As Minas de Salomão
by H. Rider Haggard · Portuguese · Gutenberg #22015 · 363,601 chars · public domain (US)
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Title: As Minas de Salomão
Author: H. Rider Haggard
Translator: Eça de Queirós
Release date: July 7, 2007 [eBook #22015]
Most recently updated: January 2, 2021
Language: Portuguese
Original publication: Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron Casa editora Lugan & Genelioux, Successores, Typ. De A. J. da Silva Teixeira Rua da Cancella Velha, 70, 1891
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/22015
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AS MINAS DE SALOMÃO
Porto--Typ. de A. J. da Silva Teixeira
Rua da Cancella Velha, 70
RIDER HAGGARD
AS MINAS DE SALOMÃO
Traducção revista
POR
EÇA DE QUEIROZ
PORTO
LIVRARIA INTERNACIONAL DE ERNESTO CHARDRON
Casa editora
LUGAN & GENELIOUX, Successores
1891
Todos os direitos reservados
INTRODUCÇÃO
Agora que este livro está impresso, e em vesperas de correr o mundo
largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para
elle ser aceitavel, muito lhe falta como Estylo e como Historia.
Emquanto á Historia, realmente, não pretendi, nem tentei, metter n'estas
paginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem á terra
dos Kakuanas. Ha todavia n'esse estranho povo coisas que mereciam exame
detalhado e lento:--a sua Fauna, a sua Flora, os seus costumes, o seu
dialecto (tão aparentado com a lingua dos Zulús), o magnifico systema da
sua organisação militar, a sua arte subtil em trabalhar os metaes... Que
interessante estudo se faria, além d'isso, com as lendas que ouvi e
colleccionei ácerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha
de Lú! Que curiosa, tambem, a tradição que entre elles se tem perpetuado
sobre os _Silenciosos_, os dois colossos que jazem á entrada das
cavernas de Salomão! No emtanto pareceu-me (e assim pensaram o barão
Curtis e o capitão John) que seria mais efficaz contar a historia a
direito, e sêccamente, deixando todas estas particularidades sobre a
região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, n'um tomo
especial, com minudencia e largueza.
Resta-me pois implorar benevolencia para a minha tosca maneira de
escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a penna--e
sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios litterarios.
Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não sei, nem
possuo auctoridade para o decidir: mas, na minha barbara idéa, as coisas
simples são as mais impressionadoras--e mais facilmente se deve
acreditar e estimar o livro, que venha escripto com séria e honesta
singeleza. _Lança aguda não precisa brilho_, diz um proverbio dos
Kakuanas: e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a
apresentar a minha historia, núa, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem
lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados galões da
Eloquencia.
Allão Quartelmar.
AS MINAS DE SALOMÃO
CAPITULO I
ENCONTRO COM OS MEUS CAMARADAS
É bem estranho que n'esta minha idade, aos cincoenta e seis annos
feitos, esteja eu aqui, de penna na mão, preparando-me a redigir uma
historia!
Nunca imaginei que tão prodigiosa occorrencia se podesse dar na minha
vida--vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa...
Sem duvida, por a ter começado tão cedo! Com effeito, na idade em que os
outros rapazes ainda soletram nos bancos da escóla, já eu andava
agenciando o meu pão por esta velha colonia do Cabo. E por aqui fiquei
desde então, mettido em negocios, em serviços, em travessias, em
guerras, em trabalhos--e n'essa dura profissão, que é a minha, a caça ao
elephante e ao marfim. Pois, com toda esta diligencia, só ultimamente,
ha oito mezes, _arredondei o meu sacco_. É um bom sacco. É um sacco
graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo sacco! E apesar
d'isso, juro, que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos,
não me arriscava a passar outra vez os transes d'este terrivel anno que
lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pelle intacta e
com o sacco cheio. Mas eu no fundo sou um timido, detesto violencias, e
ando farto, refarto de aventuras!
Como dizia pois, é coisa estranhissima que assim me lance a escrever um
livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras--ainda
que, como outro qualquer, aprecio as bellezas da Santa Biblia e gózo com
a _Historia do Rei Arthur e da sua Tavola Redonda_. No emtanto tenho
razões, e razões consideraveis, para tomar a penna com esta mão inhabil
que ha quasi cincoenta annos maneja a carabina. Em primeiro logar, os
meus companheiros, o barão Curtis e o digno capitão da Armada Real John
Good (a quem chamo por habito «o capitão John») pediram-me para relatar
e publicar a nossa jornada ao Reino dos Kakuanas. Em segundo logar,
estou aqui em Durban, estirado n'uma cadeira, inutilisado para umas
semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquelle infernal leão
me traçou a côxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os
annos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que
apanhei a trincadella. É duro que depois de um homem matar, no decurso
da sua honrada carreira, quarenta e cinco leões, seja justamente o
ultimo, o quadragesimo sexto que o file e use d'elle como de tabaco que
se masca. É duro! Quebra a rotina, a estimavel rotina--e para mim,
pessoa d'ordem, qualquer surpreza me sabe peor do que fel). Em terceiro
logar, além d'encher os meus ocios, componho esta historia para meu
filho Henrique, que está em Londres, interno no hospital de S.
Bartholomeu, estudando Medicina. É uma maneira de lhe mandar uma
longuissima carta que o entretenha e que o prenda. Serviço de doentes,
n'uma enfermaria abafada e lobrega, deve pesar intoleravelmente. Mesmo o
retalhar cadaveres termina por ser uma rotina, rica em monotonia e
tedio:--e assim esta historia, onde tudo ha menos tedio, vai por uns
dias levar ao meu rapaz uma saudavel e alegre sensação de aventuras, de
viagens, de força e de vida livre. E emfim, como ultima razão, escrevo
esta chronica, por ser, sem duvida, a mais extraordinaria que
conheço--na Realidade ou na Fabula. Digo «extraordinaria» mesmo para os
Leitores profissionaes de Romances--apesar de n'ella não haver mulheres,
além da pobre Fulata. Ha Gagula, sim. Mas esse monstro tinha cem annos,
pouca fórma humana, e não sensibilisa. Em todas estas duzentas paginas,
realmente, não passa uma _saia_. E todavia, assim escasso como é nas
graças do Feminino, não creio que exista um caso mais raro e mais
captivante.
A unica vez que tive de fazer publicamente uma narração foi diante dos
Magistrados, no Natal, quando depuz como testemunha sobre a morte dos
nossos serviçaes Khiva e Vanvogel. Por essa occasião comecei assim,
muito dignamente, com approvação de todos, com louvores do periodico de
Durban:--«Eu, Allão Quartelmar, residente em Durban, no Natal,
_gentleman_, declaro e juro que...»--Não me parece porém que seja esta a
adequada maneira de principiar um livro. Além d'isso posso eu affirmar,
em typo de imprensa, que «sou um _gentleman_?» O que é um _gentleman_? O
que é ser _gentleman_? Conheço aqui Cafres nús que _o são_: e conheço
cavalheiros chegados de Inglaterra, com grandiosas malas e anneis
d'armas nos dedos, que _o não são_. Eu, pelo menos, nasci
_gentleman_--apesar de me ter volvido depois n'um pobre e simples
caçador de elephantes. Ora, se n'essa carreira e nos acasos que ella me
trouxe, permaneci sempre _gentleman_, não me compete a mim avaliar. Deus
sabe que com valente esforço procurei conservar-me _gentleman_--como
nascera. Tenho morto, é certo, muito homem: mas estas duas mãos, bem
haja a minha fortuna, estão puras de sangue inutil. Matei para que me
não matassem. O Senhor deu-nos as nossas vidas, como sagrados depositos
que lhe pertencem e que devemos defender. Guiei-me sempre por este
principio: e conto que o bom Deus, um dia, me dirá lá em cima--«_Fizeste
bem, Quartelmar_!» Este mundo, meus amigos, é aspero de atravessar: e os
destinos violentos impõem-se por vezes com uma logica inexoravel. Aqui
estou eu, homem ordeiro, timido, bonacheirão, que, constantemente, desde
creança, me acho envolvido em carnificinas! Felizmente nunca roubei. Uma
occasião, é verdade, abalei com quatro vaccas que pertenciam a um Cafre.
Mas o Cafre tinha-me rapinado sordidamente--e desde então essas quatro
vaccas trago-as sempre na consciencia. Só quatro vaccas. Pois têm-me
pesado mais que uma manada de gado!
* * * * *
Foi ha dezoito mezes, pouco mais ou menos, que encontrei os dois homens
que deviam ser meus companheiros n'esta aventura singular á terra dos
Kakuanas. N'esse outono, eu andára n'uma grande batida aos elephantes,
para lá do districto de Bamanguato. Tudo n'essa expedição me correu mal,
e por fim apanhei as febres. Mal me pude ter nas pernas, larguei para as
minas de Diamantes (as Diamanteiras), vendi o marfim que trazia, passei
o carrão e o gado, debandei os caçadores, e tomei a diligencia para o
Cabo. Ao fim d'uma semana, no Cabo, descobri que o Hotel me roubava
infamemente: além d'isso já vira todas as curiosidades, desde o novo
Jardim Botanico que ha de certamente conferir grandes beneficios á
cidade, até ao novo Palacio do Parlamento que, tenho a certeza, não ha
de conferir beneficios nenhuns: de sorte que decidi voltar para o Natal
pelo _Dunkeld_, pequeno vapor costeiro que estava nas docas á espera do
paquete de Inglaterra, o _Edinburgh Castle_. Tomei passagem, e fui para
bordo. N'essa tarde chegou o _Edinburgh Castle_: os passageiros que
trazia para o Natal transbordaram para o _Dunkeld_, e levantamos ferro
ao pôr do sol.
Entre os passageiros de Inglaterra, que mudaram para o _Dunkeld_, havia
dois que me despertaram logo certo interesse. Um d'elles, um homemzarrão
de perto de trinta e cinco annos, tinha os hombros mais cheios e os
braços mais musculosos que eu até ahi encontrára, mesmo em estatuas.
Além d'isso cabellos ondeados e côr d'ouro; barbas ondeadas e côr
d'ouro; feições aquilinas e de córte altivo; olhos pardos, cheios de
firmeza e de honestidade. Varão esplendido que me fez pensar nos antigos
Dinamarquezes. Para dizer a verdade, Dinamarquezes só conheci um,
moderno, horrivelmente moderno, que me estafou dez libras: mas lembro-me
de ter admirado um quadro, os _Antigos Dinamarquezes_, em que havia
homens assim, de grandes barbas amarellas e olhos claros, bebendo n'um
bosque de carvalhos por grandes cornos que empinavam á bôca. Este
cavalheiro (vim a saber depois) era um Inglez, um fidalgo, um _baronet_.
Chamava-se Curtis--o barão Curtis. E o que me feriu mais foi elle
parecer-se extremamente com alguem, que eu encontrára no interior, para
além de Bamanguato. Quem?... Não me podia lembrar.
O sujeito que vinha com elle pertencia a um typo absolutamente
differente, baixo, reforçado, trigueiro, e todo rapado. Calculei logo
pelas suas maneiras que tinhamos alli um official de marinha; e
verifiquei depois, com effeito, que era um primeiro tenente da Armada
Real, reformado em capitão-tenente, e por nome John Good. Esse
impressionou-me pelo apuro. Nunca conheci ninguem mais escarolado, mais
escanhoado, mais engommado, mais envernizado! Usava no olho direito um
vidro, sem aro, sem cordel, e tão fixo que parecia natural como a
palpebra. Nem um só momento o surprehendi sem aquelle vidro, e cheguei
mesmo a pensar que dormia com elle cravado na orbita. Só muito tarde
descobri que á noite o mettia no bolso das calças--no mesmo bolso em que
guardava a dentadura postiça, a mais bella, a mais perfeita dentadura
que me recordo de ter contemplado, mesmo em annuncios de dentistas. E o
capitão, d'estas, possuia duas!
Apenas nos fizemos ao largo, começou o mau tempo. Brisa forte, nevoa
humida e fria. Depois cada solavanco (o _Dunkeld_, barco de fundo chato,
não levava carga) que não se podia arriscar uma passada confortavel na
tolda. De sorte que me recolhi para junto da machina, onde fazia um
calorzinho sereno, e alli fiquei olhando para o pendulo, que marcava,
com desvios largos, o angulo de balanço do _Dunkeld_.
--Pendulo errado, rosnou de repente uma voz ao meu lado, na sombra da
noite que cahia.
Olhei. Era o official de marinha.
--Errado, hein?... Acha? perguntei.
--Acho o que?... Se o vapor se inclinasse quanto marca o pendulo, não se
tornava mais a levantar... Aqui está o que eu acho. Mas é sempre assim,
com estes capitães de marinha mercante...
Felizmente, n'esse instante, tocou a sineta ao jantar, com immenso
allivio meu--porque se ha, sob a cupula dos céos, uma coisa temerosa, é
a loquacidade d'um official da marinha de guerra, desabafando sobre a
inepcia dos officiaes da marinha mercante. Peor do que essa coisa
temerosa--só a coisa inversa!
O capitão John e eu descemos juntos para o salão. O barão Curtis já lá
estava, no topo da mesa, á direita do commandante do _Dunkeld_. John
accommodou-se ao lado do seu companheiro: eu defronte, onde havia dois
talheres desoccupados. Logo depois da sopa o commandante, com a
lamentavel mania dos homens de mar, começou a fallar de caça.
Primeiramente de caça miuda, de condores e de abutres. Depois passou a
elephantes.
--Ah! commandante (exclamou ao lado um patricio meu, de Durban), para
elephantes temos presente uma grande auctoridade... Se ha homem em
Africa que entenda de elephantes é aqui o nosso companheiro e amigo
Allão Quartelmar.
Por acaso, n'esse momento, eu pousára os olhos no barão Curtis; e notei
que o meu nome, assim pregoado com a minha profissão, lhe causára emoção
e surpreza. John cravou tambem em mim o seu vidro, com uma curiosidade
que faiscava. Por fim o barão inclinou-se, através da mesa, e n'uma voz
grave e funda, bem propria do robusto peito d'onde sahia:
--Peço perdão, disse, mas é porventura ao snr. Allão Quartelmar que me
estou agora dirigindo?
--A elle proprio.
O homemzarrão passou a mão pelas barbas,--e distinctamente, muito
distinctamente, o ouvi murmurar: «Ainda bem!»
Não se passou mais nada até ao dôce. Mas fiquei ruminando aquelle
espanto e aquelle «ainda bem!»
Depois do café, enchia o meu cachimbo para subir á tolda, quando o
barão, com os seus modos sérios e lentos, se adiantou para mim, e me
convidou «a passar ao seu beliche, tomar um grog, e conversar...»
Aceitei. O barão occupava um camarote de tolda, o melhor do _Dunkeld_,
espaçoso, arejado, com um sofá, espelhos, e duas largas cadeiras de
verga. O capitão John viera tambem. Todos tres nos sentamos, accendendo
os cachimbos, emquanto o moço corria pelos grogs.
Houve primeiramente um silencio. Outro creado entrou, a accender o
candieiro. Por fim appareceram os grogs.
O barão Curtis então passou a mão pelas barbas, n'esse geito que lhe era
costumado, e voltando-se bruscamente:
--Diga-me uma coisa, snr. Quartelmar... Aqui ha dois annos, por este
tempo, esteve n'um sitio chamado Bamanguato, ao norte do Transwaal. Não
é verdade?
--Perfeitamente, respondi eu, pasmado de que aquelle cavalheiro se
achasse, no seu condado, em Inglaterra, tão bem informado das jornadas
que eu fazia no sul d'Africa!
--A negocio, hein? acudiu o capitão John.
--Sim, senhor, a negocio. Levei uma carregação de fazendas, acampei fóra
da feitoria, e lá fiquei até liquidar.
O barão conservou durante um momento pregados em mim os seus olhos
cinzentos e largos. Pareceu-me que havia n'elles anciedade e temor.
--E diga-me, encontrou ahi, em Bamanguato, um homem chamado Neville?
--Encontrei. Esteve acampado ao meu lado durante uns quinze dias, a
descançar o gado antes de metter para o norte. Aqui ha mezes recebi eu
uma carta d'um procurador, perguntando-me se sabia o que era feito
d'esse sujeito... Respondi como pude...
--Bem sei! atalhou o barão. Li a sua resposta. Dizia o snr. Quartelmar
que esse sujeito Neville partira de Bamanguato, no principio de maio,
n'um carrão, com um serviçal e um caçador cafre chamado Jim, tencionando
puxar até Inyati, ultima estação na terra dos Matabeles, para de lá
seguir a pé, depois de vender o carrão. O snr. Quartelmar accrescentava
que o carrão decerto o vendera elle, porque seis mezes depois vira-o em
poder d'um portuguez. Esse portuguez não se lembrava bem do nome do
homem a quem o comprára. Sabia só que era um branco, e que se mettera
para o matto com um Cafre...
--É verdade, murmurei eu.
Houve outro silencio, que eu enchi com um sorvo ao grog. Por fim o barão
proseguiu, com os olhos sempre cravados em mim, insistentes e anciosos:
--O snr. Quartelmar não sabe quaes fossem as razões que levavam assim
esse sujeito Neville para o norte?... Não sabe qual era o fim da
jornada?
--Ouvi alguma coisa a esse respeito, murmurei.
E calei-me prudentemente, porque nos iamos avisinhando d'um ponto em
que, por motivos antigos e graves, eu não desejava bolir.
O barão voltou-se para o seu companheiro, como para o consultar. O
outro, por entre a fumaraça do cachimbo, baixou a cabeça, n'um _sim_
mudo. Então o meu homemzarrão, decidido, abriu os braços, desabafou:
--Snr. Quartelmar, vou-lhe fazer uma confidencia! Vou-lhe mesmo pedir o
seu conselho, e talvez o seu auxilio... O agente que me remetteu a sua
carta afiançou-me que eu podia confiar absolutamente no snr. Quartelmar,
que é um homem de bem, discreto como poucos, e respeitado como nenhum em
toda a colonia do Natal.
Dei um sorvo tremendo ao cognac, para esconder o meu embaraço--porque
sou extremamente modesto.
--Snr. Quartelmar, concluiu o barão, esse sujeito chamado Neville era
meu irmão.
--Ah! exclamei.
Com effeito! Agora, agora recordava eu bem com quem o barão se parecia!
Era com esse Neville. Sómente o outro tinha menos corpo, e a barba
escura. Mas nos olhos havia a mesma franqueza, e havia a mesma decisão.
--Era meu irmão, continuou o barão. Meu irmão mais novo, e unico. Até
aqui ha cinco annos, vivemos sempre juntos. Depois um dia,
desgraçadamente, tivemos uma questão, uma terrivel questão. E, para lhe
dizer a verdade toda, snr. Quartelmar, eu comportei-me para com meu
irmão da maneira mais injusta! Foi sob o impulso do despeito, da cólera,
é certo... Mas em summa comportei-me injustamente.
--Cruelmente, murmurou do lado o capitão John, que fumava com os olhos
cerrados.
--Cruelmente, com effeito. Como o snr. Quartelmar sabe, em Inglaterra,
quando um homem morre sem testamento e não tem senão bens de raiz, tudo
passa para o filho mais velho. Ora succedeu que meu pai morreu
exactamente quando meu irmão Jorge e eu estavamos assim de mal. Herdei
tudo; e meu irmão, que não tinha profissão, nem habilitações, ficou sem
real. O meu dever, está claro, era crear-lhe uma situação independente.
É o que todos os dias se faz em Inglaterra, n'esses casos. Mas por esse
tempo a nossa questão estava em carne viva. Eu não lhe offereci nada.
Elle tambem, orgulhoso, sobretudo brioso, nada pediu. Assim ficámos, de
longe, eu rico e elle pobre... Peço perdão de o fatigar com estes
detalhes, snr. Quartelmar, mas preciso pôr as coisas bem claras... Não é
verdade, John?
--Escrupulosamente claras! acudiu o outro. De resto o nosso amigo
Quartelmar guarda para si esta historia...
--Pudera! exclamei.
--Pois bem, continuou o barão, meu irmão possuia de seu, n'essa época,
umas duzentas ou trezentas libras. Um bello dia, agarra n'esta miseria,
toma o nome de Neville, e abala para Africa a tentar fortuna! Eu só o
soube tarde, mezes depois d'elle ter embarcado. Passaram tres annos.
Noticias d'elle, nenhumas. Comecei a andar inquieto. Escrevi-lhe.
Naturalmente as minhas cartas não lhe chegaram. E eu cada dia mais
afflicto! Para o snr. Quartelmar comprehender tudo bem, deve saber que,
desde pequeno, desde o berço, meu irmão foi a forte e grande affeição da
minha vida. E por outro lado a nossa questão, assim amarga e aspera por
sermos ambos muito novos e muito exaltados, nasceu de quê? D'uma mulher.
