A Illustre Casa de Ramires
by Eça de Queirós · Portuguese · Gutenberg #23145 · 664,924 chars · public domain (US)
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Title: A Illustre Casa de Ramires
Author: Eça de Queirós
Release date: October 22, 2007 [eBook #23145]
Most recently updated: February 26, 2018
Language: Portuguese
Original publication: Porto: Livraria Chardron De Lello & Irmão, editores, 1900
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/23145
Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
Eça de Queiroz
A Illustre Casa de Ramires
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900
Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
da mesma Lei.
* * * * *
_Porto_--_Imprensa Moderna_
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
Obras do mesmo auctor:
*Revista de Portugal*. 4 grossos volumes 12$000
*As Minas de Salomão*, 1 volume 600
*Os Maias*. 2 grossos volumes 2$000
*O Crime do Padre Amaro*. Terceira edição
inteiramente refundida, recomposta, e
differente na fórma e na acção da edição
primitiva, 1 grosso volume 1$200
*O Primo Bazilio*. Terceira edição, 1 grosso
volume. 1$000
*A Reliquia*, 1 grosso volume 1$000
*O Mandarim*. Quarta edição, 1 volume 500
*Correspondencia de Fradique Mendes*, 1 volume 600
No prelo:
*A Cidade e as Serras.*
A ILLUSTRE CASA DE RAMIRES
I
Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de Junho,
o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho envergada
sobre a camisa de chita côr de rosa, trabalhava. Gonçalo Mendes Ramires
(que n'aquella sua velha aldêa de Santa Ireneia, e na villa visinha, a
aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos
conheciam pelo «Fidalgo da Torre») trabalhava n'uma Novella Historica,
_A Torre de D. Ramires_, destinada ao primeiro numero dos *Annaes de
Litteratura e de Historia*, Revista nova, fundada por José Lucio
Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenaculo
Patriotico, em casa das Severinas.
A livraria, clara e larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de
pau preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de
carneira, grossos folios de convento e de fôro, respirava para o pomar
por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra almofadados de
velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela
madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa varanda, na
claridade forte, pousava a mesa--mesa immensa de pés torneados, coberta
com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada n'essa tarde
pelos rijos volumes da _Historia Genealogica_, todo o _Vocabulario_ de
Bluteau, tomos soltos do _Panorama_, e ao canto, em pilha, as obras de
Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos amarellos. E d'ahi, da
sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo deante das tiras
de papel almaço, roçando pela testa a rama da penna de pato, avistava
sempre a inspiradora da sua Novella,--a Torre, a antiquissima Torre,
quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com
uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de
ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no azul de Junho, robusta
sobrevivencia do Paço acastellado, da fallada Honra de Santa Ireneia,
solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o
morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e antigo fidalgo de
Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam traçar a sua
ascendencia, por linha varonil e sempre pura, até aos vagos Senhores que
entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada quando os barões
francos desceram, com pendão e caldeira, na hoste do Borguinhão. E os
Ramires entroncavam limpidamente a sua casa, por linha pura e sempre
varonil, no filho do Conde Nuno Mendes, aquelle agigantado Ordonho
Mendes, senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, que casou em 967 com Dona
Elduara, Condessa de Carrion, filha de Bermudo o _Gottoso_, Rei de Leão.
Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como
elle, crescera e se afamára o Solar de Santa Ireneia--resistente como
elle ás fortunas e aos tempos. E depois, em cada lance forte da Historia
de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou grandiosamente pelo
heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um dos mais esforçados
da linhagem, Lourenço, por alcunha o _Cortador_, collaço de Affonso
Henriques (com quem na mesma noite, para receber a pranchada de
cavalleiro, vellára as armas na Sé de Zamora), apparece logo na batalha
d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo sobre finas nuvens d'ouro,
pregado n'uma cruz de dez covados. No cerco de Tavira, Martim Ramires,
freire de San-Thiago, arromba a golpes de acha um postigo da Couraça,
rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as duas mãos, e surde na
quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar sangue,
bradando alegremente ao Mestre:--«D. Payo Peres, Tavira é nossa! Real,
Real por Portugal!» O velho Egas Ramires, fechado na sua Torre, com a
levadiça erguida, as barbacans erriçadas de frecheiros, nega acolhida a
El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que corriam o Norte em folgares e
caçadas--para que a presença da _adultera_ não macule a pureza extreme
do seu solar! Em Aljubarrota, Diogo Ramires o _Trovador_ desbarata um
troço de bésteiros, mata o Adiantado-mór de Galliza, e por elle, não por
outro, cahe derribado o pendão real de Castella, em que ao fim da lide
seu irmão d'armas, D. Antão d'Almada, se embrulhou para o levar,
dançando e cantando, ao Mestre d'Aviz. Sob os muros d'Arzilla combatem
magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu neto Fernão, e deante
do cadaver do velho, trespassado por quatro virotes, estirado no pateo
da Alcaçova ao lado do corpo do Conde de Marialva--Affonso V arma
juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Fernão Ramires, murmurando
entre lagrimas: «Deus vos queira tão bons como esses que ahi jazem!...»
Mas eis que Portugal se faz aos mares! E raras são então as armadas e os
combates de Oriente em que se não esforce um Ramires--ficando na lenda
tragico-maritima aquelle nobre capitão do Golpho Persico, Balthazar
Ramires, que, no naufragio da _Santa Barbara_, reveste a sua pesada
armadura, e no castello de prôa, hirto, se afunda em silencio com a náu
que se afunda, encostado á sua grande espada. Em Alcacer-Kebir, onde
dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram morte soberba, o mais
novo, Paulo Ramires, pagem do Guião, nem lezo nem ferido, mas não
querendo mais vida pois que El-Rei não vivia, colhe um ginete solto,
apanha uma acha d'armas, e gritando:--«Vai-te, alma, que já tardas,
servir a de teu senhor!»--entra na chusma mourisca e para sempre
desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e caçam nas
suas terras. Reapparecendo com os Braganças, um Ramires, Vicente,
Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D. João IV, mette a
Castella, destroça os Hespanhoes do Conde, de Venavente, e toma
Fuente-Guiñal, a cujo furioso saque preside da varanda d'um Convento de
Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de melancia. Já,
porém, como a nação, degenera a nobre raça... Alvaro Ramires, valido de
D. Pedro II, brigão façanhudo, atordôa Lisboa com arruaças, furta a
mulher d'um Védor da Fazenda que mandára matar a pauladas por pretos,
incendeia em Sevilha depois de perder cem dobrões uma casa de tavolagem,
e termina por commandar uma urca de piratas na frota de Murad o
_Maltrapilho_. No reinado do Sr. D. João V Nuno Ramires brilha na Côrte,
ferra as suas mulas de prata, e arruina a casa celebrando sumptuosas
festes de Egreja, em que canta no côro vestido com o habito de Irmão
Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires, Christovam, Presidente da Mesa
de Consciencia e Ordem, alcovita os amores d'el-rei D. José I com a
filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e Feitor-mór das
Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela sua obesidade, a sua
chalaça, as suas proezas de glutão no Paço da Bemposta com o arcebispo
de Thessalonica. Ignacio Ramires acompanha D. João VI ao Brazil como
Reposteiro-Mór, negoceia em negros, volta com um bahú carregado de peças
d'ouro que lhe rouba um administrador, antigo frade capuchinho, e morre
no seu solar da cornada de um boi. O avô de Gonçalo, Damião, doutor
liberal dado ás Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello, compõe as
empoladas proclamações do Partido, funda um jornal, o _Anti-Frade_, e
depois das Guerras Civis arrasta uma existencia rheumatica em Santa
Ireneia, embrulhado no seu capotão de briche, traduzindo para vernaculo,
com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de Valerius Flaccus. O
pae de Gonçalo, ora Regenerador, ora Historico, vivia em Lisboa no Hotel
Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco Hypothecario e
pelo lagedo da Arcada, até que um Ministro do Reino, cuja concubina,
corista de S. Carlos, elle fascinára, o nomeou, (para o afastar da
Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo, esse, era bacharel
formado com um R no terceiro anno.
E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonçalo Mendes Ramires.
Um seu companheiro de casa, José Lucio Castanheiro, algarvio muito
magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem Simão Craveiro
chamava o «Castanheiro Patriotinheiro», fundára um Semanario, a
*Patria*--«com o alevantado intento (affirmava sonoramente o Prospecto)
de despertar, não só na mocidade Academica, mas em todo o paiz, do cabo
Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor tão arrefecido das bellezas, das
grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado por essa idéa, «a sua
Idéa», sentindo n'ella uma carreira, quasi uma missão, Castanheiro
incessantemente, com ardor teimoso de Apostolo, clamava pelos botequins
da Sophia, pelos claustros da Universidade, pelos quartos dos amigos
entre a fumaça dos cigarros,--«a necessidade, caramba, de reatar a
tradição! de desatulhar, caramba, Portugal da alluvião do
estrangeirismo!»--Como o Semanario appareceu regularmente durante tres
Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de griphos e citações
sobre as _Capellas da Batalha_, a _Tomada d'Ormuz_, a _Embaixada de
Tristão da Cunha_, começou logo a ser considerado uma aurora, ainda
pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E alguns bons espiritos da
Academia, sobretudo os companheiros de casa do Castanheiro, os tres que
se occupavam das cousas do saber e da intelligencia (porque dos tres
restantes um era homem de cacete e forças, o outro guitarrista, e o
outro «premiado»), passaram, aquecidos por aquella chamma patriotica, a
esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos nunca d'antes visitados
de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara, proezas e lendas--«só
portuguezas, só nossas (como supplicava o Castanheiro), que refizessem á
nação abatida uma consciencia da sua heroicidade!» Assim crescia o
Cenaculo Patriotico da casa das Severinas. E foi então que Gonçalo
Mendes Ramires, moço muito affavel, esvelto e loiro, d'uma brancura sã
de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que facilmente se
enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos
sapatos--apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do almoço, onze
tiras de papel intituladas _D. Guiomar_. N'ellas se contava a velhissima
historia da castellã, que, emquanto longe nas guerras do Ultra-mar o
castellão barbudo e cingido de ferro atira a acha-d'armas ás portas de
Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os braços nús, por noite de
Maio e de lua, o pagem de annellados cabellos... Depois ruge o inverno,
o castellão volta, mais barbudo, com um bordão de romeiro. Pelo villico
do Castello, homem espreitador e de amargos sorrisos, conhece a traição,
a macula no seu nome tão puro, honrado em todas as Hespanhas! E ai do
pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados. Já no patim da
Alcaçova o verdugo, de capuz escarlate, espera, encostado ao machado,
entre dous cepos cobertos de pannos de dó... E no final choroso da _D.
Guiomar_, como em todas essas historias do Romanceiro d'Amor, tambem
brotavam rente ás duas sepulturas, escavadas no êrmo, duas roseiras
brancas a que o vento enlaçava os aromas e as rosas. De sorte que (como
notou José Lucio Castanheiro, coçando pensativamente o queixo) não
resaltava n'esta _D. Guiomar_ nada que fosse «só portuguez, só nosso,
abrolhando do sólo e da raça!» Mas esses amores lamentosos passavam n'um
solar de Riba-Côa: os nomes dos cavalleiros, Remarigues, Ordonho,
Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada tira
resoavam bravamente os genuinos: «_Bofé!... Mentes pela gorja!...
Pagem, o meu murzello!_...»: e através de toda esta vernaculidade
circulava uma sufficiente turba de cavallariços com saios alvadios,
beguinos sumidos na sombra das cugulas, ovençaes sopezando fartas bolsas
de couro, uchões espostejando nedios lombos de cêrdo... A Novella
portanto marcava um salutar retrocesso ao sentimento nacional.
--E depois (accrescentava o Castanheiro) este velhaco do Gonçalinho
surde com um estylo terso, masculo, de boa côr archaica... D'optima côr
archaica! Lembra até o _Bobo_, o _Monge de Cister_!... A Guiomar,
realmente, é uma castellã vaga, da Bretanha ou da Aquitania. Mas no
villico, mesmo no castellão, já transparecem portuguezes, bons
portuguezes de fibra e d'alma, d'entre Douro e Cavado... Sim senhor!
Quando o Gonçalinho se enfronhar dentro do nosso passado, das nossas
chronicas, temos emfim nas Lettras um homem que sente bem o torrão,
sente bem a raça!
_D. Guiomar_ encheu tres paginas da *Patria*. N'esse Domingo, para
celebrar a sua entrada na Litteratura, Gonçalo Mendes Ramires pagou aos
camaradas do Cenaculo e a outros amigos uma ceia--onde foi acclamado,
logo depois do frango com ervilhas, quando os moços do Camolino,
esbaforidos, renovavam as garrafas de Collares, como «o nosso Walter
Scott!» Elle, de resto, annunciára já com simplicidade um Romance em
dois volumes, fundado nos annaes da sua Casa, n'um rude feito de sublime
orgulho de Tructesindo Mendes Ramires, o amigo e Alferes-mór de D.
Sancho I. Por temperamento, por aquelle saber especial de trajes e
alfaias que revelára na _D. Guiomar_, até pela antiguidade da sua
linhagem, Gonçalinho parecia gloriosamente votado a restaurar em
Portugal o Romance Historico. Possuia uma missão--e começou logo a
passear pela Calçada, pensativo, com o gorro sobre os olhos, como quem
anda reconstruindo um mundo. No acto d'esse anno levou o R.
Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno já não refervia na rua da
Mathematica o Cenaculo ardente dos Patriotas. O Castanheiro, formado,
vegetava em Villa Real de Santo Antonio: com elle desapparecera a
*Patria*: e os moços zelosos que na Bibliotheca esquadrinhavam as
Chronicas de Fernam Lopes e de Azurara, desamparados por aquelle
Apostolo que os levantava, recahiram nos romances de Georges Ohnet e
retomaram á noite o taco nos bilhares da Sophia. Gonçalo voltava tambem
mudado, de luto pelo pae que morrera em Agosto, com a barba crescida,
sempre affavel e suave, porém mais grave, averso a ceias e a noites
errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de gravata
branca, um velho creado de Santa Ireneia, o Bento:--e os seus
companheiros preferidos foram tres ou quatro rapazes que se preparavam
para a Politica, folheavam attentamente o _Diario das Camaras_,
conheciam alguns enredos da Côrte, proclamavam a necessidade d'uma
«Orientação positiva» e d'um «largo fomento rural», consideravam como
leviandade reles e jacobina a irreverencia da Academia pelos Dogmas, e,
mesmo passeando ao luar no Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam
com ardor sobre os dous Chefes de Partido--o Braz Victorino, o homem
novo dos Regeneradores, e o velho Barão de S. Fulgencio, chefe classico
dos Historicos. Inclinado para os Regeneradores, por que a Regeneração
lhe representava tradicionalmente idéas de conservantismo, de elegancia
culta e de generosidade, Gonçalo frequentou então o Centro Regenerador
da Couraça, onde aconselhava á noite, tomando chá preto, «o
fortalecimento da auctoridade da Corôa», e «uma forte expansão
colonial!» Depois, logo na Primavera, desmanchou alegremente esta
gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em
bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras. Mas não alludio
mais ao seu grande Romance em dous volumes: e ou recuára ou se esquecera
da sua missão d'Arte Historica. Realmente só na Paschoa do Quinto-Anno
retomou a penna--para lançar, na *Gazeta do Porto*, contra um seu
patricio, o Dr. André Cavalleiro, que o Ministerio do S. Fulgencio
nomeára Governador civil de Oliveira, duas correspondencias muito
acerbas, d'um rancor intenso e pessoal, (a ponto de chasquear «a feroz
bigodeira negra de S. Ex.^a»). Assignara Juvenal, como outr'ora o pae,
quando publicava communicados politicos d'Oliveira n'essa mesma *Gazeta
do Porto*, jornal amigo, onde um Villar Mendes, seu remoto parente,
redigia a _Revista Estrangeira_. Mas lêra aos amigos no Centro--«os dous
botes decisivos que atirariam o Sr. Cavalleiro abaixo do seu Cavallo!» E
um d'esses moços serios, sobrinho do Bispo de Oliveira, não disfarçou o
seu assombro:
--Oh Gonçalo, eu sempre pensei que você e o Cavalleiro eram intimos! Se
bem me lembro quando você chegou a Coimbra, para os Preparatorios, viveu
na casa do Cavalleiro, na rua de S. João... Pois não ha uma amizade
tradicional, quasi historica, entre Ramires e Cavalleiros?... Eu pouco
conheço Oliveira, nunca andei para os vossos sitios; mas até creio que
Corinde, a quinta do Cavalleiro, pega com Santa Ireneia!
E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para declarar
seccamente que Corinde não pegava com Santa Ireneia: que entre as duas
terras corria muito justificadamente a ribeira do _Coice_: e que o Sr.
André Cavalleiro, e sobre tudo Cavallo, era um animal detestavel que
pastava na outra margem!--O sobrinho do Bispo saudou e exclamou:
--Sim senhor, boa piada!
Um anno depois da Formatura, Gonçalo foi a Lisboa por causa da hypotheca
da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo fôro annual de dez
réis e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga, andava empecendo
terrivelmente nos Conselhos do Banco Hypothecario;--e tambem para
conhecer mais estreitamente o seu Chefe, o Braz Victorino, mostrar
lealdade e submissão partidaria, colher algum fino conselho de conducta
Politica. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marqueza de
Louredo, a «tia Louredo», que morava a Santa Clara, esbarrou no Rocio
com José Lucio Castanheiro; então empregado no Ministerio da Fazenda, na
repartição dos Proprios Nacionaes. Mais defecado, mais macilento, com
uns oculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo, como
em Coimbra, na chamma da sua Idéa--«a resurreição do sentimento
portuguez!» E agora, alargando a proporções condignas da Capital o plano
da *Patria*, labutava devoradoramente na creação d'uma Revista quinzenal
de setenta paginas, com capa azul, os *Annaes de Litteratura e de
Historia*. Era uma noite de Maio, macia e quente. E, passeando ambos em
torno das fontes seccas do Rocio, Castanheiro, que sobraçava um rolo de
papel e um gordo folio encadernado em bezerro, depois de recordar as
cavaqueiras geniaes da rua da Misericordia, de maldizer a falta de
intellectualidade de Villa Real de Santo Antonio--voltou soffregamente á
sua Idéa, e supplicou a Gonçalo Mendes Ramires que lhe cedesse para os
*Annaes* esse Romance que elle annunciára em Coimbra, sobre o seu
avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I.
Gonçalo, rindo, confessou que ainda não começára essa grande obra!
--Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros oculos sobre
elle, duros e desconsolados. Então você não persistio?... Não permaneceu
fiel á Idéa?...
Encolheu os hombros, resignadamente, já acostumado, atravez da sua
missão, a estes desfallecimentos do Patriotismo. Nem consentio que
Gonçalo, humilhado perante aquella Fé que se mantivera tão pura e
servidôra--alludisse, como desculpa, ao inventario laborioso da Casa,
depois da morte do papá...
--Bem, bem! Acabou! _Proscratinare luzitanum est_. Trabalha agora no
verão... Para Portuguezes, menino, o verão é o tempo das bellas fortunas
e dos rijos feitos. No verão nasce Nun'Alvares no Bomjardim! No verão se
vence em Aljubarrota! No verão chega o Gama á India!... E no verão vae o
nosso Gonçalo escrever uma novellasinha sublime!... De resto os *Annaes*
só apparecem em Dezembro, caracteristicamente no Primeiro de Dezembro. E
você em tres mezes resuscita um mundo. Serio, Gonçalo Mendes!... É um
dever, um santo dever, sobretudo para os novos, collaborar nos *Annaes*.
Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional! Nós estamos
immundamente morrendo do mal de não ser Portuguezes!
Parou--ondeou o braço magro, como a correia d'um latego, n'um gesto que
açoutava o Rocio, a Cidade, toda a Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o
segredo d'esta borracheira sinistra? É que, dos Portuguezes, os peores
despresavam a Patria--e os melhores ignoravam a Patria. O remedio?...
