram ambos na sala onde os pares se levantavam para a primeira
quadrilha, em meio da confusão das sêdas e das joias, de cristaes, de
moveis artisticos e de louças orientaes illuminadas abundantemente pelos
candelabros de bronze que pendiam do tecto e pelas pratas cinzeladas que
pousavam nos velhos contadores indianos. A casa dos Albuquerques tinha
fama pelas suas festas, pelo luxo e pela alegria que tradicionalmente as
caracterisavam, e muitos corriam ali só para admirar essa ostentação de
opulencia.
Claudio teve um momento de pasmo, A vida simples de Villalva e a vida
estreita que levava em Albergaria não o tinham educado a passar
indifferente pela riqueza e pelo luxo; captivavam-no pela novidade, pela
sensualidade, pelo preconceito bebido nos livros materialistas de que a
expansão de todos os appetites era salutar e humanamente digna, e, mais
do que isso, pela sympathia com o espirito frivolo de Emilia.
Todo o espectaculo que tinha diante de si lhe parecia admiravel; passava
uma epoca, que seria breve na sua existencia, de cubiça mundana.
Dentro em pouco dançava com Emilia. Ella estava radiante, julgava-se
transportada aos salões de Lisboa. Uma noite de baile era a
reviviscencia das melhores lembranças da mocidade, d'aquellas a que o
seu espirito mais insistentemente queria. A Claudio apontava aquella
peça da India que só tinha egual na collecção d'El-rei D. Fernando, os
brilhantes da condessa de Murtede que o Leitão avaliára em sete contos
de réis, o vestido de setim da Costa Real, de Miranda do Corvo, feito em
Paris quando lá esteve, na primavera, a graça, a distincção do velho
Albuquerque, e toda a tremulina de fogos fatuos que lhe passava diante
dos olhos. Elle ouvia e applaudia com palavras de admiração, que o amor
lhe segredava, o enthusiasmo futil de Emilia.
Cerca da meia noite, o borburinho do baile afrouxou. No meio das salas
ficaram grupos de casacas esguias e negras, em volta das damas
formaram-se pequenos circulos de cadeiras; os creados entravam com
grandes taboleiros pesados de finas iguarias, o Albuquerque e as filhas
corriam as salas offerecendo os calices do precioso vinho das suas
terras do Douro.
Comia-se alegremente e trocavam-se saudes intimas, com palavras banaes
de convencional cortezia.
Claudio aproximou-se de Emilia; ia beber por ella, pelos seus filhos e
pelo seu marido, pela sua felicidade e alegria. Os copos tocaram os
labios e dois minutos de silencio disseram o que os labios calaram,--o
affecto que n'aquelles dois corações surdamente crescia.
Á uma hora, já o Ricardo queria partir. Andára a arrastar-se pelas
cadeiras, pelas portas das salas de dança e pelos cantos das mezas de
jogo, mãos nos bolsos e luneta pendida sobre o nariz, até que chegasse a
hora de se fartar: agora, replecto, a festa terminara para elle, queria
dormir. Estava massado, dizia á mulher, e tinha no dia seguinte a
repartição. Elle é que sabia o que isso era, com o mez de julho á porta
e o semestre da contribuição predial para receber!
Claudio accudia em favor de Emilia:
--Seja rasoavel, dizia ao Ricardo; são tão poucas as occasiões que ella
tem de se divertir...
Intimamente tambem elle tinha vontade de partir; ao deslumbramento das
primeiras horas seguia-se uma sensação de fadiga e enfado, uma vaga
necessidade de recolhimento e silencio. Porque? Mysterioso cansaço!
Abandonado, a um canto da sala, n'uma soberba cadeira de espaldar, ia
seguindo com os olhos Emilia que valsava ligeira nos braços d'um rapaz
estroina, todo fresco e risonho de cynismo e de saude. Comparava-a com
as outras raparigas e cada vez mais se penetrava da sua gentileza. Até
no trajar lhe parecia vencel-as, ella que para vir ali fôra buscar ao
seu pobre guarda-roupa as unicas sedas que lá havia, um vestido preto
que os paes lhe déram quando casou e uns farrapos côr de rosa com que o
enfeitára.
Sahiram pelas tres horas da madrugada. A frescura da manhã,
açoutando-lhe as faces, animava-os. Claudio e Emilia vieram conversando
até Albergaria. Ricardo ia a dormir, oscillando com as trepidações da
carruagem.
--Sim, dizia Claudio a Emilia, tudo isto é magnifico mas o socego dos
nossos serões não é peior. Em regra, fico indifferente ás festas a que o
coração é alheio; e n'uma multidão d'estas não póde haver intimidade.
--Tudo tem o seu logar. A mim, nada me refresca como um baile; fico bem
oito dias, pelo menos. Dá-me saude.
Claudio voltava triste. Emilia julgava-o cansado e elle mesmo queria
attribuir a sua inquietação aos effeitos d'uma atmosphera viciada e da
excitação do fumo e do movimento. Só tarde pôde conciliar o somno, o
corpo abrazado e dorido. Não se lhe varriam dos olhos e dos ouvidos os
rumores das vozes e da musica, o brilho rutilante das salas e a imagem
de Emilia valsando distraida e fogosa nos braços dos rapazes
galanteadores e ousados. Inconscientemente, soffria as primeiras dores
do ciume.
Estavamos chegados ao fim de junho. O dr. Carvalho aconselhava Claudio a
que não deixasse de ir ás caldas. Só as inhalações das aguas sulphurosas
podiam livral-o d'aquella bronchite, dizia. Era o que a sua experiencia
lhe tinha mostrado.
Claudio defendia-se brandamente. Estava tão bem... Mas o Carvalho
instava. Resolveu partir para as Caldas da Rainha.
No primeiro de julho, por um sol ardentissimo, foi a casa de Emilia
despedir-se. Ella nunca tinha estado nas Caldas da Rainha, mas ouvira
sempre á gente com que convivia em Lisboa que não havia terra de mais
gozo. Todas as noites se dansava; os dias passavam se em continuados
jogos e merendas á sombra do arvoredo.
--Embora!... respondia Claudio. Estava aqui muito bem.
E olhava a varzea e os campos d'onde se desprendiam sussurros d'aguas
que iam descendo e um alento de frescura, sobre os milhos tenros,
mimosos, regados n'aquella noite.
A voz de Emilia e a doçura da intimidade casavam-se com a suavidade da
natureza. Teve um instante de desalento; sentiu derramar-se-lhe no
corpo, como uma uncção venenosa, um torpor em que a vontade se
aniquilava, mas, sacudindo energicamente a tentação, levantou-se,
apertou a mão de Emilia com palavras d'um adeus vulgar, e saiu.
