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Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

by Miguel J. T. Mascarenhas · Portuguese · Gutenberg #25313 · 376,038 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte
    
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Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Author: Miguel J. T. Mascarenhas


        
Release date: May 3, 2008 [eBook #25313]
                Most recently updated: January 3, 2021

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/25313

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UM CONTO PORTUGUEZ




UM CONTO PORTUGUEZ

EPISODIO DA GUERRA CIVIL

A MARIA DA FONTE

POR

MIGUEL J. T. MASCARENHAS

PORTO

Typographia Lusitana

84--Rua das Flores--84

1873.




DEDICATORIA

A MEU FILHO

GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS


Dedico-te o meu unico livro.

Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n'elle
todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta
annos repletos de provações.

Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro
annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos
livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez»,
deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos
physicos, que me não  consentem atturados trabalhos de nenhum genero.

Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e
minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos
eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos
que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.

Guimarães, 12 de Agosto de 1873.

                                                        Teu pae muito amigo

                                                  Miguel J. T. Mascarenhas.




PROLOGO


Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.

Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por
escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa
de não compôr mais versos.

Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as
letras.

Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia,
como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr
em letra redonda a minha «letra de mão»?!

Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita
leitura,  de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita
audacia, que é o fructo da ignorancia.

Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas
obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...

Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...

Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais
eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e
imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que
dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o
bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.

Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o
prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder,
que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na
minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de
poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a
mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não
curo do concerto, para não desabar  o edificio. Se continuasse a apresentar
o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é
de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza:
morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas
as palavras.

Seria melhor?...

São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na
romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem
ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus
conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e
compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios
personagens.

Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura
pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e
da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem.
Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que
podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre
Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:

«Arranca o estatuario uma pedra d'essas  montanhas, tosca, bruta, dura,
informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na
mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois,
feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a
testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe
as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as
mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli
arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que
se póde pôr no altar.»

Guimarães, 12 de Agosto de 1873.

                                                  Miguel J. T. Mascarenhas.




PRIMEIRA PARTE

HONRA


  «No que o mundo chama _honra_ ha muitas vezes mais vaidade que virtude».

                                                   (DR. CORRÊA DE LACERDA).




UM CONTO PORTUGUEZ



I

TREZ DONZELLAS

      «....................
      Tres, sim. Não cuides
      Que te desgraças:
        Vês?
      Tres são as Graças,
      Tres, as Virtudes,
        Tres.»

              «_João de Deus_--FLOR DO CAMPO.»


Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846,
avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores
floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa,
das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O
donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem
posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada
posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga
para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam  essas feições
caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo
esta asserção--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.

Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho:
por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui
ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.[1]

D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira
fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta,
o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem
usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em
redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés
pequenissimos; mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que
todos--chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais
significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto
aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca,
ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes
que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam
em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de
trezentos mil cruzados em dote.

Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as
magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por
ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.

A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á
força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus
nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis
resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida,
e muito além do geral das senhoras portuguezas.

Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao
espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.

Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião
teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.

As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima,
estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito
parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão
similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os
nomes.

Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas;
fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de
fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam
abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.

Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças  religiosas, que tocavam
na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa
de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas
apparencias, a que ella sabia chamar _phantasias sagradas_.

Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim
dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a
rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á
boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi
correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e
voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas
da mesma classe.

A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas
dezoito primaveras.

Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo,
o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.

Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde
rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e
a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras,
como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria
d'aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que
pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera
embebidos os olhos, e a alma presa.

Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por
Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez
fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza.

Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco
certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os
rumores de que se faz echo.

Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e
de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo.
Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi
desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua
laboriosa e rude familia.

Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como
iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham,
aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato
da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição
humilde.

Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só
d'esta herança desdenham.

Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma
geração briosa, e heroica!

Porquê?

É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não
póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel
mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do
seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...

Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de
todas as classes sociaes.

Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a
muito.

Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem
testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes
aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?

Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que
decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer,
com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e
bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira
engastada em oiro purissimo.

O colloquio das tres donzellas, fôra assim:

--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel
Anna, o que tens tu?

--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela
interrogada, a falladeira Rosa.

--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses fidalga,
como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a
religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de
mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...

--Diz bem fidal... snr.^a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices...
mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas,
que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas.

--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?

--Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha
segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.

--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e
desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem
revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a
desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para
logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um
vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e
diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu
casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a
minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras
me assusta; e...

--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso.
Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas
graças, a nossa commum amiga?

--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco
algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a
necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de
Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.

--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do
Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos
preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.

--Se tu confessas que foram aprendidos, como  posso eu ter culpa das culpas
alheias?... Não é assim, minha senhora?

--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O
favor que me fazes de _tua senhora_, é que eu não queria receber. Chamai-me
só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e
proprio das nossas idades, como eu appetecia.

--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais
estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...

--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a
muito se fôres bem fadada por Deus.

--Vês, Rosinha, _minha vassalla_, que o mal da inveja tambem toca nas almas
como a da nossa Annitas!?

--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que _pensa o que diz_... mas é
muito de crêr que nem sempre _diga o que pensa_...

--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido...
Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente
reunida na serra de Guilhufe!...

--É muito povo, é, snr.^a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas,
as duas amigas da fidalga.

--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o
sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle
ajuntamento...

Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo,
respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a
outro--é... a «Maria da Fonte!»

    [1] Na _Historia da casa de Lara_, e n'um manuscripto, de 1676, do
    padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se
    escripto==_Avendanho_==; mas os modernos senhores do nome,
    assignam-se--_Abendanho_. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para
    Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de
    cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas
    manchadas de sangue, com a legenda: _Sine sanguine non est
    victoria_.




II

RUGIDO


  «Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se
  intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça
  todos esses remedios?»

                                               (_Vieira_--ARTE DE FURTAR.)


Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão
justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão.
Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D.
Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os
velhos senhores d'ella.

Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação,
que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção,
encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela
solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações
portuguezas.

Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio
florido, ainda ao brasido»--havia  lume no fogão. Em cima de uma mesa
circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e
postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de
pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos
em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas
gerações.

Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de
fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam
bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da
parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S.
Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor
portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D.
João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de
Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.

Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo
jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de
grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos
Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima
d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.

Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da
época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em
veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos
da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella
concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.

Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de  D. Maria da Gloria, e
verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo
portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a
nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito,
apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes,
castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar
imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.

Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os
desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se
acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma
vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente
sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de
mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus
pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.

Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita.
Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar
as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que
se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares,
sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores,
merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.

D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita era
uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza,
pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de
seus cinco filhos varões. Toda  entregue á direcção interna do seu casal,
só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o qual, as
pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma hora do
dia seguinte.

Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e
adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao
esposo.

A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á
cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--_fidalga das chaves_--dito pelo
povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha
fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam
unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si
do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo,
avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a
denominava--_chaveira dos pobres_,--em grata allusão ás immensas esmolas,
que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que
diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se
assemelhava á portaria d'um convento.

Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres
donzellas.

Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27
annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem
affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos;
sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas
com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras
lettras; e o seu verdadeiro  estudo principiou aos quinze annos de idade, e
teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de
seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento.

Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a
nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do
plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de
fidalgo orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos
titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o
litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo
dinheiro, o rei do mundo.

Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur
Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o
considerava do modo que já dissemos.

Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o
terreiro, ouviram-se badalar as _Ave-Marias_ no campanario da terra, o que
logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as
donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a
conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria
beijar a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a
benção ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um
respeitoso osculo.

As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos
velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de
Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas
visitas.

Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da
mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, acompanhado das
palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava
contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia.

Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos,
occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e
Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala,
onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos
dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo.
Rosa, e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria:
só tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes
imperativamente o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a
verdade--não desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se
esqueciam de lhe pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem
asperezas, que só em pó se desfazem.

Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com
Arthur o seguinte dialogo:

--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?

--Tenho que dar a v. ex.^a a desagradavel noticia de que o povo se agita em
desordem, começada por não sei que «_Maria da Fonte_» das proximidades de
Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de revolução, porque a
semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir os benésses a que
miram os curas da imprensa desenvolta.

--É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender aquelles que,
como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, da familia
liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que desejára, como
portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo?

--O povo diz, _que abaixo o ministerio e as contribuições_, e queima os
mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuições,
reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que incutiram
nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de
documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!

--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de
uma nação?!

--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da
gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo
de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da
invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem
a macula de fratricidas... Perdôe v. ex.^a o modo de vêr da moderna
eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas
de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.^a
manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem
sabe, que sou liberal...

--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade
de que V. S.^a é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões
interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um
soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu
preito. É V. S.^a  o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os
liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra
entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo
meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em
mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das
proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão
abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas
luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade
por ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...

--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes
transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem
abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.^a, que ainda confie no
futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente
devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos
cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções
partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e
de prosperidade.

Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de
Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o
terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.^mo Leopoldo de Moraes
Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.

Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro,
lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao
cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver
_escudeiros_ com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve,
e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a
maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e
lealdade.

Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil
contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos
ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os
homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo
criterio da imparcialidade.

Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse
entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e
perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o
chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica
occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse
com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que
Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.

D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas
de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio,
embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho
fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a
proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua
vontade.

Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto,
como se fôra a continuar a conversa interrompida.

O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre
ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a
Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que
o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se
disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria
de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava
entrada na sala, o Exc.^mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido
friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal
ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo
moço.

--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.^a meu presadissimo primo e senhor da
Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas
palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com
um ligeiro curvar de cabeça.

--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.^a em nome da soberania popular,
para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que
na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um
ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino.
A provincia do Minho, ao grito da heroina «_Maria da Fonte_,» está toda
revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da
corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas
condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente
do que V. Exc.^a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço;
logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram  a honra de
sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem
revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras
gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e
dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.^a,
que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos
salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete
dos sentimentos d'elles perante V. Exc.^a Não consenti que entrassem n'esta
sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes
só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a
mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se
dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a
que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que
fui encarregado.

Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou
Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor,
abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo,
que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como
possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e
laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho,
mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do
perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem.

Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as
armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos
domingueiros  a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as
espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e
convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as
animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o
podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:

--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me
meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo
tambem a v. ex.^a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas
importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da
patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui
soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o
povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos,
póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de
sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os
fidalgos e as pessoas illustradas.

«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu
poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens
prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo
eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não,
que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome
do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr.
meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para
tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho
aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á
sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas
familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre
dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos
interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice,
que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.^a
mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas
interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim
escaparem a algum _discurso_ dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e
meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até
ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da
verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v.
ex.^a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o
snr. Arthur Soares mando servir o chá.

--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois
do que v. ex.^a acaba de pronunciar...

--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v.
ex.^a... João, acompanha meu primo até ao portal.

Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo.
Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que
escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão
rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.

Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita,
caminhou este até ao pé  das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro
esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e
disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois,
cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura:
Deos vos proteja, minhas filhas!...




III

AO LUAR

      «Na minha terra, uma aldeia,
      Por noites de lua cheia,
      É tão bella! é tão feliz!...»
      .............................

        (_João de Lemos_--CANCIONEIRO.)


Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides
móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do
morgadio.

Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino.
Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais
que o rendimento.

Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que
todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre
casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e
parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos
innocentes. Deixára  Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade
de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a
formatura.

Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que
sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á
satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a
sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro
objecto, além da sua figura.

O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe
as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para
só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe
embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no
trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez,
para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados
fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as
suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem
quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só
accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo
desviava os olhos das suas façanhas.

Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo,
o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e
rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É
crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para
caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede.
E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja
moeda falsa que empobrece quem  a recebe; muito ao avêsso ia logrando
insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta
filha das apparencias.

Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo,
estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que
pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous,
algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares
deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de
Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.

Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das
janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao
chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o
luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o
povo recolhesse a suas casas.

--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos
interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei
em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as
havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.^a,
é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um
verdadeiro inimigo.

--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.^a
tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa alguma ás do meu
fidalgo primo.

--Não me parece tanto assim, snr.^a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida
Anna--O snr. Lencastre  é pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde
parecer...

--Estimavel; virtuosa e _carinhosa_, deves acerescentar, minha beatinha,
porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...

--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do
snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que
nunca me fizesse mal...

--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que
mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur
Soares.--Se não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do
que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vêr...

--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que o
pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem
córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e,
com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.

--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á
inexcedivel virtude de V. Exc.^a, e á que adorna as suas interessantes
discipulas, o que não obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo
embaraço que descobri em todas, na occasião a que V. Exc.^a se refere.

--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse
repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é
indiferente...

--Tens cousas...