Revelar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amiguinho! Organizar, com
estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o conheçam--ao menos
como se conhece o Xarope Peitoral de James, hein? E que todos o
adoptem--ao menos como se adoptou o sabão do Congo, hein? E conhecido,
adoptado, que todos o amem emfim, nos seus heróes, nos seus feitos,
mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e até nas veras
pedrinhas das suas calçadas! Para esse fim, o maior a emprehender n'este
apagado seculo da nossa Historia, fundava elle os *Annaes*. Para berrar!
Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com a noticia
inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que outr'ora fizeram
o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado piedoso de o refazer...
Como? Reatando a tradição, caramba!
--Assim, vocês! Por essa historia de Portugal fóra, vocês são uma
enfiada de Ramires de toda a belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu
n'uma ceia de Natal dois leitões!... É apenas uma barriga. Mas que
barriga! Ha n'ella uma pujança heroica que prova raça, a raça mais forte
_do que promette a força humana_, como diz Camões. Dois leitões,
caramba! Até enternece!... E os outros Ramires, o de Silves, o de
Aljubarrota, os de Arzilla, os da India! E os cinco valentes, de quem
você talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem, resuscitar
estes varões, e mostrar n'elles a alma façanhuda, o querer sublime que
nada verga, é uma soberba lição aos novos... Tonifica, caramba! Pela
consciencia que renova de termos sido tão grandes sacode este chocho
consentimento nosso em permanecermos pequenos! É o que eu chamo reatar a
tradição... E depois feito por você proprio, Ramires, que _chic_!
Caramba, que _chic_! É um fidalgo, o maior fidalgo de Portugal, que,
para mostrar a heroicidade da Patria, abre simplesmente, sem sahir do
seu solar, os archivos da sua Casa, velha de mais de mil annos. É de
rachar!... E você não precisa fazer um grosso romance... Nem um romance
muito desenvolvido está na indole militante da Revista. Basta um conto,
de vinte ou trinta paginas... Está claro, os *Annaes* por ora não podem
pagar. Tambem, você não precisa! E que diabo! não se trata de pecunia,
mas d'uma grande renovação social... E depois, menino, a litteratura
leva a tudo em Portugal. Eu sei que o Gonçalo em Coimbra, ultimamente,
frequentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim em folhetim,
se chega a S. Bento! A penna agora, como a espada outr'ora, edifica
reinos... Pense você n'isto! E adeus! que ainda hoje tenho de copiar,
para lettra christã, este estudo do Henriques sobre Ceylão... Você não
conhece o Henriques?... Não conhece. Ninguem conhece. Pois quando na
Europa, n'essas grandes Academias da Europa, ha uma duvida sobre a
Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para cá, para o Henriques!
Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo--e Gonçalo ainda o avistou,
na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o braço esguio
d'Apostolo deante d'um sujeito obeso, de vasto collete branco, que
recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso
charuto e da doce noite de Maio.
O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, ruminando a
idéa do Patriota. Tudo n'ella o seduzia--e lhe convinha: a sua
collaboração n'uma Revista consideravel, de setenta paginas, em
companhia de Escriptores doutos, lentes das Escolas, antigos Ministros,
até Conselheiros d'Estado: a antiguidade da sua raça, mais antiga que o
Reino, popularisada por uma historia d'heroica belleza, em que com tanto
fulgor resaltavam a bravura e a soberba d'alma dos Ramires; e emfim a
seriedade academica do seu espirito, o seu nobre gosto pelas
investigações eruditas, apparecendo no momento em que tentava a carreira
do Parlamento e da Politica!... E o trabalho, a composição moral dos
vetustos Ramires, a resurreição archeologica do viver Affonsino, as cem
tiras de almaço a atulhar de prosa forte--não o assustavam... Não!
porque felizmente já possuia a «sua obra»--e cortada em bom panno,
alinhavada com linha habil. Seu tio Duarte, irmão de sua mãe (uma
senhora de Guimarães, da casa das Balsas), nos seus annos de ociosidade
e imaginação, de 1845 a 1850, entre a sua carta de Bacharel e o seu
Alvará de Delegado, fôra poeta--e publicára no *Bardo*, semanario de
Guimarães, um Poemeto em verso solto, o _Castello de Santa Ireneia_, que
assignára com duas iniciaes D.B. esse castello era o seu, o Paço
antiquissimo de que restava a negra torre entre os limoeiros da horta. E
o Poemeto cantava, com romantico garbo, um lance de altivez feudal em
que se sublimára Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I, durante
as contendas de Affonso II e das senhoras Infantas. Esse volume do
*Bardo*, encadernado em marroquim, com o brazão dos Ramires, o açor
negro em campo escarlate, ficára no Archivo da Casa como um trecho da
Chronica heroica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno Gonçalo
recitára, ensinados pela mamã, os primeiros versos do Poema, de tão
harmoniosa melancolia:
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo Mendes
Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da *Patria* e das ceias
o acclamavam «o nosso Walter Scott», compôr um Romance moderno, d'um
realismo épico, em dous robustos volumes, formando um estudo ricamente
colorido da Meia-Edade Portugueza... E agora lhe servia, e com deliciosa
facilidade, para essa Novella curta e sobria, de trinta paginas, que
convinha aos *Annaes*.
No seu quarto do Bragança abrio a varanda. E debruçado, acabando o
charuto, na dormente suavidade da noite de Maio, ante a magestade
silenciosa do rio e da lua, pensava regaladamente que nem teria a
canceira d'esmiuçar as chronicas e os folios massudos... Com effeito!
toda a reconstruccão Historica a realisára, e solidamente, com um saber
destro, o tio Duarte. O Paço acastellado de Santa Ireneia, com as fundas
carcovas, a torre albarran, a alcaçova, a masmorra, o pharol e o balsão:
o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de cabellos e barbas
ancestraes derramados sobre a loriga de malha; os servos mouriscos, de
surrões de couro, cavando os regueiros da horta; os oblatos resmungando
á lareira as _Vidas dos Santos_; os pagens jogando no campo do
tavolado--tudo resurgia, com veridico realce, no Poemeto do tio Duarte!
Ainda recordava mesmo certos lances: o truão açoutado; o festim e os
uchões que arrombavam as cubas de cerveja; a jornada de Violante Ramires
para o Mosteiro de Lorvão...
Junto à fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgada pára...
O enrêdo todo com a sua paixão de grandeza barbara, os recontros bravios
em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heroico fallar
despedido de labios de ferro--lá estavam nos versos do titi, sonoros e
bem balançados...
Monge, escuta! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluira,
Se jámais um bastardo lhe pisasse,
Com sapato aviltado, as lages puras!
Na realidade só lhe restava transpôr as formas fluidas do Romantismo de
1846 para a sua prosa tersa e mascula (como confessava o Castanheiro),
de optima côr archaica, lembrando o _Bobo_. E era um plagio? Não! A
quem, com mais seguro direito do que a elle, Ramires, pertencia a
memoria dos Ramires historicos? A resurreição do velho Portugal, tão
bella no _Castello de Santa Ireneia_, não era obra individual do tio
Duarte--mas dos Herculanos, dos Rebellos, das Academias, da erudição
esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o
*Bardo*, delgado semanario que perpassára, durante cinco mezes, ha
cincoenta annos, n'uma villa de Provincia?...! Não hesitou mais,
seduzido. E em quanto se despia, depois de beber aos goles um copo
d'agua com bicarbonato de soda, já martellava a primeira linha do conto,
á maneira lapidaria da _Salammbô_:--«Era nos Paços de Santa Ireneia, por
uma noite d'inverno, na sala alta da Alcaçova...»
Ao outro dia, procurou José Lucio Castanheiro na repartição dos Proprios
Nacionaes, á pressa,--por que, depois d'uma conferencia no Banco
Hypothecario, ainda promettera acompanhar as primas Chellas a uma
Exposição de Bordados na livraria Gomes. E annunciou ao Patriota que,
positivamente, lhe assegurava para o primeiro numero dos *Annaes* a
Novella, a que já decidira o titulo--a _Torre de D. Ramires_:
--Que lhe parece?
Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magrissimos braços, resguardados
pelas mangas d'alpaca, até á abobada do esguio corredor em que o
recebera:
--Sublime!... _A Torre de D. Ramires_!... O grande feito de Tructesindo
Mendes Ramires contado por Gonçalo Mendes Ramires!... E tudo na mesma
Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos annos
depois, na mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito! Caramba, menino,
carambissima! isso é que é reatar a tradição!
* * * * *
Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia, Gonçalo mandou um creado
da quinta, com uma carroça, a Oliveira, a casa de seu cunhado José
Barrôlo, casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer da rica livraria
classica que o Barrôlo herdára do tio Deão da Sé todos os volumes da
_Historia Genealogica_--«e (accrescentava n'uma carta) todos os
cartapacios que por lá encontrares com o titulo de «Chronicas do Rei
Fulano...» Depois, do pó das suas estantes, desenterrou as obras de
Walter Scott, volumes desirmanados do _Panorama_, a _Historia_ de
Herculano, o _Bobo_, o _Monge de Cistér_. E assim abastecido, com uma
farta rêsma de tiras d'almaço sobre a banca, começou a repassar o
Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda a transpôr para a aspereza d'uma
manhã de Dezembro, como mais congenere com a rudeza feudal dos seus
avós, aquella lusida cavalgada de donas, monges e homens d'armas que o
tio Duarte estendera, atravez d'uma suave melancolia outomnal, pelas
veigas do Mondêgo...
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Mas, como era então Junho e a lua crescia, Gonçalo determinou por fim
aproveitar as sensações de calor, luar e arvoredos, que lhe fornecia a
aldeia--para levantar, logo á entrada da sua Novella, o negro e immenso
Paço de Santa Ireneia, no silencio d'uma noite d'Agosto, sob o
resplendor da lua cheia.
E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo *Bardo*, duas tiras,
quando uma desavença com o seu caseiro, o Manoel Relho, que amanhava a
quinta por oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na fresca e
noviça inspiração do seu trabalho, o Fidalgo da Torre. Desde o Natal o
Relho, que durante annos de compostura e ordem se emborrachava sempre
aos domingos com alegria e com pachorra, começára a tomar, tres e quatro
vezes por semana, bebedeiras desabridas, escandalosas, em que espancava
a mulher, atroava a quinta de berros, e saltava para a estrada,
esguedelhado, de varapáu, desafiando a quieta aldeia. Por fim, uma noite
em que Gonçalo, á banca, depois do chá, laboriosamente escavava os
fossos do Paço de Santa Ireneia--de repente a Rosa cozinheira rompeu a
gritar «Aqui d'El-rei contra o Relho!» E, atravez dos seus brados e dos
latidos dos cães, uma pedra, depois outra, bateram na varanda veneravel
da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes Ramires pensou no revólver... Mas
justamente n'essa tarde o creado, o Bento, descêra aquella sua velha e
unica arma á cozinha para a desenferrujar e arear! Então, atarantado,
correu ao quarto, que fechou á chave, empurrando contra a porta a
commoda com tão desesperada anciedade que frascos de crystal, um cofre
de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e se partiram. Depois gritos e
latidos findaram no pateo--mas Gonçalo não se arredou n'essa noite
d'aquelle refugio bem defendido, fumando cigarros, ruminando um furor
sentimental contra o Relho, a quem tanto perdoára, sempre tão
affavelmente tratára, e que apedrejava as vidraças da Torre! Cêdo, de
manhã convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula, mostrou no braço as
marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo arrendamento findava em
Outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a arca e o catre.
Immediatamente appareceu um lavrador dos Bravaes, o José Casco,
respeitado em toda a freguezia pela sua seriedade e força espantosa,
propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo Mendes Ramires porém, já
desde a morte do pae, decidira elevar a renda a novecentos e cincoenta
mil réis:--e o Casco desceu as escadas, de cabeça descahida. Voltou logo
ao outro dia, repercorreu miudamente toda a quinta, esfarellou a terra
entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega, contou as oliveiras e
as cêpas: e n'um esforço, em que lhe arfaram todas as costellas,
offereceu novecentos e dez mil réis! Gonçalo não cedia, certo da sua
equidade. O José Casco voltou ainda com a mulher; depois, n'um domingo,
com a mulher e um compadre,--e era um coçar lento do queixo rapado, umas
voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas
dentro da tulha, que tornavam aquella manhã de Junho intoleravelmente
longa ao Fidalgo, sentado n'um banco de pedra do jardim, debaixo d'uma
mimosa, com a *Gazeta do Porto*. Quando o Casco, pallido, lhe veio
offerecer novecentos e trinta mil réis--Gonçalo Mendes Ramires
arremessou o jornal, declarou que ia elle, por sua conta, amanhar a
propriedade, mostrar o que era um torrão rico, tratado pelo saber
moderno, com phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes, então,
arrancou um fundo suspiro, acceitou os novecentos e cincoenta mil reis.
Á maneira antiga o Fidalgo apertou a mão ao lavrador--que entrou na
cozinha a enxugar um largo copo de vinho, esponjando na testa, nas
cordoveias rijas do pescoço, o suor anciado que o alagava.
Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de Gonçalo
estancou--não foi mais que um fio arrastado e turvo. Quando n'essa tarde
se accomodou á banca, para contar a sala d'armas do Paço de Santa
Ireneia por uma noite de lua--só conseguiu converter servilmente n'uma
prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem relêvo que os
modernisasse, désse magestade senhorial ou bellesa saudosa áquelles
macissos muros onde o luar, deslisando atravez das rexas, salpicava
scentelhas pelas pontas das lanças altas, e pela cimeira dos morriões...
E desde as quatro horas, no calor e silencio do domingo de Junho,
labutava, empurrando a penna como lento arado em chão pedregoso,
riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante e molle, ora
n'um reboliço, a sacudir e reenfiar sob a mesa os chinellos de
marroquim, ora immovel e abandonado á esterilidade que o travava, com os
olhos esquecidos na Torre, na sua difficillima Torre, negra entre os
limoeiros e o azul, toda envolta no piar e esvoaçar das andorinhas.
Por fim, descorçoado, arrojou a penna que tão desastrosamente emperrára.
E fechando na gavêta, com uma pancada, o volume precioso do *Bardo*:
--Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois aquelle
animal do Casco, toda a manhã!...
Ainda releu, coçando sombriamente a nuca, a derradeira linha rabiscada e
suja:
--«...Na sala altaneira e larga, onde os largos e pallidos raios da
lua...» Larga, largos!... E os pallidos raios, os eternos _pallidos
raios_!... Tambem este maldito castello, tão complicado!... E este D.
Tructesindo, que eu não apanho, tão antigo!... Emfim, um horror!
Atirou, n'um repellão, a cadeira de couro; cravou, com furor, um charuto
nos dentes;--e abalou da livraria, batendo desesperadamente a porta,
n'um tedio immenso da sua obra, d'aquelles confusos e enredados Paços de
Santa Ireneia, e dos seus avós, enormes, resoantes, chapeados de ferro,
e mais vagos que fumos.
II
Bocejando, apertando os cordões das largas pantalonas de seda que lhe
escorregavam da cinta, Gonçalo, que durante todo o dia preguiçára,
estirado no divan de damasco azul, com uma vaga dôr nos rins, atravessou
languidamente o quarto para espreitar, no corredor, o antigo relogio de
charão. Cinco horas e meia!... Para desannuviar, pensou n'uma caminhada
pela fresca estrada dos Bravaes. Depois n'uma visita (devida já desde a
Paschoa!) ao velho Sanches Lucena, eleito novamente deputado, nas
Eleições Geraes de Abril, pelo circulo de Villa Clara. Mas a jornada á
_Feitosa_, á quinta do Sanches Lucena, demandava uma hora a cavallo,
desagradavel com aquella teimosa dôr nos rins que o filára na vespera á
noite, depois do chá, na Assembleia da Villa. E, indeciso, arrastava os
passos no corredor, para gritar ao Bento ou á Rosa que lhe subissem uma
limonada, quando, atravez das varandas abertas, resoou um vozeirão de
grosso metal, que gracejando mais se engrossava, rolava pelo pateo,
n'uma cadencia cava de malho malhando:
--Oh sô Gonçalo! Oh sô Gonçalão! Oh sô Gonçalissimo Mendes Ramires!...
Reconheceu logo o _Titó_, o Antonio Villalobos, seu vago parente, e seu
companheiro de Villa Clara, onde aquelle homenzarrão excellente, de
velha raça Alemtejana, se estabelecera sem motivo, só por affeição
bucolica á villa. E havia onze annos que a atulhava com os seus
possantes membros, o lento rebombo do seu vozeirão, e a sua ociosidade
espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das lojas, pelos
balcões das tabernas, pelas sachristias a caturrar com os padres, até
pelo cemiterio a philosophar com o coveiro. Era um irmão do velho
morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe estabelecêra uma mesada
de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe--e do seu sujo
serralho de moças do campo, e da obra tenebrosa a que agora se
atrellára, a _Veridica Inquirição_, uma Inquirição sobre as bastardias,
crimes e titulos illegitimos das familias fidalgas de Portugal. E
Gonçalo, desde estudante, amára sempre aquelle Hercules bonacheirão, que
o seduzia pela prodigiosa força, a incomparavel potencia em beber todo
um pipo e em comer todo um anho, e sobretudo pela independencia, uma
suprema independencia, que, apoiada ao bengalão terrifico e com as suas
oito moedas dentro da algibeira, nada temia e nada desejava nem da Terra
nem do Céo.--Logo debruçado na varanda, gritou:
--Oh Titó, sóbe!... Sóbe emquanto eu me visto. Tomas um calice de
genebra... Vamos depois passear até aos Bravaes...
Sentado no rebordo do tanque redondo e sem agua que ornava o pateo,
erguendo para o casarão a sua franca e larga face requeimada, cheia de
barba ruiva, o Titó movia lentamente como um leque um velho chapéo de
palha:
--Não posso... Ouve lá! Tu queres hoje á noite cear no Gago, commigo e
com o João Gouveia? Vae tambem o Videirinha e o violão. Temos uma tainha
assada, uma famosa. E enorme, que eu comprei esta manhã a uma mulher da
Costa por cinco tostões. Assada pelo Gago!... Entendido, hein? O Gago
abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu conheço o vinho. É
d'aqui, da ponta fina.
E Titó, com dous dedos, delicadamente, sacudio a ponta molle da orelha.
Mas Gonçalo, repuxando as pantalonas, hesitava:
--Homem, eu ando com o estomago arrazado... E desde hontem á noite uma
dôr nos rins, ou no figado, ou no baço, não sei bem, n'uma d'essas
entranhas!... Até hoje, para o jantar, só caldo de gallinha e gallinha
cosida... Emfim! vá! Mas, á cautela, recommenda ao Gago que me prepare
para mim um franguinho assado... Onde nos encontramos? Na Assembléa?
O Titó despegára logo do tanque, pousando na nuca o chapéo de palha:
--Hoje não me gasto pela Assembléa. Tenho senhora. Das dez para as dez e
meia, no Chafariz... Vae tambem o Videirinha com a viola. Viva!... Das
dez para as dez e meia! Entendido... E franguinho assado para S. Ex.^a,
que se queixa do rim!
E atravessou o pateo, com lentidão bovina, parando a colher n'uma
roseira, junto ao portão, uma rosa com que florio a quinzena de
velludilho côr d'azeitona.
Immediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo dos beneficios
d'aquelle jejum até ás dez horas, depois de um passeio pelos Bravaes e
pelo valle da Riosa. E, antes de entrar no quarto para se vestir,
empurrou a porta envidraçada sobre a escura escada da cozinha, gritou
pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento por quem tambem
berrou furiosamente, responderam, no pesado silencio em que jaziam, como
abandonados, esses sombrios fundos de grande lage e de grande abobada
que restavam do antigo Palacio, restaurado por Vicente Ramires depois da
sua campanha em Castella, incendiado no tempo de El-Rei D. José I. Então
Gonçalo desceu dous degráos da gasta escadaria de pedra e atirou outro
dos longos brados com que atroava a Torre--desde que as campainhas
andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a cozinha quando a
Rosa acudio. Sahira para o pateo da horta com a filha da Crispola! não
sentira o Snr. Doutor!...