Em casa foi abraçar a mãe. Ingenua, resignada, sorridente na paz da sua
alma, recommendava-lhe que tivesse cautela, tinha muito medo de
remedios. Não gostava de o vêr partir, ficava em cuidados, antes fosse
para Pariz.
--Tenho sempre muito medo! dizia.
Partiu. O movimento, a curiosidade da paysagem, as ininterrompidas
cambiantes d'aspectos moderavam os movimentos de saudade e quasi lhe
davam a illusão do esquecimento.
Depois, ao chegar ás Caldas, a installação, a consulta do medico, os
banhos, novas terras, nova gente, cousas novas, trouxeram-n'o durante
dois dias n'uma agitação que tomava por contentamento. Apressou-se a
escrever á mãe, ao dr. Carvalho e ao Ricardo, referindo o que se passava
e promettendo que voltaria ao fim de vinte dias, quando o tratamento
tivesse terminado. Teria muito que contar aos serões.
Estava na firme disposição de se associar á vida mundana, assistindo aos
concertos, passeiando todas as tardes na Matta, jogando o arquinho com
as damas e o _whist_ com a gente grave que Lisboa emprestava por um mez,
dançando e galanteiando. Queria tomar os conselhos de Emilia e imital-a,
para mais merecer no seu conceito.
A illusão foi breve. Ao fim de dois dias, com desespero e odio, fugia de
toda a convivencia, procurava os cantos affastados e ermos para se
concentrar nas suas lembranças, e opprimido, ancioso, como um tigre na
jaula, revolvia-se na estreita cella que habitava n'uma hospedaria.
A ausencia revelára-lhe o amor. Percebia agora até onde levianamente
tinha caminhado. Dissipada toda a duvida, sabia,--com que amargura!--que
o seu coração estava preso a Emilia, cuja imagem o acompanhava sempre,
sempre, fundindo n'uma só ambição todos os desejos, todas as
preoccupações e todas as necessidades.
Que era feito das suas convicções materialistas, dos seus propositos de
conquistador, da alegre esperança com que d'animo leve procurava a casa
de Ricardo? Por que estranha inercia deixára transformar essa viril
resolução no affecto candente que o consumia? Mysterioso impulso!
Era por certo uma fraqueza. Havia de occultal-a firmemente, sem um
minuto de desfallecimento, aos olhos do mundo, e ainda mesmo aos seus
mais intimos amigos. Ás vezes tinha uma esperança e dizia comsigo:
--Pieguice! Tambem assim foi com a Conceição e hoje vejo-a passar,
casada, com os filhos ao collo, sem o menor desejo. Hei-de curar-me;
tudo se gasta, tudo esmorece.
Em pouco tempo adoecia. As saudades e a agitação constante em que ellas
o traziam determinaram um aggravamento da doença que o tinha levado
alli. Ao cair da tarde começava a febre, a noite passava-se em suores, e
pela madrugada dormia então prostrado um somno povoado de pesadellos.
Não queria medico; sabia bem qual era o seu mal.
Uma manhã, com surpreza do creado, que sempre o estranhára e nunca
podera comprehendel-o, pediu uma carruagem e correu ao caminho de ferro.
Só a viagem bastava para lhe restaurar as forças. Quando á noite chegou
a Albergaria, parecia-lhe que todos os soffrimentos tinham sido apenas
um sonho mau.
Não o sentiu porém assim a pobre e velha mãe que, recebendo-o
surprehendida e alvoroçada, ao attentar na sua physionomia escalavrada
por dez dias d'ausencia de Emilia, mal poude conter as lagrimas.
Claudio mentiu-lhe. Fôra uma constipação com alguma febre, uma noite que
se demorara na Matta. O medico dissera-lhe que só passados vinte dias
podia continuar no tratamento e por isso voltára para casa.
N'isto, beijou-a, intimamente pedindo n'este beijo, supplica muda,
perdão da mentira. Ella estranhou-o mas, tomando o apenas como sêde dos
seus carinhos, passou-lhe a mão no rosto, affagando-o.
--Não ha de ser nada, se Deus quizer... Parecia-me que o coração me
adivinhava qualquer cousa, quando te vi sair.
O serão prolongou-se até muito tarde, Claudio perguntando pelo que se
passava em Albergaria e a mãe ouvindo o que era a vida nas Caldas.
--Ai, Senhor! Que dinheiro se gasta n'essas cousas! exclamava. E tanta
pobreza por esse mundo...
--E Emilia!?
--Não a tinha visto, mas dissera-lhe o filho, na egreja, á missa, onde o
tinha encontrado, que a mãe não saia porque andava um pouco doente.
Claudio estremeceu. O quê?! Ella tambem!... E calou-se um instante,
absorvido n'esse pensamento, entre o temor e a alegria.
Bateu uma hora da noite. Era tempo de se deitar, dizia a mãe; precisava
descansar, não lhe voltasse a febre.
O filho beijou-lhe a mão e recolheu-se ao seu gabinete, a caminho do
quarto em que dormia, que era contiguo.
Abriu a janella para lançar os olhos sobre o jardim. Quantas vezes nas
Caldas se lembrara com penetrante saudade d'elle e da sua
tranquillidade, a que associava o vulto de Emilia! Vinha do norte uma
densa névoa que envolvia as arvores n'uma gaze humida e fresca, das
magnolias rolavam gottas d'agua caindo descompassadas sobre as folhas
seccas que juncavam a terra, e as aguas rumorejavam sumindo-se nos
sorvedouros que atravez da encosta as levavam aos ribeiros. Toda a voz
humana se calava, só a natureza cantava o seu infindo e eterno canto.
N'aquella frescura Claudio procurava um balsamo, mas a inquietação
abrazava-o, embalde o peito arquejante se dilatava nas auras matutinas.
Esperava um somno tranquillo. Entre as nuvens de poeira que o tinham
acompanhado ante-gozára o repouso no seu leito, no silencio do seu lar e
na alegria de voltar em poucas horas a vêr Emilia; e o silencio não lhe
trazia repouso e a frescura não lhe abrandava esse fogo estranho que lhe
corria nas veias!
Mentira á sua mãe. Esse pensamento torturava-o. Nunca o tinha feito.
Queria affastal-o, procurava motivos que lhe satisfizessem a
consciencia. Mentira, é verdade, mas que mal resultava d'ahi? Não fôra
só para occultar o seu amor por Emilia? E a quem interessava esse amor
senão a elle, a elle só? Debalde! A razão não lograva dominar a dôr que
estava ali, como um espinho, cravada no coração, penetrando cada vez
mais fundo. Depois, Emilia... que lhe diria, que pensava ella?...