D'uma mulher cujo nome já quasi me esqueceu. E meu pobre irmão, coitado,
se ainda é vivo, não se lembrará mais que eu. Ora aqui tem! E já por
isto o snr. Quartelmar comprehende...
--Perfeitamente, perfeitamente...
--Pois bem, descobrir meu irmão passou a ser a minha idéa constante, dia
e noite. Mandei fazer aqui, no Cabo, toda a sorte de pesquizas. Um dos
resultados, o mais importante, foi a sua carta, snr. Quartelmar.
Importante porque me dava a certeza que, mezes antes, meu irmão estava
na Africa, e vivo. Desde esse momento decidi vir eu mesmo, pessoalmente,
continuar as pesquizas. Agentes, por mais dedicados, mais bem pagos, não
têm o interesse de coração: é com o coração justamente que eu conto, com
a perspicacia, a inspiração especial que elle ás vezes possue. De resto
sempre tencionei visitar as nossas colonias d'Africa... E aqui tem o
snr. Quartelmar a minha historia. O mais extraordinario, é que o
tivessemos encontrado logo, a si, a pessoa justamente que viu meu irmão
vivo, a pessoa justamente a quem eu me ia a dirigir apenas chegasse ao
Natal. Quer que lhe diga? Acho bom agouro. Em todo o caso, aqui estou,
prompto para tudo, com o meu velho amigo, o capitão John, companheiro
fiel de muitos annos, que teve a dedicação de me acompanhar.
O outro encolheu os hombros, sorrindo, com a sua esplendida dentadura.
--Não havia n'este momento nada interessante a fazer na velha Europa!...
Gasta, insipidissima, a velha Europa!
Depois, reenchendo o cachimbo, accrescentou muito sério:
--E agora que o nosso amigo Quartelmar conhece os motivos que nos trazem
á Africa, e o interesse que nos prende a esse homem chamado Neville,
espero da sua lealdade que não terá duvida em nos dizer tudo o que sabe,
ou tudo que ouviu, a respeito d'elle. Hein?
Impressionado, respondi:
--Não tenho duvida, por ser questão de sentimento.
CAPITULO II
PRIMEIRA NOTICIA DAS MINAS DE SALOMÃO
Sacudi a cinza do cachimbo na palma da mão, e comecei, muito devagar,
para tudo pôr bem claro e bem exacto:
--Aqui está o que ouvi a respeito d'esse cavalheiro Neville. E isto, que
me lembre, nunca, até ao dia d'hoje, o disse a ninguem. Ouvi que esse
cavalheiro fôra para o interior á busca das minas de Salomão.
Os dois homens olharam para mim, com assombro:
--As minas de Salomão!? Que minas?... Onde são?
--Onde são, não sei. Sei apenas onde _dizem que estão_. Aqui ha annos vi
de longe os dois picos dos montes que, segundo corre, lhes servem de
muralha. Mas entre mim e os montes, meus senhores, havia duzentas milhas
de deserto. E esse deserto, meus senhores, nunca houve ninguem (quero
dizer, homem branco) que o atravessasse, a não ser um, n'outras éras.
Porque toda esta historia vem muito de traz, de ha seculos! Eu não tenho
duvida em a contar, mas com uma condição: é que os cavalheiros não a hão
de transmittir sem minha auctorisação. Tenho para isso razões, e fortes.
Estão os cavalheiros de accôrdo?
--Com certeza!
Narrei então longamente tudo o que sabia, historia ou fabula, sobre as
minas de Salomão. Foi ha trinta annos que pela primeira vez ouvi fallar
d'estas minas a um caçador d'elephantes, um homem muito sério, muito
indagador, que recolhera assim, nas suas jornadas através d'Africa,
tradições e lendas singularmente curiosas. Tinha-me eu encontrado com
elle na terra dos Matabeles, n'uma das minhas primeiras expedições ao
interior, á busca do elephante e do marfim. Chamava-se Evans. Era um dos
melhores caçadores d'Africa. Foi estupidamente morto por um bufalo, e
está enterrado junto ás quedas do Zambeze.
Pois uma noite, sentados á fogueira, no matto, succedeu mencionar eu a
esse Evans umas construcções extraordinarias com que casualmente dera,
andando á caça do _koodoo_ por aquella região que fórma hoje o districto
de Lydenburg no Transwaal. Essas obras foram depois encontradas, e
aproveitadas até, pela gente que veio trabalhar as minas d'ouro. Mas
ninguem (quero dizer, nenhum branco) as tinha visto antes de mim. Era
uma estrada enorme, magnifica, cortada na rocha viva, levando a uma
galeria sem fim, mettida pela terra dentro, toda de tijolo, e com
grandes pedregulhos de minerio d'ouro empilhados á entrada. Obra
extraordinaria! E a raça que a fizera--desapparecera, sem deixar um
nome, nem outro vestigio de si, além d'aquella estrada e d'aquella
galeria, que revelavam um grande saber, uma grande industria e uma
grande força!
--Curioso! murmurou Evans. Mas conheço melhor!
E contou-me então que no interior, muito no interior, descobrira elle
uma cidade antiquissima, toda em ruinas, que tinha a certeza de ser
Ophir, a famosa Ophir da Biblia. Lembro-me bem a impressão e o assombro
com que eu escutei a historia d'essa cidade phenicia perdida no sertão
d'Africa, com os seus restos de palacios, de piscinas, templos, de
columnas derrocadas!... Mas depois Evans ficára calado, scismando. De
repente diz:
--Tu já ouviste fallar das serras de Suliman, umas grandes serras que
ficam para além do territorio de Machukulumbe, a noroeste?
--Não, nunca ouvi.
--Pois, meu rapaz, ahi é que Salomão verdadeiramente tinha as suas
minas, as suas minas de diamantes!
--Como se sabe?
--Como se sabe!? Tem graça! Sabe-se perfeitamente. O que é _Suliman_
senão uma corrupção de _Salomão_? O nome das serras, realmente, sempre
foi _serras de Salomão_. Além d'isso, uma feiticeira do districto de
Manica, uma velha de mais de cem annos, contou-me tudo... Isto é,
contou-me que para lá das serras vive um povo que é da raça dos Zulús, e
falla um dialecto zulú: mas como força, e corpulencia, e coragem, vale
mais que os Zulús. Pois n'esse povo ha videntes, grandes feiticeiros,
que de geração em geração têm trazido o segredo d'uma mina prodigiosa,
que foi d'um rei branco, muito antigo, e que ainda hoje está cheia de
pedras brancas que reluzem... De sorte que não ha duvida nenhuma.
Para mim havia toda a duvida. As minas d'Ophir interessavam-me, como da
nossa crença e da Biblia: mas das minas de _pedras brancas que reluzem_,
conhecidas em segredo por feiticeiros zulús, teria certamente rido se
não fôra o respeito devido a um caçador tão digno como Evans. De
madrugada Evans partiu, a acabar tristemente nas pontas d'um bufalo. E
não pensei mais em Salomão, nem nas suas minas de diamantes.
Aqui ha vinte annos porém, n'um encontro muito singular que tive no
districto de Manica, de novo ouvi fallar das minas de Salomão, e d'um
modo que para sempre me devia impressionar. Era n'um sitio chamado a
«aringa de Sitanda». Não ha peor em toda a Africa. Fructa nenhuma, caça
nenhuma, tudo sêcco, tudo triste--e os pretos vendem os ossos d'um
frango por fazenda que vale uma vacca.
Apanhei lá um ataque de febre, e estava fraquissimo, enfastiadissimo,
quando me appareceu um dia um portuguez de Lourenço Marques, acompanhado
por um serviçal mestiço. Entre os portuguezes de Lourenço Marques--ha
soffrivel e ha pessimo. Mas este era dos melhores que eu vira--um homem
muito alto e muito magro, de bellos olhos negros, os bigodes já
grisalhos todos retorcidos, e umas maneiras graves que me fizeram pensar
nos velhos fidalgos portuguezes que aqui vieram ha seculos e de que
tanto se lê nas historias. Conversámos bastante n'essa noite, porque
elle fallava um bocado de mau inglez, eu um bocado de mau portuguez; e
soube que se chamava José Silveira, e que possuia uma fazenda ao pé da
cidade, em Lourenço Marques.
Na manhã seguinte, cedo, antes de partir com o mestiço acordou-me para
se despedir, de chapéo na mão, cortez e grave como os antigos, os que
tinham _Dom_.
--Até mais vêr, camarada!
--Boa viagem! até mais vêr!
O homem conservava, pregados em mim, os grandes olhos negros que
rebrilhavam. Depois accrescentou muito sério:
--Se nos tornarmos outra vez a encontrar, hei de ser a pessoa mais rica
d'este mundo! E póde contar, camarada, que não me hei de esquecer de si!
Nem ri. Estava muito debilitado para rir. Fiquei estirado na manta
olhando para o estranho homem que, a grandes passadas, com a cabeça alta
e cheia de esperança, se mettia pelo matto dentro.
Passou uma semana, e melhorei da febre. Uma tarde achava-me sentado no
chão defronte da barraca, rilhando a ultima perna d'um d'esses frangos
que os pretos me vendiam por chita do valor d'uma vacca, e pasmando para
o enorme disco do sol que descia ao fundo do deserto--quando de repente
avistei, escura sobre a vermelhidão do poente, n'uma elevação de
terreno, a figura d'um homem que era certamente europeu porque trazia um
casacão comprido. No momento mesmo em que eu dera com os olhos n'elle, o
homem oscilla, cae de bruços e começa a arrastar-se pelo chão,
lentamente! Com um esforço desesperado, ainda se ergueu, e tentou pelo
comoro abaixo alguns passos que cambaleavam. Por fim tombou de novo, e
ficou estirado, como morto, contra um tufo de tojo alto. Gritei a um dos
meus caçadores que acudisse. E quando elle voltou, amparando o homem nos
braços--quem hei de eu vêr? O José Silveira!
José Silveira--ou antes o seu miseravel esqueleto, com todos os ossos
rompendo para fóra da pelle, mais sêcca que pergaminho e amarella como
gema de ovos. Os olhos saltavam-lhe da cara, á maneira de dois bugalhos
de sangue. E o cabello que eu lhe vira grisalho, vinha branco, todo
branco como uma bella estriga de linho.
--Agua! gemeu elle. Agua, pelas cinco chagas de Christo!
O infeliz tinha os beiços horrivelmente estalados, e entre elles a
lingua pendia-lhe, toda inchada e toda negra! Dei-lhe agua com leite, de
que bebeu talvez dois quartilhos, a grandes sorvos, e sem parar. Foi
necessario arrancar-lhe a vasilha. Depois cahiu de costas, rompeu a
delirar. Ora gemia, ora gritava. E era sempre sobre as serras de
Suliman, os diamantes e o deserto!
Levei-o para dentro da tenda: e, com o pouco que tinha, fiz o pouco que
podia. O homem estava perdido. Rente da meia noite socegou. Eu,
esfalfado, adormeci. Acordei de madrugada; e, ao primeiro alvor da luz,
dou com elle (fórma sinistra!) de joelhos, á porta da barraca, de olhos
cravados para o longe, para o deserto! N'esse instante, um raio de sol
que nascia frechou através do vasto descampado, e foi bater ao fundo, a
cem milhas de nós, o pico mais alto das serras de Suliman. O homem
soltou um grito, atirou desesperadamente para diante os dois braços de
esqueleto:
--Lá estão ellas, Santo Deus, lá estão ellas!... E dizer que não pude lá
chegar! Parecem tão perto! Logo alli, uns passos mais... E agora
acabou-se, estou perdido, ninguem mais póde lá ir!
De repente emmudeceu. Depois virou para mim, muito devagar, a face
livida e como esgazeada por uma idéa brusca.
--Ó camarada, onde está vossê?... Já o não distingo, vai-me a fugir a
vista!
--Estou aqui; socegue, homem.
--Tenho tempo para socegar, tenho toda a eternidade! Escute. Eu estou a
morrer. Vossê tem sido bom commigo, camarada... E para que havia eu de
levar o segredo para debaixo da terra? Ao menos alguem se aproveita!
Talvez vossê lá possa chegar, se conseguir atravessar esse deserto que
matou o meu pobre creado, que me está a matar a mim...
Começou então a procurar tremulamente dentro do peito da camisa. Tirou
por fim uma especie de bolsa de tabaco, já velha, apertada com uma
correia. Estava tão fraco que as suas pobres mãos nem puderam desfazer o
nó. Fez-me um gesto, um gesto exhausto, para que eu o desatasse. Dentro
havia um farrapo de linho amarellado, com linhas escriptas, n'um tom
antiquissimo, de côr de ferrugem. E dentro do farrapo estava um papel
dobrado.
--O papel, murmurou elle n'uma voz que se extinguia, é a cópia do que
está escripto no trapo. Levou-me annos a decifrar, a entender... Foi um
antepassado meu, um dos primeiros portuguezes que vieram a Lourenço
Marques, que escreveu isso, quando estava para morrer acolá n'aquellas
serras. Chamava-se D. José da Silveira, e já lá vão trezentos annos...
Um escravo que ia com elle, e que ficára a esperar, do lado de cá do
monte, vendo que o amo não voltava procurou-o, foi dar com elle morto, e
trouxe para Lourenço Marques o bocado de linho que tinha letras. Desde
então ficou guardado na nossa familia. Ha trezentos annos! E ninguem
pensou em o decifrar até que eu me metti n'isso... Custou-me a vida. Mas
talvez outro consiga. Talvez outro chegue lá, ás malditas serras! Será
então o homem mais rico d'este mundo! O mais rico, o mais rico! Tente
vossê, camarada... Não dê o papel a ninguem! Vá vossê!
As ultimas palavras sahiram como um debil sopro. Cahiu de costas,
recomeçou a delirar. D'ahi a uma hora tudo acabou, Deus tenha a sua alma
em descanço! Morreu serenamente, sem esforço e sem dôr. Por minhas mãos
o enterrei, bem fundo na terra, com fortes pedregulhos por cima do
peito. Ao menos assim não darão com elle os chacaes.
Foi ao pé da cova, onde o desgraçado jazia, que examinei o documento.
Era, como disse, um farrapo de linho, rasgado d'uma fralda de camisa e
do tamanho d'um palmo. No topo tinha os traços de um mappa, ou de um
roteiro, rapidamente e toscamente lançados. Era pouco mais ou menos
isto:
[Figura]
Por baixo vinham linhas escriptas, n'uma letra muito antiga e côr de
ferrugem. Para mim eram inintelligiveis. Mas o papel continha a
decifração, e dizia assim:
«Estou morrendo de fome, n'uma cova da banda norte d'um d'estes montes a
que dei o nome de «Seios de Sabá», no que fica mais a sul. Sou D. José
da Silveira, e escrevo isto no anno de 1590, com um pedaço d'osso, n'um
farrapo da camisa, tendo por tinta o meu sangue. Se o meu escravo aqui
voltar, reparar n'este escripto, e o levar para Lourenço Marques, que o
meu amigo [_aqui um nome illegivel_], logo pela primeira nau que passar
para o Reino, mande estas coisas ao conhecimento d'El-Rei, para que Elle
remetta uma armada a Lourenço Marques, com um troço de gente, que se
conseguir atravessar o deserto, vencer os Kakuanas que são valentes, e
desfazer os seus feitiços (devem vir muitos missionarios) tornarão Sua
Alteza o mais rico Rei da Christandade. Com meus proprios olhos vi os
diamantes sem conto amontoados n'um subterraneo que era o deposito dos
thesouros de Salomão, e que fica por traz d'uma figura da Morte. Mas por
traição de Gagula, a feiticeira dos Kakuanas, nada pude trazer, apenas a
vida! Quem vier siga o mappa que tracei, e trepe pelas neves que cobrem
o Seio de Sabá, o esquerdo, até chegar ao cimo, d'onde verá logo, para o
lado norte, a grande calçada feita por Salomão. D'ahi siga sempre, e em
tres dias de marcha encontrará a aringa do rei. Quem quer que venha que
mate Gagula. Rezem pelo descanço da minha alma. Que El-Rei Nosso Senhor
seja logo avisado. Adeus a todos n'esta vida!»
Tal era o extraordinario documento que textualmente li ao barão Curtis e
ao capitão, porque trazia sempre commigo (e ainda trago) uma traducção
d'elle, em inglez, na carteira.
Quando acabei, os dois amigos olhavam para mim, mudos de espanto. Por
fim o capitão, com o leve suspiro de quem repousa d'uma prolongada
emoção, bebeu um trago de grog--e mais sereno:
--O nosso amigo o snr. Quartelmar não nos tem estado a intrujar?
Metti com força o papel na algibeira, e, erguendo-me, repliquei
sêccamente:
--Se os cavalheiros assim pensam, não me resta mais nada senão
desejar-lhes muito boas noites!
O barão acudiu, pousando-me no hombro a sua larga mão:
--Pelo amor de Deus, snr. Quartelmar! Nem John, nem eu duvidamos da sua
veracidade. Mas, emfim, tenho ouvido dizer que aqui na colonia é coisa
corrente e bem aceita troçar um pouco os que chegam, os _novatos_
d'Africa... E depois essa historia é tão extraordinaria!
Insisti, ainda offendido:
--O original escripto pelo velho fidalgo no farrapo de camisa, tenho-o
em Durban! Será a primeira coisa que lhes hei de mostrar em chegando!...
Não ha uma palavra...
O barão atalhou gravemente:
--Toda a palavra do snr. Quartelmar é coisa séria, e como tal a tomamos.
Durante um momento ficámos calados. Eu serenei. Por fim o barão, que
dera sobre o tapete do beliche alguns passos pensativos, parou diante de
mim:
--E meu irmão? Como soube o snr. Quartelmar que meu irmão tentou tambem
essa jornada ás minas?
Narrei então o que me succedera com esse sujeito Neville, quando
estavamos acampando, lado a lado, em Bamanguato. Eu não o conhecia; nem
então começámos relações, apesar de termos o gado junto. Mas conhecia
perfeitamente o serviçal que o acompanhava, um chamado Jim. Era um
Bechuana, excellente caçador--e, para Bechuana, esperto,
consideravelmente esperto! Na manhã em que Neville devia metter-se para
o sertão, vi Jim, ao pé do meu carrão, cortando folhas de tabaco.
--Para onde é essa jornada, Jim? perguntei eu, sem curiosidade, só para
mostrar interesse ao rapaz. Ides a elephantes?
Jim mostrou os dentes todos, n'um riso vivo:
--Não, patrão. Vamos a coisa melhor que marfim.
--Melhor que marfim!? Ouro?
--Melhor que ouro! murmurou elle, arreganhando mais a dentuça.
Calei-me, porque não convinha á minha dignidade de patrão e de branco
revelar curiosidade diante d'um Bechuana. Confesso, porém, que fiquei
intrigado. D'ahi a pouco Jim acabou de cortar o tabaco. Mas por alli se
quedou, rondando, coçando devagar os cotovêlos, á espera, com os olhos
em mim. Não dei attenção.
--Ó patrão! murmurou elle, n'uma ancia de desabafar.
Permaneci indifferente, por dignidade. Elle tornou:
--Ó patrão!
--Que é, homem?
--Vamos á procura de diamantes, patrão! atirou-me elle ao ouvido.
--Diamantes!? Boa! Então ides para o lado opposto. Devieis metter
direito ao sul, para as Diamanteiras.
O Bechuana baixou mais a voz:
--Ó patrão! Já ouviu fallar das serras de Suliman? Pois lá é que estão
os diamantes. O patrão nunca ouviu?
--Tenho ouvido muita tolice na minha vida, Jim.
--Não é tolice, patrão. Eu conheci uma mulher que veio de lá, com um
filho, e que vivia no Natal. Morreu ha annos, o filho por lá anda. E foi
ella que me disse tudo. Ha lá diamantes!
--Olha, Jim, o que te digo é que teu amo vai dar de comer aos abutres,
que andam por lá esfomeados. E tu, essa pouca carne que tens nos ossos,
tambem vai d'aqui direitinha aos abutres!
O homem teve outro riso fino:
--A gente tem de morrer, e eu não desgósto de experimentar terras novas.
O elephante por aqui já não rende. O Bechuana cá vai para os diamantes,
e o Bechuana vai cantando!
--Pois quando a morte te agarrar pelas guelas, veremos então se ainda
canta o Bechuana!
Jim abalou. D'ahi a meia hora o carrão do snr. Neville poz-se em marcha
para o norte. Mas não rodára ainda dez jardas, quando Jim voltou para
traz, a correr.