--Pois estou a berrar ha uma hora! E nem você nem Bento!... É por que
não janto. Vou cear a Villa Clara com os amigos.
A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr.
Doutor ficava assim em jejum até horas da noite?--Filha d'um antigo
hortelão da Torre, crescida na Torre, já cozinheira da Torre quando
Gonçalo nascêra, sempre o tratára por «menino», e mesmo por «seu
riquinho» até que elle partio para Coimbra e começou a ser, para ella e
para o Bento, o «Sr. Doutor».--E o Sr. Doutor, ao menos, devia tomar o
caldinho de gallinha, que apurára desde o meio dia, cheirava que nem
feito no céo!
Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento, consentio--e já
subia, quando reclamou ainda a Rosa para se informar da Crispola, uma
desgraçada viuva que, com um rancho faminto de crianças, adoecera pela
Paschoa de febres perniciosas.
--A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a pequena que já
se levanta... Mas muito derreadinha...
Gonçalo desceu logo outro degráo, debruçado na escada, para mergulhar
mais confidencialmente n'aquellas tristezas:
--Olhe, oh Rosa, então se a pequena ahi está, coitada, que leve para
casa á mãe a gallinha que eu tinha para jantar. E o caldo... Que leve a
panella! Eu tomo uma chavena de chá com biscoitos. E olhe! Mande tambem
dez tostões á Crispola... Mande dois mil réis. Escute! Mas não lhe mande
a gallinha e o dinheiro assim seccamente... Diga que estimo as melhoras,
e que lá passarei por casa para saber. E esse animal do Bento que me
suba agua quente!
No quarto, em mangas de camisa, deante do espelho, um immenso espelho
rolando entre columnas douradas, estudou a lingua que lhe parecia
saburrosa, depois o branco dos olhos, receiando a amarellidão de bilis
solta. E terminou por se contemplar na sua feição nova, agora que rapára
a barba em Lisboa, conservando o bigodinho castanho, frisado e leve, e
uma môsca um pouco longa, que lhe alongava mais a face aquilina e fina,
sempre d'uma brancura de nata. O seu desconsolo era o cabello, bem
ondeado, mas tenue e fraco, e, apezar de todas as aguas e pomadas,
necessitando já risca mais elevada, quasi ao meio da testa clara.
--É infernal! Aos trinta annos estou calvo...
E todavia não se despegava do espelho, n'uma contemplação agradada,
recordando mesmo a recommendação da tia Louredo, em Lisboa:--«Oh
sobrinho! o menino, assim galante e esperto, não se enterre na
provincia! Lisboa está sem rapazes. Precisamos cá um bom Ramires!»--Não!
não se enterraria na provincia, immovel sob a hera e a poeira
melancolica das cousas immoveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante
em Lisboa, entre a sua parentella historica, como a aguentaria com o
conto e oitocentos mil reis de renda que lhe restava, pagas as dividas
do papá? E depois realmente vida em Lisboa só a desejava com uma posição
politica,--cadeira em S. Bento, influencia intellectual no seu Partido,
lentas e seguras avançadas para o Poder. E essa, tão docemente sonhada
em Coimbra, nas faceis cavaqueiras do Hotel Mondego,--muito remota a
entrevia! Quasi inconquistavel, para além de um muro alto e aspero, sem
porta e sem fenda!... Deputado--como? Agora, com o horrendo S. Fulgencio
e os Historicos no Ministerio durante tres gordos annos, não voltariam
Eleições Geraes. E mesmo n'alguma Eleição Supplementar que possibilidade
lograria elle, que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma
elegancia de tradições, se manifestára sempre Regenerador, no «Centro»
da Couraça, nas correspondencias para a *Gazeta do Porto*, nas verrinas
ardentes contra o chefe do Districto, o Cavalleiro detestavel?... Agora
só lhe restava esperar. Esperar, trabalhando; ganhando em consistencia
social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu immenso nome
historico, uma pequenina nomeada politica; tecendo e estendendo a malha
preciosa das amizades partidarias desde Santa Ireneia até ao Terreiro do
Paço... Sim! eis a theoria explendida:--mas consistencia, nomeada,
affeições politicas, como se conquistam? «Advogue, escreva nos jornaes!»
fôra o conselho distrahido e risonho do seu chefe, o Braz Victorino.
Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não podia, com aquelle seu horror
ingenito, quasi physiologico, a autos e papelada forense. Fundar um
jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de Coimbra no
Hotel Mondego? Era façanha facil para o neto adorado da Snr.^a D.
Joaquina Rangel que armazenava dez mil pipas de vinho nos barracões de
Gaia. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'essas semanas de Capital, sempre
pelo Banco Hypothecario, sempre com as «primas», nem formára relações
duraveis e uteis nos dous grandes Diarios Regeneradores, a _Manhã_ e a
_Verdade_... De sorte que, realmente, n'esse muro que o separava da
fortuna só descobria um buraquinho, bem apertado mas serviçal--os
*Annaes de Litteratura e d'Historia*, com a sua collaboração de
Professores, de Politicos, até d'um Ministro, até de um Almirante, o
Guerreiro Araujo, esse tocante massador. Appareceria pois nos *Annaes*
com a sua _Torre_, revelando imaginação e um saber rico. Depois,
trepando da Invenção para o terreno mais respeitavel da Erudição, daria
um estudo (que até lhe lembrára no comboio, ao voltar de Lisboa!) sobre
as «Origens Visigothicas do Direito Publico em Portugal...» Oh, nada
conhecia, é certo, d'essas Origens, d'esses Visigodos. Mas, com a bella
historia da _Administração Publica em Portugal_ que lhe emprestára o
Castanheiro, comporia corrediamente um resumo elegante... Depois,
saltando da Erudição ás Sciencias Sociaes e Pedagogicas--por que não
amassaria uma boa «Reforma do Ensino Juridico em Portugal» em dous
artigos massudos, de Homem d'Estado?... Assim avançava, bem chegado aos
Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal litterario, até
que os Regeneradores voltassem ao Ministerio, e no muro se escancarasse
a desejada porta triumphal.--E no meio do quarto, em ceroulas, com as
mãos nas ilhargas, Gonçalo Mendes Ramires concluio pela necessidade de
apressar a sua Novella.
--Mas, quando acabarei eu essa _Torre_? assim emperrado, sem veia, com o
figado combalido?...
O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo
encarapinhado, muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga,
entrára vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente.
--Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala que eu trouxe de Lisboa,
ou no caixote, um frasco de vidro com um pó branco? É um remedio inglez
que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um rotulo em inglez, com um nome
inglez, não sei quê, _fruit salt_... Quer dizer sal de fructas...
O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no
quarto de lavar, em cima do bahú vermelho, ficára um frasco com pó,
embrulhado num pergaminho antigo como os do Archivo.
--É esse! declarou Gonçalo. Eu precisava em Lisboa uns documentos por
causa d'aquelle malvado fôro de Praga. E por engano, na balburdia, levo
do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae buscar o rolo... Mas
tem cuidado com o frasco!
O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões d'agatha nos
punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para elle
vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de cheviote leve. E Gonçalo,
retomado pela idéa de artigos para os *Annaes*, folheava, rente á
janella, a _Historia da Administração Publica em Portugal_, quando Bento
voltou com um rolo de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um
sello de chumbo.
--Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da
janella. É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se não quebrar.
Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr. Dr. Mattos aconselhou que
o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece que ferve. E limpa o sangue,
desannuvia a cabeça... Pois eu muito necessitado ando de desannuviar a
cabeça!... Toma tu tambem, Bento. E dize á Rosa que tome. Todos tomam
agora, até o Papa!
Com cuidado, o Bento desenrolára o frasco, estendendo sobre o marmore da
commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se encarquilhava
amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o colarinho:
--Ora ahi está o que eu levo preciosamente para deslindar o fôro de
Praga! Um pergaminho do tempo de D. Sebastião... E só percebo mesmo a
data, mil quatrocentos... Não, mil quinhentos e setenta e sete. Nas
vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar o frasco.
O Bento, que escolhera no gavetão um collete branco, relanceou de lado o
pergaminho veneravel:
--Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastião escreveu a algum
avosinho do Sr. Doutor...
--Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante do espelho. E para lhe dar
alguma cousa boa, alguma cousa gorda... Antigamente ter rei era ter
renda. Agora... Não apertes tanto essa fivella, homem! Trago ha dias o
estomago inchado... Agora, com effeito, esta instituição de Rei anda
muito safada, Bento!
--Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o _Seculo_
affiança que os Reis estão a acabar, e por dias. Ainda hontem
affiançava. E o _Seculo_ é jornal bem informado... No de hoje, não sei
se o Sr. Doutor leu, lá vem a grande festa dos annos do Sr. Sanches
Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na _Feitosa_...
Enterrado no divan de damasco, Gonçalo estendera os pés ao Bento que lhe
laçava as botas brancas:
--Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem,
aos sessenta annos, ser deputado, passar mezes em Lisboa no Francfort,
abandonar as propriedades, deixar aquella linda quinta... E para quê?
Para rosnar de vez em quando «apoiado!» Antes elle me cedesse a cadeira,
a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel
Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim amanhã que me tenha a egoa
prompta, a esta hora, para eu ir á _Feitosa_ visitar esse animal... E
ponho então o fato novo de montar que trouxe de Lisboa, com as polainas
altas... Ha mais de dois annos que não vejo a D. Anna Lucena. É uma
linda mulher!
--Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na
caleche. Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a
mostrar á senhora... Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta,
com um grande cabo, e um grande grilhão, tudo d'oiro...
--Bravo!... Encharca bem esse lenço com agoa de Colonia, que tenho a
cabeça tão pesada!... Essa D. Anna era uma jornaleira, uma moça do
campo, de Corinde?
Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:
--Não senhor! A Snr.^a D. Anna Lucena é de gente muito baixa! Filha d'um
carniceiro d'Ovar... E o irmão andou a monte por ter morto o ferrador
d'Ilhavo.
--Emfim, resumiu Gonçalo, filha de carniceiro, irmão a monte, bella
mulher, luneta d'oiro... Merece fato novo!
* * * * *
Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de pedra do
Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o amigo João Gouveia--que
era o Administrador do Concelho da Villa. Ambos se abanavam com os
chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua lenta na
sombra. E a «meia» batia no relogio da Camara, quando Gonçalo, que se
retardára na Assembléa n'um voltarete enremissado, appareceu annunciando
uma fome terrivel, «a fome historica dos Ramires», e apressando a marcha
para o Gago--sem mesmo consentir que o Titó descesse á tabacaria do
Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de canna da Madeira, velha e
«da ponta fina...»
--Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro um de Vocês, com esta
furiosa fome Ramirica!
Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os braços,
interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do Concelho pelo
estupendo feito do _seu_ Governo... Então o _seu_ Governo, os _seus_
amigos Historicos, o _seu_ honradissimo S. Fulgencio--nomeavam, para
Governador Civil de Monforte, o Antonio Moreno! O Antonio Moreno, tão
justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena! Não, realmente, era a
derradeira degradação a que podia rolar um paiz! Depois d'esta, para
harmonia perfeita dos serviços, só outra nomeação, e urgente--a da
Joanna Salgadeira, Procuradora Geral da Corôa!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito secco, de bigode
mais duro que piassaba, esticado n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu
de coco atirado para a orelha, não discordava. Empregado imparcial,
servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre acolhia com
imparcial ironia as nomeações de bachareis novos, Historicos ou
Regeneradores, para os gordos logares Administrativos. Mas, n'este caso,
sinceramente, quasi vomitára, rapazes! Governador Civil, e de Monforte,
o Antonio Moreno, que elle tantas vezes encontrára no quarto, em
Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a carinha bonita coberta
de pó de arroz!...--E, travando do braço do Fidalgo, recordava a noite
em que o José Gorjão, muito bebedo, de cartola e com um revólver, exigia
furiosamente que o padre Justino, tambem bebedo, o casasse com o
Antoninho deante d'um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas o Titó, que
esperava, floreando o bengalão, declarou áquelles senhores que se o
tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a conversar de Politica e
d'indecencias--então voltava elle ao Brito, buscar a aguardentesinha...
Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre brincalhão, sacudiu o braço do
Administrador, e galgou pela Calçadinha, aos corcovos, com as mãos
fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo um cavallo que se
desboca.
E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da
taberna, a um canto da comprida mesa allumiada por dois candieiros de
petroleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se
declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos Bravaes e pelas
emoções do voltarete em que ganhára desenove tostões ao Manoel
Duarte--começou por uma pratada d'ovos com chouriço, devorou metade da
tainha, devastou o seu «frango de doente», clareou o prato da salada de
pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmellada: e atravez
d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se
afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao
primeiro trago, e com desgosto do Titó, amaldiçoára o vinho novo do
Abbade. Á sobremesa appareceu o Videirinha, «o Videirinha do violão»,
tocador afamado de Villa Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com
versos de amor e de patriotismo já impressos no *Independente
d'Oliveira*. Jantára n'essa tarde, com o violão, em casa do commendador
Barros, que celebrava o anniversario da sua commenda: e só acceitou um
copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de marmellada «para
adocicar a goella». Depois, á meia noite, Gonçalo obrigou o Gago a
espertar o lume, ferver um café «muito forte, um café terrivel, Gago
amigo! um café capaz de abrir talento no Sr. Commendador Barros!» Era
essa a hora divina do violão e do «fadinho». E já o Videirinha recuára
para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões, pousado com
melancolia á borda d'um banco alto.
--A _Soledad_, Videirinha! pediu o bom Titó, pensativo, enrolando um
grosso cigarro.
Videirinha gemeu deliciosamente a _Soledad_:
Quando fôres ao cemiterio
Ai Soledad, Soledad!...
Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as cravelhas,
o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovellos na mesa, os
charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos
Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam, arripiados de
horror, os jornaes da Opposição) pelo Governo do S. Fulgencio. E Gonçalo
tambem se arripiava! Não com a alienação da Colonia--mas com a
impudencia do S. Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego
d'um frade que depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a
libras, para se manter mais dois annos no Poder, um pedaço de Portugal,
torrão augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Athaydes, os
Castros, os seus proprios avós--era para elle uma abominação que
justificava todas as violencias, mesmo uma revolta, e a casa de Bragança
enterrada no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas, João
Gouveia observou:
--Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os Regeneradores...
O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem essa
grandiosa operação--bem! Esses, primeiramente, nunca commetteriam a
indecencia de vender a Inglezes terra de Portuguezes! Negociariam com
Francezes, com Italianos, povos latinos, raças fraternas... E depois os
bons milhões soantes seriam applicados ao fomento do Paiz, com saber,
com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do S.
Fulgencio!...--E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por que
realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!
O Titó encolheu os hombros, resignado:
--Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora aguenta... E a
genebra é ainda mais peçonhenta. Nem para os negros d'esse Lourenço
Marques que tu queres vender... Portuguezes indecentes, a vender
Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia prohibir estas
conversas...
Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e
rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia Lourenço
Marques, e Moçambique, e toda a Costa Oriental! E ás talhadas! Em
leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça, apregoada no Terreiro do
Paço! E sabiam os amigos porquê? Pelo são principio de forte
administração--(estendia o braço, meio alçado do banco, como n'um
Parlamento)... Pelo são principio de que todo o proprietario de terras
distantes, que não póde valorisar por falta de dinheiro ou gente, as
deve vender para concertar o seu telhado, estrumar a sua horta, povoar o
seu curral, fomentar todo o bom torrão que pisa com os pés... Ora a
Portugal restava toda uma riquissima provincia a amanhar, a regar, a
lavrar, a semear--o Alemtejo!
O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alemtéjo como uma pellicula de
terra de má qualidade, que, fóra umas legoas de campos em torno de Beja
e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas esgaravetada, logo
mostrava o granito...
--O mano João tem lá uma herdade immensa, immensissima, que rende
trezentos mil réis!
O Administrador, que advogára em Mertola, protestou, encristado. O
Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde
seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas riquissima, fertilissima!
--Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o Freitas Galvão
me contava...
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a genebra com uma carantonha,
acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo como uma
desgraçada illusão!
Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:
--Você já esteve no Alemtejo?
--Tambem nunca estive na China, e...
--Então não falle! Só a vinha espantosa que plantou o João Maria...
--Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios, legoas e legoas
sem...
--Um celleiro!
--Uma charneca!
E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor,
levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa, soluçava contra uns olhos
negros, donos do seu coração:
Ai! que dos teus negros olhos
Me vem hoje a perdição...
O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer
castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina de chita,
com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas
Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador,
que detestava noitadas, nocivas á sua garganta (de amygdalas loucamente
inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente reabotoado na
sobrecasa, de chapéo côco mais tombado á banda, apressou o lento Titó,
por que ambos moravam no alto da Villa--elle defronte do Correio, o
outro na viella das Therezas, n'uma casa onde outr'ora habitára e
apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.
O Titó porém não se aviava. Com o bengalão debaixo do braço, ainda
chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o
embrulhado negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda
Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes d'Oliveira.
E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta da taberna, no estendido
luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o João Gouveia
bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre o Governador Civil
de Oliveira--o André Cavalleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo clamando que
não alludissem deante d'elle, pelas cinco chagas de Christo, a esse
bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo, mandão burlesco que
desorganizava o Districto! E João Gouveia muito teso, muito secco, com o
côco mais cahido na orelha, assegurando a inteligencia superior do amigo
Cavalleiro, que estabelecera limpeza e ordem, como Hercules, nas
cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão
resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos que recolhessem á
taberna, para não alvorotar a rua...
--Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio está desde
hontem com a pontada!
--Pois então, berrou Gonçalo, não venham com disparates que revoltam!
Dizer você, Gouveia, que Oliveira nunca teve Governador Civil como o
Cavalleiro!... Não é por meu pae! O papá já lá vae ha trez annos,
infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era frouxo,
andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o
Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois homens!... Mas este cavallo
d'este Cavalleiro! A primeira condição para a auctoridade superior d'um
Districto é não ser burlesca. E o Cavalleiro é d'entremez! Aquella
guedelha de trovador, e a horrenda bigodeira negra, e o olho
languinhento a pingar namoro, e o papo empinado, e o _pó-pó-poh_! É
d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe começa nas
patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, que animal!... Sem
contar que é malandro.
Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma torre, o
Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma
serenidade cortante:
--Você acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute! Em todo o districto
d'Oliveira, note bem, em todo elle! não ha ninguem, absolutamente
ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao Cavalleiro em
intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura politica!
O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o braço, n'um
desabrido, arrogante desprezo:
--Isso são as opiniões d'um subalterno!
--E isso são as expressões d'um malcreado! uivou o outro, crescendo
todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.
Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avançou o
braço do Titó, estendendo uma sombra na calçada:
--Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? Vocês estão borrachos?...
Pois tu, Gonçalo...
Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos generosos e amoraveis que tão
finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade,
sensibilisado:
--Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que você defende o
Cavalleiro por amizade, não por dependencia... Mas que quer, homem?
Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei, é por contagio da besta,
orneio, atiro coice!
O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente
o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte á sobrecasaca e apenas observou
«que o Gonçalinho era uma flôr, mas picava...» Depois, aproveitando a
emoção submissa de Gonçalo, recomeçou a glorificação do Cavalleiro, mais
sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito, aquelle modo
impertigado... Mas que coração!--E o Gonçalinho devia considerar...
O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:
--Escute você, oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima, á ceia,
não comeu a salada de pepino? Estava divina, até o Videirinha a
appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? Por que você tem
horror physiologico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o
pepino são incompativeis. Não ha raciocinios, não ha subtilezas, que o
persuadam a admittir lá dentro o pepino. Você não duvida que elle seja
excellente, desde que tanta gente de bem o adora: mas você não póde...
Pois eu estou para o Cavalleiro como você para o pepino. Não posso! Não
ha molhos, nem razões, que m'o disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vae!
Vomito!... E agora ouça...
Então Titó, que bocejava, interveio, já farto:
--Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse de Cavalleiro, e valente!
Somos todos muito boas pessoas e só nos resta debandar. Eu tive senhora,
tive tainha... Estou derreado. E não tarda a madrugada, que vergonha!
