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Scenas Contemporaneas

by Camilo Castelo Branco · Portuguese · Gutenberg #23203 · 335,878 chars · public domain (US)

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Title: Scenas Contemporaneas

Author: Camilo Castelo Branco


        
Release date: October 26, 2007 [eBook #23203]

Language: Portuguese

Original publication: Porto: Em Casa De Cruz Coutinho--Editor Rua Dos Caldeireiros N.ºs 18 E 20 Porto--Typographia De Antonio José Da Silva Teixeira, Rua Da Cancella Velha N.º 62, 1862

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/23203

Credits: Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online

        Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This

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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS ***




Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
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SCENAS CONTEMPORANEAS.




SCENAS CONTEMPORANEAS

POR

CAMILLO CASTELLO-BRANCO.

2.^a EDIÇÃO.

PORTO:
EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
Rua dos Caldeireiros n.^{os} 18 e 20.
1862.




Porto--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA, _Rua da Cancella
Velha n.^o 62._




MORRER POR CAPRICHO.


I.


Os meus amigos, de certo, não sabem o que é caçar coelhos na neve?

Não admira.

Imaginem-se em qualquer aldêa, nas visinhanças do Marão. Olhem em redor
de si, e contemplem o quadro que os viajantes na Suissa lhes descrevem
todos os dias, supposto que nunca sahissem da sua terra.

A primeira impressão que recebem é a do assombro. Leguas em roda, nem na
terra nem no céo, se descobre uma crista de rochedo, a frança d'uma
arvore, a dobra d'uma nuvem, que não seja branca, alvissima, desde um
horisonte a outro horisonte.

E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio funebre.
Não cantam as aves, não balam os cordeiros, não silva o buzio de
pegureiro, não soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.

Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, não vos afasteis
para longe da casa d'onde presenceaes, com o coração confrangido, esta
scena. É uma alcatéa de lobos, que descem famintos da serra, e serão
capazes de vos hirem buscar á cozinha, onde naturalmente tiritaes de
frio, sentados ao pé do tóro de carvalho.

Faço-vos esta recommendação porque sois uns homens afeminados, que nunca
sahistes dos salões, dos botequins, dos theatros, e das praças. Aposto
que se desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces
inflammadas, antes que o lobo vos désse o cordial abraço da fome, já vós
tinheis perdida a sensibilidade, e consciencia da vida, e até o direito
que todo o homem tem de matar não só o seu semelhante, mas até um lobo,
em justa defeza!

Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma
d'essas manhãs de neve, com meio covado de altura nos terrenos chãos,
tomasseis um cajado, e, com duas finas cadellas de coelho, fosseis dar
na serra um passeio d'algumas horas.

O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que só com muita
pratica se acerta, e, quando mal vos precatasseis, resvalar n'um abysmo
de neve, onde nem as orelhas de fóra dissessem ao passageiro que um
moço, a todos os respeitos excellente, fôra alli absorvido por um
sorvete dos que a natureza offerece aos amantes de refrescos, com menos
economia que o _Guichard_.

Afóra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas vezes tomam
conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma perfeição e rapidez
fabulosas, e, quando Deus quer, fazem dos nossos corpos um supplemento
nutritivo ás nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande
obsequio.

O terceiro percalço, affecto á caça do coelho na neve, aconteceu-me a
mim, ultimo dos mortaes, em 26 de Dezembro de 1844.

É o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo seguinte.


II.


Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os á serra, porque o sol
refrangia-se em scintillas na neve, que parecia desfazer-se em laminas
de prata.

Fui muito contente da consideração que se me dava, como caçador, porque,
em verdade vos digo, atirei com certeiro olho a perdizes e galinholas.
Se nunca matei nenhuma, o que tambem é verdade, deve-se á pessima
polvora das nossas fabricas. Em compensação, matei muito melro e tordo
nas serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos
caçadores famosos de certo não fizeram. Eu fui um grande homem antes de
escrever folhetins! Deus perdôe a quem me torceu a vocação! Eu podia, a
estas horas, ser um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre
dos galgos sociaes.

Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu és um d'elles, permitte-me
dizer-te que tens o faro muito descaçado, e que eu hei-de saltar por
cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se não és galgo, sensato
amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar
direitos de mercê.

Agora, vai entrar a historia direitinha até ao fim.


III.


Subimos á esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em tres grupos,
e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de nos perdermos
encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso esconder-nos os
cabeços das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.

Assim combinados, cada grupo, com dous cães, seguiu as pégadas dos
coelhos impressas de fresco na neve. Eram muitos, e morriam á pancada,
porque os pobresinhos alapados debaixo das urzes, se fugiam, eram logo
mordidos pelos cães; se esperavam eram apanhados á mão. Alguns, mais
previdentes, tinham emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas
sinuosidades interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o
furão, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os cães, farejando
as avenidas da colheita, recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o
rancor do instincto, e atiravam-nos mortos aos nossos pés.

Andamos assim uma hora, tão entretidos, tão esquecidos do mundo, que
nunca tão distrahida hora eu tive na minha vida, a não ser aquellas em
que durmo, e sonho que hei-de tornar áquelles meus dias de candura,
depois de lidar muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que
vestiriam, por innocentes, como Adão e Eva, se a serpente lhes não
dissesse que andavam indecentes.

Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de neve.

O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque
(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pégadas estarão cobertas, e não
saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.

--Eu, por ora, não vou--lhe disse eu.

--Porque?

--Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta
chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola
em ondas aos nossos pés, e sobre a nossa cabeça, afigura-se-me o fumo do
grande incendio no juizo final! Olha... não te parece que o vento
espalha já as cinzas d'uma grande cidade! Não vês Sodoma lá em baixo
vomitando columnas de fumo?...

--Eu não vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas visões... vamos
embora...

--Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, dá um tiro, que
eu lá vou ter. Estou bem aqui; não me mudo por cousa nenhuma.

--Até logo.


IV.


E eu continuei a vêr as minhas visões.

Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em elevações
d'alma para cousas de imaginação, que não era esta fria imaginação, que
tenho hoje.

Absorvido no meu quadro do juizo final, que só uma phantasia abrasada
poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e não fiz
caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por aquelles homens, prosa
vil, que não tiravam partido do grandioso panorama, que a mão liberal da
natureza desenrolava diante de meus olhos absortos.

Não sabeis que o nevoeiro embriaga?

É uma verdade. A cabeça enfraquece; nos ouvidos ha um zunido, que vos
faz perder o rumo. Sentis uma sensação desagradavel, semelhante á do
giro penoso em que a indigestão do vinho vos traz a cabeça vertiginosa.

Foi o que eu senti, quando me furtei ás minhas contemplações improprias
do tempo e do lugar.

Ergui-me, e não sabia já designar a direcção que levára o meu
companheiro, nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha
clavina, mas a humidade inutilisára a escorva. Os cães, que poderiam
ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. Não desanimei.

Tal direcção pareceu-me que deveria ser a melhor, e segui-a. O nevoeiro
deixava-me vêr apenas o espaço que pisava. Atravessei a lombada da
serra, e comecei a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da
encosta, e senti a neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro,
descendo, descendo, sem encontrar uma povoação. Conheci que estava
perdido. A neve augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de
vida! Então, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem
solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum
lobo.

E, de mais a mais, eu tinha fome.

Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um pedaço de
brôa para o meu furão. Reparti-o entre nós. O animalsinho comeu com
appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar
coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fóra um gato
bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados de neve.

Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!

Continuei o meu caminho, sem esperanças de encontrar pousada.

Escureceu.

Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre cabeça
uma cabeça academica.

Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em
provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma povoação, por isso que
os castanheiros, campos, e paredes eram indicios de aldêa proxima.
N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma sineta, que
tocava ás «Ave-Marias.»

Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido. Orei
com a devoção dos dezoito annos. Não vos digo mais nada a este respeito,
porque me não entenderieis. Sois excellentes pessoas para devorar um
romance em dez volumes; mas não lerieis, sem abrir tres vezes a bocca,
uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do céo, que o poeta não
deve nunca profanar, misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao
alcance de todas as capacidades.

Eu creio que entre vós ha entendimentos muito finos, paladares muito
apurados no sabor do bello, corações muito brandos para emoções suaves.
Creio que sim; mas o melhor é fazer de conta que os não ha.


V.


Minutos depois, achava-me n'uma povoação, onde nunca estivera. Encontrei
uma velha que castigava um porco, rebelde á invocação de sua ama, com
uma roca.

Perguntei-lhe que povo era aquelle.

--Alpedrinha--disse ella.

Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era necessario
pernoitar alli. Perguntei á dita velha onde morava o parocho. Mostrou-me
a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que n'esse momento voltava da
igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem eu era, e tratou-me
delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa de minha familia.

O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da côrte.
Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa correcção, e offerecia
aos seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em
bons crystaes e polida salva de prata.

Momentos depois que eu chegára, apeou á porta do meu sympathico
sacerdote um cavalleiro, ainda moço, muito pallido e magro, com chapéo
hespanhol, faxa vermelha, e botas d'agua.

Era um estudante de Coimbra, que voltava doente para sua casa, e
costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.

A primeira pergunta do academico foi esta:

--Como está a snr.^a D. Amelia?

--O mesmo...--respondeu padre Joaquim.

--E seu mano? Tem vindo a casa?

--Não senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres mezes, não
voltou....

Eu estava ancioso por conhecer a snr.^a D. Amelia, porque até ao momento
em que o estudante chegou, suppunha eu que toda a familia do parocho se
limitaria a alguma ama, e alguns pequenitos, que, de ordinario, são
afilhados do padre. Depois das perguntas do meu illustre companheiro de
hospedagem, fiquei sabendo que n'aquella casa existia uma snr.^a D.
Amelia, e um senhor delegado de * * *.

Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de caçador;
disse-lhe que me tinha achado muito fino (referia-se naturalmente á
magresa), e fez a apologia dos meus olhos, que, naturalmente, revelavam
uma extraordinaria esperteza, espiritualisados pelo espirito de vinho,
que o sacerdote me injectou nas veias marasmadas pelo frio.

Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra:
quantos canellões soffria um calouro; o calculo aproximado dos puxões de
orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso na cabeça.... &c. &c.

O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu
protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha
partida.


VI.


--Snr. Valladares--disse o padre ao estudante--minha cunhada ergueu-se
da cama para vir comprimental-o...

--É uma grande consideração, que eu lhe não mereço; mas a delicadeza da
snr.^a D. Amelia é sempre um severo preceito que ella se impõe.

Fallou bem.

N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu
uma cousa nova. Eu não conhecia assim nenhuma. Era alta, muito magra no
rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos cabellos, em tudo se
via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril tão estreme do vulgo,
que eu, creança e poeta, senti-me tão acanhado como o mais boçal dos
pastores de cabras d'aquella freguezia.

--Como passou, snr. Valladares?--perguntou ella com voz tremula,
tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da sua
capa.

--Sempre doente, minha senhora... Por não poder mais, recolho-me a
casa...

--Eu bem lhe disse que não fosse... v. s.^a teimou, agora já sabe que os
conselhos d'uma mulher não são sempre pieguices...

--E os de v. exc.^a nunca poderão sêl-o... E a snr.^a D. Amelia como
está?

--D'este modo que vê... Tossindo sempre, sempre mal, sem descanço d'este
lado, que me parece que já não vive, se não para matar o resto de vida
que tenho...

D. Amelia indicava o coração.

--Porque não dá um passeio até Lisboa?--tornou o academico.

--Isso lhe tenho eu dito todos os dias--atalhou o padre.

--De que me serve Lisboa?

--São ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do coração com as
suas amigas de collegio...

--Eu já não tenho coração para contacto com amigas nem inimigas, snr.
Valladares...

--O que v. exc.^a tem é uma ardentissima imaginação, alma de poeta, que
só tem a sensibilidade do que é triste, e não sabe tirar recursos da
esperança...

--Esperança!...--murmurou ella com um triste sorriso, e voltando-se para
mim, perguntou-me:

--Já sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite divertida
com os lobos...

--É verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me ao paraizo,
depois de me ter mostrado o inferno.

--Ora ahi tem uma resposta d'um moço, que seria pena comerem-no os
lobos!...--disse o padre, desafiando um gracioso sorriso de Amelia.

--Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim como
nós esta noite o salvaremos de ser victima dos lobos--disse-me ella,
apertando affectuosamente a mão de Valladares, em despedida, porque a
tosse exasperava-se cada vez mais.

Esta rapida apparição impressionou-me muito. Queria fazer mil perguntas;
mas eu não tinha a quem. O padre e o estudante fallaram em assumptos,
que me não interessavam nada. O que eu queria era a vida, a historia, os
soffrimentos, a poesia d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, não
sei que romance, onde vira uma mulher assim...

Appareceu um taboleiro com a cêa. O abbade fez o prato de D. Amelia. Era
uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.

Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos
corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um
excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.

No fim, demos graças a Deus.

O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se á cabeceira de sua
cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.


VII.


O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava comigo
sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como dous
futuros companheiros de casa em Coimbra.

Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu
recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava signaes
de desenfado, quando naturalmente devêra querer dormir, depois de uma
fatigante jornada, em dia de neve.

Eu não era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha curiosidade a
respeito de D. Amelia.

--O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?--disse eu.

--Que é? quantas horas são?... são 10... quer dormir?

--Não, senhor: queria saber quem é esta snr.^a D. Amelia?

--É cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em * * *.

--Isso já eu sabia... pouco mais ou menos.

--Então sabe tanto como eu...

--Mas é d'aqui d'esta aldêa esta senhora? Creio que ouvi dizer que era
de Lisboa.

--É verdade... nasceu em Lisboa...

--E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como
eu, na serra, por causa da neve, e veio cá bater, e cá ficou! Pois eu
dou-lhe a minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco,
retiro-me sem mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.

O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graça, e o leitor póde
tambem rir-se, se lhe aprouver.

E acrescentou ao sorriso:

--Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui sem
ser impellida por um acaso?

--De certo... Já não admira que ella tenha tosse de tisica... O que me
espanta é ella viver, se cá está desde hontem!... Quando veio ella?

--Ha dous annos.

--Então é eterna... ou santa. Hei-de dizer que encontrei esta martyr a
uma minha tia, que é capaz de jurar que a viu fazer milagres...

--O menino é sarcastico! Se o não visse tão inclinado a rir-se de cousas
serias, contava-lhe uma historia triste...

--E eu gosto muito de historias tristes... Verá que me não rio, quando
me dizem alguma cousa que me toque o sentimento. A minha familia
chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; não sei bem o que sou; mas o
que não sou é insensivel... Vê... já não tenho vontade de gracejar...
Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra que me fez
chorar, porque é uma passagem tão infeliz, que, se eu fizesse novellas,
escrevia uma.

--Talvez as escreva no futuro...

--Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um
alarve, e o de rhetoria já me mandou ser aprendiz de alfaiate... Não
tenho habilidade nenhuma. O meu gosto é lêr os sonetos do abbade de
Jazente, e as quintilhas do Nicolau Tolentino. Não sei mais nada, nem
quero saber... Vamos á historia, sim?

--Então aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, antes de
mais nada, promette não contar a ninguem o que vou dizer-lhe?

--Pois é segredo!

--É.

--Prometto...

--Pois ahi vai.


VIII.


--Esta senhora viveu em Lisboa até aos dezeseis annos. Hoje o mais que
póde ter são vinte e dous.

--Só?! Eu calculava trinta e tantos _bons_, como diz minha tia, quando
quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella.

--Pois deixemos lá sua tia, que deve ser, pouco mais ou menos, como
todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa, senão adormeço,
e o meu curioso amigo perde a occasião de saber quem é a snr.^a D.
Amelia...

--Isso de modo nenhum--atalhei eu com sobresalto--Prometto não
interromper a historia.

--Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de
familia deliberou que a orphã viesse para a provincia, onde tinha tios,
e o seu patrimonio em quintas.

Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e disputaram
a primazia no namoro. D. Amelia não aceitava, nem repellia a côrte de
nenhum. Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma
delicadeza.

Havia alli um rapaz que não frequentava a sociedade de Amelia, porque
não frequentava sociedade nenhuma. Fôra educado em Genova, viera de lá
aos quinze annos, vivera no Porto até aos vinte e cinco, e quando
recolheu á provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua familia que
emigrára em 1828, ninguem o conhecia, e elle mesmo não queria conhecer
ninguem.

Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e não
sei que muitas outras lisonjas do charco de certos espiritos, que não
podem sahir da pequena esphera de lama, que a natureza lhes deu por
homenagem.