--Adeus, patrão! exclamou. Não me quiz ir de todo sem lhe dizer adeus,
porque me parece que o patrão tem razão, e que nunca mais cá voltamos!
--Ouve cá, Jim, teu amo vai com effeito ás serras de Suliman, ou tudo
isso é patranha?
O Bechuana jurou que não contava patranhas. O amo ia realmente em
demanda das serras e das minas que estavam para além. Ainda na vespera o
amo dissera que, para tentar fortuna na Africa, tanto montava ir em cata
de diamantes, como de ouro ou de ferro. Tudo dependia da sorte, porque
no torrão tudo havia. Assim elle ia aos diamantes, que era o mais rapido
para enriquecer--ou para morrer.
Reflecti um momento.
--Escuta, Jim. Vou escrever umas palavras a teu amo. Mas has de
prometter que não lh'as entregas senão em chegando a Inyati!
Inyati ficava d'ahi a umas quarenta leguas. O Bechuana prometteu.
Rasguei um bocado de papel da carteira, escrevi a lapis estas linhas:
«Quem vier... trepe pelas neves que cobrem o Seio de Sabá, o esquerdo,
até chegar ao cimo, d'onde verá logo, para o lado norte, a grande
calçada feita por Salomão».
--Bem! Ora agora, Jim, quando deres este papel a teu amo dize-lhe que
lh'o manda quem sabe, e que siga bem a indicação! Mas ouviste? Só lh'o
dás quando chegares a Inyati; que eu não quero que elle me volte para
traz e me venha fazer perguntas! Entendeste? Então abala, madraço, que o
carrão come caminho!
Jim agarrou o bilhete e largou a correr. D'ahi a pouco o carrão sumiu-se
por traz das collinas. E isto, em verdade, era tudo o que eu sabia a
respeito d'esse sujeito Neville.
Mal eu acabára, o barão, sem hesitar, e com perfeita simplicidade,
disse:
--Snr. Quartelmar, vim á Africa procurar meu irmão. Desde que alguem o
viu pondo-se em marcha para as serras de Suliman, o que devo a mim mesmo
é marchar tambem para esse lado. Póde ser que o encontre; ou que venha a
saber que morreu; ou que volte sem nada saber, na antiga incerteza; ou
que não volte, como o velho fidalgo. Em todo o caso o meu dever, desde
que me impuz esta tarefa, é tomar o caminho que meu irmão tomou. E agora
pergunto eu: quer o snr. Quartelmar vir commigo?
Tambem não hesitei. Foi logo, de golpe:
--Muitissimo obrigado, snr. barão! Se tentassemos atravessar as
cordilheiras de Suliman, ficavamos lá como os dois Silveiras. Eis a
minha candida convicção. Ora ha em Londres um pobre rapaz que anda nos
seus estudos, que é meu filho, e que me não tem senão a mim n'este
mundo. E por elle, se não já por mim, não me convém por ora morrer. Em
todo o caso agradeço a sua lembrança. É de amigo!
O barão voltou-se para o seu companheiro, com um ar profundamente
desconsolado, e que quasi commovia n'aquelle homem tão robusto e tão
nobre. O outro murmurou:--«É pena, grande pena!»
--Snr. Quartelmar! exclamou então o barão. Quando eu me metto n'uma
empreza, tudo sacrifico para a levar a cabo. Eu tenho fortuna, uma
grande fortuna, e necessito do seu auxilio. O snr. Quartelmar póde
portanto pedir-me o que quizer pelos seus serviços, já não digo dentro
do razoavel, mas dentro do possivel. Além d'isso, apenas chegarmos a
Durban, vamos a um tabellião, e eu obrigo-me por uma escriptura a
continuar a educação de seu filho, no caso de lhe acontecer a si um
desastre, ou a deixar-lhe uma independencia, no caso de eu estourar
tambem. Vê que estou prompto a tudo. Ainda mais. Se por acaso
descobrissemos os diamantes, metade d'elles ficariam pertencendo ao snr.
Quartelmar, outra metade ao capitão John. É verdade que nenhum de nós
acredita nos diamantes, e portanto esta vantagem conta como zero. Mas
podemos applicar a mesma regra a ouro ou marfim, qualquer fazenda que
encontrarmos. Finalmente escuso de dizer que todas as despezas da
expedição correm por minha conta. Creio que não posso fazer mais.
Eu olhava para elle, deslumbrado:
--Barão, essa proposta é a mais generosa que tenho recebido na minha
vida! Mas tambem, que diabo, a empreza seria a mais arriscada em que me
tenho mettido... Preciso pensar. E antes de chegar a Durban eu lhe darei
a resposta. Por hoje ficamos aqui.
--Ficamos aqui por hoje! acudiu o capitão, erguendo-se, e respirando com
allivio.
Com effeito era tarde. Dei as boas-noites aos dois cavalheiros; e no meu
beliche, até de madrugada, sonhei com o antigo D. José da Silveira, com
El-Rei Salomão, e com montões de pedras que reluziam no fundo d'uma
caverna.
CAPITULO III
O HOMEM CHAMADO UMBOPA
Durante o resto da jornada pensei constantemente na proposta do barão.
Mas nem eu nem elle voltamos a fallar de Neville ou da travessia para as
minas. Na tolda e no beliche as nossas conversas rolavam todas sobre
caça, sobre aventuras de caça na Africa. Os dois, homens de grande
_sport_, não se fartavam de escutar. E eu, velho palrador, cheio de
memorias e já anecdotico, não me fartava de contar.
Finalmente, n'uma esplendida tarde de janeiro (que é aqui o mez mais
quente do anno) avistámos a costa de Natal--com a esperança de dobrar a
ponta de Durban ao sol-posto. Toda esta costa é adoravel, com as suas
longas dunas avermelhadas, os ricos tapetes de verdura clara, as alegres
aringas dos Cafres espalhadas aqui e além, e a orla espumosa e alva do
mar que rebenta nas rochas. Mas, justamente perto de Durban, a região
toma uma incomparavel riqueza de tons. Nas ravinas, cavadas pelas
enxurradas de seculos, faiscam riachos innumeraveis: o verde do matto é
mais intenso: os outros verdes de jardins entremeiam-se com as
plantações d'assucar: e a espaços uma casa muito branca, sorrindo para a
azul placidez do mar, põe uma linda nota, humana e domestica, na
vastidão da paizagem.
Como disse, contavamos dobrar, antes do sol-posto, a ponta de Durban.
Mas quando deitámos ancora já era crepusculo cerrado, tarde de mais para
entrar a barra. Tinhamos ainda essa noite a bordo: e descemos ao salão,
para um jantar quieto em aguas serenas, depois de vêr o salva-vidas
remar para terra com as malas do correio.
Quando voltámos á tolda, a lua ia alta, e tão brilhante sobre mar e
praia, que quasi offuscava os lampejos largos do pharol. De terra
vinham, através do ar calmo, aquelles picantes e dôces aromas de
especiarias, que, não sei por quê, me fazem sempre lembrar hymnos de
egreja e missionarios. O bairro de Berea parecia em festa, com todas as
varandas alumiadas. N'um grande brigue, ancorado ao lado, os marinheiros
estavam cantando, ao som do _banjo_. Era uma noite d'encanto, como só as
ha n'este abençoado sul d'Africa, que lançava sobre a alma uma infinita
paz, infinita e suave como a luz que derramava a lua cheia. Até o
bull-dog d'um passageiro irlandez, que não cessára de rosnar ferozmente
durante toda a jornada, cedera emfim ás pacificadoras influencias do
sul, e dormia, estirado no convés, com um ar de tregoa e de perdão aos
homens.
O barão, o capitão John e eu, estavamos sentados junto á roda do leme,
olhando e fumando em silencio.
--Então, snr. Quartelmar? exclamou de repente o barão, sorrindo. Aqui
estamos em Durban... Pensou nas nossas propostas?
--Vamos ou não vamos de companhia á busca do snr. Neville? echoou do
lado o amigo John.
Não tugi. Mas ergui-me, e fui devagar sacudir para fóra da amurada a
cinza do meu cachimbo. A verdade é que, depois de muito matutar, eu
ainda não tomára uma resolução,--ou antes a minha resolução permanecia
vaga, informe, mal assente, necessitando um pequeno impulso exterior que
a definisse e a fixasse. E foi justamente aquella exclamação risonha dos
dois, o movimento de me erguer e de me abeirar da amurada, que tudo
fixou e definiu no meu animo. Ainda a cinza não cahira na agua e já eu
estava resolvido a partir.
--Pensei e vou! declarei, voltando a sentar-me. E se os cavalheiros me
dão licença, direi as razões por quê, e as condições com quê.
Expuz logo as condições, muito claramente:
O barão, em primeiro logar, corria com todas as despezas; e qualquer
achado de valor, diamantes, ouro ou marfim, feito durante a expedição,
seria irmãmente dividido entre mim e o capitão John. Em segundo logar, o
barão pagar-me-hia em dinheiro de contado, antes de partirmos,
quinhentas libras, compromettendo-me eu a acompanhal-o e fielmente
servil-o até que a jornada terminasse ou por um triumpho, ou por um
desastre, ou simplesmente por se reconhecer a sua inutilidade. Em
terceiro logar, o barão obrigar-se-hia por uma escriptura a dar
annualmente a meu filho, emquanto durassem os seus estudos, uma pensão
de duzentas libras, no caso de eu morrer ou ficar inutilisado...
Ainda eu não findára, já o barão aceitára tudo, largamente, alegremente!
«O que eu quero, seja por que preço fôr (dizia elle), é a sua companhia,
snr. Quartelmar, é o soccorro da sua experiencia!»
--Muito bem. Pois agora, depois de dizer as condições em que vou, quero
dizer as razões por que vou. É porque se nós tentarmos atravessar as
serras de Suliman, não voltamos de lá vivos! O que succedeu ao velho
Silveira, ao que tinha _Dom_, ha trezentos annos; o que succedeu ao
outro, ao que não tinha _Dom_, aqui ha vinte; o que succedeu
naturalmente ao snr. Neville, é o que nos vai succeder a nós! Não
sahimos de lá vivos.
Olhei attentamente para os dois homens. O amigo John arripiou um bocado
a face. O barão ficou impassivel, murmurando apenas:--«Corremos-lhe o
risco!»
Eu prosegui:
--Agora dirão os cavalheiros: «Se julgas que não sahes de lá vivo, para
que vaes lá?» Em primeiro logar, porque sou fatalista. Se Deus já
decidiu que eu hei de morrer nas montanhas de Suliman, nas montanhas de
Suliman hei de morrer ainda que lá não vá. E se Deus decidiu já o
contrario, posso lá ir impunemente e de cara alegre. Isto é claro. Em
segundo logar, estou velho, e já vivi tres vezes mais do que costuma
viver na Africa um caçador de elephantes. De sorte que, continuando
n'esta carreira, e desgraçadamente não tenho outra, que posso eu durar
ainda? Uns annos. Ora se morresse agora, com as dividas que me pesam em
cima, o meu pobre rapaz ficava n'uma situação má, coitado d'elle!
Emquanto que assim, com quinhentas libras soantes, saldo as dividas; e
se estourar, o meu rapaz tem diante de si duzentas libras por anno para
acabar o curso e para se estabelecer. Ora aqui têm os cavalheiros a
coisa em duas palavras.
O barão ergueu-se, excellente homem! e apertou-me as mãos com effusão.
--Essas razões, a ultima sobretudo, fazem-lhe immensa honra, snr.
Quartelmar. Immensa honra! Emquanto a sahirmos vivos ou não da aventura,
o tempo dirá. Eu por mim estou decidido a ir até ao cabo, seja qual fôr,
triumpho ou morte! Em todo o caso se temos assim de morrer tão cedo, não
me parecia mau que antes d'isso, pelo caminho, arranjassemos uma batida
aos elephantes. Sempre desejei caçar o elephante, e com a perspectiva de
deixar assim os ossos nas serras de Suliman, é prudente que me
apresse... Não é verdade, John?
--Com certeza!... De resto, todos nós vimos já muitas vezes a morte
diante dos olhos. É um detalhe; para que se ha de insistir n'elle?
Viemos á Africa com certo fim. Ha perigos? Acabou-se. Deus é grande.
--Está tudo portanto decidido, conclui eu, e parece-me que chegou a
occasião d'um grog.
Fomos ao grog.
No dia seguinte desembarcámos. Alojei os meus amigos n'uma «barraca» que
possuo na Berea, e a que chamo em dias d'orgulho «a minha casa». É
construida de tijolo, com um telhado de zinco que abriga tres quartos e
uma cozinha. Em redor, porém, está plantado um bom jardim, com
esplendidas arvores e flôres, que um dos meus caçadores, chamado Jack,
traz lindamente tratadas. É um pobre homem a quem um bufalo esmigalhou a
perna na terra dos Sikukunes. Já não póde seguir a caça; mas na sua
qualidade de Griqua, jardina bem--coisa que um Zulú nunca faria
decentemente. O Zulú tem horror ás artes da paz.
O barão e o seu amigo dormiram n'uma tenda que lhes armei no jardim
(dentro de casa não havia espaço), no meio do laranjal. Aqui em Durban
as laranjeiras têm ao mesmo tempo a flôr e o fructo: de sorte que com o
perfume todo em torno, e o brilho das laranjas côr d'ouro, e o murmurio
d'aguas correntes, o sitio era aprazivel e grato. Ha peor na Europa.
Logo no dia seguinte, sem mais tardança, começámos os preparativos.
Antes de tudo fomos ao tabellião lavrar a escriptura em que o barão se
obrigava a pensionar o meu rapaz: houve difficuldade por jazerem em
Inglaterra as propriedades do barão: mas arranjou-se uma «tangente», e
segura, graças ás artes de um Advogado, que pelos seus serviços
apresentou a conta infame de vinte libras! Depois recebi o meu cheque de
quinhentas libras. Satisfeita assim a prudencia, passámos a comprar o
carrão e as juntas de bois. Descobrimos um carrão excellente, com eixos
de ferro, solido e leve, que já fizera uma excursão a Lourenço
Marques--o que garantia a firmeza e resistencia das madeiras. Era um
carrão dos que chamamos de _meia-tenda_--isto é, toldado sómente até ao
meio, e aberto em frente para as bagagens. Sob o toldo tinha almofadões
onde podiam dormir bem duas pessoas: além d'isso suspensões para as
espingardas e bolsos de guardar roupa. Custou-nos cento e vinte e cinco
libras, e sahiu barato. As juntas de bois eram dez, magnificas.
Ordinariamente para uma jornada atrellam-se oito juntas: mas para uma
aventura d'estas, vinte bois não vão de mais. Todos eram de raça zulú, a
mais pequena d'Africa, mas a melhor; e todos elles _salgados_. Chamamos
aqui _salgados_ aos bois já muito jornadeados pelo sul d'Africa, e á
prova portanto da «agua vermelha»--que destroe ás vezes todas as juntas
d'um carrão. Além d'isso, todos tinham sido vaccinados contra a _maleita
de pulmões_, fórma horrivel de pneumonia, que é n'estas terras um
flagello para o gado.
Em seguida organisámos provisões e remedios. Este detalhe demandava
sciencia e cuidado, porque convinha, n'uma empreza tão accidentada, que
nem faltasse o necessario, nem o carrão partisse abarrotado e carregado
em demasia. Para os remedios foi-nos de grande utilidade o capitão John,
que em tempos estudára para medico da Armada, e que (além de possuir,
muito a proposito para nós, um estojo de cirurgia e uma pharmacia de
viagem) conservára conhecimentos genericos e uma toleravel pratica.
Durante a nossa estada em Durban cortou elle o dedo pollegar a um Cafre
com uma maestria--que fazia appetite vêr! O que o perturbou foi o Cafre
(que observára a operação em perfeita impassibilidade) pedir-lhe depois
para lhe pôr _outro dedo novo_.
Restava emfim a importante questão de creados e armas. Armas tinhamos
por onde as escolher--entre as que eu possuia e a collecção esplendida
que o barão trouxera de Inglaterra. Sete espingardas de dois canos para
differentes cargas e differentes caças, tres carabinas Winchester, tres
rewolvers Colts--assim ficou constituido o nosso armamento. Emquanto a
creados, depois de muita consulta e reflexão, decidimos limitar o numero
a cinco--um guia, um boieiro, e tres serviçaes. Boieiro e guia achámos
nós facilmente em dois Zulús, que se chamavam--um Goza e outro Tom. Mas
os serviçaes eram de mais difficil e delicada escolha. Da paciencia, da
fidelidade, da coragem dos serviçaes poderiam muitas vezes depender as
nossas pobres vidas n'esta aventura sem igual.
Finalmente arranjei dois, um Hottentote chamado Venvogel, e um rapazito
zulú, de nome Khiva, que tinha o merito (consideravel para os meus
companheiros) de fallar inglez com fluencia. O Hottentote já eu
conhecia. Era um dos melhores «farejadores de caça» de toda a Africa.
Ninguem mais rijo nem mais resistente. O seu defeito sério consistia na
_bebida_. Mas como iamos para região onde não ha «aguas-ardentes» nem
quasi aguas correntes, pouco importava esta fragilidade do digno
Venvogel.
Tinhamos pois dois serviçaes. O terceiro parecia impossivel descortinar.
Tentei, tentei--até que resolvemos partir sem elle, esperando encontrar,
antes de mettermos para o deserto, algum homem aproveitavel entre Inyati
e Zukanga. Na vespera porém da nossa partida estavamos jantando, quando
Khiva, o rapaz zulú, veio annunciar que um homem se viera sentar no meu
portal, á minha espera. Mandei entrar. Appareceu um rapagão muito
esbelto, robusto, magnifico, apparentando trinta annos, e claro de mais
para Zulú. Floreou no ar o cajado á maneira de saudação, encruzou-se
sobre o soalho, a um canto, e ficou calado com singular dignidade. Não
lhe dei logo attenção. Assim se deve proceder com os Zulús. Se o branco
lhes falla com promptidão e agrado o Zulú conclue immediatamente que
está tratando com pessoa _de pouco commando_. Observei no emtanto que
este homem era um _Keslha_, um _homem-de-annel_--isto é, que trazia na
cabeça aquella especie de rodilha, feita de gomma, e toda lustrosa de
sebo, que elles entremeiam na grenha e usam, quando chegam a uma _idade
de respeito_ ou attingem nas suas aringas uma posição superior. Tambem
me pareceu reconhecer aquella cara--realmente bella.
--Bem, disse por fim, como te chamas?
--Umbopa, respondeu o homem n'uma voz lenta e grave.
--Estou a pensar que já te vi algures.
--Já, Makumazan!
_Makumazan_ é o meu nome cafre--e significa aquelle que se levanta pelo
meio da noite para vigiar; ou antes, aquelle que conserva sempre os
olhos bem abertos.
--Makumazan, continuou o Zulú, viu-me em Izand-luana, na vespera da
batalha...
Lembrei-me então completamente. Eu fui um dos guias de Lord Chelmsford,
na desgraçada guerra com os Zulús. Por acaso, na vespera da batalha de
Izand-luana, que consummou o desastre das tropas inglezas, fui mandando
levar para fóra do acampamento uns poucos de carrões de bagagens. Quando
se estava atrellando o gado, este homem (que commandava um troço de
Cafres, dos indigenas auxiliares) veio para mim, dizendo que o
acampamento não estava seguro, que era certa uma surpreza, e que o vento
_trazia cheiro de inimigo_. Respondi-lhe que «dobrasse a lingua», e
deixasse a segurança do acampamento a melhores cabeças que a d'elle.
Pois grande razão tinha o Zulú! Logo n'essa noite o acampamento foi
terrivelmente assaltado... Tudo isso porém vem na Historia.
--Que queres tu? perguntei. Lembro-me perfeitamente de ti. Dize o que
queres.
--Quero isto. Correu aqui voz que Makumazan vai para o norte, n'uma
grande expedição, com os chefes brancos que vieram d'além do mar. É
verdadeira a voz?
--Verdadeira.
--Correu aqui tambem voz que Makumazan e os chefes iam para o rio
Lukanga, que fica a um bom quarto de lua de jornada do districto de
Manica. É verdade?
Franzi o sobr'olho, descontente de vêr assim tão conhecido o roteiro da
nossa expedição.
--Para que queres tu saber? que tens com isso?
--Tenho isto, oh brancos! Que se ides assim para tão longe, eu quereria
ir comvosco.
Havia uma altivez nas maneiras d'este homem, e especialmente no seu
emprego da expressão «_oh brancos_» em logar de «_oh inkosis_» (chefes),
que me surprehendeu grandemente.