O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da manhã, com
commissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amúo, cingiu Gonçalo
n'um rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o
Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o acompanhava
sempre pela estrada até ao portão da Torre), João Gouveia ainda se
voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe
lembrar um preceito moral «de não sei que philosopho»:
--«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má politica...» Creio
que é d'Aristoteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um
solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados
harpejos:
--Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, por que em
Politica hoje é branco, ámanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!
* * * * *
O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na
Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira--quando injuriava o Sr.
André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que detestava era o homem--o falso
homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses fundos
aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o
outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos senhoriaes...--E pela
estrada, com a lua no alto dos oiteiros de Valverde, em quanto no violão
do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimioso, Gonçalo Mendes
recordava, aos pedaços, aquella historia que tanto enchera a sua alma
desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma com a
velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino--a outra com quinta
bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de dezoito annos,
enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu, André Cavalleiro,
então estudante do Terceiro-Anno, já o tratava como um amigo serio.
Durante as férias, como a mãe lhe dera um cavallo, apparecia todas as
tardes na Torre; e muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando
pelos arredores de Bravaes e Valverde, lhe confiava, como a um espirito
maduro, as suas ambições politicas, as suas idéas de vida que desejava
grave e toda votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flôr dos
seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a «flôr da Torre».
Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa Miss
Rhodes--que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo André
Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a
doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar
Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amollecia a
alma e os principios perante a soberania do Amor, favorecera demoradas
conversas de André com Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo
cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro baixo da Mãe d'Agua.
Todos os domingos o Cavalleiro jantava na Torre:--e o velho procurador
Rebello já preparára, com esforço e resmungando, um conto de reis para o
enxoval da «menina». O pae de Gonçalo, Governador Civil de Oliveira,
sempre atarefado, enredado em Politica e em dividas, amanhecendo só na
Torre aos Domingos, approvava esta collocação de Gracinha, que, meiga e
romanesca, sem mãe que a velasse, creava na sua vida, já difficil, um
tropeço e um cuidado. Sem representar como elle uma familia de immensa
Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, André
Cavalleiro era um moço bem nascido, filho de general, neto de
desembargador, com brasão legitimo na sua casa apalaçada de Corinde, e
terras fartas em redor, de boa semeadura, limpas de hypothecas...
Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos Chefes Historicos, já filiado no
Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a sua carreira
andava marcada com segurança e brilho na Politica e na Administração. E
emfim Maria da Graça amava enlevadamente aquelles reluzentes bigodes, os
hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que lhe
encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em contraste, era
pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados que o sorriso
humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de porcellana fina, e
cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a cauda d'um corcel de
guerra, que lhe rolavam até aos pés, em que se podia embrulhar toda,
assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as alamedas da quinta,
miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura Grega em Manchester,
recheára de Mithologia) pensava sempre em «Marte cheio de força amando
Psyché cheia de graça.» E mesmo os criados da Torre se maravilhavam do
«lindo par!» Só a Snr.^a D. Joaquina Cavalleiro, a mãe de André, senhora
obesa e rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na
Torre, sem motivo pesado, só por «desconfiar da pinta da menina e
desejar nóra mais comesinha...» Felizmente, quando André Cavalleiro se
matriculava no Quinto Anno, a desagradavel matrona morreu d'uma
anasarca. O pae de Gonçalo recebeu a chave do caixão: Gracinha tomou
luto: e Gonçalo, companheiro de casa do Cavalleiro na rua de S. João, em
Coimbra, enrolou um fumo na manga da batina. Logo em Santa Ireneia se
pensou que o explendido André, libertado da pêca opposição da mamã,
pediria a «Flôr da Torre» depois do Acto de Formatura. Mas, findo esse
desejado Acto, Cavalleiro abalou para Lisboa--por que se preparavam
Eleições em Outubro, e elle recebera do tio Reis Gomes, então Ministro
da Justiça, a promessa de «ser deputado» por Bragança.
E todo esse verão o passou na Capital; depois em Cintra, onde o negro
langor dos seus olhos humidos amollecia corações; depois n'uma jornada
quasi triumphal a Bragança com foguetes e «vivas ao sobrinho do Sr.
conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro Bragança «confiou ao dr. André
Cavalleiro (como escreveu o _Echo de Traz-os-Montes_) o direito de a
representar em Côrtes com os seus brilhantes conhecimentos litterarios e
a sua formosissima presença de orador...» Recolheu então a Corinde; mas
nas suas visitas á Torre, onde o pae de Gonçalo convalescia d'uma febre
gastrica que exacerbára a sua antiga diabetes, André já não arrastava
sofregamente Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da
quinta, permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre
Politica com Vicente Ramires, que se não movia da poltrona, embrulhado
n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a Gonçalo, já se
carpia de não correrem tão doces nem tão intimas as visitas do André á
Torre, «occupado, como andava sempre agora, a estudar para deputado...»
Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das
Côrtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma linda egua que
comprára em Villa Clara ao Manoel Duarte, e dous caixotes de livros. E a
boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um heróe, só
reclamaria Psyché depois d'um nobre feito, uma estreia nas Camaras,
«n'um discurso lindo, todo flôres...» Quando Gonçalo, nas férias de
Paschoa, appareçeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e descorada. As
cartas do seu André, que se estreára «e n'um discurso lindo, todo
flôres...», eram cada semana mais curtas, mais calmas. E a ultima (que
ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara, contava em tres linhas
mal rabiscadas «que tivera muito que trabalhar em commissões, que o
tempo se pozera lindo, que n'essa noite era o baile dos condes de
Villaverde, e que elle continuava com muitas saudades o seu fiel
André...» Gonçalo Mendes Ramires, logo n'essa tarde, desabafou com o
pae, que definhava na sua poltrona:
--Eu acho que o André se está portando muito mal com a Gracinha... O
papá não lhe parece?
Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a mão
descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel d'armas.
Por fim em Maio a sessão das Camaras terminou--essa sessão que tanto
interessára Gracinha, anciosa «que elles accabassem de discutir e
tivessem férias.» E quasi immediatamente ella em Santa Ireneia, Gonçalo
em Coimbra, souberam pelos jornaes que «o talentoso deputado André
Cavalleiro partira para Italia e França n'uma longa viagem de recreio e
d'estudo.» E nem uma carta á sua escolhida, quasi sua noiva!... Era um
ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo XII, lançaria todos
os Ramires, com homens de cavallo e peonagem, sobre o solar dos
Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela chamma, cada servo
pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente Ramires, apagado e
mortal, murmurou simplesmente: «Que traste!» Elle em Coimbra, rugindo,
jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss Rhodes, para se consolar,
desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa Ireneia de magoados
harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha, durante semanas, tão
desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob as olaias do
Mirante.
E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança das lagrimas da irmã, um
rancor invadiu Gonçalo, tão redivivo que atirou para o lado, para sobre
as sebes da valla, uma bengallada, como se fossem ás costas do
Cavalleiro!--Caminhavam então junto á ponte da Portella, onde os campos
se alargam, e da estrada se avista Villa-Clara, que a lua branqueava
toda, desde o convento de Santa Thereza, rente ao Chafariz, até ao muro
novo do cemiterio, no alto, com os seus finos cyprestes. Para o fundo do
valle, clara tambem no luar, era a egrejinha de Craquêde, Santa Maria de
Craquêde, resto do antigo Mosteiro em que ainda jaziam, nos seus rudes
tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires Affonsinos. Sob o
arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava
na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio e suavidade
saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordões:
Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é como se eu morto fôra.
E não me verás nunca mais!...
E Gonçalo retomára as suas recordações, repassava tristezas que depois
cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto, sem
soffrimento, estendido na sua poltrona á varanda, com os olhos cravados
na velha Torre, murmurando para o padre Soeiro:--«Quantos Ramires verá
ella ainda, n'esta casa, e á sua sombra?...» Todas essas ferias as
consumiu Gonçalo no escuro cartorio, desajudado (por que o procurador, o
bom Rebello, tambem Deus o chamára), revolvendo papeis, apurando o
estado da casa--reduzida aos dois contos e trezentos mil reis que
rendiam os foros de Craquêde, a herdade de Praga, e as duas quintas
historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a Coimbra deixou
Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda Nunes Viegas,
senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no Terreiro da Louça
um immenso casarão cheio de retratos d'avoengos e de arvores de costado,
onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um camapé de damasco,
entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de Cavallaria,
o _Amadis_, _Leandro o Bello_, _Tristão e Brancaflôr_, as _Chronicas do
Imperador Clarimundo_... Foi ahi que José Barrôlo (senhor d'uma das mais
ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha Ramires, e a amou com uma
paixão profunda, quasi religiosa--estranha n'aquelle moço indolente,
gorducho, de bochechas coradas como uma maçã, e tão escasso d'espirito
que os amigos lhe chamavam «o José Bacôco». O bom Barrolo residira
sempre em Amarante com a mãe, não conhecia o trahido romance da «Flôr da
Torre»--que nunca se espalhára para além dos cerrados arvoredos da
quinta. E, sob o enternecido e romanesco patrocinio de D. Arminda,
noivado e casamento docemente se apressaram, em tres mezes, depois d'uma
carta de Barrôlo a Gonçalo Mendes Ramires jurando--«que a affeição pura
que sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras qualidades
respeitaveis, era tão grande que nem achava no Diccionario termos para a
explicar...» Houve uma bôda luxuosa: e os noivos (por desejo de
Gracinha, para se não affastar da querida Torre), depois d'uma jornada
filial a Amarante, «armaram o seu ninho» em Oliveira, á esquina do largo
d'El-Rei e da rua das Tecedeiras, n'um palacete que o Bacôco herdára,
com largas terras, do seu tio Melchior, Deão da Sé. Dois annos correram,
mansos e sem historia. E Gonçalo Mendes Ramires passava justamente em
Oliveira as suas ultimas férias de Paschoa quando André Cavalleiro,
nomeado Governador Civil do Districto, tomou posse, estrondosamente, com
foguetes, philarmonicas, o Governo civil e o Paço do Bispo illuminados,
as armas dos Cavalleiros em transparentes no café da Arcada e na
Recebedoria!... Barrôlo conhecia o Cavalleiro quasi intimamente,
admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho Politico. Mas
Gonçalo Mendes Ramires, que dominava soberanamente o bom Bacôco, logo o
intimou a não visitar o Sr. Governador Civil, a não o saudar sequer na
rua, e a partilhar, por dever d'alliança, os rancores que existiam entre
Cavalleiros e Ramires! José Barrôlo cedeu, submisso, espantado, sem
comprehender. Depois uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou
a Gracinha «a exquisitice de Gonçalo»:
--E sem motivo, sem offensa, só por causa da Politica!... Ora, vê tu! Um
bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer um ranchinho tão
agradavel!...
Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se
demorára para a festa dos annos de Barrôlo, eis que Gonçalo suspeita,
fareja, descobre uma incomparavel infamia! O impertigado homem da
bigodeira negra, o Sr. André Cavalleiro, recomeçára com soberba
impudencia a cortejar Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em
olhadellas fundas, carregadas de saudade e langor, procurando agora
apanhar como amante aquella grande fidalga, aquella Ramires, que
desdenhára como esposa!
* * * * *
Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no rolo amargo d'estes
pensamentos, que não reparou no portão da Torre, nem na portinha verde,
á esquina da casa, sobre tres degráos. E seguia, rente do muro da horta,
quando Videirinha, que estacára com os dedos mudos nos bordões do
violão, o avisou, rindo:
--Oh, Sr. Doutor, então larga assim, a estas horas de corrida para os
Bravaes?
Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na algibeira, entre o
dinheiro solto, a chavinha do trinco:
--Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha! Com lua,
depois de ceia, não ha companheiro mais poetico... Realmente você é o
derradeiro trovador portuguez!
Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a
familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a mão na
botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante das Auctoridades,
constituia uma gloria, quasi uma coroação, e sempre nova, sempre
deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os bordões rijamente:
--Então, para acabar, lá vae a grande trova, Sr. Doutor!
Era a sua famosa cantiga, o _Fado dos Ramires_, rosario de heroicas
Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre--que elle desde mezes
apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo saber do velho Padre
Soeiro, capellão e archivista da Torre.
Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma lamparina
mortiça, já sem azeite, junto ao castiçal de prata. E Videirinha,
recuando ao meio da estrada, com um «dlindlon» ardente, fitára a Torre,
que, por cima dos telhados da vasta casa, mergulhava as ameias, o negro
miradoiro, no luminoso silencio do ceu de verão. Depois para ella e para
a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia d'um fado de
Coimbra, rico em _ais_:
Quem te v'rá sem que estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada,
Por noites de lua cheia...
Ai! Assim callada, tão negra,
Torre de Santa Ireneia!
Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e
enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante,
ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos,
pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonçalo desapparecia--com folgazãs
desculpas ao Trovador «por cerrar a portinha do Castello...»
Ai! ahi estás, forte e soberba,
Com uma historia em cada ameia,
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Ireneia!...
E começára a quadra a Muncio Ramires, _Dente de Lobo_, quando em cima
uma sala, aberta á frescura da noite, se allumiou--e o Fidalgo da Torre,
com o charuto acceso, se debruçou da varanda para receber a serenada.
Mais ardente, quasi soluçante, vibrou o cantar do Videirinha. Agora era
a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das
Oliveiras, á porta da sua tenda, deante dos Barões que o acclamavam com
as espadas nuas, recusando o Ducado de Galiléa e o senhorio das Terras
d'Além-Jordão.--Que não podia, em verdade, acceitar terra, mesmo Santa,
mesmo de Galiléa...
Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Ireneia!
--Boa piada! murmurou Gonçalo.
Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa
semana--a do sahimento de Aldonça Ramires, Santa Aldonça, trazida do
mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que
morrera, aos hombros de quatro Reis!
--Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa é famosa, oh
Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante da Pharmacia lançou
outra, já antiga--a d'aquelle terrivel Lopo Ramires que, morto, se
erguera da sua campa no Mosteiro de Craquêde, montára um ginete morto, e
toda a noite galopára atravez da Hespanha para se bater nas Navas de
Tolosa! Pigarreou--e, mais chorosamente, atacou a do _Descabeçado_:
Lá passa a negra figura...
Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa figura degolada,
errando por noites de inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas
mãos--despegou da varanda, deteve a Chronica immensa:
--Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas, é um horror.
Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no Domingo. Appareça
tambem, com o violão e cantiga nova: mas menos sinistra... _Bona sera_!
Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala--a «sala velha,» toda
revestida d'esses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que elle
desde pequeno chamava as _carantonhas dos vovós_. E, atravessando o
corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos campos cobertos
de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...
Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo
da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras, começou
para elle uma noite revôlta e pavorosa. André Cavalleiro e João Gouveia
romperam pela parede, revestidos de cótas de malha, montados em
horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho máo,
arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de lança, que o
faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era, na
Calçadinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a
ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II, arreganhando afiados
dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas.
Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo
Titó! Mas D. Affonso tão rijo murro lhe despedia aos rins, com o guante
de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria do Gago até á Serra
Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e d'armas. E
immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre de Calatrava,
debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabellos, entre
a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os prantos da tia
Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro Reis!...--Por fim,
moido, sem socêgo, já com a madrugada clareando nas fendas das janellas
e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou
um derradeiro repellão aos lençoes, saltou ao soalho, abrio a vidraça--e
respirou deliciosamente o silencio, a frescura, a verdura, o repouso da
quinta. Mas que sêde! uma sêde desesperada que lhe encortiçava os
labios! Recordou então o famoso _fruit salt_ que lhe recommendára o Dr.
Mattos,--arrebatou o frasco, correu á sala de jantar, em camisa. E, a
arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua da Bica-Velha,
que esvasiou d'um trago, na fervura picante.
--Ah! que consolo, que rico consolo!...
Voltou derreadamente á cama: e readormeceu logo, muito longe, sobre as
relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de coqueiros susurrantes,
entre o apimentado aroma de radiosas flores que brotavam atravez de
pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o arrancou o Bento, ao
meio dia, inquieto com «aquelle tardar do Sr. Doutor.»
--É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos, pavores, bulhas,
esqueletos... Foram os malditos ovos com chouriço; e o pepino...
Sobretudo o pepino! Uma idéa d'aquelle animal do Titó... Depois, de
madrugada, tomei o tal _fruit salt_, e estou optimo, homem!... Estou
optimissimo! Até me sinto capaz de trabalhar. Leva para a livraria uma
chavena de chá verde, muito forte... Leva tambem torradas.
E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanella sobre a camisa
de dormir, sorvendo lentos goles de chá, Gonçalo relia junto da varanda
essa derradeira linha da Novella, tão rabiscada e molle, em que «os
largos raios da lua se estiravam pela larga sala d'armas...» De repente,
n'uma rasgada impressão de claridade, entreviu detalhes expressivos para
aquella noite de Castello e de verão--as pontas das lanças dos esculcas
faiscando silenciosamente pelos adarves da muralha, e o coaxar triste
das rans nas bordas lodosas dos fossos...
--Bons traços!
Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do *Bardo* o
Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os Dizeres
surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou esse lance
do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala d'armas de
Santa Ireneia, conversava com seu filho Lourenço e seu primo D. Garcia
Viegas, o _Sabedor_, de aprestos de guerra... Guerra! Porque? Acaso
pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o arvoredo, almogavares
mouros? Não! Mas desgraçadamente, «n'aquella terra já remida e christã,
em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanças portuguezas!...»
Louvado Deus! a penna desemperrára! E, attento ás paginas marcadas n'um
tomo da _Historia_ d'Herculano, esboçou com segurança a Epocha da sua
Novella--que abria entre as discordias de Affonso II e de seus irmãos
por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho I. N'esse começo do
Capitulo já os Infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam por
França e Leão. Já com elles abandonára o Reino o forte primo dos
Ramires, Gonçalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa dos Souzas. E
agora, encerradas nos castellos de Monte-Mór e de Esgueira, as senhoras
Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o senhorio real
sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que tão copiosamente
lhes doára El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer no Alcaçar de Coimbra, o
senhor D. Sancho supplicára a Tructesindo Mendes Ramires, seu collaço e
Alferes-Mór, por elle armado cavalleiro em Lorvão, que sempre lhe
servisse e defendesse a filha amada entre todas, a infanta D. Sancha,
senhora de Aveyras. Assim o jurára o leal Rico-Homem junto do leito
onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do Hospital sustentando
a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o vencedor de
Silves... Mas eis que rompe a féra contenda entre Affonso II,
asperamente cioso da sua auctoridade de Rei--e as Infantas, orgulhosas,
impellidas á resistencia pelos freires do Templo e pelos Prelados a quem
D. Sancho legára tão vastos pedaços do Reino! Immediatamente Alemquer e
os arredores d'outros castellos são devastados pela hoste real que
recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D. Thereza appellam para
El-rei de Leão, que entra com seu filho D. Fernando por terras de
Portugal a soccorrer as «Donas opprimidas.»--E n'este lance o tio
Duarte, no seu _Castello de Santa Ireneia_, interpellava com soberbo
garbo o Alferes-Mór de Sancho I:
Que farás tu, mais velho dos Ramires?
Se ao pendão leonez juntas o teu
Trahes o preito que deves ao rei vivo!
Mas se as Infantas deixas indefezas
Trahes a jura que déstes ao rei morto!...
Esta duvida, porém, não angustiára a alma d'esse Tructesindo rude e leal
que o Fidalgo da Torre rijamente modelava. N'essa noite, apenas recebera
pelo irmão do Alcaide d'Aveyras, disfarçado em beguino, um afflicto
recado da senhora D. Sancha--ordenava a seu filho Lourenço que, ao
primeiro arreból, com quinze lanças, cincoenta homens de pé da sua mercê
e quarenta besteiros, corresse sobre Monte-mór. Elle no emtanto daria
alarido--e em dous dias entraria a campo com os parentes de solar, um
troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de frecheiros, para se
juntar a seu primo, o _Souzão_, que na vanguarda dos leonezes descia
d'Alva-do-Douro.
Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o Açor negro em campo
escarlate, se plantára deante das barreiras gateadas: e ao lado, no
chão, amarrado á haste por uma tira de couro, reluzia o velho emblema
senhorial, o sonoro e fundo caldeirão polido. Por todo o Castello se
apressavam os serviçaes, despendurando as cervilheiras, arrastando com
fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro. Nos pateos os
armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes com
camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia, arrolára as rações de vianda
para os dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de
Santa Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos, abafados no
arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cabeços, ratatam! ratatam!
convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da mesnada dos Ramires.
No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado em beguino, de volta ao
castello d'Aveyras com a boa nova de prestes soccorros, transpunha
ligeiramente a levadiça da carcova... E aqui, para alegrar tão sombrias
vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastára uma sorte
galante:
Á moça, que na fonte enchia a bilha,
O frade rouba um beijo e diz _Amen_!
Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a pompa
d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a rama da
penna--quando a porta da livraria rangeu.
--O correio...
Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma,
lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrôlo--repellindo a outra em
que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E
immediatamente, com uma palmada na mesa:
--Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?
O Bento esperava com a mão no fecho da porta.
--É que não tardam os annos da mana Graça! De todo esqueci, esqueço
sempre. E sem ter um presentinho engraçado... Que secca, hein?
Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa, á mesa do voltarete,
annunciára uma fuga a Lisboa por tres dias, para tratar do emprego do
sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir ao snr.
Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho de
sêda branca com rendas...
--O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito gosto! E então o Joaquim que
não selle a egoa; já não vou ao Sanches Lucena. Oh, senhores, quando
pagarei eu esta infame visita? Ha tres mezes!... Emfim, por dous dias
mais a bella D. Anna não envelhece; e o velho Lucena tambem não morre.
E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo folgazão, retomou a
penna, arredondou o seu final com elegante harmonia:
«A moça, furiosa, gritou: _Fu! Fu! villão!_ E o beguino, assobiando,
aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias, emquanto
que por todo o fresco valle, até Santa Maria de Craquêde, os atambores
mouriscos, tararam! ratamtam! convocavam á mesnada dos Ramires, na
doçura da tarde...»
III
Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre trabalhou
com afferro e proveito. E n'essa manhã, depois de repicar a sineta no
corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da livraria, avisando o
snr. Doutor «que o almocinho, assim á espera, certamente se estragava.»
Mas de sobre a tira d'almaço Gonçalo rosnava «já vou!»--sem despegar a
penna, que corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de
terminar, antes do almoço, o seu Capitulo I.
Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse copioso
Capitulo, tão difficil, com o immenso Castello de Santa Ireneia a
erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a condensar em
contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar, sem que
faltasse uma ração nos alforges, ou uma garruncha nos caixotes, sobre o
dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera, já movera para fóra do
Castello o troço de Lourenço Ramires, em soccorro de Monte-mór, com um
vistoso coriscar de capellos e lanças em torno ao pendão tendido.
E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher
tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e Tructesindo Ramires
descera á sala terrea da Alcaçova para ceiar--quando fóra, deante da
carcova, com tres toques fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina
apressada soou. E, sem que o villico tomasse permissão do Senhor, o
alçapão da levadiça rangeu nas correntes de ferro, rebombou cavamente
nos apoios de pedra. Quem assim chegava em dura pressa era Mendo Paes,
amigo de Affonso II e mordomo da sua Curia, casado com a filha mais
velha de Tructesindo, D. Theresa--aquella que, pelo ondeante e alvo
pescoço, pelo pisar mais leve que um vôo, os Ramires chamavam a _Garça
Real_. O Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para acolher, n'um
abraço, o genro amado--«membrudo cavalleiro, com os cabellos ruivos, a
alvissima pelle da raça germanica dos visigodos...» E, de mãos
enlaçadas, ambos penetraram n'essa sala de abobada, allumiada por tochas
que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados aos muros.
Ao meio pousava a massiça meza de carvalho, rodeada de escanhos até ao
topo, onde se erguia, deante d'um aspero mantel de linho coberto de
pratos de estanho e de picheis luzidios, a cadeira senhorial com o Açor
grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas suspensa, pelo
cinturão tauxeado de prata, a espada de Tructesindo. Por traz negrejava
a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de pinheiro, com a
prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de sanguesugas, sob dois
molhos de palmas trazidas da Palestina por Gutierres Ramires, o
_d'Ultramar_. Rente a um esteio da chaminé, um falcão, ainda emplumado,
dormitava na sua alcondora: e ao lado, sobre as lages, n'uma camada de
juncos, dois alões enormes dormiam tambem, com o focinho nas patas, as
orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto um pipo de
vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com a face
sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á claridade do
candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado... Assim Gonçalo
adornára a soturna sala Affonsina com alfaias tiradas do Tio Duarte, de
Walter Scott, de narrativas do _Panorama_. Mas que esforço!... E mesmo,
depois de collocar sobre os joelhos do monge um folio impresso em
Moguncia por Ulrick Zell, desmanchára toda essa linha tão erudita, ao
recordar, com um murro na mesa, que ainda a Imprensa se não inventára em
tempos de seu avô Tructesindo, e que ao monge lettrado apenas competia
«um pergaminho de amarellada escripta...»
E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao arco da porta
cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a branca barba
espalhada sobre os braços cruzados, escutava Mendo Paes, que, na
confiança de parente e amigo, jornadeára sem homens da sua mercê,
cingindo apenas por cima do brial de lã cinzenta uma espada curta e um
punhal sarraceno. Açodado e coberto de pó correra Mendo Paes desde
Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos preitos jurados,
que se não bandeasse com os de Leão e com as senhoras Infantas. E já
desenrolára ante o velho todos os fundamentos invocados contra ellas
pelos doutos Notarios da Curia--as resoluções do Concilio de Toledo! a
bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho fóro dos Visigodos!... De
resto, que injuria fizera ás senhoras Infantas seu real irmão para assim
chamarem hostes Leonezas a terras de Portugal? Nenhuma! Nem regedoria
nem renda dos castellos e villas da doação de D. Sancho lhes negava o
senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só queria que nenhum palmo de chão
portuguez, baldio ou murado, jazesse fóra de seu senhorio real. Escasso
e avido El-Rei D. Affonso?... Mas não entregára elle á senhora D. Sancha
oito mil morabitinos d'oiro? E a gratidão da irmã fôra o Leonez passando
a raia e logo cahidos os castellos formosos d'Ulgoso, de Contrasta,
d'Urros e de Lanhosello! O mais velho da casa dos Souzas, Gonçalo
Mendes, não se encontrára ao lado dos cavalleiros da Cruz na jornada das
Navas, mas lá andava em recado das Infantas, como moiro, talando terra
portugueza desde Aguiar até Miranda! E já pelos cerros d'Além-Douro
apparecera o pendão renegado das treze arruellas--e por traz, farejando,
a alcateia dos Castros! Carregada ameaça, e de armas christãs,
opprimindo o Reino--quando ainda Moabitas e Agarenos corriam á redea
solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de Santa Ireneia, que
tão rijamente ajudára a fazer o Reino, não o deveria decerto desfazer
arrancando d'elle os pedaços melhores para monges e para donas
rebeldes!--Assim, com arremessados passos, exclamára Mendo Paes, tão
acalorado do esforço e da emoção, que duas vezes encheu de vinho uma
conca de pau e d'um trago a despejou. Depois, limpando a bocca ás costas
da mão tremula:
--Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas em recado
de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D. Sancha e as senhoras
Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu pae e seu
Rei!
O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro os olhos
duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como sarças em
manhã de geada:
--Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o dos meus para
que justiça logre quem justiça tem.
Então Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:
--Maior dó, maior dó! Será bom sangue de Ricos-homens vertido por más
desfórras... Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em Canta-Pedra vos
espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos tolher a passagem com cem
lanças!
Tructesindo ergueu a vasta face--com um riso tão soberbo e claro que os
alões rosnaram torvamente, e, acordando, o falcão esticou a aza lenta:
--Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor Mordomo-mór da Curia,
tão de feição e certa assim m'a trazeis para me intimidar?
--Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos intimidaria
descendo do céo com toda a sua hoste e a sua espada de lume! De sobra o
sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E já que
n'esta lide não sereis por mim bem ajudado, quero, ao menos, que sejaes
bem avisado.
O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:
--Bem, bem, a cear, pois! Á ceia, Frei Munio!... E vós, Mendo Paes,
deixai receios.
--Se deixo! Não vos póde vir damno que me anceie de cem lanças, de
duzentas, que vos surjam a caminho.
E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da
mesa--Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o
cinturão da espada:
--Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada, senhor meu sogro, ides
ficar de mal com o Reino e com o Rei.
--Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com
a honra e commigo!
Este grito de fidelidade, tão altivo, não resoava no poemeto do tio
Duarte. E quando o achou, com inesperada inspiração, o Fidalgo da Torre,
atirando a penna, esfregou as mãos, exclamou, enlevado:
--Caramba! Aqui ha talento!
Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do trabalho desde as
nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as energias magnificas
dos seus fortes avós! Numerou as tiras--fechou na gaveta á chave o
volume do *Bardo*. Depois á janella, com o collete desabotoado, ainda
lançou o brado genial n'um grave e rouco tom, como o lançaria
Tructesindo:--...«de mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra
e commigo!...» E sentia n'elle realmente toda a alma de um Ramires, como
elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais presos á sua palavra
que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para a manter,
bens, contentamento e vida!
O Bento, que espalhára outro repique desesperado, escancarou a porta da
livraria:
--É o Pereira... Está lá em baixo no pateo o Pereira que quer fallar ao
Sr. Doutor.
Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim repuxado
d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua raça:
--Que massada!... O Pereira... Que Pereira?
--O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro.
Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado _Brazileiro_ por ter
herdado vinte contos de um tio, regatão no Pará. Comprára então terras,
trazia arrendada a _Cortiga_, a fallada propriedade dos condes de
Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de panno fino, e
dispunha de sessenta votos na Freguezia.
--Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto almóço... E põe
outro talher.
A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas envidraçadas para
uma funda varanda alpendrada, conservava, do tempo do avô Damião, (o
traductor de Valerius Flaccus) dous formosos pannos d'Arraz
representando a _Expedição dos Argonautas_. Louças da India e do Japão,
desirmanadas e preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E
sobre o marmore dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das
pratas famosas dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com
amor. Mas Gonçalo, sobretudo de verão, sempre almoçava e jantava na
varanda luminosa e fresca, bem esteirada, revestida até meio-muro por
finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto, para as
preguiças do charuto, um profundo canapé de palhinha com almofadas de
damasco.
Quando lá entrou, com os jornaes da manhã que não abrira, o Pereira
esperava, encostado a um grosso guarda-sol de panninho escarlate,
considerando pensativamente a quinta que, d'alli, se abrangia até aos
álamos da ribeira do Coice e aos outeiros suaves de Valverde. Era um
velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um carão moreno, de olhos
miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca, entre dous enormes
collarinhos presos por botões de ouro. Homem de propriedade, acostumado
á Cidade e ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a mão ao
Fidalgo da Torre, e acceitou, sem embaraço, a cadeira que elle lhe
empurrára para a mesa--onde dominavam, com os seus ricos lavores duas
altas enfusas de crystal antigo, uma cheia d'açucenas e a outra de vinho
verde.
--Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo? Não o vejo
desde Abril!
--É verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a grande
trovoada, na vespera da eleição! confirmou o Pereira affagando o cabo do
guarda-sol que conservára entre os joelhos.
Gonçalo, n'uma esfaimada pressa do almoço, repicou a campainha de prata.
Depois rindo:
--E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá foram para o
eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios vão para o mar!
O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os máos
dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena!
Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, serviçal... E então,
quando lhe calhava como em Abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor
Jesus Christo que voltasse á terra e se propuzesse por Villa-Clara
desalojava o patrão da _Feitosa_!
O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental
resplandecente, entrava com um prato d'ovos estrellados, quando o
Fidalgo, que desdobrára o guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:
--Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. Não me importa
guardanapo rôto, ou com passagens, ou com remendos... Mas branquinho,
fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!
E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:
--O quê! Você não almoça, Pereira?...
Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as sopas com o
genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho.
--Bravo! Parabens, Pereira amigo! Dê lá um beijo meu ao netinho... Mas
então ao menos um copo de vinho verde.
--Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho.
Gonçalo farejára, arredára os ovos. E reclamou o «jantar da familia»,
sempre muito farto e saboroso na Torre, e começando por essas pesadas
sopas de pão, presunto e legumes, que elle desde creança adorava e
chamava as _palanganas_. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:
--Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz honra ao
circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel, obsequiador... Mas
mudo, Pereira! Inteiramente mudo!
O lavrador roçou vagarosamente pelas ventas cabelludas o lenço vermelho,
enrolado em bóla:
--Sabe as cousas, pensa com acêrto...
--Sim! mas pensamento e acêrto não lhe sahem de dentro do craneo! Depois
está muito velho, Pereira! Que edade terá elle? Sessenta?
--Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O avô durou
até aos cem annos. E ainda o conheci na loja...
--Como, na loja?
Então o Pereira, enrolando mais o lenço, estranhou que o Fidalgo não
soubesse a historia do Sanches Lucena. Pois o avô, o Manoel Sanches, era
um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem com uma moça
muito vistosa, muito farfalhuda...
--Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para o Sanches Lucena. Gente
que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o circulo deve
mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha n'elle terra,
raizes, interesses, nome... Mas é preciso que seja tambem homem com
talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes questões, nas crises,
se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo, em Politica
quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! Ainda em papel, a
lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de berrar em S.
Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros a chiar.
O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:
--Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre
faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte!
Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma
caçoila nova, com raminhos de hortelã. E então o Pereira, acercando mais
a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as mãos, que meio seculo de
trabalho na terra tornára negras e duras como raizes--e declarou que se
atrevera a incommodar o Fidalgo, áquellas horas do almocinho, porque
n'essa semana começava um córte de madeiras para os lados de Sandim, e
desejava, antes que surdissem outros arranjos, conversar com S. Ex.^a
sobre o arrendamento da Torre...
Gonçalo reteve a colhér, num pasmo risonho:
--Você queria arrendar a Torre, Pereira?
--Queria conversar com V. Ex.^a. Como o Relho está despedido...
--Mas eu já tratei com o Casco, o José Casco dos Bravaes! Ficamos meio
apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana.
O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande
pena... Elle só no sabbado s'inteirára da desavença com o Relho. E, se o
Fidalgo não resalvava o segredo, por quanto ficára o arrendamento?
--Não resalvo, não, homem! Novecentos e cincoenta mil réis.
O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu
detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira. Pois maior
pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra trocada... Mas era
pena, porque elle gostava da propriedade; já pelo S. João pensára em
abeirar o Fidalgo; e, apezar dos tempos correrem escassos, não andaria
longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo um conto cento e
cincoenta!
Gonçalo esqueceu a sopa, n'uma emoção que lhe afogueou a face fina, ante
um tal accrescimo de renda--e a excellencia de tal rendeiro, homem
abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas
as cercanias!
--Isso é sério, oh Pereira?
O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decisão:
--Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para caçoar com V.
Ex.^a! Proposta a valer, escriptura a fazer... Mas se o arrendamento
está tratado...
Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na meza para se erguer, quando
Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:
--Escute, homem!... Eu, não contei por miudo o caso do Casco. Você
comprehende, sabe como essas cousas passam... O Casco veiu, conversamos;
eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e porco pelo Natal.
Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que não...
Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado,
e o cão! Depois só. Andou ahi pela quinta, a medir, a cheirar a terra;
acho até que a provou. Aquellas rabulices do Casco!... Por fim, uma
tarde, lá gemeu, lá acceitou os novecentos e cincoenta mil reis, sem
porco. Cedi do porco. Aperto de mão, copo de vinho. Ficou de apparecer
para combinar, tratar da escriptura. Não o avistei mais, ha quasi duas
semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu... Para resumir, não
tenho com o Casco contracto firme. Foi uma conversa em que apenas
estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cincoenta. E eu, que
detesto cousas vagas, já andava pensando em encontrar melhor homem!
Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Elle, em negocios, gostava
de lisura. Sempre se entendêra bem com o Casco. Nem por um condado se
atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo
que desejava as cousas claras, para não surdir desgosto rijo. Não se
lavrára escriptura, bem! Mas ficára, ou não, palavra dada entre o
Fidalgo e o Casco?
Gonçalo Mendes Ramires, que findára apressadamente a sopa e enchia um
copo de vinho verde para se calmar, fitou o lavrador, quasi severamente:
--Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco
decisivamente a palavra de Gonçalo Ramires, estava agora aqui a tratar,
ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?
O Pereira baixou a cabeça. Tambem era verdade!... Pois, n'esse caso,
elle abria a sua tenção, claramente. E, como conhecia a propriedade, e
apurára o seu calculo--offerecia ao Fidalgo um conto cento e cincoenta
mil réis, sem porco. Mas não dava para a familia nem leite, nem
hortaliça, nem fructa. O Fidalgo, homem só, pouco se aproveitava. A
Torre, porém, casa antiga, enxameava de gentes e d'adherentes. Todos
apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu principio. E de
resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados, bastava o pomar e a
horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam trato mais geitoso:
mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por lá passaria e tudo
luziria... Emquanto ás outras condições, acceitava as do antigo
arrendamento. E escriptura assignada para a outra semana, no sabbado...
Estava feito?
Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente,
estendeu a mão aberta ao Pereira:
--Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!
--E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no
immenso guarda-sol para se erguer. Então no sabbado, em Oliveira, para a
escriptura... Assigna V. Ex.^a ou o Sr. padre Soeiro?
Mas o fidalgo calculava:
--Não, homem, não póde ser! No sabbado, com effeito, estou em Oliveira,
mas são os annos da mana Maria da Graça...
O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima:
--Ah! e como vae a snr.^a D. Maria da Graça? Ha que edades a não vejo!
Desde o anno passado, na procissão de Passos, em Oliveira... Muito boa
senhora! Muito dada! E o Sr. José Barrôlo? Pessoa excellente tambem, a
valer, o Sr. José Barrôlo... E que terra a d'elle, a _Ribeirinha_! A
melhor propriedade d'estas vinte leguas em redor. Linda propriedade! A
do André Cavalleiro que lhe está pegada, a _Biscaia_, não se lhe
compára--é como cardo ao pé de couve.
O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo:
--Do André Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem alma!
O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o
Cavalleiro continuavam chegados e amigos... Não em Politica! Mas
particularmente, como cavalheiros...
--O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que
elle nem é cavalheiro nem politico. É apenas cavallo, e resabiado.
O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:
--Então está entendido, no sabbado, na cidade. E, se não faz transtorno
ao Fidalgo, passamos pelo tabellião Guedes, e fica o feito arrumado. O
Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua mana...
--Sempre. Appareça você ás trez horas. Lá conversamos com o padre
Soeiro.
--Tambem ha que edades não encontro o Sr. padre Soeiro!
--Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em
Oliveira, com a mana Graça, que é a menina dos seus encantos... Então
nem um calice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, até sabbado. Não
esqueça o beijinho para o neto.
--Cá me vae no coração, meu Fidalgo... Ora essa! Pois consentia eu que
V. Ex.^a se levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela
cozinha para debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do paesinho de V.
Ex.^a, que Deus haja, conheço bem a Torre!... E sempre m'esperancei de
trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!
Durante o café, esquecido dos jornaes, Gonçalo gozou a excellencia
d'aquelle negocio. Duzentos mil réis mais de renda. E a Torre tratada
pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra que
transformára o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha de seára, vinha e
horta!... Além d'isso, homem abastado, capaz de um adeantamento. E eis
ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse affinco do Pereira em a
arrendar, elle tão apertado, tão seguro... Quasi se arrependia de lhe
não ter arrancado um conto e duzentos. Emfim, a manhã fôra fecunda! E,
realmente, nenhum accordo firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas
s'esboçára uma conversa, sobre um arrendamento possivel da Torre, a
debater depois miudamente, n'uma base nova de novecentos e cincoenta mil
reis... E que insensatez se elle, por escrupuloso respeito d'essa
conversa esboçada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de
rotina--dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada anno
deperecendo, mais cançada e chupada!...
--Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco
para as cinco e meia. Sempre vou á _Feitosa_... Hoje é o dia!
Accendeu um charuto, voltou á livraria. E, immediatamente releu o final
magnifico: «De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a honra e
commigo!»--Ah! como alli gritava a alma inteira do velho portuguez, no
seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira d'almasso entre
os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas
frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde
agora adejava um bando de pombas... Quantas manhãs, ás frescas horas
d'alva, o velho Tructesindo se encostára áquellas ameias, então novas e
brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao
poderoso Rico-Homem. E o Pereira, n'esse tempo colono ou servo, só
abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas não lhe pagava um conto
cento e cincoenta mil réis de sonora moeda do Reino. Tambem, que diabo,
o vôvô Tructesindo não precisava... Quando os saccos rareavam nas arcas,
e os acostados rosnavam por tardança de soldo, o leal Rico-Homem, para
se prover, tinha as tulhas e as adégas dos Concelhos mal defendidos--ou
então, n'uma volta de estrada, o ovençal voltando de recolher as rendas
reaes, o bufarinheiro genovez com os machos ajoujados de trouxas. Por
baixo da Torre (como lhe contára o papá) ainda negrejava a masmorra
feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos
pilares, e na abobada a argola d'onde pendia a polé, e no lagedo os
buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida cova,
ovençal, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de fôro uivavam sob o
açoite ou no torniquete, até largarem agonizando o derradeiro
morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada tão meigamente ao luar pelo
Videirinha, quantos tormentos abafára!...
E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa um volume de
Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra o tronco de
uma faia. É que descortinára o gato da Rosa cozinheira, trepado, d'unhas
fincadas n'um ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de
melros.
* * * * *
Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de
montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca, parou a egua
ao portão da _Feitosa_--um velho todo esfarrapado, com longos cabellos
cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo peito,
immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas de
chouriço, bebendo d'uma cabaça, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e
a Sr.^a D. Anna andavam por fóra, de carruagem. Gonçalo pediu ao velho
que puchasse o ferro da sineta. E entregando um cartão ao moço, que
entreabrira a rica grade dourada, com um _S_ e um _L_ entrelaçados, sob
uma corôa de conde:
--O Sr. Sanches Lucena, bem?
O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...
--O que? Esteve doente?
--Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito
agoniado...
--Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!
Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com um tostão.
E, interessado por aquellas barbaças e melenas de mendigo de Melodrama:
--Vocemecê pede esmola por estes sitios?
O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do
sol, mas risonhos, quasi contentes:
--Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus, lá me fazem
muito bem.
--Então quando lá voltar diga ao Bento... Você conhece o Bento?
Se conhecia! E a Snr.^a Rosa...
--Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, homem! Você assim, com
essas calças, não anda decente.
O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando com gosto os sordidos
farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que
galhos de inverno:
--Rôtinhas, rôtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que me ficam assim bem.
O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre me tira o retrato na machina.
Ainda na semana passada... Até com uns pedaços de grilhões dependurados
do pulso, e uma espada erguida na mão... Parece que para mostrar ao
Governo.
Gonçalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por Valverde:
depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o Gouvêa a partilhar na
Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que elle na
vespera, na Assembléa, convidára o Manoel Duarte e o Titó. Mas ao
atravessar a «Cruz das Almas», onde a estrada de Corinde, tão linda, com
as suas filas d'alamos, crusa a ladeira de Valverde, parou--notando ao
fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro d'uma carrada de
lenha, e uma carriola d'açougue, e uma mulher de lenço escarlate
bracejando sobre a albarda d'um burro, e dous lavradores de enxada ás
costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou--a mulher trotando no
seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a carriola
solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro avançando para a «Cruz
das Almas» a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma chã
atravez das leiras de feno... Na estrada só restou, como desamparado, um
homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava penosamente, coxeando.
Gonçalo trotou, com curiosidade:
--Que foi?... Vocemecê que tem?
O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma face
arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:
--Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o que hade
ser? Desgraças d'esta vida!
E, gemendo, contou a sua historia.--Desde mezes padecia d'uma chaga n'um
tornozello, que não seccára, nem com emplastos, nem com pó de murtinhos,
nem com benzeduras... E agora andava arriba, na fazenda do Sr. dr.
Julio, a concertar um socalco, para ajudar um compadre tambem doente com
maleitas--e, zás, desaba um pedregulho, que tópa na ferida, leva a
carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!... Até rasgára a fralda
para ensopar o sangue e amarrar por cima o lenço.
--Mas assim não póde andar, homem! D'onde é vocemecê?
--De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Sôlha, do logar da Finta. Até lá,
sempre me hei-de arrastar.
--E então, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado, ninguem o poude
ajudar?... Uma carriola, dous latagões...
Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna, arrancou um
grito ao Sôlha. Mas sorriu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um,
n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga do burro promettêra
passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes apparecesse
na estrada com uma eguasita que elle comprára pela Paschoa--e que, por
desgraça, tambem mancava!...
Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:
--Bem! Então, egua por egua, já vocemecê tem aqui esta...
O Sôlha embasbacou para Gonçalo:
--Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V.
Ex.^a a pé?
Gonçalo ria:
--Homem, com essas discussões de «eu a pé» e «você a cavallo», e «faz
favôr» e «não senhor», é que perdemos um tempo precioso. Monte, esteja
quieto, e trote para a Finta!
O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a cabeça,
esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:
--Isso é que não, meu senhor, isso é que não! Antes eu acabasse aqui á
mingoa, com a chaga em bolor!
Gonçalo bateu o pé, com auctoridade:
--Monte, que mando eu! Vocemecê é um lavrador de enxada, eu sou um
Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que mando!
E o Sôlha, logo submisso ante aquella força deslumbrante do Saber
superior, agarrou em silencio a crina da egua, enfiou respeitosamente o
estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe
amparava o pé entrapado e manchado de sangue.
Depois, quando elle repousou no sellim com um _ah!_ consolado:
--Então que tal?
O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratidão e no assombro
d'aquella caridade:
--Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do Fidalgo! E o
Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a pé pela estrada!
Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta do
Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e plantações de vinha. Depois,
como o Manoel Sôlha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensára em
arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram sobre esse esperto homem,
sobre as grandezas da _Cortiga_. Já sem embaraço, direito no sellim, no
gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da Torre, o Sôlha esquecia a
chaga, a dôr que adormentára. E á estribeira do Sôlha, attento e
sorrindo, o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.
Assim se avizinhavam da _Bica-Santa_, um dos sitios decantados
d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na encosta d'um
monte, alarga e fórma um arejado terraço, d'onde se abrange todo o valle
de Corinde, tão rico em casaes, em arvoredos, em seáras, em aguas. No
pendor do monte, coberto de carvalhos e de fragas musgosas, bróta a
fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei D. João V curava males
d'entranhas--e que uma devota senhora de Corinde, D. Rosa Miranda
Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um tanque de marmore, onde
agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a imagem e
patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se encurvam
dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das carvalheiras
tolda de sombra e frescura. É um suave retiro onde se apanham violetas,
se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam em rancho, nas
tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a povoada, luminosa e
verdejante largueza do valle.
Antes porém de desembocar na _Bica-Santa_, e perto do logar do Serdal, a
estrada de Corinde quebra n'uma volta:--e, ahi, de repente, a egua
pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre, desconfiado da
pericia do Sôlha, a deitar a mão á caimba do freio. Fôra o encontro
inesperado d'uma carruagem--uma caleche forrada d'azul, com a parelha
coberta de rêdes brancas contra a môsca, e na almofada, têzo, um
cocheiro de bigode, farda de golla escarlate e chapéo de tópe amarello.
E Gonçalo mantinha ainda a egua pelo freio, como arrieiro serviçal em
trilho perigoso--quando avistou, sentado n'um dos bancos de pedra, junto
da Bica, com um chale-manta por cima dos joelhos, o velho Sanches
Lucena. Ao lado o trintanario, agachado, esfregava com um mólho d'herva
a botina que a bella D. Anna lhe estendia, apanhando o vestido de linho
crú, apoiando a outra mão, sem luva, na cinta vergada e fina.
A desconcertada apparição do Fidalgo da Torre, puxando pela rédea a sua
egua onde se escarranchava regaladamente um cavador em mangas de camisa,
alvorotou aquelle repousado e dormente recanto da _Bica_. Sanches Lucena
esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um arremesso de
curiosidade que o levantára, com o pescoço esticado, o chale-manta
escorregado para a relva. D. Anna recolheu bruscamente a botina, logo
empertigada, na gravidade condigna da senhora da _Feitosa_, retomando
como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa por um cordão
d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o Sôlha.
Mas já, com o seu desembaraço elegante, Gonçalo, n'um relance, saudára
D. Anna, apertava com fervor a mão espantada do Sanches Lucena, e,
alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso! Pois vinha
justamente da _Feitosa_! E ahi soubera com desgosto, por um moço da
quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas ultimas semanas
andára doente... E, então como estava? como estava?--Oh! a physionomia
era excellente!
--Pois não é verdade, Sr.^a D. Anna? O aspecto é excellente!
Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do mólho de plumas
brancas sobre o chapéo de palha vermelha, ella volveu n'uma voz rolada,
lenta e gorda, que arripiou Gonçalo:
--O Sanches agora, graças a Deus, desfructa melhor saude...
--Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.^a, Sr.
Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado homem, repuxando para
os joelhos o chale-manta.
E, com os oculos a luzir, cravados em Gonçalo, na curiosidade que o
abrazava, quasi lhe rosára a face afilada, mais amarella que um cirio:
--Mas, com perdão de V. Ex.^a! como é que V. Ex.^a anda por aqui, pela
estrada de Corinde, n'este estado, a pé, trazendo á rédea um lavrador de
enxada?...
Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma
funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados,
Gonçalo contou o desastre do bom homem, que encontrára no caminho
gemendo, arrastando a perna escalavrada...
--De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V. Ex.^a me
permitte, minha senhora, é necessario que eu combine com elle o resto da
jornada...
Rapidamente, voltou ao Sôlha, que, de novo acanhado ante os senhores da
_Feitosa_, com o chapeu na mão, encolhido sobre o sellim, como
attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas já
Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a Finta--e lhe mandasse a egua
por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa, onde elle se demorava com o
Snr. Conselheiro. E quando o Sôlha largou, saudando desabaladamente,
torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos risonhos com que o
Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena recomeçou:
--Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr. Gonçalo
Mendes Ramires a trazer á rédea, pela estrada de Corinde, um cavador
d'enxada! É a repetição do Bom Samaritano... Mas para melhor!
Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches Lucena.--Oh! o Bom
Samaritano não merecera uma pagina tão amavel no Evangelho sómente por
offerecer o burro a um Levita doente: decerto mostrára virtudes mais
bellas...--E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de Sanches
Lucena, espalhava a luneta, com lentidão magestosa, pelas arvores e pela
Fonte que tão bem conhecia:
--Ha dous annos, minha senhora, que eu não tenho a honra...
Mas Sanches Lucena despediu um grito:
--Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Ex.^a traz sangue na mão!
O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca resaltavam
duas manchas arroxeadas:
--Não é sangue meu! foi naturalmente quando o Sôlha montou, e eu lhe
segurei o pé escalavrado...
Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do banco
de pedra. E continuando o sorriso:
--Com effeito, não tenho a honra de encontrar a V. Ex.^a, minha senhora,
desde o baile do barão das Marges, em Oliveira, o famoso baile de
Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me recordo
que V. Ex.^a estava vestida esplendidamente de Catharina da Russia...
E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos,
pensava:--«Formosa creatura! mas ordinaria! e que voz!...» D. Anna
tambem se recordava do baile dos Marges:
--O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu não fui de Russa, fui de
Imperatriz...
--Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto!
com um luxo!
Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os oculos d'ouro,
apontou um dedo alongado e livido:
--Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.^a D.
Graça, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma luzidissima
festa; nem admira; o nosso Marges é sempre primoroso... E desde essa
noite não tornei a encontrar a mana de V. Ex.^a em intimidade. Apenas de
longe, na missa...
De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa
montada, creadagem e cocheira--porque, ou culpa do ar ou culpa da agua,
não se dava bem na Cidade.
Gonçalo acalorou mais o seu interesse:
--Mas então, realmente, V. Ex.^a o que tem tido?
Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa, não se
entendiam. Uns attribuiam ao estomago--outros attribuiam ao coração.
Portanto, aqui ou alli, viscera essencial atacada. E soffria crises--más
crises... Emfim, com a graça de Deus, e regimen, e leite, e descanço,
ainda esperava arrastar uns annos.
--Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegremente. E V. Ex.^a não pensa
que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a Politica, a terrivel Politica,
o fatiguem, o agitem?...
Não, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente em Lisboa.
Melhor mesmo que na _Feitosa_! Depois, gostava d'aquella distracção das
Camaras. E como conservava amigos na Capital, uma roda escolhida, uma
roda fina...
--Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.^a decerto conhece. Elle é
parente de V. Ex.^a... O D. João da Pedrosa.
Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou polidamente:
--Sim, o D. João, decerto...
E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mão magrissima, quasi
transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de saphira:
--E não sómente o D. João... Outro dos nossos amigos é egualmente
parente de V. Ex.^a, e chegado. Muitas vezes temos fallado de V. Ex.^a,
e da sua casa. Que elle pertence tambem á primeira nobreza... É o
Arronches Manrique.
--Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma
convicção que lhe alteou o peito, a que o corpete justo marcava a força
viçosa e a perfeição.
A Gonçalo tambem nunca chegára esse nome sonóro. Mas não hesitou:
--Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes
em Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!... E V. Ex.^a, Sr.^a D. Anna...
Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de
parentescos fidalgos:
--V. Ex.^a, naturalmente, tem em Lisboa toda a sua parentella historica.
Assim eu creio que V. Ex.^a é primo do Duque de Lourençal... O Duarte
Lourençal! Elle não usa o titulo, por Miguelismo, ou antes por habito:
mas emfim é o legitimo Duque de Lourençal. É quem representa a casa de
Lourençal.
Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoára o fraque, procurava a sua
velha charuteira de couro.
--Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos primos.
E eu acredito. Entendo tão pouco d'arvores de costado!... De facto as
casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes, não só
pelo lado d'Adão, mas pelos Godos... E V. Ex.^a, Sr.^a D. Anna, prefere
a estada em Lisboa?
Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o trincára:
--Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V. Ex.^a...
Ella saudou, descendo as longas pestanas:
--O cavalheiro póde fumar; o Sanches não fuma, mas eu até aprecio o
cheiro.
Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda, aquelles
horrendos «_cavalheiro, o cavalheiro_!...» Mas pensava:--«que linda
pelle! que bella creatura!...» E Sanches Lucena, inexoravel, estendera o
dedo agudo:
--Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte Lourençal, não tenho essa
subida honra por ora, mas seu irmão, o Sr. D. Philippe. Cavalheiro
estimabilissimo, como V. Ex.^a decerto sabe... E depois, que talento...
Que talento, no cornetim!
--Ah!
--O quê! V. Ex.^a não ouviu seu primo, o Sr. D. Philippe Lourençal,
tocar cornetim?
E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos beiços
cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o fresco rebrilho dos
dentes pequeninos:
--Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu tambem... Mas,
como V. Ex.^a comprehende, qui na aldéa, com a falta de recursos...
Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamára logo, n'um sincero
interesse:
--Então, queria que V. Ex.^a ouvisse um amigo meu, que é verdadeiramente
sublime no violão, o Videirinha!...
Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo,
singelamente:
--É um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O José Videira, ajudante
da Pharmacia...
Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:
--Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!
Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha passava as
ferias na Torre, com a mãe, antiga costureira da casa. Tão bom rapaz,
tão simples... E na realidade, no violão, um genio!
--Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o _Fado dos Ramires_.
A musica é com effeito um fado de Coimbra, um fado conhecido. Mas os
versos são d'elle, umas quadras engraçadas sobre cousas da minha Casa,
lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha dias na Torre, comigo
e com o Titó...
E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro
reparo:
--O Titó?
O Fidalgo ria:
--É uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao Antonio Villalobos.
Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como se alguem muito
querido apparecesse na estrada:
--O Antonio Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e bons amigos!
Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz o favor de
apparecer pela _Feitosa_...
E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o
Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na Assembléa, se berrava,
politicando, o nome do Sanches Lucena!
--Ah V. Ex.^a conhece...
Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e, debruçada, recolhia
a luva e a sombrinha--lembrou ao marido o estriar lento da tarde, a
neblina subindo sempre áquella hora do valle aquecido:
--Sabes que nunca te faz bem... E tambem não faz bem á parelha, assim
parada, ha tanto tempo.
Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira um espesso
lenço de sêda branca para abafar o pescoço. E, receioso tambem pela
parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno
cançado ao trintanario para apanhar o chale, avisar o cocheiro. Mas
ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o parapeito que
resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o
valle. E confessava a Gonçalo que aquelle era, nos arredores da
_Feitosa_, o seu passeio preferido. Não só pela belleza do sitio, já
cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»;--mas porque do terraço da
Bica, sem esforço, sentado no banco, avistava n'uma largueza terras
suas:
--Olhe V. Ex.^a... Para além d'aquelle souto, até á chã e ao comoro onde
está a casota amarella e por traz o pinhal, tudo é meu... O pinhal ainda
é meu... Acolá, do renque d'álamos para deante, depois do lameiro, é
tambem meu... Alli, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas,
mais para lá, passado o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!
O livido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira preta, cresciam
por sobre o valle.--Além os pastos... Adeante os centeios... Depois o
bravio...--Tudo d'elle! E, por traz da magra figura alquebrada, de
chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda subido até ás pallidas orelhas
quasi despegadas, D. Anna, esvelta, clara e sã como um marmore, com um
sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito mais cheio,
acompanhava a enumeração copiosa, affincava a luneta sobre os pastos, e
os pinhaes, e os centeios, sentindo já--tudo d'ella!
--E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena com respeito,
é sitio seu, Sr. Gonçalo Mendes Ramires...
--Meu?...
--De V. Ex.^a, quero dizer, ligado á casa de V. Ex.^a. Pois não
reconhece?... Além, por traz do moinho, passa a estrada de Santa Maria
de Craquêde. São os tumulos dos seus antepassados... Passeio que eu
tambem ás vezes faço, e com gosto. Ainda ha um mez visitamos detidamente
as ruinas. E acredite que fiquei impressionado! Aquelle bocado de
claustro tão antigo, os grandes esquifes de pedra, a espada chumbada á
abobada por cima do tumulo do meio... É de commover! E achei muito
bonito, muito filial, da parte de V. Ex.^a, o ter sempre aquela lampada
de bronze accêsa de noite e de dia...
Gonçalo engrolou um murmurio risonho--porque não se recordava da espada,
nunca recommendára a lampada. Mas Sanches Lucena, agora, supplicava um
precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes Ramires. E era que S. Ex.^a lhe
concedesse a honra de o conduzir na carruagem á Torre... Alvoroçadamente
Gonçalo recusou. Nem podia! combinára com o homem da perna dorida
esperar alli, na Bica, pela sua egoa.
--Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.^a á Torre.
--Não, não, se V. Ex.^a me permitte, eu espero... Depois metto pelo
atalho da Crassa, porque tenho ás oito horas na Torre, á minha espera
para jantar, o Titó.
D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com a
ameaça renovada da friagem, do relento... Mas, junto da caleche, Sanches
Lucena ainda emperrou para affirmar a Gonçalo, com a descarnada mão
sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe ficava celebre...
--Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o maior fidalgo de
Portugal, a pé pela estrada de Corinde, levando á rédea no seu proprio
cavallo um cavador de enxada!
Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D. Anna já se
enterrára nas almofadas, alçando entre as mãos, como uma insignia, o
cabo rebrilhante da luneta d'ouro. O trintanario tambem se entezou,
cruzou os braços: e a caleche apparatosa, com as manchas brancas das
rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na penumbra da estrada, sob
a espalhada ramaria das faias.
«Que massada!» exclamou Gonçalo. E não se consolava de tarde tão linda
assim desperdiçada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com o Snr. D.
Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de «róda fina», e «tudo d'elle»
por collina e valle! A mulher, explendida péça de carne, como filha de
carniceiro,--mas sem migalha de graça ou alma. E que voz, Jesus, que
voz! Gente pedante e sabuja...--E agora só desejava recuperar a sua
egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o Titó, familiar da
_Feitosa_! o seu ásco por toda aquella Sancharia.
A egoa não tardou, a tróte largo, montada pelo filho do Sôlha, que, ao
avistar o Fidalgo, saltou á estrada, de chapeu na mão, encouchado e
encarnado, balbuciando que o pae chegára bem, pedia a Nosso Senhor lhe
pagasse a caridade...
--Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá mandarei
saber.
N'um pulo montára--galopava pelo facil atalho da Crassa. Mas, deante do
portão da Torre, encontrou um moço do Gago, com um bilhete do Titó,
annunciando que não podia jantar na Torre porque partia n'essa semana
para Oliveira!
--Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje! Até
combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a fazer, o Snr. D.
Antonio?
O rapaz coçou pensativamente a cabeça:
--O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o bilhete ao
Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou defronte no tio
Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...
Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma
immensa inveja:
--E onde é a festa, sabes?
--Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é cousa rija, porque o Snr.
João Gouvêa encommendou lá ao patrão dous grandes pratos de bolos de
bacalhau.
Bolos de bacalhau! Gonçalo sentio como a amargura de uma traição:
--Oh! que animaes!
E de repente ideou uma vingança alegre:
--Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. João Gouvêa não te
esqueças de lhes dizer que sinto muito... Que eu tambem cá tinha á noite
na Torre uma festa. E havia senhoras. Vinha a Snr.^a D. Anna Lucena...
Não te esqueças, hein?
Gonçalo galgou as escadas rindo da sua invenção. Mas, n'essa noite, ás
nove horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte,
entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo lampeão
dourado do corredor, para buscar uma caixa de charutos. E casualmente,
atravez da janella aberta, reparou n'um homem que, em baixo, rente da
sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais attento, imaginou
reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do Titó. Mas não, com
certesa! o homem trasia jaqueta e carapuço de lã. Curioso, abafando os
passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto porém descera da estrada,
logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o Casal do Miranda,
e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras casas de
Villa-Clara.
IV
O palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido desde o começo do seculo
pela Casa dos _Cunhaes_) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas
no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella que conduz ao Quartel e a
rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, opprimida pelo
comprido terraço do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das
Monicas. E n'essa manhã, justamente quando Gonçalo, na caleche da Torre
puxada pela parelha do Torto, desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela
Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas
clinas, que feria as lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o
André Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um relance, do
fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando os
pestanudos olhos negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou,
com um murro no joelho, rugindo surdamente--«que biltre!» Ao apear no
portão (um portão baixo, como esmagado pelo immenso escudo de armas dos
Sás) tão suffocada indignação o impellia que não reparou nas effusões do
porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os
presentes para Gracinha, a caixa com o guardasolinho e um cesto de
flores da Torre coberto de papel de sêda. Depois em cima, na sala
d'espera, onde José Barrôlo correra, ao sentir nas lages do Largo
silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente,
atirando o guarda pó para uma cadeira de couro:
--Oh senhores! Que eu não possa vir á cidade sem encontrar de cara este
animal do Cavalleiro! E sempre no Largo, defronte da casa! É sorte!...
Esse bigodeira não achará outro logar para onde vá caracolar com a
pileca?
José Barrôlo, um moço gordo, de cabello ruivo e crespo, com um buço
claro n'uma face mais redonda e córada que uma bella maçã, accudiu,
ingenuamente:
--Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo,
que comprou ao Marges!
--Pois bem! É um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que fiquem
ambos na cavallariça. Ou que vão ambos pastar para as Devezas!
O Barrôlo escancarou a bôca larga e fresca, de soberbos dentes, n'um
lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta,
rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe inchava as veias:
--Essa é d'arromba! Não, essa é para contar no Club... Um burro feio em
cima d'um cavallo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico,
menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na herva, o
Governador civil e o cavallo... É d'arromba!
Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E
Gonçalo, adoçado por aquella ovação que celebrava a sua facecia:
--Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vae a familia? A
Gracinha?... Oh! viva a linda flôr!
Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos cabellos
soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroçada para o irmão,
que a envolveu n'um abraço e em dous beijos sonoros. E immediatamente,
recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:
--Positivamente estás mais gorda, até mais alta... É sobrinho?... Não?
nada, por ora?
Gracinha córou, com aquelle seu languido sorriso que mais lhe humedecia
e lhe enternecia a doçura dos olhos esverdeados.
--Se ella não quer, ella não quer! gritava o José Barrôlo, gingando, com
as mãos enterradas nos bolsos do jaquetão que lhe desenhava as ancas
roliças. A culpa não é cá do patrão... Mas ella não se decide!
O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:
--Pois é necessário um menino. Eu por mim não caso, não tenho geito: e
lá se vão d'esta feita Barrôlos e Ramires! A extincção dos Barrôlos é
uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Snr.^a
D. Graça Ramires, depressa, em nome da nação, um morgado! Um morgado
muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!
Barrôlo protestou, aterrado:
--O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não o fabríco eu!
Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da
Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos pavões...
Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da
India, de pesados cadeirões dourados de damasco azul, com tres varandas
sobre o Largo d'El-Rei. Barrôlo enrolou um cigarro, reclamou a historia
do Relho, da grande desordem. Tambem elle arranjára uma «pega» com o
rendeiro da _Ribeirinha_, por causa d'um córte de pinhal. Essa do Relho
porém fôra tremenda...
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé azul, desabotoando
preguiçosamente o jaquetão de chaviote claro:
--Não! foi muito simples. Já ha mezes esse Relho andava bebedo, sem
despegar... Uma noite berrou, ameaçou a Rosa, agarrou n'uma espingarda.
Eu desci, e n'um instante a Torre ficou desembaraçada de Relhos e de
barulhos.
--Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barrôlo.
Gonçalo saccudiu os hombros, impaciente:
--Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem abalára,
corrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da
Riosa...
Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao almoço, entre
dous copos de vinho verde. Barrôlo admirou a renda--gabou o rendeiro.
Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo,
terra tão generosa, tão mal amanhada!
Á borda do camapé, coberta pelos bellos cabellos que lavára n'essa manhã
e que cheiravam a alecrim, Gracinha comtemplava o irmão com ternura:
--E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?
--Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias prometteu jantar na Torre,
até a Rosa assou um cabrito no espeto, magnifico... Depois falhou: creio
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a
Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da intimidade do Titó com o
Sanches Lucena?
Historiou então, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror
que lhe causára a bella D. Anna, a descoberta inesperada d'essa
familiaridade do Titó na _Feitosa_.
Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João, avistára o Titó,
deante do portão da _Feitosa_, a passear pela trela um cãosinho branco
de regaço...
--Mas o que eu não comprehendo, menino, é esse teu «horror» pela D.
Anna... Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olhões, um
peitoril...
--Calle essa bôca impura, devasso! gritou Gonçalo. Pois aqui ao lado da
sua mulher, que é a flôr das Graças, ousa louvar semelhante peça de
carne!
Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia «a admiração do José.»
Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...
--Sim, concedeu Gonçalo, bella como uma bella egoa... Mas aquella voz
gorda, papuda... E a luneta, os modos... E «o cavalheiro póde fumar, o
cavalheiro está enganado...» Oh! senhores, pavorosa!
Barrôlo gingava, deante do sophá, com as mãos nos bolsos da rabona:
--Uvas verdes, Snr. D. Gonçalo, uvas verdes!
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:
--Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos
contos do Sanches n'uma salva d'ouro!
Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um «oh» escandalisado, Gracinha
bateu no hombro de Gonçalo--que puxou por ella, galhofeiramente:
--Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com effeito,
só pensar na D. Anna arrasta a gente ás imagens brutaes... Dizias então
do estomago... Sim, filha, combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal
cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens cá
agua de Vidago?... Então, Barrôlinho, sê angelico. Manda trazer já uma
garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um açafate e uma
caixa de papelão que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E
não desembrulhes, que é surpreza... Escuta! Que me levem agua bem
quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse
caminho!
E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonçalo, esfregando
as mãos:
--Pois vocês ambos estão explendidos! E na harmonia que convem. Tu
positivamente mais fórte, mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o
Barrôlo mais delgado, mais leve...
--Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já não adormece tanto
depois de jantar...
--E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendonça? Bem?... Padre
Sueiro, que é feito d'esse santo?
--Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no
Paço do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a fazer um livro
sobre os Bispos.
--Bem sei, a Historia da Sé d'Oliveira... Pois eu tambem tenho
trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.
--Ah!
--Um Romance pequeno, uma Novella, para os _Annaes de Litteratura e de
Historia_, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... É
sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um avô nosso, muito
antigo, Tructesindo.
--Tem graça, que fez elle?
--Horrores. Mas é pittoresco... E depois o Paço de Santa Ireneia, no
século XII, em todo o seu explendor! Emfim uma bella reconstrucção do
velho Portugal e sobre tudo dos velhos Ramires. Has-de gostar... Não ha
amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas
antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu
chic, hein?... E tu comprehendes, como eu desejo tentar a Politica,
preciso primeiramente apparecer, espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:
--E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá continua sempre com a teima
que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha dias... «Ai, o Gonçalinho,
assim galante, e com aquelle nome, só n'uma grande embaixada!»
Gonçalo despegára lentamente do vasto camapé, reabotoando o jaquetão
claro:
--Com effeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse d'um
romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as
antigas Minas de Ophir, _King Salomon's Mines_... Ando com idéas de ir
para a Africa.
--Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?
O escudeiro entrára com duas garrafas de agua de Vidago, ambas
desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o
«piquesinho», Gonçalo encheu um copo enorme de crystal lavrado. Ah! que
delicia d'agua!--E como o Barrôlo voltava, annunciando que cumprira as
ordens de S. Ex.^a:
--Bem! então logo conversamos ao almoço, Gracinha! Agora lavar, mudar de
roupa, que não paro com estas infames comichões...
Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaçosos e alegres
do Palacete, forrado de cretones côr de canario com uma varanda para o
jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os
velhos arvoredos do convento das Monicas. Gonçalo impaciente despiu logo
o casaco, saccudiu para longe o collete:
--Pois tu estás explendido, Barrôlo! Deves ter perdido tres ou quatro
kilos. São naturalmente os kilos que Gracinha ganhou... Vocês, se assim
se equilibram, ficam perfeitos.
Deante do espelho Barrôlo acariciava a cinta, com um risinho deleitado:
--Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas calças...
Gonçalo abrira o gavetão da rica commoda de ferragens douradas, onde
conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar o transporte de
malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barrôlo a
«adelgaçar» sem descanço, para belleza da futura raça Barrolica--quando
em baixo, na silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de
luxo feriram as lages em cadencia lenta.
Logo desconfiado, Gonçalo correu á janella, ainda com a camisa que
desdobrava. E era _elle_! Era o André Cavalleiro, que descia ladeando,
sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal
empedrada. Gonçalo virou para o Barrôlo a face chammejante de furôr:
--Isto é uma provocação! Se este descarado d'este Cavalleiro passa outra
vez na maldita pileca, por debaixo das janellas, apanha com um balde
d'agua suja!...
Barrôlo, inquieto, espreitou:
--Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo das
Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as Louzadas.
--Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não ha outro caminho
para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem
uma chapada d'agua de sabão, pela grenha e pela bigodeira, tão certo
como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!
Barrôlo beliscava a pelle do pescoço, constrangido ante aquelles
rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego. Já, por imposição de
Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora antevia
sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos do
Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria
Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da _Ribeirinha_ ou da
_Murtosa_, solidões detestadas. Não se conteve, arriscou o costumado
reparo:
--Ó Gonçalinho, olha que tambem todo esse espalhafato só por causa da
Politica...
Gonçalo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou sobre o marmore
do lavatorio:
--Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica não se atira agua
suja aos Governadores Civis. Que elle não é Politico, é só malandro!
Além d'isso...
Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre bacôco
de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do Cavalleiro pelos
Cunhaes, só notava o «lindo cavallo» ou «o caminho mais curto para as
Louzadas!...»
--Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me
encarrego eu.
--Então, até logo... Mas se elle passar nada d'asneiras, hein?
--Só justiça, aos baldes!
E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrôlo, que, pelo
corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do Gonçalinho, as
coleras desproporcionadas em que o lançava «a Politica.»
Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa
irada, Gonçalo ruminou aquelle intoleravel escandalo. Fatalmente, apenas
se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha,
caracolando por sob as janellas do palacete, na pileca de grandes
clinas! E o que o desolava era perceber no coração de Gracinha, pobre
coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo
Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de reflorir... E nenhum
outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella ociosidade
d'Oliveira--nem superioridade do marido, nem encanto d'um filho no seu
berço. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de
Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua
salvação seria o abandono da cidade, o encerrado retiro n'uma das
quintas do Barrôlo, a _Ribeirinha_, sobretudo a _Murtosa_, com a linda
matta, os musgosos muros de convento, a aldêa em redor para ella se
occupar como castellã benefica. Mas quê! Nunca o Barrôlo, consentiria em
perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria «Elegante»,
e as chalaças do Major Ribas!
Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo abriu a varanda. Em baixo, no
curto terraço ladrilhado, orlado de vasos de louça, precedendo o jardim,
Gracinha, ainda soltos os cabellos por cima do penteador, conversava com
outra senhora, muito alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de
papoulas, que segurava entre os braços um repolhudo mólho de rosas.
Era a «prima» Maria Mendonça, mulher de José Mendonça, condiscipulo do
Barrôlo em Amarante, agora capitão do Regimento de Cavallaria
estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor (hoje
Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela preoccupação de
parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre surrateiramente
o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal--sobre tudo,
mais gulosamente, á grande casa de Ramires: e, desde que o regimento se
aquartellára em Oliveira, tratára logo Gracinha por «tu» e Gonçalo por
«primo», com a intimidade especial, que convem a sangues superiores.
Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas com brazileiras ricas
d'Oliveira--até com a viuva Pinho, dona da loja de pannos, que (segundo
se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos de calções e de
jalecas. Tambem convivia intimamente, já na cidade, já na _Feitosa_, com
D. Anna Lucena. Gonçalo gostava da sua graça, da sua agudeza, da
vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda crepitação de galho,
ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janella perra, ella levantou
os olhos lusidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:
--Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...
--E para mim, primo Gonçalo, que o não via desde a sua volta de
Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de bigode...
--Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel! Até aconselho
á prima Maria que se não approxime muito de mim, para se não incendiar.
Ella deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado molho de rosas:
--Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometti á prima Graça
jantar cá esta tarde!... Oh Gracinha, por quem és, põe um biombo entre
os dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes da
prima Maria:
--Não! enfio eu um _abat-jour_ pela cabeça para attenuar o meu
brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre rancho?
--Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus... Então até logo, primo
Gonçalo! E seja misericordioso!
E ainda elle ria, encantado--já a prima Maria depois de cochichar e
d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desapparecêra pela
porta envidraçada da sala com a sua elegancia esgalgada. Gracinha,
lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da varanda,
Gonçalo ainda avistou atravez da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o
penteador branco, os fartos cabellos cabidos, relusindo no sol como uma
cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou d'entre as janellas, limando vagamente as
unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma desconfiança, quasi n'um terror
que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca--agora que Gracinha se
embrenhára para os lados d'esse commodo Mirante, construcção do seculo
XVIII, imitando um Templosinho do Amor, que rematava o longo terraço do
jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada permanecia
silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do
Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem--certo
que a irmã não se mostraria ao Cavalleiro na varandinha do Mirante,
assim com os cabellos em desalinho, por cima d'um penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos braços do Padre
Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.
--Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonçalo, batendo
ternamente nas gordas costas do Capellão. Então que feia acção foi esta?
Mais de um mez sem apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro já
não ha Gonçalinho, ha só Gracinha...
Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar nos mansos olhos miudos, que
mais negrejavam entre a frescura rozea da face roliça e a cabecinha
branca como algodão--Padre Sueiro sorria, fechando as mãos sobre o peito
da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um lenço de quadrados
vermelhos. E não lhe escasseára certamente o desejo d'ir á Torre. Mas
aquelle trabalhinho na Bibliotheca do Paço do Bispo... Depois o seu
rheumatismosito... Emfim a Sr.^a D. Graça sempre esperando S. Ex.^a, um
dia, outro dia...
--Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, comtanto que o coração não se
esquecesse da Torre...
--Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das
batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:
--Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E
ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha
dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto
cento e cincoenta mil réis...
O capellão suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de prata dourada,
pasmado para o Fidalgo:
--Ora ahi está como as cousas se inventam! Pois por cá constou que V.
Ex.^a tratára com o José Casco, o José Casco dos Bravaes. Até no
Domingo, ao almoço, a Sr.^a D. Graça...
--Sim, interrompeu o Fidalgo com uma fugidia côr na face fina.
Effectivamente o Casco veio á Torre, conversámos. Primeiramente quiz,
depois não quiz. Aquellas cousas do Casco! Einfim, uma massada... Não
ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bella manhã, me appareceu
com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com que
alvoroço!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o Pereira como
rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...
--Homem entendido, concordou o Capellão coçando embaraçadamente o
queixo. Não ha duvida. E homem de bem... Depois não havendo palavra dada
ao Cas...
---Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou apressadamente
Gonçalo. O Padre Sueiro previne o tabellião Guedes, e assignamos essa
bella escriptura. São as condições costumadas. Creio que ha uma reserva
a respeito da hortaliça e do porco... Emfim o Padre Sueiro deve receber
carta do Pereira.
E immediatamente, descendo a escada, passando o lenço perfumado pelo
bigode, gracejou com o capellão sobre o famoso _Fado dos Ramires_ em que
elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre Sueiro fornecera lendas
sublimes! Mas aquella de Santa Aldonça, realmente, fôra ataviada com
exageração... Quatro Reis a levarem a Santa aos hombros!
--São Reis de mais, Padre Sueiro!
O bom capellão protestou, logo interessado e serio, no amor d'aquella
obra que glorificava a Casa:
--Ora essa! Com perdão de V. Ex.^a... Perfeitissimamente exacto. Lá o
conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas _Damas da Côrte do Ceu_, livro
precioso, livro rarissimo, que o Sr. José Barrôlo tem na Livraria. Não
especifica os Reis, mas diz quatro... «Aos hombros de quatro Reis e com
acompanhamento de muitos Condes.» Mas o nosso José Videira declarou que
não podia metter os Condes por causa da rima.
O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu de
palha com que descêra:
--Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo. Eu trago
uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra cousa, Padre
Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse Sr. André
Cavalleiro?...
O capellão encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto
lenço de quadrados vermelhos:
--Eu, como V. Ex.^a sabe, não entendo de Politica. Depois tambem não
frequento os cafés, os sitios onde se questiona Politica... Mas parece
que gostam.
No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suissas ruivas, que Gonçalo
não conhecia, badalou a sineta do almoço. Gonçalo reparou, avisou o
homem que a Snr.^a D. Maria da Graça andava para o fundo do jardim...
--Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o escudeiro. E até manda
perguntar se V. Ex.^a deseja para o almoço vinho verde de Amarante, de
_Vidainhos_.
Sim, com certeza, vinho de _Vidainhos_. Depois sorrindo:
--Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho _Dom_.
Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!
O capellão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dynastia,
appareciam Ramires com _Dom_. E, como Gonçalo parara deante do
reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas
escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.
--Então, Padre Sueiro, por quem é!
Mas elle, com apegado respeito:
--Depois de V. Ex.^a, meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capellão:
--Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se estabeleceu
que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!
--V. Ex.^a manda, e sempre com que graça!
Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas, Gonçalo,
recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita á Bibliotheca do Paço do Bispo,
sentiu logo da antecamara o vozeirão do Titó, que rolava na sala azul em
trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro--e sacudiu o punho para o
immenso homem que enchia um dos cadeirões dourados, estirando por sobre
as flôres do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:
--Oh infame!... Então n'outro dia assim me larga, sem escrupulo, depois
de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um espeto de
cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau
e bichinhas de rabear!
Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:
--Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz. E só
então nos lembrámos de que eram os annos da D. Casimira. Dia sagrado!
Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas «pandegas» com violão,
impressionavam sempre Barrôlo, que as appetecia. E com o olho aguçado,
do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro
de uma terrina do Japão:
--Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara descobrem uns typos...
Conta lá!
--Um monstro! declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como uma pipa, com
um pêllo nojento no queixo. Vive ao pé do Cemiterio, n'um cacifro que
tresanda a petroleo, onde este senhor e as auctoridades vão jogar o
quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque vermelho e de
farripas... Nem se póde decentemente contar deante do Snr. Padre Sueiro!
O capellão, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta, entre os
franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India, moveu os
hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades
do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco do
Fidalgo:
--A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me pediu para eu lhe
comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A casa não cheira a
petroleo e fica por traz do convento de Santa Theresa. As serigaitas são
simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de
troçar... E o Snr. Padre Sueiro podia, sem medo...
--Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira,
que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos á outra infamia do
Sr. Antonio Villalobos!
Mas Barrôlo insistia, curioso:
--Não, não, conta lá, Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?
--Ceia pacata, contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das
suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com ervilhas. O
João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bôlos de bacalhau que
calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as
pequenas cantaram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava--irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:
--Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Então o Snr.
Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena, frequenta todas as
semanas a _Feitosa_, toma chá e torradas com a bella D. Anna, e esconde
tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios gloriosos?...
--Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que lhe passeia
á trela os cãesinhos felpudos!
--Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos! echoou
cavamente Gonçalo. Responda, meu illustre amigo!
O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as botas de
tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão
aquecêra. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço de
sagacidade que mais o afogueou:
--Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o
Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia, no Gago, na
Torre, elles berravam, em questões de Politica, o nome do Sanches
Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que alludir o Snr. Titó
á sua intimidade illustre! Ao menos para evitar que elle, ou os amigos,
deante do Snr. Titó que comia as torradas da _Feitosa_, tratassem o
Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos bolsos da quinzena
d'alpaca, sacudindo desinteressadamente os hombros:
--Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o conheço ha
quatro ou cinco mezes, mas acho que é serio, que sabe as cousas...
Agora, lá nas Camaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os meritos do Snr.
Sanches Lucena--mas os segredos do Snr. Titó Villalobos! E o escudeiro
novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do reposteiro, annunciou
que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava Suas Ex.^{as}...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
--O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá toda a rapaziada de
Villa-Clara!
E Titó, da janella onde se refugiara, lançou o vozeirão, mais troante,
abafando a importuna conversa do Sanches e da _Feitosa_:
--Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se nos
desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu
tempo, que ha agora lá um vinhinho branco que é d'aqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e Gonçalo a
passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
--Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma caneca valente, apesar do
Peccado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na
testa, do chapeu e do calor--e abotoado na sobrecasaca preta, de calças
pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou silenciosamente pela sala
as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o camapé, implorando ao
amigo Barrôlo a caridade d'uma bebidinha fresca!
--Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta grandiosa
casa dos Barrôlos as bebidas são de mais confiança.
--Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
--Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor
d'Oliveira:
--Mas ha gente que gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador Civil,
escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda hoje... Na
repartição até ao meio dia; depois, cavallo á porta; e larga até á
estrada de Ramilde, que é uma Africa... Não sei como lhe não fervem os
miolos!
--Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle os não tem!
O administrador saudou gravemente:
--Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr. Gonçalo Mendes Ramires!
Não comecemos, não comecemos... Este seu cunhado, Barrôlo, é bicho
indomesticavel! Sempre reponta!
O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Politica não
dispensava a piada...
--Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo.
Esse Snr. André Cavalleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã na
Repartição gabou com immensa sympathia os miolos do Snr. Gonçalo Mendes
Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
--Tambem não faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser
perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse um asno!
--Perdão! gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a
sobrecasaca, para commodidade da contenda.
Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do Gouveia--para o
socegar e o repôr no camapé:
--Não, meninos, não! Politica, não! E então essa massada do
Cavalleiro... Vamos ao que importa. Você janta comnosco, João Gouveia?
--Não, obrigado. Já prometti jantar com o Cavalleiro. Temos lá o Ignacio
Vilhena. Vae lêr um artigo que escreveu para o _Boletim de Guimarães_
sobre umas fôrmas de fabricar ossos de martyres, descobertas nas obras
do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.^a D. Graça,
bem? Quem eu não avistava havia mezes era o Snr. Padre Sueiro. Nunca
apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre viçoso. Oh, Snr.
Padre Sueiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capellão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a
Vida--não a consumindo nem com ambições nem com decepções. Ora para
elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E
fóra o seu rheumatismo...
Depois, córando d'acanhamento, atravez das sentenças evangelicas que lhe
escapavam:
--Mas mesmo o rheumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda, sabe
porque o manda... Soffrer edifica. Por que enfim o que nós soffremos nos
leva a pensar no que os outros soffrem...
--Pois olhe, volveu com alegre incredulidade o Administrador, eu, quando
tenho os meus ataques de garganta, não penso na garganta dos outros!
Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar
n'aquella bella sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos
de sangria onde boiavam rodellinhas de limão. E todos se tentaram, todos
beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao Snr. Antonio Villalobos que
não desdenhava o vinho, dadiva amavel de Deus--pois como ensina Tibulo
com verdade, apezar de gentilico, _vinus facit dites animos, mollia
corda dat_, enrija a alma e adoça o coração.
João Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na bandeja o copo
que esvasiára d'um trago e interpellou Gonçalo:
--Vamos a saber! Então n'outro dia que historia phantastica foi essa
d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?... Eu não
acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado.
Depois...
Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria, Titó
novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:
--Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco o Barrôlo?... Que andavas
com idéas de abalar para a Africa?
Ao espanto de João Gouveia quasi se misturou terror. Para a Africa?... O
quê? Com um emprego para a Africa?...
--Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar café! exclamava o Barrôlo,
com divertidas palmadas na côxa.
Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se arranjasse um capital, dez
ou quinze contos, tentava a Africa, a traficar com o preto... E tambem
se fôsse mais pequeno, mais secco. Que homens do seu corpanzil,
necessitando muita comezaina e muita vinhaça, não aguentam a Africa,
rebentam!
--O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega na agua-ardente; está na
conta para Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente
que essa outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar
na Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrôlo concordou, com alarido. Tambem não comprehendia a teima de
Gonçalo em ser deputado! Que massada! Eram logo as intrigas, e as
desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.
--Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma
gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!
Gonçalo escutára, n'um silencio risonho e superior, enrolando
laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrôlo:
--Vocês não comprehendem... Vocês não conhecem a organisação de
Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma fazenda, uma bella
fazenda, possuida por uma parceria. Como vocês sabem ha parcerias
commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é uma _parceria
politica_, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portuguezes
pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham
na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o Barrôlo, e que pagam; e uns
trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a _parceria_, que recebem
e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por habito de
familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na _parceria
politica_, o cidadão portuguez precisa uma habilitação--ser deputado.
Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma
habilitação--ser bacharel. Por isso procuro começar como deputado para
acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?
O Administrador voltára á bandeja das sangrias, de que saboreava outro
copo, agora lentamente, aos goles:
--Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato, Deputado, Politico,
Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E melhor que a
d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha mais
sombra!
Barrôlo no emtanto abraçára o hombro possante do Titó, com quem
mergulhou no vão da janella, n'uma confraternidade d'ideias, gracejando:
--Pois eu, sem ser dos taes _parceiros_, tambem mando nos bocados de
Portugal que mais me interessam por que me pertencem!... E sempre queria
vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou lá os politicos do
Terreiro do Paço, se mettessem a dispôr nas minhas terras, na
_Ribeirinha_ ou na _Murtosa_... Era a tiro!
Encostado á vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:
--Pois sim, Barrôlo! Mas você na _Ribeirinha_ e na _Murtosa_ tem de
pagar as contribuições que elles mandarem. E n'esses concelhos tem
d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E goza para lá d'estradas
se elles lh'as fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com
mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem... E assim
tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda é quem
lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S.
Miguel, augmenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguem
quer, por que mataram lá o carrasco, que ainda lá apparece... E o
Cavalleiro, esse, como _parceiro_, vive de graça n'este bello palacio de
S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrôlo atirou um _chut_, de mão espalmada, abafando o vozeirão do Titó,
com medo que as regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as
furias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, attento ao João Gouveia,
que, enterrado no camapé depois da sangria, novamente contava o seu
assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o rapasola do Gago
com o recado da grande festa na Torre:
--E cheguei a desconfiar que realmente você désse festa, quando bateram
as nove, depois as nove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D.
Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou para a Torre!
Por fim, apenas elle appareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi que
fôra troça do Snr. D. Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
--De carapuço e jaqueta? O Titó andava n'essa noite de carapuço e de
jaqueta?...
Mas bruscamente Barrôlo, da funda janella, lançou para dentro, para a
sala, um brado de pavor:
--Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!
João Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo, reabotoando
arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó
e o Barrôlo que recuavam, no terror de serem apercebidos atravez dos
vidros largos; até Padre Sueiro, prudente, abandonou o seu recanto onde
corria os oculos pela _Gazeta do Porto_. E todos, d'entre a fenda das
cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella, espreitavam o Largo,
que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da
Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as duas Louzadas, muito esgalgadas,
muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos,
ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado, avançavam, estirando pelo
largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde
longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as
vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de todas
as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa, pécha, bule
rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janella entreaberta, poeira
a um canto, vulto a uma esquina, chapeu estreado na missa, bolo
encommendado nas Mathildes, que os seus quatro olhinhos furantes
d'azeviche sujo não descortinassem--e que a sua solta lingoa, entre os
dentes ralos, não commentasse com malicia estridente! D'ellas surdiam
todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas
consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas
galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde ellas
passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem
ousaria rechaçar as duas manas Louzadas? Eram filhas do decrepito e
venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na
poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois d'uma
castidade tão rigida, tão antiga e tão resequida, e por ellas tão
espaventosamente alardeada--que o Marcolino do Independente as alcunhára
de _Duas Mil Virgens_.
--Não veem para cá! trovejou o Titó, com immenso allivio.
Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o antigo
Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, farejando
e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino lançára um repique de
baptisado.
--Oh, c'os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhaes! Então foi
um panico! As gordas pernas do Barrôlo, fugindo, abalaram, quasi
derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India. Gonçalo
bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava
com desespero o seu chapeu côco. Só o Titó, que as abominava e a quem
ellas chamavam o _Polyphemo_, retirou com serenidade, abrigando o Padre
Sueiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessára
sobre o reposteiro--quando Gracinha appareceu, com um fresco vestido de
sedinha côr de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
--Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:
--As Louzadas!
--Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que ella lhes
abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintára, temerosa! E a fila
acavallada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou para a livraria
que o Barrôlo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:
--Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou
ella para uma banqueta do corredor, n'um esforço desesperado, a pesada
salva--com que as Louzadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a
cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus, uma historia pavorosa de
«vinhaça e bebedeira». Depois, offegando, relanceou no espelho o
penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e risonha
dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.
* * * * *
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã a casa da
tia Arminda Villegas, que na vespera, ao tomar (como costumava todos os
sabbados) o seu banho aos pés, se escaldára e recolhera á cama,
apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões d'Oliveira. Depois
acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da Louça, pensando na sua
Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do
Capitulo II que o tentava e que o assustava--o encontro de Lourenço
Ramires com Lopo de Bayão, _o Bastardo_, no valle fatal de Cantapedra. E
recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao Barrôlo uma trotada a
cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo
ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabellião Guedes, que
sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis.
Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua--emquanto o Guedes, da
borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos
gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a calva,
emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe valera a
alcunha de «Guedes Pôpa»:
--Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como está? Sempre féro e
moço. Ainda bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa,
por fim, só vem á cidade na quarta feira...
Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para avisar--e elle
apresentava os parabens a S. Ex.^a pelo seu novo rendeiro...
--Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o conheço...
E olhe V. Ex.^a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro
d'ella, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que elle tem plantado!
Homem muito competente... E V. Ex.^a com demora?
--Dois ou tres dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje,
felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O amigo
Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?
Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces conchegado ao
collete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, n'uma indignação
que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabelludas, a face
rapada, toda a testa até ás abas do chapeu branco orlado de fumo negro:
--E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não ha-de
ser?... Pois este ultimo escandalo!
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, serios:
--Que escandalo?
O Tabellião recuou. Pois S. Ex.^a não sabia da ultima prepotencia do
Governador Civil, do Snr. André Cavalleiro?
--O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e
inchou, para exclamar:
--A transferencia do Noronha!... A transferencia do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, tambem obesa, de buço carregado, toda a estalar em
ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando severamente pela mão um
menino que rabujava, parou, fitou o Guedes--porque o digno homem com o
seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das
Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ella entrar, o fecho
da porta envidraçada. Depois, n'um alvoroço:
--O amigo Guedes naturalmente vae para casa. É o meu caminho. Andamos e
conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?
--O Ricardo Noronha... V. Ex.^a conhece. O pagador das Obras-Publicas!
--Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?
Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão das lojas
cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:
--Infamemente, Snr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para
Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos,
sem distracções, sem familias!...
Parára, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o
Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo!
E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos
Regeneradores. Só da familia, das tres irmãs que sustentava, tres
flôres... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento
immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonçalo Ramires não sabia? Pois
compunha ao piano cousas lindas! Depois precioso para reuniões, para
annos. Era elle quem organisava sempre em Oliveira as representações de
curiosos...
--Porque, como ensaiador, creia V. Ex.^a que não ha outro, mesmo na
capital... Não ha outro! E, zás, de repente, para Almodovar, para o
Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!... Veja V. Ex.^a só o
transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
--É um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu
caro Guedes!... E não se sabe o motivo?
De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabellião
encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre
n'estas prepotencias, o motivo era a conveniencia do Serviço...
--Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o
verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!
--Então?
Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando,
segurando uma bilha. E o tabellião segredou cavamente, junto á face
deslumbrada do fidalgo.--É que o Snr. André Cavalleiro, esse infame, se
encantára com a mais velha das irmãs Noronhas, a D. Adelina,
formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E repellido
(porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a intenção
villissima) em quem se vinga, por despeito, o Snr. Governador Civil? No
pagador! Para Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador
quem pagava!
--É uma bella maroteira! murmurou Gonçalo, banhado de gosto e riso.
--E note V. Ex.^a! exclamava o Guedes, com a mão gorda a tremer por cima
do chapeu. Note V. Ex.^a que o pobre Noronha, na sua innocencia, tão bom
homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes, ainda ha semanas
dedicára ao Cavalleiro uma valsa linda!... A _Mariposa_, uma valsa
linda!
Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos n'um triumpho:
--Mas que preciosa maroteira!... E não se tem fallado? Esse jornal
d'opposição, o _Clarim d'Oliveira_, nem uma denuncia, nem uma
allusão?...
O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O Snr. Gonçalo Ramires conhecia
bem essa gente do _Clarim_... Estylo--e estylo brincado, opulento... Mas
para assoalhar, assim n'um caso gravissimo como o do Noronha, a verdade
bem nua--pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redactor
principal, andava a passar surrateiramente para os Historicos. Ah! O
Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se inteirára? Pois esse torpissimo
Biscainho bolinava. De certo o Cavalleiro lhe acenára com posta... Além
d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas, cousas de familia. Não se
podia apresentar a declaração da D. Adelina, menina virtuosissima--e com
uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino e da _Aurora de
Oliveira_!... Esse era homem para estampar logo na primeira pagina, em
letra graúda: «Alerta! que a Auctoridade superior do Districto tentou
levar a deshonra ao seio da familia Noronha!...»
--Esse era um homem! Coitado, lá está no cemiterio de S. Miguel... E
agora, Snr. Gonçalo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!
Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a
esquina das Brocas para a bella rua, novamente calçada, da Princeza D.
Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco,
o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.^a para descançar.
--Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive immenso, immenso prazer, em o
encontrar... Essa historia do Noronha é tremenda!... Mas nada me espanta
do Snr. Governador Civil. Só me espanta que o não tenham corrido
d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada... Emfim, nem toda a
gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel... Até ámanhã, meu Guedes. E
obrigado!
Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei, Gonçalo correu com o
deslumbramento de quem descobrisse um thesouro e o levasse debaixo da
capa! E ahi levava com effeito o «escandalo, o rico escandalo», que
tanto farejára, por que tanto almejára, para desmantelar o Snr.
Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que lhe levantava arcos
de buxo! E, por uma mercê de Deus, o «rico escandalo» demoliria tambem o
homem no coração de Gracinha, onde, apezar do antigo ultraje, elle
permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando e estragando... E não
duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se revoltaria contra a
Authoridade femieira, que opprime, desterra um funccionario
admiravel--por que a irmã do pobre senhor se recusou á baba dos seus
beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha áquelle desengano--o seu
antigo André abrazado pela menina Noronha e por ella repellido com nôjo
e com mófa? Oh! o escandalo era soberbo! Só restava que estalasse, bem
ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e sobre o peito de Gracinha como
trovão benefico que limpa ares corrompidos. E d'esse trovão, rolando por
todo o Norte, se encarregava elle com delicia. Libertava a cidade d'um
Governador detestavel, Gracinha d'um sonho errado. E assim, com uma
certeira pennada, trabalhava _pro patria et pro domo_!
Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrôlo, que se vestia trauteando o
_Fado dos Ramires_, e gritou atravez da porta com uma decisão
flammejante:
--Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que escrever urgentemente.
E não subas, não me perturbes. Necessito socego!
Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barrôlo accudira ao
corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir
rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'agua de
Colonia, abancou á mesa--onde Gracinha collocava sempre entre flores,
para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao
tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos
de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma Correspondencia rancorosa
para a *Gazeta do Porto* contra o Snr. Governador Civil. Logo o titulo
fulminava--_Monstruoso attentado_! Sem desvendar o nome da familia
Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por elle testemunhado,
«a tentativa villôa e baixa da primeira Auctoridade do Districto contra
a pudicicia, a paz de coração, a honra de uma doce rapariga de dezeseis
primaveras!» Depois era a resistencia desdenhosa--«que a nobre creança
oppuzera ao Don Juan administrativo, cujos bellos bigodes são o espanto
dos povos!» Por fim vinha--«a desforra torpe e sem nome que S. Ex.^a
tomára sobre o zeloso empresado (que é tambem um talentoso artista),
obtendo d'este nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado,
cruelmente exilado, com a familia de tres delicadas senhoras, para os
confins do Reino, para a mais arida e escassa das nossas Provincias, por
o não poder empacotar para a Africa no porão sordido d'uma fragata!»
Lançava ainda alguns rugidos sobre «a agonia politica de Portugal». Com
pavor triste, recordava os peiores tempos do Absolutismo, a innocencia
soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Principe sendo a
expressão unica da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria
este seu agente--«este grotesco Nero, que como outr'ora o outro, o
grande, em Roma, tentava levar a seducção ao seio das familias melhores,
e commettia esses abusos de poder, motivados por lascivias de
temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e todas as
civilisações, a execração do justo!»--E assignava _Juvenal_.
Eram quasi seis horas quando desceu á sala, ligeiro e resplandecente.
Gracinha martellava o piano, estudando o _Fado dos Ramires_. E Barrôlo
(que não se arriscára a um passeio solitario) folheava, estendido no
camapé, uma famosa _Historia dos Crimes da Inquizição_ que começára
ainda em solteiro.
--Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo Gonçalo,
escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz
obra de Justiça... D'esta vez o Snr. André Cavalleiro vae abaixo do seu
cavallo!
Barrôlo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas almofadas,
inquieto:
--Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um risinho
feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:
--Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso
Governador Civil infamias são bagatellas.
Sob os dedos de Gracinha o _Fado dos Ramires_ esmoreceu, apenas roçado,
n'um murmurio incerto.
O Barrôlo esperava, esgaseado:
--Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
--Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha,
perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para
o Algarve!
--O Noronha pagador?
--O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr. André
Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela irmã mais velha do
Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estropidos
cada manhã por deante da janella, a ladear na pileca! Até lhe soltára,
ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um
anjo cheio de dignidade, impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria.
Era uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leit
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