Gutenberg · eo1.org

← catalogue

Amor Crioulo

by Abel Acácio de Almeida Botelho · Portuguese · Gutenberg #24919 · 528,891 chars · public domain (US)

The Project Gutenberg eBook of Amor Crioulo
    
This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States,
you will have to check the laws of the country where you are located
before using this eBook.

Title: Amor Crioulo

Author: Abel Acácio de Almeida Botelho

Editor: João José Grave


        
Release date: March 26, 2008 [eBook #24919]

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/24919

Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
        Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net


*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR CRIOULO ***




Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net






     *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
     existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
     versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrará a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Mar. 2008)





DO MESMO AUTOR


I--_O Barão de Lavos_, romance, 4.^a edição, 1 vol. br.
II--_O Livro de Alda_, romance, 1 vol. br.
III--_Amanhã_, romance do proletariado, 2.^a edição, 1 vol. br.
IV--_Fatal dilema_, romance, 2.^a edição, 1 vol. br.
V--_Próspero Fortuna_, romance, 2.^a edição, 1 vol. br.



_Sem remédio_..., romance, 1 vol. br.
_Os Lázaros_, romance, 2.^a edição, 1 vol. br.
_Mulheres da Beira_, contos, 1 vol. enc.
_Amor crioulo_, 2.^a edição, novela.




ABEL BOTELHO


Amor crioulo

(VIDA ARGENTINA)

NOVELA


    _Ahi està, si, magnifica, opulenta,
     La codiciada tierra..._

                      GUIDO Y SPANO.


SEGUNDA EDIÇÃO

PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE LÉLO & IRMÃO, L.^{da}--EDITORES
RUA DAS CARMELITAS, 144
Livraria Aillaud e Bertrand, Lisboa-Paris

1921




A propriedade literária e artística está garantida em todos os países
que aderiram à convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de Março
de 1911. No Brasil pela lei n.^o 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.)


PROPRIEDADE ABSOLUTA DOS EDITORES


Porto--Companhia Nacional Tipográfica




AO DOUTOR

BRITO CAMACHO




AMOR CRIOULO




I


Naquela tarde mormacenta de fevereiro, João da Silveira embarcára em
Lisboa, no _Almería_, com róta à America do Sul. Considerava-se um
sem-pátria, agora, na sua bôa e amorável terra, sôbre cujo manso e
carinhoso seio não fumegavam senão escombros; terra perdida e maldita,
pelo jacobinismo vermelho do 5 de Outubro abalada nos seus fundamentos e
furtada criminosamente ao seu destino. Todo o ambiente tradicional em
que havia sido criado, êste parasitário rebento do vélho regímen vira-o
derruir de roda de si com estrondo. Crenças, privilégios, isenções,
benesses e preferências, tôda essa contrafeita armadura de iniqùidade e
obscurantismo que sustinha ainda de pé a combalida ficção monárquica,
tudo rolára desfeito, num epilepsiado arranco, numa comoção formidável,
enquanto invadia ferozmente o espaço em tôrno um caótico fumo de
confusão e de treva... e a visão inquieta do futuro envôlta num tôrvo
mistério, como um polvoréu de ruína.

Tudo lhe havia quitado descaroávelmente esta estúpida idéa da Rèpublica:
os cincoenta mil reisitos que êle, mensalmente, ia ou mandava com tôda a
pontualidade receber, a título dum amanuensado hipotético na Junta do
Crédito Público; as bôas graças da sua apetecida noiva, a Laurita, filha
dum acaudalado burguês e pelo pai abominávelmente educada, a qual agora,
com o Afonso Costa no poleiro, já cantava tambêm de papo; e até,--o seu
pensamento hipócrita rematava,--e até as nobres, as suavíssimas côres da
bandeira de seus avós, êsse azul calmo e êsse branco ingénuo, símbolo
irrefragável da alma nacional, ora via suplantadas por um vermelho de
açougue e um verde de curral, duas tonalidades irreconciliáveis, duas
côres ásperas, irritantes, heréticas, como punhais, como blasfémias.

Durante os primeiros meses da Rèpublica, João da Silveira, como tantos
outros, conspirou. Aquecia-lhe a alma êste vago _sebastianismo_ solapado
no íntimo de todo o bom português, acicatava-lhe o desejo a gulosa
lembrança daqueles magros cobres orçamentais que, somados ao activo do
seu escasso património, lhe serviam a governar sofrivelmente a vida.
Assim, na sua ferina hostilidade contra o novo regímen, concorriam
simultâneos a alma e o estômago, uma predilecção ancestral e um instinto
devorista. E foi certamente esta dualidade antinómica de inspirações
que, embora visando ambas o mesmo fim, cardou a sua actuação de
conspirador de todo o carácter excessivo. Porque êste cauto Silveira
firmou várias adesões e compromissos, fez nutrida propaganda verbal
entre os rústicos, prontificou-se a recrutar gente, enviou mesmo algum
dinheiro; mas sem arriscar-se nunca pessoalmente no campo da luta
militante. Após a frustrada incursão de Chaves, não quis mais. Os seus
40 anos previsores e calculistas haviam grado em grado esmoitado, na
gafa estrutura moral dêste malogrado d'Artagnan, o espírito de aventura.
Vendeu a sua reputada vinha do Pinhão, arrendou a linda quinta da
Folgosa com o solar «de sete capelas», seu fidalgo berço natal e
residência muito em conta quando em apuros de dinheiro; à noiva escreveu
«que a sua dignidade, em briga com o seu amor, o forçava àquele exílio
doloroso»; e aí o temos agora dobrado com indolência sôbre a amura do
_Almería_ em marcha, vergado o busto, as mãos pendentes ao abandôno,
evitando olhar o manso deslise da cidade donde sentia que lhe vinha um
frio vento de repulsa, com as pálpebras froixas seguindo, em baixo, o
rasgar da prôa pela limosa torrente caudal do rio, e os lábios vorazes
vagamente encrespados na voluptuosa antevisão do Desconhecido.

Primogénito dos três filhos dos Silveiras Lôbo, de Mosteirô, o pequeno
João fôra criado com tôdas as mimadas preferências e tôda a jactanciosa
despreocupação dos antigos morgados. Todos os perniciosos desvíos lhe
havia consentido o dissolvente meio familiar e êste odioso prejuízo
educativo, todos: desde o achincalho, o abandôno burlão dos mestres, até
ao abuso feudal das raparigas. Daí que, resultando uma organização
inadaptável ao trabalho e um carácter voluntarioso e cego, o Silveira
havia consumido o melhor da sua vida ou bambochando em saborosas
sensualidades, ou luzindo em bárbaras pimponices, porêm um mísero
hóspede sempre da pura emoção, sempre refractário às reacções da
alquimia ideal do sentimento. Alto, forte, moreno, com uns negros olhos
dominadores e uma estrutura apolínea, entretanto no seu belo rosto
varonil espatinava-se a tinta de vulgaridade que imprime às fisionomias
de hoje a dureza, a ausência do sentir. Pronto sempre e álerte ao
galanteio, à volúpia, à brutalidade, ao prazer, nunca até àquele momento
se sentira capaz duma paixão que o arrancasse a si mesmo, que montasse o
seu egoísmo e as suas ambições tacanhas, que lhe pusesse asas na vontade
e lhe espiritualizasse o desejo. Nutria um tédio altaneiro pelos
aspectos triviais da vida,--êste tédio que é o triste apanágio das almas
sem vôo, dos corações vazios. Jàmais consentira intimidades e votava,
pelo geral, aos homens um desdêm cortês, às coisas uma indiferença
amável. Podia ser assim na medida do seu critério material, o mais feliz
dos homens, de vida rolando e fluindo suavemente como um exercício de
patinagem, se não tivera a furuncular-lhe, como uma fatalidade
ancestral, a crôsta da alma empedernida, o culto ardoroso, despótico,
incessante, bárbaro, da mulher. Era êste o flanco vulnerável do seu
_eu_, o único ponto em brecha naquele carácter dominador e altivo.
Abstenção feita da condição, da raça e da moral, o alarmante _odor di
femina_, fôsse urbano ou rústico, fidalgo ou plebeu, negro, amarelo ou
branco, amolecia-o. Posta em conflito com o perturbador mistério
feminino, a sua melindrosa sensibilidade capitulava, cedendo a um vício
de receptibidade extrema que se traduzia na falta absoluta de energia.

Nem por isso o nosso herói consentira nunca em descer aos atormentados
abismos da paixão, ou se deixára enlear no labirinto vêsgo da loucura.
Mal aflorava com o desdenhoso lábio o mel turvo do prazer, saltitando
despreocupado dum amor a outro amor,--epidérmicos todos, breves,
fugazes, como frutos apenas mordidos e logo deitados fóra. Era de
ordinário a vulgaridade do instinto que o dirigia, arrastando-o não raro
a scenas ridículas; mas já tambêm, uma que outra vez, a virtude suprema
da emoção, transfigurando-o, o erguera a desgarradas alucinações de
artista. Nesses altos, raros momentos de libertação êle sofrera, numa
atónita inconsciência, o puro domínio da Beleza. E agora mesmo, nesta
sua voluntária demanda da Solidão, neste atoado caminhar para o
Infinito, sem o amparo duma doce mulherita ao lado, o Silveira sentia o
coração árido e triste como o ardido leito duma torrente sem água...
Tremeu um instante, como no terror mortal de ir transpôr o vácuo, e
sacudiu-o um confrangido alvorôço, uma como que compaixão de si mesmo,
que o fez aprumar-se, esperto, na amurada, erguendo os inquietos olhos
ao espaço, por onde lhe parecera ouvir bater um esparrôdo incerto de
asas, e depois, com as pálpebras húmidas num ensopamento de ternura,
querendo reter o perfil indeciso da cidade que lhe fugia, na magoada luz
do crepúsculo, envôlta em lívidas musselinas de mistério.

Para onde ia êle? que ignorados destinos o aguardavam lá longe, nesse
novo grande mundo, para êle um enigma, e onde tudo era colossal,--o
progresso e a barbárie, a miséria e a riqueza?... Interrogações que
naturalmente lhe acudiam e vinham, freqùentes, cocegar-lhe a inculta mas
viva inteligência. Vagamente sentia que o homem que viaja aumenta sempre
e a cada momento enriquece a sua bagagem impressionista interior, a
qual, bago a bago, se vai então enceleirando, como um precioso tesouro
sentimental, no arcão das íntimas recordações, das lembranças
carinhosas. Cada povo, cada ambiente, cada país, cada raça deixam aí a
sua marca indelével, e essas pitorescas estratificações são outras
tantas parcelas novas que veem somar-se à história da nossa vida,
despertando-nos cordas inéditas no sentir ou alargando a latitude moral
da experiência. Não eram estas coisas postas bem a claro nem sentidas
nítidamente pela insuficiência mental de João da Silveira; nítidamente,
contudo, êle sabia,--isto sim!--ser a América do Sul terra «de lindas
mulheres»; e o relâmpago desta promessa acirrante fazia-lhe o passo
leve, encrespava-lhe a medula e acendia-lhe o desejo. Depois, havia
ainda que ver os seus sócios de viagem, havia que observar e indagar
quem, quanta e que qualidade de gente vinha ali a bordo com êle. Sem que
soubesse explicar-se bem porquê, tomava-o êste antecipado encanto dos
conhecimentos adquiridos em viagem, breves contactos de almas volitando
ligeiras entre os dois infinitos do céo e do mar, qualquer coisa de
adorávelmente vago, de efémero e profundo ao mesmo tempo. São como que
brisas do sentimento: se não prendem o coração tonificam a alma.


Os primeiros dois dias de viagem, té à Madeira, foram maus. Tempestade
constante. Aquele primeiro mormaço ameaçador engrossára e fechára té
disparar na trágica violência dum temporal desfeito. A chuva, a
cerração, o mar revôlto e o sudoeste rijo, soprando contrário, atrasavam
o barco e com êle jogavam perdidamente, sacudindo o transatlântico em
rijas convulsões que reduziam a arrogância industrial do seu poderoso
arcaboiço a proporções irrisórias. Nada estava seguro, pairava-se
indeciso na comoção e na treva. De quando em quando, varria de lés a lés
a embarcação uma ráfaga mais intensa, e tudo então a bordo dançava,
estalava, tiritava e gemia, no estrangulamento brutal da garra do
Desconhecido. Grupos descalços de marinheiros, trotando rápidos, faziam,
aqui, ali, a sua aparição fantástica, cerrando escotilhas, aprontando
escaleres, correndo presto a manobra. E agora, a intervalos, na
opacidade da noite como tinta, acima do ranger do cavername do monstro e
do rugir cavo das águas, por sôbre tôda essa brava orquestração da Morte
roncava e erguia-se alarmante o grosso apitar da máquina em desespêro.

E era como se não houvesse viv'alma ali dentro. A ninguêm era permitido
estacionar nos salões, no _bar_ ou nas cobertas; mas de horas antes que
perante a ameaçadora fúria do vendaval, poucos se sentiam em segurança,
e daí que uns pelo enjôo, outros pelo terror, outros por méra prudência,
tudo, na timorata demanda do seu beliche, fôra sucessivamente
desertando. João da Silveira, tomado dum indefinível mal-estar, com a
cabeça como chumbo, descera tambêm ao seu camarote, que era situado num
dos extremos do barco, formando esquina, junto à prôa. Tinha uma
ventanilha sôbre o mar e outra sôbre aquele ângulo avançado da coberta,
descobrindo assim um trecho dessa renovação iníqua das galés, essa
enorme grilheta ambulante, onde, sob um miserável tôldo, à intempérie,
ao abandôno, no mais absoluto desamparo, na mais sórdida promiscuidade,
num baralhamento ignóbil de idades, de sexos e de raças, rolando ao
áspero sabor da tormenta, como lastro, como calhaus, como lôdo, como
viva espuma, seguiam, empilhados a monte, os passageiros de 3.^a classe.
Foi a primeira sorte de gente que, a bordo, se lhe antolhou ver mais de
perto; tinha agora ali assim, ao alcance inevitável, próximo da atenção,
misérias, tristezas, espantos, dores que até ao momento êle arredára
sempre com dureza do seu coração, de ordinário avesso à piedade. Agora
tinha que forçosamente senti-las, ouvia-lhes o singelo relato das suas
penas e angústias, chegavam-lhe lamuriados protestos, tímidos gritos de
rebelião, surdas frases doloridas; começava a interessá-lo o aspecto
resignado, humilde, sofredor daquelas rôtas máscaras de agonia,
vinha-lhe o fartum nauseabundo da comida que lhes serviam; e durante a
sua primeira noite de mar, noite de pesadelo, noite de insónia, noite de
incomportável pavor, em que a madorna do cansaço lhe era a cada momento
posta em sobressalto pelo súbito martelar dos mais estranhos ruídos,--o
ferrolhar brusco de cremalheiras, silvos raspantes de cordagens, choques
brancos de metais, ringidos como rasgões, estalidos como pragas,--quem,
neste poema de extermínio, dava ainda a nota mais sinistramente aguda,
era essa atormentada frandulagem humana, quando, sôbre o convés
encharcado rojados à mistura, os seus altos gemidos em súplica rasgavam
ululantes o espaço, formando um concertante macabro com o alarído
bárbaro da tormenta.

Quando o _Almería_ conseguiu por fim fundear, frente à Madeira, a
caligem persistente no céu, as grossas cordas de água e as vagas
alterosas não permitiam fácil às pequenas embarcações acercarem-se do
paquete, e furtavam arreliativamente à contemplação do Silveira a
maravilha habitual dêsse scenário paradisíaco,--o amoroso encanto da
luz, a aragem perfumada do ambiente, a graça ingénua das construções, o
azul translúcido das águas, a esmeraldina frescura, o contôrno sensual
daquele monte atrevido de colinas salpicadas de claras harmonias, o
deslumbramento sem par e a euritmía incomparável dêsse atrevido
anfiteatro pagão, único no mundo, apenas agora entrevisto pelos claros
farpados na neblina, como através um entremeio de renda. Entretanto,
bôjo acima da pequena cidade flutuante, os vários _decks_ começavam a
animar-se; de tôda a parte surdiam lindos rostitos timoratos, cautelosos
bustos, ou enérgicos perfís, duras e arrogantes linhas masculinas,
incrédulos ainda, ávidos, curiosos, abertos numa cantante expressão de
alívio ou movidos numa alegre inquirição de interêsse; miravam-se
solícitos, acercavam-se efusivos e palreiros, formando vivos grupos de
acaso, intromiscando-se, reconhecendo-se, beijando-se; no salão
aparatoso da 1.^a classe, todo em _boiseries_ e estofos, os compassos da
orquestra espraiavam-se em molhadas ressonâncias; no extremo oposto,
pela grossa atmosfera heteroclita do _bar_, as rôlhas do Champagne
saltavam, preludiando estúrdiamente o distanciar do perigo. Mas o
Silveira, de fito sempre ao largo, não cessava de considerar o
deslumbramento panorâmico da ilha; e então viu como de roda do grande
barco, arfante ainda e a escorrer, sôbre a juba crespa e revôlta do mar,
dezenas de lanchas bailavam doidamente, em riscos de, num choque mais
violento, se estilhaçarem contra o colosso, na impossibilidade duma
aproximação tranqùila. E notou que vinham atulhadas de emigrantes,
outros tantos míseros foragidos como aqueles seus tristes vizinhos de
bordo, uns centos mais de desgraçados que iam ser pasto da voragem
insaciável dessas regiões intérminas onde fulgura o mito precário da
riqueza; protéico enxurro humano, encarnação polimorfa da desgraça na
demanda hipotética da fortuna. Eram carne votada à gleba, vítimas
forçadas da iniqùidade económica, a quem nem por isso o duro
mercantilismo reconhecia a importância do seu valor, como utilidade
social. Eram lágrimas que vão trocar-se em pérolas, vidas heróicas que
vão fundir-se em oiro, e que, não obstante, são tidas por nada por
aqueles mesmos para quem o seu descraziante esfôrço é tudo. Eram almas
tratadas como coisas, e que ali em baixo esperavam transidas, no mar em
cólera, sob a chuva, que os içassem como fardos miúdos, como valores
mercantís, como bagatelas, como bugiarías, como sucata, por uma corda. A
operação era primitiva: atados em pequenos molhos por um grosso cabo,
sem escolha, não importa como nem por onde, lá vão subindo em cachos,
escorrendo água, atoadamente, morosamente,--as mães com os filhitos a
dôrso, chorando, agitando no espaço as mãos como vermes; os vélhos
pendendo resignados na frouxidão da impotência; os moços ganhando
distância em arrancadas simiescas, e todos numa ansiada alternância
movendo os olhos pávidos entre a promissora segurança do navio, ao alto,
e em baixo a fúria glauca do abismo.

Passada, porêm, a Madeira, o tempo amainára, e agora, enquanto a dupla
hélice do _Almería_ fazia o seu arroteio manso de espuma, pela
imensidade movediça do oceano o espelhamento límpido do céu
prolongava-se, águas adentro, em opalinas suavidades, em claridades duma
transparência infinita. Como conseqùência, a bordo restabelecia-se a
tranqùilidade e pelas diferentes cobertas a mancha buliçosa e a sonora
chalra dos viajeiros alastravam, cruzavam-se, demandavam-se e cresciam
numa algarada cantante de alegria. Á hora de comer, já noite, João da
Silveira baixou, entre os primeiros, a ocupar o logar de acaso que lhe
haviam indicado e êle aceitára dócilmente, no seu altaneiro desdêm por
aquela camaradagem fortuita de gentes vindas não sabia bem donde e
destinadas a desvanecer-se pronto, finda a viagem, no distanciamento
vago da indiferença. Era o único logar que havia ainda vago, numa
pequena mesa para cinco talheres. Sentou-se. Até àquele momento, mal
havia tido ocasião de encarar os outros comensais, abotoados
naturalmente na constrangida reserva em que se nos fecha de ordinário a
expressão, à visinhança de estranhos; porêm, agora começava a vê-los sob
um novo aspecto, voltava cada um aos seus gestos habituais, mutuavam-se
olhares de confiante inquirição, saùdavam-se efusivos, seguros,
contentes. Fizera-os comunicativos a simultânea vibração do perigo. Á
direita tinha o Silveira um curioso espanhol, abundante, palreiro,
grosso tipo de homem roçando pelos 50 anos, calvo, vermelhaço, grandes
dentes ralos nos grossos lábios gretados e rôxos, a barba grisalha curta
e mal cuidada. Vestia com vulgaridade, e na lapela usada do _smoking_
ostentava a roseta de Isabel a Católica, sofrívelmente suja. Á esquerda
ia um italiano, já entrado em anos tambêm, ponderado, gordote, a papugem
flácida das olheiras denunciando um grande _viveur_, a pele rosada e
fina passada de cosméticos, um ar importante, as mãos muito cuidadas.
Seguia depois um joven chileno, irrequieto, pomposo, farta cabeleira
revôlta pastichando a indumenta cerebral dum génio, um colarinho mole
inverosímil, os olhos negros e ardentes como carbúnculos, os dedos como
que modelando incansavelmente no espaço abstrusas, incompreendidas
formas, O quarto comensal era um puro _gentleman_, de finas maneiras,
olhar inteligente e doce, um riço buço incipiente sôbre a lisa cútis
morena penujando, e uma linha geral atraente, correcta, comedida.

--Rijo temporal, hein?--comentava com vivacidade, sacudindo a cabeça, o
espanhol, quando o Silveira tomou logar à mesa.

--Foi de respeito!--acentou pronto o chileno.

--Não acha?--tornou o primeiro interpelante, adiantando com intimativa o
busto para o italiano, que se limitou a baixar a cabeça num tácito
assentimento.

O joven brasileirito julgou oportuno corrigir:

--Foi forte, sim... ah! mas não se compara com as borrascas da Biscaia
ou da Mancha.

Ao que, num abundôso gesto de desaprovação, o espanhol, agitando o
guardanapo:

--Não, isso lá... O meu caro marinheiro, bem sei que é homem da
profissão... desculpará, mas não estamos de acôrdo. Então, eu não
sei?--E em tom convincente para o grupo:--Olhem que foi um passo... um
passo _de ponersele à uno los dientes de vara y média_!

--Mas, parece que não houve desastres a bordo?--aventurou quáse
maquinalmente o Silveira.

E logo o outro, tranquilizador, dogmático:

--Ah! não senhor. Nada! Nem _desperfectos_ nem doenças. É um grande
barco êste. Acabo de o assegurar ao comandante, que deposita em mim tôda
a confiança. Ah, lá isso...--E, num risinho envaidecido,
atestou:--Amigos vélhos!

--Contudo, aquela pobre gente da 3.^a classe...

O _soi-disant_ íntimo do comandante teve um desprezível encolher de
ombros:

--Ah, sim, naturalmente... alguns _resfrios_. Mas eu já por lá andei.
Que o comandante, já digo, para estas coisas não quére outro... Pois não
há nada, não... Vão tomar musgo e leite. _Una jugadita pasajera, no
más_.

O caso foi que a familiaridade banal desta aresta de diálogo determinou
um começo de conciliação do Silveira com o ambiente. Êle passeava agora
distraídamente os olhos pela trivialidade cosmopolita do recinto,--êsse
vasto quadrilongo sussurrante e refulgente, todo em branco e oiro, com
os seus colunelos tarracos, os metais scintilantes das vigías dos
flancos, o tilintído límpido dos cristais e loiças, e,--constatava com
orgulho,--as lusas caravelas simbólicas pinturiladas com arrogância nos
luxuosos vitrais do teto. Interessava-o o ambiente e atraíam-no as
figuras. E com os seus eventuais companheiros de comida, agora, numa
saborida mutuação de impressões, ia travando gradualmente
conhecimento.--O espanhol, dr. Contreras, era médico, pelos modos: um
pobre diabo espalhafatoso e inofensivo... quando não exercia a
profissão, e em quem a arrogância dispersiva da figura buscava
caridosamente iludir a inércia tacanha do intelecto. Parece que o seu
govêrno, para se descartar dum importuno e juntamente evitar ao país o
aumento na cifra da mortalidade, o comissionára _in perpetuum_ para
seguir estudando as condições de sanidade a bordo dos grandes
transatlânticos. Um pretexto inocente e a missão mais a carácter para
êste pobre Esculápio _à rebours_, cuja educação profissional
cristalizára na terapêutica obnóxia dos purgantes e das sangrias.
Norberto Mackenna, o joven chileno, era um pintor cubista que ao seu
país tornava, após 4 anos de regalona vida em Paris, sectário _enragé_
de Picasso e grande devorador de azeitonas. O moço brasileiro era o
tenente da marinha Euclides Pereira, que ia matrimoniar-se a S. Paulo,
de regresso tambêm duma viagem oficial de estudo. O italiano,
finalmente, êsse dizia-se marquês e da mais alta estirpe. Descendia dos
Colonna di Mafiori, e em lances sucessivos de azar desbaratára ao jôgo o
melhor da sua fortuna. Esta maldita obsessão desfolhára e deixára
totalmente a nu, de prosápia e de oiro, o seu frondoso e arcaico talo
genealógico, abatido agora burguêsmente ao mercenário ofício de balcão.
Porque o marquês ia a Buenos-Aires negociar em alfombras. E dizia estas
displicentes coisas numa resignada bonomia, com clara singeleza, com
altivez, quáse com brio, mirando as unhas; e imobilizava-se em atitudes
de dignidade distraída ante a natural incidência da atenção alheia.