--Estás esquecendo a quem fallas! repliquei. As palavras sahem-te
demasiadas e imprudentes. Como é o teu nome? onde é a tua aringa? É
necessario saber quem temos diante de nós!
--O meu nome é Umbopa. Sou da raça dos Zulús, mas não sou Zulú. O sitio
da minha tribu é muito longe, para o norte: os meus ficaram lá quando os
Zulús desceram para aqui, ha muito, ha mais de mil annos, antes de Chaka
ser rei. Não tenho aringa. Muitos annos vão que ando errante. Quando vim
do norte era creança. Depois fui dos homens de Cetewayo no regimento de
Nomabakosi. Por fim fugi dos Zulús, e vim para o Natal para vêr as artes
dos brancos. Foi então que servi na guerra contra Cetewayo, e que te
encontrei, Makumazan! Agora tenho trabalhado no Natal. Mas estou farto,
quero ir para o norte. O meu logar não é aqui. Não peço soldada, mas sou
valente, e valho bem o pão que comer. Eis as palavras que tinha a dizer.
Este homem e a sua grande maneira de fallar--intrigavam-me
singularmente. Era certo para mim que só dissera a verdade: mas na côr,
nos modos, differia muito do Zulú ordinario; e a sua offerta de vir
comnosco sem soldada, extraordinaria n'um Africano, enchia-me de
desconfiança.
Na duvida traduzi as estranhas fallas aos meus amigos, solicitei-lhes
conselho. O barão pediu-me que mandasse pôr o homem de pé. Umbopa
ergueu-se, deixando escorregar ao mesmo tempo o vasto casacão militar
que o envolvia, e ficou diante de nós, mudo, erecto, soberbo, todo nú,
com um simples pedaço de pano em torno dos rins e um fio de garras de
leão enrolado ao pescoço. Era, realmente, um esplendido homem! Tinha
mais de dois metros de altura, e largo em proporção, agil, admiravel de
fórmas. Na luz da sala em que estavamos, a pelle parecia apenas muito
trigueira, como a d'um arabe. Aqui e além, pelo corpo, conservava
cicatrizes terriveis de antigos golpes de zagaia.
O barão foi direito a elle, e cravou-lhe os olhos nos olhos, que se não
baixaram, e que rebrilharam:
--Gósto de ti, Umbopa, disse em inglez, e tomo-te ao meu serviço.
Umbopa evidentemente comprehendeu, porque murmurou em zulú:
--Está bem.
Depois, atirando um olhar para a grande estatura e força do branco,
accrescentou:
--Somos dois homens, tu e eu!
CAPITULO IV
OS ELEPHANTES
Sahimos de Durban no fim de janeiro, e andadas quasi as trezentas leguas
que vão d'aqui ao sitio em que se juntam os rios Lukanga e Kalukue,
chegámos, pelos meados de maio, a Inyati, não longe da aringa de
Sitanda, onde acampámos. Durante a jornada tivemos aventuras varias, mas
d'aquellas que são usuaes em todas as travessias d'Africa e já muito
contadas nos livros. Em Inyati, ultima estação mercante da terra dos
Matabeles, onde Lobengula (esse atroz velhaco!) é rei, separámo-nos, com
fundas saudades, do nosso confortavel carrão. Dos vinte bois que
trouxeramos de Durban, só doze restavam. Um morrera da mordedura da
cobra, tres da falta d'agua; um perdeu-se; os outros tres comeram uma
herva venenosa, chamada _tulipa_. Os restantes deixámol-os com o wagon
ao cuidado de Goza e de Tom (o boieiro e o guia), pedindo a um digno
Missionario escossez que habita aquelle desterro, que caridosamente nos
vigiasse o carrão, o gado e os homens. E no dia seguinte, acompanhados
por Umbopa, Khiva, Venvogel, e meia duzia de carregadores que arranjámos
em Inyati, largámos para o deserto, a pé, em seguimento da nossa
temeraria aventura.
Era de madrugada; e lembrei-me que no momento de nos pôrmos em marcha
estavamos todos tres bem commovidos! Cada um perguntava a si mesmo,
decerto, se jámais tornaria a vêr o carrão, os bois e o Missionario. Eu
por mim levava a certeza _que não_. Os primeiros passos foram lentos,
dados em grave silencio. Mas de repente Umbopa, que marchava na frente,
rompeu n'um grande canto--uma canção zulú, dizendo d'uns homens que,
cansados da vida e da monotonia das coisas, se tinham mettido ao
deserto, para achar occupação ou morrer, e que, para além dos sertões,
subitamente, encontravam um paraiso cheio de raparigas moças, de gado,
de caça, e de inimigos para matar! Esta canção pareceu-nos de boa
promessa.
A quinze dias de marcha de Inyati começámos a atravessar uma região
arborisada e farta em aguas. As collinas estavam espessamente cobertas
de matto que os indigenas chamam _idaro_: e por toda a parte se
estendiam bosques de _machabelas_, arvores que dão um fructo amarello,
enorme, quasi todo caroço, mas deliciosamente fresco e dôce. As folhas e
fructos d'estas arvores são o alimento querido dos elephantes; e decerto
os immensos animaes andavam perto, porque a cada passo topavamos
arbustos quebrados e desarraigados. O elephante por onde vai comendo,
vai assolando.
Uma tarde, depois d'uma caminhada fatigante, chegámos a um sitio
particularmente pittoresco e de amavel repouso. Era junto de um outeiro
todo vestido d'arvoredo. Ao pé serpeava o leito sêcco d'um rio,
conservando ainda aqui e além poças de agua crystallina e fria,
espesinhadas em redor pelas largas pégadas de feras. Em frente verdejava
um bello parque de mimosas, machabelas e outras arvores ainda, raras e
cheias de flôr:--e em torno era o matto, o matto silencioso, denso,
impenetravel.
Decidimos ficar alli e construir um _scherm_, a pouca distancia d'uma
das poças d'agua. O _scherm_ é uma especie de acampamento
entrincheirado, que se faz cortando grande quantidade de matto espinhoso
e armando-o circularmente n'uma vasta e rude sebe que fórma defeza. Todo
o espaço interior se aplaina como uma arena: ao centro amontôa-se herva
sêcca, um capim chamado _tambouki_, que serve de divan e de cama; aqui e
além, em volta, accendem-se alegres fogueiras.
Quando acabámos de arranjar o _scherm_--vinha nascendo a lua. O jantar
estava prompto. Bem parco era elle, composto dos tutanos e lombos d'uma
girafa, que n'essa tarde, ao fim da sésta, fôra morta pelo capitão John
com um tiro providencial. Mas depois de coração de elephante (a mais
fina delicia que se póde ter), tutano e lombo de girafa são os petiscos
superiores d'Africa, e grandemente os saboreámos sob o esplendor da lua
cheia, que ia alta nos céos. Depois accendemos os cachimbos, e
conversámos no vasto silencio em roda do lume.
Os meus companheiros não se fartavam de contemplar aquella scena de
sertão, familiar para mim, com os meus quarenta annos d'Africa, mas que
a elles só offerecia estranhezas--até na maneira por que as claridades
alumiam, até na maneira por que a noite é silenciosa. Eu por mim,
confesso, admirava sobretudo o nosso excellente capitão John. Alli
estava elle, no interior da Terra-Negra, em pleno deserto, estirado em
cima d'um sacco de couro,--tão apurado, tão correcto, tão bem pregado,
como se viesse de passear n'um parque luxuoso de castello inglez, em dia
de caça ao faisão. Tinha um facto completo de cheviote castanho, com
chapéo da mesma fazenda, polainas irreprehensiveis, luvas amarellas de
pelle de cão, a face escanhoada, monoculo no olho, os dentes postiços
rebrilhando em gloria! Nunca o sertão africano vira decerto um homem
mais catita. Até trazia collarinhos altos (collarinhos de gutta-percha),
de que emmalára na mochila uma escandalosa porção--«por serem leves
(dizia elle), faceis de lavar, e dar logo á gente um ar de asseio e
distincção».
Pois assim estivemos muito tempo, sob o magnifico luar, conversando e
observando os Cafres, que chupavam a _dacca_ nos seus longos cachimbos
feitos de cornos de _eland_, e que, um por um, se iam enrolando nas
mantas e estirando á beira do lume. Só Umbopa por fim ficou acordado,
longe dos Cafres (a quem geralmente não admittia familiaridades), com o
queixo encostado ao punho, os olhos perdidos na lua, n'uma d'aquellas
abstracções em que por vezes eu o surprehendera desde o começo da nossa
jornada.
De repente, da profundidade do matto, por traz de nós, subiu no ar um
longo e rouco rugido. «É um leão!» exclamei. Todos nos erguemos, a
escutar. Quasi immediatamente, junto á poça d'agua pura, visinha do
nosso _scherm_, resoou como em resposta a estridente trompa d'um
elephante. «_Unkungunlovo_! _Unkungunlovo_!»[1], murmuram á uma os Cafres,
levantando as cabeças das mantas:--e momentos depois avistámos uma fila
de enormes e escuras fórmas, movendo-se devagar da beira da agua para o
matto. O capitão, com um salto, agarrára a espingarda. Tive de o segurar
pelo braço:
--É inutil, não se faz nada. Nada de barulho. Deixal-os ir.
--Em todo o caso, disse o barão excitado, este sitio para um caçador é
um verdadeiro paraiso! Se aqui ficassemos um dia ou dois?...
Estranhei: porque até ahi o barão, impaciente, viera-nos sempre
apressando para diante--sobretudo desde que soubera em Inyati, pelo
Missionario, que dois annos antes um inglez, chamado Neville, vendera
alli o carrão em que viera de Bamanguato e se internára no sertão com um
Cafre por serviçal. Mas ouvira o leão, ouvira o elephante--e os seus
instinctos de caçador dominavam, irresistivelmente.
--Pois muito bem, filhos meus, disse eu, uma vez que se quer um bocado
de divertimento, ter-se-ha; mas ámanhã. Por agora é tratar de dormir, e
erguer com o primeiro luzir do dia, para apanhar esse rico gado antes
que elle vá aos seus negocios. Toca pois a accommodar.
O capitão John (extraordinario homem!) tirou o fato, sacudiu-o, metteu o
monoculo e os dentes postiços dentro do bolso das calças, dobrou tudo
cuidadosamente, guardou tudo ao abrigo do orvalho debaixo do seu
_makintosh_, alisou o cabello, tomou um bochecho d'agua, e estirou-se de
lado para dormir, com correcção e conforto. O barão e eu, depois de
contemplar, rindo, estes requintes, embrulhámo-nos simplesmente n'um
cobertor:--e d'ahi a pouco envolvia-nos aquelle somno profundo,
absoluto, sem sonhos, sem movimentos, que é a recompensa e a consolação
de quem moureja por estas terras negras.
Com o primeiro alvor da madrugada estavamos a pé, preparando para a
acção. Tomámos as carabinas, munições abundantes, cantis cheios de chá
frio (que é a melhor bebida, a unica, quando se caça), e partimos,
depois de engolir de pé um almoço breve, acompanhados de Umbopa, de
Khiva e de Venvogel.
Não tivemos difficuldade em achar o carreiro aberto e pisado pelos
elephantes, que, segundo Venvogel declarou, deviam ser uns vinte ou
trinta, a maior parte machos e todos crescidos. Mas o bando afastára-se
durante a noite; e eram quasi nove horas, já o calor ardia em céo e
terra, quando pelos arbustos quebrados, pelas cascas e folhas d'arvores
esmagadas, e pelos montes de bosta fumegante, percebemos que os bichos
andavam cerca--e seguros. D'ahi a instantes, effectivamente, avistámos o
rebanho todo, uns vinte a trinta elephantes (como Venvogel calculára),
parados n'uma cova de terreno, quietos, tendo decerto acabado o primeiro
repasto, e sacudindo com lentidão e magestade as suas immensas orelhas.
Era uma vista soberba! Só as ha assim na Africa!
Estavamos separados d'elles por umas cem jardas. Agarrei um punhado de
capim e atirei-o ao ar para tomar a direcção do vento:--porque se um
elephante nos farejasse, bem sabia eu que, antes de podermos pôr as
carabinas á cara, o rebanho inteiro abalava. A aragem, se alguma corria,
soprava para nós do lado dos bichos: de sorte que rastejámos
cuidadosamente através do matto, mudos, sem respirar, até nos
aproximarmos umas quarenta jardas mal medidas. Justamente diante de nós,
e de ilharga para nós, estacionavam tres magnificos elephantes machos,
um d'elles com enormes dentes e o ar supremo de um Patriarcha. Avisei,
baixinho, os companheiros que me encarregava do animal do meio: o barão
apontou ao mais pequeno, ao da esquerda: o capitão ao «Patriarcha».
--Agora! murmurei.
Bum! bum! bum! O elephante do barão tombou redondo, varado no coração. O
meu cahiu pesadamente sobre os joelhos; mas quando pensei que ia desabar
para o lado, morto, vejo a enorme massa que se ergue e larga galopando
por diante de mim. Metti-lhe segunda bala na ilharga, que o abateu. Á
pressa, com dois cartuchos mais na carabina, corri para elle e
findei-lhe misericordiosamente a agonia.
Voltei-me então para vêr o que se passára com o elephante do capitão, o
«Patriarcha», que eu ouvira por traz de mim bramando de dôr e furia.
Encontrei John excitadissimo. Ao que parece, o elephante, apenas ferido,
rompera contra elle (que meramente teve tempo de se desviar com um
salto), e seguira, furioso e sem vêr, para a banda do nosso acampamento.
O resto do rebanho no emtanto, espavorido, rompera para o outro lado,
através da espessura.
Durante um momento ficámos indecisos entre seguir o «Patriarcha» ferido
ou o resto da manada. Por fim resolvemos bater atraz do bando. Seguil-os
era facil, porque tinham aberto um caminho, mais largo e liso que uma
estrada real, esmagando o matto espesso como se fosse relva de
primavera. Achal-os, porém, era mais complicado: e tivemos, durante duas
infindaveis horas, de marchar sob um sol faiscante, antes de os
avistarmos. Lá estavam todos outra vez muito juntos (excepto um dos
machos): e pela inquietação com que se mexiam, pelo constante erguer das
trombas desconfiadas, farejando o ar--era claro que esperavam, temiam
outro ataque. Um dos machos afastado, á laia de sentinella, vigiava para
o nosso lado, de tromba ameaçadora e alta. Entre elle e nós mediavam
umas sessenta jardas. Se este cavalheiro nos presentisse, dava signal e
o rebanho abalava, tanto mais facilmente quanto nos achavamos, bichos e
homens, em terreno descoberto. De sorte que todos tres lhe apontámos,
todos tres lhe atirámos. Bum! bum! bum! Morto! Mas os outros partiram,
n'uma desfilada, como collinas rolando.
Infelizmente para elles, logo adiante havia um _nullah_, isto é, uma
ribeira sêcca, com as bordas abarrancadas do nosso lado e quasi a pique
do lado fronteiro (sitio parecido áquelle em que o Principe Imperial foi
morto na Zululandia). Para ahi justamente se atiraram os elephantes em
tropel. Quando chegámos á borda, démos com elles em medonha confusão,
esforçando-se por trepar a outra ribanceira (escarpada e hirta),
empurrando-se uns aos outros, n'um furor e egoismo verdadeiramente
humanos, e atroando os ares de bramidos. A nossa opportunidade era
escandalosamente brilhante. Sem outra demora, disparando tão depressa
como carregavamos, démos cabo de cinco elephantes; e teriamos dizimado o
rebanho inteiro se elles de repente, abandonando a teima estupida de
galgar a ribanceira, não largassem a fugir ao comprido do leito sêcco
que se perdia ao longe na espessura. Estavamos cansados de mais para os
perseguir, enjoados tambem d'essa vasta mortandade. Oito elephantes
n'uma manhã, antes do _lunch_, é decente.
De sorte que, depois de descansarmos e vêrmos os Cafres cortar os
corações a dois dos elephantes para servir á ceia, voltámos
vagarosamente os passos para o acampamento, devagar, satisfeitos com a
proeza, e calculando o valor do marfim, que no dia seguinte cedo os
carregadores viriam serrar.
Ao passar no sitio em que o capitão tinha ferido o «Patriarcha»,
encontrámos um rebanho de _elands_. Não lhe atirámos, porque não ha nada
no _eland_ que valha dinheiro, e mantimentos já traziamos, deliciosos e
abundantes. O bando passou ao nosso lado, ligeiro e trotando; depois,
adiante, onde se erguia um tufo de arbustos em flôr, parou; e todos a um
tempo se voltaram, a olhar para nós, espantados.
O capitão nunca vira um _eland_. Quiz aproveitar a occasião, deu a
carabina a Umbopa, e seguido de Khiva adiantou-se, de monoculo fito,
para o tufo de arbustos em flôr. O barão e eu sentámo-nos á espera,
n'uma pedra.
O sol ia justamente descendo, n'um grande esplendor de vermelho e ouro.
O barão e eu contemplavamos, calados, aquella belleza de céo e luz,
quando de repente ouvimos o bramido d'um elephante e vimos, escura sobre
a vermelhidão do poente, uma vasta fórma avançando a galope, de tromba
erguida e cauda espetada. Logo immediatamente vimos outra coisa
horrivel:--o capitão, e Khiva, o serviçal zulú, fugindo para nós n'uma
carreira perdida, perseguidos pelo elephante! Era o grande bicho ferido,
o «Patriarcha» que alli ficára, errando. Agarrámos n'um impeto as
carabinas. Mas quê! Fera e homens, correndo para nós, vinham juntos! Se
disparassemos, a bala podia varar John ou Khiva... E assim ficámos
n'esta indecisão, com o coração a tremer, quando o pobre capitão
escorrega n'aquelles infames botins de bezerro com que teimava em
trilhar o sertão--e cae, estatelado, de face na terra, diante mesmo do
enorme elephante que chegava bramindo!
Fugiu-nos a respiração! O pobre camarada estava perdido! Largámos ainda
a correr para elle, desesperadamente. E o desastre veio, com
effeito--mas d'um modo bem differente. Khiva, o Zulú (valente, heroico
rapaz que era!), vendo o amo por terra, volta-se, e arremessa a zagaia a
toda a força contra a tromba do elephante. A fera lança um uivo de dôr,
arrebata o desgraçado Zulú, bate com elle no chão, põe-lhe uma immensa
pata sobre as pernas, e enrodilhando-lhe a tromba no peito,
rasga-o--litteralmente _o rasga em dois_.
Corremos, cheios de horror, fizemos fogo uma vez, outra vez,
furiosamente--até que o elephante se abateu como um monte sobre os
pedaços sangrentos do Zulú.
Foi um instante de indizivel consternação. Apesar de endurecido por
quarenta annos de caça e carnificinas, eu proprio sentia um «nó na
garganta», e creio que me fiz pallido. O barão tremia todo. E o pobre
capitão torcia as mãos, na dôr de vêr assim despedaçado o servo valente
que dera a vida por elle.
Só Umbopa teve a palavra serena que convinha á disciplina. Veio, com os
seus passos altivos e leves, contemplar os restos de Khiva, n'uma poça
de sangue, junto á massa enorme do elephante, moveu a mão no ar e disse:
--Morreu. Bem d'elle, que morreu como um homem!
CAPITULO V
A NOSSA ENTRADA NO DESERTO
Tinhamos morto nove elephantes. Dois longos dias levámos a serrar-lhe os
dentes e a enterral-os com cuidado debaixo d'uma arvore enorme, que
destacava isoladamente na vasta planicie, e formava um «signal»
inesquecivel. Era um esplendido lote de marfim! Só os dentes do
«Patriarcha» pesavam (tanto quanto pude avaliar) uns cento e setenta
arrateis!
O pobre Khiva, esse, sepultámol-o ao pé da collina, com uma azagaia ao
lado, para se defender dos Espiritos Malignos na sua difficil jornada
para o Paraiso zulú. Ao romper do terceiro dia levantámos o
acampamento--todos nós fazendo votos no silencio da nossa alma para que
nos fosse dado voltar um dia! Eu, mentalmente, accrescentava:--«voltar e
desenterrar este rico marfim!»
Depois d'uma fatigante marcha, cortada d'esses episodios africanos que
todos os Africanistas experimentam, chegámos emfim á aringa de Sitanda,
ao pé do rio Lukanga. Ahi era verdadeiramente o nosso «ponto de
partida». Ahi começariam as nossas miserias.
Perfeitamente me lembro do sitio, e da nossa chegada. Para a direita
descia, transmalhada, uma pequena povoação de negros, com curraes de
gado murados de pedra solta, e leiras de terra cultivada ao comprido da
agua clara. Por traz da aldeia ondulavam grandes pradarias de herva
alta, onde a caça abundante esvoaçava. E para a esquerda era o escuro,
silencioso, infindavel deserto.