D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle
mandára abrir na sepultura de seu pai que o deixára em Genova no
collegio, e viera morrer em 1836 á patria: comprimentou-o de passagem,
respondendo a um distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que,
desde esse encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu
que pensar á sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e
retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou
alli o invisivel extravagante da opinião publica.

--Como se chamava elle? Eu conheço alguns rapazes de * * * que foram
meus condiscipulos em logica.

--Não é nenhum dos seus condiscipulos. Já lhe disse que este sujeito
veio do Porto para a provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O
seu appellido é Côrte-Real, conhece?

--Nada, não conheço; mas ouço fallar todos os dias n'esse rapaz.

--Que ouve dizer?

--Que está em Lisboa, doudo, no hospital...

--O senhor afiança-me isso? Ha que tempo endoudeceu?

--Ha dous ou tres mezes...

--Quem lh'o disse?

--Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos
doudos.

O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir.

--Não ouve?--disse elle.

--Ouço... é alguem que soluça...

--É ella...

--D. Amelia?

--Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica...

--É admiravel!... Pois o quarto d'ella não é longe d'este?

--Passam-se tres quartos, mas os repartimentos são de tabique, e eu não
me lembrei de tal... Calemo-nos...

--E a historia?... Falle mais baixo, que ella não ouvirá mais nada...

--Agora, é impossivel... Aquelles soluços transtornaram-me a cabeça...
Deite-se, e ámanhã fallaremos antes de nos despedirmos...


IX.


Á cabeceira do meu leito, estava um volume das _Viagens de Cyro_, e o
quinto volume d'uma _Miscellanea curiosa e proveitosa_, onde encontrei
uma longa poesia a _D. Ignez de Castro_, que me fez dormir até ás 8
horas da manhã.

O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e
escrevendo nas paginas d'uma carteira.

--O senhor está a fazer versos?--perguntei eu.

--Adevinhou.

--Faz favor de recitar, se não é segredo!

--Recito: olhe lá se entende:

    _Eras um anjo? Se o eras
    Que torvo facho do inferno
    Te queimou as azas? Diz:
    Porque, tão cedo, infeliz
    Cahes no abysmo eterno_!... ETERNO!

--Entendeu?

--Não, senhor.

--Veja se entende agora:

    _Eras pura, quando lagrimas
    Tu me déste, e me pediste...
    Tu choraste aqui, choravas...
    Mas porque? prophetisavas
    Este abysmo em que cahiste?_

--Entendeu?

--Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que
ficou suspensa?

--Não, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta casa, e que é
toda minha...

--Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a vêr se aqui arranjo
tambem alguma historia para contar a minha tia, que está resando o
quadragesimo responso a Santo Antonio por minha causa, se é que já me
não resou por alma... Então o senhor não conta ao menos a primeira
historia completa?

--Hei-de contar.

--Quando? Eu vou-me embora logo.

--Não vai. Já aqui esteve o padre, e disse que não sahiriamos d'aqui
hoje, porque augmentou de noite a neve.

--Deixal-a; mas a minha familia, se eu não appareço, nem dou parte de
mim, julga-me morto, e é capaz de me fazer officio de corpo ausente.

--Não se assuste, que o padre hontem á noite mesmo fez partir para a sua
aldêa um criado com a certeza de que o senhor ficava vivo, e mais o seu
furão.

--A proposito, sabe se já dariam de almoçar ao meu furão.

--É natural que sim... Ahi vem o snr. abbade; perguntemos-lhe... Snr.
padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o furão ja almoçou.

--Comeu quatro ovos, e está agora brincando com minha cunhada, que é
muito amiga de bichos.

--E como passou ella?--perguntou Valladares.

--Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira
chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a
com o furão no regaço, a sorrir-se como quem é muito creança e muito
feliz... Sabe o senhor que...

Não sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante. Desconfio, pela
resposta, que o resto do segredo era o receio de que ella endoudecesse.

Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de
Côrte-Real, e a tisica de Amelia.


X.


Almoçamos.

D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei que palavras a
meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, supposto que ahi se
fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. Tudo mysterios!

O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares,
tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso levita teve
a delicadeza de nos não convidar a participarmos da sua missa, que
n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos devotos.

--Ahi vai agora a continuação da historia--disse o academico, engulindo
o fumo de quatro cigarros successivos--A familia d'esta senhora é muito
realista, muito fanatica, arde em odio contra os impios, que são todos,
menos os sectarios de D. Miguel, e alguns, senão todos, de D. Sebastião.
A familia de Côrte-Real é ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle
odio saturado na emigração, e não admitte honra, intelligencia, nem
merecimento em homem que não fosse capaz de cortar as orelhas a um
miguelista, se elle estiver por isso. Já vê que as duas familias
detestam-se. De parte a parte no momento em que as relações de Amelia
com Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que não hiria!

--Então elles namoravam-se?

--Pois eu não lhe disse já que sim?

--Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes no cemiterio
para vêl-o, mas que não o via muitas vezes. Eu queria saber como se
encontraram... porque... desejo saber como é que a gente póde sahir d'um
encontro d'esses!... Não ha muito que me vi entalado com um d'esses
encontros... Eu tinha o recado na ponta da lingua, e, quando vi a
mocetona, que não era cousa de atarantar um estudante de logica,
pegou-se-me a lingua ao céo da bocca, como diz não sei que poeta... _vox
faucibus hoesit_... Que lhe disse elle quando a viu?

--Isso é que eu não sei, porque não ouvi. O que sei é que se fallavam
por cartas, e entretiveram assim relações seis mezes. Por fim,
descobre-se o namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com
Amelia: um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta fechada,
e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto abre a
porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram fóra do combate.
No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, o chapéo, e uma clavina, que
fôra tres vezes batida á queima roupa do tal varredor de feiras.

--E depois?

--D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e
conduzida a casa d'este padre.

--Para que?

--Para ninguem saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde ella
tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um convento.

--E Côrte-Real que fez?

--Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. Como o não
soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e,
pelo que o senhor me disse, está hoje no hospital de Rilhafolles.

--E Amelia casou-se?

--Pois no casamento é que está o interessante da historia.

Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmão do
padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que
sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, porque sabia os
precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a
fria delicadeza da indifferença, até ao momento, em que recebeu de uma
sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser
conduzida a Lisboa, e lá recolhida em um convento.

Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente
sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo dispensa de
banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem consultar a philosophia, a
religião, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a
liteira que devia levar a orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio
com um desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida nenhuma em hir
para Lisboa, e para um convento, mas é necessario que meu marido vá
comigo.»

--Seu marido!--exclamou o tio estupefacto.

--Meu marido... aqui lh'o apresento.


XII.


--Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico
capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido
arrependeu-se muito cedo. Ella não se arrependeu, porque sabia que dava
um passo que devia matal-a. E, com effeito, está alli... está morta...

...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa...
...........................................................................
...........................................................................


CONCLUSÃO.


Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:

--Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as
suas ultimas palavras ao marido foram estas: MORRO POR CAPRICHO.




UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.




UMA PAIXÃO BEM EMPREGADA.


I.


O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no
_Penedo da Saudade_, sentou-se, accendeu um cigarro com perfeição
academica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes,
me recitára em Alpedrinha.

--Lembras-te?--disse elle.

--Perfeitamente. Prometteste contar-me então uma historia.

--Vou cumprir a promessa.

--E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.

--Disse, e vaes vêr porque. Olha que eu não vou fazer estilo. Prepara-te
para uma narração simples, e clara. Não pertenço á escóla dos nossos
lapidarios de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as scenas
comicas de Moliere. A minha historia, se tal nome lhe cabe, é uma
tragedia com muitas scenas de farça. Ainda que me não vejas rir, tens a
liberdade da gargalhada. Ahi vai:

Em 1843 fui á feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei ahi uma
familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se d'uma
senhora idosa, que era mãi d'um cavalheiro, e este cavalheiro era pai
d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei d'ella, ou antes
confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde que a vi, pela
primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes. Não lhe disse
quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e, aos dezoito annos, um moço
d'aldêa tem o coração acanhado, e córa facilmente, quando encontra os
olhos d'uma mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A
rapariga chamava-se Miquelina; isto não faz ao caso; mas sempre te digo
que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que é o
tempo!...

Combinamos partir juntos de Villa-Real. Não recordo na minha vida um dia
mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a
dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem senão a sombra do
sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as redeas do
cavallo para esperar a avó e o pai, que vinham alguns passos distantes.

Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a
velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e
deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.

Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabeça, e uma perna quebrada.
Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos recolhessemos.
Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me
encontraste.

O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o irmão do
abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os facultativos disseram
que era impossivel continuar jornada, e ahi ficamos vinte dias.

N'este espaço de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que não
existe a realidade d'esses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta,
idealisei á sombra de Miquelina cousas e pessoas que nunca tiveram senão
materia vilissima para as aspirações do poeta. Em fim, meu caro, cheguei
a recuperar a fé perdida nas cousas da Providencia, porque me parecia
impossivel tanta felicidade sem consentimento especial da Providencia.

Disse a Miquelina tudo que humanamente póde dizer-se. Traduzi-lhe em
palavras os extasis, que as não tinham. Interessei-a na comprehensão da
minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos
labios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ella me disse «amo-o»
se não endoudeci de contentamento, é porque a disposição do meu cerebro
é invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e tu, se te
não ris, agouro-te que não poderás dizer o mesmo a respeito da tua
cabeça, passados alguns annos.

--Porque?

--Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade é
endoudecer. Viver com ella em boa paz é escarnecel-a. Ou doudo ou
cynico. Não enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que
indistinctamente voto a tudo, é a negação da piedade para todas as dôres
nobres, e a do odio para todos os prazeres infames. Não me espanta nada.
Aperto a mão do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graça.
Recebo todos os desaforos como factos consumados. Não dou dez reis pela
virtude dos missionarios do Japão, nem daria cinco de volta se elles me
trocassem a sua fé pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos
bons, ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos
de Deus, e Deus, que nos conserva, lá sabe a razão porque o faz...

--Tu não sentes o que dizes...

--Estás a brincar comigo!... Pois não sinto o que digo?! Tu não vês o
que está dentro d'este homem, nem pódes ainda ajustar á face do cadaver
a mascara que o retrate...

--Mas é possivel ser-se o que tu és?!

--Se é!... Se me não tivesses interrompido, já sabias a razão porque o
sou... Nada de interrupções... Se começo a divagar, digo diabruras,
perco-me em abstracções, que te hão-de parecer pretenciosas, e lá vai a
historia...

--Palavra, que não te interrompo...

--Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram
já suspeitas ao pai, que não se entremettia paternalmente no negocio.
Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e Miquelina não era muito mais
rica. Era possivel, e até vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este
assumpto em casa do padre, e eu fui consultado por elle.

Isto arrefeceu-me um pouco. Não queria que me viessem tão cedo direitos
ao materialismo. A pequena, porém, não tinha culpa. Eram cousas da
velha, que quebrára a perna, mas ficára com a alma inteira para seguir o
recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos, casamento, filhos,
aborrecimento, barrete de dormir, catarrho, cangalhas no nariz, e
rheumatismo.

Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do officioso
abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque não queria dar
tal passo sem o consentimento d'um tio, que fôra receber ao Brazil uma
herança, que viria augmentar consideravelmente a minha casa.

Ficamos n'isto.

Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei
Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixão não era das que
fogem quanto mais faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de
coração, ajuizada de cabeça, fina de espirito, e em quanto á cara, ao
corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as seducções eram tantas, e tão a
proposito que nunca tive occasião de me sentir de uma illusão
desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica.
Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao coração com o
enthusiasmo do primeiro abraço. Recebi da sua mão tremula, como prenda,
o lenço com que enxugára as lagrimas, e retirei-me com o coração
partido, mas vaidoso de esperanças, que a saudade me dourava no meu
lindo futuro.

Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram
vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei,
e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo o
que a minha alma podia dar de superior áquillo que todos os homens sabem
dizer n'uma carta de namoro.

Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros...
pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a primeira carta, o
coração timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que é a
felicidade do homem que primeiro os tira do coração d'uma virgem.

Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis
das suas cartas. Tristezas dôces quando me faltavam n'um correio. Zangas
sem odio, se o coração de tão longe a criminava de ingrata. Tres mezes
assim... e no fim de tres mezes... adevinha o que aconteceu...

--Eu sei cá... morreu?

--Não.

--Veio cá ter comtigo?

--Não.

--Abandonou-te?

--Abandonou.

--Isso é incrivel!

--Acredita. Agora adevinha por quem eu fui preferido.

--Eu só te conheço a ti na tua terra...

--Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura
succumbiu ás seducções invenciveis?

--Só assim.

--Ora adeus! Tu não adevinhas, porque não sabes nada de mulheres...

--Foi o pai que a forçou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...

--Tambem não...

--Diz lá isso, que estou impaciente...

--Pois lá vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu
halito lhe roçava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o
meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia
resequir-se á mingoa dos meus carinhos... sempre queres que te diga?

--Pois então?

--A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?

--Acaba, homem!

--Com um lacaio da casa!... Ólá! não fiques assim atordoado! Rite, como
eu...

--Isto é inconcebivel!... E depois?

--Depois... que queres que eu te diga?

--Que fim teve essa mulher?

--Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado
summariamente para não dar que fazer á justiça.

--E ella... vive?

--Creio que sim.

--Na companhia da familia?

--Não... Tu não me disseste que viras no Porto... Fiquemos aqui...

--Isso de modo nenhum... Has-de concluir...

--Pois sim... que importa!... Não me disseste que viste no Porto uma
meretriz que revelava uma boa educação, e não queria dizer d'onde era,
nem como viera áquella vida?...

--Disse... mas não se chamava Miquelina...

--Isso não faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina, é a mesma... é a
minha promettida esposa, é o anjo dos meus primeiros amores, é a pomba
alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha... É ella...
Basta... É noite... Vou fazer monte, e depois, se te quizeres embriagar
comigo, vamos ao _Paço do Conde_, e beberemos á saude da exc.^{ma}
Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixão pelo infeliz lacaio,
que desceu ao tumulo... das illustres victimas. Já sabes como se faz um
cynico? A esses parvos, que por ahi andam a gaguejar um scepticismo que
cheira a cueiros, dá-lhe com uma palmatoria.

E não tornou a fallar-me n'esta mulher.




DE ABYSMO EM ABYSMO.


Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade com a descosida
revelação de Valladares.

Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a Miquelina;
mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas relações estiveram
a romper-se, e reataram-se com a condição de eu nunca lhe tocar
ligeiramente em semelhante assumpto.

Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo acaso, alcancei
esclarecimentos, que illucidam a degradação da pobre mulher.

Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a sabem. Como
veio ella tão abaixo?

Foi assim:

Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina
foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver ao golpe, quiz salvar
a neta da colera do filho. Este ausentára-se para Chaves, no momento em
que a filha entrára em casa. De lá, escrevendo á mãi, dizia-lhe que
désse á infame algum destino, porque, em quanto a sua presença
envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria alli.

D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de
Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns mezes na
sua casa.

Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os seus
instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que
frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.

O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, que,
por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem chamar-se José
Maria, não era tão escasso de meios que não comprasse um creado da casa.
O creado era o intermedio da correspondencia, menos da ultima carta,
surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava José Maria a
empregar a força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo
dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de um general, cunhado
de seu tio.

O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem
conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para não
desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas praticas das theorias
um pouco irrisorias na sua idade.

Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que, _mutatis mutandis_,
professavam as idêas do irmão.

Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era um viveiro
de moral.

Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As irmãs do general
fallavam muito da virtude, e da honra. Quem as não conhecesse,
acrescentaria duas martyres ineditas ás onze mil virgens conhecidas, de
que Byron duvidou, e eu não me sinto muito propenso a acreditar, nem o
meu amigo Valladares.

O José Maria não sei que fim levou. Seria algum d'esses quatro que em
1845 se precipitaram dos «Arcos das Aguas-livres!?» Se foi, não andou
bem, porque fez as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os
_Werthers_ sabem escolher as occasiões, senão... é melhor deixarem-se
morrer de tedio, que é a morte que me espera a mim, e a ti, leitor, no
fim d'este livro, se não morreres no meio.

O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a,
abriu-lhe a outra meia porta da corrupção.

Porque foi assim que as cousas se passaram:

Miquelina affeiçoou-se ao general, como se affeiçoára a Valladares, ao
lacaio, e ao José Maria. Trazia o cunho da perdição! Era uma d'estas
desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a despeito de todos os
estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o movimento n'estas machinas,
sem coração nem cabeça? Não se sabe! A verdade é que eu sinto vontade de
chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de
blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este
mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra, e rasgo o papel...

Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina deve
merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos afianço que o amou, até ao
ciume.

Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço entrára no quarto
do general, que era ao rez da rua. Miquelina estava doente de cama.
Ergueu-se com febre, vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas
cambaleando de fraqueza, escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e
palavras obscenas.

Era noite, quando isto se passava.

As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram a procurar o
irmão. Miquelina, quando as sentiu, na incerteza do que devia
responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma rua que não conhecia,
atravessou umas poucas, chegou a uma praça onde encontrou umas mulheres
esfarrapadas que a tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas
d'uma igreja, onde um soldado lhe veio dizer palavras desconhecidas.

Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella.

O frio da noite, e a febre do coração aniquilaram-na. Sentou-se n'um
portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe com a ponta do pé, e a
desgraçada não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.

Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos. Miquelina gemeu,
abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos que a deixassem morrer. Estava
perto do hospital de S. José. Os soldados pediram soccorro ao proximo
corpo da guarda, e mandaram-na para lá.

No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos que
enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de manhã, mandou
retirar a mulher para um quarto particular, pago á sua custa.

Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de
caridade? Não. «Pois não tens uma palavra boa para explicar uma acção
nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que sois melhores
pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, com as feições
de Miquelina. As despezas da cura, além de ficarem encontradas no seu
ordenado, seriam pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao
tratamento de oito dias.

Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela enfermeira,
em cuja casa foi residir.

Desde esse dia, chamou-se Rosa.
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...........................................................................

--Que bonita rapariga é aquella que está em casa da A * * * na calçada
do Duque?

--É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas não
diz d'onde é, nem quem a trouxe alli.

--Parece bem educada!

--Parece... e não é desbocada... Não tem ainda a consciencia do seu
officio... É necessario que perverta a linguagem, se quizer
celebrisar-se...

--De quem fallam vossês?--disse um terceiro, que, na Praça do Rocio,
veio associar-se ao grupo.

--D'aquella Rosa, que tu denominaste um _cherubim precipitado_ na tua
poesia.

--E é...

--É!... pois tu sabes a vida d'ella?

--Sei...

--Contas?

--Não...

Este terceiro era Valladares.

Teve elle coragem de vêl-a face a face?

Não teve: entrou alli com uma mascara na terça feira de Entrudo.

Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de
Lisboa.

É por isso que eu a vi no Porto em 1848...
...........................................................................

O general é hoje conde. O menos torpe dos florões da sua corôa é este...
Foi _honrado e hospitaleiro_!...

Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde assim viver muitos
mais, porque já não sente no paladar o acido do cognac.

E Miquelina?

Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla medico-cirurgica do
Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores.

Já vêdes que morreu no hospital, e foi em pedaços atirada ao monturo da
santa casa, depois de se prestar, como cadaver, ás lucubrações da
anatomia.

Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porém, que vos não
dei aqui a verdade descarnada como ella é no conto melindroso, que vos
contei. Escondi-vos metade.




AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.




AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDÊA.


O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico que
não foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica n'uma aldêa
do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratorio chimico era
um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no collo por um cylindro
de lata. A sua livraria era o _Medico lusitano_, in folio; uma
Pharmacopeia, edição de 1700; e um pequeno volume intitulado--_Segredos
da natureza_. Os lotes, que eram seis, continham garrafões de barro
vidrado, atapulhados de hervas, que tinham o merecimento chronologico de
serem contemporaneas dos garrafões. Afóra isto, não sei que liquidos
verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos modos,
continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas dôces, extracto
d'amoras, solimão, e oleo de mamona.

Com tantos elementos não admirava nada que o snr. Manoel Pires fosse um
sabio, não digo consumado, mas superior á intelligencia d'alguns
cirurgiões d'aquella redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas
de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da
snr.^a Therezinha da Fonte. Este triumpho da pharmacia sobre a espinhela
elevou o snr. Pires, não direi até ás columnas do _Zacuto_, mas até onde
podiam leval-o as suas aspirações de mestre Manoel Pires, como
respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.

Um segundo triumpho veio consolidar a reputação adquirida no primeiro. A
cura d'uma _ostrução_, que eu não sei o que é, e outra d'umas
almorreimas renitentes, não deixou nada a desejar por aquelles
arredores.

O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe
cedêra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o juiz de paz, e
associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos destinos da
freguezia. E o que elles não fizessem dez leguas em redor ninguem o
faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da Pôça que o sobredito juiz
de paz se correspondia com os _governos_ de Lisboa. Não posso abonar na
sua integra a verdade do dito; mas não será sem fundamento a cousa,
attendendo á importancia d'um juiz de paz, quando se tracta de fazer um
deputado.

O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance.
Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das
bochechas cahiam-lhe em fórma de sanefas sobre os collarinhos engommados
com pós de batata.

As ventas eram dous vulcões que resfolegavam lavas de simonte; e, não
sei porque analogia estupenda, os dentes acavallados simulavam uma
Herculanum em miniatura, um destroço de pilastras e ogivas e capiteis.

Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava
quarenta conquistas das melhores raparigas da freguezia. E, honra lhe
seja feita, não deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que désse o
menor escandalo. Lá como elle fazia as cousas, e a felicidade dos seus
triumphos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus peccados,
quizer lêr uma pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.

Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dôr de _reins_ na pessoa
da tia Maria do Eiró. Não é necessario dizer que a molestia obedeceu. Na
mesma casa curou da _triz_ o tio João, e por fim talhou o _bicho_ com
perfeição e felicidade á Mariquinhas, rapariga d'uma vez, e cousa de pôr
a cara a um lado a mais de quatro _Antonys_ de sócos que lhe andavam por
lá a regougar palavras de ternura.

O leitor não saberá o que é talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo,
que não consultei o diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a
nossa ignorancia; e eu faço sinceros votos porque nos não seja preciso
nunca talhar o bicho.

O caso é que o mestre Manoel Pires fallou ao coração da rapariga, e
fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. Não sei se a moçoila
viu archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos
d'anil. O que eu sei é que a boa da rapariga achava que eram pouco os
olhos da cara para vêr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a verdade, não
era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras ao som do murmurar
saudoso do sujo regato que lhe passava á porta.

Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um _estalecidio_ que
lhe cahiu nos bofes, segundo a opinião do boticario, e a cura demorada
d'esta séria enfermidade proporcionou aos ternos amantes occasiões
ditosas de se trocarem palavrinhas de pôrem o coração em maré-cheia de
poesia chula.

O dialogo, que mais concorreu para a solução final, foi
incontestavelmente o seguinte:

Elle.--O deus Cupido fez dos olhos de vm.^{ce} duas settas, que
trespassaram o meu coração.

Ella.--E as palavras de vm.^{ce}, como o outro que diz, são palavrinhas
de mel a que não _regeste_ meu sensivel peito.

Elle.--Eu bem queria dizer a vm.^{ce} as ternuras do meu coração, e as
congeminencias do meu pensamento. Vm.^{ce} é mais bonita que Venus, e
Cupido é o deus do amor que me derrete aos pés de vm.^{ce}

Ella.--Pois se vm.^{ce} me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem
mal anda mal acaba, como o outro que diz.

Elle.--O fim para que eu fallei a vm.^{ce} só eu o sei; e a troco d'esse
negocio faz mingoa fallarmos outra vez.

Ella.--Quando vm.^{ce} quizer, e Deus o faça para bem, que lá eu
querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se
assim não é. Uma rapariga que tem seus _cretos_ não deve de perdel-os, e
vm.^{ce} bem entende as cousas que é sabio e homem de cabeça, por muitos
annos e bês.

Elle.--E vm.^{ce} que os conte. Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde
faça-se ao cedo. Se vm.^{ce} me der duas palavrinhas esta noite, ouvirá
da minha bocca as affectiveis ternuras do meu amante coração, onde o
deus Cupido cravou as mais duras settas.

Ella.--Pois se vm.^{ce} promette de ter toda áquella de... sim, dizia
eu, se vm.^{ce} promette de ter toda áquella... sim... como diz lá o
ditado...

Elle.--Pelo deus Cupido lhe prometto a vm.^{ce} de lhe não pôr a minha
mão, nem palavra lhe direi que seja escontra a honra de vm.^{ce}.

A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim
inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um amante,
é certo o triumpho. O amor é realmente o galvanismo dos estupidos,
d'esses cadaveres moraes, que se levantam do tumulo da intelligencia, e
cantam lerias n'um alamiré celeste! Não nos recordamos de ter lido em
romances francezes um dialogo tão fertil d'imagens, tão vibrante de
affectos, tão digno, em fim, de ser copiado na carteira d'estes obtusos
amadores das salas, para os quaes não ha assumpto, se lhes falharem as
reminiscencias do borda d'agua.

Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados
n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos
para a numerosa clinica que o esperava. Sem exageração, este
pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes
da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,[1] não podesse salvar o
enfermo das aggressões mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo
sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade,
quer na bocca do _estamago_, quer nos _bofes_ quer nos _miolos_! Este
homem despresava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos
outros creadores de nomes barbaros que não fazem nada á saude do
cidadão. Honra lhe seja feita!

O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de
cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam não sei que
pythonissa magica, e, por fim de contas, era um relogio, cujo involucro
suppria á farta uma bacia de semicupios.

Eram 8 horas. Na aldêa é esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as
suas meias de lã até á cintura, calçou os sapatos confidentes de mil
emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado
de amarello, e partiu.

Ás 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas,
esperando-a, com a anciedade propria da sua organisação nervosa. Maus
fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fóra de casa
o tio João do Eiró. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu
boticario, em quanto o pai não recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na
córte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se,
costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8
rejeitára sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua,
mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, não comprehendeu que o
snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces,
que por um tris o não remetteu á galeria posthuma dos pharmaceuticos
illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do
infeliz amante foi recebida com uma escaramuça de marradas, como se um
lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada,
levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alçapão, fêl-o
descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alçapão, entrava
o pai.

--Que fazes tu ahi, rapariga?--bradou elle.

Mariquinhas atrapalhou-se, e coçou a cabeça com ambas as mãos.

Deve saber-se que o tio João desconfiava que a filha, quando podia, lhe
roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para comprar, á
surrelfa, o seu cordãosinho de ouro.

Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e não ha
nada mais natural que a irritação do velho, quando apanhou a rapariga em
flagrante delicto.

--Onde está a chave d'este alçapão, rapariga? interpellou o tio João no
mesmo diapasão.

--A chave tem-na vm.^{ce}

O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave,
resmungando:

--Ora deixa-te estar, que não has-de cá tornar po'lo vêso, minha cabra
de não sei que diga!

Fechou o alçapão, e foi-se deitar.

A loja não tinha outra sahida. O boticario, por tanto, achava-se n'uma
posição falsa, diz o leitor. Elle sabia lá o que eram posições falsas! O
que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse lá
comsigo: «no chão não me deito eu.» Continuou fleugmaticamente a fazer o
seu juizo critico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz n'um
presunto. Não obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda conclusão:
«de fome não morro eu.» Mais adiante esbarrou n'uma pipa, e teve a
pachorra de lhe tocar com os nós dos dedos para vêr se estava cheia. E o
caso é que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! «Deixa
correr o mundo!...» disse elle, e estirou-se francamente sobre a caixa á
espera d'um somno regalado.

Passára-se uma hora, e o boticario, começando a pensar seriamente na sua
situação, teve momentos de Napoleão na ilha de Santa Helena! Applicou o
ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em
Dezembro não é facil aquecer o corpo no fogão do amor. Deu alguns passos
maquinaes, buscando uma sahida qualquer, e encontrou um albardão.
«Valha-nos ao menos isto,» disse elle, e pegou do albardão, collocou-o
convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.

Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.

Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, já
que não posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo
fuzil do amor, a moçoila não atinava com a maneira de pôr no olho da rua
o seu querido pharmaceutico. Inspirada pelo derradeiro esforço da sua
dôr sublime, lembrou-se de pôr em execução um plano digno de melhor
sorte.

O pai resonava profundamente, Maria, pé ante pé, entrou-lhe no quarto e
sahiu com as calças, em cujo bolso estava a chave. Judith não sahiu mais
contente da tenda de Holofernes!

Abriu o alçapão com subtileza, mas, no momento em que o levantava, os
gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um sacco de milho que lhe
emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando: «ó rapariga!»

Não se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento profundo dos
classicos, a atrapalhação da cachôpa! O tio João procurou as calças, e
não as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (_proh pudor!_) saltou
do quarto para a cozinha, já quando a filha se esgueirava, escada
abaixo, para o quinteiro.

O tio João, contra todas as leis da decencia, foi atraz de sua filha, e
filou-a pelo gasnete:

--O que hias tu fazer á loja, Maria?

--Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia á caixa do pão ou dos
feijões!

--Então a que hias tu lá, diabo?

--Assim me Deus salve, em como lhe não tirei nem um graeiro da caixa...

O tio João sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe
soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alçapão;
mas... ai d'elle!... o alçapão estava aberto, e o honrado chefe de
familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade até á loja.

Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que já não foi ouvido pelo João
do Eiró, que desmaiára.

Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido,
mas suppoz que era o cahir do alçapão. Atravessou a cozinha,
amaldiçoando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar no
desenlace d'aquella tragedia.

A tia Maria do Eiró, acordando, não achou na cama o seu velho, e sentiu
ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do intimo, tres
vezes, o seu João, e como ninguem lhe respondesse, a mulher começou a
vestir-se, enfiando responsos a Santo Antonio, de mistura com não sei
quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das suas sócas.

E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!

A tia Maria accendeu a candêa, e foi direita á cozinha, que era o ponto
convergente de todas as operações d'aquelle drama. Viu o alçapão aberto,
e não tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella
fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha lá debaixo. A pobre
mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e grita
desentoadamente «aqui d'el-rei ladrões!» A visinhança alarmou-se, e
pouco depois os 60 fogos d'aquella aldêa agglomeravam-se no quinteiro do
tio João do Eiró.

Os mais destemidos rapazes da aldêa desceram á loja, e encontraram o
pobre velho com a cabeça aberta por dous lados, e não sei quantas
costellas desmanchadas. Reinou o silencio do mysterio! Ninguem
conjecturava a causa d'aquelle estranho successo, quando um dos que
farejavam os recantos da loja, descobre um pé por debaixo d'um albardão!
Levantou-se uma gritaria infernal: até que o mais resoluto, afastando o
albardão, soltou um brado terrivel d'espanto:

--O senhor mestre Manoel Pires!

Hão-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que é
necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma sucia de
perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o boticario
produziu na chusma de valentões de fouce roçadoura, que o cercavam.

O tio João, tornando a si, foi direito ao boticario para agradecer-lhe a
promptidão com que viera cural-o. Mas a tia Maria poz tudo em pratos
límpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo,
segundo convinha em semelhante conflicto.

Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladrão, por que a sua importancia,
passado o momento da surpreza, começava a soffrer uma grande baixa na
opinião dos lavradores.

Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma
honrosa satisfação estava chegada. O pharmaceutico, superando com a sua
voz o ruido da turba conspirada, disse:

--Chamem cá a Mariquinhas que essa é que sabe do negocio como elle é.

O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, o
segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabeça do seu rival.

--Oh su alma do diabo!... exclamou elle.

Contiveram-no. O snr. João do Eiró chamou a filha. A pobre rapariga era
uma cascata de lagrimas. Veio a muito custo, cuidando que era então a
_sua fim_, como ella depois disse.

A sua apparição impoz ás multidões um respeitavel silencio.

Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o braço direito
em attitude prophetica:

--Esta rapariga é minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a troco
d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado é mal acabado. Ámanhã
se Deus quizer lêem-se os banhos, e não ha nada mais a fazer aqui!

A Mariquinhas ficou com cara de tola, e não cabia n'um sino. Os paes,
d'esses não se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da
freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu á saude da boa
companhia, e casou com grande prestito, onde não faltou o juiz de paz,
que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito
de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de
Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o
competente arroz de forno.

Já lá vão cinco annos.

Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do
verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires já este anno veio a
banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram o louvavel
desejo de o ser.

E ha-de ser, se Deus quizer.




COUSAS QUE SÓ EU SEI.




COUSAS QUE SÓ EU SEI.


I.


Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de
Fevereiro, do corrente anno[2] pelas 9 horas e meia da noite entrava no
theatro de S. João, d'esta heroica, e muito nobre e sempre leal cidade,
um dominó de setim.

Déra elle os dous primeiros passos no pavimento da platêa, quando um
outro dominó de velludo preto veio collocar-se-lhe frente a frente,
n'uma contemplação immovel.