--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O amor,
é toda a historia da  vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.^a D.
Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que antipathiso
solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me fez a honra
de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.^a D. Maria...

--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus
sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto
indisposta...

--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde
espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite,
atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.^a, snr.^a D.
Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma
das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite
de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o
murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia,
que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez
da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão.

--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não
gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a
franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás
lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não
tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito
reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de
um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é
meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados,
principalmente por V. S.^a, que é um  amigo d'esta casa, a quem meu pae
devéras estima.

--Não me accuso, snr.^a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade
nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.^a, porque me diz a alma que eu
era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me
conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da
Mesquita--póde V. Exc.^a crêl-o--seria o ultimo da minha vida.

--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas _ser eu_, a
dizer a V. S.^a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a
narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga
Rosa, deixo-os agora á vontade, para...

--Sou eu que me devo retirar, snr.^a D. Maria... E retiro-me com a
convicção bem formada de que _nunca mais_ as minhas palavras, dirigidas ao
snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e
mestra, porque hei de medital-as muito...

--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo
gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do
snr. de Lencastre.

Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos
os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor,
sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se
sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres
donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.

--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a
janella,--que a snr.^a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo,
fazendo  presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr.
Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada
vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que
devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é
o vêr que a snr.^a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que
a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a
pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que
V. Exc.^a tão de barato lhe concede!... Manifestar _ciumes_ ao snr. Soares,
minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!...

--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos
formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.^a
quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter!
Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas,
fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo
_afidalga-se_ com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias,
abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma
senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos
seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum
receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena,
só pouco edificante desde que V. Exc.^a entrou n'ella... Peço ao snr.
Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr.
meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.

--É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.^a me podia impôr...

--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo,
porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.^a, nobilissima snr.^a D. Maria
da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo
dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. Exc.^a, com o sobrinho do
senhor reitor... Se me interesso por alguem, não é de certo por V.
Exc.^a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir
aspirações mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que
podiam ensinar os mestres...

--Das lições de V. Exc.^a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente
Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido
á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes
acontecimentos, que lhe descobriram o coração.

--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por
inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...

--E o despreso, snr. meu primo?...

--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar
sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a
para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria
Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos _do mais
apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da
freguezia...

Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra
do insulto, e já o som  de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de
todos.

As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella,
a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido
Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e
dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo
respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado
fidalgo.

Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda
pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se
cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao
momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na
cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente
no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o
escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e
arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se
gasta a contal-o.

Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um
homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:

--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser
superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e
hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti,
canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão
vadio!...

Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se  o possesso, a passos
accelerados, não dando assim logar a maior castigo.

João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora
desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela
violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e
ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o
escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.

Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso
devia fazer d'aquella arma.

--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.

--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo
causa involuntaria das mágoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao
mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me
levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito
sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem,
terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima
do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e
poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!...
Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer
as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma
hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios
religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre
tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus,
snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a  V. Exc.^a esta arma
por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma
saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha
de... progressos... Adeus!...

--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que
obrigou Arthur a ficar como petrificado.

--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a
fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os
salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem
repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o
snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões,
mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr.
Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero
fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de
não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas
fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.^a póde estar presa
alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando
seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar _alguem_ com o
seu suicidio...

--Pois V. Exc.^a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que
deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, á
minha amiga e discipula Rosa...

Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.

Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço  de tempo, immovel, com
os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de
estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente
lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á
residencia do thio.




IV

MÃE E MADRE


      «Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em
      v. m. padrões de espirituaes exemplos.»

                                  (_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.)


Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa,
acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite,
defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora
das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra
na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco
Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos
rendimentos.

O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade
inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de
ferro.

Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam  em voz baixa umas ás outras,
o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito
respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes
renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras
pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido
precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde
podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz
septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora
abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de
seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e,
reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora.
Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da
abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a
horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade
domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de
minha esposa e prima D. Leocadia.

Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse
filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de
recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de
separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.^a sabe, a
maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno  ao destino que
ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é
incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o
roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma
inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem
salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem
sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!...
Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres
annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me,
quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo
Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia.
Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos
dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais
formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me
foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas
companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas
tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome,
que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta
villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste
creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições
mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos
ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo
misericordia, todo compaixão  para as fracas creaturas de que é pae
extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez
annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a
separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu
escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que
me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a
minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite
assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita
blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de
uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse
momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus
esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa
interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar
haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças
que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas,
que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira
attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e
Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente,
pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo
elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado
bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo  ao
principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a
sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade
propria dos annos ainda verdes.

Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre
abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas
noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com
golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para
lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente,
que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má
novidade o pozéra assim.

--Está muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo
matrimonio.

Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos
os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de
salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo
algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a
legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos
filhos do mais santo hymeneu.

--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente
pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das
grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda  cabeça da
respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma
auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça,
que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o
pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil
interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria
difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem
para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas
sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro
d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu
cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que
podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver,
podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho
adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida
do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido,
disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em
relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem
adoptava por seu filho.

Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das
cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro
lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia  de Joãosinho, fragil
e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal
affecto.

Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias
nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes
acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de
pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas,
tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar
verdadeira interpretação.

O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos,
por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da
existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as
trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos
dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da
extincção d'aquelle convento.

É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.

Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi
entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E
a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um
indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes
de João Vidal, o escudeiro.




V

UM LEVITA


      «Apostolo é o pae que se afadiga
      Só para que descance o filho amado;
      Apostolo é a rocha em que se abriga
      Ave agoureira e pobre desgraçado;
      Apostolo é a lagrima que amiga
      Cae pela face em peito amargurado;
      E esse monstro do Céu que solitario
      Correu o mundo á busca do Calvario.»

            (_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.)


Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde
Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e
estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no
Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos
proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome
Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.

Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas,
tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo,
quando mais farto era o anno, com o _avanço_ de seu alvitre, segundo o uso
e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro,  que não marcou limite ao juro
para os que o queriam e podiam dar.

É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do
Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia
baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e
tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em
resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e
ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios
prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos,
marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da
vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem
desastres, para os que o percorrem violentados.

Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho
um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o
cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos
os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e
para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam
fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não
conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae
alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem
reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno
rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um
estudante.