Lembrava todo o passado, os continuados passeios, as palestras intimas,
a mutua confissão de todos os cuidados, de todos os bens e de todos os
males da existencia de cada um. Muita vez se tinham referido á sua
amizade mas nunca entre elles se fallára de amor.
Para Claudio essa illusão terminára. Sabia que a paixão o consumia.
Havia de occultar-lh'a porque era uma offensa á sua honra e porque, se
ella a adivinhasse, havia de repellil-o com a sua intemerata virtude.
É verdade que a mãe lhe dissera que Emilia tambem adoecera na sua
ausencia... Mas não! Era impossivel! Não cabia na sua candura a sombra
d'um pensamento criminoso. Criminoso?! Pois era crime o affecto entre
duas almas irmãs e o desprezo do homem vil a que Emilia se achára ligada
n'um momento infeliz? Convenção estupida contra que a natureza protesta,
frageis leis humanas que a vida deroga a cada instante, desmentindo-as e
escarnecendo-as!
E todavia não podia libertar-se da duvida! A convicção não lhe empolgava
o espirito. Mentira a sua mãe, havia de mentir-lhe todos os dias
occultando-lhe o intimo do seu coração, fugiria de todos guardando o
segredo de que córava, perseguido pelos phantasmas implacaveis da sua
consciencia. A consciencia! Tambem o amor era crime? Que tinha elle com
o que o mundo pensava?
Não fôra intencionalmente que procurara aquella mulher, não era seu
direito,--lera-o nos livros, aprendera-o nos evangelhos da
sciencia!--conquistar todos os bens que a sua força podesse alcançar? A
vida era uma lucta. Gloria aos vencedores, vergonha aos vencidos! Queria
a sua hora de luctador, queria a sua hora de triumpho, queria as palmas
da victoria, elle que tão mal dispendera os primeiros annos da mocidade
n'um timido recolhimento. Mas voltava uma onda de amargura... Não, não
podia ser! E a honra de Emilia? e o seu nome? e os seus filhos? Que
duvida! que angustia!...
Altas horas, adormeceu, prostrado d'este doloroso meditar. O somno foi
breve; pela madrugada ergueu-se e desceu ao jardim.
O sol bebia os orvalhos da noite, uma branda aragem do norte varrera a
névoa, no ceu azul corriam ligeiras, a perder-se no horisonte, pequenas
nuvens alvas e leves. A natureza despertava para a vida, e no
renascimento da luz Claudio colhia a sua parte de vigor.
A inquietação da noite fôra um desfilar de phantasmas que iam longe,
como as nuvens para que levantava os olhos. Talvez a febre, o cansaço da
jornada... Em poucas horas veria Emilia. Havia de occultar-lhe a
tempestade por que passara, transformal-a em pura e candida amizade.
Fôra um erro, uma falta, ter mentido a sua mãe. Pezava-lhe ainda,
magoava-o. Para o futuro, porém, não teria necessidade de a repetir
porque na sua existencia nada haveria que precisasse occultar. Todas as
attribulações dos ultimos dias passavam como um sonho mau, e ia seguindo
pelas ruas do jardim na embriaguez do leve perfume que as ultimas rosas
espalhavam no ar, juncando a terra, desfolhadas e emmurchecidas pelo
estio.
Á beira do lago pendia d'um rochedo um jasmineiro; sobre as aguas
boiavam as suas flores singelas e brancas. Debruçou-se, ajoelhado na
terra e colheu um ramo. Era para Emilia.
Voltou a casa contente e almoçou com a mãe. Tinha dormido pouco,
dizia-lhe, talvez excitado da jornada, mas sentia se bem, com bom
apetite. O dr. Carvalho é que o aconselhara mal;--coitado!--de boa fé. O
que elle precisava não eram banhos das Caldas, era estar em casa
socegado com os seus livros e as suas flores. Ali sim, ali é que tinha
saude.
A mãe applaudia: graças a Deus nunca precisara sair da aldeia senão para
ir a Coimbra ou á Figueira, no S. João. Sempre assim vira fazer aos da
sua condição. Agora é que tudo eram doenças e banhos de mar e remedios
da botica. Muito dinheiro e pouco que fazer! Não sabia como essa gente
governava o que era seu, a sair a cada instante, a casa sempre em mãos
dos creados. Deus a livrasse de tal vida! Até tinha escrupulo...
Onze horas. Claudio levantou-se. Ia vêr o dr. Carvalho, explicava,
passaria por casa de Emilia, e depois viria descansar. Tinha medo do
calor, estava muito fraco.
Saiu e dirigiu-se a casa do dr. Carvalho.
O dr. Carvalho estava no escriptorio, de esporas, chicote na mão e
chapeu na cabeça, ouvindo um cliente. Correu risonho de braços abertos
para Claudio.
--Estava agora mesmo para ir a sua casa. Fui ao Amial que tenho lá uma
mulhersinha com uma perniciosa,--e bem mal,--e ia vêl-o. Então como vae,
diga-me cá? Que foi isso? Aqui ficamos todos muito surprehendidos ao
dizerem-nos que tinha voltado. Foi o Martins, quando veiu ao chá, que
trouxe a noticia. Ainda quiz ir saber como tinha chegado mas estavam cá
as Silvas e depois, quando ellas sairam, era tarde, já passava da meia
noite.
--Isto não foi nada. Demorei-me um dia a conversar na Matta com o
conselheiro Andrade, estava fresco,--ali nas Caldas ha para tarde um
norte mesmo frio, e a bronchite aggravou-se. Tive uma febricula. O
medico do hospital disse-me que devia suspender os banhos e, em vista
d'isso, achei que o que tinha a fazer era vir-me embora. E fiz bem! Já
esta noite dormi descansado.
--Em todo o caso, tenha cuidado. Eu acho o ainda palido e um bocadinho
abatido. Deixe cá vêr esse pulso... Está bem, mas tenha cuidado, tenha
cuidado. Nem mesmo devia sair com este calor.
--Não vou para longe; quero só visitar os amigos. D'aqui a pouco estou
em casa.
A visita foi breve, Claudio contando rapidamente como se passava o tempo
nas Caldas e o dr. Carvalho referindo o que se passára em Albergaria.
Tudo muito desanimado com a falta de Claudio; até aos serões pouca gente
tinha apparecido. A Emilia não saia, andava um pouco incommodada do
estomago, o dr. Maia estava para a Beira, elle, Claudio, nas Caldas, o
Ricardo sempre a caminho de Coimbra; só as Silvas e o reitor é que se
conservaram firmes. Quasi nem havia parceiros para o quino.
Saindo de casa do dr. Carvalho, Claudio dirigiu-se á repartição de
fazenda, á esquina da rua da Cruz.