Com o brasileiro seguiu o Silveira, no ascensor, ao salão da 1.^a
classe, pronto irmanados os dois nesta instintiva aproximação em que os
prendiam identidades seculares de língua e de raça. Em cima, o recinto
estava pleno da mais variada gente, e havia o confiante abandôno
familiar dos estômagos contentes. Ás curiosas, inquirições do Silveira
mal podia o tenente Euclides, tam hóspede ali como êle, cabalmente
responder, limitando-se quáse a informá-lo sôbre o que sabia das
famílias suas compatriotas. E é que estas não só abundavam ali, como
tambêm, com a sua vivacidade despretenciosa e a sua bonachona
loqùacidade, davam a nota dominante. Norte-americanos, e ingleses--êles
e elas,--mal avançavam, um instante, pelas portas laterais, as cabeças
arrogantes e logo partiam, por um momento desviados na sua desportiva
tarefa de fazer indefinidamente o circuìto do barco, em largas e sólidas
passadas. Havia chilridos, cantos, vôos, jogos inocentes de crianças;
implicativos _snobs_ que continuavam a imperturbável leitura trazida,
sem intervalo, do comedor, forrados agora na apática moleza dum
_fauteuil_, cruzando as pernas; e ao lado duma aparatosa francesa, de
cabelo duvidosamente loiro e traje não menos equívoco, um derrancado
vélho sonoleava.

Mas o Silveira, que se dirigia a Buenos-Aires, buscava de preferência
exemplares argentinos; queria verificar ali, em documentos vivos,
flagrantes, se lhes assentava bem essa fama de galhardia, de distinção,
de urbanidade e opulência, da beleza soberana nas mulheres e de
enfatuado _estiramiento_ nos homens, que fazia do nome argentino o giro
dominador pelo mundo.

--De argentinos, aqui a bordo...--informou, circunvagando em tôrno a
vista, o Euclides, hesitante,--não é esta a época... Não dou conta senão
duma família.

E apontava-lhe, em cauteloso grupo à parte, num dos tôpos do salão, um
homem grosso e grisalho, todo de negro, a face totalmente escanhoada,
com uma senhora idosa, vestida de negro tambêm, muitos anéis e colar de
pérolas, sentada em meio das duas filhas. Poisavam singelamente, sem
estudo, sem afectação, o ar abstracto, numa atitude natural de abandôno
tranqùilo. As duas senhoritas principalmente parecia quererem delir-se
numa suave atmosfera de simplicidade e renúncia que era a antítese
formal de todo o propósito de exibição galante: contudo havia na sua
linha geral, sobretudo duma delas, um não sei quê de espiritual
selecção, de fino, de subtil, de espontâneamente belo e vagamente alado,
que começava por fixar com agrado a atenção e gradualmente nos trazia à
alma um superior encanto.

Seguia interessadamente o Silveira, por entre as volutas quiméricas do
fumo do charuto, o exame desta esquiva e singular figura, quando, todo
sorridente e afável, se aproximou dêle o marquês: «que perdoasse, se
acaso o vinha molestar... mas queria apresentar-lhe um compatriota assaz
distinto, fidalgo tambêm, como êle... não tanto... e como êle
arruìnado». Amávelmente o Silveira acedeu, e daí a instantes sentia o
efusivo apêrto de mão do conde Améglio di Paoli, espécie de emérito
charlatão internacional, vivo, matreiro, na larga face a inalterável
palidez dos cínicos, farta cabeleira negra, a mirada penetrante e fugaz,
os gestos abundantes. «Duros golpes da fortuna,--dizia,--o haviam
constrangido a demandar a América para ver se conseguia colocar aí meia
dúzia das melhores telas da sua esplêndida galeria. Telas dos séculos XV
a XVIII. Ricos pedaços da sua alma! Um sacrifício enorme... Não tivéra a
coragem de o consumar na Europa, onde o extraordinário valor das suas
colecções era aliás bem conhecido». Exprimia-se com abundância teatral
de efeito, num atropêlo de frases mortificadas exteriorisando como que o
pejo da sua precária situação; e tudo era desatar-se em atenções e
lisonjas perante êsse «grande aristocrata português» em que a sua
cabotina codícia farejava erradamente uma vítima. Luzia no _smoking_ uma
roseta vermelha e branca. Porêm, o Silveira achava-o plebeu, mórmente
posto em confronto com o divino perfil, de Madona, da irlandesa que se
lhe sentava ao lado. Era sua mulher. Num dado momento, a querer captar a
confiança do Silveira, apresentou-a; depois, sempre nas suas prolixas
aclarações e deferências, ia atropelando: «que levava aí assim... havia
de ver! um pequeno mostruário de obras tôdas de mestres, que eram puras
maravilhas. Vendê-las-ia mesmo perdendo, que remédio!... E que, em
Itália, êle era assim um como que avaliador oficial de objectos de arte,
pois fôra o inventor dum engenhoso processo de constatar a autenticidade
dum quadro por meio da microfotografia. O único infalível! Não sabia?...
Era um método ignorado, exclusivo seu, porêm a um tam nobre
senhor,--batendo-lhe amigávelmente no ombro, epilogava,--não teria
dúvida nenhuma em o fazer comparte do segrêdo».

O Silveira escutava-o numa indiferença cortês, distraídamente; enquanto
o melhor da sua atenção se fundia com deslumbrada ternura na figura
adorável da irlandesa, que lhe agradava enormemente, com o seu ar
repousado e cândido, a linha puríssima das feições, o arranjo ático do
cabelo castanho, o busto sóbriamente redondo, o gesto singelo e nobre.
Daí que, nos breves claros de repouso que lhe consentia a chalra
interesseira do marido, êle fez perante a diva o ensaio de algumas
amabilidades discretas... deplorávelmente perdidas,--logo êle desolado
verificou,--porque esta deliciosa filha de Erin não falava nem
compreendia senão a língua do seu país natal, de que o nosso desapontado
galã não percebia patavina.

Quando, pelas 11 horas, desceu à _cabine_, o Silveira trazia vivo e
palpitante no cérebro o baralhamento policromo e difuso de tôdas aquelas
figuras, tôda essa efémera _kermesse_ de notas de acaso, na aparência
desconexas e de cujas cruas tintas, bruscas oposições e antitéticas
formas, reçumava contudo um encanto especial, uma clara e singular
harmonia. Enquanto se despia, êle notou que ali assim fóra, à sua
ilharga, no triângulo aberto da prôa, havia tambêm alegria. Ali, a noite
era quási total. Uma única pêra eléctrica, com reflector, esclarecia
apenas o limitado espaço ao seu alcance, e a maior porção do recinto
ficava sob o domínio impreciso de vagas sombras dançando sôbre montes de
andrajos. No aplastamento próprio desta hora de repouso e sob o mesmo
invariável tôldo negro, os grupos, sórdidos, compactos, alargavam-se e
faziam monte sôbre rolos de cordas, sôbre as bagagens, sôbre mantas
vélhas, troixas, sacos, sôbre esteiras; e a escassez da luz erguia em
deformações de pesadelo, emprestava monstruosas ampliações de horror a
êsse caprichoso arranjo de cansaço e de miséria. Mas havia ainda muita
gente desperta; mesmo encostados à _cabine_ do Silveira, dois rústicos
italianos faziam pausadamente o interesseiro cálculo de quanto poderiam
vir a forrar, em cada mês, dos seus hipotéticos salários; um francês,
mais longe, trauteava _couplets_ canalhas; e tôda a sorte de vozes, de
idiomas, de murmúrios, gritos, expansões, risadas que eram lamentos,
suspiros que eram bocejos, tôda a gama fruste da animalidade, tôdas as
brutas explosões do instinto, se entrechocavam e faziam côro nesta
exótica Babel flutuante, grosso concêrto bárbaro que afogava o marulho
manso das águas e que ainda o sôpro galhofeiro dum _harmonium_ vinha
cobrir, a espaços, com a sua toada _chillona_.

Acomodado já o Silveira entre os lençóis, pareceu-lhe distinguir o
quebrado dedilhar duma guitarra, acompanhado duns acordes de violão...
Apurou o ouvido, não havia dúvida... aí voltam êles, trinaditos, leves,
como quem está afinando, êsses sons tam seus familiares, tam seus
queridos. E agora são já os prelúdios dengues do _fado_, um _fado_
choradinho e autêntico como só a alma portuguesa, enamorada e fatalista,
é capaz de bem sentir. Daí a momentos, em bom português, alguêm cantou:

    _Das barbas do Afonso Costa
    Mandei fazer um pincel
    Para escovar as botinas
    Do querido D. Manuel._

O Silveira saltou no leito, radiante, e ergueu meio busto, à espera de
mais, ávidamente. Já não se sentia tam só. A ironia gaiata daquela trova
fê-lo estremecer de vindicadora alegria. Esta descoberta inesperada
espancava-lhe o sono, aclarava-lhe a alma. Oh, a justiceira voz do povo!
O desdobramento do mote devia ser impagável. Vamos a ver que mais
viría...

O ignorado trovador cantou ainda outras duas quadras, porêm já sem
interêsse para o Silveira, porque gemiam lamechas trivialidades de amor.
No entanto, o grato alvorôço daquela primeira impressão ficou. «Não era
só êle...» comprazia-se em repetir no íntimo, vivamente sensibilizado
por êste traço imprevisto de afinidade moral com gentes de condição tam
abaixo da sua. Tinha ali assim, tam perto, analogias de sentir e fêveras
de ódio como as dêle, e a súbita descoberta desta conformidade
palpitante trazia-lhe confôrto. Inimigos tambêm do novo regímen...
dando-lhe costas, maldizendo-o como êle. E mais eram do povo, pudéra!...
do povo, sim... êsse pobre e sempre ingénuo povo português, de cuja
hipócrita adulação os rèpublicanos haviam feito plataforma essencial de
propaganda, e que depois do triunfo estavam agora burlando iníquamente.
Ah, mas êles lhes diriam! Brava gente! E tinha-os ali seus visinhos...
«Havia que conhecê-los, vê-los de perto. Bem...»

E adormeceu contente.




II


O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefável
sensação de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as
viagens em nós despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num
alviçareiro estímulo interior. De tudo quanto o rodeava crescia para êle
o interêsse. Livre, pelo momento, de preocupações sôbre o futuro e
assediado por todo um mundo de sons, aspectos, côres, idéas e coisas
novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma
dilatava-se-lhe num voluptuoso apaziguamento sem têrmo, como essa lisa
toalha imensa de mar, sem perfídias e sem cóleras.

A corneta chamara para o primeiro almôço. Fóra, pelo espaço, havia sol,
havia luz, e o tépido acariciamento da brisa casava-se numa euritmía
perfeita com o manso ronronar das águas. Neste plácido ambiente de
espuma e oiro, as silhuetas saltavam nítidas, as tonalidades ganhavam
valor, sentia-se mais amigo e mais próximo, mais potente, mais cálido,
mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar
extasiado do Silveira, todo o bigarrado movimento de bordo se esmaltava
de tintas de relêvo, de cânticos pagãos, de brados genésicos, de
inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe
pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixões fôssem mais
fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Saíndo, na direcção do
refeitório, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrança dos seus
ignorados, dos seus humildes correligionários da passada noite, e ia a
demandá-los, com piedosa atenção, através a gradeada porta da masmorra
que ali assim perto os mantinha a distância, quando uma outra
solicitação mais empolgadora e mais instante lhe rompeu da alma em
alvorôço: a imagem fugidía e alada da joven argentina, entrevista tambêm
na véspera, no salão. Mas, por azar,--debalde o Silveira esperou!--nem
ela nem ninguêm da família baixou a comer.

Não havia então remédio senão confiar do acaso o providencial milagre de
a ver aparecer.--Mas quando? mas aonde?...--E aí sóbe êle de golpe no
ascensor e vem atravessar o salão e faz o giro afanoso do barco, mirando
em tôdas as direcções, perquirindo os bizarros grupos distribuidos
preguiceiramente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das
cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupação essencial, o resto
marcava zero para êle, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber.
Acotovelava insensível os arremangados homens do _sport_, cortava
indiferente as interesseiras chalras de grossos burgueses, vestidos de
fustão branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente,
às louvaminheiras investidas do dr. Contreras, em termos de passar por
malcriado; e por um triz não préga de bôrco sôbre o convés com uma
barafustante paqueta baíana, magra, pequenina, ictérica, que comandava a
poder de gritos e truanescas evoluções uma chusma de pequerruchos.

Por fim, essa adorável argentina ei-la que aí vem agora avançando... Vem
só. Era alta, esguia, frágil e avançava leve e aérea, como um reflexo de
si mesma, lembrando no porte e na frescura um dêsses longos, finos e
erectos fustes da _palmeira imperial_, com o vértice perenalmente verde.
Seguia breve e alheadamente, com uma simplicidade não isenta de nobreza,
e foi sentar-se junto da mãe, uma repousada e aparatosa senhora que nos
parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que
denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela
segurança de tranqùila contemplação que emfim conseguia, já não
abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e
desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que
fôsse notado, entregar-se a esta viva e desbordante análise que a sua
alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia à excitação
misteriosa que dentro de nós faz chispar o maravilhoso reflexo interior
da simpatia.--Era curiosa, enternecedoramente curiosa, com efeito, esta
linda desconhecida. Aparentava 20 anos, não mais. Farto cabelo castanho,
_mousseux_, sem brilho, descendo em bandós singelos a juntar-se sôbre a
nuca; pequenina testa espiritual, em triângulo; os olhos castanhos
tambêm, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lançadas
sôltamente; o nariz projectado direito e um pouco longo, toda a face
alongada por igual, perfil grego, traçado num como que afinamento
idealista e ingénuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos,
muito iguais, e a bôca breve, os lábios finos mas expressivos, resumindo
o que porventura havia de vida e de paixão nesta criatura reservada e
tímida. Nenhuma espécie de atavios: nem espartilho, nem jóias. Apenas na
base do pescoço, ático e longo como um mármore da Jónia, um colar de
corais napolitanos. As suas mãos, de dedos brancos e finos como longos
estames, e mais claras que o tom _mate_ do rosto, eram o prolongamento
lógico de tôda a figura, lembrando os tenros rebentos duma árvore de
sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se-lhe no vago, enquanto na
filigrana húmida dos lábios perpassava um frémito breve de emoção.

Na alma ardente do Silveira rompêra agora o desejo veemente,
irreprimível, de mutuar impressões com a linda desconhecida.--Mas como
consegui-lo, como chegar adonde a ela?...--considerava com afinco,
instalando-se-lhe na frente, numa atitude de estudado abandôno, os
cotovelos sôbre a amurada.--Tinha que haver uma apresentação, manobra
táctica reconhecidamente difícil para o investimento cortês duma família
como aquela, que êle não via comunicar-se com ninguêm, que ninguêm
saùdava e que a ninguêm retinha, mantida mui deliberadamente no seu
desprendido círculo de isolamento e indiferença. Assim, uma aproximação
em condições favoráveis, segundo as regras do bom-tom, não era empresa
vulgar.--O Silveira, de lábio pregado, reconhecia-o, e esta
descoroçoadora evidência, longe de o desalentar, mais o
enardecia.--Havia que buscar...--Numa fêvera crescente de impaciência,
planizava estratagemas, ideava hipóteses, amontoava projectos, que, mal
esboçados ainda, todos logo fracassavam. Então, em alternâncias de
dulcíssima pausa, como um bálsamo, o áspero aguilhão do seu cuidado
amolecia na contemplação deliciada e atenta dêsse baluarte suave de
isenção e de virtude. Mas logo, mais despótica, mais tenaz, a sua
amoruda obsessão voltava, por cada um destes venusinos exames trazida a
um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatava a vontade e lhe
acendia o desejo.

Um momento veio então em que o Silveira notou que, um pouco mais ao
largo, à ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um joven glabro
e calvo, com o engerido busto dobrado sôbre uma destas pequeninas mesas
portáteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lápis seguiam
numa carreira febril, dir-se-ia ao atropêlo cálido da improvisação,
enchendo fôlhas sobre fôlhas sôltas, que a aba loira dum grande _panamá_
protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propósito exibitivo e
grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e
imobilizava-se, como que colhido em pausas de transcendente laboração
interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lápis erguido
digitalmente sôbre o lábio sibilino. Depois, num ímpeto criador, um
estremeção simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, êle
recomeçava inflamadamente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao
Silveira que, numa destas estases de espiritual concepção, o biltre
encarára particularmente a adorável argentina, a criatura esfíngica do
seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambiára com ela um qualquer familiar
sinal de inteligência.--Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz até
à insolência... Bem, mas então, nesse caso... havia que conhecê-lo a êle
tambêm!--E forte nesta idéa, feliz por êste relâmpago de aproximação
salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de
espaço a espaço aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso traço
iniciai à sua fortuna.--Era uma figura abortiva e grotesca, assim
tortuoso, magrote, pequenino, com o seu bigodito loiro, raso à raíz dos
lábios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, com a cabeça tôda em
tortumelos, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal,
aparada caricaturalmente em ponta, num dêsses estiramentos cucurbitáceos
peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoço sôbre a
ladeira débil dos ombros mais acentuava o desliamento quebradiço e
vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sôbre êste pescoço
estriado, sôbre estas mãos nodosas, sôbre esta cabeça paradoxal que
parecia recêm-saída dum cataclismo, não havia a epiderme rugosa e áspera
que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penujosa e clara
duma pele de efébo, _mate_, adoçando os contornos, com transparências de
aguarela e velaturas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente;
a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava súbito a
uma rubefacção herpetizada e adusta no revestimento crassoso das
desertas grimpas do cránio luzidío.

Vestia um jaquetão negro de lustrina, colete e calça de flanella créme,
sapatos brancos, peúgas rôxas, a camisa mole _ajourée_, e a farta
gravata de sêda negra caída e sôlta num desmanchado laço de artista. Um
mixto de pedantismo e inconsciência, de garridice e desmazêlo.
Propunha-se o Silveira abordá-lo, quando um pequeno incidente surgiu, a
cortar-lhe o propósito e colocá-lo num passo difícil... Era o conde
Améglio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o «grande
fidalgo português e seu não menor amigo», logo de acercar-se-lhe,
expansivo, sorridente, num afectuoso desbarato de gestos e mimadas
atenções, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mão,
familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas,
ofertas, lembranças, solicitudes.--Que fazia ali assim? porque não vinha
com êles?...--A adorável irlandesa, numa sublinha cativante, sorria
tambêm. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de
súbito posto à prova na duplicidade egoísta dos seus instintos.
Gaguejava de embaraço, não acertava com uma posição, as palavras não lhe
acudiam. Tomava-o uma espécie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se
assim entaliscado estúpidamente entre essas duas solicitações, qual
delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar,
por fazer-se admitir ao convívio da linda americana, cuja linha patrícia
e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual _Mrs._
Edith, cujas bôas graças não queria perder, mas junto da qual tambêm não
lhe convinha fazer demasiado ostentiva parada de atenções, neste
momento. Defendia-se por monossílabos, numa grande instabilidade de
movimentos, còrando como um colegial e mirando de escape, numa idiota
solicitação de escusa, a bela argentina, que nem dava por êle. Por fim,
ante a insistência pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo
que breve iria, a estibórdo, ter com êles; e tornou a còrar mais forte
quando o conde, já longe e ao dobrar a esquina do _deck_, se voltou num
gesto afável, acenando-lhe convidativo com a cabeça.

Daí a instantes, liberto do arreliativo pesadelo, acercou-se dissimulado
do incansável rabiscador, o qual, no momento justo, arredára, num desvio
brusco do antebraço, a grande aba do _panamá_ protector de sôbre as
tiritas de papel, que logo desparramaram ao acaso, como arvéloas, pelo
espaço. E logo tambêm o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solícito,
baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolhê-las.

--_Un millón de gracias, caballero_.

--De nada...--obtemperou, amável, o Silveira; e com discreta
atenção:--São produções inéditas?

--_Apuntes del natural_,--tornou singelamente o outro, sempre em
espanhol,--esquissos, impressos, simples notas do momento, fugazes como
êste instante de vida em que voamos.

--Deve ser interessante.

--Não vale nada...--derivou o iluminado anotador, num gesto
desprendido.--Um modo inofensivo de matar o tempo.

Convidou o Silveira a sentar-se e acercavase-lhe, solícito,
insinuante.--Sem dúvida era português? Pelo modo, pelo acento, via-se
logo... Muito folgava! Êle era andaluz. Um pouco periodista e um pouco
homem de negócios.--Impingia-lhe o seu cartão de visita, impresso em
tipo gasto e vulgar, modestamente.--Ramón Alvarez, _tout court_.--Mas,
sôbre a caligrafia tôrpe dos caracteres, um empenachado elmo luzia
heráldicamente, mais tôrpe ainda.--Êle era duma família da mais antiga
linhagem, família de cronistas, de poetas, de galans... e tivera sempre
um grande fraco pelas letras. Tinha dois livros em preparação, uma
novela e um poema épo-histórico, e tambêm um drama prestes a ser pôsto
em scena pela Maria Guerreiro.--Oh, os intelectuais!--exclamou o
incompreendido escriba, desarticulando o busto, rolando os olhos em
êxtase e, num bravo arranque de entusiasmo, atirando a enormidade
paradoxal da cabeça sôbre a nuca.--São a flor por excelência, a suprema
exaltação da terra!--Infelizmente, êle vivia... viviam os dois, que lhe
perdoasse se tomava a liberdade de o dizer... mas lá como cá... viviam
numa peste de países de analfabetos, onde por via de regra os
pensadores, os génios, os grandes eleitos do talento e do saber, morriam
de fome. De sorte que, assim, havia que ser-se ao mesmo tempo um pouco
prático.--Que remédio!--com enfado soberano rematou. E iludia o seu
prosaico mistér de caixeiro viajante num vago eufemismo, dizendo «que
vinha à Argentina estudar o país».

--E conhece argentinos?--logo o Silveira indagou com calor.

D. Ramón meneou negativamente a cabeça.

--Alguma das famílias que vão aqui a bordo?

--Tampouco.

--Nem aquelas senhoras, ali assim, à nossa direita?

Essas menos do que nenhuma. Alvarez não conhecia nem tinha ganas de
conhecer.--Muito cheias de prosápia. _No le gustaba_.--E franzia o nariz
com displicência. Na irritação do desapontamento, o Silveira é que teve
ganas de lhe bater... Entretanto, na sua abundosa loquela, o Alvarez
insistia que nunca podéra aturar gente pretenciosa. Ele queria-se com
gente alegre, comunicativa, franca, _sencilla_, gente à moda do seu
país, da sua terra... com pessoas que nos põem à vontade, no fraternal
empenho de nos fazerem sentir que são nossos iguais, em vez de parecer
que nos querem impôr uma humilhante adoração.--Olhe! como aquilo.

E apontava, de olhar incendido, uma linda morenita, mui viva e
coquetona, tôda de branco, que justo lhes passava na frente. Ia ladeada
por dois outros tenros amorinhos, e as três realizavam o mais delicioso
grupo etrusco, assim caminhando rítmicamente, sôltas e leves, as cintas
enlaçadas, os bustos dançando, o cabelo ao vento.

--_Què monada!_ Aquilo, sim... Veja! Veja!

Dizendo, o desengonçado Ramón exagerava a sua abominável aparência
fetal, ao erguer-se, todo dobrado, sôbre a mesa, para corresponder às
provocadoras saùdações que, passando, a rapariga lhe fazia com a cabeça,
com os olhos, com o leque, com as mãos, batendo forte o tacão, bolinando
os quadrís lascivos. E quando a perturbadora visão se desvaneceu, êle,
familiarmente:

--Prometi-lhe um soneto e neste momento mesmo o terminava. Quere ver?

Procurou, com a pupila febril, nas tiras sôltas, e erguendo uma por fim
entre os dedos trémulos, leu então, enfáticamente, com cabotina audácia,
como sua, o puro decalque duma das líricas mais inferiores de Manuel
Palácio. Contára antecipadamente o seu instinto com a iletrada
ignorância do Silveira, o qual, tomando naturalmente por original a
cadenciada toadilha, em marretadas de admiração vislumbrava agora nas
insondáveis cavernas cerebrais do Alvarez tubérculos autênticos de
génio. Porêm já êste, num lume de vaidade, colhendo presto a papelada:

--O meu amigo perdoará... mas ocasiões destas não se podem perder. _La
muchacha con seguridad_ espera-me. Está impaciente... _Hay que
aprovechar, por Dios!_

E, arredando brusco a mesa, partiu de abalada, pequenino e torcido sob a
aba descomunal do _panamá_, como um chaparro anémico.