O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e
virou-lhe as costas com indifferença natural.

O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma
attenção, com a mesma penetração de vista.

D'esta vez o dominó-setim aventurou uma pergunta n'aquelle desgracioso
falsete, que todos nós conhecemos:

--Não quer mais do que isso?

--Do _qu'isso_!...--respondeu um mascara que passava por casualidade,
esganiçando-se n'uma risada que raspava o tympano.--_Olha do
qu'isso!_... Já vejo que és pulha!...

E retirou-se repetindo--_do qu'isso... do qu'isso..._

Mas o dominó-setim não soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade
com este charivari. E o dominó-velludo nem se quer acompanhou com os
olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da
pergunta, fosse ella qual fosse.

O _setim_ (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que é
um preciosissimo cabedal) o _setim_, d'esta vez, encarou com mais alguma
reflexão o _velludo_. Conjecturou supposições fugitivas, que se
destruiam mutuamente. O _velludo_ era forçosamente uma mulher. A
pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria; a
delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva
larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciára
debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca
reunidos em um homem, captaram as serias attenções do outro, que,
incontestavelmente, era um homem.

--Quem quer que sejas, (disse o setim) não te gabo o gosto! Tomára eu
saber o que vês em mim, que tanta impressão te faz!

--Nada--respondeu o velludo.

--Então, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria,
mais eloquente que o teu silencio.

--Não te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime
de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graças salobras, capazes
de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de dominó.

O _setim_ mudou de opinião a respeito do seu perseguidor. E não admira
que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um dominó
em corpo de mulher, que passeia «sosinha» n'um theatro, permitte umas
suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisongeam a vaidade
de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe
semelhante hypothese não conhece Demosthenes, nem diz _leso-carnaval_,
nem aguça a phrase com o adjectivo _salobras_.

O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos
olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo
aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O _setim_ juraria, pelo
menos, que aquella mulher não era estupida. E, seja dito sem tenção
offensiva, já não era insignificante a descoberta, porque é mais facil
descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada. É mais facil ser
Christovão Colombo que Emilio Girardin.

O _setim_, ouvida a resposta do _velludo_, offereceu-lhe o braço, e
gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.

--Conheço (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello
dominó...

--_Bello_, me chamas tu!... É realmente uma leviandade que te não faz
honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sêda, que me faz bonita,
ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamação de terror
na presença d'um nariz... que nariz não seria, santo Deus!... Não sabes
essa historia?

--Não, meu anjo!

--_Meu anjo!_... que graça! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama não
sei, nem me importa. Imagina tu que és um poeta, phantastico como
Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso
como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que
se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa
descabellada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar
um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval.
Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo
de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creações
miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no coração mais de
gêlo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão,
não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso
anatomico, não é verdade? Pois, meu caro dominó; ha corações de toucinho
estreme. São os corações, que reçumam oleo em certas caras estupidas...
por exemplo... olha este homem redondo, que aqui está, com as palpebras
em quatro refêgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com
o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo
d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara não te parece
um grande rijão? Não crês que este baboso tenha um coração de toucinho?

--Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraçado está a gemer
debaixo do teu escalpello...

--És tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me lá!... É verdade, ahi vai a
historia do hespanhol, que tenho que fazer...

--Então queres deixar-me?

--E tu?... queres que eu te deixe?

--Palavra d'honra que não! se me deixas, retiro-me...

--És muito amavel, meu querido Carlos...

--Conheces-me?!

--Essa pergunta é ociosa. Não és tu _Carlos_!

--Já fallaste comigo na tua voz natural?

--Não; mas começo a fallar agora.

E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e
insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e
afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle não-sei-que, que só se
escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam
a gente a prestar fé aos privilegios, ás prerogativas, aos dons muito
peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos não se recordava
de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.

«Uma aventura de romance!» dizia elle lá comsigo, em quanto o
dominó-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta
companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que é de todas as
alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre
de dominó! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge
Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de
Abdel-Kader!

--Então quem sou eu?--proseguiu ella--não me dirás?... Não dizes... pois
então, tu és Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?

--Em quanto eu não souber o teu nome, deixa-me chamar-te «anjo.»

--Como quizeres; mas sinto dizer-te que não és nada original! _Anjo!_...
é um appellido tão safado como _Ferreira_, _Silva_, _Sousa_, _Costa_...
et cetera. Não vale a pena questionarmos: baptisa-me á tua vontade.
Ficarei sendo o teu «anjo de entrudo!» E a historia?... Imagina que te
possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e
insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperança, um
sorriso affectuoso através da mascara, um aperto convulsivo de mão, uma
promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa
mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais
radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias,
declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel até, e, como
tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illusões, levantando
a mascara. Tu que a não crês, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal,
que toca as extremas do ridiculo, e estás capaz de lhe dizer que te
abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella não levanta a cortina
d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do coração.
Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se
chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que,
na minha humilde opinião, são completamente fabulosos. O dominó quer
fugir-te ardilosamente, e tu não lhe deixas um passo livre, nem um dito
espirituoso a outro, nem um lançar d'olhos para os mascaras, que a fixam
como quem sabe que está alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro.
Por fim, a tua perseguição é tal, que a desconhecida Desdemona finge
assustar-se, e sahe comtigo ao salão do theatro para levantar a mascara.
Arfa-te o coração na anciedade d'uma esperança: sentes o jubilo do cego
de nascimento, que vai vêr o sol; estremeces como a creança a quem vão
dar um bonito, que ella não viu ainda, mas imagina ser quanto o seu
coração infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!...
Horror!... vês um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um
nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a
cavallo!... Recúas!... sentes despregar-se-te o coração das entranhas,
córas de vergonha, e foges desabridamente...

--Tudo isso é muito natural.

--Pois não ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o
resto, que é o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma
mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina,
meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na _Aguia
d'Ouro_ a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E
quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia
fatidico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como
a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginação
com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digestão, e sentes
contracções no estomago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme
d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não
pódes levar á bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento
d'aquelle fatal nariz á mistura. Queres transigir com o silencio do
dominó; mas não pódes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com
um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te não entorne com o
nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos?

--Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a
desgraça, porque a missão do poeta é a indulgencia não só para as
grandes affrontas, mas até para os grandes narizes.

--Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão da generosidade
para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher,
pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir
com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do
boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingança do céo!... aquella
mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa
vêr a mais formosa cara que o céo alumia ha seis mil annos! O hespanhol
quer ajoelhar áquella dulcissima visão de um sonho, mas a nobre andaluza
repelle-o com um gesto, onde o despreso está associado á dignidade mais
senhoril.


II.


Carlos scismava na applicação da anedocta, quando o dominó lhe disse,
adivinhando-lhe o pensamento:

--Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz
de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia não vai tão
longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um
nariz enorme: não é physico nem moral; é um defeito repulsivo e
repellente: é uma cousa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do
inferno, que é a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me
lembro que sou assim defeituosa!

--És um enigma!...--atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que
encontrára um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em
Portugal.

--Sou, sou!...--acudiu ella com rapidez--sou aos meus proprios olhos um
dominó, um continuado carnaval de lagrimas... Está bom! não quero
tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não
vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui,
procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que és
espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar
algumas horas de illusão. Fóra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei
sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me:
vamos ao camarote 10 da 2.^a ordem. Conheces aquella familia?

--Não.

--É uma gente da provincia. Não digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e
verás que não passas mal... É muito orgulho, não achas?

--Não acho, não, minha querida; mas eu antes queria não desperdiçar
estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas não é comigo. Sabes que
tenho ciumes de ti?

--Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo
conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que
imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma
conquista esperançosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua
vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas
fazer feliz, em quanto a enganas...

--Julgas, por tanto, que te minto!...

--Não julgo, não. Se mentes a alguem é a ti proprio: bem vês que não te
creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se não...

--Senão... o que?

--Senão... olha...

E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e
retirara-se, apertando-lhe a mão.

Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mão, com o frenesi
apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se
mataria.

--Não--exclamou elle com enthusiasmo--não me fujas, porque me levas a
esperança mais bella que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem
te conhecer!... Não levantes nunca esse véo... mas deixa-me vêr a face
da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete
annos...

--Estás dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de
palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para
sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve cançar-te, e a
tragedia desde Sophocles até nós não póde dispensar uma segunda
pessoa...

--És um prodigio...

--De litteratura grega, não é verdade? Inda sei muitas outras cousas da
Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas
com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E
serei eu o mesmo? Já vês que a litteratura não é symptoma de virtudes
dignas da tua affeição...

Tinham chegado ao camarote na 2.^a ordem. O dominó-velludo bateu, e a
porta foi, como devia ser aberta.

A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem
typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a attenção d'um
leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia
um mundo, ou cousa maior que o mundo--o coração d'um poeta.

As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo
halito abrasado dos salões. A placidez extemporanea d'uma vida agitada,
via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a
debilidade d'um sexo, que não póde acompanhar com a materia as evoluções
desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade
no frenesi d'aquellas feições! que projecção de uma sombra azulada lhe
descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a
soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.

O dominó-velludo estendeu-lhe a mão, e chamou-lhe Laura.

Seria Laura? É certo que ella estremeceu, e recuou a mão repentinamente
como se uma vibora lh'a tivesse mordido.

Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma
grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.

--Laura--repetiu o dominó--não me apertas a mão? Deixa-me ao menos
sentar-me perto... muito perto de ti... sim?

O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para
deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a
distincção pela mão.

E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a
cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria
disfarçar a sua angustia intima.

A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos,
enleado nos embaraços naturaes d'aquella situação toda para elle
enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinações d'uma mulher
que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que
pareciam familiares de Laura, não deram muita importancia aos dominós.
Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as
visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de
perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo,
e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.

Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem
uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita,
profundamente conhecedora da situação da sua victima, fallou ao ouvido
de Carlos:

--Estuda-me aquella physionomia. Eu não estou em circumstancias de ser
Max... Soffro demasiado para contar as pulsações d'este coração. Se te
sentires condoido d'esta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais
desgraçada que ella.

E voltando-se para Laura:

--Procuro, ha quatro annos, uma occasião de prestar homenagem á tua
conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra,
nem esconde á vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de
estrellas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo,
não despresarás vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depôr
a teus pés o obulo sincero da sua adoração.

Laura não levantava os olhos do leque; mas a mão, que o sustinha,
tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro
afflictivo.

E o dominó continuou:

--Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o
fructo abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu
coração de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graças á Providencia,
que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no
abysmo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao throno das
virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! És uma excepção a milhares de
desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes
de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas
da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os
olhos da razão a desgraça sentada á cabeceira do teu leito... e, com
tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que
pódes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta
mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava,
não tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas
vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder affirmativamente com um
gesto.

--Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.

Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar _Laura_,
perguntou á mulher que assim era chamada:

--Elisa, ella chama-te _Laura_?

--Não, meu pai...--respondeu Elisa, titubeando.

--Chamo Laura, chamo... e que tem lá isso, snr. visconde?--Atalhou a
incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.--É
um nome de carnaval, que passa com os dominós. Quarta feira de cinza
torna a filha de v. exc.^a a chamar-se Elisa.

O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e fallando
naturalmente:


III.


--Henriqueta...

Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O
rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta
sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia
estranho á conversação intima d'aquellas suppostas amigas, não o pôde
ser á agitação febril de sua filha.

--Que tens, Elisa?!--perguntou elle sobresaltado.

--Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...

--Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa...

--Antes para casa--respondeu Elisa.

--Eu vou mandar buscar a sege--disse o visconde; e retirou-se.

--Não vás, Elisa...--disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a
uma ameaça inexoravel.--Não vás... porque, se vaes, contarei a todo o
mundo uma historia que só tu has-de saber. Este outro dominó, que tu não
conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudencia.

--Não me martyrises!--disse Elisa.--Eu sou infeliz de mais, para ser
flagellada com a tua vingança... Tu és Henriqueta, não és?

--Que te importa a ti saber quem eu sou?!...

--Importa muito... Sei que és desgraçada!... Não sabia que vivias no
Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.

O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e
convidando a filha para dar alguns passeios no salão do theatro. Elisa
satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e
pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.

--Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio não é assim?--perguntou
Henriqueta.

--Não: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que
historia me queres tu contar?... a tua? Essa já eu sei... imagino-a...
tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse
tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas,
alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo
stygma de infortunio...

--O mesmo... não!...--atalhou Henriqueta.

--O mesmo, sim, o mesmo... e se me forças a contradizer-te, direi que
invejo a tua sorte, seja ella qual fôr...

Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo
desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas
duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razão porque eram
inimigas. A belleza impõe-se á compaixão. Elisa era bella, e Carlos era
d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle já sabia decidir-se entre
aquellas duas mulheres. A mascarada _poderia ser_, mas a outra _era_ um
anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde
o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio.

Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes não
era possivel avaliar-lhe o coração pela exterioridade da physionomia,
exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos
sonhos de dôr, em que a alma se reconcentra:

--Teu marido?

--Está em Londres.

--Ha quanto tempo o não viste?

--Ha dous annos.

--Abandonou-te?

--Abandonou-me.

--E tu?... abandonaste-o?

--Não concebo a pergunta...

--Ainda o amas?

--Ainda...

--Com paixão?

--Com delirio...

--Escreves-lhe?

--Não me responde... Despresa-me, e chama-me _Laura_.

--Elisa!--disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mão com
enthusiasmo nervoso--Elisa! perdôo-te... És bem mais desgraçada que eu,
porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um
nome... sou Henriqueta! Adeus.

Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo
d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e sahiu do
camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam
tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.

--Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não
me atraiçoes, se queres a minha amisade.

--Como hei-de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Pódes chamar-te Julia
em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo
mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu não
sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem é aquella mulher...

--Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?

--Não a conhecia...

--Então que mais queres que eu te diga?

--Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes
tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella
mulher...

--Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra...
Estás satisfeito?

--Não... Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquella
Laura?

--Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um
profundo silencio a respeito do que ouviste. Á menor pergunta que me
faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz
parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigação de te
contar a minha vida?

--Não; mas contrahiste com a minha alma a obrigação de eu me interessar
na tua vida e nos teus infortunios desde este momento.

--Obrigado, cavalheiro!--Juro-te uma sincera amisade.--Has-de ser o meu
confidente.

Estavam, outra vez, na platêa. Henriqueta aproximou-se ao quarto
camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao
peitoril do camarote, e travou conversação com a familia que o occupava.
Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um
novo enygma.

Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma analyse
rigorosa. Não era possivel, porém, fazel-a tirar a luva da mão esquerda.

--Dominó, porque não deixas vêr este annel?--Perguntava uma senhora de
olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente
enluctada.

--Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui
em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem
essa côr de esquifes, mas não sustentas o caracter artistico com
perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade?

--Não me offendas, dominó, que eu não te mereço essa injuria... A
desgraça nunca se finge...

--Disseste uma verdade, que é a tua condemnação. Eu, se tivesse sido
abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectaculo a um
baile de mascaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade
esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa d'esse
sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres
que nasceram para esta época, e para estes homens. Ha outras que a
Providencia caprichosa atirou a esta geração corrompida como os
imperadores romanos atiravam os christãos ao amphitheatro dos leões.
Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonisar com o teu
genio folgasão e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um sophá de
pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes
languidas das mulheres cançadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te
por desfastio!... És a unica mulher para quem este paiz é pequeno.
Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as
filhas do Regente, e as Heloïsas desenvoltas dos abbades, e as aias da
duqueza do Maine... et cetera. Isto por cá é pequenissimo para as
Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente
pesado em que o coração, nas suas expansões romanticas, encontra, quasi
sempre, a mão burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros...
Parece que te enfadas de mim?...

--Não te enganas, dominó... Obsequeias-me se me não deres o incommodo de
te mandar retirar.

--És muito delicada, minha nobre Sophia!... Já agora, porém, deixa-me
dar-te uma idêa mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar
das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá... Tens uma
sincera paixão, uma saudade pungente por aquelle bello capitão de
cavallaria, que te deixou, tão sosinha, com as tuas agonias de amante?

--Que te importa?...

--És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta
pergunta?... Quantos annos tens?...

--Metade e outros tantos...

--A resposta não me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a
filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a não ser
mentiroso o assento de baptismo, que se lê no cartorio da freguezia dos
Martyres em Lisboa.

Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e
cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com
delirio, um tal Sebastião de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com
frenesi um tal... como se chamava... não me recordo... diz-me, por
piedade o nome d'esse homem, que, se não, fica o meu discurso sem o
effeito do drama... Não dizes, má?... Ai!... eu tenho aqui a
mnemonica...

Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou vêr um annel... Sophia
estremeceu, e córou até ás orelhas.

--Já te recordas?... Não córes, minha querida amiga... que não fica bem
ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva...
Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu
que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres
fingir debaixo d'esse vestido negro, um coração varado de saudades e
orphão de consolações?... Adeus, minha bella hypocrita...

Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.


IV.


Eram tres horas.

Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros,
mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo
só com a presença, só com o vulto corporal, só com a semsaboria de um
remoque parvo e pretencioso. O carnaval é uma exposição annual d'estes
infelizes.

Carlos, ao vêr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto
irritára a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até
com resentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua
felicidade de algumas horas.

--Eu não me arrependo--disse elle--de ter sido a voluntaria testemunha
de teus desforços... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses
uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria... Ouvi-te,
illudi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o
escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu
coração... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu não
tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de
conhecer-te que não posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo
n'uma dôr; e será logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixão
se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo _impossivel_. Se tu
m'o não dizes, quem me dirá o teu nome?

--Não sabes que sou Henriqueta?

--Que importa? E serás tu Henriqueta?

--Sou... juro-te que sou...

--Não basta isto... Ora diz-me... não sentes a precisão de ser-me grata?

--A que, meu cavalheiro?

--Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata á delicadeza com
que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencivel
que me manda ajoelhar-te... Será nobre zombar d'um amor que
involuntariamente fizeste nascer?

--Não te illudas, Carlos--replicou Henriqueta n'um tom de seriedade,
semelhante ao de uma mãi que aconselha seu filho. O amor não é isso que
pica a tua curiosidade. As mulheres são faceis de transigir de boa fé
com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas vezes á
eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, fartos de estudarem
as paixões na sua origem, e enfadados das rapidas illusões que elles
choram todos os dias, estão promptos sempre a declararem-se affectados
da cholera-paixão, e nunca apresentam _carta-limpa_ de scepticos. De
maneira que o sexo fragil das chimeras sois vós, creancinhas de toda a
vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis
brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha,
Carlos, eu não sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas hei-de
conversar comtigo ainda. Não instes; abandona-te á minha generosidade, e
verás que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me não conhecer.
Adeus.

Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma
especie de idiotismo, quando a viu desapparecer á sahida do theatro. O
seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia lembrou-lhe que
era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até
roubar alguma revelação áquella Sophia da primeira ordem ou á Laura da
segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quaes elles poderiam
ser. Laura e Sophia, para dissiparem completamente a esperança anciosa
de Carlos, tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario
confiar n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o alvoroçado
poeta traduzia em mil versões.

Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na
noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e
escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, que lhe
transtornava o plano de vida.

Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de
poesia, e tão phantastico de conjecturas! Carlos adorava seriamente
aquella mulher! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei
eu: mas que o amor é assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos
me não deixem mentir.

Imaginem, por tanto, a inquietação d'aquelle grande espiritualista,
quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais
ligeiro indicio lhe viesse confirmar a existencia de Henriqueta! Não
direi que o desesperado amante appellou para o supremo tribunal das
paixões impossiveis. O suicidio não lhe passou nunca pela imaginação; e
muito sinto que esta verdade diminua as sympathias que o meu heroe
poderia grangear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia
sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente galhofeiros,
abominava as impertinencias de sua mãi que o consolava com anedoctas
tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, emfim, soffrera a ponto
tal, que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias a
fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança.

Diga-se, porém, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, resolvido a
partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do
_Nacional_, dissesse, por exemplo, o seguinte:

«O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para Inglaterra. S.
s.^a tenciona observar de perto a civilisação das primeiras capitaes da
Europa. O snr. Carlos d'Almeida é uma intelligencia, que, enriquecida
pela instrucção pratica da sua visita aos focos da civilisação, ha-de
voltar á sua patria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os
ramos das sciencias humanas. Fazemos votos porque s. s.^a se recolha em
breve ao seio dos seus numerosos amigos.»

Esta local bem podia ser que chegasse ás mãos de Henriqueta. Henriqueta
bem podia ser que conjecturasse o imperioso motivo, que obrigava o
infeliz a buscar distracções longe da patria, onde a sua paixão era
invencivel. E, depois, nada mais facil que uma carta, uma palavra, um
raio de esperança, que lhe transtornasse os seus planos.

Era esta a infallivel tenção de Carlos, quando ao decimo quarto dia lhe
foi entregue a seguinte carta:


V.


                                                 «Carlos.

«Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do
dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó
moral, não é assim?

«Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma
mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da
tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado
na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu,
generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ella
seja um rasgo de artista, e não um desejo espontaneo.

«Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio
que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante,
que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este
momento, parece declinar.

«Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas
eu sinto-me tão pequena para os sacrificios grandes!... Não te quero
responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos
tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta
cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, senão é graça que os mortos
hão-de erguer-se um dia.

«Queres apontamentos para um romance que terá o merito de ser portuguez?
Vou dar-t'os.

«Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazões, mas
não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia
contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que
Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e,
no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas,
com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia.

«O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que grangeara uma
instrucção, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua
paixão unica. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a
sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito
varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de sciencia.

«Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e não posso, n'esta parte,
engrinaldar-me de flôres immodestas, se bem que não me faltariam depois
espinhos que me desculpassem as vaidosas flôres...

«Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu irmão. Nossos paes não
comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites
d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos
olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da
intelligencia.

«Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e
enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só
com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a
organisação de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia
das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O
prisma das suas vistas penetrantes é bello, mas as lindas cambiantes do
seu prisma são como as côres variegadas do arco iris, que annuncia
tempestade.

«Meu irmão lia-me os segredos do coração! não é facil mentir ao talento
com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve dó de mim.

«Meu pai morreu, e minha mãi pediu á alma de meu pai que lhe alcançasse
do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um
milagre na rapida convalescença com que minha mãi sahiu d'uma
enfermidade de quatro annos.

«Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava
sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu
irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um
homem.

«Este homem chama-se Vasco de Seabra.

«Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao
campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em
escólas, e não sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me
captivaram o coração e a cabeça.

«Vasco fallava bem, e revelava cousas que me não eram novas com estilo
novo. N'aquelle homem, via-se o genio aformoseado pela arte que só na
sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que
se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo
uma verdade, sem pretenções de _bas-bleu_, que é de todas as miserias a
mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.

«Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se não retirasse.

«Disse-me meu irmão que aquelle rapaz era uma intelligencia superior,
mas depravada pelos maus costumes. A razão porque elle viera a nossa
casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmão a
respeito da remissão d'uns fóros.

«Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me,
cortejou-me, corei, e não me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o
com o coração. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia tão impensada
faz uma mulher da sua tranquillidade!

«Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que
o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a
marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre
aquelle _indifferente_ que me fazia córar e soffrer. Viu-me,
adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia,
mas fingi-me, e não lhe correspondi. Foi isto um heroismo, não é
verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o
tratar tão grosseiramente.

«Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque não ha nada mais
grato para nós que a recordação dos ultimos instantes de ventura a que
se prendem os primeiros instantes da desgraça.

«Aquellas linhas fastidiosas são a historia da minha transfiguração. Ahi
principia a longa noite da minha vida.

«Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os
perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi não vêl-o mais:
revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade ás outras
mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca
como todas as outras.

«Eu já não podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas
nupcias infelizes, que meu coração contrahira. O meu instincto não era
mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade
constante com que sempre sujeitei a minha mãi os meus innocentissimos
desejos, senti-me então, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar
contra a minha familia.

«A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indifferente
a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãi, a tal respeito, e
respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão presentiu a
necessidade de matar aquella inclinação nascente, e expoz-me um quadro
feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era
tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me offerecia em namoro.
Fui altiva com meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não
tinham contrahido a obrigação de se consultarem.

«Meu irmão soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltação,
quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle coração, desde a infancia,
identificado com as minhas vontades.

«Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse
reconcial-os ambos! Não podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando
principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com
apparencias, nem calcula os prejuizos que póde evitar com uma pouca de
impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada á correnteza, da minha
inclinação; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla, á isenção da
minha alma, não pude vencer a corrente.

«Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande
paixão que ellas exprimiam não era ainda igual á paixão que me faziam.

«Meu irmão quiz tirar-me de Lisboa, e minha mãi instava pela sahida, ou
pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das
intenções de minha familia.

«No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra
sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãi, e foi
urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! Não sei do que seria
então capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que póde
caber em forças d'uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira,
sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.

«Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a
mim a satisfação dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a
dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela
porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra
illibada. Que desgraça! n'aquelle tempo até as pompas do estilo me
seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.

«Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia é curta. Até ao
correio que vem.

                                                 _Henriqueta_.»


VI.


Carlos relêra com sofrega anciedade, a singela expansão d'uma alma que,
talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho d'um martyrio
surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que podesse
consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solidão, tornava-se como
egoista das suas dôres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais
bella flôr da sua corôa de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um
mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflicção não rastejava
pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres,
que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das
segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dôr, sem deshonrar-se
com uma publicidade esteril, interessava um coração, esposava uma
sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre
admiração! Ha mulheres vaidosas--deixem-me assim dizer--da fidalguia do
seu soffrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquella angustia
represada que só póde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta
anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a
sociedade lhes traça com o compasso inexoravel das conveniencias, essas
sim, são duas vezes anjos despenhados!

Quem podesse receber na taça de suas lagrimas algumas, que ahi se
choram, e que a opulencia material não enxuga, experimentaria
consolações d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impõe o
respeito religioso do augusto mysterio d'esta religião universal,
symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma
gota de orvalho na aridez d'algum coração, seria o sacerdote
providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida
da terra para que tamanhas agonias não fossem estereis na vida do céo.
Não ha na terra mais gloriosa missão!

Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a
consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta
mulher, dizia elle, é para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes
são os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella...
em que fará consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem póde explicar, e
mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, ás vezes, inconcebivel?
...........................................................................

No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:

«Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o
resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e
amoldaste a minha historia ás legitimas consequencias de todas as
aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e
chamaste a isto, talvez, uma deducção contida nos principios.

«Pensaste bem, amigo, a logica da desgraça é essa, e o contrario dos
teus juizos é o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a
virtude é o absurdo da logica dos factos, é a heresia da religião das
sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do
mundo. Achas-me metaphysica de mais? Não te impacientes. A dôr
refugia-se nas abstracções, e encontra melhor pabulo na Loucura de
Erasmo, que nas sisudas deducções de Montesquieu.

«Minha mãi estava reservada para uma grande provação! Amparou-a Deus
n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que não era de esperar.
Vasco de Seabra bateu ás portas de todas as igrejas de Lisboa, para me
apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas.
Eramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre
meu irmão, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a
fortuna lh'o deparasse.

«Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado,
pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, até
então, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e
partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.

«Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se,
porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as
esperanças de encontrar-me.

«Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos
quaes não faltava condição alguma das aventuras romanticas d'um rapto,
dir-t'a-hei em poucas linhas.

«O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre,
uma anarchia de sensações que, levadas ao extremo do goso, pareciam
tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as
seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo,
divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo á região
dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienação com
que a minha alma se derramava nas sensações ardentissimas d'aquelle
homem.

«No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez «que era
muito meu amigo.» O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam
electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos já os não
aqueciam n'aquelles labios! «Sinto por ti uma sincera estima.» Quando
isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que não sabe as phrases
triviaes, a paixão está morta. E estava...

«Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas,
discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente,
quando Vasco me não deixava quatro, cinco, e seis horas entregue ás
minhas innocentes recreações scientificas.

«Vasco cançara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz.
Suffoquei a indignação, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites.
Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vêas. Não houve
nunca mulher assim desgraçada!

«E vivemos assim dezoito mezes. A palavra «casamento» foi banida de
nossas curtas conversações... Vasco desquitava-se de compromissos, que
elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu
escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar ás
obscuras superstições do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de
Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. João,
na primeira ordem.

«Comecei então a pensar em minha mãi, em meu irmão, na minha honra, na
minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de
minha vida até ao momento em que me atirei á lama e salpiquei com ella a
face da minha familia.

«Peguei da penna para escrever a minha mãi. Escrevera a primeira
palavra, quando comprehendi o vexame, a degradação, e a villania com que
ousava apresentar-me áquella virtuosa senhora, com a face manchada de
nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentação, e desejei
n'aquelle instante, que minha mãi me julgasse morta.

«Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a
meu irmão. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde
do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco,
e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irmã de
Vasco.

«Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na
historia d'esta gente, que já conheceste no camarote da 2.^a ordem.

«Mas não posso agora dispor de mim... Saberás, alguma vez, a razão
porque não pude continuar esta carta.

«Adeus, até outro dia,

                                                 _Henriqueta_.»


VII.


«Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu não avalias o sacrificio
que faço. Não importa. Como não quero captivar a tua gratidão, nem,
mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para
ti, que é (medita bem) o mais que posso ser...

«A historia... não é assim? Principia agora.

«Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um tabellião de
Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar a desgraça de ser pai. O
tabellião morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos lucros de
amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao
collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, conseguiram
algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para o Rio de
Janeiro.

«Foi, e deixou entregues á Providencia a mulher e a filha.

«Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um
indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de preto, e viveu
de esmolas, pedidas á noite na _praça do Rocio_.

«A filha chamava-se Laura, e crescera bella, não obstante as angustias
da fome, que transformam a formosura do berço.

«Aos quinze annos de Laura, já sua mãi não mendigava. A deshonra
proporcionara-lhe abundancia que uma honrosa mendicidade lhe não dera.
Laura era amante d'um rico, que cumpria fielmente com a mãi as
condicionaes estipuladas na escriptura de venda da filha.

«Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha não soffria com as
vicissitudes da filha, e continuava a gosar os fins da vida á sombra de
tão fecunda arvore.

«A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que só ha deshonra
na fome e na nudez.

«Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do cavalleiro,
que mais airoso entrasse no torneio.

«Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados,
porque todos esgrimiam galhardamente.

«Desgraça foi para Laura, quando os melhores campeões se retiraram
fatigados da liça. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas,
e viram que a dama das justas já não valia a pena de perigosos botes de
lança, e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.

«Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se
ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou á sua consciencia a
baixa do preço com que corria no leilão de mulheres. A consciencia
respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambições, que viesse para
onde a chamava a logica da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um
reino de segunda ordem, já que a exauthoravam d'um throno que tivera na
primeira.

«Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na soberana,
reuniu-se uma côrte tumultuosa na ante-camara d'esta odalisca facil, e
não houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do
throno.

«Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua
legitimidade. Os cortezãos voltaram-se para o sol nascente, e
apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para alumiar os
antipodas d'um outro mundo.

«Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a
intelligencia da arte, sem o culto á formosura, sem as opulencias que o
ouro cria nas altas regiões da civilisação, e, finalmente, sem algum dos
attributos, que Laura amára tanto nos mundos, onde fôra soberana duas
vezes.

«A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; mas era
bella ainda. Sua mãi, enferma n'um hospital, pedia a Deus, como esmola,
a sua morte. A desgraçada foi punida.

«No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu que a
deitassem ao pé de si; o enfermeiro riu-se; e entrou com ella n'outra
enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas cobriam o rosto na
presença da ulcera mais esqualida, e mais lastimosa do genero humano.

«Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que cahira.

«Sua mãi recordava as fomes d'outro tempo, quando sua filha, virgem
ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao passageiro.

«As privações de então eram semelhantes, ás privações de agora, com a
differença, porém, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, não podia
já prometter o futuro da Laura de então.

«Agora, Carlos, vejamos o que é o mundo, e pasmemos diante das evoluções
gymnasticas dos acontecimentos.

«Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a attenção dos
capitalistas, a consideração do governo, e, por via de regra, desafia
inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida
para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.

«Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato
ainda, compra o titulo de visconde do Prado.

«Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da politica o
pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas,
as seguintes allusões:

«O snr. visconde do Prado adscreveu á immoralidade do governo a
immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as
costas d'Africa se os sertões contassem os horrorosos dramas da
escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.
...........................................................................

«O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre
mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem
dirá em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada
curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava
cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades
no theatro das suas infamias de esposo e de pai................

«Melhor fôra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua
mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padrão de marmore, que
possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto...

«Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido
em Lisboa. As edições do jornal espalharam-se, e leram-se, e
commentaram-se com frenetica maldade.

«Ás mãos de Laura chegou este jornal. Sua mãi, ouvindo lêl-o, delirou. A
filha cuidou que sonhava; e a situação de ambas perderia muito se eu
tentasse roubar-lhe as côres vigorosas da tua imaginação.