O nosso acampamento ficou junto d'esse riacho alegre que corria entre
arbustos em flôr. Defronte erguia-se um outeiro pedregoso. Apenas
erguemos as tendas, subi lá com o barão. Era aquelle o sitio, aquelle o
outeiro onde eu vira, havia vinte annos, n'uma tarde como esta, a figura
do pobre Silveira, com o seu grande casacão comprido, apparecer
cambaleando, toda escura na vermelhidão do poente. Como então, o globo
do sol afogueado descia já rente da terra--e os seus raios flexavam
obliquamente aquelle deserto coberto de tojo baixo, sombrio, sem agua,
sem vida, terrivelmente mudo, que matára o pobre portuguez, que nos ia
talvez matar a nós. Ficámos olhando para elle em silencio. O ar era
d'uma admiravel finura e transparencia; e longe, muito ao longe,
podiamos distinguir, recortada no horisonte, pallidamente azulada e com
laivos brancos de neve, a cordilheira de Suliman. Mostrei-as ao meu
companheiro:
--A entrada das minas de Salomão lá está... Chegaremos nós lá?
N'esse instante senti alguem por traz de nós respirando: era Umbopa, que
trepára tambem ao comoro, e considerava o deserto com pensativa
gravidade. Vendo que eu reparára n'elle, deu um passo lento, depois
outro mais lento. E dirigindo-se ao barão (a quem parecia ter-se
affeiçoado), apontando com a sua grande azagaia para o lado dos montes:
--É para aquella terra além que tu vaes, Incubú?
_Incubú_ é uma palavra do dialecto zulú, que significa «elephante», e
que servia, ente os Cafres, para designar o nosso chefe. Estranhei a
audacia d'Umbopa, e perguntei-lhe asperamente que tosca maneira era essa
de fallar a seu amo... Que o negro dê uma alcunha negra ao patrão, por
lhe ser mais facilmente pronunciavel que o nome--vá! Que a um como eu,
pobre caçador que ganha o seu pão, o negro se dirija sempre pela alcunha
negra--vá ainda! Mas que a atire á face d'um senhor, d'um fidalgo--isso
não!
--Falla assim aos teus iguaes, gritei eu. Falla assim aos que comtigo
comem da mesma gamella!
O Zulú teve uma risadinha dôce que me enfureceu.
--Que sabes tu, accrescentou elle, se eu não sou igual ao amo que sirvo?
Elle pertence a uma grande casta, pelo olhar se vê logo: mas talvez eu
pertença a uma casta maior! Pelo menos sou tão forte como elle, e posso
com elle repartir o que tenho no coração. Sê pois a minha bôca, oh
Macumazan! Dize as minhas palavras ao Incubú meu amo! E attende-as tu
tambem, porque em mim só ha verdade!
Fiquei perfeitamente indignado. Nunca um Cafre me fallára n'aquelle
tremendo tom! Mas, não sei porque, o maldito Zulú tinha a arte de me
impressionar. Além d'isso sentia uma viva curiosidade... De sorte que
lhe traduzi as palavras,--accrescentando que a creatura me parecia
impudente e ousada.
O barão, porém, homem de excellente paciencia, voltou-se sorrindo para o
Zulú:
--É para as montanhas que vou com effeito, Umbopa! Vou em procura d'um
homem da minha raça, d'um irmão meu, que atravessou este deserto, e que
eu supponho estar além!
O Zulú moveu lentamente a cabeça:
--Assim é, assim é... Encontrei um homem no caminho que me disse: Ha
dois annos que um branco se metteu tambem ao deserto como nós, levando
um só serviçal... Nunca mais voltaram...
--Quem te disse? perguntei, vivamente. Porque te sahem só agora essas
palavras? Onde te disseram?
Antes de Inyati, um homem que elle encontrára no caminho. Contára-lhe
que o branco se parecia com o chefe Incubú, mas tinha a barba escura: e
que ia seguido por um caçador bechuana chamado Jim.
--São elles! exclamei. Não ha duvida! são elles! Jim conhecia eu bem....
O barão ficou pensativo.
--Se meu irmão tinha decidido atravessar o deserto, murmurou por fim, ou
o atravessou, ou morreu. Recuar ou mudar de fito não era da tempera
d'elle. Ou não vive, ou está para lá das serras.
O Zulú, que lhe seguira as palavras com os grandes olhos brilhantes,
tornou muito gravemente:
--É uma longa jornada, Incubú.
--Quartelmar, diga-lhe que não ha jornada que o homem não possa
emprehender, replicou o barão (que evidentemente estimava e considerava
aquelle singular Zulú). Nada ha que o homem não possa fazer; nem
desertos que não possa atravessar, nem montanhas que não possa subir, se
puzer n'isso alma e vontade. O essencial é contarmos a vida por coisa
nenhuma, alegremente promptos a conserval-a ou a perdel-a, segundo Deus
ordenar.
Quando o Zulú comprehendeu, toda a face se lhe illuminou:
--Grandes palavras, meu pai Incubú! Grandes, soberbas palavras que
enchem bem a bôca d'um forte! Que é a vida, na verdade? É a semente da
herva que o vento sopra aqui e além. Ás vezes cae em boa terra e
fructifica; outras vezes, na rocha dura e definha... O homem nasce para
morrer. Mais tarde ou mais cedo, que importa? É sempre a morte. Eu por
mim irei comtigo, Incubú! Irei por montanha e deserto, e ser-te-hei
sempre fiel...
Parou. E subitamente rompeu n'uma d'essas rajadas de poesia, frequentes
nos Zulús, que tanto surprehendem os que pela primeira vez as
testemunham, e que, apesar de nevoentas, redundantes, e decoradas de
geração em geração, mostram que se a raça não é intelligente, é pelo
menos imaginativa.
--Que é a vida (exclamava Umbopa, abrindo os braços, n'aquelle tom
cantado que os Zulús tomam n'esses momentos de exaltação). Que é a vida?
Dizei-me, oh brancos, vós que sabeis os segredos d'este mundo, e do
mundo das estrellas que brilha por cima, e do outro mundo que está para
além das estrellas! Dizei-me, oh brancos, dizei-me o segredo da vida!
D'onde vem ella, para onde vai?... Não podeis, não sabeis! Escutai
então! Nós sahimos da treva, e para a treva marchamos. Como um passaro
acossado pela tormenta, nós sahimos do fundo da escuridão: durante um
momento passamos, e as azas brilham-nos á luz das fogueiras: depois, de
novo e para sempre mergulhamos na treva! A vida é o pyrilampo que
fulgura de noite e de dia é negro! É o halito dos rebanhos no ar de
inverno! É a sombra que corre sobre a relva, e que desapparece ao
poente!...
Calára-se, com os braços ainda abertos, o olhar perdido nas alturas.
--És um homem bem singular, Umbopa! exclamou o barão, que o escutára
assombrado.
O outro pareceu acordar, sorriu:
--Creio que nos assemelhamos, Incubú. Talvez eu tambem vá procurando um
irmão entre as gentes que estão para lá das montanhas.
Olhei para Umbopa, com o sobr'olho franzido.
--Que gentes? Que sabes tu das gentes que vivem para lá das montanhas?
--Pouco, Macumazan, muito pouco. Ha para além uma terra de feitiços, de
jardins, de gente valente... Ha tambem uma grande estrada branca, toda
de pedra. Assim ouvi. Mas de que vale dizer? Quem lá chegar, lá verá!
Aquelle homem evidentemente sabia alguma coisa que não queria revelar.
Elle decerto percebeu a minha desconfiança--porque acudiu, espalmando as
mãos:
--Não te arreceies, Macumazan! Não te arreceies! Não abro covas para que
tu cáias dentro. Se chegarmos a atravessar o deserto, eu te contarei o
que sei. Mas a Morte está lá com uma lança, á nossa espera. Melhor te
fôra, Macumazan, voltar aos teus elephantes... Fallei o que tinha a
fallar.
E meneando a azagaia á maneira de saudação, desceu o comoro, recolheu ao
acampamento--onde d'ahi a instantes o encontrámos limpando uma carabina,
attento, calado, como qualquer servo cafre vasio de pensamento e
vontade.
--Homem extraordinario! murmurou o barão.
--Extraordinario de mais! Não gósto nada d'aquelles mysterios... Mas,
emfim, nós estamos mettidos n'uma aventura phantastica, e um Zulú
mysterioso de mais ou de menos--não tira nem põe!
Na manhã seguinte começámos os preparativos para a marcha. Era
impossivel naturalmente levar comnosco, através do deserto, todo o
pesado armamento, e as cantinas. Fomos portanto forçados (depois de
debandar os carregadores) a confiar tudo a um velho cafre, um atroz
sacripante, que possuia alli uma aringa consideravel. Bem penoso me era
abandonar as nossas magnificas armas á mercê d'aquelle velho
malandro--cujos olhos se fixavam já nos nossos bens com um fulgor de
cubiça e rapina. Tomei por isso as minhas precauções.
Comecei por carregar as espingardas. Depois declarei ao bandido, n'um
tom cavo, que aquelles canos estavam enfeitiçados--e que se elle lhes
tocasse «alli» (mostrei o gatilho), os demonios fugiriam de dentro
despedindo um _raio_! Immediatamente (como eu calculára), o Cafre puxou
o gatilho a uma carabina «Express». E o _raio_ partiu. Partiu, com tanta
felicidade, que matou uma vacca que pastava pacificamente a distancia, á
beira d'agua--e atirou o velho de pernas ao ar, com a inesperada força
do recúo. O pavor do malandro foi indizivel. Tremia todo, dava pulos em
volta da vacca morta (que depois, mais tranquillo e com toda a
impudencia, queria que eu lhe pagasse), olhava para o céo, olhava para o
chão... Por fim rompeu aos berros:
--Tirem esses demonios que estoiram! Ponham-os lá em cima, sobre o
colmo!... Ai, que não fica vivo um de nós!
Apenas elle serenou, continuei a minha predica. Affirmei-lhe, com
olhares esgazeados, que se ao voltarmos, uma só arma d'aquellas
faltasse, eu, que possuia as artes dos brancos, o mataria a elle e a
toda a sua gente por meio de bruxarias sangrentas: e que se nós
morressemos e elle tentasse apoderar-se do que era nosso, eu voltaria em
espirito perseguil-o, puxar-lhe de noite pelos pés, tornar-lhe o gado
bravo, dessorar-lhe o leito fresco, seccar-lhe a semente na terra,--e
fazer a vida na aringa tão dura e terrivel que seus proprios filhos o
amaldiçoariam... Emfim, dei-lhe uma idéa razoavel do Inferno, com
horrores ineditos. O velho malandro, espavorido, jurou que olharia pelas
nossas armas como se fossem os ossos de seu pai! Era um patife
infinitamente supersticioso.
Em seguida combinámos o que nós cinco--o barão, o capitão John, eu,
Umbopa e Venvogel--deviamos levar comnosco através do deserto. Muito
calculámos, muito experimentámos. Não lográmos chegar a um peso menor de
quarenta arrateis por homem. E havia escassamente o necessario! Eis aqui
o que conduziamos:
Cinco espingardas--com a competente munição (quatrocentas cargas);
Tres rewolvers;
Cinco cantis d'agua, de cinco quartilhos cada um;
Cinco mantas;
Vinte e cinco arrateis de _biltong_--que é uma especie de carne sêcca;
Dez arrateis de contas de vidro para presentes aos indigenas;
Navalhas, phosphoros, um compasso, um filtro d'algibeira, uma enxó, uma
garrafa de cognac, tabaco--e os fatos que tinhamos no corpo.
Era tudo: e era pouco, como necessidade e conforto, n'uma semelhante
empreza! Ainda assim peso consideravel para cinco homens acarretarem,
por um sol terrivel, através d'um deserto esteril!
Depois, com immensas difficuldades, persuadimos tres negros da aldeola a
acompanharem-nos durante vinte milhas, levando cada um ás costas uma
larga cabaça d'agua fresca. O meu fim era podermos encher de novo os
cantis, depois da primeira noite de marcha (porque decidiramos partir na
frescura da noite). Os negros, a quem eu contára que iamos caçar o
abestruz, não acreditaram: tinham por certo que morreriamos de sêde e de
fome no grande sertão: elles proprios temiam a morte e os demonios que
vagam no deserto: e só consentiram em nos seguir, a troco de tres facas
de matto e d'uma manta vermelha.
Durante todo esse dia descançámos e dormimos. Ao pôr do sol celebrámos
um grandioso jantar, de caça, de carne fresca e de chá--«o ultimo chá,
observou John com melancolia, que naturalmente beberiamos por longos e
longos mezes». Depois, apetrechadas as mochilas, esperámos que nascesse
a lua. Perto das nove horas subiu ella, em toda a sua serena e pensativa
gloria, inundando de luz branca e vaga todo o immenso deserto, que
parecia tão mudo, solemne, impenetravel e virgem de pégadas humanas como
o claro firmamento que por cima resplandecia. Com a lua que se erguia
nos erguemos nós tambem. Tudo estava prompto, os negros de cajado na
mão:--e todavia hesitavamos ainda, como o fraco homem hesita sempre
perante o Irrevogavel. Lembro-me bem. Adiante de nós alguns passos,
Umbopa, de azagaia na mão, com a carabina a tiracollo, olhava fixamente
para o deserto: atraz de nós, n'um grupo, Venvogel, com os tres negros
que levavam as cabaças d'agua, esperavam, direitos e mudos: e nós tres,
os homens brancos, muito juntos, sentiamos bater forte o coração.
De repente, o barão tirou devagar o chapéo. E com profunda emoção:
--Amigos, vamos começar uma das mais estranhas jornadas que homens têm
ousado tentar. O que será de nós, não sei: mas, para bem ou para mal,
juntos estamos, juntos nos encontraremos sempre! E agora, antes de
partir, ergamos o pensamento para Aquelle que tudo póde!
Escondeu a face entre as mãos, ficou immovel. O capitão John e eu
baixámos tambem a cabeça, com reverencia, com humildade. Eu por mim,
confesso, nunca fui homem de orações. Caçadores de elephantes, na dura
vida d'Africa, raro se lembram de fallar a Deus. Em todo o caso,
n'aquelle momento, rezei. Rezei com fervor; e senti-me depois mais
alegre e mais leve. Creio que o capitão (religioso no fundo, apesar de
praguejar medonhamente) tambem rezou. O barão esse era homem de piedade
e crença... Quando destapou o rosto, olhou em redor, ergueu o braço,--e
com um bello ar de resolução e de esperança:
--Prompto?... Larga!
Os bordões resoaram na terra dura,--e largámos.
Para nos guiar no deserto tinhamos apenas as distantes montanhas de
Suliman, e o roteiro que o velho D. José da Silveira traçára no pedaço
de camisa. Cada um de nós trazia na algibeira uma cópia d'esse mappa
rude. Mas, considerando que essas linhas tinham sido riscadas por um
homem meio morto, ha trezentos annos--era bem certa a sua utilidade? A
nossa salvação, n'aquella jornada, seria encontrar a lagôa, ou poça de
agua salobra que o velho fidalgo portuguez marcára a meio caminho entre
a aldeia d'onde partiramos e as serras de Suliman. Se a não achassemos,
tinhamos certa a morte, uma morte terrivel, a morte pela sêde. E, para
mim, as probabilidades de descobrir uma lagôa de tres ou quatro metros
n'aquella vastidão de areia e tojo, parecia-me minima, infinitesima.
Mesmo suppondo que o Portuguez a marcára com exactidão--quem nos
afiançava que n'esses trezentos annos ella não seccára ou não fôra
coberta pelas areias movediças?
Era n'isto que eu pensava--emquanto silenciosamente, como sombras, iamos
marchando sob o luar silencioso. O caminho não era facil: o tojo denso e
espinhoso retardava-nos o passo: a areia mettia-se nos sapatos, e cada
meia hora deviamos parar para os esvasiar: e, apesar da noite não estar
quente, havia no ar alguma coisa de pesado e de espesso, que
amollentava. Mas o que sobretudo nos opprimia era a solidão, o
silencio--o infinito, terrivel silencio. John ainda tentou assobiar uma
cantiga galante de bordo. Mas a toada jovial, o estribilho de _teus
dôces olhos_, parecia lugubre n'aquella severa immensidade. O engraçado
homem emmudeceu. E seguimos n'uma fila muda através do matto mudo.
Perto da meia noite, sobreveio uma aventura que nos assustou--e depois
nos divertiu immensamente. John, como marinheiro, levava a bussola, e
marchava adiante, guiando. De repente ouvimos um berro--John
desapparece! Ao mesmo tempo rompia em torno de nós uma balburdia medonha
de roncos, bufos, grunhidos, sons de patas fugindo--e vemos fórmas, como
garupas, galopando através do tojo, entre rolos d'areia. Os negros
atiraram-se ao chão, gritando que eram «demonios acordados»! Eu proprio
e o barão ficámos surprezos:--e o nosso assombro cresceu quando
avistámos John, apparentemente montado n'um potro, fugindo aos galões
para o lado dos montes, e ganindo como um desesperado. Um momento
mais--e vêmol-o sacudir os braços no ar, e de novo desapparecer, no
matto baixo, com um baque tremendo. Corremos para elle e percebemos o
caso estranho: tinhamos ido cahir no meio d'um rebanho de zebras
adormecidas: John estatelára-se exactamente sobre as costas d'uma,
enorme: e o bicho, pulando espavorido, abalára com o nosso amigo nas
ancas. Felizmente não se magoára no tombo final: fomos dar com elle
sentado na areia, de monoculo firmemente cravado no olho, aturdido,
indignado--mas intacto de pelle e osso.
Depois d'isto marchámos socegadamente até perto das duas horas da noite.
Fizemos então uma paragem, bebemos uns goles d'agua (não muitos, nem
largos, porque a agua passava a ser preciosa), e ao fim de trinta
minutos de descanço recomeçámos a caminhar para diante, para diante
sempre, até que o nascente se tingiu de laivos de rosa. Vimos as
estrellas desmaiar, vivas barras alaranjadas alongarem-se ao rez do
horisonte, a lua declinar mais livida que um cirio, longos raios de luz
varar e colorir de fogo os nevoeiros, todo o deserto cobrir-se d'uma
tremula refracção d'ouro--e ser dia!
Não parámos apesar de já cansados--pela certeza de que bem cedo o sol,
nado e alto, nos impediria de dar um passo unico, sob o seu torrido
esplendor. Com effeito, ás seis horas já ardia! Por felicidade avistámos
então na planicie um montão de rochas. Para lá nos arrastámos,
exhaustos. E por felicidade maior, uma enorme lasca de pedra pousada
sobre grossos blocos fazia como um telheiro, cuja sombra cahia sobre um
pedaço d'areia fina. Abrigo providencial! Alli nos aninhámos: e, depois
de beber alguns goles d'agua bem contados e de comer uma lasca de
_biltong_, adormecemos deliciosamente.
Ás tres horas acordámos. Os carregadores que tinham trazido as cabaças
já se preparavam para voltar á sua aringa. De sorte que absorvemos uma
farta tarraçada d'agua, enchemos de novo os cantis, e distribuimos pelos
homens as facas de matto promettidas. D'ahi a instantes vimol-os (não
sem uma vaga melancolia) voltar costas ao deserto e romper a marcha para
o lado da sua aldeia, para o lado da frescura e da agua!
Ás quatro e meia mettemos de novo a caminho. A cada passo tudo de redor
se parecia alargar em silencio e desolação. Ao principio ainda
avistavamos, aqui e além, entre o matto, um abestruz. Depois, nem mesmo
reptis topavamos na planicie arenosa. A nossa unica companhia era a
mosca, a mosca ordinaria e caseira... Digno e veneravel animal! Em
qualquer logar em que o homem penetre, deserto, montanha, caverna--a
mosca lá está. Foi este decerto o primeiro dos sêres vivos que surgiu
sobre a terra. Já havia moscas para pousar no nariz de Adão. O
derradeiro homem ha de morrer com uma mosca a zumbir-lhe em torno á
face. E talvez haja moscas no Paraiso.
Ao sol-posto parámos, esperando que nascesse a lua. Mais bella e serena
que nunca surgiu ella ás dez horas--e toda a noite, sob o seu calmo e
pensativo brilho, na mudez da vastidão, caminhámos, caminhámos... O sol
nado pôz um termo á valente marcha. Sorvemos por conta uns goles d'agua
dos cantis, atirámo-nos para cima da areia, e alli nos tomou o somno a
todos quatro simultaneamente. Não havia necessidade que um velasse. Nada
tinhamos a recear, nem de homem nem de fera, n'aquella immensidade
despovoada. D'esta vez porém nenhuma rocha nos abrigava--e ás sete horas
acordámos sob o sol faiscante, com a sensação que deve experimentar um
bife de lombo achatado sobre a grelha. Estavamos sendo _fritos_! O sol
por cima, a areia por baixo, seccavam-nos o sangue nas veias. Todos nos
erguemos, de salto, quasi sem respiração.