Desapontado, o Silveira quedou-se uns segundos sentado ainda e imóvel,
na sua atitude de irremediável lamecha, o busto abatido, as mãos
pendendo tristes entre os joelhos. Depois, tendo enviado um derradeiro
olhar de desconfortado apetite sôbre a espalda esquiva da linda
argentina inabordável, ergueu-se e partiu tambêm, sacudidamente. Mal
tinha dado a volta para estibordo, quando viu que a êle se dirigia o seu
afável comensal, Euclides Pereira, ladeado por dois graves e idosos
senhores, que deviam ser ingleses, a avaliar pelos cómicos desmanes em
que êles buscavam amávelmente contrafazer a sua imperturbável e habitual
tesura. O joven brasileiro apresentou:--_The Right Honorable the Earl of
Horrowby_--_The Captain John Stayton_. Este segundo tartamudeou umas
curtas frases guturais, que o Silveira não percebeu, lardeadas de
profusas reverências; e o tenente Euclides explicou então que vinham
pedir-lhe a honra de consentir em fazer parte do grande _Sports and
Entertainment Committee_, e ao mesmo tempo convidá-lo a assistir à
reùnião preparatória, que devia realizar-se, aquele dia mesmo, no salão
de 1.^a--_the Social Hall_,--ás 9 p. m. Erguido e dobrado numa atitude
de nobre aquiescência, o Silveira agradeceu, no íntimo envaidecido. E
como que sentindo-se crescer, importante, alegre, seguiu com afectada
indolência direito ao conde Améglio, que de longe observára e
compreendera a scena, e por isso o acolhia agora entre atencioso e
mordaz, num risinho de conformidade patusca.--Êle tinha adivinhado...
muito bem! muito bem! Fizeram o que deviam fazer, era de esperar.--E
todo em aprovativas mesuras:

--Sim senhor! muitos parabens.

--_Very, praiseworthy_,--completou _Mrs._ Edith, com o seu cândido
sorriso. Mas, encolhendo, modesto, os ombros, o Silveira:

--Uma simples amabilidade. Nem eu esperava. Que valor pode isto ter?

--Ah, pois então não tem! Êles bem sabem a quem escolhem...--acentuou,
lisonjeiro, o conde, com ar convicto; e maliceiramente rematou:--Olhe, a
mim não me convidaram êles.

--Mas, é que o devem convidar!--corrigiu com amável intimativa o
Silveira; e, num generoso assomo de importância:--Se o conde quere, logo
à noite lembro o seu nome.

--Oh, não, não... por amor de Deus! Essas honras, aqui, não trazem senão
incómodos e maçadas. Para o efeito, sou da plebe, prefiro que me
considerem um anónimo, um zero. Não, não... Muito obrigado!

Trocaram depois uma meia dúzia de frases banais sôbre a monotonia da
vida de bordo, a extensão fatigante da viagem, a vulgaridade chocante
dos passageiros, a má comida, o calor, o belo tempo que fazia. O conde
tinha no regaço um livro copioso,--_L'Argentine telle qu'elle est_, de
Paulo Walle,--cuja leitura recomendou ao seu amigo; mas a êste
interessava-o mais a silhueta ateniense, o abandôno repousado e lânguido
da irlandesa,--sôbre a _armchair_, frente à luz, estendida longamente,
com os pèsitos brancos traçados fóra, no ar, deixando a divina modelação
da perna a descoberto bastante acima do artêlho, com uma cadência suave
e tranqùila na ondulação rítmica do seio, os braços em ansa, as mãos
inertes em concha sob a nuca, e os grandes olhos de veludo mirando vago,
ao longe, reflectindo não sei que molhado encanto, da ardósia fluida das
águas, e parecendo seguir o vôo dalguma quimérica visão na claridade
material do espaço.

O toque para o _lunch_ veio cortar brusco êste primeiro ensaio de
_flirt_, com o qual a alma oblíqua do conde não parecia aliás
preocupar-se... Em baixo, à mesa, a conversação arrastou-se monótona,
cortada e dispersa, como se cada um daqueles cinco fortuìtos comensais
trouxesse agora por distintas e opostas coisas dividida a atenção e
solicitado o espírito. Apenas, com familiar insistência, se falou dos
próximos festejos, sendo o Silveira e o tenente Euclides felicitados
cordialmente por fazerem parte do grande _Committee_ directivo; e tambêm
o abstruso Mackenna se desatou num panegirismo entusiasta daquela
aparatosa francesa cuja identificação moral e social trazia todos a
bordo intrigados, graças à mirabolância equívoca das _toilettes_, e à
suporífera mansidão e à consciência não menos letárgica do presumido
marido.--Helena d'Ellery se chamava ela, já conseguira saber... mas,
jurava! ainda havia de saber-lhe tambêm práticamente a biografia.--O
flácido marquês di Mafiori teve um risinho enigmático, imperceptível; ao
passo que, na sua libidinosa querença, o outro:

--É deliciosa! Tem o _chic_, o aperitivo acre do escândalo. _Hay que
gustarla!!_

E na gulosa antecipação dêsse defeso prazer sonhado atacava furiosamente
o pires das azeitonas.

A interminável sucessão da tarde arrastou-a o Silveira enfastiadamente,
em grande parte pelo braço solícito do tenente Euclides, que não se
cansava de o apresentar às numerosas famílias suas compatriotas. E assim
andaram deambulando amávelmente de grupo para grupo, sem que o Silveira
conseguisse dominar a impaciência e vencer o tédio. As jovens
brasileiritas, algumas bem interessantes, com as suas meigas expansões e
a sua vivacidade ingénua não logravam entretanto cativar-lhe o espírito,
enleado teimosamente naquele obsessivo empenho de se aproximar da
argentina; os homens, êsses sem maior atenção, mal trocadas as primeiras
saùdações, logo reatavam o interesseiro diálogo interrompido, não
falavam senão em cotações da borracha e do café, perseguiam miragens de
fortunas fabulosas, desfiavam cálculos que davam vertigens, denunciavam
burlas que pediam galés, antecipavam quebras iminentes, todos ávidamente
engrenados no travamento egoista e brutal dos negócios, a que durante
tôda a sua vida o Silveira, por temperamento e por educação, se
mantivera sempre altivamente alheio. Nada disto o satisfazia, nada o
interessava, nem por momentos o prendia sequer. Então, num dos seus
vagos e atoados giros de bordo, atingiu o Silveira o têrmo da coberta, à
prôa, mesmo sôbre o amontoamento heteroclito e sórdido dos seus vizinhos
da _cabine_, em baixo, aquela pobre gente da 3.^a classe. No trecho
luzidío e nu do convés que a projecção do grande tôldo _gris_ deixava a
descoberto, êle viu que vários bigarrados e mansos grupos subiam e
desciam ao acaso, num constante vaivêm, pelo sujo rasgão duma espécie de
negra fossa, a um canto, e vinham em cima amadornar-se, plácidos todos e
delidos como um sol de outono, todos na mesma calma resignada e humilde,
apagados, doces, tranqùilos. Os homens, pelo geral, em camisola e
arremangados, a cabeça nua, alguns descalços, estremavam-se segundo as
afinidades de raça, e fumavam, assobiavam, rilhavam fruta, falavam
tímida, espaçadamente, como que narcotizados por aquele embalo monótono
da vida que, durante dias e dias, havia de baloiçá-los entre a água e o
céu. Muitos, num confiado abandôno animal, dormiam. As mulheres,
acocoradas, remendavam-se, preparavam tisanas, amamentavam os filhitos
de colo ou catavam os mais crescidos. Numa clareira de escasso prazer,
ao centro, e de roda do mesmo incansável e folgazão _harmonium_, passava
numa tropeada cantante um círculo folião, dançando,--cujas atitudes
pagãs uma loira e delgada _touriste_ ia esquissando a correr no seu
_carnet_, deliciadamente. E o Silveira fazia a aproximação mental desta
suave chusma humana, na sua conformidade evangélica, na sua
inconsciência fatalista, na sua plácida singeleza e passiva sujeição ao
destino, com os gestos duros, a pupila metalizada, a frase breve e a
sôfrega ardência dos seus insatisfeitos companheiros de 1.^a... e achava
aqueles mais felizes.

Tocava o sol o ocaso, e o Silveira como que via agora, de roda de si, a
uma outra luz, os homens e as coisas, cujos contornos se debuxavam numa
agonia de tôda a sua vida exterior, acendidos em tons violentos num
esfumaçado fundo de tristeza. Encarou numa instintiva interrogação o céu
e surpreendeu, no seu desdobramento esfusiante, êsse maravilhoso e
deslumbrante scenário cuja amplidão magnificente tanto lhe haviam
encarecido.--Era com efeito uma imensa, uma transcendente e apoteótica
sarabanda de luz, que mais que aos olhos lhe falava à alma, e que em
parte nenhuma como ali, em pleno oceano, podia abranger-se íntegra na
sua avassaladora majestade, na sua incomparável beleza, tomando
totalmente meio céu, descendo suavemente do frio azul mineral do zénite
a um loiro cálido de paixão, para depois, à raíz do mar, inflamar-se em
_sanguíneas_ vigorosas, esbrasear-se em línguas de incêndio. Na difusão
ofuscante desta auréola de sonho, as _walkirias_ fantásticas de nuvens,
encapeladas cêrca do horizonte, debruadas por aquela gama infinita de
côres, facetadas nas mais atormentadas e imprevistas formas do relêvo,
tinham movimento, tomavam volume, intenção, vida, alma, carácter,
improvisavam grupos que eram símbolos, formavam cruas oposições,
saltavam em rondas caprichosas; e por fim tôda essa manante claridade
sideral despenhava-se, como um Niagara de oiro, macia, translúcida,
impecável, sôbre a imensa alfombra rútila das águas. Aí, na linha
molhada do horizonte, o mar era fogo líquido, e nesta enorme brasa,
crespa e fluída, a granada quáse extinta do sol estrelava-se ainda para
o alto num imenso leque de violeta e oiro, que a algodoada capela das
nuvens contornava, e cujas últimas trepidações vinham, crepitantes e
dispersas, morrer pelas silhuetas errantes, pelas escaiolas claras,
pelas arestas vivas do navio arfando... ao passo que já, pelo diáfano e
desbotado azul da metade oposta do céu, da penumbra vaga do oriente, o
plácido véu da noite vinha subindo.--Era tôda uma revelação esta soberba
e inimaginável orquestração aérea de aspectos, de formas e de tintas;
convertia num absurdo a impassibilidade tradicional do céu, fazia-nos
crêr na clássica sublimidade da vida olímpica dos deuses, dava-nos como
que a sensação viva do Infinito.

Seguia o Silveira desta hora doce e imensa a magia incomparável, quando
sentiu um toque familiar no ombro, que o fez estremecer. Era o pomposo
Norberto Mackenna, que com um gesto alto e desdenhoso:

--Então, que faz aqui assim, tam só, meu caro?... Admirando o pôr do
sol, não é verdade?

--É lindo!

--_Ya lo creo_.

--É maravilhoso!

Mas, num rebarbativo freio a êste entusiasmo ingénuo, o joven chileno:

--Sim, é bonito, é... mórmente para quem o contempla pela primeira vez.
Mas não nos podemos ficar por aqui!--E ante a muda interrogação do
Silveira, com infatuado ar, esclarecia:--Ora! Nas minhas primeiras
viagens, fartei-me de fixar colisões de côres como estas; mas não
passavam de cópias servís, hoje não lhes atribuo importância
nenhuma.--Plantava-se com intimativo vigor diante do Silveira, que
começava a imaginá-lo maluco.--Porque isto de pintura, meu caro amigo,
tem que progredir, como tudo o mais; tem que radicalmente mudar de
processos, entende-me?... Os valores éticos e estéticos actuais são uma
lástima... adstritos como ainda andam à passividade idiota e servil de
gastas formas milenárias. Temos que fazer mais do que ficar-nos a
objectivar interminavelmente as vélhas concepções convencionais da
beleza e do amor. _Hay que poner patas arriba_ a tôdas essas fórmulas
mesquinhas. Oh, seguramente Picasso, Boccioni, Metzinger, Matisse, estão
na razão! Há que derribar por completo, que arrancar pela raíz tôda essa
floresta vazia e pedante do Passado. Pois se nós temos de roda de nós,
flagrante, inexplorada, imensa, uma nova maneira de criar e de sentir...
Temos que renovar ao mesmo tempo o instrumento e a música.--E movendo
desordenado a cabeça, os nervosos dedos arranhando inspiradamente o
espaço, a grenha revôlta ao vento:--Há que fixar o movimento, a
velocidade, a conquista do espaço, o delírio da carreira, a embriaguez
do vôo, as palpitações do éter e as vibrações anímicas, todo êste
travamento volátil e febril da vida, tôdas as grandes conquistas
arrancadas últimamente pelo génio humano à Natureza inerte e hostil...
Não lhe parece?

--Sim, acho que sim...--aventurou maquinalmente o Silveira, que o
escutava indiferente, sem perceber nada, como quem ouve chover.

Entretanto, diante do seu olhar deslumbrado e absorto, e como um eterno
protesto à vacuìdade insolente daquelas palavras, continuava a
desenrolar-se a beleza perenal dessa agonia de luz dulcíssima,
salpicando de brilhos fugazes a capela rasteira das nuvens, que como que
se abriam agora em magnólias, hortênsias, lótos, orquídeas e outras
flores maravilhosas, semelhando um imenso fogo de artifício imobilizado,
no seu fulvo esplendor e no seu rasgo alado.

Breves horas depois, no _Social Hall_, a prefixada reùnião do
_Committee_ directivo de _sports_ e festas decorreu serena e
rápidamente. Para ganhar tempo e facilitar trabalho, o secretário leu um
programa de diversões já préviamente elaborado, o qual foi aprovado sem
discrepância. Procedendo-se em seguida à distribuìção das respectivas
funções pelos membros do _Committee_, João da Silveira veio a saber, com
verdadeiro regosijo, que não lhe competia mais do que o encargo de fazer
entre os seus compatriotas de bordo a _quête_ voluntária para as
despesas.--E que não se aceitavam donativos superiores a uma libra.--Por
outro lado, a tarefa era-lhe um tanto ou quanto fastidiosa. De
portugueses, a bordo, o Silveira não se dava conta de mais que alguns,
poucos, pequenos proprietários e comerciantes, seguramente
republiqueiros... bastava vê-los. Não lhe era nada agradável tratar com
essa ordem de gente. Mas, em suma, por uma vez e como eram poucos, a
coisa resultava fácil, afinal. Era um alívio!

Daí a pouco, sôbre uma das mesitas do _smoking-room_, iniciava êle o seu
trabalho, passando ao papel os nomes daqueles que já conhecia, quando
súbito se lhe interpõe arreliativamente à luz a figura abundosa e afável
do dr. Contreras.--Não sabia se vinha _molestarlo_...--Tinha um risinho
solícito, de pretendente, ao explicar:--Êle estava cêrca, ali assim,
vendo jogar, quando deu conta dêle.--E apontava uma mesa de _brigde_, em
que eram parceiros o Mafiori, o Mackenna, um inglês engelhado e esguio
como um arenque sêco, e aquele misterioso e derrancado acólito de
_M._^{me} d'Ellery, a qual, complacente, se lhe sentava ao lado, de
perna traçada e fumando, num à vontade petulante. O Contreras
continuou:--Estava vendo jogar, por ver... Não que fôsse _aficionado_.
_Más bien le gustaba_ tratar com as pessoas de verdadeira distinção. Oh,
sem favor nenhum! Por isso tomára aquele atrevimento.

E levemente incrédulo, dobrando-se para o Silveira, com o olhar astuto:

--_Es usted republicano_?

O Silveira teve um gesto solene de protesto. E servilmente o outro:

--Ora! via-se logo... Podia lá lêr por semelhante cartilha _un
caballero_ tam distinto! Eu, que sou eu, p'r'aqui um pobre
_come-meajas_, e com republicanos tambêm nunca quis nada. _No parto
buenas migas con ellos_. Gente sem modos, sem educação... Nem a
rèpública, meu caro sr., é para nós.--Dogmáticamente confirmava,
arregalando os olhos:--Veja o que ela durou em Espanha!--E, com
dulcerosa expressão, batendo a espalda do Silveira:--Pois, meu caro
amigo, faço votos para que êsse grande dia da restauração lhes venha
breve.

O Silveira poisára a pena e erguera uns grandes olhos de esperança para
o generoso interlocutor, seguro senhor agora da sua grata simpatia, e
que com abandôno familiar, sentando-se:

--Diga-me, meu amigo... êle a rèpública portuguesa sempre suprimiu as
condecorações?

--Suprimiu tudo!

--_Es lástima_...--comentou, de pálpebra murcha, o Contreras; e depois
duma pausa, coçando a barba, tímidamente:--Eu muito gostava de ter uma
condecoração portuguesa!

--Sim? Pois deixe estar, que quando a coisa volte...

--_De seguro_, promete?

--Alcanço-lhe uma... a Conceição, por exemplo. Palavra!

--Ah, que agradecido eu lhe ficarei!--lamuriou o Contreras, enternecido,
de mãos erguidas.--_En cambio_ tambêm prometo fazer-lhe _un regalo, un
regalo precioso_...

Achegou-se e com afável intimativa, muito em segrêdo:--Dou-lhe uma das
carabinas apreendidas aos monarquistas portugueses, de que me fez
presente _el alcalde_ de Vigo, grande amigo meu... É uma carabina
autêntica de Toledo, como aquelas que os jornais disseram que o govêrno
espanhol havia vendido para o Paraguay...--Aqui ria grossamente,
mostrando a rala devastação dos dentes:--Para o Paraguay, hein... Não
foi má _broma_ essa!

E outra vez sério, e com um encarecimento hipócrita, premindo o pulso ao
Silveira:

--Uma preciosidade, uma verdadeira peça de museu... Era do Paiva
Couceiro.




III


Na manhã seguinte, ao _lunch_, já ao lado de cada talher, no comedor,
havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel
assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado _of
games and sports_ para durante a viagem. A primeira sessão,--jogos sôbre
a tolda,--realizar-se-ia já nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira
havia visto, logo de manhã, um grande quadro negro posto a prumo no
_Social Hall_, o qual era destinado à inscrição geral dos jogadores, e
que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias
exóticas, hieroglifando nomes bárbaros. Agora, no comedor, o Silveira
demorava com particular agrado a atenção sôbre a beleza daquela
composição tipográfica feita a bordo, e no íntimo rendia o seu mais
admirativo preito à celeridade e à limpeza como tudo ali assim
caminhava.

A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o
guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente
Euclides o mirava com uma expressão singular, entre alviçareira e
irónica, alegremente. E como a insistência maliciosa dêste prazenteiro
olhar se prolongasse, levemente intrigado êle então aventurou:

--Como o nosso Euclides está hoje contente!

O brasileirito fez uma pausa de importância, e depois olhando-o fito,
com um cocegante ar de mistério:

--Tenho uma grande novidade a dar-lhe!

--Coisa bôa?

--Bem agradável, creio, lhe deve ser...

--Homem, diga lá! desembuche,--comandou, já tambêm interessado, o
Contreras dando um murro na mesa.

Porêm, numa suave negativa de cabeça, o tenente Euclides:

--Nada! O meu amigo perdoará... mas é assunto só p'r'os dois. Não pode
ser...

O Silveira, razoávelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso
por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreção,
levou a mão ao peito, fazendo luzir as unhas. Porêm, a tudo resistiu a
alviçareira e enigmática expressão do brasileiro, que se manteve
impenetrável.

Por fim, quando em cima, no salão, o Silveira, devorado de impaciência,
voltou a interpelá-lo, o bom Euclides aclarou:

--Não sabe você?... Já sei quem é o nosso misterioso argentino!

--De-veras!?... Falou com êle?

--Sim! falei...

--E com as filhas?

--Tanto, não. Mas poderá você fazê-lo... Está aplanado o caminho.

--Então? então?...

E ante os olhos interrogativamente abertos e a bôca espectante do
Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe então, por entre cautas miradas
em tôrno, espaçadamente,--que se tratava, não dum argentino de nascença,
mas dum vélho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, há trinta anos
estabelecido no formoso país Del Plata, para onde viera, moço ainda,
exercer a advocacía, e onde fôra cumulativamente jornalista e pedagogo,
sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande
proprietário no norte e homem de fortuna.

--Como diabo soube você tantas coisas?--exclamou, maravilhado, o
Silveira, sacudindo a cabeça numa comoção de espanto.

--Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,--o Euclides aclarou
singelamente.

--E que santo fez êsse milagre?

--Milagre nenhum... É que o homem é um grande filólogo, pelos modos;
conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivação
scientífica das línguas. Quere obter certas indicações prosódicas e
sintáxicas sôbre o português. Uma madureza como outra qualquer.

E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sôbre brasas, o
Silveira:

--E depois? e depois?...

Que, depois,--continuou, aprazivelmente irónico, o brasileiro,--depois,
a pretexto de êle falar português, aquele celebrão, rompendo com a sua
engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai então êle, para
se descartar da estopada e simultâneamente fazer um serviço a um amigo,
escusára-se, alegando a própria incompetência, e inculcára-o a êle,
Silveira, como um chavão na matéria.

--O quê!?--bradou êste, num salto de pavor, mas no íntimo radiante.

--Assim mesmo!--confirmou jubilosamente o amigo.--A estas horas você é
considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...--E
levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:--Agora, veja lá como se porta.
Olhe que eu disse que você era um grande professor.

--Quere não que a fez fresca!--lamuriou, atarantado, o Silveira,
rascando a testa.--Indicações prosódicas, sintáxicas... sei lá o que
isso é! Estou bem aviado!

--Ande, vamos!

Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salão, frente
a uma mesa, sentado gravemente. No seu invariável traje negro, e
gordote, rosado, o sulco devastador das múltiplas rugas cortando em
fundas ranhuras a descaída oval do rosto totalmente escanhoado, com o
seu ar didáctico e tranqùilo êle parecia desfiar coisas transcendentes a
dois desconhecidos, igualmente vélhos, que num religioso êxtase o
escutavam.

Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave
perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber
urbanamente os recêm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximação
feliz no seu primeiro apêrto de mão ao Silveira. E, depois de todos
mútuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a
sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar
doutoral, num francês correctíssimo:

--Eu estava expondo a êstes srs. a minha teoria sôbre a morfologia
secular das línguas. É a química do pensamento. É uma coisa evidente,
racional, matemática, infalível. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar
a sua axiomática divulgação pelo mundo... As línguas não são mais do que
puros agregados... atómicos, por assim dizer. Creiam nisto... É das
relativas combinações e reacções dos elementos radicais e fonéticos
dumas e outras que deriva a seriação fatal do seu parcelamento.

--Mas, como se explica então a formação caprichosa, arbitrária, de
tantos idiomas e dialectos?--aventurou, com timidez, um dos vélhos
ouvintes.

--Ora essa! São as migrações, são os embates dos povos, é a acção das
latitudes, dos climas,--aclarou o vélho pedagogo com decisão, a fria
pupila azul momentâneamente acesa.--Nada há aí de arbitrário. Tudo
obedece ao jugo imutável de grandes leis de que ando perseguindo o
segrêdo. São afinidades que se exteriorizam, são electrons étnicos que
se expandem. E são êstes biológicos reagentes que lenta e fatalmente
opéram o desdobramento das raízes primitivas em grupos progressivamente
diferenciados, na _tessitura_ incomovível dos quais se vão manifestando
e impondo então modismos e qualidades peculiares, que lá residiam já no
estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o
celta e o latim, entre o mosárabe e o português...--E aqui, enviando uma
terna olhada ao Silveira:--É sôbre o que eu tenho que pedir bastante à
sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.

O Silveira fez-se pálido e tartamudeou um vago assentimento.

Veio tirá-lo do embaraço uma cantante voz feminina, clara e virginal,
que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francês, aventurou com meiguice:

--Poderias conceder-me um momento, papásinho?...--E logo, um pouco
perturbada e dobrando-se, ao notar a assistência:--Ah, perdão... mas eu
não queria desarranjá-los.

Perante a deslumbrante aparição, o Silveira pôs-se de salto em pé,
aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em
branco... Mas já o encadernado professor estava de pé tambêm e
cortêsmente solicitava vénia para ausentar-se. Apresentou com
simplicidade à filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe
interpusera no caminho.--Era Iréne, a mais nova das duas... «A doutora
da casa»,--sublinhou o pai com afável desvanecimento. E daí a instantes
seguiam os três, fácilmente acamaradados, para a coberta de bombordo,
onde o dr. Wimeyer, na sua experiência de vélho viajeiro e por ser êste
o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a
família. Aí estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de
abandôno, a espôsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vélha,
Dolores,--esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em
repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso
protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira,
entre D. Catalina e Irene.--Que sorte!... nem de propósito...--E,
trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o
salão, a reatar a sua voluntária catequése interrompida.