«No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do
Prado. O porteiro respondeu que s. exc.^a não estava ainda a pé.
Esperaram. Ás 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem,
viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mão ao bolso do collete,
e tirou doze vintens que lançava na mão de uma das duas mulheres. Olhou
admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada.

«--Que querem?--interrogou elle, com soberba indignação.

«--Quero vêr meu marido que não vejo, ha 26 annos...--respondeu Josepha.

«O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em
bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mão...

«--Pois que?...--interpellou o visconde.

«--Sou sua filha...--respondeu Laura com humildoso respeito.

«O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas á carruagem, e mandou ás
duas mulheres que o seguissem.

«O resto no correio seguinte.--Adeus, Carlos.

                                                 _Henriqueta_.»


VIII.


«Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinação. A minha
illiada está no ultimo canto. Quero dizer-te que é esta a minha
penultima carta.

«Não sou tão independente como pensava. A não serem os poetas, ninguem
gosta de contar as suas magoas ao vento. É bello dizer-se, que um gemido
nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar até ao côro dos anjos.
É bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar á avesinha gemedôra
os segredos do nosso penar. Tudo isto é delicioso d'uma puerilidade
inoffensiva; mas eu, Carlos, não tenho alma para estas cousas, nem
engenho para estes artificios.

«Vou contando as minhas penas a um homem, que não póde zombar de minhas
lagrimas, sem trahir a generosidade do seu coração, e a sensibilidade do
talento Sabes qual é o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho,
n'esta franqueza d'alma, que ninguem te póde disputar como unico em
merecêl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica
Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; não tenhas pejo em
denuncial-a; associa-te um momento á minha dôr, e dize-me o que farias
se tivesses sido Henriqueta.

«Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance
extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a...
como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.^{ma} filha D.
Laura.

«--Pois é possivel existires?--perguntava o visconde, sinceramente
admirado, a sua mulher.

«--Pois não me conheces, Antonio?--respondia ella com estupida
naturalidade.

«--Tinham-me dito que morreras...--tornou elle com desazada
hypocrisia--tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha
tinheis sido victimas da cholera-morbus...

«--Felizmente que lhe mentiram--interrompeu Laura com affectada
meiguice.--Nós é que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de
pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas.

«--Como tendes vivido?--perguntou o visconde.

«--Pobre, mas honradamente--respondeu Josepha, dando-se uns ares
austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o céo por
testemunha.

«--Ainda bem!--tornou o visconde--mas que modo de vida tem sido o vosso?

«--O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o
amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha
crueldade!... Que mal te fizemos nós?

«--Nenhum, mas não vos disse eu que vos considerava mortas?--respondeu o
visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancar duas
volumosas lagrimas, tanto a proposito.

«--O passado, passado--disse Laura, afagando carinhosamente as mãos
paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simão
Stylita.--Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido
a minha vida? Olhe, meu pai, não se envergonhe da posição social em que
encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado
incessantemente... tenho luctado com as tentações da penuria, e tenho
feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...

«--Bem, minha filha--interrompeu o visconde com sincera
contrição--esqueçamos o passado.... D'hora em diante será a abundancia a
premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu és minha
filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?

«--Não, meu pai.--Não meu Antoninho.--Responderam ambas, como se
tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.

«--Pois bem--continuou o visconde--vamos a conciliar com o mundo as
nossas posições presentes, passadas e futuras. D'hora ávante, Laura, és
minha filha, és filha do visconde do Prado, e não pódes chamar-te Laura.
Serás Elisa, comprehendes-me? é necessario que te chames Elisa...

«--Sim, meu pai... eu serei Elisa--atalhou a _innocente modista_ com
impetuosa alegria.

«--É necessario abandonar Lisboa--proseguiu o visconde.

«--Sim, sim, meu pai... vivamos num sertão... quero gosar, sosinha, na
presença de Deus a felicidade de ter pai...

«--Não hiremos para um sertão... vamos para Londres; mas...
attendam-me... é preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos,
principalmente em Lisboa... A minha posição actual é muito melindrosa.
Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram
perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto
de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e vê
que és a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educação foi desgraçadamente
mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta
sociedade. Voltaremos um dia, e terás então supprido com a educação
pratica a rudeza que indispensavelmente tens.

«Não progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi
rigorosamente cumprido.

«Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com
esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do
visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio
dizer-me que acabava de vêr, elegantemente trajada, uma mulher que
conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da
vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo
opulento, a quem tal mulher estava associada.

«Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram
Vasco de Seabra e _sua irmã_, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua
filha D. Elisa Pimentel.

«Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illusão.

«No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter
encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos
serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco não duvidou em
ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua
ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a
supposta Laura.

«Correram as cousas á medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos
convidados para tomar chá, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber
ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porém, despreveniu-me
d'este temor, afiançando-me que se tinha illudido com a semelhança das
duas mulheres.

«Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou
maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a
mulher de côrte, com os ademans fascinadores dos salões, onde a
immoralidade do coração passeia de braço dado com a illustração do
espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da
mimica, o tom sublime em que as suas idêas eram voluptuosamente lançadas
na torrente de uma conversação animada, tudo isto me fez crêr que Laura
era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada á feição do meu
espirito.

«Quando agora pergunto á minha consciencia como estas transições se
fazem, descreio da educação, lamento os annos consumidos no cultivo da
intelligencia, e chego a persuadir-me que a escóla da devassidão é a
ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graça e da
civilisação.

«Perdôa-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que só pelo
absurdo se explicam.

                                                 _Henriqueta_.»


IX.


«Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o coração de
reconhecimento. Não esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a
injustiça de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que
entorpece o espirito, e calcina o coração. E, de mais, suppunha-te
insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui um disparate, que
eu não ousaria balbuciar na presença do mundo. O que vale é que as
minhas cartas não serão lidas pelas mediocridades, que se acham em
concilio permanente para condemnar, em nome de não sei que tolas
conveniencias, as heresias do genio.

«Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu fórmo do homem
transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente
em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.

«O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo
proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento não é a
sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espirito sobre a
sciencia. O talento é a vibração convulsiva do espirito, a originalidade
inventiva e rebelde á authoridade, a viagem extatica pelas regiões
incognitas da idêa. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham
são sabedorias. Luthero, Ninon de Lenclós, Voltaire e Byron são
talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os serviços
prestados á humanidade por esses homens, e terás encontrado o
antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria.

«Porque é mau o homem de talento? Essa bella flôr porque tem no seio um
espinho envenenado? Essa esplendida taça de brilhantes e ouro porque é
que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?

«Aqui tens um thema para trabalhos superiores á cabeça d'uma mulher,
ainda mesmo reforçada por duas duzias de cabeças academicas!

«Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe
as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com
a mais profunda convicção, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os
talentos são raros, e os estupidos são muitos. Os estupidos guerream
barbaramente o talento: são os vandalos do mundo espiritual. O talento
não tem partido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um
tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do
contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingança, que,
mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra
desviado do corpo do exercito.

«Ahi tem--acrescentou elle--a razão porque o homem de talento é perigoso
na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traição. A mulher, que
lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o,
abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu
algoz, e pedindo á sociedade que grite com ella.

«Agora, diz-me tu, Carlos, até que ponto devemos acreditar este doudo.
Eu por mim não me satisfaço com o seu systema, todavia sinto-me propensa
a aperfeiçoar o prisma do doudo, até encontrar as côres inalteraveis do
juizo.

«Seja o que fôr, eu creio que és uma excepção e não soffra com isto a
tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias,
escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha
Thebaida, sem cilicios, sim?

«Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim
philosophico, moral, social, e não sei que mais por ahi se diz, que não
vale nada.

«Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. Não era ella, porém,
tão intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra não era
meu irmão. Por elle me fôra imposto, como preceito, o segredo de nossas
relações. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa
honestidade, quando a mão d'um demonio me tirou a venda dos olhos.

«Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admiração, mas acredita que
foi uma urgencia rhetorica, uma composição artistica, que me obrigou a
admirar-me, escrevendo, de cousas que me não admiram, pensando.

«Que é o que levou tão depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher,
que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe
o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha,
supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle...
Vasco amava a filha do visconde do Prado, a _Laura_ d'alguns mezes
antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de não sei quantos centos de
contos de reis.

«Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao é verdade, Carlos? Não
devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com
uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vão os ouvidos para
não ouvir-lhe o ruido... a sentença do forçado que o segue até ao fim
d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias!

«E não soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que não tem cura...
choro, porque é intensa a dôr que ella me causa... mas, olha, não tenho
lagrimas que não sejam remorsos... não tenho remorsos que não sejam
picados pela affronta que fiz a minha mãi, e a meu irmão... Não me doe o
meu proprio aviltamento, não! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo,
algum desejo, é o enthusiasmo da penitencia, é o desejo de
torturar-me...

«Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu
paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de
conseguil-o, porque não posso parar, e temo de me converter em estatua,
como a mulher de Loth, quando olho com attenção para o meu passado...

«O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco não
sei como recebeu o convite; o que eu sei é que os vinculos d'estas
relações estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se
comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas
intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliarás. Foi ella a propria
que me disse que esperava ainda poder chamar-me irmã! Isto é uma
atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dôr calam-se todas as agonias
possiveis! O insulto não podia ser mais despedaçador! O punhal não podia
entrar mais dentro no virtuoso coração da pobre amante de Vasco de
Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admiração, meu amigo! Tenho
direito á tua compaixão, se não pódes estremecer de enthusiasmo diante
do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti
fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na
garganta... horrorisei-me não sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem
uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle
idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vêem nos labios
um sorriso de imbecilidade...

«Elisa parece que recuou aterrada da expressão da minha physionomia...
Fez-me não sei que perguntas... não me lembro mesmo se aquella mulher
permaneceu diante de mim... Basta!... não posso prolongar esta
situação...

«Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe
que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram
minhas; minhas não... eram um roubo que eu fiz a minha mãi.

«Na manhã do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoço, visitava o
visconde do Prado, escrevi estas linhas:

«Vasco de Seabra não póde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de
Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma corôa de virgem, virgem do
coração, virgem na sua honra, quando abandonava um villão, que não pôde
infectar da sua infamia o coração da mulher, que arrastou ao abysmo da
sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!»

«Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui á estação dos
caminhos de ferro.

«Dous dias depois entrava n'um paquete.

«Ao vêr a minha patria, cobri o rosto com as mãos, e chorei... Era a
vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspiração do céo.
Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um
conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.

«Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. Não m'a negou. Aluguei uma
agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos,
comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu
remorso.

«Minha mãi e meu irmão vivem. Julgam-me morta, e eu peço a Deus que não
haja um indicio da minha vida. Sê-me tu fiel, meu generoso amigo, não me
denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irmãs.

«Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que
seu marido a abandonára, chamando-lhe _Laura_. Aquella está punida...

«Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa é uma pequena aventura, que
aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me
acompanhaste... Foi uma rival que não honra ninguem... uma _Laura_ com
os respeitos publicos, e as considerações que se barateiam a corpos
ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era
feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que
viste, como oblação de sacrificio que me fazia d'uma rival...

«Escreve-me.

«Has-de ouvir-me no proximo carnaval.

«Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:

«Não me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da
historia, que te contei?

                                                 _Henriqueta_.»


X.


É natural a exaltação de Carlos, depois de erguido o véo, em que se
escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do
bello, e pela poesia da desgraça, Carlos não teve nunca impressão na
vida, que mais lhe incendiasse uma paixão!

As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperança.
Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas
cartas escriptas, debaixo de uma impressão, que lhe roubava a
tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos.

Henriqueta respondera concisamente ás explosões d'um delirio, que nem
sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta não podia amar.
Arrancaram-lhe pela raiz a flôr do coração. Esterilisaram-lhe a arvore
dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos
do carinho brando, que acompanham a mulher até á sepultura.

Carlos não podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um
estalão moral para todas. Confiava no seu ascendente, em não sei que
mulheres, entre as quaes lhe não fôra penoso nunca fixar o dia do seu
triumpho.

Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O
amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel,
adquire uma nova feição, e converte-se em paixão, como as paixões
primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia.

Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No
lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos pés
d'aquella mulher, que a não poder amal-o, choraria com elle ao menos.

Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginação, quando lhe
occorreu a astuciosa lembrança de surprehender a morada de Henriqueta
surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas,
subscriptadas a Angela Michaela.

Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou
n'esta missão um vigia insuspeito.

No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.^o 628. O que
a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este
homem seguiu de longe a velha até ao campo de Santo Ovidio. Feliz das
vantagens, que lucrára em tal commissão, correu a encontrar-se com
Carlos. É ocioso descrever a precipitação com que o enamorado mancebo,
espiritualisado por algumas libras, correu á indicada casa. Em honra de
Carlos, é necessario dizer que aquellas libras representavam a
eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso
que, á vista das informações que tivera da pobreza da casa, concluiu que
não era alli a residencia de Henriqueta.

Acertou.

A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos
se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licença para dizer-lhe duas
palavras.

A velha, que não podia receiar alguma aggressão traiçoeira aos seus
virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou
ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e
pavimento de lages.

Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que
Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a á abertura da prosa, e
conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convém. A
velha, quando viu cahir no regaço duas libras, sentiu o que nunca
sentira a mais carinhosa das mães, com dous filhinhos no collo.
Luziram-lhe os olhos, e dançaram-lhe os nervos em todas as evoluções dos
seus vinte e cinco annos.

Feito isto, Carlos precisou a sua missão nos seguintes termos:

«Esse pequeno donativo, que lhe faço, ha-de ser repetido, se vm.^{ce} me
fizer um grande serviço, que póde fazer-me. Vm.^{ce} recebeu, ha pouco,
uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade está nas
minhas mãos. Estou certo que vm.^{ce} não ha-de querer occultar-me a
morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O serviço que tenho a
pedir-lhe, e a pagar-lhe bem, é este; póde fazer-m'o?

A fragil mulher, que não se sentia bastante heroina para hir de encontro
á legenda, que D. João V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com
mais algumas reflexões e denunciou o santo asylo das lagrimas de
Henriqueta, segunda vez atraiçoada por uma mulher, fragil á tentação do
ouro, que lhe roubára um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado
refugio.

Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da _rua dos Pelames_,
subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe não foi aberta.
Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapéo de
senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a
porta foi immediatamente aberta.

Henriqueta estava sem dominó na presença de Carlos.

Foi sublime esta apparição. A mulher, que Carlos viu, não saberemos nós
pintal-a. Era o original d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel
do seculo XVI fazia saltar da téla, e consagrava a Deus, denominando-as
Magdalena, Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.

O homem é fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da belleza!
Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que balbuciou
foi «perdão!»

Henriqueta não pôde receber com a firmesa, que devia suppor-se-lhe, uma
tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso
todo o corpo.

A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu,
e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos,
olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta
revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fôra violado.
Carlos invocava ao coração palavras que o salvassem d'aquella crise, que
o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.

Não nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias do leitor,
que pede contas das interjeições, e das reticencias d'um dialogo.

O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, é
que a musa das lamentações desceu á invocação de Carlos, que, por fim,
desenvolveu toda a eloquencia da paixão. Henriqueta ouviu-o com a
seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que
lhe conta os chatissismos e massudos negocios das finanças.

Sorria-se, ás vezes, e respondia com um resaibo de magoa e de
resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz
amante.

As suas ultimas palavras, essas sim, são dignas de se archivarem para
escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios de Jupiter
Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que tiveram a
desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume electrico de seus
olhos. Foram estas as suas palavras:

«Snr. Carlos! Até hoje os nossos espiritos viveram ligados por umas
nupcias, que eu pensei não perturbarem a nossa cara tranquillidade, nem
escandalisarem a caprichosa opinião publica. D'hora em diante, um
solemne divorcio entre os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui
fraca e talvez má, em prender-lhe a sua attenção n'um baile mascarado.
Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraçada do que pensa. Seja meu
amigo. Não me envenene esta santa obscuridade, este circulo estreito da
minha vida, em que a mão de Deus tem derramado algumas flôres. Se não
póde avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma
mulher, que lhe pede com as mãos erguidas o favor, a piedade de a deixar
sósinha com o segredo da sua deshonra; que eu prometto nunca mais
alargar a minha alma n'estas revelações, que morreriam comigo, se eu
podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha desgraça...»

Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dôr sincera,
lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo
do sagrado juramento de nunca mais a procurar.

Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou
anciosamente a mão de Carlos, e despediram-se....
...........................................................................
...........................................................................