É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas
publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito
portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu
lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade,
e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua
aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes
proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o
fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que
todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que
era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um
estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas
objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles
felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de
homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro
prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles
uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter
Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias,
confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de
mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue
traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas
e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após  a
communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de
todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo
a séde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á
egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de
Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de
impurezas.

Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem
grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra
havida por mais terna: é assim o coração humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão
rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella,
como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com
todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só
teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada,
transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as
sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer
do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o
requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas
da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez
reparo  em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação
estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada.
Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi
orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario,
em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia
n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a
casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se
tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha
Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga á snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e
que lhe peço a mercê de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com
sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a
perguntas, disse:

--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá
já buscar meu pae?

--Para quê?!

--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso
curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a
passam meus paes... Já não quero ser... _padre_!

--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu
amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo
como diz  _aquelle_ seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me
faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria
proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor,
é que rompo o véu do meu coração!...

A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural
desfecho d'aquellas relações.

A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só
devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.

Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois
de scenas assim expansivas, é que nós não _ficamos_ pela continuação da
pureza no sentimento.

Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou
habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o
patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia
do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á
egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das
solidões,--á solidão d'alma!

Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os
paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o
ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa
Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou
tambem semi-morta.

Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de
Esporões.

Alvaro, era presbytero!




VI

CELIBATO


      «Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas
      vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que
      sabem a sciencia do céu!»

                                                  _Alex. Herc._--EURICO.


O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua
naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio
sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a
esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe
vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no
Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da
humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e
separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos
seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.

O soffrimento de um filho, não póde ser, por  muito tempo, estranho aos que
lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por
instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram
profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e
ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de
tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de
suas pesquizas.

--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come
quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á
cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a
escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe,
mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos
a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios,
desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda
tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos
tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro,
porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a
Deus por nós, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.

Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a
sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com
olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e
moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir
signaes  de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da
testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e
veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e
guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu
parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:

«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero
humano, o esteio da vida e o centro da piedade?

«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...

«Celibato puro!!...

«Para quê, decretar contra a natureza?!...

«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por
consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem,
a Tua existencia no mundo?...

«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do
bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»

O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que
fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou,
depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu
discipulo.

Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir
da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do
leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo
silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:

--Então de que mal padece a snr.^a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre
são muito fracas! Pois  a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses
quebrantos?! Será isso mimo?...

--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me
faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!...
Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, está
cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os
novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?!
Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda
horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o
seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem
mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o
que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa
parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor
de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a
voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o
sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e
titubeou a palavra:--Perdão.

--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes
reservou Deus a sua divina misericordia.  Sei tudo, e tambem o sabe tua
mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as
nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a
snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do
sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr
condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que
mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas
occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de
Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto
Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse
elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco
annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um
fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a
reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel,
muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que
estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre
reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva,
que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre...
Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros
sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido
o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei
eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque
tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que  preferiam a
morte, á quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico
e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via.
Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de
lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na
terra.

Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando
commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo,
fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das
cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na
cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome
de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira
de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e
Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a
existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo
acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua
residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo
pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de
beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á
pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous
sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de
Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam  a estima geral, ao
ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de
Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião
da Mesquita.

Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do
padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu,
commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e
mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:

«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a
uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu
patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo
dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar,
que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»

As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.

Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor,
pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das
lagrimas, e disse-lhe:

--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer?
Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa
terra, sim?

--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da
lembrança...

Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta
occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado
de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina  de treze mezes
de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com
agrado, mais aquella visita.

--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo,
depois de ter saudado a todos.

--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau
coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das
pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes
meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.

--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem,
muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...

--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha,
fez com que se beijassem os dous innocentes......

Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que
estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no
templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre,
que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu
involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu
amigo.

--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do
agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus
cuidados?

--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está
n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...

--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa
involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em
vez do perdão?!

--E as leis da egreja?!...

--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados
paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes
e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções
da sua vida?...

--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da
penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade!




VII

RAPTOS


      «Que póde valer á hebrêa
      Sentir n'alma chamma infinda?
      como a linda Ester ser linda,
      e amada como Rachel?
      Se o coração da judia
      se entre-abre do amor aos lumes,
      não lhe dá tempo aos perfumes
      o seu destino cruel.»

      (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM).

      «O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para
      espantos nem sequer para censuras.»

                                     (_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.)


Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da
Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de
outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos,
teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto,
que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada
palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.

A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado
governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro
de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo
supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa,
como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se
os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a
alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O
enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria
encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral.

Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar
bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua
quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo
inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem
os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os
portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na
luta.

Sebastião da Mesquita foi convidado por um general
estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel
de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico.
Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu
estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um
autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho
fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de
novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas
horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu
lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo
previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse
a esposa na vigilancia do seu casal.

Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e
anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião
da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel
cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao
maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo
Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão
addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se
aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela
traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte
da Liberdade.[3]

Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar
aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos
é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no
manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou
sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da
brigada.

No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde
tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da
fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da
chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma
conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:

--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me
com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a
nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu
illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em
não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o
conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia
em mim!...

--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo
n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.^a D.
Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só
deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.

--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da
snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe
chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...

--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não
desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora,
e pôr os criados de atalaia...

--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim,
ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as
sinto possuidas...

E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram
fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.

Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento
revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual
panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens
estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de
funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus
membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não
sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem
dado.

Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso,
indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se
de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião
era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do
palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo
de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando
sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam
a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte
de que o palacio estava cercado de tropa.

Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por
ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem,
quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades
alheias ao sexo chamado fragil.

Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra
qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de
Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas
as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes
se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de
resistir aos intentos de seus perseguidores.

Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar,
houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem
numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos
assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade.

As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.

A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais
leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita
estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança
condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas,
disse-lhes D. Isabel com voz severa:

--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos
abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...

Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio
occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D.
Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as
lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao
malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente
tranquillidade aos que a cercavam:

«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as
almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam
todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e
vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae
todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o
possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os
retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a
este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um
fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre.
Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor,
alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...»

Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente
caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de
seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o
incendio provocara.

A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o
toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.

Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da
residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados,
a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.

Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto,
brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor,
que D. Maria lhe legára.

    [2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais
    importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D.
    Miguel de Bragança.

    [3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O
    general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se
    das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas
    engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros
    do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada.
    Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas
    convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a
    ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas
    armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca
    vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os
    ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de
    nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os
    tyrannos estremecem e gelam de terror.