O seu desejo era ir immediatamente a casa de Emilia, mas já desconfiado,
procurando evitar toda a suspeita, com a astucia vulgar dos namorados
que a ninguem illude senão áquelles mesmos que a usam, foi primeiro
procurar o Ricardo para fazer crer que o interesse e a amizade se
estendiam a toda a familia.
O Ricardo, mal o viu, levantou-se logo.
--Como está v. ex.ª tem passado bem? perguntou muito respeitoso,
afastando a cadeira com ruido e atirando apressado o cigarro para o
escarrador.
--Um pouco incommodado; foi por isso que voltei mais depressa.
E reeditou a velha historia da Matta, da bronchite e do medico que só ao
fim de vinte dias o deixava continuar a tomar banhos.
--Ora muito sinto, muito sinto, repetia Ricardo, procurando dar á voz
uma intonação magoada.
--E em sua casa, a sr.ª D. Emilia e os pequenos como vão?
--Muito obrigado, os pequenos optimos, cada vez mais travessos; a Emilia
é que não tem passado bem, com uma grande falta de appetite e muito
fraca. O dr. Carvalho já lhe receitou uns granulos de quassina e de
arseniato de strychnina, mas ella teimou em não tomar nada. Que está
bem, que está bem, que não precisa remedios... Deus queira que não me dê
ainda alguns trabalhos!
--Eu hei de ir vêl-a, disse Claudio mostrando desprendimento mas
intimamente ancioso.
--Olhe, deixei-a agora mesmo a costurar na sala. Fui a casa beber uma
cerveja, que este calor mata-me! Nem posso trabalhar, tem-se me atrazado
o serviço!...
Claudio aproveitou o ensejo.
--Não quero interrompel-o por mais tempo, á noite conversaremos com
vagar... Então, se me dá licença, vou ali vêr a sr.ª D. Emilia... Até
logo...
--Não se incommode... dizia ainda para Ricardo que se dispunha a descer
a escada e a acompanhal-o até á porta.
Os poucos passos que medeavam entre a repartição de fazenda e a casa de
Emilia foram para Claudio lentos e compassados. Dominando os movimentos,
por um esforço da vontade, julgava dominar a anciedade e porventura
libertar-se assim da inquietação. Á porta bateu cautelosamente, o peito
opprimido, suffocado de impaciencia. Lembrava-se da primeira vez que ali
fôra. Tambem então estava ancioso, em alegres esperanças de conquista, e
agora,--quanto caminho andado em tão breves dias!--ali estava novamente
mas escravisado pela paixão, torturado de duvidas, turvado pela dôr.
A creada desceu, como de costume, abriu, e d'esta vez, sem hesitações,
exclamou:
--Ah! o sr. dr. Claudio!... Faça favor de entrar. A sr.ª D. Emilia está
na sala!
Claudio subiu. Entrou na sala, quando Emilia, já de pé, tendo ouvido a
sua voz e apressando-se a deixar a costura, vinha ao seu encontro.
As mãos apertaram-se n'um movimento de franca e irreprimida alegria;
n'um momento pareciam magicamente dissolvidas todas as duvidas e todas
as dores.
Sentaram-se e a conversação começou precipitada, rapida. Sentiam-se
ambos bem; á frescura da sala com as janellas semi-cerradas juntava se a
frescura do espirito faiscante no contacto dos dois corações amorosos.
Para Claudio as Caldas eram uma estação deliciosa; as horas passavam se
ligeiras em concertos, em bailes, em passeios, n'uma festa continuada de
graça, de luxo e de elegancia. Lembrara se lá muitas vezes de Emilia.
Como ella havia de apreciar aquelles dias que correspondiam tão bem á
delicadeza da sua educação! O peior fôra a constipação que não o tinha
deixado concluir o tratamento. Seria outro anno! Paciencia. Tambem tinha
a compensação de se vêr na tranquillidade da sua casa.
Emilia estava um pouco surprehendida com a doença de Claudio. Só pelo
jardineiro que trouxera o ramo de jasmins soubera do seu regresso, que o
Ricardo, conforme velhos habitos, em casa só parava para dormir e comer,
pouco fallava. Mas suppozera que se tinha aborrecido da vida e da gente
que elle chamava ironicamente a gente fina, e por isso voltára ao ninho.
Ella, tambem, tinha passado mal, do calor, provavelmente; uma
inapetencia e uma fraqueza que a não deixavam um instante. Não tinha
saido de casa, nem uma só vez, depois que elle partira.
N'este ponto, a conversa esmoreceu e fez-se um momento de silencio.
Claudio fitou Emilia, viu-a pallida, os olhos cavados, todo o viço
minado pela paixão.
Perpassando-lhe pela mente, n'uma vertigem, a lembrança da torturante
saudade que soffrera, arquejante de desejo, caiu de joelhos, e
beijando-lhe as mãos que apertava nas suas convulsivamente:
--Emilia! Emilia! balbuciou com a face occulta no regaço.
Ella, muda de surpreza e entorpecida d'amor, mal tentou desembaraçar-se
dos laços que a prendiam.
De repente, Claudio levantou-se, como n'um subito e apavorado despertar:
--Perdoe-me, perdoe-me pelo amor de Deus, disse para Emilia.
E tremulo, desvairado, correu a esconder-se em casa.
IV
Olhe, ahi vem o dr Carvalho que lhe póde contar alguma cousa, dizia o
boticario para o recebedor, atirando os dados sobre a taboa do gamão.
--De quê? do calor? perguntava o Carvalho entrando. Tem sido de morrer.
Esta manhã tive de ir a Sarnadas...
--Mas responda lá, é verdade ou não é?
--Respondo... mas hei-de saber primeiro o que me pergunta.
--É verdade que o Claudio vae todas as noites, á uma hora, para casa da
D. Emilia emquanto o bebado do Ricardo está no melhor do seu somno?
--Ora...
--Ora!... Elles até já teem saido a passeiar! Ainda a semana passada
umas mulheres, que iam ás tres horas da noite para a feira de Monteiros,
os encontraram sentados lá em baixo, ao pé da fonte. Tambem agora só de
noite... que de dia não se pára com calor.
--Eu acredito lá n'isso! Quando mesmo fosse verdade o que vocês querem
dizer, ella ia deixar o marido, os filhos e a creada, e sair para fóra
de casa! Bastava que um d'elles accordasse para a comprometter.
--Vê o doutor o Claudio por aqui?!... Metteu-se na toca como um rato
dentro do queijo. É que arranjou coisa melhor que a nossa companhia. E
faz bem. Olhe que eu antes me queria com ella aos couces que com o nosso
recebedor aos beijos. Não é peste nenhuma.
--Não sei... essas cousas são faceis de dizer. Vejo-os em minha casa
todas as semanas, ainda não descobri n'elles signaes de namoro.