O Silveira ficou então só e inteiro senhor do campo, na sua tam
apetecida situação junto das três senhoras. Encareceu com lisonjeiro
calor o seu inexprimível prazer de travar conhecimento com uma família
_tout-à-fait distinguée_ como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se
logo... Na mais amável solicitude, buscava pela louvaminha _à outrance_
insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingénuo, D.
Catalina corroborava, explicava então,--que era argentina, aparentada
ainda com os Alvear, uma das raras famílias de aristocracia autêntica
que podiam contar-se no seu embrionário, no seu mesclado país de
_chacareiros_ sem passado e adventícios sem escrúpulos. Regressavam duma
viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.--E, a propósito, iam
preguiçosamente arrastando êsse mais ou menos sabido travamento de vagos
comentários, de estribilhos banais, tôda a sorte de frases feitas, sôbre
os encantos de Paris, as maravilhas da Suíça, as preciosas coisas da
Itália. Neste terreno fácil de consabidas baboseiras, o tacanho
Silveira, que tinha viajado algo e não era de todo alheio ao francês,
acompanhava as três senhoras lindamente. Mas, à medida que o diálogo
aquecia, o espírito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um
critério seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por
vezes imprevistos. Discreteava com elevação sôbre coisas da arte e do
espírito. Em tôda a Itália, nada a cativára tanto como Florença.--Que
ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente
lançado e superiormente belo.

--É certo. Até as mulheres...--arriscou, com instintivo acêrto, o
Silveira.

--É a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradição espiritual. Da sua
arte divina a mesma Natureza é tributária. É o coração do
mundo!--epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua
tímida reserva habitual, singelamente:--Mas tambêm, a propósito de arte,
deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rápido
estudo da arte europeia, não há duvida. Oh, mas é uma arte demasiado
sábia, uma arte tôda facturada e etiquetada de antemão, um curso forçado
de _savoir-faire_ em que os rasgos de génio são espontados como se
castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a
espontaneidade, que sómente o viço criador dos países novos poderá
voltar a restituir-lhe.

--O quê! tu crês na possivel afirmação duma arte americana,
_ché_?--acudiu a irmã de Irene, parando de lêr, num desdem incrédulo.

--Tanto como creio em Deus! É uma questão de tempo.

O Silveira prometeu-se interiormente consultar sôbre o caso o Mackenna.
E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, côr, interêsse, e
travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que
os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a
presenciar o primeiro número dos jogos sportivos. E é de saber que entre
os mais entusiastas e ligeiros _aficionados_ passou a pequenina e
desmanchada figura de Ramón Alvarez, o qual, ao ver assim de súbito o
Silveira já mano a mano com as três sechoras, teve um saltinho de angurú
e fechou num piscar de olhos patusco a parópsia do seu espanto.

No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas,
falou-se na variedade, na magnificência e beleza da paisagem europeia,
na doirada opulência da sua luz, nas carícias infinitas do mar, nas
perspectivas majestosas da montanha. Mas tambêm aqui a longa e
espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o braço, sempre na
mesma toada modesta e simples:

--Aí está outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a
deslumbramentos e pontos de vista inéditos, hão-de-me permitir que
discorde; porêm tenho minhas restrições a fazer.--E com a expressão
sincera e calma, sob o olhar atento da assistência:--Eu não sei...
talvez seja por efeito de haver nascido num país horrivelmente chato e
monótono, mas a verdade é que no meu conceito a Natureza, ao contrário
dessa apregoada opulência, dessa mirabolante fecundidade e viva sucessão
de aspectos que tôda a gente lhe atribui, é duma indigência manifesta de
iniciativa e invenção, não consegue renovar mais que os mesmos
invariáveis _coups de théâtre_ e os mesmos cansados e gastos
espectáculos, seja qual fôr a altitude ou o clima. Repete-se a cada
passo.

D. Catalina, no íntimo desvanecida, julgou oportuno intervir:

--Lá volta esta minha filha às suas originalidades... Por mais que o pai
a corrija...

--_Mamita!_ original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem
observar por igual?

--Os outros, não!--objectou Dolores, com mal contido azedume:--Eu pelo
menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal
entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves
alpinas e as escarpas sangrantes da Sicília.

Mas, na mesma dogmática singeleza, Irene, de mão estendida, fechando com
o polegar o indicador e abatendo as pálpebras:

--Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o coração destroçado, essa
corôa alvíssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O
chamado esplendor do Mundo é tudo quanto há de mais convencional.
Depende de nós... de nós exclusivamente. Êsse consagrado chavão do
deslumbramento pagão das coisas não é, no fundo, mais que o espelho da
nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.--A
irmã e a mãe sorriam, com um ar incrédulo; e ela, persuasivamente:--É
certo! Tal a sensibilidade no nosso íntimo braveja ou esplende, tal
vemos de roda de nós a vida. São as mais das vezes as vibrações
cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo
êsse decantado brilho objectivo. É um esplendor de empréstimo. Sem nós
não valeria nada.

--Está bem, está bem...--comentou D. Catarina, prolongando um risinho
irónico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade.

De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e não sabendo que
contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabeça,
idiotamente.

Assim, à medida que o diálogo ganhava interêsse, ia-o Irene esmaltando
de notas originais, de impressões verídicas e frescas que ela extraía e
desdobrava do íntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue,
espontâneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num
atolondrado mutismo, por serem coisas impenetráveis à sua ignorância e
inacessíveis ao seu critério. Entretanto, o seu temperamento sensual,
agora, acobardava-se... sofria a influência transcendente e dominadora
daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferência
para êle, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amáveis
paradoxos, sempre com a mesma voz límpida e virginal, em frases breves
como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas
mãos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era
como se na espiritualização crescente das frases e dos conceitos a sua
indumenta animal gradualmente se fundisse. Tôda a impressão de matéria
desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lábios
eram tintas de emoção, os seus braços eram volutas de sonho; e um nimbo
de harmonia dulcíssima emanava, como um fluído mágico, de todo o seu
atenuado ser, simples e tranqùilo. Não obstante, junto dela o coração do
Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia
mais apressado.

Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do
crepúsculo começaram a abater sôbre o barco o seu véu de tristeza, D.
Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vénia para
retirarem-se.--Aproximava-se a hora de comer.--Houve uma afectuosa
saùdação de despedida,--para Irene a última,--e depois o Silveira,
imóvel e em pé no mesmo logar à medida como ia vendo esta fina, longa e
clara figura esfumar-se na luz fugacíssima da tarde e delir-se na
distância, tinha a ilusão de que ela não era mais do que uma pura
abstracção, imaterial, intangível, como êle se lembrava de ter uma vez
lido de Pierrot,--que nascera da projecção de um raio de luar sôbre um
muro branco...

Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volúpia
dum vago e alado sonho, erguido nas espírulas de oiro dum alheamento
alto e inefável. A ablução espiritual daquele curto diálogo com Irene
afinára-lhe o sentir, infiltrára-se nas mais nobres e puras radículas do
seu ser, e como que alimpára por momentos a sua alma fruste das escórias
brutais do instinto. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que o
_Almeria_ ralentára a marcha, e que lhe montava ao coração e lhe toldava
o cérebro o que quer que fôsse de opressivo e cálido. Ganhava-o a
depressiva molenta do aproximar dos trópicos. Pela ventanilha, mesmo da
cama, olhou ao largo e viu que barrava cêrca o horizonte uma espécie de
ciclópico muro negro. Era o arquipélago de Cabo-Verde,--recordou.
Lentamente, com uma delidora quebreira nos músculos dormentes, reagiu,
ergueu-se.--Em cima, na tolda, não havia sol, e a luz diluia-se em
grisáceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado
da neblina, cortada como era por êsse formidável circuìto de montanhas
áridas e a prumo, escalando sinistramente o espaço. Não se divisava em
tôda esta imponente massa, de ruína e de sombra, uma nota clara, um
cântico de luz, uma choupana, um rebanho, uma árvore, qualquer perdido
_oasis_ de frescura e de repouso. Era o repúdio formal da Natureza.
Dentro dêste revôlto anfiteatro de maldição e de treva, o mar, fundo,
plácido, dum tom uniforme de pêz com espelhamentos lívidos, parecia
amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa
paralização dum cataclismo. E tudo falava de desolação e de morte neste
atormentado pórtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada,
paìsagem de pesadelo tôda em pontas ásperas e hostis, em escarpas que
davam vertigens, em agulhas topetando o céu, em rampas escalavradas e
adustas; terra de abominação onde a vida parára por completo... arestas
sôbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trágica insensibilidade o
mar, com os seus mansos rolos, buscava em vão comover, mandando-lhe o
acariciamento deslumbrante das suas franças de espuma.

Mal tinha o barco lançado ferro e já era simultâneamente invadido, a
bombordo e a estibordo, por um duplo cordão de negros,--puros bronzes
vivos,--ágeis, luzentes, hercúleos, a maior parte vestidos apenas dum pó
ainda mais negro do que êles, e que trepavam lestos à amurada ou
marinhavam pelas cordas como símeos, para deixar-se escorregar depois
sôbre as várias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em
risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecável marfim dos
dentes. Eram os carregadores de carvão que acudiam à faina. Porêm,
seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-número de
pequeninas embarcações rodeando, em baixo, o vapor, um outro impúdico
enxame de simiescos truões agora surdia, igualmente ágeis e negros,
igualmente nus, mas êstes na maior parte ainda impúberes, limpos e de
formas delgadas, desdobrando na sua exótica invasão adoráveis linhas de
graça gentílica,--e todos na vibrante impaciência de disputar pelo
mergulho a caça das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam,
por divertir-se. Uns da casca frágil dos botes, outros pelas enxárcias e
mastaréus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava
sôfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura,
erguendo os joelhos, batendo as mãos, desmanchadas nas mais inverosímeis
atitudes, zurrando tôda a classe de ruídos bárbaros; depois, quando a
tentadora rodelita de prata ou de oiro traçava o seu meteórico brilho
pelo espaço, êles atiravam-se a nado, de braços em ponta, como flechas,
havia um abundante chapinhar nas águas, e daí a segundos um dêles
reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho
triunfante.

Com tôda a sua abominável selvajeria, o espectáculo tinha um
impressionante sabor pagão a que o Silveira não pôde manter-se alheio.
Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estímulo
daquele torneio brutal de agilidade e de fôrça; e apenas, uma que outra
vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em tôrno, tomado por ela dum
instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato
por aquela impudente exibição animal se sentiria ofendido.

Nem ela, nem ninguêm dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira
descortinou porêm, não sem uma certa surprêsa, gozando muito compadres
aquele _sport_ bárbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e
furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenções no mais
escuso ângulo da ré, em cima, sôbre a última coberta.

Um vélho negro, derreado e esquelético, se lhe acercou entretanto,
ofertando produtos da indústria rudimentar do país: colares, anéis e
broches de coral, saquitos de junco, bôlsas de sementes luzidías e duras
como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de
corais, de pedras polidas, de caroços de plantas indígenas e gomas
aromáticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num
galimatias gutural todo em monossílabos, adulteração burda do português,
cortada, áspera, intraduzível. De roda, uns tantos mais mercadores
mendigos, como êste, circulavam tambêm, oferecendo laranjas, bananas,
côcos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela
nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam
suavemente comover a esquiva indiferença dos clientes, em gestos não
isentos de docilidade, dobravam-se tímidos, humildes, e apenas se lhes
traía a braveza inculta da condição no ávido dilatar das chatas narinas,
na escrutadora dureza do olhar astuto.

Entretanto, por efeito do transbôrdo do carvão, ganhava mais e mais a
imobilidade gorda do ar um pó negro finíssimo, imponderável, que tudo
inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa
fuliginosa do seu irresistível poder emporcalhante, não havia brilho que
êle não apagasse, não havia limpa claridade que êle não pontilhasse de
sombra. Então o Silveira, que começava a ver o seu rico fatinho claro
salpicado e mordido de minúsculas lâminas negras, como coleopteros
daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximação de
Helena e do marquês, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salão,
seguindo o exemplo do maior número. Mas aí logo, do canto duma mesa, o
pequenino Ramón Alvarez a chamá-lo em grandes gestos, com uma intimativa
insistente, quáse aflita.--Queria em primeiro logar felicitá-lo... Que
bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Júlio
César... Maganão!--Depois, ao notar a expressão de desagrado do
Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez
aflito:--Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo
demónio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E êle,
embaraçado na escolha, não sabia bem por que decidir-se...

--Tenho aqui tantas, tantas coisas!

E estrangulava nas mãos nodosas a cabeça descomunal, nesta hora crítica
por fôrça ardendo em plena gestação de baboseiras.

Daí a umas horas, no _bar_, juntavam-se os parceiros habituais do
_bridge_, faltando apenas o marquês, que num estranhável desmentido à
sua habitual correcção, já ia tardando. Faltava tambêm _M._^{me}
d'Ellery, e o seu imprescindível assessor, o vélho bonzo, fazia maçaneta
com as mãos sôbre o paninho verde e franzia a bôca exangue, em mal
reprimidos sinais de impaciência.

Então, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um
risinho cheio de reticências, cujo significado exacto êste não podia
apreender, perguntou-lhe «como ia a coisa?» E logo, todo jactancioso, o
outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura...

O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na
conversa, tossicou, amolou, coçou as barbas, incrédulo. E, com ar
ofendido, o chileno:

--Parece que o amigo duvida?

--É que o vejo tornar as coisas fáceis... Não se caminha assim. Devagar,
devagar... Entre o pensar e o fazer, _hay que tomar el tranvia_.

--Se queria apostar?

Porêm o Silveira, que tinha dançando-lhe pícaramente diante dos olhos o
inopinado grupo do tópe da ré, naquela manhã, encolheu os ombros numa
ironia mansa:

--Eu já não digo nada...


Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar
terra firme. Uma larguíssima sucessão de horas, sempre as mesmas, que
seriam vividas inevitávelmente sôbre a cálida opressão daquela atmosfera
pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre
o proceloso encapotamento do céu e a opacidade revôlta das águas. Então,
tôda esta grande família que o acaso improvisára ali, sôbre o piso
encerado das várias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a
anestesia morna do tédio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada
momento pretextos novos de aproximação, lances de mútua intimidade;
teciam-se correntes súbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de
galanteios, atenções, franquezas; concertavam-se negócios e
associavam-se interêsses;--como se no precário âmbito daquela enorme
jaula ambulante êles constituissem um universo novo, como se dentro
dêsse frágil circuìto de madeira e aço coubessem tôdas as suas
preocupações, planos, sonhos, febres, ambições, desejos... o concêrto do
seu futuro e a incógnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a
irresistível sugestão dêste acercamento crescente de relações e
intimidades, o Silveira teve ocasião de notar que as senhoras Wimeyer,
coerentes e imutáveis na sua linha de inviolada isenção, não se davam
senão com êle.

_Mrs._ Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade
senhoril, andava agora tôda entregue à divertida seriação dos jogos. O
ardente sôpro panteísta da desgarrada vida de bordo acendêra-lhe a
repousada candura infantil em espontâneos ímpetos; e a cada passo ela
vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de
membro do _Committee_, sôbre horas, datas e mais circunstâncias e
pormenores, que a redonda ignorância do interpelado tinha que deixar
invariávelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos
chistes e coquetonas burlas, a que servia de intérprete a complacência
cínica do marido.--Estranhava realmente não o ver inscrito em nenhum dos
números do Programa. Já não dizia, em suma, no _Passo entre as garrafas_
ou na _Luta dos travesseiros_, que requeriam predicados especiais de
agilidade e de fôrça; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na
_Corrida das batatas_, tam fácil... ou então no _Combate dos galos_.--Ao
desenho grotesco desta idea, tôda a patrícia figura da irlandesa
estremeceu num júbilo: e arrebatadamente, batendo as mãos:

--Ah, sim! sim! aí está... Queria vê-lo de galo... Seria tam
interessante!

Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela
então, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de
promessas:

--Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no _Enfiar da
agulha_. É fino! é lindo!

E com um risinho provocador a erguer-lhe a púrpura sensual dos
lábios:--Que fôsse, que fôsse... que ela lhe procuraria a vitória.

Avizinhava-se a passagem do Equador, que seria celebrada a bordo por um
grande baile de fantasia, antecipação muito a propósito do Carnaval, que
vinha próximo, pois terça-feira gorda era já cinco dias depois da
«passagem da linha», por alturas do Rio de Janeiro. Prometia vir a ser
êste Baile o número mais brilhante do Programa das festas, e, dois dias
antes, já a população feminina de bordo quáse se não preocupava de outra
coisa. Haveria prémios, adjudicados por votação geral; e admitiam-se
duas classes de trajes de disfarce,--os improvisados a bordo e os
trazidos já entre a bagagem. De família para família, de grupo para
grupo, fantasistas, curiosas, insistentes, as interrogações cruzavam-se;
porêm, naturalmente, cada um furtava-se, guardando absoluta reserva, e
então as mais aventurosas hipóteses, as mais abstrusas e sôltas
imaginações cresciam e batiam asas, como borboletas demandando a luz, de
roda dêste fechado círculo de mistério. Boquejava-se apenas que o
Alvarez preparava um número de sensação; que Pilarita Gomez, a
desenvolta _morenucha_ que êle cortejava, figuraria, a conselho seu, num
_travesti_ algo picante; _Mrs._ Edith resistia inflexível às inquirições
dulcerosas do Silveira, que apenas conseguiu registar a renovação
freqùente das conferências dela com o cabeleireiro; e sabia-se que a
petulante d'Ellery ostentaria um primoroso traje de odalisca. Por sinal
que, como ela, uma noite, na pequenina tertúlia habitual do _bar_, se
lastimasse de que lhe faltava um adôrno a condizer, para a cabeça, logo
todo solícito e importante o Mackenna prometteu arranjar-lhe uma linda
peça a propósito, meio turbante, meio diadema, havia de ver... qualquer
coisa de abracadabrante, de sumamente artístico e grandemente
extraordinário. E o caso foi que, na manhã seguinte, êle aí vinha
instalar-se afanoso a uma das mesas do salão, munido de tesoura,
compasso, régua, esquadro e um frasco de cola, e sobraçando um volumoso
fardo; e convertia abusivamente êste liso rincão do _Social Hall_ em
oficina, logo extraíndo dessa boceta de Pandora pelintra a mais
desconcertante, a mais imprevista miuçalha, rodeando-se por um abundoso
aparato de fôlhas de lata, de cartão, de vélhos retalhos de cachemiras,
sêdas, veludos, de lantejoulas, sequins, rolos sujos de algodão e tiras
de papel doirado. E dois dias pegados levou ali assim, riscando,
talhando, cortando, ageitando, unindo, compondo prègas, chumaçando
relevos... enquanto limpava açodado o suor e arredava a melena, nos
intervalos de pausa benefica que raro lhe concedia a congeminação febril
dos dedos; e sempre espargindo uma nuvem impertinente de ciscalhos, de
trapos, de escórias fulvas, perante a admiração trocista dos passageiros
e a muda indignação do _steward_ da sala, chocado por esta suja
infracção dos regulamentos.

Por fim, naquela «quinta-feira de compadres», logo na antemanhã, o amplo
convés de bombordo sofria uma transformação completa. As cadeiras de
repouso haviam sido recolhidas aos flancos, e agora a marinhagem fazia
àquele largo recinto um emparedamento vistoso, colgando-lhe em tôrno
bandeiras e flâmulas de tôdas as nações, sujeitas de alto a baixo por
argolas e cordagens, batendo multicolores ao vento. Até aconteceu que,
por um lapso aliás fácil de explicar, dada a mudança tam recente das
instituìções portuguesas, a respectiva insígnia que aparecia desdobrada
ao contôrno drapejante do improvisado salão, era ainda a bandeira
monárquica. Não escapou êste inocente anacronismo ao Silveira, que,
radiante mas cauto, se limitou a esfregar as mãos num raivoso júbilo,
felicitando-se no íntimo por êste como que público e espontâneo
desagravo que aos seus fidalgos brios o acaso, ali assim, vingadoramente
lhe oferecia. Mas o pior foi que daí a instantes passaram tambêm dois
outros compatriotas seus,--um caixeiro da firma Brandão Gomes, de
Espinho, e um agente da «Camisaria Confiança», do Pôrto--adoradores
incondicionais do Basílio Teles e antigos revolucionários do 31 de
Janeiro, os quais, tomando por uma deliberada afronta internacional
aquela inofensiva exibição da bandeira azul e branca, logo protestaram
indignados e, de caminho passando palavra aos correligionários que iam
encontrando, breve foram todos levar exibitivamente perante o Comissário
de bordo a expressão do seu _veto_ colectivo, em termos que o
escandaloso símbolo teve de ser retirado. Enquanto a reparadora
desmontagem se fazia, aqueles dois primeiros estrénuos zeladores da
verdade histórica miravam de soslaio, trocistamente, o Silveira, com a
pupila triunfante. E êste então, como não havia a nova bandeira
rèpublicana a bordo, monogolava com tristeza:--Afinal, aí se fica o meu
pobre país sem representação!--E depois, num soberano ar de desdêm, com
um risinho perverso:--Que realmente era como estava bem... que aquilo
agora, com a rèpublica, não era nação, não era nada.

Fechado assim por essa improvisada cinta internacional o recinto, a
mesma marinhagem com uma vivaz e alegre solicitude, festoava-o em
abundância de renques de flores de papel, aplicava-lhe, a multiplicar a
iluminação, pêras eléctricas policromas. Por último, o piso encerado foi
passado a gis, para garantir a integridade corporal dos bailarinos. E
durante todo o dia pode dizer-se que nesta parte reduzida do convés se
resumiu o melhor da vida de bordo. Os que não trabalhavam, vinham ver. A
certa altura, desceu mesmo a inspeccionar amávelmente o andamento dos
preparativos, a sêcca figura esquiva do comandante. Tambêm os Wimeyer
vieram, num rápido giro, ver todo aquele arranjo, ao que êles chamavam
uma diversão _cursi_, mantendo-se altivamente alheios. Ao almôço, no
comedor, foi sensível a ausência das senhoras. E, fechados como se
mantinham nas respectivas _cabines_, uma bôa parte dos passageiros, no
vivo empenho de ultimarem a tempo os seus disfarces, resultava assim
que, por momentos, e a não ser a mancha arrogante de um ou outro
contumaz grupo _sportivo_, o dilatado _stand_ do tombadilho aparecia
deserto.

Ao anoitecer, mal a corneta deu o primeiro sinal para o jantar, logo o
comedor foi assaltado e invadido com uma grossa presteza, como até
àquela noite, em tôda a viagem, não havia memória. É que a direcção do
_Committee_ rogára aos senhores mascarados a fineza de descerem a comer,
trajando já os seus disfarces; e assim os simples _mirones_ davam-se
pressa em ir ocupar os seus postos de observação, na ânsia natural de
gozarem bem, desde o começo, a aparição picante das figuras. Daí a
minutos, os primeiros máscaras, logo acolhidos com palmas, desciam leves
os cinco envernizados degraus da escada. A seguir, outros e outros,
aquecendo de passo o ambiente do salão, que estimulado por esta ronda
bufona de côres estrídulas, de silhuetas, formas, gestos, símbolos e
brilhos imprevistos, vibrava e estralava de notas alegres, de
comentários patuscos, de aplausos, vaias, interjeições, pilhérias,
burletas e volatas de risos. E é que havia de tudo nesse desfile
bigarrado e inédito: traços ingénuos e arripios bárbaros, a trivialidade
e o inédito, a brutalidade e a elegância. Ora, eram selvagens negruscos
que vinham aos saltos, guinchando e rolando, e _boy-scouts_, zuavos,
marujos, _pierrots_, fazendeiros, _gauchos_, tangedores de gaita de
foles; ora, insulsas meninas de bôas famílias, que, ao amparo discreto
de consabidas e recatadas formas, vestiam apagadamente de _Fada_, de
_Noite_, de _Minerva_, de cigana ou ledora da _buena-dicha_.

Na mesa do Silveira, só se mascarava o Mafiori, que não acabava de
aparecer. Não aparecia tambêm, por igual, o Alvarez. A sua endiabrada
Pilarita, numa _louche_ figuração de _apache_, estava lindamente,
adorável de canalhismo galante e desinvôlta graça. _M._^{me} d'Ellery
ostentava uma riquíssima túnica oriental, tôda oiros e sêdas, a cabeça
sumia-se-lhe estrangulada no turbante birsamal do Mackenna, e vinha pelo
braço passivo e solene do seu derreado protector, de laço branco e
_frac_, tendo na lapela uma palma de esmalte verde. Tambêm vinha em
grande _toilette_, com a espalda provocadoramente nua e altos tacões
doirados, a jovem multimilionária Nora Scott, uma histérica mordida de
zelos pela irredutível esquivança do Silveira. _Mrs._ Edith foi das
últimas a descer, tôda grave e senhoril, a par com a complacência
orgulhosa do marido. Trajava um elegantíssimo _costume_ Pompadour, que
como que a aligeirava, lhe adelgaçava a redondeza helénica das formas e
lhe punha asas na figura,--e que era todo êle do mais puro bom-gôsto e
do mais escrupuloso rigor, desde a maranha luxuriante do penteado, desde
as miuditas flores e as prèguinhas leves da saia e _corset_, até às
leves _mouches_ do rosto, à fina pinturilha do leque picado de oiro, e à
ténue e espumosa renda do lenço minúsculo, amarrotado entre os
dedos.--Oh, que esplêndida!--rompeu extático, sacudido de admirativa
gula, o Silveira, mal que a viu aparecer e batendo palmas:--Bravo!
bravo! Aquilo sim!...--E com a face congestionada, num cotovelão
persuasivo ao Contreras:--Há-de ter o primeiro prémio!