--Santo Deus! murmurou o barão, sacudindo os enxames de moscas.
--Póde-se chamar a isto calor! gemeu do lado o capitão, que arquejava.
Podia-se chamar, na verdade. E eram apenas sete horas! Em toda a vasta
extensão nem um abrigo! Só matto rasteiro--e por cima uma vibração
radiante, tão viva e intensa que viamos tremer o ar.
--Que se ha de fazer? exclamou o barão. É impossivel aguentar isto!
Olhámos uns para os outros, estupidamente.
--Se abrissemos uma cova? lembrou John. Podiamos metter-nos dentro e
cobrir-nos com tojo... É uma idéa.
Não brilhante! Mas era a unica:--de modo que, já com a enxó, já com as
mãos, passámos a abrir uma cova do tamanho aproximado d'uma larga cama.
Cortámos uma porção de matto; e alli nos sepultámos, collados como
sardinhas n'uma caixa, todos quatro, o barão, John, eu e Umbopa,--porque
Venvogel, como Hottentote, não sentia os ardores do sol. Foi elle que
nos cobriu de matto. Realmente, assim, estavamos ao abrigo dos raios
perpendiculares do sol:--mas que pavorosa ardencia a d'aquella fossa, em
que cada torrão, junto do corpo, era como uma braza viva! Não
comprehendo como nos desenterrámos vivos. Dormir, impossivel! Jaziamos
estendidos, hirtos, sem ter já que suar, quasi cortidos, arquejando
anciosamente. Só possuiamos o consolo de humedecer de vez em quando os
beiços com uma gota d'agua muito medida! Esta avara medição da agua era
o tormento maior. A cada instante necessitavamos recalcar a furiosa
tentação de sorver d'um só trago os quatro cantis. Mas quê! se a agua
faltasse--breve viria a morte!
Tudo tem um fim n'este mundo, diz a Sabedoria oriental, comtanto que se
possa esperar. Esperámos: a horrivel, interminavel manhã passou: e pelas
tres horas preferimos encontrar a morte, andando (se a morte tinha de
vir) a ser por ella lentamente envolvidos n'aquelle infame buraco.
Reconfortámo-nos com um curto sorvo á nossa agua,--que diminuia
terrivelmente, e subira já á temperatura do sangue. E com um esforço
rompemos de novo através da planicie flammejante.
Tinhamos transposto umas dezesete leguas de ermo. Ora no roteiro do
velho D. José da Silveira, a total extensão do deserto estava fixada em
quarenta leguas; e a famosa poça de agua salobra vinha marcada a meio do
deserto. A esse tempo, portanto, deviamos estar a umas tres leguas da
agua--se a agua existia! Em toda a tarde, porém, fizemos pouco mais
d'uma milha por hora. Ao pôr do sol parámos á espera da lua. Deixei-me
cahir para o chão, como um morto, cerrei os olhos. Mas d'ahi a um
instante Umbopa fez-me erguer e notar, á distancia de oito ou nove
milhas, uma especie de outeiro redondo e liso que se erguia abruptamente
na planicie rasa. Não parecia uma elevação natural de terreno, na sua
semelhança estranha com uma metade de laranja. Quando me tornei a deitar
adormeci logo, murmurando: «Que será?...»
Ao romper da lua de novo partimos, já alquebrados de cansaço e de sêde.
O andar franco e firme acabára para nós. Era agora um arrastar de passos
quasi cambaleantes, com paragens bruscas de meia em meia hora, em que
cahiamos para cima da areia, sem força, de coração desmaiado. Nem animo
nos restava para conversar. Até ahi ainda gracejavamos, heroicamente.
John sobretudo--jovial camarada! Mas agora! Nem voz tinhamos para gemer!
Finalmente, perto das duas horas, vencidos de corpo e d'alma, chegámos
ao pé do comoro estranho. Era uma especie de duna d'areia, escura, lisa,
atarracada, da altura d'uns trinta metros, e cobrindo na base duas
geiras de terreno. Parámos. E desesperados com a sêde, sorvemos o resto
da agua. Tinhamos meio quartilho por bôca! Podiamos ter emborcado um
almude!
Cada um em silencio se estendeu para dormir. Eu fechava os olhos,
resvalava já dôcemente no esquecimento e no sonho, quando ouvi Umbopa ao
meu lado murmurar para si proprio em zulú:
--O que é a vida! Se ámanhã não achamos agua, a lua ao nascer encontra
aqui quatro mortos... Vida, sombra que passa! vida, murmurio que finda!
Apesar do calor senti um arripio. Pois tanta era a fadiga, que
confrontado por esta probabilidade (uma agonia de sêde n'um deserto
d'areia!), adormeci profundamente.
* * * * *
Eram quatro da manhã quando acordei. E bruscamente entrou commigo a
tortura da sêde!
Estivera todo o tempo sonhando que passeava á beira d'um regato d'agua,
muito puro e muito frio, bordado de relvas e de grandes arvores de
fructas... Quando me ergui esfreguei a face com ambas as mãos; mãos e
face pareceram-me mais sêccas e duras do que coiro; e as palpebras e os
beiços estavam tão pegados, tão collados, que tive de os descerrar á
força com os dedos, como se os unisse uma colla forte. A madrugada ainda
vinha longe; mas não reinava no ar a natural frescura matutina, antes
uma espessura molle e morna intoleravelmente pesada. Os outros
dormiam... Fiquei callado, olhando em redor a desolada solidão. E pouco
a pouco comecei a sentir de novo, junto de mim, o murmurio fresco do
regato que corria, o ramalhar da verdura, pios d'aves, e toda uma
sensação de paz, de sombra, de abundancia, que me fazia sorrir sósinho
n'um immenso contentamento... Ao mesmo tempo tinha a certeza do deserto
e da aridez que me envolvia. Creio na verdade que delirei!
Voltei a mim, quando os outros em redor se começaram a mexer,
erguendo-se devagar sobre o cotovêlo, esfregando como eu as faces
resequidas, separando á força como eu os labios sem saliva e mirrados.
Já rompia a claridade. Apenas acordados todos, e conscientes, começámos
a fallar da nossa situação--que era sombriamente desesperada. Não nos
restava uma gota d'agua! Voltámos os cantis para baixo, chupámos-lhes os
gargalos. Mais sêccos que ossos! O capitão John, que guardára a garrafa
de cognac, sacou-a da mochila, consultou-nos com um sedento olhar.--Mas
o barão arrancou-lh'a das mãos. Beber alcool, n'aquelle estado?... Era a
morte.
--Mortos estamos nós (murmurou o capitão encolhendo os hombros) se
d'aqui á noite não achamos agua!
--Se o roteiro do Portuguez estivesse exacto, disse eu suspirando, a
poça d'agua devia apparecer por aqui, algures... Foi n'esta altura
exactamente que elle a achou...
Os outros nem responderam. Realmente nenhum de nós tinha já confiança no
roteiro do velho fidalgo. Mesmo que a poça existisse--como encontrar
n'essa immensidão o sitio exacto e preciso onde ella estaria, mais
pequena e perdida do que uma moeda de prata n'uma praia d'areia? Só por
um «bamburrio»! Ou só se ella jazesse junto d'accidente do terreno, que,
pela sua especial saliencia na vasta planicie, inevitavelmente
attrahisse os olhares e os passos.
A claridade ia crescendo; e quando assim estavamos, lançando
conjecturas, n'esta terrivel anciedade--reparei que o nosso Hottentote
Venvogel andava a distancia, com os olhos no chão, lentamente, como quem
procura um rasto... De repente parou, soltou um grito, com o braço
espetado para a terra.
--Que é? exclamámos todos.
E corremos alvoroçadamente.
--Pégadas de corço! bradou elle em triumpho, apontando para o chão.
--E então?
--Corços nunca andam longe d'agua!
--É verdade! gritei eu. E louvado por isso seja Deus!
Foi como se renascessemos á vida. Não era ainda a agua--mas a esperança
d'ella, para breve! E n'uma crise afflictiva como a nossa, uma
esperança, por mais vaga e tenue, vale sobretudo pela coragem de que
enche logo a alma.
Venvogel no emtanto começára a andar em redor, com o nariz erguido (o
seu largo nariz mais chato que o d'um _bull-dog_), sorvendo o ar quente,
farejando.
--_Cheiro agua_! dizia elle, _cheiro agua_!
E nós todos atraz d'elle, farejando tambem, quasi _já viamos_ a
agua--sabendo bem que estes Hottentotes, como todos os selvagens,
possuem um faro maravilhoso. Mas n'esse instante os grandes raios do sol
que nascia bateram-nos o rosto. E olhando, descobrimos uma tão grandiosa
paizagem, que por um momento esquecemos a agua e os tormentos da sêde!
Diante de nós, a umas dez ou doze leguas, rebrilhando como prata nos
primeiros raios do dia, erguiam-se os dois enormes montes que o
portuguez chamára os «Seios de Sabá»; e de cada lado d'elles,
estendendo-se sem fim, durante centenares de milhas, a vasta cordilheira
de Suliman! Não é possivel transmittir, no verbo humano, a incomparavel
grandeza e belleza d'aquelle quadro de montanha!
Alli estavam as duas enormes serras que não têm iguaes na Africa, nem
creio que no resto do mundo, medindo pelo menos mais de quinze mil pés
d'altura, emergindo da cordilheira infinita--brancas, mudas, de
portentosa solemnidade, enchendo o céo até acima das nuvens. E o que
esmagava a alma, era a assombrosa estructura. A cordilheira estendia-se
como um muro disforme de granito, d'altura de mil pés: as duas serras
formavam como os dois torreões d'uma porta, perdidos nas profundidades:
a parte da serra que separava os dois montes, sendo talhada a pique,
lisa e rigorosamente horisontal no alto, reproduzia a configuração d'uma
porta prodigiosa:--e o aspecto todo era como o d'uma muralha cercando
uma cidade fabulosa de sonho ou de lenda!
Bem justamente chamára o velho fidalgo portuguez aos dois montes «Seios
de Sabá»! Tinham com effeito a fórma perfeita de dois peitos de mulher:
as suas vastas faldas iam subindo da planicie, n'uma curva dôce e
tumida, parecendo áquella distancia formosamente redondas e lisas: e no
cimo de cada uma, um immenso outeiro sobreposto, todo coberto de neve,
semelhava exactissimamente a ponta, o bico d'um peito. Prodigiosa
estructura! Se a Terra, como pretendia a antiga Mythologia, é uma
mulher, a enorme Cybele--ahi estavam decerto os seus peitos uberrimos!
Mas á minha imaginação (nunca muito inventiva, mas perturbada e excitada
n'esse momento pela fraqueza) aquillo tudo se afigurava uma muralha
estupenda, cercando e defendendo uma região de infinito mysterio; e a
cada instante me parecia que a porta de granito ia rolar, abrir-se com
fragor, e desvendar algum segredo secular--o segredo talvez da Terra
d'Africa! E o mais extraordinario foi que, emquanto assim contemplavamos
assombrados, começaram a subir, a agglomerar-se em torno aos dois montes
lentas e estranhas nevoas e nuvens, como para esconder aos nossos olhos
mortaes a magestade d'aquelle ádito, que uma vontade divina nos deixára
por um momento entrever. D'ahi a pouco os «Seios de Sabá» estavam
envolvidos de todo, resguardados sob o mystico véo--através do qual só
podiamos distinguir agora as suas linhas, formidavelmente espectraes!...
Depois, mais tarde, descobrimos que esses montes, em tudo singulares,
estavam ordinariamente velados por esta curiosa nevoa, como por uma
cortina de Sacrario. Só a certas horas, ao romper do sol, a cortina se
descerrava, como n'uma celebração, desvendando aos homens a maravilha
sem par.
Passada a violenta surpreza, de novo nos considerámos com a mesma
anciosa interrogação--«que fazer?» Venvogel insistia, convencido, que
lhe _cheirava a agua_:--mas debalde buscavamos, trilhavamos o terreno em
redor, esquadrinhavamos através do matto. Nada! Só a areia ondulando,
com manchas de matagal. Démos a volta toda ao singular outeiro onde
pararamos de noite. Avançámos para os lados, em todas as direcções do
vento, com attentos e lentos passos, e olhos sôfregos que furavam a
terra. Nada! Nenhum vestigio d'uma nascente, d'uma poça, d'um charco. Só
areia, arido tojo.
--Idiota! gritei eu desesperado com o Hottentote. Não ha, nunca houve
aqui agua!
N'aquella aspera, arida immensidade não parecia, com effeito, haver
possibilidade, nem sequer verosimilhança d'agua... E quanto tempo de
resto poderia durar alli uma «poça salobra», como a que encontrára o
velho fidalgo, sem ser chupada pelo sol ardente ou atulhada pelas areias
movediças?
No emtanto Venvogel, o Hottentote, continuava a farejar, com as ventas
erguidas e abertas:
--Eu sinto o _cheiro_ d'agua, patrão. Sinto-a no ar!
--No ar não duvido. Ha agua que farte nas nuvens! Tambem não duvido que
venha a cahir. Mas ha de ser para nos lavar os esqueletos!
O barão no emtanto cofiava a barba pensativamente:
--E todavia, murmurava elle, por aqui a encontrou o velho portuguez! O
sitio é este. Foi aqui, em volta. A meio caminho exacto, na linha
direita de norte a sul, da aringa de Sitanda ás Serras. É aqui. Aqui
esteve agua!
Sim, mas ha trezentos annos! Em tres seculos muita agua brota e sécca!
Quem nos afiançava de resto a exactidão do portuguez, esvaído de fome,
meio delirado, no começo da sua agonia? Já não era pequena estranheza
que elle a tivesse encontrado, n'esta deserta immensidade, justamente
quando d'ella lhe dependia a vida!... A não ser que para ella fosse
attrahido insensivelmente e naturalmente por algum accidente de terreno,
muito saliente e muito visivel de longe--como um bosque, uma collina...
Uma collina!
E quando eu assim pensava, eis que o barão grita, como echoando o meu
pensamento:
--No alto da collina! Talvez a agua esteja no alto da collina!
--Tolice! acudiu o capitão encolhendo os hombros. Agua no topo d'uma
collina! Onde se viu isso?
--Procuremos! disse eu, com um bater de coração que era todo de
esperança.
Trepámos anciosamente pelo outeiro. Umbopa corria adiante. De repente
estaca, com os braços no ar:
--_Nanzie manzie_! (agua aqui!)
Pulámos para junto d'elle:--e com effeito, mesmo no topo da collina,
n'uma cova redonda como uma taça, lá estava agua, agua escura, agua
lôbrega--mas agua! Agua! agua! Gritavamos de puro gozo. E n'um momento,
estirados de barriga no chão, com as faces na poça, sorviamos
deliciosamente a grandes e rapidos sorvos aquelle liquido desappetitoso,
que tão bem imitava agua. Céos! O que bebemos! E mal findámos de beber,
arrancámos o fato, saltámos para o charco, e, sentados n'elle, ficámos
horas a embeber-nos de frescura através da pelle--da nossa pobre pelle
mais dura e mais sêcca que um pergaminho secular.
Quando nos erguemos, refrigerados e saciados, cahimos sobre a carne
sêcca. Comemos a fartar. Uma longa cachimbada por cima completou aquella
hora de consolação. E o somno que nos tomou até ao meio dia, deitados
junto da poça e da sua humidade, foi profundo e bemdito!
Todo aquelle dia tardámos junto da agua, bebendo d'ella, mergulhando
n'ella, olhando para ella--e dando louvores sem conta ao velho fidalgo
que tão exactamente a marcára no mappa. Por fim, tendo enchido d'agua os
estomagos e os cantis, continuámos a marcha, mais animados e ageis, ao
erguer da lua cheia. Fizemos vinte e cinco milhas n'essa noite. Não
tornámos a encontrar agua. Mas seguiamos confiados, com a certeza de a
achar, abundante e fresca, nas faldas das serras. Quando o sol se ergueu
e desfez as nevoas, avistámos de novo a cordilheira e os dois «Seios de
Sabá» (agora afastados de nós apenas vinte milhas) tomando o céo com a
sua magestade sublime. Essas vinte milhas cobrimol-as durante a noite. E
ao outro alvorecer pisámos emfim as primeiras ladeiras do seio esquerdo
de Sabá!
Com amargo espanto não encontrámos agua, e a nossa já ia findando! Não
havia agora esperança de topar nascentes antes de chegarmos á linha de
neve, que branquejava lá longe, no alto da serra: e já a sêde nos
começava outra vez a torturar. Desconsoladamente fomos arrastando os
passos por sobre o torrido chão de lava que formava a base do monte.
Caminhada atroz! Pelas onze horas da manhã, apesar de curtos repousos,
estavamos exhaustos--por causa sobretudo dos ladrilhos de lava asperos e
rugosos que nos magoavam horrivelmente os pés. De sorte que, descobrindo
a umas trezentas jardas acima grossos pedregulhos de lava, decidimos
descançar umas fartas horas á sua sombra providencial. Para lá nos
empurrámos, por lá nos abrigámos. E não foi pequena surpreza (se ainda
nos restava a faculdade de experimentar surprezas!) avistar a pequena
distancia, n'um planalto formando terraço sobre um barranco, uma extensa
e fresca tira de verduras. Evidentemente a lava decompondo-se formára
alli um chão de terra, onde as sementes trazidas por passaros tinham
alastrado e verdejado... Démos, porém, pouca attenção a essas hervagens,
porque não havia lá nem fructo nem agua--e de relva só Nabuchodonosor se
conseguiu alimentar. Alli ficámos pois, estirados á sombra dos
pedregulhos, sem força no corpo e sem esperança n'alma, pensando que
nunca homens de senso se tinham arriscado a mais esteril, mais absurda
aventura! Umbopa no emtanto, depois de considerar algum tempo em
silencio a leira de verduras, caminhára para lá lentamente. E qual não é
o meu assombro ao vêr aquelle individuo, ordinariamente tão composto e
grave, romper em pulos phreneticos, brandindo na mão o quer que fosse de
verde! Arremettemos para elle, na esperança anciosa de agua descoberta.
--É agua, Umbopa? gritava eu pulando por sobre a lava.
--Agua e sustento, Macumazan! exclamava elle agitando no ar a coisa
verde, com effusivo triumpho.
Percebi emfim o que era. Era um melão! Tinhamos dado n'um meloal, um
enorme meloal bravo, com milhares de melões, a cahir de maduros!
--Melões! uivei eu para os companheiros que corriam atraz.
--Melões! melões! foi o berro victorioso que resoou nas quebradas.
N'um momento, cada um de nós tinha os dentes cravados n'um melão,
sôfregamente. Comemos alli, entre todos, uns trinta melões; e apesar de
mediocres creio que nunca nada na vida me soube tão deliciosamente. Mas
o melão não alimenta--e refrescada a sêde não tardou a fome, mais
intensa e aguda. Conservavamos ainda o _biltong_, a carne sêcca; mas já
nos enjoava atrozmente: e além d'isso deviamos poupal-a com avaro
cuidado, pela incerteza de encontrar outras provisões na longa ascensão
da serra.
N'esse dia, porém, estavamos «em sorte decididamente», como disse John.
Lançando os olhos para o deserto, emquanto conversavamos sobre esta
terrivel evidencia, _a fome_--vi de repente uns oito ou dez grandes
passaros voando em direcção a nós, lentamente.
--Atire, patrão, atire! exclamou baixo o nosso servo hottentote,
acaçapando-se immediatamente no chão.
Os outros agacharam-se tambem, para que, confundidos com a côr da lava,
não fossemos avistados pelos passaros. Era um bando de enormes betardas,
que no seu vôo direito e alto deviam passar a umas cincoentas jardas por
cima das nossas cabeças. Tomei uma carabina Winchester, e esperei
acocorado. Quando o bando vinha perto, ergui-me, com um grito e um
salto. Assustados, os passaros juntaram-se todos precipitadamente em
montão; e atirando á massa escura, pude facilmente abater um soberbo
bicho, que pesava pelo menos vinte arrateis. Dentro de meia hora ardia
uma fogueira de talos sêccos de melão: e o bicho aloirava em cima. Foi
um banquete! Comemos aquella betarda toda, fóra carcassa e bico!