Conversam, jogam e até ás vezes passam quasi toda a noite sem se
aproximarem um do outro.
--Não que elles iam mesmo namorar-se para sua casa! Se não fallam um com
o outro é porque andam entendidos. Para mim é mais uma razão. Que o
doutor deve defendel-os... Tambem nos saiu bem bom...
--Adeus, adeus, que estão hoje com muito má lingua, apressou-se o
Carvalho a dizer, fugindo com receio de que lhe fallassem na Silva que
continuava a seguir, com boas esperanças de conquista.
Estavamos a este tempo em fins d'agosto, mez e meio depois que vimos
Claudio saindo como um louco de casa de Emilia. De facto, retraira-se;
com o pretexto nos seus estudos e na sua debil saude, fechara-se em casa
e quasi ninguem o via. Entregara-se por completo ao drama da sua
existencia.
Aquelle dia em que de volta das Caldas tinha ido vêr Emilia, ficára-lhe
na lembrança. Fôra a hora mais cruel de toda a sua vida. Recordava-o a
todo o instante, como se trouxesse cravado no peito um punhal que lhe
rasgava as carnes a cada movimento.
A mãe estranhára-lhe a pallidez vendo-o entrar. Não era nada, resultado
da fraqueza e do calor; ia dormir um pouco... Fechou-se no quarto,
atirando-se para um sofá, succumbido de pavor. O que fôra? Que loucura o
fizera ajoelhar aos pés de Emilia? O que pensaria ella? Perdel-a-ia,
julgando-o um vulgar conquistador, ou começava uma vida d'amor? Que
fizera dos seus propositos de amisade e da energia com que havia de
dominar toda a paixão? Por outro lado, pensava, ella resistira
frouxamente quando elle lhe apertou as mãos. Era pois verdade que o
amava?
Um refrigerio se lhe derramava nas veias. E a mãe? Ai! mentira-lhe; tão
cedo olvidára as torturas da noite! Não, não seria assim, não seria
levado por uma hora de desvairamento. Havia de voltar a casa de Emilia,
poderia agora abrir-lhe completamente a sua alma, fazer-lhe inteira
confissão do seu amor, das suas duvidas e ella, se o amava,--era certo,
era certo!--havia de querer, como elle, uma vida pura, uma vida sem
macula, em que nenhum tivesse de córar nem perante o mundo, nem perante
a propria consciencia.
A consciencia! Voltava esse estranho phantasma. Onde, em que livros, em
que systemas aprendera a guiar-se por esse feitiço interior, onde vira
provada a sua existencia? Imaginação doente! Não havia consciencia, não
havia deveres deante de dois entes aproximados pelos impulsos do amor
que os abrazava e confundia. Ah! pensasse baixinho... estava ali sua
mãe, sentia-lhe os passos, vinha talvez escutar, saber se dormia. Não
fosse adivinhar o que lhe passava pelo espirito e morrer na cruz de
tamanha dôr! Que lhe dissera ella na estreita sala de Villalva, pelas
noites de luar, ao pé do Christo? Lembrava-se agora! A consciencia, a
consciencia!
Fôra alli que se lhe revelára essa apparição que o vigiava
implacavelmente.
Havia de obedecer-lhe. Sentia um fremito de coragem que o erguia do
abatimento e da duvida. Mas não!... Delirava.
Não eram escrupulos que o atormentavam, era o receio de perder o amor de
Emilia, de se ter apartado para sempre do seu coração, ferindo-a na sua
virtude. A que baixeza descera!
Não eram melhores os remorsos, a consciencia atribulada, que esta misera
prisão á fragilidade d'uma mulher? Quem lhe déra libertar-se! Porque não
havia de o fazer? Para que voltaria a casa de Emilia? Cobardia! Havia de
a insultar e fugir? Pediria primeiro o seu perdão,--ai! quanto lhe seria
doce! depois... talvez, talvez...
E o seu espirito perdia-se n'um labyrintho e o coração vogava em ondas
de dôr.
N'este martyrio passou todo o dia. Ao jantar queixou-se á mãe. Ainda não
se sentia bom. Se fosse estar dois dias em Villalva, poderia fazer-lhe
bem a mudança d'ares. No dia seguinte resolveria, conforme fosse a
noite.
Interiormente, esta palavra fazia-o tremer. A noite! O que iria
passar-se entre elle e Emilia? Contava uma a uma as horas que o
aproximavam d'esse momento decisivo e, por mais doloroso que o
imaginasse, apetecia-o.
Ás oito horas batia á porta da pequena casa da rua da Cruz. A custo
subiu a escada; o corpo mortificado arrastava-se pesado e lento, banhado
n'um frio suor d'agonia.
Mal entrou na sala, deixou-se cair sobre uma cadeira. Emilia
estendeu-lhe a mão, silenciosa, mais pallida ainda do que elle a vira de
manhã, com lagrimas de emoção a toldarem-lhe os olhos. Claudio olhou em
volta. Estavam sós. Podia fallar.
--Por certo me terá julgado severamente, mas se quizer fazer-me a esmola
de me ouvir,--é uma esmola,--ha-de perdoar-me.
--Não tenho que lhe perdoar, interrompeu ella tremendo, escusa de me
dizer cousa alguma, sei muito bem o que se passa no seu espirito... Eu é
que sou infeliz!
E as lagrimas desprenderam-se-lhe pelas faces.
Fez-se uma longa pausa e a conversação continuou.
N'esta mutua confissão em que o amor desabrochava, sentiam-se ambos bem;
partiram-se as cadeias que os prendiam n'um mutismo oppressivo e as
palavras voaram como um bando de rolas soltas á luz por uma alegre
madrugada.
Claudio podia contar todos os soffrimentos por que passára e Emilia
responder-lhe, descobrindo a seu turno o intimo do seu peito.
Tambem ella tinha soffrido muito ao vêr crescer esta affeição.
Chamava-lhe assim, repugnava-lhe a palavra amor em que sentia mais de
perto a quebra da fidelidade conjugal.
O adulterio repugnava-lhe, invocava para o repellir o dever e a
religião, sem todavia sentir a profundeza d'aquellas obrigações.
Repugnava-lhe porque era feio, era de mau gosto, contradizia os
preceitos da sua educação e não cabia no convencionalismo estreito que
era toda a sua regra moral, vasia de sentimento.
Envergonhar-se-ia de ser infiel ao marido pelas mesmas razões que a
levavam a passar noites crueis procurando tirar dos seus farrapos trajos
elegantes, para competir com a gente fina cujas relações frequentava.
Claudio ouvia e applaudia, penetrado de admiração perante tão sublime
virtude, ingenuamente julgando ter encontrado par ás suas duvidas e
atribulações, onde de facto só havia um fragil simulacro de grandeza
moral.