Quando, por fim, uma redonda e rija morenita apareceu, com o busto
saltante envolto na bandeira brasileira, os seus compatriotas, postos
súbito em pé, aclamaram-na num brado unísono, ao tempo que de todos os
pontos da sala os aplausos estrugiam com delírio. E no atropelado
desdobramento desta sôlta feira animal, o vasto recinto perdera o seu
frio e composto aspecto habitual, na sua disciplinada ordenança um
tolerante parêntesis folião se abrira. Por entre o estrilante chocalhar
das loiças e talheres, a cada momento os comensais paravam de comer e os
moços cessavam de servir, cortados e suspensos no contágio truanesco
dêste concertante bárbaro, fustigado a espaços por frémitos de loucura.
Pouco depois, em cima, ao compasso dum _two-step_ sofrivelmente
semsaborão, _a quêu_ cabriolante dos máscaras, desfilando marcialmente,
fez o circuìto do tarraco salão de baile. Apareceu então o Mafiori, que
vinha soberbo, encadernado em mandarim. Porêm agora o grande êxito da
noite foi para Ramón Alvarez, que ideára realmente uma improvisação
feliz,--montado em andas e rodeado por uma espécie de grande roca
cilíndrica, feita em madeira leve e de cima a baixo encoberta por uma
túnica de chita roçagante, à maneira dos santos de aldeia, na sua terra.
Assim realizava um picaresco _gigantón_, que êle animava procazmente, ao
alto, com a autêntica enormidade da cabeça, prazenteira e afável
oscilando, tôda em mesuras. E nenhuma sorte de máscara ou atenuador
disfarce nesta estadeação impudente da figura. Apenas êle avivára a
sépia e nankin a dura projecção das feições, e asperisára a poder de
caio e zarcão a macieza juvenil da face, tornada assim a raíz lógica,
natural, da adusta rubefacção do cránio. Era um prodígio de bom humor
esta valente ampliação caricatural, êste autocomentário alegre à própria
disformidade.

Entretanto, de roda, à parede drapejante das bandeiras viera cingido e
compacto inscrever-se o muralhão dos curiosos. Grupos surrateiros
conseguiam vir de fóra e insinuar-se, impávidos e de pé, avivados pelos
rostitos frescos das _midinettes_ da 2.^a classe, trazidas arteiramente
pelos oficiais de bordo a gozar o espectáculo. O Silveira não teve
descanço enquanto não abordou a irlandesa, para lhe enaltecer numa
mímica eloqùente a impecável distinção da _toilette_. E ela,
infantilmente:

--_You like_?

Êle, incendido e vibrante, confirmava,--que sim,--e sentindo um
desvanecimento ingénuo em acompanhá-la, procurava fazer-se compreender,
num desbarato exultante de admirativas olhadas, galanteios, vénias e
lisonjas, que só cessaram quando o impróvido galã notou que as Wimeyer
tinham vindo plácidamente tomar, num reservado cantinho, as suas
cadeiras. Êle então desligou-se da irlandeza, e mudando de tática, forte
no seu propósito de fazer triunfar aquela deliciosa figura, digna de
fixar amorosamente as prodigiosas faculdades de realização dum Boucher
ou dum Latour, tudo era chamar para ela as atenções, encarecer-lhe a
propriedade impecável do disfarce, a beleza galante do arranjo, e onde
quer que êle visse alguma pessoa do seu trato, na disposição de
preencher a respectiva lista,--fôsse embora um quáse desconhecido,--aí
corria logo a tentar persuadi-lo, a pressioná-lo com vivacidade, a
suborná-lo pela lisonja, no implacável desígnio de fazer vingar o seu
desejo.

Grado e grado, porêm, a pressão sufocante do ar, a aglomeração, o calor,
o contágio erótico das danças, iam determinando na foliona turba um
começo de enervamento que se exteriorizava em sensíveis mostras de
enfado, em estases mórbidos de cansaço. Já os homens passavam os lenços
pelo pescoço, arejavam o nariz, enxugavam a testa; as ventarolas e os
leques andavam abundantes de mão em mão, sempre na sua palpitação
tremulante de passaritos assustados; e aos compassos convidativos da
orquestra a ronda flamante dos pares ia rareando. _M._^{me} d'Ellery
tinha calor, afogada no largo e fulvo amplexo da sua rica túnica
oriental, molestada sobretudo por essa desgraciosa bisarma que lhe
oprimia a cabeça,--uma obstrusa composição da qual, para mais, ela
notava que todos em roda mais ou menos claramente se burlavam. Porque
nesta criação infeliz o Mackenna, fiel aos seus ideais cubistas,
realizara, não o canto harmonioso de curvas que seria a condizer com o
voluptuoso coleamento e as lânguidas suavidades daquele traje magnífico
de sensualidade e de sonho, mas uma desconforme tôrre de pesadelo, tôda
em ásperas e duras linhas, em rasos planos, em projecções maciças, em
cruas e vivas oposições, em ângulos que se penetravam, em pontas que se
hostilizavam, em arestas que ofendiam a vista. Era a cabeça do Alvarez
estilizada. Um retalho de pagode primitivo incrustado num ângulo da
muralha da China. Por fim, num gesto de definitiva emancipação, a
insofrida Ellery atirou com o molesto diadema para trás do piano, despiu
a túnica, e provocadora e ardente, com a frescura roliça do busto
bailando agora sob a branca blusa transparente, como lobrigasse perto o
Alvarez,--que tambêm se desembaraçara do rodapé de chita e das andas,
ficando em mangas de camisa,--travou-lhe súbito do braço e rompeu com
êle num desenfreado _can-can_, que foi um escândalo para a porção grave
e burguesa da assistência.

As Wimeyer haviam-se retirado antes; propícia eventualidade que o
Silveira aproveitou para ir valsar com a irlandeza. Depois, como o
momento das votações se aproximava, ei-lo aí de volta na sua furiosa, na
sua amoruda galopinagem, de grupo a grupo mendigando votos, captando
adesões, forçando vontades. E o caso foi que logrou o apetecido êxito; o
primeiro prémio para os trajes já de antemão preparados foi com efeito
conferido a _Mrs._ Edith, por maioria enorme. Dos homens, alcançaram
naturalmente a primeira votação o Mafiori e o Alvarez. O prémio para o
melhor disfarce feminino, improvisado a bordo, fê-lo adjudicar a colónia
dos saxões e _yankees_, por um sufrágio esmagador, a uma inglesa
esnalgada e longa como uma chaminé de fábrica, a qual tivera a suculenta
idéa de se mascarar, figurando uma espécie de cozinha ambulante,--para o
que se deu ao trabalho infantil de semear e pendurar pródigamente,
doidamente, ao acaso, pela sua vestimenta servil, cortada em grossa
sarapilheira, uma heteroclita profusão de caçarolas, tachos, cafeteiras,
abanos, tenazes, pás, colheres, ramos de cebolas, toros de couves,
mólhos de rabanetes, nabos e cenouras.

Entretanto, o Silveira, querendo tirar partido da situação, havia
passado com _Mrs._ Edith ao _restaurant_ improvisado no convés de
estibordo, para celebrar com ela, a _champagne_, o seu triunfo. Breve
apareceu porêm o conde a cortar-lhes a efusiva comunhão dos _toasts_,
ponderando--que era tarde, tinha sono... e ela tambêm devia estar
fatigada.--Bebeu ainda uma taça de _champagne_, brindando pelo Silveira,
e, em grossos bocejos, despediu-se e partiu, amparado em pêso ao busto
airoso e leve da mulher.

Os outros comensais, de momento ali, foram tambêm passo e passo
desertando; de sorte que, em breves minutos, o Silveira surpreendia-se
quáse só e como que restando o único assistente ainda aos últimos
acordes da festa agonizante. Sem embargo, não se sentia em disposição de
descer à _cabine_. Aquecia-o uma instintiva febre de movimento; carecia
do róce fresco do ar e do embalo manso das vagas, que lhe mitigassem a
mordente excitação, derivada das múltìplas e opostas comoções da noite.
Fazendo então o giro distraído do barco e erguendo ao alto a espertinada
cabeça, fixou naturalmente o seu perdido olhar na imensidade calma do
céu e da sua eterna abóbada constelada. Liberta por agora da forte
evaporação do dia, a atmosfera alimpára e despojára-se do véu cendrado
da neblina. Apenas a diafaneidade imponderável do éter se baloiçava
entre as sombras vagas do mar e o vago luaceiro do Infinito. Eram sempre
as mesmas constelações fulgurantes, a mesma pregaría de fogo, o mesmo
brilho orgíaco, aqui semeado ao acaso por entre flócos de neve ardente,
ali afirmando aladamente no espaço o seu fulgor solitário. Contudo, era
êste um céu diferente do que êle estava habituado a ver na sua terra,
era um céu menos povoado, menos esplendente, menos loução, e que por
isso mesmo lhe parecia mais amplo, mais distante, mais solene, mais
profundo. Não tam densos e brilhantes se desparramavam aqui, e
distribuidos por outra forma, os pregos de oiro dessa incontável poalha
sideral, esparsa pelo espaço. Seguramente era êste o cósmico scenário
próprio, a divina cúpula de protecção adequada às ignoradas regiões
aonde êle se dirigia, de mudas solidões intérminas e imensas extensões
desertas.

Dentro, porêm, da relativa parcimónia e o discreto brilho dêsse caminho
dos deuses, alguns sóis se afirmavam potencialmente em fulgurações
vibrantes. Um dêles, principalmente, que bastante acima do horisonte se
erguia tremulante, faíscando, ardendo... Um grande diamante azul,
prodigioso altar tendido ao fogo entre os astros e mantido pelas vestais
incoercíveis da Via Láctea,--suspenso pomo de luz viva, como que prestes
a desprender-se da abóbada celeste, atraído pela noite insondável do mar
e ancioso por descer a traspassá-la com o dardo deslumbrante da sua
claridade, para decifrar-lhe o mistério e desvendar-lhe os segredos.




IV


Com a atenção dispersa e a alma prendida nesta viva e inédita sucessão
de impressões, dos últimos dias, o Silveira esquecera fácilmente os seus
humildes vizinhos de bordo, e nunca mais a sua grata sensibilidade
estremecera no interrogativo anseio de conhecer bem na essência, de
palpar mais de perto, os sentimentos, opiniões, tristezas, projectos,
angústias, condições e desígnios daquela corda fruste dos seus
presumíveis correligionários, que ali assim seguiam, mesmo a seu lado,
promíscuamente esmagados, baralhados, baldeados, delidos no empilhamento
sórdido da desgraça. Agora, porêm, o vago amadornamento em que a
temperatura tropical como que ensopava as vontades, e as tranqùilas
solicitações que à batida brava dos vários jogos e diversões
naturalmente se seguiam, déram azo a que na alma dolente do Silveira a
imagem saùdosa da Pátria esfumadamente esvoaçasse, e, junto, a sacudisse
o comovido cuidado pela sorte daqueles tantos ignorados irmãos seus,
atirados, sabia Deus por que duros e encontrados azares, ao traiçoeiro
baloiço da Fortuna.

Por isso, numa linda manhã serena e cálida, logo a seguir ao _lunch_,
ei-lo que transpõe a portinhola gradeada do termo do seu corredor, e se
aventura curioso pela suja e triste coberta da prôa.--O mesmo mesquinho
e sórdido espectáculo de sempre. No seu passivo abandôno às ignotas
flutuações do destino, aquela caravana compacta de obscuros ilotas da
Dôr ia e vinha, anudava-se e distribuía-se em formações de acaso, era
como um grosso formigueiro humano, incansávelmente montando e sumindo-se
pelo negro óculo que dava ao porão, cavado a um canto, fundo e
insondável como um abismo.--Porêm a inesperada aparição do Silveira
causou ali geral estranheza. A descida dêste importante, dêste flamante
e feliz desconhecido, té as patentes e repulsivas angústias daquela
densa colónia eventual do infortúnio, fazia que as suas desprotegidas
camadas, dando-se um instintivo alarme, se repregassem,--uns por uma
vaga e hostil desconfiança, outros como que pelo pejo da própria
miséria. E o Silveira ia passando, ia seguindo compassadamente, manso e
afável, nos forçados torcicólos a que o obrigava o atravancamento
pelintra do recinto; ia cruzando os grupos, com o ouvido colhendo,
atento, os cortados trechos do diálogo, com o olhar mirando fito o
desenho e o arranjo das figuras; e, por sentir-se ali o alvo admirativo
das atenções, no íntimo contente. Até que, por fim, se acercou
familiarmente dum reduzido círculo de rudes gentes do campo, quáse todos
de pés nus, que se lhe afiguraram portugueses, pela linha, pelos trajes,
pela expressão, pelos gestos tacanhos, pelo olhar ingénuo. Eram
patrícios seus, com efeito. E êle então, protector, insinuante:--Que era
tambêm português e ia para Buenos-Aires. Muito estimava conhecê-los... E
àqueles que seguiam por igual para a Argentina, muito prazer teria em
vê-los e servi-los por lá...

--_Agardecido_, muito _agardecido_, senhor!--balbuciou, de lábios
confusos, um meio ancião vestido de saragoça, rapado e calvo,
descobrindo-se.

Dulcerosamente o Silveira completou:

--Em fazer-lhes todo o bem que possa.

--Ai, que palavras de anjo! que rico senhor!--exclamou, com a voz
molhada, uma trigueira e rude quarentona, de saia de fólhos, cabeção de
morim branco e uns pequeninos olhos doces, perdidos na aspereza da face
enrugada e curtida. E num cotovelão entusiasta ao companheiro:--Ouviste?

Êste arrastou meladamente, dobrado numa mesura e parando de rilhar uma
banana:

--Não faltará ocasião.

Procurando gradualmente insinuar-se, o Silveira tornou:

--Vêem então procurar fortuna?

--Se aquilo por lá está tam mau... senhor!

--Então?--o Silveira logo comentou, com um risinho perverso:--É o que
vocês ganharam com a rèpública.

--Eu cá nisso, senhor, não sei falar...

--Êle a coisa já lá vinha detrás...--aqui se permitiu arteiro observar,
adiantando-se um rapagão amplo e forte, de calça de bombasina, camisola
e grande chapéu cinzento, enquanto raspava um fósforo no quadril, para
acender o cachimbo.

O Silveira teve uma azêda, imperceptível contracção dos labios.

--Parece-te?

--Sim, que isto é com'o outro que diz...--retrucou, sempre no mesmo ar
intencional e altivo, o marmanjão.--Com rei ou com roque, nós cá, os
pobres, ficamos sempre com'o o carrapato na lama.

E aspirava voluptuosamente as primeiras fumaças do tabaco ardendo.

O Silveira, despeitado, manteve uns segundos de arreliativo silêncio;
mas logo, dominando-se:

--Bem! pois, repito, naquilo em que eu os possa servir... Interessam-me
todos muito. Já vêem que vim de propósito para conhecê-los.--E num
refinamento interesseiro da sua amável solicitude:--Qual de vocemecês é
o que canta tam bem o fado?

Houve de roda uma vibração unânime de envaidecimento alegre.

--O guitarrista? Ah, isso há-de ser ali assim o Matias _gingão_.

--Matias! ó Matias!

--_Adrega_ aqui, demónio!

Dirigiam-se a um pobre rapaz, delgado, pequenino e doente, que junto dum
outro grupo, de pernas cruzadas, no chão, estava vendo jogar as cartas;
e que ao ouvir que chamavam pelo seu nome com tam empenhada intimativa,
rolou moroso os olhos, primeiro, depois ergueu-se com dificuldade,
indeciso, e veio por fim avançando, a cabeça nua, arremangado, descalço,
derreado e inerte, preguiçosamente.

Acolheu-o o Silveira numa efusiva expansão de agrado, ameigando a voz,
erguendo os braços.

--Ora viva lá! meu caro Matias.

--Em bem o diga e bem lhe vá tambêm, senhor,--murmurou com humildade o
recêm-vindo.

--Algarvio?

--De Fornos de Algodres, fidalgo.

--E p'ra onde se dirige vocemecê? Argentina ou Brasil?

--Com sua licença, vou-me até à Argentina, senhor.

--Bem, muito bem! Palpita-me que ainda lá havemos de ser dois bons
amigos.--E ante o olhar oblíquo e a bôca de espanto do Matias,
batendo-lhe afável no ombro:--Eu queria felicitá-lo pela sua rica voz,
por aquelas tam lindas trovas... cantadas realmente com uma intenção,
com uma expressão, com um mimo e uma fé que querem dizer muito...

--Nada, senhor.

--Ora! não me diga você que as não escolhe, que não exprime nelas o seu
verdadeiro, o seu íntimo sentir...

Mas simplóriamente o Matias, de braços pendentes, como um môno,
encolhendo os ombros:

--Eu não sinto coisa nenhuma.

--Então, aquela _piada_ ao Afonso Costa, na outra noite?

--Sei lá! Aquilo é uma moda que anda lá na minha terra. Que seja essa ou
que seja outra, que minga faz?

O Silveira estremeceu e os olhos chisparam-lhe furiosos, num repelão de
contrariedade. Os demais sorriam.

--O quê!? pois, verdade, você não liga maior sentido aos versos? não é
contrário à rèpública?

--Ó fidalgo, é que a minha pobre guitarra está um chanfalho vélho, e eu
_mesmamente_ de políticas nada entendo...--E, estimulado pela olhada
atrevida que o homem do cachimbo lhe mandava, o Matias acentuou com
firmeza:--E é como está certo, sim! Que essa gente graúda, com o devido
respeito, faz tam pouco caso de nós, que ainda o menos que nós podemos
fazer é pagar-lhe na mesma moeda.

Desconcertado, nervoso, o Silveira mendigava de roda, com o olhar
imperioso e intranqùilo, uma simpatia, uma adesão, um qualquer
desmentido a estas descabidas e arreliantes afirmações, tam longe da sua
espectativa como fóra do seu desejo; e como fixasse com particular
insistência um aldeão alto, espadaúdo e sêco, logo êste, singelamente, o
destroçado chapéu de palha girando na concha das mãos calosas:

--Eu cá, meu senhor, a minha política é ver se alcanço a juntar uns
cobres com que possa depois viver tranqùilo no meu torrãosinho, mal'a
mulher e os filhos. E já que me não fui à África, malhar nos pretos,
resolvi deitar té ao Brasil, em cata da famosa árvore das patacas. O que
a sorte quiser...

--Quere então dizer que tambêm você se conforma com essa usurpação tôrpe
da rèpública?

--Se ela está, já agora deixá-la estar.

No íntimo vèxado por mais êste desengano, renitia entretanto o Silveira
na sua raivosa inquirição.--E você?... E tu?... E tu que dizes?--Todos
se fechavam porêm no seu invariável obstinamento humilde; e foi ainda o
mocetão do cachimbo quem pôs termo ao inquérito, sentenciando
implicativamente:

--Está muito bem! O que é que se ganha agora com mudanças?

E atirava, arrogante, o chapéu para a nuca, as narinas e os lábios
fumarando num regalo.

--Súcia de palermas!--não se pôde o Silveira conter que não exclamasse,
na insofrida explosão do seu despeito.--Por isso haveis de ser sempre os
eternamente explorados.--Deu de roda umas passadas curtas, arrepelou o
bigode, coçou a nuca; e depois, conciliadoramente:--Mas, em suma, não
vale zangar... Sou aqui vosso vizinho, e amigo, repito, apesar de
tudo.--Deu dinheiro ao Matias para uma guitarra nova; depois, num largo
gesto altaneiro, ao grupo:--Bem! adeus! Ainda vos hei-de fazer abrir os
olhos.

E desandou bruscamente, perante a indiferença burlona da assistência.

Daí a minutos, em cima, e amarfanhado numa das espêssas poltronas do
_Social Hall_, ruminava em desalento êste propagandista infeliz o
imprevisto e burlesco insucesso do seu inquérito, quando se lhe
dirigiram Euclides Pereira e o conde de Horrowby, que precisamente o
andavam buscando. Tinha que descer com êles à _peluqueria_, a escolherem
as prendas para os prémios ganhos nos diferentes jogos, e cuja
distribuìção solene estava marcada para antes do grande Concêrto final,
naquela noite. Era uma diversão a propósito, à quebrantada pressão do
seu desânimo. Não se fez rogar; e aí descem os três a internar-se na
_cabine_ inimaginável do barbeiro de bordo,--um cubículo acanhado e
abafadiço, batido àquela hora ardente pelo sol, com duas exíguas
lucarnas apenas sôbre o mar, e que alêm do mobiliário e utensílios
indispensáveis ao completo exercício da profissão, era todo riscado em
prateleiras, e oprimido, atravancado, estrangulado, povoado de lés a
lés, tomado de alto a baixo, por uma aluvião inverosímil de tôda a sorte
de pequenos artigos para negócio, desde as jóias, as mil luxuosas
bugigangas de perfumaria e _toilette_, até às peças mais comuns de
vestuário e adôrno, e um perfeito arsenal de brinquedos infantís. Havia
espaço para tudo, menos para o ar, neste pequeno recinto aplastador que
realizava um paradoxal desmentido à impenetrabilidade da matéria. Uma
temperatura de fogo e um arranjo de _casa de prego_.

A bonachona espôsa do conde chegou ao mesmo tempo. E logo o
mestre-barbeiro,--um francês ruivo e claro como um cacho da
Champagne,--a saltitar vivo e ligeiro em tôrno dela, pedindo indicações,
apontando, mostrando, trazendo coisas. A cada nova oferta, que o
meliante sabia alertemente encarecer, a bondadosa e imperturbável
senhora, sossegadamente, examinava rejeitava ou escolhia, e solicitava
gentilmente o parecer dos seus três colegas, que se limitavam a baixar
num assentimento cortês a cabeça. Então, logo o esperto _figaro_
apartava contente a mercadoria, anotava qualquer coisa no seu _carnet_ e
passava a impingir outro artigo. E assim monótona, infindável, secante
se foi prolongando a tarefa, êste duelo picante de aplicação ferido
entre a esperta indústria do barbeiro e a solicitude impávida da
condessa, insensível ao calor, refractária à impaciência. Não assim o
Silveira, que enjaulado naquela inacção e enervado pela temperatura
asfixiante, mudava de posição a cada momento, tressuava, sentia
tonturas, e ia buscar a incidência mais favorável do ventilador ou
abanava-se com duas ventarolas ao mesmo tempo, increpando-se íntimamente
por ter vindo. E neste abrasador suplício passou uma hora que lhe
pareceu um século.

Por fim, à noite, realizou-se no _Social Hall_ a solene distribuìção dos
prémios, rodeada dum cerimonial quáse diria litúrgico, atenta a
dignidade, a seriedade, a compostura, a _tenue_ escrupulosa e as
compenetradas atitudes por todos ali invariávelmente mantidas, desde as
primeiras às ultimas figuras. O mostruário faíscante das prendas
pompeava as suas gulosas tentações esparso em abundância sôbre uma
grande mesa, colgada de veludo-cereja, no tôpo do salão, sôbre um
estrado; à roda, exibia-se o grupo esfíngico dos membros do _Committee_,
de _frac_ e laço branco, e a condessa de Horrowby, em grande _toilette_,
sentados todos gravemente. Posto em pé o conde de Horrowby e feito um
grande silêncio, êle então, arqueando numa atenta _reverence_ o peitilho
reluzente, mordiscou por entre dentes _for the select assembly_ um
pequeno _speech_, quáse inaudível,--dobrado e pregado sempre no mesmo
ademân cortês, inexpressivo e imóvel, os braços longos e hirtos, de
punhos sôbre a mesa. A seguir, sentou-se, e simultâneamente, como que
impelidos pela mesma mola, erguiam-se a condessa e o capitão Stayton;
passando êste a chamar em voz alta os premiados, cada um dos quais, em
traje de cerimonia tambem, avançava, franqueava em respeito o
majestático recinto do estrado, colhia das palmoiras enormes da condessa
a bugiaria que lhe fôra destinada, e retirava mudo e feliz, num vago
atordoamento de prazer, ante as palmas convencionais e os _hurrahs_
complacentes da assistência.

Seguiu-se o concêrto, cujo programa houvera, em bôa verdade, um certo
embaraço para organizar. Não abundavam a bordo os _virtuosi_ nem os
amadores, tornando-se assim deveras árduo o problema de reùnir e
combinar alguns números mais, alêm do chirroteio mercenário da
orquestra. Prestou o Silveira na apertada emergência um assinalado
serviço, pois conseguiu o concurso difícil das meninas Wimeyer, que
condescenderam graciosamente em exibir-se, por uma atenção muito
especial para com êle, executando Dolores ao violino uma melodia de
Schumann, acompanhada ao piano pela irmã. Por isso lhes couberam a bem
dizer as honras da noite; assim como ao Alvarez, que recitou uma
desgrenhada elegia sentimental,--_Corações famintos_,--composta,
informava o Programa, expressamente para aquela noite; e tambêm a um
vélho inglês, todo branco, de olhar menineiro e afável, que se
distinguiu improvisando um humorístico monólogo todo obrigado a
contracções faciais, trocadilhos ingénuos e risíveis infantilidades, com
que os seus conacionais gozaram imensamente.