N'essa noite continuámos a ascensão do monte, á luz da lua, carregados
de melões para a sêde. Á maneira que subiamos, o ar esfriava
consoladoramente. Ao clarear do dia estavamos a umas doze milhas da
linha de neve. Encontrámos mais melões: e a agua emfim, louvado Deus, já
não nos inquietava, porque bem cedo penetrariamos nas regiões do gelo.
No emtanto era immenso o nosso pasmo de não encontrar nascentes, quedas
d'agua, um riacho corrente; porque decerto no verão as neves,
derretendo, deviam encher d'agua aquellas encostas. Por onde corria a
agua pois, para onde se sumia a agua? Só mais tarde descobrimos que (por
uma causa ainda hoje para mim incomprehensivel) toda a agua, em riacho
ou em queda, descia pela vertente norte da serra.
A subida cada vez se tornava mais aspera e custosa. Apenas faziamos uma
milha por hora. A carne sêcca acabára. Melões, nenhuns mais encontrámos.
O frio augmentava quasi a cada passada--o que nos permittia certamente
caminhar de dia, mas nos regelava de noite terrivelmente! Havia agora
muitas horas que não comiamos. A serra subia, subia diante de nós, cada
vez mais desolada, mais núa de verdura ou vida. Os nossos momentos de
repouso passavam n'um silencio sombrio e cheio de desesperança. Eu por
mim ia já tão debilitado e confuso, que, d'esses tres dias que nos levou
a ascensão da serra, não me recordo com bastante nitidez--e só poderia
reconstruil-os pelos apontamentos do meu _Diario_. Na nota com data de
22 de maio encontro isto:--«Partimos ao nascer do sol. Vamos meio
desmaiados de fraqueza. Só quatro milhas andadas. Comemos os pedaços de
neve que começámos a encontrar. Frio intenso. Cada um de nós bebe uma
gota de cognac. Para dormir amontoamo-nos uns sobre os outros: nem assim
conservamos calor. Estamos verdadeiramente _soffrendo de fome_. Julguei
que Venvogel, o nosso Hottentote, ia morrer esta noite».--Tudo isto é já
terrivel. Mas o seguinte apontamento, datado de 23 de maio, recorda
soffrimentos mais vivos:--«Estamos n'uma situação medonha. A não ser que
encontremos que comer hoje, o nosso fim está proximo. O cognac acabou.
Venvogel, que como todos os Hottentotes não póde aguentar frio, parece
perdido. As ancias agudas da fome passaram. O que eu sinto (e os outros
dizem que sentem o mesmo) é uma especie de adormecimento, de torpor no
estomago. Estamos ao nivel da grande escarpa, que eu chamo a _porta_, o
colossal muro de terra, lava e rocha, que liga os dois seios de Sabá.
Para traz de nós estende-se o deserto que atravessamos... Para que o
atravessamos nós?» Logo abaixo d'estas linhas ha outra, escripta decerto
n'um dos momentos em que paravamos:--«Deus se amerceie de nós, que
chegou o nosso fim!»
Esta linha não tem data, mas sem duvida foi traçada no dia 24. Depois os
apontamentos falham; mas eu muito bem me recordo dos successos n'esse
estranho dia. Iamos então caminhando através da neve, com paragens
incessantes, impostas pela incomparavel fadiga. Tudo em redor era
radiantemente, indescriptivelmente branco. E esta absoluta brancura, sob
o absoluto silencio, tornava-se tanto mais desoladora, quanto
evidenciava a ausencia de vida--e a impossibilidade de achar que comer,
fosse animal ou planta. Quasi ao pôr do sol chegámos junto da «ponta do
seio», d'essa enorme collina de neve dura, que, pousada no topo da
montanha (da montanha que reproduzia a fórma perfeita d'um seio),
parecia ella propria o bico d'esse peito descommunal. Apesar de
exhaustos, prendemo-nos um instante na admiração d'aquelle esplendido
cume de monte--mais esplendido ainda pela luz vermelha e côr de rosa em
que os raios do sol poente o envolviam, dando-lhe um tom de carne, d'uma
carne sobrenatural que de si irradiasse luz. Mas a admiração não podia
durar em homens collocados como nós, a tão extrema visinhança da morte.
O nosso mal era sobretudo o frio. Bem comidos, estimulados por um vinho
generoso, ainda poderiamos aguentar a pavorosa temperatura d'aquellas
neves eternas. Mas assim, moribundos de fome,--como resistir á noite que
vinha cahindo? Quando o sol nos faltasse, como viveriamos, a menos de
encontrar um abrigo? Abrigo!... Onde estava elle, n'essa branca e lisa
vastidão de neve?
--A cova de que falla o portuguez, no papel, deve ser por aqui, murmurou
o capitão John.
Pobre John! Tinha os olhos (como os outros, como eu decerto) encovados,
esgazeados, rebrilhantes de febre, sobre a lividez da face hirsuta.
Considerei um momento o pobre amigo encolhendo os hombros:
--Cova! Se tal cova existe... Na cova estamos nós, ou á beira d'ella.
O barão, porém, agora acreditava firmemente na escrupulosa exactidão do
velho D. José da Silveira. «Se elle a achou (argumentava o barão, e com
razão) é que essa cova está situada de tal sorte, tão saliente e tão
visivel, que não póde deixar de attrahir os olhos, e logo os passos de
quem fôr trepando a serra».
--Ainda a encontramos, e antes do sol posto! affirmou elle com um grande
gesto de esperança.
--Se a não encontramos (foi a minha consoladora replica) e a noite vier
sobre nós, assim desabrigados, é o fim da nossa aventura. Em todo o
caso, real ou metaphoricamente, _é a cova_!
Durante dez ou doze minutos arrastámos os passos n'um silencio mortal.
Umbopa ia adiante, com os hombros abafados na manta curta, e um cinto de
couro muito apertado, arrochado em volta da cinta «para encolher a
fome». Eu seguia atraz, quasi vergado em dois. De repente tropecei
n'elle que parára, e que me agarrou pelo braço:
--Macumazan, acolá! exclamou surdamente, apontando com o cajado.
O que elle apontava era a linha abrupta onde começava, subindo, a
primeira encosta do «bico do peito». E ahi na brancura da neve destacava
uma mancha preta.
--É a caverna! exclamou Umbopa.
Talvez fosse! Parecia, com effeito, a abertura negra d'um buraco. Para
lá endireitámos os passos. E na realidade encontrámos uma gruta, de
entrada baixa e lôbrega, que bem podia ser a que o velho D. José da
Silveira marcára no seu roteiro. Em todo o caso alli estava um abrigo. E
bemdito era o seu encontro--porque (como succede n'estas latitudes) o
sol sumiu-se subitamente, e logo atraz d'elle, de golpe, sem crepusculo,
sem gradação, a noite cahiu, gelada e negra. Enfiámos bem depressa para
dentro da caverna, como animaes acossados. Aconchegámo-nos uns contra os
outros, sentados no chão, costas com costas. E alli ficámos na treva,
mudos, tiritando e procurando esquecer no somno a nossa extrema miseria.
Mas o frio, intenso de mais, não nos consentia dormir. Estou convencido
que n'aquella altura o thermometro marcaria regularmente quatorze ou
quinze graus abaixo de zero! E era esta temperatura que tinhamos de
affrontar, de todo alquebrados de fadiga, meio inanimados de fome!
Pois alli estivemos em montão, encolhidos uns nos outros, durante a
infindavel noite, sentindo a cada instante, através do corpo, começos de
congelação ora n'um pé, ora nos dedos, ora na orelha. Debalde nos
apertavamos! Para quê! Nenhum tinha em si calor bastante para communicar
á carcassa alheia. Ás vezes um conseguia dormitar durante momentos, mas
para acordar logo em sobresalto, recomeçar a tremer. De resto,
n'aquellas condições, o somno que se prolongasse--decerto se tornaria
eterno. Foi uma noite angustiosa! Eu por mim creio que me conservei vivo
por um violentissimo e teimosissimo esforço da vontade.
Um pouco antes da madrugada, Venvogel, o nosso pobre Hottentote, cujos
dentes toda a noite tinham batido como castanholas, chamou baixo por
mim, deu um pequeno suspiro, e ficou profundamente socegado, como se
tivesse adormecido. As costas d'elle pousavam contra as minhas costas.
Pareceu-me que as sentia pouco a pouco arrefecer. Por fim tornaram-se
positivamente como uma grande pedra de gelo que me regelava. Duas vezes
as repelli. Duas vezes a _pedra_ se abateu sobre mim, mais fria. O ar no
emtanto clareava. Á entrada da cova foi apparecendo como uma nevoa
luminosa, feita da refracção do sol sobre a neve. Uma luz mais viva e
fixa estendeu para dentro a sua brancura--e olhando então para traz
descobri que o pobre Hottentote estava _morto_! Decerto morrera quando o
ouvi suspirar. Pobre Venvogel! Não admirava que lhe tivesse sentido as
costas cada vez mais frias, mais frias... A sua miseria findára. Alli
estava agora, na mesma postura, com as mãos apertadas em torno dos
joelhos, a cabeça cahida para baixo, _gelado_. Todos nos erguemos de
salto, com horror. Já a esse tempo o dia penetrára na caverna, n'uma luz
mortiça e vaga. De repente, ao meu lado, resoou um grito. Volto a
cabeça, vivamente. E vejo--vejo ao fundo da gruta, que não tinha mais de
quatro metros, uma fórma, uma figura humana, sentada n'uma pedra, com a
cabeça toda descahida sobre o peito, os braços hirtos e pendentes para o
chão! Aproximei-me mais, aterrado. E percebi que era tambem um _morto_.
Peor ainda, percebi que era um _branco_!
Os nossos nervos, desorganisados já, não puderam com esta nova e brusca
emoção. Tropeçando uns nos outros, largámos desesperadamente a fugir
para fóra da caverna.
* * * * *
Mas depois, fóra, na plena luz, olhámos uns para os
outros--envergonhados.
--Vou vêr outra vez, exclamou o barão terrivelmente pallido. Talvez a
figura que vimos seja a de meu irmão.
Era possivel. E um por um, n'um silencio apavorado, atraz do barão,
tornámos a penetrar na gruta. Ao principio, deslumbrados pela grande luz
exterior e pela alvura da neve, nada distinguiamos na penumbra concava.
Por fim a estranha, horrivel figura destacou, surgiu na sombra.
Avançámos para ella. O barão ajoelhou, espreitou a face morta, teve um
suspiro de allivio:
--Não, graças a Deus, não é elle!
Fui tambem olhar. Não, nem remotamente se parecia com esse sujeito
chamado Neville, que eu encontrára em Bamanguato. O cadaver era o d'um
homem alto, de meia idade, com feições aquilinas, cabello já grisalho, e
longos bigodes negros. A pelle, perfeitamente amarella, estava toda
esticada sobre os ossos. Não tinha fato, a não ser uns restos de meias
altas, de lã, até aos joelhos. Do pescoço, preso por uma correntesinha,
pendia-lhe um crucifixo de marfim. Todos os membros hirtos se lhe tinham
petrificado.
--Quem poderá ser? murmurei, assombrado.
O capitão John contemplava a figura pensativamente.
--Tenho uma idéa... Não póde ser senão elle! É o velho fidalgo! É D.
José da Silveira!
Eu e o barão soltámos o mesmo grito de incredulidade:
--Impossivel! Ha trezentos annos!
Mas o capitão tinha as suas razões, e decisivas. N'uma temperatura como
a da cova, que é a d'uma geleira, um corpo morto póde perfeitamente
conservar-se trezentos annos--e mesmo tres mil... Essa temperatura de
quinze a dezesete graus abaixo de zero nunca alli mudava; nenhum raio de
sol entrára jámais n'aquella cova voltada para noroeste: não havia
animaes que alli penetrassem e que destruissem o corpo. Que importavam
tres seculos? A carne de açougue que vem da Nova-Zelandia para Londres
dentro das geleiras artificiaes está fresca ao fim de trinta dias; e
conservada em iguaes condições, não se deterioraria ao fim de trinta
seculos. Naturalmente o escravo (de quem elle falla no papel) quando o
encontrou morto, tirou-lhe o fato, não se deu ao trabalho de o enterrar,
e abalou...
--E olhai! accrescentou o capitão apanhando uma especie de osso da fórma
d'um lapis, e aguçado, que jazia no chão, ao lado. Aqui está com que
elle desenhou o mappa! Tirou sangue do braço, escreveu com esta ponta de
osso!
Passámos o osso de mão em mão, em silencio, esquecendo as nossas
proprias miserias no espanto d'aquelle encontro. Já não podia haver
duvida. Alli estava elle pois, sentado n'uma pedra, frio e duro como
ella, o homem cujo derradeiro escripto, traçado havia mais de trezentos
annos, nos trouxera ao logar mesmo onde elle o escrevera--para o
encontrar a elle proprio, na mesma attitude em que com seu sangue
riscava o roteiro que d'além-tumulo nos guiava! Incomparavel maravilha!
Alli tinha eu na mão a rude penna com que elle traçára essas linhas! E
parecia que ante mim pouco a pouco resurgiam visiveis, redivivos, os
momentos passados ha tres seculos:--o heroico fidalgo, morto de frio e
de fome, procurando revelar ao seu Rei o segredo immenso que descobrira;
a camisa rasgada, a veia aberta; as linhas tremulas anciosamente
lançadas; a penna informe escorregando-lhe da mão; a treva da noite
enchendo a cova; o derradeiro beijo pousado no crucifixo; um pensamento
dado ainda aos seus, á terra d'onde partira n'um galeão, ao Rei que
servia com indomada fé; por fim a morte, o lento e sereno resvalar para
a morte, n'aquelle immenso silencio e na immensa solidão!
Por vezes mesmo, olhando para elle, parecia-me reconhecer as aquilinas e
energicas feições do seu descendente, o pobre Silveira, que me morrera
nos braços. Talvez imaginação. Em todo o caso _elle_ alli estava, o
primeiro, o antepassado, esse de quem o seu remoto neto me fallára,
estendendo os olhos já embaciados para os distantes seios de Sabá. Alli
estava; e provavelmente lá está ainda, lá estará, através dos seculos
que hão de vir, para espantar outros aventurosos homens como nós, se
jámais houver outros que cheguem a penetrar na sua espantosa e solitaria
tumba!
--Vamos embora! exclamou o barão, muito pallido.
Mas parou. E apontando para o corpo de Venvogel, que ficára na mesma
postura, com os joelhos á bôca, os braços apertados em volta dos
joelhos:
--Dêmos uma companhia ao pobre morto, para dormir n'este esquecimento.
Erguemos então o cadaver de Venvogel e collocámol-o sentado na pedra,
junto do do velho fidalgo portuguez. Depois o barão quebrou a corrente
que pendia do pescoço de D. José da Silveira, e guardou o crucifixo no
seio. Eu proprio tomei o osso em fórma de lapis. Aqui o tenho ao meu
lado, emquanto estas linhas escrevo. Ás vezes assigno com elle o meu
nome.
Finalmente tendo-os deixado lado a lado, o altivo fidalgo d'outras eras
e o pobre servo hottentote, a passar a sua eterna vigilia entre essas
eternas neves, sahimos da caverna para a luz esplendida--e retomámos em
fila o nosso triste caminho, pensando que bem cedo estariamos como
elles, gelados e hirtos, n'um barranco da serra.
Andada uma milha, que nos levou muito tempo, chegámos emfim á
extremidade do planalto do monte sobre o qual assentava o «bico do
peito». E foi uma grande emoção. Por baixo de nós, adiante de nós,
estava (devia estar) emfim essa região mysteriosa para além das serras,
que nós vinhamos demandando:--mas toda ella se occultava sob um denso
nevoeiro. Alli ficámos pois repousando, esperando. Pouco a pouco, as
camadas mais altas da nevoa foram-se desfazendo. Avistámos então um
pendor da serra, muito dôce e todo coberto de neve. Depois outras
camadas de nevoeiro mais abaixo clarearam; e appareceu aos nossos olhos
famintos uma campina de herva verde, um regato correndo através, e á
beira d'agua, deitados ou pastando, uns dez ou doze animaes que nos
pareceram antilopes.
A nossa alegria--foi como a d'uma resurreição. Caça! Alli estava caça
para comer, e deliciosa! Era a salvação, era a vida! A difficuldade era
caçar--essa caça!... Lembro-me que no nosso immenso alvoroço tivemos uma
rapida e atarantada discussão, em voz baixa e tremula--se deviamos
aproximar-nos da caça ou fazer fogo d'alli, se deviamos usar as
carabinas Winchester ou a «Express»! Indecisão terrivel--porque de
acertar ou falhar dependiam as nossas vidas. Fui eu por fim que me
decidi. Se tentassemos atravessar o pendor de neve, podiamos espantar o
rebanho. E a carabina «Express», apesar d'um alcance inferior, era
preferivel--porque as balas explosivas mais facilmente apanhariam
_algum_ dos antilopes.
Emfim fizemos fogo, todos a um tempo, com um estampido que rolou
tremendamente nas quebradas dos montes. O fumo clareou. E eis que,
alegria sem par!--vemos um dos animaes por terra esperneando
furiosamente. Berrámos de puro gozo. Estavamos salvos! salvos! De fome
já não morriamos! Corremos aos trambulhões pela neve abaixo:--e em
poucos momentos tinhamos nas mãos os figados e o coração do animal,
quentes e fumegando!
Mas surgia uma difficuldade. Sem lenha, sem lume, como assar a caça?
--Gente faminta não tem exigencias! gritou excitadamente o capitão John.
A ella, e crúa!
Não restava outra solução--e não nos pareceu repugnante. Arrefecemos as
visceras na neve, lavámol-as na agua corrente--e devorámol-as com
voracidade! Parece horrivel:--mas confesso que aquella carne crúa me
soube divinamente! D'ahi a um quarto de hora, que mudança! Voltára-nos a
vida, o vigor! O pulso batia outra vez, forte e regular. Eu por mim
_sentia_ positivamente o sangue degelar-se, correr-me dentro das veias!
O barão apertou as mãos, e disse simplesmente:
--Louvado seja Deus por isto!
Ficámos olhando uns para os outros, muito tempo, sem falla, n'um sorriso
mudo. E não havia em nós outra sensação--senão a de estarmos salvos, de
estarmos vivos! Por fim adormecemos, envoltos dôcemente no sol, que
subia macio e tepido. Quando acordámos, e esfregámos os olhos, o
nevoeiro desapparecera. Toda a vasta região em baixo nos appareceu n'um
relance. Demos um grande _ah_, lento e maravilhado! Nunca eu vira (nem
outra vez verei!) terra mais deslumbrante! Mudo ainda, tonto da fadiga e
da fome passada, parecia-me que morrera, que chegára ao Paraiso, e que o
Senhor nos ia apparecer!
Estavamos no planalto d'um dos «Seios de Sabá», com um dos «bicos do
peito» erguendo-se por traz de nós até ás nuvens, sublime e brilhante de
neve. Logo por baixo desciam os vastos pendores da serra, n'uma
profundidade de cinco mil pés; e para além das derradeiras faldas, a
perder de vista, eram leguas e leguas d'uma terra esplendidamente
fertil, de adoravel belleza. Viamol-a desdobrada ante nós como um
immenso mappa em relevo; e os seus encantos differentes, assim
abrangidos n'um relance, davam a impressão d'um paraiso resumido onde
Deus prodigamente tivesse reunido as suas obras melhores. Escassamente
se póde detalhar uma paizagem tão formosa e vária. Aqui alastrava-se uma
vasta mancha de floresta; além um rio ondulava com vivos brilhos d'aço
novo; para diante longas pradarias tapetavam o sólo de verde tenro e
claro; mais longe era um lago que brilhava, grandes rebanhos que
pastavam, ou uma collina onde a agua viva borbulhava e faiscava entre as
rochas. As culturas abundavam, ricamente coloridas. A cada instante
entre pomares e regatos avistavamos aldeias graciosas, com as cabanas
coroadas por um tecto de colmo agudo. De tudo se elevava uma sensação
prodigiosa de vida, de fartura, de paz. No horisonte surgiam picos de
serras remotas, cobertas de neves. E um sol radiante derramava
illimitadamente a alegria do seu fulgor d'ouro.
Duas coisas nos impressionaram. Primeiramente, que aquella região tão
rica estivesse pelo menos cinco mil pés acima do nivel do deserto. E
depois que toda a agua da serra corresse de sul para norte, do lado
opposto ao sertão, indo unir-se ao magnifico rio que se perdia no
horisonte azulado.
Nenhum de nós fallava, arrobados na contemplação d'aquella incomparavel
natureza. Por fim o barão estendeu o braço:
--Ha uma estrada marcada no mappa, com o nome de estrada de Salomão, não
é verdade? Pois lá está, além, para a direita...