Esta noite, que se annunciára tormentosa, derramava em ambos os amantes
uma tranquillidade profunda.
Tudo agora ficava determinado d'uma vez para sempre.
Perdoada a falta de Claudio, que se punha á conta do arrebatamento
produzido pela presença de Emilia ao fim de tantos dias de saudade,
quebrada toda a repressão dos sentimentos intimos, podia assim
reconhecer sem remorsos o seu mutuo affecto todo impregnado de respeito.
Seriam como irmãos; elle com a sua amizade trazer-lhe-ia lenitivo á
tristeza da infelicidade conjugal, aconselhando-a, guiando-a e
amparando-a pela presença d'um coração fiel, ella havia de banir a
aridez das horas de estudo de Claudio pelas graças do seu espirito. A
vida tornava-se perfeita.
O encontro d'aquellas duas almas fôra um bem providencial para ambos,
perdida uma em busca de carinhos, perdida outra na desventura d'um
destino amargo.
Duvidas, saudades, hesitações, tudo se dissipava nas brizas propicias do
amor triumphante. O espirito vergou-se ao sentimento e acceitou, sem
perplexidade nem confusão, esse flamejar de desejos, tomando-o por uma
aurora luminosa e serena.
Claudio entrou no seu palacio, fatigado mas alegre, a refazer-se n'um
somno povoado de venturas. No dia seguinte podia dizer á sua
mãe:--Graças a Deus, estou melhor;--e ella veria contente, como a benção
das suas orações, a vida e o rubor voltar ao rosto do filho.
Pela calma do estio as flores beberiam o viço nos regatos e a natureza
havia de povoar-se de vozes harmoniosas e clementes, cantando em côro
com os amantes felizes.
Era boa occasião de voltar ao estudo, satisfeitas as vagas aspirações
sentimentaes que nunca deixavam de o seguir. Tinha o affecto da mãe e de
Emilia. Que mais precisava? Devia mesmo romper com perniciosos habitos
de ociosidade provinciana, gastando-se a inquirir das intrigas do
soalheiro e expondo-se a ouvir, com a brutal liberdade da gente rude,
allusões ás suas relações com Emilia que outros poderiam interpretar
injustamente. Por isso deixára de frequentar a botica, armado para uma
vida de pureza e de saber. Na seccura das suas preoccupações
racionalistas infiltrava-se um desconhecido fermento de poesia cujos
primeiros e rapidos movimentos lhe davam a illusão da felicidade.
D'essa illusão partilhava Emilia, e para ella era completa. Rapidamente
esquecera o dia em que Claudio voltára das Caldas; na sua leviandade
mulheril, entregava-se sem reservas ao prazer da hora presente.
Ella, tão pobre de carinhos, abandonada do marido que cada vez mais se
entregava aos seus vicios, sentia como uma infinita suavidade a nova
atmosphera de affecto que a envolvia. Já não havia dores que fossem
unicamente suas, já não havia cuidados que não tivessem confidente,
afflicção que não tivesse soccorro. A imagem de Claudio
entranhava-se-lhe no coração como o supremo bem e sabedoria. Era bello
tudo o que elle amava, era bom quanto elle julgava bom. Deixára de a
tentar o ruido das festas, a vã agitação por que algum tempo suspirava,
para esquecer as mágoas; a natureza e o seu silencio ou os seus
mysteriosos murmurios diziam-lhe agora mais que todos os artificios que
com delicia lhe deslumbravam os olhos.
Para elle, ainda não chegára a hora de inteira tranquillidade. Estava
bem, não havia remorso que lhe pesasse, poderia confessar toda a sua
vida. Mas não a confessava. Porque? Não era tão puro, tão casto o seu
amor por Emilia? Não córava elle lembrando-se que algum dia pensára em
fazer d'ella sua amante? Não estava resgatada essa affronta, que nunca
communicára a ninguem, pelo respeito com que agora a idealisava,
santificando-a e adorando-a como martyr? Embora!
Não ousava fallar de Emilia, temia que alguem manchasse com ruins
desconfianças este amor immaculado. Nem á sua mãe o confessava; na
ingenuidade do seu pensamento condemnaria talvez o affecto por uma
mulher casada e não poderia comprehender a isenção do filho.
Por isso se calava, por isso fugia d'antigos companheiros com que
francamente ria de amorosas aventuras picarescas, arrastando dentro de
si, como um pendulo que oscilla e mortifica, esta constante reserva e o
temor do que elle julgaria injustiça. A sua vida era feliz, mas
apertava-se dolorosamente, cercada de phantasmas.
N'este idyllio se consummiram quatro mezes. Claudio frequentava pouco a
casa de Emilia, sempre perseguido d'uma vaga suspeita do naufragio da
honra da sua amada.
Encontrava-a em casa do dr. Carvalho uma vez cada semana, via-a na
egreja, acompanhava-a nos seus breves passeios. Só de longe em longe a
procurava na rua da Cruz, contando os dias, para que a frequencia se não
tornasse notada da visinhança. Inutil cuidado; o cynismo vulgar, melhor
inspirado do que o idealismo poetico, não se illudia sobre a realidade,
satanicamente commentava a familiaridade e sorria.
Uma tarde, nos primeiros dias de dezembro, á hora em que o sol ia
baixando e um frio sereno e humido annunciava os gelos da noite, Claudio
entrava na villa, regressando d'um passeio a Palhares, com Emilia, com
as Silvas, a mulher do dr. Carvalho e o Maia.
Este, tendo partido um casamento rico que tentára na Beira, voltava-se
agora com mais insistencia para a Silva, tanto mais que lhe haviam dito
que ellas tinham em Monteiros um tio rico de quem seriam herdeiras.
Averiguára pelo juiz que lá estava, um seu parente, e viera a saber que
o homem era realmente rico; pagava uns noventa mil réis de contribuição
predial, tinha bastante dinheiro a juro, fóra um bom mealheiro que
guardava em casa, como grande avaro que era. Não constava que tivesse
testamento, nem o faria porque isso lhe repugnava. Os unicos herdeiros
eram as sobrinhas.
A herança devia estar para breve. Elle contava setenta e quatro annos,
já o anno passado tinha tido um antrax que o pozera ás portas da morte,
e os medicos diziam que não podia ir longe; havia desordens no
funccionamento dos rins, perigosas e incuraveis.
A duvida era uma unica: este homem tinha um filho natural d'uma creada,
mas nunca o reconhecera, correndo-o com uma bengala uma vez que o
pequenito, por conselho da mãe, lhe pedira a benção no meio da rua.
Pretendia que elle fosse filho d'um creado, com quem a rapariga tivera
amores, mas, para maior segurança, quando o rapaz tinha quatorze annos,
mandou-o para o Brazil. Sabia-se que elle vivia e que de lá soccorria a
mãe, a quem o velho abandonára na miseria.