O _God save the King_, pela orquestra, e por tôda a sala, de pé,
escutado religiosamente, pôs o termo de rigor a esta escovada tertúlia
da noite.

E foi a última diversão do Programa de festas. No dia seguinte ia
começar o progressivo êxodo dos passageiros, atingida como seria então a
costa das primeiras terras do Brasil. Foi, primeiro, Pernambuco,--a
lucilante Veneza tropical,--luminosa e tranqùila emergindo, como uma
evocação de balada, da brava fúria impotente das ondas, incansavelmente
erguidas, roladas e desfeitas contra a ruiva muralha irredutível dos
seus recifes; e prolongada depois suavemente, para léste, por uma
fresca, macia e tenuíssima restinga de terra que pelo mar fóra se
estirava indefinidamente em ponta, como uma imensa piroga verde,
empenachada pela umbela grácil das palmeiras, salpicadas de chacaritas
brancas. Foi, trinta horas depois, a esbelta Baía,--o vélho empório
tradicional do tempo das lusas descobertas,--reclinada molemente sôbre
uma luxuriante alfombra de mato e flores, esmagada de tôrres, pletórica
de igrejas, e àquela hora matinal batida e incendiada em cheio pela
carícia gloriosa do sol nascente. Tôda a clara cidade assim palpitava,
fulgurava, ardia numa crepitação paroxísmica de côr que emprestava a
êsse quente deslumbramento panorâmico o mais antitético relêvo, na crua
passagem do verde espêsso e sombrio dos ásperos taludes, a seus pés
tendidos, para a policromía bárbara dos trajes da multidão formigando ao
longo dos cais e para as tintas berrantes saltando, ladeira acima, no
anfiteatro loução da casaria.

Dois dias depois,--justo em terça-feira gorda,--já devia o _Almeria_
lançar ferro na incomparável baía do Guanabara. Era um dos grandes
acontecimentos da viagem. Reganhára agora uma inquiritiva animação a
vida de bordo, onde todos mais ou menos expressivamente manifestam o seu
interêsse, todos aguardavam com vivacidade crescente o recorte feérico e
deslumbrante, na linha molhada do horizonte, dessa esplendorosa, dessa
surpreendente e colossal orquestração de luz, de côr, de exuberância e
de relêvo, que era Rio de Janeiro, a maravilha do mundo. Os nacionais
tinham um legítimo sentimento de vaidade, os estranhos nutriam uma não
menos legítima sofreguidão do inédito.

Entre os mais interessados e inquietos, era de notar a vibrante
impaciência do joven Mackenna. Porêm certo que não era própriamente a
antecipada visionação das pinturescas maravilhas do Rio que num alvorôço
idealista lhe sacudia os nervos de artista; uma outra oculta
determinante havia, mais prosaica, mais animal, a acender-lhe no olhar e
a fazer-lhe correr nos gestos esta sôfrega palpitação de todo o seu ser,
irrequieto e ávido. É que precisamente no Rio de Janeiro a formosa e
esquiva _M._^{me} d'Ellery ia desembarcar; iam os dois ali separar-se,
talvez para sempre, neste limite fatal posto ao seu ameno convívio; e
assim êle tinha forçosamente que precipitar a solução ao seu assédio
galante, nesse apertado prazo de dois dias. Com uma assiduidade, uma
persistência incansável, com um calor por vezes audaz, nos últimos
tempos o jactancioso galã fôra apertando gradualmente o seu amavioso
cêrco, e segundo as mais ostensivas indicações, com o melhor êxito;
porêm não obtivera ainda a rendição definitiva. Ao mesmo tempo,
acontecia que o seu feitio demonstrativo e pomposo fizera com que êste
singelo episódio de cortesanía banal désse bastante nas vistas. Havia um
pequeno grupo de besbelhoteiros trocistas que o espiavam; e os mais
íntimos a cada momento lhe disparavam chistes, o estimulavam com
depreciativas alusões, celebravam antecipadamente o seu fracasso,
assediavam-no de burlas molestas e sátiras importunas. Não havia pois um
minuto a perder. Na prova, ruidosa e fulminante, do seu triunfo estavam
igualmente empenhados a linha do seu amor-próprio e o fogo do seu
desejo.

Foi o motivo pelo qual, na noite dêste domingo, o Mackenna impôs um
implacável bloqueio sentimental aos domínios afectivos da francesa.
Havia no convés de bombordo o costumado baile semanal; e o meliante tôda
a noite dançou com ela, e nos intervalos levava-a ao _bar_, a beber, e
insinuava-lhe coisas cálidas e perversas, despedia-lhe frases
imperativas, aventurava proposições equívocas, a tudo o que a ladina
respondia com sorrisos que eram incitamentos, com evasivas que eram
provocações, com abandonos que eram capitulações, com estremecimentos
que eram promessas. Mas nada de lhe conceder a aquiescência nítida,
formal, a uma entrevista. Exasperado então, mas sempre optimista e
fátuo, o Mackenna deliberou recorrer ao assalto. Seria o supremo recurso
salvador. E filosofava convicto:--Serem tomadas à viva fôrça era, com
efeito, o melhor prazer para estas taboletas avariadas duma menos que
problemática virtude. Era o que aquela bêbeda queria... Era o mais
seguro caminho. Mas tomá-la de surprêsa, com êxito, como?... Naquele
meio acanhado e bulhento, sem a tácita anuência dela, era difícil. Só se
fôsse de manhã... O derrancado Sganarello levantava-se tarde; os seus
pêrros movimentos de tabético e a indolência filha do tédio retinham-no
de ordinário na _cabine_, até muito por êsse dia dentro; por êste lado
estava seguro. Se êle então, nessa propícia hora matutina, pudésse
surpreender Helena! mas surpreendê-la bem de-veras, apanhá-la de
improviso, em condições morais e materiais de não poder oferecer-lhe
maior resistência...--Inflamado, enardecido, espremia a inventiva,
planizava, rebuscava. E súbito, batendo na testa, com um relâmpago
genial na noite ardente dos grandes olhos negros:--Ah, aí está! No
banho...--Passou imediatamente ao _deck_ da sua imaginada vítima;
abordou com discreção o _steward_, cuja cumplicidade concluiu por obter
a trôco duma bôa gorgeta; e recolhendo depois à _cabine_, todo o resto
da noite levou embalado, aquecido na regalada antevisão do saboroso
triunfo que para êle seguramente ia marcar o delicioso alvorecer do dia
seguinte.

Na primeira manhã ei-lo logo a pé, lésto e pimpante, procedendo às
habituais abluções, fazendo uma _toilette_ minuciosa. Depois,
mansamente, deixou a _cabine_ e escoou-se para o corredor, tendo vestido
um garrido _pijama_ todo em borlas, alamares e viézes de sêda, a cabeça
nua e a perfumada melena ondeando. Sem perda de tempo estava em cima, no
_deck_ de Helena, e aventurava-se afoito ao recinto dos banhos
destinados ás senhoras. Aí trocou um breve e furtivo olhar com o
_steward_, que lhe fez um sinal afirmativo de cabeça; avançou ágil uns
passos, relanceou em tôrno os olhos cautos, e tendo-se certificado de
que ninguêm passava cêrca, arpoou o botão duma determinada porta com os
dedos trémulos, entreabriu-a... e ia entrar de salto, quando de dentro
estrugiu um grito de pavor, um argênteo e agudo grito feminino, ao passo
que de dentro tambêm, acudia súbita e inesperadamente, ante a mirada
atónita do Mackenna, o sobrecenho grave e a mão rosada do Mafiori, a
cerrar a porta.

Foi a bordo um pequenino escândalo. Apesar da sua relativa presteza e
moderado ruído, esta scena picante não passou de todo despercebida. Ao
partir para a sua _donjuanêsca_ investida, não se deu conta o Mackenna
de que dois dos seus alegres espias, atraídos por não sei que
divinatório instinto, o foram seguindo. E êstes, naturalmente, da
esquina do exíguo corredor, mal assomando as cabeças, haviam saboreado o
burlesco fracasso da desastrada aventura; ao tempo que, simultâneamente,
das portas dos banhos contíguos alguns interrogativos bustos surdiam
tambêm, ao aflitivo alarme daquele agudo brado feminino. Nem uns nem
outros alcançaram contudo divisar a ponderada silhueta do Mafiori,
dentro da _cabine_,--o que teria sido para a sua curiosidade doentia o
cúmulo do regalo. Mas haviam visto o bastante para a nítida compreensão
do sucedido. De sorte que, daí a minutos, já a notícia do truanesco
sucesso havia feito o giro alegre de bordo, com fulminante rapidez
solicitada ávidamente, de grupo para grupo, e logo passada e acolhida em
acres segredinhos, vivas chamadas e perversas reticências. E de bôca em
bôca, êste singelo episódio ia tomando vulto, agrandava, complicava-se;
por último, já afiançavam a vingadora intervenção do marido, falava-se
em vias de facto. Daqui, uma notoriedade bem pouco invejável para o
desabusado Mackenna, que arrastava agora pelos recantos mais escusos a
sua vaidade amarfanhada, como um sátiro batido, e já não sabia por fim
onde meter-se, certo como era que por tôda a parte um malicioso
interêsse acolhia a sua aparição, logo farto sublinhada de bisbisoteios
de risos, facécias e burletas. As mulheres olhavam-no com piedade
indulgente, os homens com humilhante mordacidade, não isenta de inveja.
E agora a leve e adoidada _Pilarita_, mais do que ninguêm intrigada e
impaciente, querendo à fina fôrça saber _lo que pasara_, batia os
pésitos e golpeava com os punhos a pequena mesa onde abancava o Alvarez,
o qual se mantinha impenetrável, enquanto zombeteiro e veloz anotava o
episódio nos seus inseparáveis linguados, desorbitado em trejeitos
loucos.

Nesta divertida manhã, à hora do almôço, nem _M._^{me} d'Ellery baixou
ao comedor, nem o Mackenna. Entretanto à mesa dêste, o picaresco assalto
matinal foi o têma obrigado da conversa, apreciado com jocosa vivacidade
por todos, à excepção do Mafiori, que se manteve mudo, bonachão e
plácido como nunca, nos intervalos de comer fazendo bolinhas de pão e
mirando desvanecido as unhas.

Pouco tempo depois, em cima, e de pé contra um ângulo da amurada,
reùniam-se em íntimo grupo o Silveira e o Contreras, com o tenente
Euclides e mais dois amigos. Aí veio naturalmente à balha o
caso-Mackenna.

--_Picarón!_--comentou ruidosamente o Contreras, desmanchado em grossas
gargalhadas.

O brasileirito, vendo o magno acontecimento pelo seu cândido prisma de
noivo, fulminava-o com sincera indignação, taxando de «imperdoável
desafôro» um desacato assim, àquela hora do dia.

--Eu acho imensa graça... É cá dos meus!--acudiu, tolerante, o Silveira,
esfregando as mãos de contente.

O conde Améglio, que chegára justo ao tempo de recolher as homílias
ingénuas do brasileiro, rugiu então ameaçadoramente.

--Havia de ser comigo.

Todos se voltaram, a encará-lo com fixidez espectante. E êle, num
sobrecênho de arrogante desdêm:

--Conheço de sobra os processos e os ardís dêsses pulhastras.

--Ó conde...--murmurou baixinho o Contreras, mirando cauteloso de roda e
puxando-lhe do braço.

Améglio porêm, de olhar duro, alteando a voz, minaz e insensível ao
aviso:

--Mas conheço-lhes tambêm a grande cobardia essencial. Sei que êsses
bandalhões não são fortes senão diante de saias.

--Ah, sim?...--interveio o Silveira, picado de interêsse,
adiantando-se.--Ó conde, amigo conde, se não é indiscreção, conte-nos
lá...

--Bem simples! Tenho mulher, sabem... Pois nunca hesitei um momento em
lavar com sangue, no campo da honra, tentativas de ultraje semelhantes.

Era agora o Contreras que pávidamente, apurando o ouvido, se acercava;
ao passo que o Silveira, positivamente desconcertado por esta súbita
revelação, no conde, de inimaginados brios, inquiria, em dúvida:

--Algum duelo?

--Cinco. Nada menos de cinco.

--De morte?

--Não! nunca chegamos a tanto...--aclarou o conde com moderada
importância; e num assômo quixotesco, arredando as bandas do jaquetão e
enfiando os polegares nos sovacos:--Mas a todos tive a sorte de aplicar
o merecido castigo.

O tenente Euclides voltou-se discretamente, a dissimular um risinho
incrédulo. O Contreras afastou-se, manso e humilde, coçando compenetrado
a cabeça. De sua banda, o Silveira rejubilava. Êle desconhecia o conde
neste seu intempestivo disfarce cavalheiresco e brigão; aquelas teatrais
bravatas de espadachim pareciam-lhe uma contrafacção absurda, não as
tomava a sério, não cria nelas.--Minotauro travestido de Othelo, podia
lá ser!--E contudo a pundonorosa explosão do conde estimulava-o. Ante a
ameaça cocegante de perigo, um lume de reacção viril lhe afogueou o
rosto ardente, e o seu carácter amorudo e ribaldo espertava, vibrava de
belicosos ímpetos, latía de energias novas.--Agora sim! é que êle ia
afervorar nos seus pérfidos galanteios junto da irlandesa. Até à
provocação! até ao escândalo!--A ver se conseguia fornecer ao marido o
pretexto para mais um lance de honra que lhe permitisse, porêm desta vez
com sorte adversa, contar a meia dúzia.

A chegada ao Rio de Janeiro realizou-se infelizmente de noite. Um pouco
de marejada e o vento contrário haviam ralentado a marcha do _Almeria_,
que assim, quando lançou ferro, da formosíssima capital brasileira
apenas deixava entrever vagas formas de relêvo, manchando, amplas e
azúis, a imensa téla diáfana da sua claridade deslumbrante. Muita gente
desembarcava aqui; de sorte que, já horas antes, eram algo de
inabordável as imediações do portaló, onde se acotovelavam e prensavam
duramente, numa gerarquia bárbara, as famílias impacientes por chegar; e
onde, tambêm, sôbre improvisadas alfombras de lona, se amontoavam, num
grosso empilhamento inverosímil, fardos, malas, caixotes e baús de tôda
a espécie, mantas, chapéus, paráguas, papagaios, cachorros, saguís,
cêstos de flores e cabazes com fruta. Por tôda a parte havia câmbios
cerimoniosos de cartões de visita, ou efusivos apertos de mão, amáveis
oferecimentos, beijos, abraços, risos, tristezas, miradas saùdosas,
lágrimas furtivas. Mas aos felizes que tocavam então o termo da viagem,
havia que agregar ainda os que se propunham desembarcar como simples
turistas, para verem alguma coisa, para gozarem, movendo-se um pouco,
estas quantas horas de paragem benéfica do vapor ali; e sobretudo,
sentindo-se dominados pela ardente baforada de loucura que lhes vinha de
terra, para irem ali passar uma bôa noite _de garufa_.

Apesar de bastante instado para baixar tambêm, o Silveira resolveu
ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e
guia na cidade, mas por aquela noite sómente;--êle bem devia
compreender,--a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no
primeiro trem para S. Paulo, logo na manhã seguinte. Por igual os
Wymeyer, tímidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdêm, «que
não desciam... que para quem, como êles, vinha da Europa, não valia a
pena». Para mais, a colónia inglesa de bordo, ponderando muito
sensatamente o horror de bérrata, confusão e desordem que devia ser,
para um recêm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em
vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse
despreocupada e íntimamente, ela só, algumas horas, bordejando a baía,
fazendo o suave e demorado contôrno daquela fantástica decoração,
vogando plácidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma
idéa deliciosa. _Miss_ Nora Scott convidára o Silveira para a
encantadora excursão. Os Améglio iam tambêm.--Que mais queria êle?...
Para ver o Rio tinha o dia seguinte.--Resolveu, pois, ficar; e, depois
de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a
criadagem de bordo organizára na ponte da 2.^a classe, tomou ao portaló
e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em
baixo, convidativa e luzente, no regaço manso das águas trepidando,
fumarando, bailando alegremente. Daí a minutos, punha-se em marcha, e
sobre o seu minúsculo convés, escassamente alumiado, foi difícil nos
primeiros momentos a identificação das figuras. A infeliz Nora Scott foi
a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e
abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus
propósitos firmes de seducção, provocante, amorável, tôda tules e
rendas. Porêm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e
pronto aí estava êle já ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados,
muito amigos e compadres, os dois à mesma clara-bóia que dava luz às
câmaras interiores, à falta de mais cómodo assento. O conde mantinha-se
longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cúmplice,
agora, a esta doce e inefável aproximação, sem testemunhas e sem
peias.--O ar estava tépido, tranqùilo e na sua morna quietação o crespo
afago da brisa passava como a carícia dum leque de plumas. De roda, pelo
caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da
beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar faíscante de pedraria
e oiro, riscavam rútilas e esplendorosas curvas. E não tinha fim, não
tinha limite esta invasão delirante da claridade. As suas imensas linhas
de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se,
cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sôltamente ao largo,
pontilhando a vaga opacidade da tréva, densas, vivas e espertas sempre,
embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distância. Se o vapor
se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma
nítida visão fragmentária das coisas, vinha então o grosso éco da
foliona febre da multidão, em lufadas alucinantes.--_Mrs._ Edith e o
Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,--e
isolados no seu mútuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a
favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,--gozavam
juntos, mudamente, a infinita delícia daquela hora incomparável,
admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada
e ardente, essa corda, êsse rosário interminável de sóis, mais rubros,
mais claros e mais firmes que os sóis do alto... esplendente barra de
oiro cravada no dôrso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada
mágica de luz esparsa, no insondável mistério da noite subindo e
indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a
dançar anamórfica pelo espaço.

A certa altura da noite começaram as libações. O estalar das primeiras
rôlhas de cerveja e de _champagne_ foi o apetecido sinal para o fácil
repúdio das fórmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo
postas de banda as peias, as convenções banais da cortesia, para
deixarem um pouco de campo ao exercício livre do instinto. Muitas das
senhoras então soltavam os _voiles_ ou deslaçavam as blusas, afogueadas;
os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e
audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos
abastardavam-se, e subia o diapasão delirante das saùdações e dos
_hurrahs_. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptação
condizente ao epicúreo abandôno desta hora libertina, alguns deixavam-se
resvalar das suas _cadeiras_ e tamboretes para as tábuas rasas do
convés, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a
cabeça pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Améglio,
esquecido da mulher e dando ao démo os seus brios postiços, divagava de
grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taça
vazia na ponta dos braços froixos, cambaleando. Havia uma única nota de
excepção, um absurdo protesto passional, em todo este côro vibrante de
alegria; era a longa figura trági-cómica da desgrenhada Nora, hirta e de
pé, amparada ao mastro de pôpa, mirando com decisão o mar, num pendor
teatral ao suicídio... Ao passo que não muito longe, o Silveira e a
irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taças, afim de
penetrarem-se mútuamente os segredos, e êle, não podendo, em linguagem
compreensível para a sua amada, expressar tôda a veemência do fogo que
lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase
pela eloqùência muda dos contactos.


Na manhã seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E
ao avançar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais
Pharoux, sentia-se bem, o coração dilatava-se-lhe, estimulado e contente
ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava
impressões flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrança próxima e
querida, tudo,--desde a analogia cantante da linguagem aos traços e
ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sóbrio e maciço das
construções à brita miúda e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um
automóvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rápido às
mais celebradas coisas da cidade. O _chauffeur_ era português, tomou
familiarmente assento ao lado dêle. A bôa disposição do ânimo fazia-o
mais acessível, o simpatismo sugerente do meio tornára-o jovial, aquecia
em frémitos de fraterna expansão a sua sensibilidade agradecida. Por
isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia
cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas
exclamações e brados entusiastas, quando não descia a indagações mais
íntimas, inquirindo com afectuoso interêsse o _chauffeur_ na sua
filiação, antecedentes e condições morais e materiais de vida.--«Se
viera para a América havia muito tempo? Se estava contente? se tinha
valido a pena?»

--Alguma coisa se faz, meu amo...--contestou afável, num risinho
esperto, o interpelado.

--E muita família lá em Portugal?

--Mulher e três filhos. Quanta _mosca_ posso forrar, p'ra lá vai
inteirinha.

--E saùdades da pátria, não tem?

--Que pátria, senhor?...--acudiu com amarga resignação o _chauffeur_,
olhando de espaço o Silveira.--A gente, em vindo p'r'aqui assim, não
temos mais pátria. Por cá chamam-nos _galegos_; se volvemos a Portugal,
somos _brasileiros_.

E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando,
indagando e informando, mutuando fugazes impressões, colhendo notas
inéditas, percorreram os dois o amplo coleamento áureo-verde da avenida
Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dêsse retalho
paradisíaco que são as praias do Leme, Copacabana e Ipanema,
internaram-se pelo delicioso dédalo de sombras, palacetes, _parterres_ e
jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botânico, e
foram por fim almoçar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosíssima
jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a cálida vitalidade do
ambiente, sentia-se bêbedo de magnificência, de luz, de côr, de
movimento e de ruído. Feria-lhe com agrado a atenção o escrupuloso aceio
das ruas, a variegada tinta das construções, o abundante luxo decorativo
das árvores e das flores, e, por uma estranha anomalía dêste scenário
mole de prazer, o tom sempre atarefado, o côrso afadigado e ligeiro da
multidão, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como
uma grossa onda de renovação a correr, generosa e fecunda, por essa
densa rêde de artérias da abundância e da fortuna. Bem mais porêm que a
obra magnífica do homem o impressionou o esplêndido vigor da
Natureza,--as colossais dimensões e o atormentado aspecto dessa grande
paìsagem eruptiva tôda em bruscas oposições e em arrancadas titânicas;
prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua
espêssa crôsta verde, fôra atirado vertiginosamente a prumo, formando
atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos;
estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus
flancos viridentes, como entre mãos de gigantes um brinquedo, o
formigueiro policromo e frágil da casaria. Mas era demasiado grandioso e
solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira,
tanta soma de majestade raiava já pela tristeza; sobrelevando à sua
extática admiração por tam desconcertante e caprichosa exuberância,
havia o que quere que fôsse de vagamente constritivo e grave, que o
esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatídico prenúncio de
desgraça. Porque êle não encontrava aqui, nesta luz crua, nestes
mamelões adustos, a vegetação suave e amiga, as delicadas e múltiplas
nuanças, o brando afago, as acariciadoras sombras do torrão bemdito que
lhe embalára a infância. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa
verde do sólo áspero e convulso tinha um não sei quê de opressivo, de
hostil, de trágico; na impenetrável noite do seu mato torcido e hirsuto
pressentia-se tôda a sorte de quimeras ruins, de reptís, de feras, de
monstros, espiando-nos. Era um Éden traiçoeiro... inadaptável
seguramente à poesia dos contos de fadas, à simplicidade ingénua das
bucólicas tangidas melancólicamente, na grave e dulcerosa paz dos
campos, pelos contemplativos pastores da sua terra.

Horas depois, à noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento
vibrátil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho
de transmitir impressões aos companheiros. Os Améglio acolheram-no com
frieza, fortemente ressentida como estava _Mrs._ Edith por não haver ido
com êles. Ramón Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambêm
pouco o atendeu:--«não estava de acôrdo, ia morrendo assado... tinha
achado uma estopada!»--Voltando-se para o Mackenna, êste não o deixava
falar, porque, no seu fátuo egoísmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe
os surpreendentes _motivos_ que esquissára para um soberbo quadro
simbolista.--Havia de ver!--Valeu-lhe por fim a sua grande amiga
espiritual, a loura e tímida Irene, que com amável complacência o
escutou longamente.

No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruçava
atento sôbre o aparatoso e sólido desdobramento e o tráfego colossal do
pôrto,--bem comparável ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com
razão,--aí de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegôsto
falaz do seu tam almejado inquérito gramatical, todo o oportuno ensejo
aproveitava para lisonjeá-lo. E com familiaridade cativante, numa
erudição muito a propósito:--que êle, como bom português, devia
sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se,
terra da celebrada baía, pitoresca e tranqùila, onde, quatro séculos
antes, aproára a primeira expedição enviada de Portugal para colonizar o
Brasil; e que era ali a outrora ilha de _Enguáguassú_, sabia bem...
assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo,
trepando e transpondo épicamente a abrupta Serra do Mar, a expedição que
havia de fundar a legendária _Piratininga_,--a encantadora S. Paulo de
hoje.--Confundido por esta exótica demonstração de tanto saber, o
Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto à embaraçosa
iniciação dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argùente ia
engenhosamente iludindo--que já agora, por poucos dias, seria melhor,
com outro descanço... em Buenos-Aires.

Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finança
e da indústria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes,
mulheres de prazer, artífices, obreiros, peões, representantes de
empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o berço
reluzente do _Almeria_ sôbre as águas baloiçava alegremente, ia em
repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechára-se em pequenos
círculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais
familiar, à medida como o termo da viagem se acercava.

Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e
fraternais colóquios de Irene com o Silveira,--o que não era para êste,
aliás, empresa fácil, apetecido alvo como êle se sentia, a cada momento,
do _contrôle_ implacável de _Mrs._ Edith, ávida por igual da sua
presença e ciosa do seu convívio. Ele porêm sabia, sempre que isso lhe
convinha, desembaraçar-se dela, invocando déstramente os seus
compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto
dêste, difícil lhe não era tambêm deixá-lo, na improvisada simulação de
qualquer solícita _démarche_ junto da filha; por fim, quando, de longe,
a querençosa mirada de _Mrs._ Edith lhe significava a impossibilidade
formal de manter-se mais tempo, sem escândalo, junto da linda argentina,
êle aí expressava pezaroso, perante esta, o seu inadiável dever de
cumprir para com os Améglio uma qualquer obrigação de cortesia, e partia
imediatamente. E assim neste divertido círculo vicioso de inofensivas
invenções ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo
saborosamente as horas. O certo era que a doce freqùentação espiritual
de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais
dominadora e mais atraente, aos desafíos sensuais da irlandesa. Não raro
passavam agora horas seguidas sós os dois, já caminhando mui camaradas,
par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convés,
discorrendo com interêsse juvenil sôbre coisas de nada, ligeiros,
felizes, a frase sôlta e leve no ar cortante; já imobilizando-se sôbre
um ponto ao acaso da amurada e aí, sonhadores e mansos, balbuciando a
sua mútua emoção em termos vagos, imprecisos, como a dança incoerente
dessas fugazes _libélulas_ do mar, os peixes-voadores, que êles viam em
baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E
momentos havia em que o espírito subtil de Irene, ao calor desta casta
intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas
transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez
sucedia o temperamento másculo do Silveira aquecer e inflamar em
arroubados ímpetos a sua alma enamorada... Porêm então, invariavelmente,
a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene
fechava-se como em março um botão de rosa; se êle permitia, com um pouco
mais de vivacidade, ao coração pronunciar-se, ela acolhia-se a um
mutismo impenetrável, não perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir
quanto a trivialidade mesquinha do amor à hora era insofrível para a sua
sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.--Queria ver nêle um amigo,
nunca um adulador.--Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a
figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe então como um dêstes
tipos de virtude sólida e doce que nos reconciliam com a existência e
nos fazem tomar em respeito a vida.

Em breves dias, uma linda manhã veio em que, no balanceio perpétuo do
mar, a translucidez movediça das águas agora engrossava,--embaciava-se,
parecia coberta por uma bostelosa máscara de lama. Eram as infinitas
aluviões terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurável, avassaladora e
ampla como um mar, a prôa arrogante do vapor atingia neste momento. Já
por estibordo se descortinava a airosa silhueta do _Cêrro de
Montevideo_.--Um outro nome bem português...--voltava a observar-lhe o
pai Wimeyer com amável solicitude.--Corrupção de _monte vi eu_, não era
assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintáxicamente
uma linda transposição, como tantas havia na formosa língua de Camões.
Tinham muito que conversar...--E batia-lhe no ombro afávelmente. Mas o
Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patrióticos
empolgavam-no, sobrelevando aos quiméricos terrores pela ameaça das
doutas interrogações do pedagogo. O coração dilatava-se-lhe envaidecido,
porque êle notava como durante a sua viagem, no decurso de todo êste
largo roteiro abarcando dois hemisférios, desde a largada inicial das
bôcas de luz e oiro, do Tejo, té à embocadura brumosa e intérmina do
Plata, êle viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre,
ininterrompido e eterno, o traço, a marca indelével dêsse temerário
arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador
espírito português, tivera a prova constante do seu génio marítimo
afirmada e selada épicamente, cruzára o imperecível sulco aventureiro do
seu caminho de glória.--Que outro povo podia vangloriar-se dum prodígio
igual?...--Perante esta íntima evidência, sacudia a cabeça com arreganho
e atirava uma depreciativa mirada de desdêm a essa humanidade inferior
que o rodeava... a êle, senhor do Universo.

Passada a encantadora capital uruguaia, não restavam agora ao _Almeria_
mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e
afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando
instruções aos _stewards_, buscando e preparando a continuìdade das
relações ocasionalmente entaboladas.--Os Wimeyer ofereceram ao Silveira
a sua casa de Buenos-Aires, _calle_ Paraguay. O Mafiori a todos
anunciava bem alto que ia hospedar-se no _Plaza-Hotel_. Mas os mais,
pelo geral,--como o Mackenna e o Alvarez,--não sabiam; iam confiados ao
acaso ou haviam-se entregado ao solícito critério dalgum amigo. Os
mesmos Améglio não haviam tambêm escolhido domicílio. Assim, para
poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram reùnir-se ou
enviar o seu _adresse_ ao _Café da Paris_, na noite seguinte. E ainda,
da suja promiscuìdade da 3.^a classe, não deixou de vir humildemente o
Matias, na companhia confortante de mais dois patrícios, a demandarem
interesseiros o Silveira, confiados na sua espontânea promessa de
protecção, para lhe pedirem numa lacrimosa lamúria que não os olvidasse,
e desejando saber onde haviam de procurá-lo.

A cada momento, espontâneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda
das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos diálogos,
palpitando da inquieta indecisão daquele instante. Mas diálogos eram
êstes que na sua impaciência mordente, no seu vôo fantasista, em vez de
aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um íntimamente se
perguntava--que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas
palavras ninguêm as apreciava maiormente, ninguêm lhes dava inteira
atenção, porque elas mesmas logo em cada um dêsses insatisfeitos
espíritos sugeriam e despertavam, para alêm do seu significado real,
outros planos, idéas, desejos, ambições e projectos que os levavam para
muito longe... Porque é assim neste vertiginoso e dissolvente
aturdimento que nós vivemos hoje a vida. Ninguêm se instala nela com
permanência,--nem nas casas que alugamos agora, já com o antecipado
desígnio de as largar àmanhã, nem nas dedutivas evidências da nossa
razão, nem na voz instintiva da nossa consciência, nas nossas paixões,
apetites, ódios, amores, interêsses. Nada para nós é hoje santo, grande,
estável, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma
lamentável inconsciência, de ocupação, de família, de ideal, de
carácter. Nada há duradoiro. A febril obsessão de «edificar o futuro»
furta-nos ao gôzo tranqùilo e salutar da hora presente. A glória duma
invenção feliz, o lucrativo êxito dum negócio, o aplauso por uma obra
benemérita,--que foram o produto de longo e persistente labor, as mais
das vezes,--contudo, apenas conseguidos e já não nos satisfazem, não nos
arrebatam, não nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu
triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite
inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoções, aventuras
novas. O torvelinho trágico da vida desliza e corre sôbre nós sem nos
penetrar, como a água pelas penas dos cisnes. A nossa existência
atropelada e incerta tem a _allure_ constante duma carreira, é um _film_
alucinativo e ardente, cuja precipitada mímica nem nos abonda à vontade,
nem nos cumula o desejo. É uma hiperbólica e vertiginosa curva sem
termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos
incessantemente aos cotovelões à felicidade, sem saber vê-la, sem a
apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido.

...Quando, seguramente, a base mais sólida, mais coerente e mais lógica
para a plena posse do futuro, seria, à maneira antiga, organizarmos o
presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas
delícias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos
bem do valor intrínseco de cada dia,--como se o mundo fôsse a acabar
nessa mesma noite.




V


Buenos-Aires, finalmente! O _Almeria_ agora avançava à cautela,
flanqueando devagar as sucessivas bóias distribuidas, como um rosário de
lumes, ao longo do estreito canal que dragagens contínuas mantinham
aberto, cavando um sinuoso sulco de lôdo na chata pastosidade daquele
estuário imenso. Anoitecia. O céu conservava-se nublado, mas calmo, e
nessa infinita tela _gris_ o carvoamento confuso das linhas da costa
adquiria transparência, tinha um encanto singular, banhava-o uma poética
e vaga suavidade. Na bruma indecisa da noite já o Silveira podia
descortinar, convidativa, avançando e crescendo do boleado mistério do
horizonte, uma linha caprichosa de farolitos e de mastaréus, primeiro;
depois uma complicada e imensa teia flutuante, a mais inextricável
maranha de tôda a sorte de embarcações, trechos de docas, atributos
náuticos, pontes-levadiças, guindastes, galpões, bandeiras; a seguir, a
linha quebrada e geométrica, o viveiro apoplético das _azoteas_, das
tôrres, das cúpulas; das agulhas, terraços, chaminés e cornijas
rendilhadas, marcando por uma extensão sem limites, no seu pululamento
proteiforme, o contôrno manso da cidade; e logo, já nítidos, já no
primeiro plano, os alinhados globos eléctricos, a calçada _embadornada_
e os pantagruélicos armazéns marginais da terra firme. Aí a tinha agora,
a célebre, a grande cidade de trabalho e de esperança, de pensamento e
de acção, de labuta e de prazer, de maravilha e de sonho. A Terra da
Promissão actual, o _Eldorado_ mais em voga, o símbolo da abundância
paroxísmica, do homem próspero na terra magnânima! A metrópole ideal da
magnificência e da fortuna, da opulência e da belêza! Emfim...
Buenos-Aires!

O ar, pesado e espêsso, impedia a visão clara, e era como se todo o
espaço se houvesse diluido numa obliteradora meia-tinta, numa suja
mucilagem que delia os contornos e comia o brilho às coisas; contudo,
tanto quanto podia adivinhar-se das condições de desarolo e vida daquela
planura intérmina, o âmbito dêste pôrto modelar era enorme e colossal o
seu movimento. Um enxame, um delírio. Crescia grosso para o alto um como
que resfolegar de opressão, a afirmação potente, a rebeldia sujeita de
fortes energias represas, dessa floresta de chaminés fumarando, dêsse
empilhamento marítimo de monstros de tôdas as idades, de máquinas de
tôdas as formas, dimensões, feitios, côres, que latejavam e arfavam com
veemência, ora premindo-se, ora evitando-se, em risco de se
entrechocarem e que a limosa torrente do Plata no seu gigantesco dorso
embalava brincando, docemente, por uma extensão sem termo e sem medida.
Pela carcassa formidável dêste báratro de enormidades os homens,
iluminados de escape, lidavam como formigas. Saltavam choques brunidos
de metais do alto bôjo flamante dos grandes transatlânticos, havia roces
de cremalheiras, roldanas, cordagens, quedas surdas de fardos, vozes
agudas de comando, tangiam as sinetas de bordo, as sereias apitavam; na
gorda pacificação do ar, saturado de maresia, sentia-se, a quando e
quando, um chapinar de remos, batendo claro no intervalo dalgum trinado
lamento de guitarra; e no fundo humilde de alcatroadas barcaças
fumegavam, a um lume discreto, caldeiradas apetitosas. E agora já, com o
avanço lento e crescente do paquete, aquele primeiro esfumado e negro
bosquejo da cidade povoava-se, tomava volume, aclarava, definia-se a
cada momento; aqui, alêm, bisbilhoteiras luzitas saltavam, riscando
arruamentos, desvendando interiores, trémulas e brancas como estrêlas;
ou eram os grandes rèclames luminosos que no seu relampaguear
interesseiro chispavam súbito, como borboletas de fogo, estremando
planos, talhando duras silhuetas na sombra e em manchas fortes como
_gouaches_ lambendo os panos do muro; esbatidamente. E agora tambêm, a
favor da molhada ressonância que lhe emprestava a proximidade das águas,
vinham acariciar o ouvido atento do Silveira as sonoras trepidações da
vida urbana,--o _tlim_ nervoso dos tranvias, o lento arrasto das
carroças, o pregão dos vendedores de diários, o buzinar dos automóveis,
o trapejar das oficinas.

Atracado ao cais o _Almeria_, e enquanto a marinhagem ajustava a
_passerelle_ para o desembarque, João da Silveira buscava com afã em
baixo, na multidão apinhoada cêrca, sob a _marquise_ monstro da aduana,
a figura pequenina e viva do seu amigo Pedro Azeredo.--Um convicto
monárquico tambêm, igualmente fidalgo, da linhagem seis vezes secular
dos Azeredos, senhores de Penamacôr e redondezas, alferes de cavalaria
ao tempo da revolução, e que naturalmente, incompatível com o salafrário
regímen da Rèpública, seis meses havia que viera para a Argentina, com
licença ilimitada.--Lá estava êle,--via-o agora!--plantado bem na
frente, mesmo na orla do cais, e correndo a amurada com a mão em pala
sôbre os olhos, ao alto erguidos. Soltaram um simultâneo brado de
cordealidade alegre, ao reconhecerem-se; e o Silveira, tam pronto como
pôde, desceu, rompendo em cunha a atropelada impaciência da grossa onda
cosmopolita que jorrava de bordo. Um quente abraço, no cais, de efusiva
ternura; logo o Silveira confia do corretor do hotel e tediosa revisão e
entrega da bagagem; e breva saltam os dois para um automóvel, que, à
indicação dada pelo Azeredo, partiu roncando.

--Então, como vais tu?...--rompeu êste, num claro riso, saltando e
sacudindo a espalda ao amigo com a mão em leque, todo voltado para o
recêm-vindo.

--E tu, meu alma do diabo?--acudiu vivaz o Silveira, fitando, confiado,
o companheiro e premindo-lhe afável os joelhos.

--Menos mal, meu vélho. Ganha-se _plata_. Hei-de-te contar...--E com
desdenhosa arrogância, atirando o palhinha para a nuca:--Bem melhor do
que lá nessa pepineira de rèpública.

Mas o Silveira, que não cessava de mirar a um e outro lado,
interessadamente:

--Parece-me uma grande cidade, esta?

--_Como no!_

--E bela, caramba!

--Grande, grande...--corrigiu com sentencioso ademan o
Azeredo.--Sobretudo grande. Quanto a beleza, _hay que distinguir_.

Com efeito, o Silveira achava tendido sôbre aquela vastidão sem termo um
como que mortiço pano de melancolia... Escasso movimento e pouca luz.
Seria por motivo talvez do enfado da viagem, mas parecia-lhe aquilo
triste.

O automóvel deixára a larga avenida marginal e subia agora uma pequena
rampa, empedrada a paralelipípedos, sulcada de _rails_ e tomada a todo
um lado por um maciço casarão banal, atijolado e de balcões em arcaria,
de comesinho aspecto colonial, sem vôo, sem majestade.

O Azeredo aclarou:

--Aqui tens a chamada Casa do Govêrno... _La Casa Rosada_. Residência do
Presidente e instalação de vários ministérios.

--Não vale o nosso Terreiro do Paço,--com impertinente fatuìdade o
Silveira anotou.

--Foi feito noutra época, noutras condições. Não se comparam.

Seguia-se uma grande praça rectangular, definida pelas cimalhas
caprichosas de imponentes palácios barôcos, e num dos extremos,
longitudinalmente cortando-se, à direita, uma colunata helénica de
templo.

--Ali é a Catedral, vês?--ciceronava entretanto o Azeredo.--Logo ao
lado, a Municipalidade. Aqui à ilharga o _Banco de la Nación_, a Bôlsa.
Tens pois aqui assim, logo por entrada, o coração, o índice político do
país, o centro burocrático da cidade.

O vasto recinto, tirante as ruas periféricas, estava quase totalmente
tomado por uma caótica profusão de materiais em osso, via-se coberto por
um pejamento heteroclito e informe de linhas abstrusas, bárbaras, de
coisas duras, cortantes, agressivas, sujas,--montes de saibro, caliça,
areia, pilhas de beton, caixas de latão, barricas, vagonetes, vigas de
ferro, cabrestantes, escadotes, carretas, arames em puas hostis,
barracas de taipa, casotas de zinco, pastas de lama. E desta hirsuta
barricada, ao centro, sôbre esta aluvião industrial monstruosa, de
destroços de ruína e de tesas projecções suspensas, uma ingénua
figurita, espécie de Palas, no vértice duma pirâmide de _confiture_,
débil e só no espaço, assomava com tristeza.

--Tôda esta confusão é por causa das obras do ferrocarril
subterrâneo,--tornou o Azeredo, solícito.--Como o _Metro_ de Paris... Ou
melhor! muito melhor! Ah, indubitávelmente é um grande melhoramento.--E
enquanto o automóvel rodava à esquerda, passada a Catedral:--Eu queria
levar-te pela Avenida de Maio, a principal artéria da cidade; mas creio
que não será possível.

--Tambêm anda em obras?

--Tambêm... em parte. Mas não é por isso. É que estava defeso, e muito
bem, estender hoje o _côrso_ por aqui; mas, a despeito da proìbição
municipal, a multidão agora à noite conseguiu invadir a Avenida e todo o
campo é pouco para ela. Não ouves?...

Pelo ar gordo e parado montava e alastrava um grosso resbunar pagão, o
relincho orgíaco da multidão em febre, avassalando, acanalhando o
espaço, tomando e prostituindo tôdas as direcções, sobrepujando e
sujando todos os ruídos. Havia um vago clamor sobrenadante, assobios,
gritos, risadas, fanfúrrias desafinadas, canções estúrdias, e a espaços
buzinava áspero pelo ar o trilo irritante das cornamusas de barro. Era a
despedida foliona do Carnaval, retida com ardor, prolongada com delírio.
Eram os últimos arrancos da bruta bambocha anual em que a essa fera
travestida, que é o homem, se permite desdobrar à sôlta as suas
inclinações e regressar à sua origem. Naquela noite dionisíaca, a
pressão cálida do ambiente era engrossada pela onda impúdica dos
desejos. Adivinhava-se a vulgaridade, a brutalidade, a volúpia sórdida,
a fúria erótica, os grotescos desmandos do instinto plebeu, nesse
asfixiante turbilhão animal, brigando, rugindo e tressuando. Como se por
completo se houvessem delido tôda a luminosidade, todo o espiritual
enlêvo, todo o fino ar, tôda a aristocrática leveza da magnífica cidade,
paresiada neste momento por um espasmo vêsgo de loucura.

Na raíz mesmo da Avenida, ao fundo da praça, o automóvel teve que parar.
Dois polícias a cavalo davam-se a pêrros para regular aquela desordem e
facultar o trânsito aos veículos, positivamente bloqueados, na frente,
pelo marulho compacto da multidão, nos flancos, pelo aprumo bisarmal dos
prédios. Num ligeiro estremecimento de contrariedade, disse o Azeredo
para o _chauffeur_:

--Bem, tome aí por Rivadavia e veja se pode dar a volta por Cerrito.
Apeâmo-nos em seguida.--E, com ar enfastiado, para o amigo:--Aqui, o
entrudo é o que tu vês: é uma coisa antipática, vulgar, uma festa do
populacho.

Depois, quando o automóvel, desandando lentamente, conseguiu retomar
caminho:

--Mas que mania foi essa de hotel?

--É o mais prático, meu filho.

--Bem: se chegasses aqui só, absolutamente sem conhecimentos, de acôrdo.
Mas tendo-me a mim... Instalavas-te na minha pensão. Eu até falei à dona
da casa... Estarias mais cómodo e mais barato. Como em família.

--São essas familiaridades que eu detesto, que eu temo,--objectou num
instintivo horror o Silveira.

--Tonto! Ao contrário, é delicioso...--insistiu o Azeredo; e, saltando
sempre, com o seu riso escarninho:--Há lá um matrimónio sério,
provincianos _burgêssos_, que convidam tôda a gente a jogar o quino.
Quando não há _plata_ p'ra gastar fora, compreendes, é excelente... Há
mais duas francesas, muito reinadias, que tem a excentricidade de não
receber visitas senão meia-noite passada. Há uma professora de _tango_,
um estudantito de medicina, um caixeiro da _Ciudad de Londres_ ... e
então uma _gaja_ chilena, menino!--aqui o Azeredo sublinhava o seu
entusiasmo, mirando em alvo, com requebros lúbricos,--uma viúva,
_morenucha_, gordota, com uns olhos assassinos que trespassam a gente!

--Atiras-te?

--Ela parece-me amável, isso é... Tem um filho que é um _pibe_
insuportável... Outro dia, com uma seta, de papel, ia-me vasando um
ôlho. Ah, mas pelas celestiais delícias que se adivinham na mãe,
aturam-se bem as diabruras do filho.

Prudencialmente, ao cabo duma pausa, João da Silveira mascou:

--Bem, tudo isso eu acho detestável... Quero estar independente, livre,
absoluto senhor meu, entendes?--E como fazendo um exame de
consciência:--Não que às vezes, sem querer, prendemo-nos, e é uma maçada
depois para sacudir essas seresmas.

--Ora!--com um desdêm superior objectou o Azeredo.--A gente
defende-se...--E voltando a insistir:--Vê lá, meu vélho, se preferes,
anda. Ainda estás a tempo.

--Não, não... Prometo ir, mas de visita.

Uns minutos depois, junto a uma esquina, apeavam-se; e o Azeredo deixava
o seu amigo no _Cecil Hotel_, onde lhe tomára alojamento. E, ao
despedir-se:--que no dia seguinte não poderia vir logo de manhã, porque
tinha o escritório; mas pela tarde, ás 4, viria buscá-lo para darem uma
volta por Palermo e _fazer_ em seguida a _calle_ Florida.

--Vê lá não te constranjas...

--Qual! Se é o que eu faço habitualmente. É o _chic_...--E com o ôlho
ladino:--_Noblesse oblige_.

--Bem, está direito. Depois jantas comigo.


Na manhã seguinte, o Silveira que dormira como um bispo, levantou-se bem
cedo, banhou-se com deliciada pausa, e enquanto esperava o _desayuno_,
foi abrir os dois largos batentes da porta do seu quarto, rasgada em
balcão sôbre a rua. Era no último andar do hotel, a uma altura onde
chegavam já mortiças num adormecimento lânguido as pulsações fortes do
exterior.--Ele queria ver a cidade com ar de dia, no seu fresco aspecto
matinal, no brio potente da sua vitalidade, erecta e liberta emfim das
vagas figurações da sombra, daquele pesadelo de animalidade e desordem,
da passada noite.--Saíu ao ar livre e avançou o busto com avidez, a
mirar a extensa, a plena toalha de movimento, de vida e de luz que lhe
oferecia, em baixo, o traço imponente da Avenida de Maio. Era um golpe
de vista bem digno duma grande metrópole, não havia dúvida, essa formosa
e ampla linha correndo dum jacto, inflexívelmente, limpa e direita, da
pirâmide rudimentar da Praça de Maio à esbelta cúpula monumental do
Palácio do Congresso. E esbeltos eram por igual os opulentos prédios
marginais, caprichosos, brincados de formas, atirados com arrogância
para o espaço: Traziam-lhe reminiscências de Paris na sua _patine_
cinzenta e monótona, nos seus rendados balcões floridos: e de Paris eram
tambêm a atmosfera velada, o asfalto luzidío, o ar discreto, as filas de
mesitas redondas acaparadas sob os tôldos dos _cafés_ e _restaurants_, a
entestarem, numa disciplina idílica perfeita, com os renques de plátanos
muito escovados, tosquiados com simetria e alinhados marcialmente ao
longo dos passeios.

Contudo, abrangida daquela altura, a magnificente artéria resultava
estreita em relação com o vôo possante, com as maciças dimensões da
casaria; das franças das árvores, dos postes telefónicos, dos colunelos
da luz eléctrica, de tôdas as arestas, de todos os ângulos, de tôdas as
curvas e ressaltos daquela floresta arquitectónica, restos ignóbeis de
serpentinas pendiam esfarrapados, tremulando ao vento; e aqui tambêm, a
intervalos, tomando por vezes a extensão de quarteirões inteiros,
voltava o Silveira a ver com desgôsto o mesmo pejamento industrial com
que, durante o seu breve percurso, esbarrára na véspera,--havia trechos
largos de calçada esventrados de lés a lés, fundidos em abismos de
tréva, rasgados e cavados em boqueirões hiantes, como chagas, que
geométricas vedações de zinco ondulado debruavam, polvilhadas de
purulências de cisco, escoradas por eczemas de barro, e de cujo negro
ventre revôlto subia incessante um bater ciclópico de picaretas e
ferragens, na mais irritante dissonância com a gritada fúria dos
pregões, o compassado chouto das tipóias, todo êsse marulho vago das
ruas. Pelo ladrilho pardo dos amplos passeios marginais farandunava uma
peonagem atarefada e compacta, de tôdas as origens, de tôdas as idades,
feitios, tamanhos, côres,--o mostruário ofegante do universo, o resíduo
aventureiro de tôdas as raças, sôbre cujo movediço plasma, salvando a
onda banal dos jaquetões e dos chapéus de palha, se afirmavam, aqui e
ali, exóticamente, figuritas nervosas e amarelas de _nipons_, o tudesco
sólido e arrogante, _képis_, turbantes, chimarras, _ponchos_; grupos de
homens espadaúdos e arremangados, de avental, a cabeça de boina e o
grosso artelho nu sob o farto _calcetin branco_; tipos refeitos de
mulheres de aspecto arisco, o rosto acobreado e extático, a saia muito
farta tecida em tons berrantes, e descido o cabelo esfíngicamente, à
frente das orelhas, em duas tranças negras. Correndo a parte central da
Avenida que se mantinha viável, pelas suas porções livres, uma dupla
fila de côches e automóveis subia, e outra descia, infindáveis,
incessantes, sem claros e sem trégua, aglomerados e suspensos por vezes,
em nódos de embaraço, ao cruzarem as ruas transversais, donde
perpendicularmente golfavam a jôrro mais automóveis, mais côches, mais
ciclistas, mais cavaleiros, mais pregões, tôda a ordem de obstáculos, na
sua invasão resfolegante engrossados ainda pelo pesado tropear das
galeras, dos _camions_, das carroças e tranvias. E desta forte
trepidação material e espêsso escoamento, o fluxo e refluxo
interminável, era regulado, às esquinas, numa sorte de automatismo
consciente, pelo bastão vigilante dos polícias.