E nunca mais se viram.

Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.

Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias
informações, e entrou em casa da mãi de Henriqueta. Uma senhora, vestida
de lucto, e encostada a duas creadas, veio encontral-o n'uma sala.

--Não tenho a honra de conhecer...--disse a mãi de Henriqueta.

--Sou um amigo...

--De meu filho?!...--interrompeu ella--Vem-me dar parte do triste
acontecimento?... Eu já o sei!... Meu filho é um assassino!...

E prerompeu n'um choro, que a não deixava articular palavras.

--O filho de v. exc.^a assassino!... interpellou Carlos.

--Sim... sim... pois não sabe que elle matou em Londres o seductor da
minha desgraçada filha?!... da minha filha... assassinada por elle...

--Assassinada, sim, mas só na sua honra--atalhou Carlos.

--Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus,
eu vos agradeço!...

A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos
sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltação religiosa, que quasi o
fizeram ajoelhar com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....
...........................................................................

Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu
irmão, e choravam ambos abraçados com toda a expansão d'uma dôr
represada.

Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem não
saberá descrever nunca.

Henriqueta abraçou sua mãi, e entrou n'um convento onde pede
incessantemente a Deus a salvação de Vasco de Seabra.

Carlos é o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance da sua vida
como um heroismo digno d'outras épocas.

Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz
com o seu segundo marido, digno d'ella.

Acabou o conto.




DINHEIRO! DINHEIRO!




Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um
homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle é não o
direi eu, ainda que me façam... eu sei cá!? bacharel! Eu bem sei que não
posso encarecer-me com este segredo, porque ha ahi uma boa duzia de
pessoas que o sabem, por triste experiencia, mais miudamente que eu.

Mas o que é mais bonito, e não sei mesmo se mais romantico, é que eu
conheço pelo menos quatro primas-donas, afóra as comprimarias, d'esta
partitura, que negam com toda a energia dos seus brios o importante
papel que desempenharam.

Deixal-as negar, que eu tambem não digo quem ellas são, ainda que me
deem o habito de Christo.

Outra cousa:

O muito veridico archivista dos factos, que vão lêr-se, pediu-me, por
tudo quanto ha sagrado no folhetim, que não divulgasse, nem por sombras,
o seu nome.

Não o direi nunca, ainda que me façam... barão!

E está dito tudo.

Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, começa o romance, em nome da
moralidade, do decoro e dos interesses materiaes...




DINHEIRO! DINHEIRO!


I.


Foi assim que principiou o meu illustre amigo:

--Alli onde o vês é um embryão de romances desgrenhados...

Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era
uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente não se podia
contemplar-lhe o rosto sem recuar... não de medo, mas d'um não sei que
desabrido e repulsivo. E não era feio. Eu por mim, custou-me muito a
sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos negros e
magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me áquella
petulancia d'olhar, áquelle carregado provocante da sobrancelha, e,
graças a Deus, já me não custa tanto.

Ora ahi está, sem grave impertinencia, traçado corporalmente o snr.
Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.

--Com que então (disse eu) é um embryão de romances aquelle senhor?! Bem
me parecia a mim que a vida d'aquelle homem não devia ser symetrica,
pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer lhe sei de
nada! Ando cá tão fóra das barreiras da sociedade, e dos dramas
contemporaneos... que nem ao menos sei se a mazurka está no quinto grau
da refinação, ou se as polkas cederam o terreno á restauração do minuete
da côrte... Que miseria!

--Não perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria está
escondida no manto de lentejoulas com que esta sociedade desdentada e
trôpega se encobre. E, se não, deixa-me lêr-te uma pagina da vida de
Alvaro de Sousa, e verás como se vive por lá...

Como sabes, aquelle rapaz é da plebe, e aspirou sempre a ser da
fidalguia. O homem não podia tragar esta desigualdade de gosos imposta
pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem avós, Alvaro
achava-se aos vinte annos n'este mundo sem saber o fim para que viera,
nem a fileira social em que devia perfilar-se.

--Pois não ha tantos officios?--interrompi eu.

--Essa pergunta não me parece tua! Pois tu querias sentar n'uma tripeça
um homem de intelligencia?

--Que duvida! Os sapateiros de Lisboa não tem um jornal? Alvaro de Sousa
seria um habil redactor do _jornal dos sapateiros_.

--Estás zombando!

--Palavra de honra, que não zombo! Tu sabes lá porque horisontes vai
ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a tripeça terá uma plastica e
uma esthetica! Sabes se a bota de canhão terá um bello ideal? Sabes se a
tomba e a intercospia terão uma philosophia? Sabes se as mathematicas
virão, com a sua geometria applicada á bota, regular as dimensões do
salto? Sabes se a dynamica será a ultima expressão do pino? E não achas
aqui n'este complexo de sciencias um succolento pabulo para um sapateiro
talentoso, para um sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?

--Tenho entendido que não queres a historia do homem... Façamos
treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu fechas a torneira ao
espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, que desperdiças, para
os teus folhetins. Farás rir um fidalgo de raça, embora o seu quinto avô
fizesse borzeguins para a tua quinta avó. Farás indignar o sapateiro,
teu irmão pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu irmão pela arte,
porque, em fim, eu não sei se a sociedade dispensa mais depressa os teus
folhetins que as botas...

E eu vi que o meu amigo tinha razão, e dei-lhe plena liberdade de
historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que continúa assim:

--Alvaro, á custa de muitos vexames e affrontas conseguiu relacionar-se
em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras mulheres. Eram
talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de iniciação para os
noviços que entravam no faustuoso templo das vestaes em quinta mão.

O rapaz foi mais adiante nas suas ambições.

O coração pedia-lhe alimento, o espirito pedia-lhe amor, as aspirações
anceavam-lhe um ideal, e o altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres
deviam comprehendel-o no coração, no espirito, e nas aspirações.

Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!

A primeira declaração, que balbuciou, teve em troca um sorrir de
despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, que o escaldava, por
dentro, e achou de gêlo todas aquellas mulheres. E não era isto só.
Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das declarações; e algumas
galhofeiras senhoras reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem
que, todas juntas, hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio
para que o servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. É
onde podia levar-se o insulto!

Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo sem
luz, n'um segredo de torturas, e despedaçou um a um os sentimentos
generosos com que entrára n'este mundo ingrato.

_Pobre!_ esta maldita palavra, estigma de reprovação, era o seu demonio
das vigilias e dos sonhos!

Como o supersticioso, que recua espavorido á larva imaginaria do seu
crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se elles, juizes
implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua pobresa.

Mas um coração altivo de impotente orgulho não podia transigir com estas
leis barbaras da sociedade, que amputam no coração do pobre os mais
augustos sentimentos da sua vitalidade.

Ha uma apparente reconciliação entre a affronta e a pobresa: é a
reconciliação do odio: é um pacto de vingança, sellado pelas lagrimas do
affrontado; é uma letra de usura avara de desforço, a vencer-se, sem
praso fixo, mas a vencer-se um dia.

Esta fôra a reconciliação de Alvaro de Sousa com as _generosas_ mulheres
da sua affeição.

--Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes désse parte d'essa
reconciliação...

--Riram muito. Alguem lhes disse: «Aquelle pobre rapaz, que sentia
freneticamente as suas paixões, fugiu da sociedade, e devora, na solidão
do seu quarto, um rancor profundo...--A mim:--interrompeu uma
d'ellas--Que pena! Oh Theresinha, não é uma verdadeira calamidade o odio
d'aquelle rapaz?--Ai! Maria da Luz! que triste futuro nos espera...»

E chasqueavam assim o seu _ridiculo_ inimigo, perguntando aos amigos
d'elle em que dia finalmente as hostilidades se romperiam.

Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a vingança
impossivel, nas almas fortes, está o suicidio.

--_Nas almas fortes!_ (atalhei eu com gravidade philosophica). Então não
sei eu o que são «almas fortes!» Cobardes chamo eu aquelles que
desesperam. A suprema das miserias humanas é a vingança reservada por
causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa será muito romanesco,
mas tambem é um grande tolo. Com que direito queria elle impôr-se ao
amor d'essas mulheres? «Despresaram-no porque era pobre» respondes tu. E
se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa tenha muitas
seducções? E porque não foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha
bem bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um _ideal olympico e
metaphysicamente imponderavel_ porque foi elle procurar o seu ideal nas
mulheres carnalmente vestidas de tafetás e veludos? A mulher ordinaria,
virgem na alma, sem a depravação das Aspasias que o repudiaram, não lhe
seria mais interessante pela candura, pela innocencia, e pelo angelico
scismar dos singelos devaneios? Eu não posso soffrer estes Werters
caricatos que appellam para o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos
não póde altear-se ás delicadas concepções da sua alma! Vai a vêr-se a
mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e
depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, incapaz
de conceber a generosidade, gelada para as suaves impressões d'uma
amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem o _espirito_ da franceza,
mas opulenta como ella de _materia_. Repito: porque não vão estes
impostores queimar o incenso das suas angelicas adorações aos pés d'uma
donzellinha d'olhos timidos, e faces purpurinas? Não é tão bello
surprehender o pejo da innocencia!? Não ha tanta poesia n'aquellas
lagrimas de um primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que
passa ao longe do seu Medro! Não ha ahi tantas Angelicas obscuras,
tantas Virginias, segregadas dos salões das Phryneas? Emfim, meu
sentimental historiador de paixões desgrenhadas, eu não posso sentir
comtigo as desventuras do snr. Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim,
escrevo folhetins, e minto quasi sempre para encher um espaço de papel.
Póde ser que digas alguma cousa que valha a pena de captar a attenção
d'este publico portuense, que lê constantemente, e, á falta de romances,
por não poder emendar o costume de lêr sempre, começa a mastigar
profundas lucubrações sobre a doença das vinhas.--Ora, diz lá.


II.


O meu amigo continuou:

--Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os
intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a
levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram á
alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um
outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o
terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa
e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma
lenta agonia.

--Devia ser um demonio! Cuidei que uns figurões assim eram privilegio
dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do
Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, não é verdade?

--O que tu quizeres... O caso é que eu julguei-o demente, ou, pelo
menos, desgraçado, que não sei se é menos, por toda a vida.

Agora, levanta-se o pano do segundo acto.

Uma bella manhã, sahe um homem d'um navio com quatro bahús atraz de si.
Este homem procurou a morada de um seu irmão; este irmão, que tinha
morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um
rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.

Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraçou seu
sobrinho, chorando a morte de seu irmão, que era muito semelhante com
seu sobrinho. Deu graças á Providencia por encontrar um herdeiro do seu
ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da
metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito
grande, maior que a alma universal de Platão! só comparavel á alma que
faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.

Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e
respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios
vibraram-lhe uma eloquencia nova. O coração bateu-lhe pulsações d'um
orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a
Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e
dizer: o dinheiro sou eu!

O brasileiro não era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem
regular, com sentimentos de homem não bestealisado pelo ouro.

Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e
deu-lhe as fórmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e
duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella
magica metamorphose.

E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,
menos para casar-se, porque detestava as mulheres.

Elle lá sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.

--Muito obrigado; não me despeço do favor.

--Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que não prescinde,
na riqueza, da vingança premeditada no infortunio.

Alvaro de Sousa não ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua
carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao
fogão, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de
grave sisudez, e uma plena confiança.

Na primavera, Alvaro appareceu com as flôres, e, agradavel como ellas,
grangeou amisades, que não tinha...

--Necessariamente... Olha que novidade me dás!... É melhor dizer...
_comprou amisades, que não tinha_...

--Não posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era
desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de través
irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem
rheumatismo agudo, que não consentem uma mosca no travesseiro. E a
pobresa, seja dito em proveito da pathologia, é o rheumatismo agudissimo
da humanidade...

Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.
O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as
relações dos que lhe eram muito inferiores, e até d'aquelles que
repellira na infelicidade. É realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu
não te minto.

--E as mulheres que faziam?

--As mulheres? Agora vamos nós lá... Isso é uma historia muito
complicada...

--Quaes são as que figuram?

--Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da
Luz. Esta mulher é casada, e era solteira, mas solteira de trinta e
tantos annos, quando Alvaro a requestou. Não sei porque, Maria da Luz,
era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o,
desairou-o, para todas as outras... Não sei.

Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque
a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a
captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam
muito em perigo.

O sobrinho começou a jogar com a influencia do tio. Quiz lêr-lhe o seu
programma de vingança, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e
esperou.

Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio á sala, e quiz sustentar a
dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro
ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fóra. Dava-se uns ares de
esquecido, e apertava a mão da sua victima com a cordialidade d'um bom
homem. E Maria da Luz espantou-se.

Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio
nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar
desgraçadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se
esperava, este homem é demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de
contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo já era visconde
de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento
accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra
reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas
encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que não intervinha
em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das
conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este
fragmento de _artigo do fundo_, foi despedido o marido da Luz, cujo
decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que
subira.

Maria da Luz comprehendeu a vingança, e achou-a vil.

--Realmente era...

--Mas não ha vinganças nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a
chamar pobre, fechára os seus salões, e não esperou que os alheios se
lhe fechassem. A tristeza sentára-se nos sophás d'aquellas salas
desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivão da penhora. A
desgraça, ainda assim, não lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que,
humilhando-se a Alvaro, encontraria uma protecção, mas tambem uma
ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu,
primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e
encontrou-a sempre negativa.

E Alvaro respirava com sofreguidão um momento que devia chegar.

Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingança. Thereza da Cruz
era a segunda victima de Alvaro. Esta não podia ser ferida nos
interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e
amava profundamente um homem casado.

Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, senão
posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabeça
d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do
amor-paixão. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu
amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.

E Alvaro sabia-o.

Era-lhe necessario quebrar aquellas ligações com estrondo e deshonra
para Thereza da Cruz.

O que elle fez é uma ignominia, é, porém uma vingança que medrara em fel
durante tres annos de torturas suffocadas.

Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta
a uma sua amiga.

O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua
perversa habilidade.

Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.
E não deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relações que a
prendiam a um homem, que se não nomeava.

Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,
que dizia assim:

                                                 «Minha querida amiga.

«Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdêl-a no conceito do
marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres
castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa _prostituição_?
Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou
por mim. Tira as têas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vêr
que sua mulher não é melhor que tu: porque tu és livre, e ella é casada.
Saberás o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.

                                                 Tua amiga d'alma.»

D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria
por ellas a reputação de honrada, se a tivesse.

Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com
indifferença. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que não podia
supportar, esforçou-se por chamar a conversação a respeito de mulheres
casadas, e avançou a proposição de que não havia uma na primeira roda,
que não fosse adultera. O amante protestou colericamente contra o
absoluto da proposição. Defendeu sua mulher com ares de Collatino, e
exprobrou acremente a maledicencia da insolente.

A indignação ferveu: trocaram-se epithetos ultrajantes. D. Thereza foi
uma eloquente regateira, e o seu apaixonado repetiu as phrases mais
peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, chegado o momento dramatico,
apresentou-lhe as suppostas cartas da esposa.

O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado
pelo demonio.

D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa
felicidade em sua vida!...

--E depois?


III.


--Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando
o somno de um filhinho, que tinha no berço. Perguntou-lhe o marido o que
ella fazia a pé á uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava
para lhe servir a cêa, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho,
não podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para
repousarem.

O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora
virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de
tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz
dos subterraneos do pulmão, e fallou assim, com uma carta aberta:
«Conhece esta letra, senhora?»--É minha, penso eu--respondeu ella com
promptidão.--«Já sabe naturalmente que carta é esta.»--Não sei... será
escripta á Antoninha? ou á prima Angela? eu não escrevo a mais
ninguem.--«A mais ninguem, infame!... a senhora não escreve a mais
ninguem?»--Juro que não, juro que não... deixa-me vêr essa carta, Luiz,
deixa-me vêl-a, eu t'o peço pela boa sorte da nossa filhinha.--«Veja.»

Miquelina leu estas duas linhas da carta: _Dous dias é uma ausencia
insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas
flôres_...

Não continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da
desesperação! A surpreza transtornara-lhe o espirito, até converter-lhe
o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido
retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um
motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina,
exhausta de forças, e convencida da realidade daquella infame allusão,
desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o coração. Reconheceu que
havia alli uma dôr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia dó
n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justiça de Deus,
devia triumphar.

Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na
subindo a gradação d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.

Ás dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte
carta:--«Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da
Cruz. São quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher.
Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da
Cruz pôde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra
da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua
senhora é innocente como os anjos. Pede-lhe perdão, se lhe já lançaste
em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado.
Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relações com
Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do
teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.