O Maia, porém, não se assustava com isto; já conhecia alguns casos mal
parados de investigação de paternidade illegitima que o affoitavam,
quasi se sentia tentado com a demanda para dar largas á sua actividade
profissional, e conhecia o processo por que ordinariamente estes
terminam casos.
O rapaz não tinha dinheiro para custear o pleito e viria a uma
conciliação, contentando-se com uns magros contos de reis.
Na verdade, esse grupo que vinha estrada acima cantando louvores á
natureza,--a tarde estava lindissima! não se cansavam de
repetir,--cuidava apenas de amores.
O Maia procurava mulher e fortuna; Claudio contemplava a sua Emilia; a
Silva, a mais velha, que dizia agora que não se queria casar porque não
estava para aturar homens,--queria a sua independencia!--a cada instante
olhava para traz, a vêr se descobria o dr. Carvalho que tinha ido á
Varzea visitar os doentes, e a mulher do Carvalho, que andava muito
inflamada em ciumes, vinha guardando a amante do marido.
Pararam na praça. Havia alli um grande ajuntamento, em volta d'um
trapezio erguido no meio da calçada e tapetado em baixo com immundos
farrapos.
No trapezio estava sentado um homem magro, as faces cavadas, vestido
d'uma desbotada malha côr de rosa, calçado de cothurnos brancos; em
baixo, de pé, uma mulher, tambem vestida côr de rosa, saia curta,
coberta de lantejoulas que se estendiam em arabescos pelos hombros,
levantava do chão uma creancita magra, longos cabellos louros e olhos
azues, e arremessava-a ao homem do trapezio. A creancita, voltando-se no
ar, soltava um grito agudo e o homem recebia-a nos braços.
Claudio voltou-se constrangido, para não presencear este quadro de
miseria, e, ao lado d'elle, uma rapariga do povo, que era linda, voltou
as costas tambem.
--Credo, Virgem Nossa Senhora, nem quero vêr! disse ella.
--Eu tambem não gósto, respondeu Claudio.
--Quem ha-de gostar de vêr o innocentinho alli aos trambolhões?! Até
parece que o desmancham.
--São modos de vida. A fome tudo póde.
--Antes pedir esmola.
E trocaram ainda mais umas breves palavras, com uma subita sympathia
tirada da mesma compaixão.
O dr. Carvalho não tardou a chegar, risonho e animado.
--Vamos para casa, disse para a Silva, antes que se faça noite, que lhe
quero dar um ramo de violetas como ha muito não vê. Tenho-as lá
magnificas. Deu-m'as o jardineiro da condessa de Albergaria. Uma
maravilha!
A mulher do Carvalho córou, e lá seguiram todos a caminho do jardim.
Claudio acompanhou-os até á porta e voltou a casa, para não mais sair
n'aquelle dia. Emilia ia taciturna.
--Tão calada? perguntou Claudio.
--Estou com frio.
--Deus queira que não lhe vá fazer mal.
E separaram-se.
No dia seguinte, á tarde, Claudio foi á rua da Cruz saber de Emilia.
Com grande surpreza, appareceu-lhe Ricardo, dizendo que a mulher estava
muito incommodada desde a vespera.
Logo ao chegar a casa, fôra atacada de vomitos; desde então nunca mais a
tinha deixado uma violenta dôr de cabeça.
--Até chorava, dizia o Ricardo.
Tinha querido chamar o medico, mas ella toda se exaltára com a
lembrança, dizendo que isso ainda lhe fazia peior, que nunca se chamou
um medico por uma dôr de cabeça e que o maior beneficio que lhe podiam
fazer era deixal-a só, em paz e socego.
Claudio ficou no maior desalento. Evidentemente, tratava-se d'uma doença
grave, para que Emilia não fizesse o esforço de se levantar do leito e
vir vel-o quando não podia ignorar que elle ali estava. O seu primeiro
impulso foi instar pela assistencia d'um medico, mas depois,
reflectindo, receiava contrarial-a e aggravar o mal. Resolvia esperar
mais vinte e quatro horas que antecipadamente sabia serem de agitação.
A noite foi afflictiva. A possibilidade da morte de Emilia perseguia-o
como um espectro, povoando-lhe a escuridão de visões tenebrosas. O
despontar do dia, porém, alliviou-o; dissipava os sonhos, parecia
dar-lhe consciencia mais nitida da realidade. Não seria cousa grave! A
sua imaginação é que tinha certa tendencia a representar-lhe o peior.
Até poderia ser que áquella hora tudo estivesse passado! O que o
preoccupava agora era determinar a hora de ir vêr Emilia.
Preferiria a tarde para não mostrar excessivo cuidado. Oh! Senhor, que
vida! Não ter a liberdade de confessar os seus sentimentos, sempre em
continuados temores, fugindo como um criminoso... E não o era!
Mas não podia esperar tanto. Sete horas da manhã!... Teria ainda dez
horas. Impossivel. Iria depois de almoço. Que lhe importava o que
podessem dizer. Ia ás occultas, porventura?...
Era meio dia quando chegou á rua da Cruz. Á creada perguntou por Emilia.
Estava melhor, já se levantára, até de manhã descera um bocadinho ao
jardim.
Subiu ligeiro e contente, alliviado d'um grande peso; entrou na sala que
estava deserta, Emilia tardava e por certo já lhe tinha ouvido a voz...
Era singular! Ella que sempre corria para elle tão pressurosa...
Decorreram longos minutos, Emilia aproximava-se a passos lentos,
compassados, parando a meio do corredor, para dar á creada umas ultimas
ordens. Claudio esperava-a de pé, frenetico, movendo-se nos dois passos
que medeavam entre a meza e o sofá.
De repente, perpassara-lhe pelo corpo um frio de terror. Emilia vinha
para elle com aquella mesma pallidez caracteristica que já um dia lhe
conhecera e em que só os seus grandes olhos ficavam boiando como
pharoes, em braza, n'uma toalha alva e mate, orlada ricamente pelos mais
finos cabellos.
--O que tem? perguntou Claudio afflicto, prendendo-lhe a mão.
Estranho-a.
--Não sei, respondeu ella pausada e desprendidamente. Foi apenas uma dôr
de cabeça, um pouco mais violenta do que as que costumo ter. Antes fosse
uma doença grave! Que faço eu n'este mundo?!...
--Não seja injusta nem cruel com os que a estimam. Se soubesse o que eu
tenho soffrido ha algumas horas...
--Não vale a pena. Que falta lhe podia fazer? Haveria muita rapariga
fresca e nova que o cubiçasse. Conheço-me. Olhe: ainda ante-hontem vimos
uma bem bonita na praça, aquella que esteve ao pé de nós. Não lhe
pareceu?