    .........................................................

    «Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços.
    Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos
    netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de
    valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade:
    e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre
    heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E
    ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino,
    em 8 de Dezembro de 1846.»

    (Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)




VIII

COMBATE


      «O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto
      na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo
      orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe
      importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se
      despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no
      momento dos seus amorosos ardores.»

                                                  (_A. Herculano_--EURICO.)


Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia
19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no
capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes
posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general
Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e
honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e
que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.

Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem
feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as
suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.

Travou-se combate.

No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a
brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:

--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa
justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride
nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado
pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa
carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar,
retiro-me eu immediatamente.

--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não
desisto do meu empenho em aprisionar o _manêta_.

--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é
sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não
creio que nos tornemos a encontrar.

Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.

Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de
Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17
mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem
aprisionado o seu aventureiro commandante.

Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João
Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção
a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda
sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde
suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua
mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se
silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára
seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais
profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da
Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu
e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas
consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O
velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á
esposa:

--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és
digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta
a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para
a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem,
hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são,
n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito.
Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe
agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com
agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e
por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho.
Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...

--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho
reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr
indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes,
despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As
minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a
demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me
apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o
abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr.
Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v.
exc.^a me causava.

--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.

Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se
agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do
combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do
general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell.

O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o
commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais
expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes
conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda
a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.

Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e
proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina,
declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer
infracção.

Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima
povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a
cavallo, que chegára alli á desfilada.

Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só
homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um
signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo,
em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a
familia.

Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar
satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de
todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!

Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom
Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria,
teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato
ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um
completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina.
Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os
pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que
apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão
seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da
donzella!

Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas
peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia,
narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos,
e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.

No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um
raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda
tristeza, mal que terminára a narrativa.

--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das
outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do
jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.




IX

AMOR


      AMOR é a palavra, o brado eterno
      Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,
      Que fez tremer as abobodas do inferno
      E o sol ficou da côr d'um moribundo:
      A primavera, estio, outomno, inverno,
      Terra, céu, alma pura, bicho immundo,
      Tudo ahi cabe á larga de tal modo
      Que n'essa concha Deus se fecha todo.»

            (_João de Deus_--FLORES DO CAMPO.)


Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de
Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as
viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um
sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e
Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro
jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.

A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal
da cidade do Porto.

A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos
ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com
magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente
encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na
vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4]

Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera
conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas,
ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para
evitar outra fuga como a de Rosa.

Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais
asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse
concedido o eden por homenagem.

Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a
que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua
virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o
seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que
elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma,
denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz
do dever e da consciencia.

Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço
com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera
das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais
frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras
vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue
ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa
constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa
sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga
moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que
ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito
ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na
vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que
d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este
estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento
procedimento do fidalgo primo.

Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus
instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem
ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado
e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade
soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava
entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse
prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia
facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os
seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de
sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella
rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.

Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de
amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse
sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos
os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da
alma, a inspiração de Deus!...

O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre
o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a
tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica:
amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!

Que terrivel lucta!

Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre
orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima,
dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões
humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel
peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter,
elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos
privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a
Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!

Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma
força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de
modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre
que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era
obrigado o seu fidalgo carcereiro.

Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle
escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.

Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa
destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga
da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e
vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim
disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na
ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça,
sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma
fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar
assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo
espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto,
mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para
a parte do palacio, occupada pela docil Anna.

Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos
sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem
que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da
Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de
proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as
janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e
amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as
borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de
setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a
encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D.
Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de
uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá
dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao
mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos
vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com
effeito de ouro do mais subido quilate.

Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os
arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés
um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o
embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este
modo:

«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de
instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!

«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu
sósinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame
obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita.

«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.^a.
Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em
bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da
Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil
instrumento no malvado que o sabe usar.

«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio
em Deus.

                                                                «_Arthur_».


Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de
felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o
fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que
ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus
subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita
dera-lhe animo para fallar:

--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!...
Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?

Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.

--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor
torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...

--Infame!...

--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor
governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da
alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá
transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz
tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e
augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura...
Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a
irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua
nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim
este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso
por mim!...

--Infame!...

--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma
paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes
como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar
para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as
differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua
formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os
seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me
fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão,
senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo
humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos,
todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos
seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes...
A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu
saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade
ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia
as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em
que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se
fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra,
uma singela esperança...

--Infame!...

--Oh! que é de mais!...

N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para
ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da
nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas,
na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado
por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor
d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.

O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para
recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante
resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que
se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a
ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria,
para lhe dizer com voz pausada e debil:

--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a
fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus
criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito,
mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que
tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima
vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este
_malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que
pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com
_lagrimas_ de sincero arrependimento...

--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o
primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o
considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus
remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca
deveria ter servido nas emprezas a que está vesado.

E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã.

Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram
seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha
e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido
na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.

--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e
pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens
n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a
todos os seus companheiros. Póde retirar-se.

Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos.
Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito,
levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem
acanhamento, e disse-lhe:

--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca
por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da
Gloria!...

Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só
d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma
hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de
perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a
barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer!

    [4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de
    Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços,
    fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz
    o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello
    romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da
    Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta,
    como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso _conto_, na
    parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas
    determinadas.




X

RELIGIÃO


      «O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar
      o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que
      permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»

                                     (_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.)


Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas
vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu
unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as
donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que
requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado,
e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados
estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um
relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era
arcebispo de Braga.

Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em
ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia
vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram
juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general,
ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese
bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre
por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a
precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de
Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da
Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas
horas em secreta e intima conferencia.

Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu
physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não
parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina
mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as
indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria
levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle
vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre
aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e
á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao
padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja
quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas
commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias
vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua
razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das
paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos
que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os
estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de
Arthur Soares.

Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu
arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita,
porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.

A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do
seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um
elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia
de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as
commentar mentalmente.

Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de
Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da
junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados
publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo
de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita,
em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto
sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo
pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos
realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao
exercito da junta do Porto.

N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca
de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas,
que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho
fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade
e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.

Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle
entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu,
ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não
encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando
susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em
pranto a seduzida Anna.

Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de
regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de
novo reunida.

Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de
todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria,
n'estes termos:

--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...

--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a
ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.

--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a
nobreza e honradez da tua resposta!...

Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e
caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.

--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?

A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...

O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora,
alçou assim a voz:

--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma
solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o
edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!..
Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe
faltou para resistir á seducção!...

Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era
o não admittirem réplicas.

N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente
do palacio, um extraordinario bulicio.

O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli
tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e
aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.

Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em
poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os
prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e
cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos
empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho
havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os
que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer
ao poder das leis.

A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira,
com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de
subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e
trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de
Lencastre.

--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o
logar do ajuste.

--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se
m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr.
tenente...

--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.

E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão,
onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero
resultado da busca a que procedera Arthur Soares.

--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu
prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e
peça-lhe a honra de ser sua esposa...

--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...

--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o
canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por
sua mulher legitima.

--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiança...

--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a
transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a
mentira... Para a capella, senhores!...

O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no
casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado
raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela
seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença,
em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o
sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.

Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de
muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da
estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario,
sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente,
d'esta vez, a sua respeitavel palavra.

O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no
triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros
estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços
sahiriam!

De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos
para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os
guardava. Estava domado o leão!..

Por quem?...

Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto,
da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até
ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e
silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da
veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]

Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia
popular, no palacio de Leopoldo.

O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:

«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»

    [5] O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da
    _intimação_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz.

    Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem,
    pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de
    pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e
    comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo,
    foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que,
    em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes,
    foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas
    verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença
    social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A
    sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado
    de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do
    Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_.

    «Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e
    pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría
    as victimas para as immolar?

    «Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como
    mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da
    Europa.

    «Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no
    funccionario como achamos no individuo.

    «Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação
    injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no
    amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)

    [6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara
    á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um
    sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo»
    de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz
    assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por
    diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»

    [7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo
    povo o castello de Vianna.


FIM DA PRIMEIRA PARTE




SEGUNDA PARTE

CRIME

      «Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»

                           (_Chron. de Cister_.)




I
ABYSMO


      «Ai do viandante que não vê caminho!
      ai do mesquinho sem a luz da fé!
      ai! que, na falta d'um amor sublime,
      triumfa o crime, do ludibrio ao pé!

          (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.)


Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos
ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou
papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o
trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar
pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«_Em
romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil_:»--escreveu com
muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.

João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em
parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o
escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe
devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no
livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do
escudeiro a Leopoldo.

A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio
mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D.
Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção,
a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios
de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua
mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já
reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.

Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o
preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi
preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer
seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o
captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de
tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir
é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de
seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de
soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e
cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo,
pelo desprêso a este votado.

Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da
Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se
conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções
intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre
_donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.

Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar,
em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços
habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo
daquella carta:


«Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido
constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa
intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que
_occultas razões_ determinaram a violencia do seu casamento com uma
_rapariga pobre_! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os
signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»


Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto
de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido
ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes
e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias,
porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que
esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o
velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio,
que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da
entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu
empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a
situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos
annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego
de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.

Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a
D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas
descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sofá, e vestida
com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra
discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento
Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as
commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:

--Consinta-me, snr.^a D. Anna...

--Snr.^a D. Anna!...

--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não
serei eu que o esqueça. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes
momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe
esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber
se v. exc.^a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em
harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá
v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do
mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?

--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes
aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê
esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta
sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um
lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu,
que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D.
Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde
moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os
modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos
serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano,
a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as
antiguidades, os _recocós_, as reliquias de toda a arte misturadas com
os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me _cérca_, de
que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e
que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e
nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...

--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que
significam, senhora D. Anna?...

--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...

--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de
condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer
o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas
palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar
bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente
nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que
eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.^a manifesta?...

--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo
Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para
onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de
fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...

--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim
depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a
cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V.
Exc.^a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado.
Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda
a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se não podem equiparar-se aos de seu
illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o
tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por
escripto, a auctorisação que lhe peço?

--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.

Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de
escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho
firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os
agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito
entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda
a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos
caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas
naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na
sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o
porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza,
dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a
conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o
favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa
para o interior do palacio.

Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da
consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.

--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira
collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com
direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.

--Ouvirei, senhor Leopoldo.

--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo
que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...

--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma
agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e
lealmente affeiçoado.

--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha
ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?...

--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.^a, devo suppor que
a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.

--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é
segredo para mim?...

--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D.
Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta
auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber
toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»

--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É
para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...

--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que
S. Ex.^ma esposa _não é pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, é
que eu vim pedir-lhe este escripto.

--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que não é authenticado
por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...

--A esposa de V. Exc.^a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna,
como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde
ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais
esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da
snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual,
sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa
alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do
liquidado e recebido por mim.

--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a não ha de
recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...

--Sempre ás ordens de V. Exc.^a, para o que fôr do meu brio.

Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente
do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu
antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo
ciume.




II

FIDALGUIA


      «É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou
      por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de
      seus antepassados.»

                                       (_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.)


A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.

Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas
as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram
nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo
leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas
paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as
delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos
desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a
que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou
barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava
nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com
soberbas razões, se devem orgulhar.

Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos
nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais
respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio
portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leão dos
mares_, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o
justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais
remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.

Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres
antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos,
e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este
logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos
heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os
Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de
seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da
patria.

Sabemos que á civilisação repugna a _conquista_, embora tenha de
conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa
fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria,
eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se
devem attribuir as suas heroicidades.

Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza
póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre
bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as
virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e
quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.

Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que
não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e
optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.

Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma,
reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem
distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra
companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu
que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára
infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e
levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar
para Anna um nascimento e um dote.

Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os
inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram.
Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a
qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido
diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de
terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas
boas, e os espiritos elevados.

Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir
d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os
sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado
voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com
obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia
de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava,
porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e
tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra
do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia,
podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a
existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.

Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita,
perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente,
e que havia tomado as suas importantes revelações na devida
consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario
protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de
tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.

Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia
de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto
puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava,
e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia,
ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com
o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho
movel, e disse-lhe:

--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É
dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres.
Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe
observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que
Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas
vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de
perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho
producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não
tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa
quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher
de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o
necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades,
que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar
a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De
certo te não recordas já d'aquella tua _doação_... Eras muito criança
ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...

Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são
abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços
e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por
Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo
chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:

--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!...
Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me
consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não
repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que
tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era
o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome
de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não
amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da
paternidade legal...