                                                 _Um teu amigo_.»


Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous
medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vêl-o. Mal sabia ella
que esse homem hia ajoelhar-se na sua presença! Eram tocantes as
lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras
inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova
surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena,
sem a comprehenderem.

«Peço perdão a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdão d'uma
affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situação... Na presença
de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...»--Sim, sim,--bradou
ella com enthusiasmo febril--eu perdôo-te de toda a minha alma, Luiz, de
todo o meu coração, meu esposo querido!...

Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mão que beijava, e foi feliz,
verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.

Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.

Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma
entrevista, á meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.

Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado á porta que devia
ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou
aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem
dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos vergões d'um chicote.
Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha;
mas quando a dôr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo
rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lançou a mão. Ella
reconheceu-o, e pediu que a deixasse. «Não, minha senhora,--replicou o
seu conhecido--eu não posso consentir que v. exc.^a seja assim
desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...»--Deixe-me, deixe-me...
por piedade, snr. Alvaro de Sousa!

E debatia-se entre as mãos de Alvaro como atacada de gota coral.

Aproximou-se a patrulha. Lançou mão de ambos, e perguntou a D. Thereza
se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que não, que ninguem
a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha
_amiga_, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que
fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora
morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D.
Thereza da Cruz. A patrulha não prescindiu d'estas informações
ratificadas por s. exc.^a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella
respondeu que o não dizia.

Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaçadora em que a pobre
mulher se viu! A patrulha não queria largal-a; mas Alvaro de Sousa
capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda
municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.

E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe
com a mais fleumatica placidez: «Minha querida senhora! Eu comprei com
uma libra a satisfação de pagar a v. exc.^a a menor parte d'um grande
serviço que lhe devo... Eu não pude esquecer-me nunca de que v. exc.^a
com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para
que o servinho de Deus alcançasse curar-me da hydrophobia do amor, que
me atacou... Tenha v. exc.^a uma noite feliz.»

E retirou-se. Thereza da Cruz não respondeu uma palavra.

Alvaro de Sousa estava vingado.

--Tens mentido com a mais soberana presença de espirito!--atalhei eu.

--Não minto, juro-te que não minto...

Estás muito em occasião de verificar estes factos... Deseja conseguir a
verdade, que has-de conseguil-a.[3]

E eu acreditei-o; e ámanhã acreditarei tambem que qualquer destemido
despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...

--O rigor da chronologia--proseguiu o implacavel noticiador--exige que
eu te conte agora a vingança de Maria da Luz.

A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a
fazenda: os moveis estava designado o dia de leilão em que deviam ser
vendidos.

O marido de Maria da Luz, que por nome não perca, soubera que sua mulher
ridiculisara as pretenções de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de
vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forçar
sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que
tinha fortes razões de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal
conceito de nobreza de coração, e sensibilidade d'alma que qualquer
marido, mais escrupuloso ainda, não duvidaria instar, na hora critica
d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.

Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situação em que se achavam os
negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra é menos negra
que a fome, segundo a opinião d'alguns moralistas entendidos n'estas
côres.

Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido
o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.

O cavalheiro respondeu que a obrigação onde eram estipulados doze annos
seria reformada pelo praso de duas horas......

Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no coração,
foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociação com
as condições do titulo reformado, conforme a vontade do credor.

E respondeu affirmativamente, com a sagrada condição d'um segredo
inviolavel para seu marido.

E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz,
com esta carta:

                                                 «Meu caro senhor.

«Conforme á negociação que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze
mil cruzados. Da inclusa carta da exc.^{ma} snr.^a D. Maria da Luz, verá
v. s.^a que este contracto é bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em
vantagem minha é a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade
que eu não sei se está hypothecada a v. s.^a Supposto me devessem ter
sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu não
tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transacção que possamos
ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos
ambos considerar com mais ou menos jus á mesma propriedade. E, como eu
tenha resolvido cedêl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.^a não terá
duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.

                                         De v. s.^a attento venerador

                                                 _Alvaro de Sousa_.»


--E depois?--interrompi com anciedade.

--Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...

--Não digo... palavra d'honra!

--Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da
Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente
com sua mulher.

--Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?

--Nunca mais. A consciencia diz-lhe que está vingado.

--E das outras?

--Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingança que
não póde ser romantisada por ser muito simples.

O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.

Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.

Querem saber onde tudo isto aconteceu?

Agora é que v. exc.^{as} vão ficar surprehendidas...

Foi em Pekim!

Salvei a moral publica!

Cante-se o hymno!




A CAVEIRA.




PROLOGO.


Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, é capaz de dizer que
a lua não tem habitantes, e as alfandegas ratos.

A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de
Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma
chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins,
quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da
Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas
virgens d'aquella região polar.

Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para
todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se
extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia
rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria
do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores
que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de
economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao
mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O
enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a
febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que
as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da
nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.

O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da
cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se
comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da
Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o
alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil!
(Isto era escripto em 1853...)

A mocidade é assim. A força creadora do talento ha-de supprir a
debilidade do thesouro. Onde os capitalistas não chegaram, hirá o artigo
de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a
aterrar com as forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos
periodos arredondados artisticamente.

E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas
irradiações do foco civilisador. Um dia, os povos do Marão, agrupados
nas cristas das serranias, verão lá em baixo passar o traço negro do
carril; e cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as
campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!

Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura
repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas
do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e
influir seriamente no futuro da empreza lyrica.

Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma
associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um
centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta
lerá, na vinha, de barriga ao ar, o _Tymes_, e Benjamin Constant. O
proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o
cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da
aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de
Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O
proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um
bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco
ha-de viver quem não vir tudo isto.

Será então chegado o momento solemne de pedir á provincia do norte a
historia do seu passado. Serão exploradas então as minas de poesia,
entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes
encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de castellan. O
leitor pedirá uma heroica lucta de dous infanções armados da fidalga
espada, e verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito de apaixonado
melindre.

Mas não será em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi
alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos
de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e não sei mesmo se
cubico, anomalo, e hybrido.

A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, póde ser
confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam,
ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho
direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem
n'uma sincera base.

A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o publico illustrado.
Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado _Martim de Freitas_,
obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello
da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por
um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de
asneiras este litterato, fallando de Portugal.

O publico tem direitos sagrados, e é realmente ultrajar-lh'os, querel-o
capacitar de que Mafra é um porto de mar, e Leiria uma cidade
archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidadão portuguez.

Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a viabilidade, e o
fluido transmutativo são a tripeça em que está sentada a civilisação.
Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra.




A CAVEIRA.


I.


Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos.
Chamava-se D. João de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada
de grande brazão d'armas, e não sei quantas ameias modeladas pelos
pilares das açoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade,
quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa,
vá a Villa Real, e na _rua do Cabo da Villa_, pergunte pela casa de D.
João de Noronha. Não terá de que maravilhar-se, a não ser da sisuda
gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias
interessantissimas.

Algumas palavras a respeito d'este D. João de Noronha.

O _dom_ é quasi sempre, entre portuguezes, indicação de fidalguia
remota; mas em D. João de Noronha era uma irrisão para o povo, e uma
ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razão é esta:

Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula
Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da
casa.

Este homem era desordeiro e valentão. Em rixas com um freguez por causa
d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justiça apanhou-o, e
condemnou-o a pena ultima.

D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir
salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porém, os extremos de D.
Paula pelo condemnado, e attenda-se á época em que os grandiosos
esforços d'uma fidalga são anciosamente empenhados na salvação d'um
arrastado verme da plebe.

D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro é filho bastardo de
seu irmão, e como tal o perfilha. Desde que esta adopção foi consignada
no livro dos alvarás de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha está
salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada
sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o réo a cinco annos
de degredo para Castro-Marim.

O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigestão de figos do
Algarve; e, honra lhe seja feita, á hora da morte, declarou que vivera
sapateiro e christão, e como sapateiro pedia perdão aos homens, e como
christão a Deus porque muito queria salvar-se.

Seu irmão Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque não quiz
partilhar das honras heraldicas de seu irmão, que, pelos modos, não eram
muito lisongeiras para a memoria de sua mãi.

Este ferreiro deixou um filho, chamado João, e uma fortuna avultada,
adquirida na bigorna.

João, orphão aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as
vocações ardentes do sacerdocio.

Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. João da
Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia
de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem á região dos
homens superiores em raça aos outros homens, como o onagro de Sevilha
superior em raça ao onagro de Cacilhas.

Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeçasse na
linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto
no livro dos costados a folhas 1473.

João da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou
uma certidão, hypothecou metade da sua fortuna ao fôro, e consegui-o.
Não diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que
lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado
de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres
móres do reino.

A fidalguia protestou silenciosa contra tão grave injuria. Fechou os
seus salões ao adepto insolente, que ousára assignar-se D. João de
Noronha, e mandára insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos
Noronhas, É tradição em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados
hoje por José Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita,
mandaram borrifar de sangue as armas de D. João de Noronha. Nada fez
recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os
odios ao pobre homem não se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. João,
seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as
differenças no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro.

Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creança, e
respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia.
Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava
maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, e quiz
ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expansões delirantes, as ternuras
idealissimas. Não pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu não era
homem de privar d'um capitulo precioso a _Physiologia do Casamento_ de
Balzac.

O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra
linha no mappa-mundi das minhas observações; e o meu caro D. João morreu
poucos dias depois de sua mulher, e é de crêr que, abraçados em
frenetica paixão, renascessem, viçosos e frescos como Paulo e Virginia,
em mundos novos, e novas constellações. Assim seja!

Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser
admittido ao tracto intimo de D. João de Noronha, reparei n'uma caveira,
contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de
arabescos de marfim.

Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor.
Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um véo funebre cobria
aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. Não concebi que relação
podesse existir entre aquella caveira e a paixão de Jesus Christo não
ousava, porém, interrogar-lhe o profundo mysterio.

Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e
encontrei D. João ajoelhado com austero fervor na presença da caveira.
Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu não pude recuar sem ser
conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos
meus leitores de coração petrificado chorariam, se vissem a sincera
angustia d'aquelle rosto venerando.

--Venha cá--me disse elle--que eu não tenho vergonha de chorar;
Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a
chorar como se entra na vida.

Vi-me embaraçado em responder-lhe. Eu não tinha aprendido estas palavras
artificiosas, com que fingimos um quinhão de sentimento impostor. Então
senti e chorei. Hoje... eu sei cá! faria uma nenia em prosa de muita
melodia, e citara-lhe não sei quantos velhos, que a historia diz que
choraram desde Belisario até ao abbade de Chateneuf.

--Sente-se aqui ao pé d'esta reliquia--proseguiu o consternado
ancião.--Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o
segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dôr alheia. Quero
pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu coração o mysterio, que
aqui está sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da
minha historia, respeite o meu silencio... É que não poderei... Talvez
possa... O coração... dizem que manda aos labios muito do seu fel,
quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande
desgraça... Será assim? Eu não sei... vel-o-hemos.

Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia,
onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo
para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho é um livro.
Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que,
ámanhã, talvez a pedra rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu
durmo alli o suspirado somno do infeliz...


II.


D. João de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello á mesa da
redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda
commoção:

«Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito
annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha
tenção ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou
ambições de subir na posição social. Quiz ser padre, e era-o, se
nascesse na igreja lutherana, onde o padre não soffre a cruelissima
amputação da vida da alma, em commercio com o mundo.

Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,
perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocações do sacerdocio.
Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de
desgraças, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga,
aberta no coração com um ferro em brasa.

Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso
d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,
finalmente, me fizera estupido... atraiçoou-me.

No meu tempo o amor era uma corôa de espinhos. Então apaixonava-se um
homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma
angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traição
incrivel, e não pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me
prendiam á deshonra d'um abandono injustificavel.

Ajoelhei aos pés de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubára
cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se
despresára... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixão, que
devia matal-a! Tive então dó d'aquella flôr, que se desfolhava na
madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe
que fosse minha irmã, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou
um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma protecção
que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.

Eu valia menos que Pedro de Mesquita.

Este homem era official de cavallaria. Nascêra illustre; conquistara-se
uma opinião de heroe; batera-se ardidamente como um leão nas ultimas
batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos
triumphos difficeis do amor.

E não o lisongeavam! O homem, que obrigára Martha a despresar-me, devia
ser tudo isso.

Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulações, os odios, e as
intrigas, que a sua formosura causára entre pretendentes, que não
queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.

Um dos mais poderosos era Heitor Corrêa, cadete de cavallaria e filho
segundo de uma nobre casa d'esta villa, que não tenho necessidade de
mencionar-lhe.

Não obstante Heitor Corrêa era repellido, porque Pedro de Mesquita não
tinha concessões a esperar para ser mais amado que outro qualquer.

Martha arrancára, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar
de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que tão caro
devia ser-lhe. E era.

Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam á porfia um
ensejo em que podessem travar as espadas. Corrêa confiava demasiado em
si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.

O momento ambicionado chegou.

Era quinta feira santa.

Martha assistia ao officio da paixão na igreja de S. Francisco.

Heitor Corrêa antecipára-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha.
Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beiço
inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; não a deixaram as
multidões espessas. Heitor Corrêa comprehendeu-a, e indignou-se. Era
muito despreso para a altivez do seu caracter.

Terminára o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas
turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam sós, e
immoveis, na nave da igreja.

Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e
rapidas palavras, e desembainharam os fains.

Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor
chammejava a colera, a vingança, o capricho, e por ventura o desejo de
matar, ou morrer.

Esta scena passava-se na presença de mil pessoas. As beatas benziam-se
horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaçarem o
forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era
indubitavel, e perigosa.

Perigosa, não; porque o valente era generoso. Heitor não tinha já um
botão na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a
defesa, se sentiu ferido ligeiramente no braço esquerdo.

A scena tornou-se cruel! O orgulhoso não podia conciliar com aquelle
sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu
banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o
assassino. Mesquita esperou com bravura! Não houve mão que lhe tocasse.


III.


Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e
esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido n'um
braço, afastou-lhe os botes, com admiravel presença de espirito.

O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal,
redobrava de escandalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que
reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não
era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como
razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento,
quando dous homens se cortavam a ferro frio.

As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de
captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não
houve desgraçadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.

Heitor Corrêa, exhausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos
da cirurgia não estancára, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes
de cavallaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se n'uma botica,
affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na
rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de «morra!» Os que assim
gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por
tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatára, em quinta
feira santa, a solemnidade da paixão de Christo. Como elles saciavam a
sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no
milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante
historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em
Roma, como em Constantinopla.

Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava á janella quando viu entrar seu
irmão nos braços de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o
facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o
acontecimento.

Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes,
sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo
d'este capote, levava um bacamarte.

Quando chegou á entrada da _rua do Jogo da Bolla_, viu um grupo de povo,
que parecia vedar a sahida d'uma botica. Lá dentro estava Pedro de
Mesquita, a quem faltára a coragem para affrontar a força bruta da
populaça.

Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante
d'aquelle homem, que alli estava ameaçado das iras da plebe, tigre
desenfreado da licença, n'aquelles dias de escravidão, logo que um acaso
lhe alargasse um pouco as algemas.

Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se
todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.»

E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.

--Assassino... não!...--respondeu o alferes.--Fui eu quem o feri, e
honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.

Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos
avós robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, não
comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou é um
acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo
atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o, á queima roupa, no peito.

Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de
meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de
arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da
janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos
tormentos possiveis n'esta vida.

Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira,
alentado pela coragem da minha dôr, as escadas d'aquella casa, e
levantára da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de
mim... não vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem
atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da
_Misericordia_, orava, talvez, á Virgem protectora das virgens...

Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as
turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelára os
poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe
que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!

O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance
d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz.
Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.

Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado n'uma possante mula, e
seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em _Almodena_, caminho
de Lisboa. E, para que esta circumstancia me não esqueça, dir-lhe-hei
que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus
pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvará de real mercê que o
isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.

O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que
passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do
assassino, que zombára da lei.

Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos
dobraram por alma de Pedro de Mesquita.


IV.


É necessario fallarmos de Martha... É a luz unica d'este quadro negro...
Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroismo de
virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e
apaixonadas pelo sublime do martyrio.

Por ventura, póde o senhor comprehender a situação d'um homem, que tem
desmaiada nos braços aquella por quem fôra atraiçoado...? Não é bastante
comprehender isto: é necessario compenetrar-se mais da minha situação...

Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo
indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram
a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival...
Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha
situação?... Não comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle
trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que
dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha não
fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este
phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignação... Quem
sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por
muito favor, concedera-me a celebridade do

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