Claudio só então comprehendeu que Emilia ardia em ciume. Correu-lhe o
sangue ao coração, seccaram-se-lhe os labios e, como uma féra
precipitando-se sobre a preza, lançou os braços em torno da cintura de
Emilia, beijando-lhe as faces em convulsões de desejo.
--Claudio, Claudio, exclamou ella, tentando libertar-se, endoideceu?
--Não, não endoideci, respondeu elle tremulo e o rosto congestionado. A
culpa é sua, unicamente sua. Fica assim convencida do meu amor?
Já não era o timido que nós viramos soluçante, implorando perdão, por
uma calma noite de julho. A cubiça e uma instinctiva mas plena certeza
de dominio tornavam-n'o arrogante e despotico. E Emilia obedecia,
defendendo-se frouxamente com o temor do escandalo e da sua vergonha,
inconscientemente dominada por um ardor de paixão que a fazia acceitar
como boas as razões que o amante ardilosamente inventava para a levar a
quanto lhe apetecia.
Não valia a religião nem o dever; a culpa era do destino que, tendo-lhe
dado um marido repellente e sordido, lhe deparava agora uma alma irmã da
sua.
Claudio voltava a casa agitado de contentamento. Todos os escrupulos,
todas as preoccupações se baniram ao alento d'aquelle corpo que tivera
nos braços, ao contacto d'aquella face cuja impressão sentia ainda nos
labios.
A animalidade vencia, a satisfação da carne punha em debandada os
terrores da alma transformando-os em deliciosas e captivantes
esperanças. Voltaria á rua da Cruz no dia seguinte, á mesma hora, quando
Ricardo estivesse na repartição e os filhos na escola. Sequioso dos
beijos de Emilia, todo se entregava a essa cubiça absorvente.
Eil-o novamente vagueando entre as flores, n'esse jardim que fôra e
seria ainda o theatro das suas inquietações, esperando o bater do meio
dia como cavallo fogoso escarvando a terra e mascando o freio, a orelha
fita ao toque do clarim que marcará a partida.
Quem lh'a déra ali, por essa tarde de dezembro em que o sol tão
brandamente penetrava a terra passando entre os troncos nus das arvores
desfolhadas pelo inverno! Iria colher violetas á sombra dos cedros e a
meiguice dos seus beijos havia de confundir-se com o perfume subtil e
inebriante, o amor a adejar na luz pallida e cariciosa.
Onde estavam as dolorosas duvidas de ha pouco, onde o respeito pela sua
amada que havia de pôr no sacrario a que não chegariam as palpitações da
concupiscencia impura? Sonhos vãos, vãos propositos! Nem d'isso já se
lembrava! Varrera-lh'o da lembrança a chama em que todo o seu ser ardia
n'uma transformação gloriosa.
Com que alegria subiu á sala de Emilia!... Mas Emilia vinha triste, os
olhos macerados, mysteriosa, perseguida d'um pavôr que nem o anceio de
vêr o amante podia dissipar. Não se assustasse Claudio... Ricardo
desconfiára, estranhára as visitas áquella hora, ameaçára-a. Tudo porém
se poderia arranjar, ella lhe mandaria dizer quando e onde se poderiam
encontrar. Depois lhe contaria pausadamente como isso se passára; não se
demorasse, saisse quanto antes. Que não se affligisse, ella era a mesma.
E abraçaram-se.
Claudio voltou a casa; todo o seu peito entoava hymnos de triumpho. Era
sua! A certeza do amor de Emilia vencia todas as atribulações e
resgatava todas as dores passadas. O ardor da paixão e a coragem
confundiam-se n'um só fogo, impetuoso, subindo para os céos, á
serenidade olympica do amor victorioso.
Na mesma tarde d'este dia em que tivéra o primeiro annuncio da
desconfiança de Ricardo, Claudio recebeu uma carta de Emilia.
O marido partira para Coimbra e ella pedia-lhe que viesse, ás dez horas
da noite, a uma pequena capella abandonada que ficava junto á casa, na
rua da Cruz, e que com ella tinha communicação interior.
Entregaram a carta a Claudio na presença da mãe, no fim do jantar. Teve
de mentir. Disse que era do prior de Villa Nova, a pedir-lhe que fosse
lá á noite. Estava com um ataque de gotta e não podia sair.
--Foi-se metter na eleição da junta de parochia e agora ha-de querer que
eu lhe dê os votos de Villalva!...
Para se conformar com o que disséra á mãe, saiu ás oito horas. Não era
verosimil ir procurar um velho, n'uma aldeia, ás dez horas da noite. E
ainda, para retardar a partida, foi preciso inventar uma carta longa a
escrever, inaddiavel, que justificasse a permanencia em casa.
Seguiria pela estrada acima, caminho de Villa Nova, e voltaria torneando
a villa, a entrar na rua que o levaria em direitura a casa de Emilia;
mas, quando chegou ao extremo da villa, eram apenas oito horas e um
quarto. Que fazer? Impossivel dirigir-se já á capella; poderiam vêl-o e
comprometteria Emilia.
Seguiu para deante. Foi sentar-se n'um logar deserto, á beira do
caminho, sobre o parapeito d'um aqueducto, esperando.
Accordava agora do desvario sensual em que todo o dia andara arrastado;
a treva, a fadiga, o silencio, o isolamento e a immobilidade forçada
despertavam-lhe a consciencia. Era um crime o que ia fazer? Não era; a
paixão convencia-o da propria innocencia. A ninguem prejudicava, nem
mesmo a Ricardo que fôra o primeiro a abandonar a mulher. Não a roubava
aos filhos, para que havia de privar-se do seu amor? Este mundo é uma
conquista; queria a sua parte. Mas porque então este sentimento
d'amargura á hora em que ia satisfazer-se a sua maior ambição? Mentia e
a mentira repugnava-lhe.
Não vira elle o que lhe acontecera com a mãe ao receber a carta?
Mentira! Era a voz que sentia echoar pelos despidos cerros dos montes e
pelas sombras do olivedo nos valles. Mentira! Mentira!... Olhava em
torno. Viria alguem?... Que importava? Quem o sabia? Oh! não, tinha-o
escripto na fronte, illuminada por uma luz de remorso. Fôra loucura...
Porque não fugiu, porque não se affastou para longe a primeira vez que
encontrara Emilia? Emilia!... Quanto soffreria ella tambem?!...
Devia-lhe amparo, fôra elle que a tentara na paz da sua virtude, fôra
elle que lhe derramara no sangue, como um veneno, aquella pallidez com
que a vira nas horas de soffrimento e que se lhe gravaria nos olhos para
s
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