--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta
alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter
coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos
extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais
poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de
minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa
que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a
perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é
o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me
podia dar o céu?!...

--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu
Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este
indigno padre!...

Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos
mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se
passa no palacio de Sebastião da Mesquita.

Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este
verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda
se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram
salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os
quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando
com muita solemnidade a João Vidal:

--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que
devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em
poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves.
Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a
vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado,
e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o
carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a
revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado,
que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de
pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado,
aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe
igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela
religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas
mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser
perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu
pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que
orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel.
Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro,
que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as
especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a
leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de
Leopoldo...

--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu
amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.^a muito de
mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem
parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu
mais humilde criado...

--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o
quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e
não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta
é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em
ti o odio que tens a Leopoldo...

--Mas, senhor...

--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a
nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a
attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a
minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.

--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio,
e que parece soffrer bastante...

--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.

Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a
uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da
gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até
ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que
deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o
velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.

--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os
motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que
são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a
queixar-se de alguem d'esta casa?

--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por
ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força
de cuidados e attenções?!...

--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é
então que não frequenta esta casa como costumava?

--A minha doença...

--E como se chama a sua doença?...

--Ainda não consultei a sciencia, e...

--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos,
Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por
considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua
attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima
e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o
interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que
obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos
occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos
serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico
fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã
do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima
esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu
patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima...

--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que
me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por
ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...

--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos
nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e
pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei
faltar ao que devo a mim mesmo...

--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V.
Exc.^a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer
solteira, e...

--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas
minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria
melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas
despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e
valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho,
portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a
mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo...
O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?

--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o coração
dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são
perfeitamente iguaes os meus sentimentos...

--Agradeço a todas...

Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um
pouco enfadado, perguntou-lhe:

--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas
importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz
nas mãos, e ao demudado da sua côr?...

--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser,
sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma
quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o
muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella
contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e
peço que me desculpe o interrompel-o?...

--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de
Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei,
para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco
engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em
compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou
praticar... Lembro-lhe, porém, João, que _só eu_ tenho direito a regular
as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa
ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes
parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro
nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos
Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o
brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso
parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa
está sempre vago para os homens de bem.

--Agradeço de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e
que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da
phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de
cavalheiro...

--Venham as condições!

--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae
praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por
que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim...
Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao
snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei
para muito longe, para onde me não possa chegar...

--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu
para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...

--É a mulher de meu irmão, senhor!...

João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal,
que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.

Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:

--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao
_primo_ João do que resolver.




III

CIUME


      «................................
      Invejo-te, Camões, o nome honroso,
      Da Mente creadora o sacro lume,
      Que exprime as furias de Liêo raivoso,

      Os ais de Ignez, de Venus o queixume:
      As pragas do Gigante procelloso,
      O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»

       (_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._)


O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque
participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do
coração humano.

Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam
tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das
pessoas sujeitas ao ciume.

O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus
castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez
indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de
favores, que lhe minguaram a burra.

O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias
sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o
castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez,
fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com
toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a
desfórra de uma resposta.

Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O
primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias,
não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela
resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando
verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo,
o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina
nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.

Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria
da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.

Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D.
Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um
terrivel inimigo.

Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós
com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de
que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada
severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco
civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.

D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se,
attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle
sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste
senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo
aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos
livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do
Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre
os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.

Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:


«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura
licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle,
respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam:
Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a.
Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos
permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim.
Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e
femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só
carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o
que Deus ajuntou.»


Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou
pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro,
aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a
preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do
marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua
mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por
cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que
finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos
sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e,
juntando a acção ás palavras, disse:

--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens
de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e
conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella,
levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu,
pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se não é
por causa de adultério_, e casar com outra, commette adulterio: e o que
se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher
deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera._»

De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente
d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?

--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se
comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu
comprehenda?!...

--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de
lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...

--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento
entre nós...

--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os _nobres_
teem obrigação de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui,
escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_...
Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente
para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos
quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher _adultera_. Não lhe
parece?...

--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que
lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom
Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado
dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a
lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime
parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da
adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos
legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com
justiça?

--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_
corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_
controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinião sobre a
_igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_ é o _mesmo
crime_ da parte da mulher como da parte do homem?...

--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei
detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a
fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher
voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam
levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade
dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos
homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...

--Para quem não tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o
admiravelmente!... Dou á minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem
que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da
_letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do
homem nunca podem lançar no leito nupcial um _pequenino ladrão_... A
minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, não é assim?

--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus
exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios
lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora
tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que
encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno
egoista.

--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso é que se chama saber
defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das
defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...

N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram
interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a
introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram
differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a
testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia
a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão
adoptivo...

--O seu rôsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v.
exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora
explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a
noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_ é esse snr. Arthur
Soares!...

--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a
felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o
sei presar como elle merece.

--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por _um sério estudo_, o segredo
de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu
encontro, que estou já ancioso por começar as minhas _experiencias_...

D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e
a innocencia, são quasi sempre ingenuas.

Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares,
Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do _amor sem
desejo_, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube
gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a
manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.

--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz
da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil
crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro
de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre
impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança;
mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da
reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitação geral do seu dote pela
quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e
contar...

--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem
quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_
esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e
nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha
mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora,
que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.

--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção.
Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que é meu,
entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar
que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a
esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que
haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio
gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este
dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não
tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros
interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito,
e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu
dote.

--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v.
exc.^a um pequeno serviço.

--«A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»

A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como
interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de
comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o
«Conto portuguez».

Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria
da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada
a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como
seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em
que figuram agora mais dous actores:

--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho
encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peço-lhe licença para
apresentar-lhe o snr. João de...

--Conheço _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e
fiel pagem, _que só poderia entrar n'esta casa, como entrou_,
acompanhando a sua dona...

--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos
do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos
sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é
bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e
dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo;
é, finalmente, irmão de v. exc.^a...

--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da
Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...

--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas
duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dará
todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...

--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão...
Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a
face, para applicar n'ella a pena de Talião...

--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto
como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de
sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a
espontaneidade com que o abraço, mano João!...

--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder.
Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.^mo pae:
faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e
consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O
primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga
discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o
dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de
posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de
liquidar e receber...

Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria
ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao
ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se,
mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur
Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros
expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem,
abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:

--É á snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que
ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre
padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de
igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da
verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar
na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da
cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade,
porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu
padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo
n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de
infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do
Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo
isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia,
arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como
devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo
que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que
já era em seu poder...

--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae
sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o
encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?

--São, apenas, trinta mil cruzados.

--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil
cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que
possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter
meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo
Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?

--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da
parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.^a como de cousa sua, que
é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D.
Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou
obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria
II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para
reunir-me ao exercito.

--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de
encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr.
Arthur Soares?

--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na
jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na
qualidade de soldado do governo supremo do reino...

Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com
que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que
occupavam na sala os differentes actores.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma
das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas
cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava,
no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia
maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de
Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de
pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado
por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um
magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão
esquerda.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu
confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação,
dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com
raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da
verdade.

D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida,
avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca
clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.

Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as
vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.

João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de
quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia
prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só
dos movimentos dos que o cercavam.

D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a
confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso
procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas
suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as
mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna,
vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado,
chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus
bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da
Gloria.--Era bello aquelle grupo!

Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos.
De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com
passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que
teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida
nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:

--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece
ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher
com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são
da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na
esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade,
e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos
denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o
symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu
braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe
entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e
conversar em cousas de commum interesse...

E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou
conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o
irmão o salvava.




IV

O BERÇO DA MONARCHIA


      «Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca,
      de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo
      certissima a sua veneranda antiguidade.»

                                                      (O PANORAMA DE 1867.)

      «A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos
      antes da éra christã.»

                                                           (PADRE CARVALHO)


      «As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a
      cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de
      linho e  ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do
      tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda
      hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho
      adamascados, fabricados em Guimarães, que  em duração e primor d'obra
      por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos
      industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis
      por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no
      anno de 1835, seis contos de reis.»

                                                   (GEOGRAPHIA DE URCULLU.)


Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada
modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas
existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o
nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima
cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.

É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos
honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei
portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado
e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião
de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo
Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á
contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do
famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de
Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á
justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais
finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom
nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus
filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos
conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos
elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do
cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade
no perdão das injurias.

Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos
de Guimarães:

Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e
distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]

Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros
contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães,
pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e
oitenta.

João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor
do serrilhado na moeda.

Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes;
entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de
1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de
theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado
á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o
nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo
Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois
da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de
Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215.
Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira,
acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João
Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.

O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do
conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.

O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.

O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de
theologia na Universidade de Coimbra.

O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e
Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador
do Paço.

O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que
começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa,
de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de
Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da
meza da consciencia.

O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi
corregedor da côrte.

O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a
ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais
credito.

O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo
de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do
paiz.

O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel
Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_.

O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada,
pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade
de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas,
_que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava
este sujeito para o seu maior credito_.

O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e
lente na Universidade de Coimbra.

O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo
Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por
El-Rei D. Pedro II.

O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo,
desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei,
e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.

O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia,
Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem
de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.

O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na
dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo
de habito de Christo.

O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do
Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.

O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.

O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da
mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e
desembargador do Paço.

D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo
de Annel, do arcebispado de Evora.

D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.

O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.

O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.

O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado
em Lisboa.

Manoel Gonçalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que
foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.

Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho,
em _oitava rima_.

Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e
fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se
mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como
tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de
Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio,
antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.

Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o
exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma
cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim
Narizes.

Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e
residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso
fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando
seus filhos a continual-os.

Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval
pelejada com os turcos.

Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de
capitão de infanteria, batalhando pela patria.

Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os
turcos.

Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na
religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel
valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em
guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria,
sendo mestre de campo de um _terço de volantes_, e capitão duma
_companhia de cavallos com o titulo de couraças_. Celebradas as pazes
entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi
occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a
recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo,
governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres
Vedras, e de S. João da Carvoeira.

João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos
no Alemtejo.

Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de
Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa
d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.

Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e
cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e
no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas
guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este
rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «_em que lhe entregou, e
livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade
de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo
dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde,
e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e
parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das
mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se
forem suas proprias armas._»

Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da
Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça_, que acompanhou, com
grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na
tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde
fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap.
46.

Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D.
Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois
tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu
pae, honrando a patria.

Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18
annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de
Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.

Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão
da fortaleza de Maluco, na India.

Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor
e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de
hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de
El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.

Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, _que,
melhor que todos, realçou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo
viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e,
sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a
sua patria, _foi posto na bocca d'uma peça de artilheria_, sem que um
tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não
matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preço_. Vingou
suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor
de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram ás suas armas _tres
corôas e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro
4.º, capitulo 9.º

Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de
Chacel, na India.

Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no
tempo d'El-Rei D. Sebastião.

Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e
possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei
D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado,
embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os
turcos.

Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre
de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi
capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.

Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da
Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra
da India, _contra os infiéis_, onde acabou a vida.

João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do
morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas
guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.

João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou
mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a
patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus
filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.

Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu
pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais
valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão,
ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.

João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do
morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua
custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_,
acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D.
Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus
valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, _grandes mercês e
honras_.

Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião
á Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado,
_com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo
do habito de Christo.

Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para
a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de
Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.

Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do
precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na
India, pelejando com grande valor contra os turcos.

Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a
India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de
Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim_. Foi depois mandado, por El-Rei
D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.

Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India,
mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmão Pedro de Basto_, liv.
2.º cap. 13.º

Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim
Ferreira na façanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o
exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a
Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves
desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira,
e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros,
obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.

Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei
de Castella D. João 1.º, serviu, _por sua traça_, de poderoso
instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi
o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do
Sueiro, juncto á ponte de Servas_, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu
parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que
esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e,
aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de
cavallo_, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.

Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de
Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça,
deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para
servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór
de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.

André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a
mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de
Pernambuco.

Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem
o posto de capitão de infanteria.

João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua
quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por
seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de
artilheria, com grande nome e fama.

Sebastião Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos
capitães de cavallo de couraças_ com melhor nome no exercito.

Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao
posto de _tenente de mestre de campo general_.

Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.

Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos _privilegiados de Nossa
Senhora da Oliveira_.

João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que
promoveram a feliz acclamação de D. João IV.

João Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em
seguida á feliz acclamação, os gallegos deram_ na fronteira do Minho,
foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de
Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez _uma fugida
valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa
desgraça, morreu de veneno_.

João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em
que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de
campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu
terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua
mulata_.

Fernão Ferreira da Maia; José Pe

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