O comedor do hotel era na _planta baja_, furtado às vistas do público
por brancas e discretas _brise-bise_, mas invadido em cheio pelo marulho
atroador da rua. Tudo isto estimulava mais e mais a espertinada atenção
do Silveira, que, apenas findou de almoçar, subiu a tomar a bengala, o
chapéu e as luvas; e num momento aí o temos no pequeno vestíbulo outra
vez esperando que o porteiro lhe tomasse um _taxi_, onde a asa pitoresca
do movimento lhe acalmasse a actividade e lhe désse pasto ao interêsse.
Não tinha fim determinado. Queria ir dar uma volta de aventura, ao
acaso, puramente ao arbítrio do _chauffeur_ e ao sabor do imprevisto.
Mesmo que outra coisa podia êle querer, por agora, não conhecendo nada
da cidade?... Apenas recomendou à silhueta automática do condutor, que,
de mãos ao leme, sem olhar aguardava indiferente,--que não queria estar
a parar constantemente... e então que fôsse por onde houvesse menos
confusão, menos movimento.

O vélho _auto_ partiu logo, tomando a oeste, e pronto desembocou numa
praça amplíssima, desbordante de luz, num aceio irrepreensível as suas
largas avenidas de asfalto reluzente, e orlada apenas, como que
provisóriamente, de casitas abarracadas e construções mesquinhas, na
cimalha _tape à l'oeil_ duma das quais, espécie de mercenário
frontespício de instalação de feira, mugia a toada populacheira e aldeã
dum realejo. A todo o fundo, desdobrava-se e crescia majestoso para o
alto, no seu deslumbramento marmóreo, o Palácio monumental do Congresso,
vaidoso e lindo no estadeamento olímpico das suas colunatas, nos seus
astragalos e florões clássicos, nos seus génios de bronze, nos seus
grupos alegóricos, na linha puríssima e alada da sua cúpula sem par,
traçando suavemente, na mansa tela lilás do céu, uma grande parábola de
arrogância e de sonho. Entretanto, e apesar da nobre e empolgante linha
geral do seu conjunto, esta mole colossal, erguida ali, não suportava a
vastidão da perspectiva, sentia-se esmagada pela imensidade absorvente
do recinto. E êste aparecia-nos tambêm inexoravelmente tomado pela mesma
grossa e incómoda farfalha industrial que, parecia, aqui avassalava
tudo; por tôda a sorte de vedações, de máquinas, de materiais, de
esboços de construção e montes de escórias. Uma como que subversão de
terremoto se produzira, ao centro, protuberado horrivelmente de pequenos
Atlas de ferro e aço, de Himalaias de cascabulho, de Jungfraus de lama.
Apenas, neste estrangulamento de sórdidas durezas, algum triste e
anémico trecho do relvado, mais resistente, conseguia oferecer ainda uma
acariciadora mancha de frescura; e num dêsses perdidos oásis de plácida
harmonia debuxava-se, solitário e nostálgico, o bronze do atlético
_Penseur_, de Rodin, na sua acefalía paradoxal, na sua absurda
corpulência. O mesmo edifício do Congresso, que o Silveira deixára agora
à sua esquerda, estava por concluir, com o poderoso flanco sem epiderme,
amparado em andaimes, esperando o revestimento para as arestas
descarnadas e o tijolo ennegrecido.

Internou-se a seguir o automóvel por uma rua espaçosa e clara, espécie
de _boulevard_, no seu arranjo cuidado e simétrico, na sua dupla fiada
de árvores, no delírio policromo das taboletas, nas artísticas
vidreiras, na sua vida sussurrante. Alongava-se a perder de vista, e na
sua orla barulhenta as _étalages_ comerciais e os tôldos dos
_restaurants_ sucediam-se e disputavam primazias em alternâncias
coruscantes. No letreiro duma esquina, de corrida, o Silveira conseguiu
lêr--_Rivadavia_; e então recordou que esta era talvez a principal
artéria _porteña_, e decerto a mais extensa, a de maior tradição, como
que a coluna vertebral da cidade. Depois, fortuìtamente e a intervalos,
consoante o giro caprichoso do veículo, o Silveira deu-se conta de
passar por uma rua Andes, cruzar aí com um grande edifício pesado e
austero, meio hospital, meio academia; a seguir outros arruamentos,
quáse iguais, todos com lacónicas designações,--Córdoba, Triunvirato,
Santa-Fé, Las Heras, Montevideo... por fim já nem tomava tento por onde
ia e abandonava-se, alheadamente, à incerteza voluptuosa do
desconhecido. Mas eram sempre as mesmas ruas infindáveis, riscadas a
cordel, invariávelmente chatas e implacávelmente direitas. Em vão se
buscava neste taboleiro de xadrez colossal, a adoçar-lhe a hirta algidez
sem termo, o desafôgo verde e livre dum _square_, o perfume sorridente
dum jardim, um refúgio amigo de sombra, a carícia duma curva, o
boleamento duma colina. De onde a onde, algumas tacanhas _plazuelas_ se
riscavam, é certo, porêm submetidas por igual à mesma implacável
esquadria, como que incrustadas na massa barrenta dos prédios, e na sua
tímida penumbra alimentando uma flora de claustro, recolhida e triste. E
por tôda a parte tambêm, mais ou menos, o mesmo pejamento de coisas
tôscas e informes, o mesmo prurido desconcertante de renovação: ou era a
calçada, esburacada em longos trechos e o trânsito impossibilitado pela
aglomeração impertinente de paralelipípedos, em monte, de tubagens em
linha, de rolos de cabos, de maçaricos, paz, alviões, lanternas; ou eram
os primeiros ensaios de _rascacielos_, com seu rodapé de tapumes
lambusados de cartazes irritantes e aprumando hirsutos no vácuo os seus
esqueletos de tijolo e de ferro.--Uma cidade colhida em gestação
flagrante, sacudida num estremeção apoplético de vida, onde tudo estava
por fazer, onde nada se concluíra ainda. No seu subsolo esfarrapado e
arfante, sob a sua carapaça movediça e áspera como o dôrso dum monstro
antediluviano, bravejava uma caudal fremente de energias, reacionava no
mistério a química formidável dos interesses e a impetuosidade brutal
dos instintos. Nada quieto, nada seguro, nada inerte. Havia um eterno
ponto de interrogação suspenso sôbre o seu arranjo definitivo, não se
atinava com o termo a esta sua cavalgada frenética na conquista
delirante do progresso e da fortuna.

Em contraste aberto com os populosos aglomerados das grandes capitais
europeias, aqui em Buenos-Aires as casas, de frente angosta e
profundamente esticadas, não tinham, pelo geral, mais que o andar
térreo. A lisura convidativa da _pampa_, deserta e sem obstáculos,
incitava a esta expansão libérrima, o que explica que Buenos-Aires
abranja hoje uma área superior à de Londres. Alêm disso, como o valor da
terra nas zonas de vida mais intensa sóbe vertiginosamente, por isso
tambêm, na economia do seu lógico desdobramento, as sucessivas
construções tendem a irradiar para a perifería, como os tentáculos dum
aracnídeo colossal, neste seu denso rastejamento sem freio e sem medida.
À proporção que se distanceiam do centro, as edificações apequenam-se,
rustificam-se, vão gradualmente despindo o carácter urbano,
solidarizam-se, confundem-se com a terra, e a sua construção é mais e
mais simples, até descerem às combinações rudimentares do tijolo, da
taipa e do adôbe. E não é fácil fixar o limite a êste encurralamento
galopante para o Infinito.

O Silveira considerava com particular interêsse a fisionomia, tôda
peculiar, das construções principais,--essas altas bisarmas que rompiam
desamparadamente, aprumadas e esguias, do rasteiro cordão habitual da
casaria, e que assim desdobravam no espaço livremente os seus flancos,
não impenetravelmente murados, ao modo de Lisboa, como tumbas, porêm
abertos e entremostrando a trechos a sua estrutura intestina, no
escalonamento paralelo dos vários andares sobrepostos, e, em cada andar,
na sucessão linear dos compartimentos, cujas portadas se entreviam
superando, muito alinhadas, a aresta do parapeito discreto dos
_pasillos_. Tambêm lhe chamou a atenção o decorativo luxo exterior, o
rebuscado adôrno das fachadas. E êste vicio era geral; nos palácios mais
opulentos como nas vivendas mais comesinhas, prevalecia e ressaltava
inalterável uma indumenta excessiva da _pâtisserie_ italiana; em todos
havia, um gongorismo de ornatos desbordante, uma ânsia eruptiva de
contornos, um espolinhamento doido de torcicólos barôcos, de emblemas,
de florões, de amorinhos, cariátides e quimeras. As paredes mais
modestas não dispensavam alguma máscara de fauno ou uma lira entre
malmequeres e rosas; mas eram sempre capas e capas de redundâncias
sobrepostas, era um atropelado derroche de cimentos e argamassas que
retinham a luz, que arranhavam o gôsto e varriam tôda a sobriedade e
pureza de linhas. Não havia arquitectura, mas apenas _albañilería_.

Contudo, esta pesada obsessão do relêvo era vantajosamente resgatada
pela nobre linha geral das construções, elançadas sempre e escalando a
altura com brio, num soberbo arranque de abastança e de fôrça. As
janelas não prescindiam, em geral, do confortável resguardo das
persianas, de madeira ou de ferro, e adiantavam-se em amplos balcões
rendados, muitos dêles picados garridamente de floritas rubras e com
finas enrediças verdes colgando. Mas nem uma vaga silhueta de mulher
neles vinha debruçar-se, ninguêm se via às janelas, cujas persianas
impertinentes, inexoráveis, se mantinham, de alto a baixo,
herméticamente cerradas. E as portas, estreitas, igualmente
impenetráveis, sentinelas fieis da felicidade e do amor... Impossível
surpreender a mais fugidía nuança da vida interior destas esquivas
bocetas, furtadas tam melindrosamente ao róce brutal do mundo. Isto
dava-lhes um tom singular, um ar recatado e discreto, o que quere que
fôsse de aristocrático e isento, contrastando afinadoramente com o
grosso industrialismo plebeu que lhes marulhava em tôrno. E um outro
mundo se adivinhava, com efeito, tecendo o seu manso ambiente inefável
adentro dêstes misteriosos ninhos da paz e da virtude. Como se o
carácter argentino, carinhoso, manso e precavido, cavasse um deliberado
abismo de meticulosa defesa entre a rude guerra aberta dos negócios e a
macieza impenetrável do seu ninho! Como se a feição e o cálculo, numa
trégua prudente do seu antagonismo, o levassem a lançar uma barreira
irredutível entre as doçuras plácidas do _home_ e os atrictos
desgarradores do interêsse, entre o coração e a banca, entre o lar e a
rua! Cá fóra um balcão, ali dentro um altar.--Seria assim?...--A verdade
era que, com tôda a sua pacotilha ornamental, o seu aspecto provisório e
o seu precário arranjo, a grande cidade voltava agora a oferecer e como
que confirmava, ante a sensibilidade esperta do recêm-vindo, o mesmo
inédito e especial encanto, a mesma poética e vaga suavidade daquele
esquissado carvoamento das suas primeiras linhas na calma téla _gris_ do
céu, na passada noite... Um não sei quê de atraente e aprazível, de
afávelmente acolhedor, de harmonioso, de limpo, de fidalgo, que êle, um
hóspede de horas, não sabia ainda se atribuir à claridade essencial das
almas, se ao respiro salutar das coisas.


E sentia-se bem, afinal. Tendo voltado ao hotel, e agora reclinado
molemente numa poltrona modesta do seu quarto, o desabusado morgado de
Mosteirô repassava mentalmente o seu expatriamento voluntário e iludia o
tempo numa saborida evocação retrospectiva de gratas lembranças, de
projectos, de sonhos, de scenas vividas, de prazeres, de desejos
suspensos. Primeiro a Pátria; mas o intervalo ainda curto do seu
distanciamento e o torvelinho de ineditismos ofuscantes que, desde a
partida, o vinham assediando, não permitiam que o vinco nostálgico por
enquanto se afirmasse na vibratilidade demasiado inquieta da sua alma;
depois, aqueles tantos dias de bordo, essa deliciosa bambocha de
pequeninas audácias, desilusões, surprêsas, _flirts_, intrigas, tédios e
ridículos de raiva que era brisas e de gozos que eram espuma,
correra-lhe um pano de olvído sôbre o passado; entre o que êle fôra, e o
que era, haviam marcado uma eternidade e cavado um infinito.--De
Portugal, agora, queria lá saber!--Apenas recordava, num desdêm
superior,--que aquilo lá devia ser uma maçada, com os _carbonários_ a
ditarem a lei, os conventos feitos quarteis, os novos sem religião, os
vélhos sem garantias, e uma mania de escolas por tôda a parte, tudo
muito malcriado e ninguêm conhecido. A seguir, recordou vagamente os
dois irmãos.--O que fariam êles?...--Ainda o mais vélho, o José,
advogadote rábula e manhoso, saberia tirar proveito dos conflitos
jurídicos que, com a Rèpública, eram agora bastos como os cogumelos
depois da chuva; mas o Bernardo, o mais moço, um pateta feito agrónomo à
fôrça de empenhos, um _come-santos_ sempre metido por _lausperenes_ e
romarias, como se aguentaria, agora que o Afonso déra com os santos em
terra?...--Ora! não fôsse _tanso_.--Por fim, ao evocar a visagem chorona
e os ademanes trágicos da noiva quando lêsse a sua carta de despedida, o
lábio varonil ergueu-se-lhe num leve sorriso, entre comiserativo e
trocista, e os olhos fátuos, erguidos ao teto, semicerraram-se, a seguir
a indecisa imagem da pobre Laurita, que em espiralamentos caricaturaes
êle via subir, envôlta na fumarada ténue do charuto, seguida pela ronda
desolada e grotesca da família.

O derivativo patusco da viagem, isso sim... tinha sido bom a valer!--E
já de repente voltava a dançar-lhe, efémera e jovial, pela retina tôda a
divertida sucessão de episódios que durante êsses deliciosos vinte dias
haviam marcado um dos capítulos mais saborosos e interessantes da sua
vida. De tudo um pouco êle havia logrado provar nesses adoráveis
_instantâneos_ breves, e fugazes como _fogos-fátuos_, feitos de
saltantes contradições e antíteses súbitas. De tudo,--desde os trágicos
pavores da tempestade té aos desmanes hilares do ridículo.--Que rico
tipo aquele pedinchão Contreras, com as suas intrujonas promessas e os
seus apetites decorativos... e a cabeça e as piugas do Alvarez, as
fanfarronadas postiças do conde, as doutas madurezas do Wimeyer... o
Mackenna com a sua pomposa inépcia, o Mafiori com a sua astúcia mansa.
E, das mulheres, quanto não valia essa esnalgada e insípida Nora, a
querer teimosamente enredá-lo na tentação paradoxal dos decotes... e que
apetite de formas, que rico amor, a irlandesa... e a formosura alada, o
requintado espírito, a indecifrável isenção de Irene! Esta, sim, que
dava que pensar...--Por uma natural associação de idéas, o Silveira
conjugou mentalmente a púdica absténção, o carácter retraído e tímido da
linda argentina, com o ar recatado e discreto que êle de passagem
surpreendera, por igual, na fisionomia atraente da cidade. E todo êste
ambiente embocetado e austero, longe de o acobardar, estimulava-o, era
um desafio picante ao seu génio enamorado e volteiro, acendia-lhe os
brios varonís em tonadas ardentes de desejo. Na segura antevisão dos
mais belos triunfos, dilatava guloso as pálpebras, movia numa
pregustação sensual os lábios gordos.--Ah, que o seu instinto
adivinhára! Devia por ali assim vir a passar bem bons bocados...

E aplaudia-se de ter vindo.

Pouco depois das 4, fiel ao seu compromisso da véspera, chegou o
Azeredo. A tarde estava um encanto. A luz esbatia-se suavemente na mole
carícia do ar, húmido e tranqùilo. Tomaram pronto um _auto_ os dois
amigos e dirigiram-se ao parque famoso de Palermo, anunciado nobremente,
ao começo da avenida Alvear, pelas faustosas decorações da _Recolêta_,
em cujo preguiçoso declive majestosas linhas arquitetónicas enquadram
harmoniosamente rasos e amplos taboleiros verdes, mosqueados de tintas
policromas, um precioso _bouquet_ de frescos relvados, de minúsculos
jardins, de bosquetes, sébes floridas e tosquiadas sombras. É
aristocrático e é lindo. E a seguir, descendo sempre suavemente, a mesma
sumptuosa e ampla artéria se continua, atirada com arrogância numa
dilatada conquista de espaço, numa extensa projecção rectilínea sôbre
cujo asfalto polido deslizam, rodam e se cruzam alegremente as
equipagens luxuosas e os automóveis de preço. Definindo a todo o
comprimento o eixo da bela avenida, acompanha-a e ergue-se a perder de
vista, no seu fino recorte aéreo, uma floresta linear de esbeltas
lâmpadas ornamentais, da renda brônzea dos braços tendo suspensos
grandes pomos brancos, e a lavrada raíz mergulhando na macieza de
esguias e escovadas _pelouses_, picadas de estatuetas decorativas.
Depois, naturalmente, e fiel aos consabidos dogmas triviais da estética
urbana, o formoso côrso, deixando o largo aprumo inicial, passa a
desdobrar-se e a colear em mesurados lacetes de roda do grande lago, ao
qual por seu turno não faltam as casotas, pontes rústicas, lilipucinas
cascatas, esguichos anémicos, barquinhos, grutas do estilo, e o
gongórico _restaurant_ de rigor. Agora, neste consagrado circuìto da
moda, é de-veras embaraçante, pejorativa, enorme, a afluência de
veículos, cuja marcha se torna grave e cheia de importância. Há um
refinado propósito de ostentação, uma patente fúria exibitiva; a cada
passo, neste afluir compacto da assistência, produzem-se
engorgitamentos, empastes, nódos, que obrigam a paragens sucessivas;
tudo servindo de pretexto amável à mutuação de sorrisos, acenos,
agrados, câmbios de frases familiares entre as pessoas conhecidas. Há
vida, há movimento, há opulência, há ruído; mas tudo cerimoniosamente
espontado, sem espontaneidade e sem brio. De família para família, de
curva para curva, a cada novo cruzamento neste mostruário ambulante de
vaidades, as vêsgas miradas perscrutadoras, os desapontados gestos, a
raivosa estupefacção, as bôcas sumidas de inveja, impõem-se ao brando
rodar das equipagens e ao bisbisoteio da chalra sobrenadante. E em tam
pomposa parada de atrelagens, alguns vélhos _fiacres_ vão ainda
derivando de escape, ao largo, num repúdio de instinto, humildemente,
como que vèxados no seu anonimato de miséria.

Ao mesmo tempo, uma afluência enorme, desbordante e luzida por igual,
circula e galreja a pé, bordejando abundante as _aceras laterais_,
taquinando com airosa presteza a areia fulva dos passeios. Com
saltitante orgulho o Azeredo vai mostrando ali ao amigo uma que outra
figura conhecida. O Silveira, todo na hora presente intercala com gulosa
vivacidade as sôltas interrogações que lhe acodem a propósito, no
impressivo relato da sua excursão da manhã. Nota com espanto como, aqui,
adoráveis grupos de _señoritas_ se permitem deambular, rir, volitar
livremente, fóra do ôlho suspicaz das mamãs, desenvôltas, seguras, num
confiado aprumo e em plena independência. Nota igualmente que os homens
vestem em geral com desafectada elegância, e que as mulheres teem uma
_allure_ cheia de graça, uma linha de conjunto harmoniosa e fina.--Mas a
moldura que a Natureza oferece a êste palpitante quadro social é
tristemente desataviada e mesquinha. A vegetação é pobre. Abunda a
mancha verde-sujo dos _eucaliptus_, formando por vezes tufos
gigantescos, e avultam alguns maciços mais de chorões, de plátanos, de
cedros, de salgueiros; porêm a maior extensão dêste chato parque
embrionário,--meio _square_, meio pântano,--é povoada por uma fruste
vegetação arbustiva, sem brilho, froixa, mal cuidada; e há avenidas
inteiras orladas por pobres palmeiras _dépaysées_, o tronco anão, a
folhagem esfarrapada e lívida, que na sua enfermiça invalidez são um
eloqùente protesto mudo contra a incongruência edílica, arrefecem o
ambiente e tornam a perspectiva dolorosa. E ainda é de notar que, para
alêm dum reduzido perímetro, neste arremêdo incipiente do _Bois_, o
traçado pretencioso dos bons caminhos de rodado, das áleas luxuosas, se
interrompe súbito a cada momento, cortado por tôda a sorte de
obstáculos. Se em qualquer direcção o desprevenido turista pretende um
pouco mais ao largo aventurar-se, logo aí lhe barra arreliativamente a
marcha uma passagem de nível de ferro-carril, a armatura bisarmal de
alguma grande construção em osso, ou os intransponíveis valeiramentos de
charcos, barrancos e atoleiros de tôda a espécie. As rodas dos veículos
afundam-se e peganham impotentes na revôlta viscosidade das argilas
empapadas. Não há continuìdade nem segurança de trânsito nesta
desarticulada rêde de aberturas. E debalde alongamos interrogativamente,
a um e outro lado, a vista morosa e cansada. Por tôda essa monótona
extensão de rústicas _parterres_, a luz rasante do crepúsculo apenas faz
agora saltar o estagnado espelho dos lameiros e aguaçais, que salpicam
bastos, com as suas placas corrosivas, como pústulas, a inevitável
sucessão das lamas de mato ruço e rasteiro estranguladas entre a
via-férrea e o Plata, onde a luz falta e a humidade abunda.

Na volta, já noite fechada, o _boulevard_ aparatoso de Callao flambeava
de côr e regorgitava de vida. Outra das grandes e opulentas nervuras da
cidade. Tudo brilha, tudo vibra, tudo reluz neste largo e inquieto
diorama. Na mesma sombra há movimento. Sôbre o piso esmerado, de madeira
em paralelipípedos, os numerosos veículos teem um rodar suave e
acariciador, sem estrépitos e sem sobressaltos, como se corressem sôbre
alfombras. Pelos largos passeios marginais, na onda ronronante da
multidão, saltam vivas as arestas e as figuras cortam-se com violência,
surpreendidas em flagrante e trazidas ao máximo relêvo pela modelação
crua em que, do mesmo passo, as envolve o grande jôrro de luz branca,
dos candelabros do alto, e as espadanas de luz doirada golfando dos
_escaparátes_ scintilantes.

O Silveira seguia interessadamente o inédito desdobrar desta cinta
magnífica, com a alma tôda nos olhos e a ventoínheira cabeça passando,
em súbitas e incansáveis alternâncias, dos florões repolhudos dos
palácios à toalha esplendente da rua; quando, de repente, imperativo,
nervoso, arpoando forte o braço ao amigo:

--Ah, ó menino! pronto, pronto... ali! manda parar.

--Aonde?

--Ali! ali!--insistiu, na mesma imperiosa querença, o Silveira.

E apontava um grande letreiro, projectado, à altura dum 2.^o andar,
perpendicular sôbre a rua, onde em flamantes caractéres sucessivamente
brancos e rubros, se lia--*Idiomas Berlitz*.

Mas, incommovível e suspenso, o Azeredo, sem perceber:

--Ora essa! e porquê? Estás doido?...

--Não, filho! manda parar, já te disse... Preciso adestrar-me no inglês,
p'ra me entender com uma criatura deliciosa que conheci a bordo. Se tu a
visses!

Agora o Azeredo ria a perder, sacudindo esperto o busto, espalmando as
mãos sôbre os joelhos.

--Ah! ah! ah! Essa nem parece tua.

--E então?--retrucou, fazendo um mômo de sério, o Silveira, quáse
ofendido.

--Pois tu não vês?... Por mais _apurado_ que quizesses andar, nunca
lograrias arranhar algo, e bem pouco, do inglês, senão passados dois ou
três meses.

--Tanto tempo?

--Seguramente. E entretanto a mulhersinha teria sabido arranjar... quem
melhor a entendesse.

Cabisbaixo e um pouco triste, o Silveira ruminava mentalmente uma
aquiescência. E com o ôlho ladino, o amigo:

--Não me sejas zonzo, rapaz! Em matéria de amor as mulheres não que

Showing first 200,000 characters. Full text: gutenberg.org/ebooks/24919