E com effeito, para a direita, nos primeiros declives da serra, abaixo
dos nossos pés, branquejava uma grande estrada! Tinhamos já perdido toda
a faculdade de admirar. E a nenhum de nós pareceu estranho, que, no topo
d'uma montanha, no centro d'Africa, a centos de leguas de toda a
sciencia e civilisação, houvesse uma estrada, com as proporções e
grandeza d'uma velha via romana, branca como neve, talhada sobre os
abysmos.
--O melhor é descermos, disse simplesmente o capitão John.
A estrada ficava (como disse) á nossa direita, surgindo por traz de
grossas penedias que se amontoavam no primeiro pendor da serra. Cortámos
para lá, devagar, ora através de grandes espaços de neve, ora por sobre
montes de lava. Quando dobrámos por fim as penedias, avistámol-a de
repente em baixo, a algumas jardas. Era magnifica, toda cortada na rocha
viva, e admiravelmente conservada! Mas, coisa extraordinaria, parecia
começar alli, ao meio da serra, bruscamente. Continuámos a descida
alvoroçados, pozemos emfim os pés sobre as suas fortes lages. Olhámos,
explorámos em redor. A estranha via findava com effeito alli, na serra,
entre umas rochas de lava entremeadas de neve!
--Extraordinario! exclamou o barão. Porque começa esta estrada assim, ou
porque acaba assim, de repente, no meio da serra?
Abanei a cabeça, em perfeita ignorancia.
--Parece-me que percebo, disse o capitão coçando o queixo. Esta estrada
é simplesmente maravilhosa! Não acaba aqui. Antigamente galgava a
cordilheira e seguia pelo deserto. Mas a parte que galgava a serra para
além, foi coberta por montões de lava, n'alguma erupção: e a parte que
cortava o deserto foi invadida pelas areias movediças. Não póde ser
senão isto.
Talvez fosse. Em todo o caso largámos os passos por sobre essa
surprehendente estrada que tinha o nome de Salomão. Esta suave descida
por uma magnifica calçada, com as forças restauradas, e a abundancia a
esperar-nos em baixo, nos ferteis campos cheios de gado,--era bem
differente da subida pela neve acima, extenuados de fome e de fadiga, e
com a afflictiva incerteza do que estaria para além. Na verdade, se não
fosse a triste lembrança do pobre Venvogel e da sinistra cova, onde elle
espectralmente ficára ao lado do velho fidalgo d'outras eras, poderiamos
cantar de pura alegria. A cada milha que andavamos o ar cada vez se
tornava mais macio e tepido:--e a região em torno parecia crescer para
nós, a transbordar de abundancia e belleza. A estrada, essa, era
positivamente portentosa. Affirmava o barão que tinha semelhanças com a
estrada do Saint-Gothard sobre os Alpes. Eu por mim não vira maravilha
maior! N'um certo sitio abria-se uma ravina medonha, d'uns trezentos pés
de largura, d'uma profundidade de mais de cem pés: pois este abysmo
estava vadeado por um colossal aqueducto, com arcos para a passagem das
torrentes, sobre o qual a estrada seguia com soberba segurança. N'outros
sitios cortada em zig-zags na rocha, contornava pavorosos precipicios,
com parapeitos que a defendiam e formavam balcões sobre o abysmo. Mais
adiante, perfurava um monte de rocha com um tunnel de trintas jardas.
Nas paredes d'este tunnel corriam singulares relevos representando
guerreiros com cotas de malha, que retesavam arcos, guiavam carros de
combate. Havia mesmo uma grande scena de batalha, com lanças em
confusão, e captivos acorrentados.
--Tudo isto é obra egypcia, dizia o barão parando a cada instante. Tudo
isto eu vi nos templos do alto Egypto. O nome da estrada virá de
Salomão. Mas estas esculpturas são das mãos de egypcios.
Pela uma hora da tarde tinhamos descido a montanha até ás faldas baixas
onde começava o arvoredo. Ao principio eram apenas raros arbustos
silvestres. Depois a estrada penetrava n'um bosque de olmos, uns olmos
cujas folhas brilham como prata, e que eu suppunha só existirem no Cabo.
--Estamos ao menos em terra de lenha! exclamou enthusiasmado o capitão
John. Vamos parar, e cozinhar um jantar. Eu por mim já digeri aquella
carne crúa... Reentremos solemnemente na civilisação!
Todos com effeito tinhamos fome; e deixando a estrada, fomos em direcção
a um regato que brilhava a distancia entre arvores e relvas. Bem
depressa fizemos um fogo de ramos sêccos; e, cortando succulentos bifes
do lombo da antilope que trouxeramos comnosco, assamol-os na ponta de
espetos de pau, á velha maneira dos cafres. Ao fim do delicioso repasto
accendemos os cachimbos--e estirados á sombra das frescas arvores,
gozamos emfim, depois de tão longos e duros dias, um repouso perfeito.
O logar era adoravel. O regato, muito frio e muito puro, cantava sobre
seixos que reluziam. As margens verdejavam, cobertas de fetos
esplendidos entremeados com plumas de aspargos silvestres. Aqui e além
cresciam tufos de flores. Uma brisa tépida e macia como velludo
susurrava nas folhas dos olmos. Bandos de rolas arrulhavam meigamente. E
de ramo em ramo faiscavam as azas de passaros mais brilhantes que joias.
Nenhum fallava, no enlevo d'aquella paz e d'aquella doçura. E por muito
tempo nenhum de nós se moveu--até que o capitão John, surgindo de
repente nú do leito espesso de fetos onde se enterrára, correu para o
riacho, e mergulhou n'um longo e ruidoso banho. Deitado de costas, n'um
bem-estar indizivel, occupei-me então a observar aquelle homem
admiravel, que, apenas se achava n'uma região d'ordem, retomava os seus
complicados habitos de asseio e de elegancia. Depois do banho, o nosso
excellente amigo revestiu a camisa de flanella; e sentando-se á beira do
regato, rompeu a lavar os seus collarinhos de gutta-percha. Finda esta
barrela sacudiu, escovou, esticou as calças, o collete, o jaquetão,
dobrou tudo cuidadosamente, e poz-lhe por cima pedras para acamar e
desfazer os vincos. Em seguida, profundamente concentrado, passou ás
botas, que esfregou com uma mão cheia de feto, e depois besuntou com
gordura de antilope (que pozera de lado) até lhes dar uma apparencia
comparativamente lustrosa e decente. Tendo-as examinado com cuidado, de
monoculo fixo e cabeça á banda, encetou outras e mais delicadas
operações. D'um pequeno sacco que trazia na mochila tirou um espelhinho
e examinou cuidadosamente dentes, olhos, cabellos, barba--a barba já
grossa d'oito dias. Este exame parecia humilhal-o, porque abanava a
cabeça com desconsolação e tédio. Começou então pelas unhas que aparou e
poliu; depois seguiu ao cabello que acamou e apartou... Mas de repente,
com uma idéa, calçou as botas que puzera ao lado; e assim, de botas, com
as pernas núas, e em camisa de flanella, ergueu-se para ir pendurar o
espelhinho n'um ramo d'arvore. O arranjo não provou satisfatoriamente,
porque voltou para a beira do regato, e com custo e arte equilibrou o
espelho n'uma folha grossa de feto. Tornou logo a metter a mão no sacco
e tirou uma navalha de barba... «Santo Deus! pensei eu erguendo-me no
cotovêlo, o homem irá fazer a barba?» Ia. Tomando outra vez o pedaço de
gordura de antilope com que ensebára as botas, lavou-a escrupulosamente
no regato, esfregou com ella desesperadamente a face e o queixo, e
principiou a rapar o pêllo aspero de dez dias. Era porém uma operação
difficil, porque cada movimento da navalha vinha acompanhado d'um
angustioso gemido. Por fim conseguiu escanhoar a face esquerda e metade
do queixo. Grande suspiro de allivio! E ia atacar a outra face--quando,
de repente, vi uma coisa passar e lampejar por cima da cabeça.
John deu um pulo, com uma praga. Ergui-me tambem de salto--e na mesma
margem do regato, a distancia d'uns trinta passos, dei com os olhos n'um
bando de homens. Era uma gente de grande estatura, immensamente robusta,
e côr de cobre.
Alguns d'elles traziam aos hombros pelles de leopardo, e na cabeça umas
corôas de altas pennas, negras, direitas, que ondulavam na brisa. Em
frente do bando, um rapaz d'uns dezesete annos conservava ainda o braço
erguido e o corpo inclinado, na attitude graciosa d'uma estatua que eu
vira no Cabo, um Ephebo grego que lança um dardo.
Evidentemente a _coisa_ que passára e brilhára era um dardo--e fôra o
moço airoso que o arremessára.
Quasi immediatamente, um velho, de ar erecto e marcial, sahiu d'entre o
grupo, e, agarrando o braço do rapaz, fallou-lhe baixo como se o
avisasse. Em seguida todos avançaram para nós.
O barão, John e Umbopa tinham logo agarrado e apontado as carabinas. Os
homens todavia continuavam avançando, devagar, em grupo. Percebi logo
que nunca tinham visto espingardas, pelo modo como affrontavam assim
tranquillamente os tres canos erguidos.
--Baixem as armas! gritei aos outros.
Tinha comprehendido tambem que a nossa segurança entre essa gente
selvagem dependia toda de conciliação e de ardil. Apenas pois os
companheiros baixaram as armas, caminhei lentamente para o velho.
--Bem vindo! exclamei em Zulú, ao acaso, sem saber que idioma
entenderiam aquelles homens.
Com surpreza minha, o velho comprehendeu. E respondeu logo, não em Zulú,
mas n'um outro dialecto, tão parecido com o Zulú, que Umbopa e eu o
percebemos perfeitamente:
--Bem vindo!
Como viemos a saber depois, a lingua d'este povo era uma fórma antiquada
da lingua Zulú--e estando para o Zulú do sul como o inglez do tempo dos
Tudores está para o inglez polido do seculo XIX. No emtanto o velho
avançára outro passo, erguendo a mão.
--D'onde vindes? continuou elle. Quem sois? Porque tendes tres de vós as
faces brancas, e o outro a pelle como nós e como os filhos de nossas
mães?
E apontava para Umbopa--que na realidade, pela figura, pela côr, pelas
feições, era muito semelhante áquelles homens formidaveis. Eu então
repeti a saudação ao velho. E, muito espaçadamente, para que elle
apanhasse bem o meu Zulú:
--Somos gente d'outros sitios, vimos em boa paz, e este homem é nosso
servo.
O velho abanou lentamente a cabeça, ornada de immensas plumas negras que
ondulavam.
--Mentes! A gente d'outros sitios não póde atravessar as montanhas, nem
o deserto sem agua onde toda a vida acaba. Mas não importa que mintas...
Se sois estranhos e vindes d'outros sitios, tendes de morrer, porque não
é permittido a ninguem entrar na terra dos Kakuanas. É a vontade do
nosso rei. Preparai-vos pois para morrer, oh gentes!
Fiquei um pouco perturbado--tanto mais que vi alguns dos selvagens
levarem logo a mão ao cinto d'onde lhes pendiam umas armas em fórma de
pesadas navalhas.
--Que diz esse malandro? perguntou o capitão, percebendo o meu embaraço.
--Diz simplesmente que nos vai retalhar á faca.
--Santo Deus! murmurou o nosso amigo.
E, como era seu costume, em frente d'um perigo ou d'uma crise, passou
nervosamente a mão pelo queixo e pelos beiços. Alguma coisa decerto lhe
succedeu então á dentadura postiça (que momentos antes tirára para lavar
e que tornára a pôr), porque n'um relance lhe vi os dentes todos de
fóra, e logo sumidos para dentro! Não percebi bem o caso. Mas qual é o
meu espanto quando os Kakuanas soltam um grito de terror, e recuam para
traz, em tropel!
--Que foi? exclamei.
--Foram os dentes! acudiu o barão, excitadamente. Os selvagens viram-lhe
os dentes a mover-se... Tira-os de todo, John, tira-os de todo. Talvez
os assustes.
O capitão promptamente comprehendeu, passou a mão devagar por sobre a
bôca, e escamotou a dentadura. Os Kakuanas no emtanto, n'uma ancia de
curiosidade, avançavam de novo, com os olhos arregalados para John. E
foi o velho (evidentemente um chefe) que ergueu a voz e a mão, com
solemnidade:
--Quem é este homem, oh gentes, que tem o corpo coberto, as pernas núas,
cabello só em metade da cara, e um grande olho que reluz? Quem é elle
que faz mexer assim á vontade os dentes para dentro e para fóra da bôca?
--Abra a bôca, John! murmurei eu baixo para o capitão.
John arreganhou os beiços, e exhibiu duas gengivas muito vermelhas,
desdentadas como as d'um recemnascido. Entre os selvagens passou um
susurro d'espanto.
--Onde estão os dentes? Ainda agora tinha dentes! exclamavam elles,
entre si, com gestos apavorados.
Então John deu um movimento vagaroso á cabeça, passou a mão pela bôca
com soberana indifferença, e desfranzindo de novo os beiços--mostrou
duas esplendidas filas de dentes, muito fortes, muito sãos, que
rebrilhavam.
No mesmo instante o rapaz que despedira o dardo arremessou-se para o
chão, com gritos espavoridos. Todo o bando tapava as faces com as mãos,
n'um terror. E o velho, que parecia o mais resoluto, tremia tanto, e tão
encolhido, que lhe batiam os joelhos um contra o outro.
Só quem conhece selvagens e a mobilidade d'aquellas imaginações infantis
póde comprehender como subitamente, em cada um d'elles, ao desejo de nos
matar ia já succedendo o impulso de nos adorar... Quando o velho tornou
a levantar a voz, foi muito humildemente e n'uma postura de supplica:
--Vós sois Espiritos! Bem vejo que sois Espiritos, oh gentes! Nunca
houve homem nascido de mulher que tivesse só cabello n'um lado da cara,
e um olho redondo e transparente, e dentes que se derretem e de repente
crescem outra vez... Vós sois Espiritos. Perdoai-nos, senhores,
perdoai-nos!
Aproveitei logo esta esplendida occasião. E estendendo o braço, com
soberba magnanimidade:
--Estaes perdoados.
Era porém necessario, para nossa salvação, que deslumbrassemos e
inteiramente nos apoderassemos d'aquellas almas ferozes e simples. E
para isso, n'Africa (como n'outras partes) o mais prompto instrumento é
o sobrenatural. Não hesitei portanto (com vergonha o confesso) em me
attribuir, a mim e aos meus companheiros, uma origem divina! De resto,
com o negro da Africa Central, que _pela primeira vez_ vê o branco, e
assiste a alguns dos _milagres_ que o branco póde realisar com os
pequenos recursos da sua pequena civilisação, este procedimento é o mais
seguro e o mais humano. O selvagem fica desde logo (pelo menos por algum
tempo) contido dentro do respeito, absolutamente razoavel e tratavel; e
assim, poupando ao negro as traições, os brancos poupam a si proprios as
represalias.
Ergui pois a mão, e disse, com vagar e magestade:
--Já que vos perdoei, porque sois ignorantes, condescendo tambem em vos
dizer quem somos. Somos Espiritos! Vivemos além, por cima das nuvens,
n'uma d'aquellas estrellas que vós vêdes de noite brilhar. E viemos
visitar esta terra, mas em paz e para alegria de todos!
Entre os indigenas correram grandes _ah_! _ah_! lentos e maravilhados.
Eu prosegui, mais grave:
--Nós conhecemos todos os reis e todas as gentes. E eu, que sou a voz
dos outros, conheço todas as linguas.
--A nossa bem mal! arriscou com timidez o velho guerreiro.
Dardejei-lhe um olhar chammejante que o estarreceu. E gritei logo, para
fazer uma diversão brusca áquella observação tão justa e perigosa:
--Viemos em paz, é certo! Mas fomos recebidos em guerra. E talvez
devessemos castigar já o ultraje feito por esse moço, que sem provocação
atirou uma faca ao Espirito divino cujos dentes de repente nascem e
cahem.
--Oh não! meu senhor! gritou n'uma anciosa supplica o velho guerreiro.
Poupai-o! Poupai-o, que é o filho do nosso rei! Eu sou seu tio, que o
ajudei a crear. Só eu respondo por cada gota do sangue que lhe gira nas
veias!... Oh meu senhor, a clemencia vai bem aos Espiritos!
Affectei não comprehender a angustiosa prece,--e tornei, com superior
indifferença:
--As nossas maneiras de castigar são simples e terriveis. N'um instante
ides vêr... Tu, escravo que nos segues (e aqui encarei para Umbopa),
dá-me a arma de feitiços que troveja.
Umbopa, que assistira absolutamente impassivel e serio a todas as minhas
affirmações de divindade, e que (Zulú intelligente, afeito aos brancos e
ás _suas manhas_) lhe percebera o alcance--estendeu-me uma carabina
Winchester, com humilissima reverencia.
Justamente n'esse instante avistei, para além do riacho, a umas setenta
jardas de distancia, um pequeno antilope, immovel sobre um montão de
rochas.
--Vêdes aquelle gamo? exclamei eu para os selvagens. Julgaes possivel
que um simples homem, nascido do ventre da mulher, o mate d'aqui d'onde
estou, só com fazer estalar um pequeno trovão?
--Não é possivel! murmurou recuando o velho guerreiro. Não é possivel
para homem nascido do ventre da mulher!
--Ides vêr.
Apontei. Bum! E subitamente o gamo, dando um pulo furioso no ar, tombou
morto, immovel, estatelado nas pedras.
Um fundo murmurio de assombro, de terror, passou entre os Kakuanas... Eu
accrescentei simplesmente:
--Ahi está. E se tendes fome, podeis ir buscar aquelle gamo!
O velho fez um signal. Dois homens correndo trouxeram a caça. E
amontoados em volta d'ella, todos em silencio (n'um silencio que era
religioso pelo pavor que continha), ficaram contemplando boqui-abertos o
buraco da bala que lhe acertára entre os hombros.
--Se não estaes satisfeitos, volvi eu ainda, se em vez d'um gamo me
quereis vêr matar um homem, que um de vós se colloque além sobre as
pedras ou mais longe, e o raio irá ter com elle.
Houve um movimento geral dos Kakuanas, recuando e protestando.
--Não! Não! gritaram alguns. Acreditámos, acreditámos... Não vale a pena
gastar feitiços com nós outros, que acreditámos e que somos amigos!
O velho guerreiro interveio, com alacridade:
--Assim é! Nós somos amigos. E para que nos conheçaes bem, oh almas das
estrellas, que trovejaes e mataes tão de longe, sabei que eu sou
Infandós, filho de Kafa, antigo rei dos Kakuanas. Este moço é Scragga,
filho de Tuala, nosso rei! Tuala, o homem de mil mulheres, senhor dos
Kakuanas, terror dos seus inimigos, sentinella da Grande-Estrada,
sabedor das artes negras, chefe de cem mil guerreiros, Tuala o supremo,
Tuala o d'um-só-olho...
--Basta, interrompi sobranceiramente. Leva-nos então ao rei Tuala.
Porque, nas nossas jornadas pelo mundo, nós só fallamos a reis!
--Certamente, meu senhor, certamente... Mas nós andavamos caçando
n'estes sitios, e estamos a tres dias de jornada da aringa do rei. São
tres dias que tendes de caminhar.
--Caminharemos. Escuta tu, porém, Infandós, e tu, Scragga, filho de
Tuala! Se por acaso tentardes no caminho armar-nos uma traição, ou se
essa idéa vos atravessar sequer a cabeça, nós, que tudo adivinhámos,
tomaremos de vós tal vingança que fará ainda estremecer os filhos de
vossos filhos. Aquelle cujo olho reluz, e cujos dentes vão e vêm,
incendiará todas as vossas searas com a chamma do seu olho, e
despedaçará todas as vossas carnes com as pontas das suas presas! E nós
faremos resoar os canos que trovejam d'uma maneira que será pavorosa!
Toda a agua seccará. Todo o gado morrerá. E os espiritos maus virão, á
nossa voz, dispersar os vossos ossos... E agora a caminho.
Esta tremenda falla era quasi superflua--porque os nossos novos amigos
acreditavam superabundantemente nos nossos poderes sobrenaturaes. Ainda
assim o velho Infandós saudou-nos com uma reverencia mais funda e mais
servil, repetindo tres vezes estas palavras: _Krum_! _Krum_! _Krum_!
Como depois soubemos, é esta a maneira kakuana de saudar o rei.
Corresponde ao _Bayète_! dos Zulús.
Depois o velho atirou um gesto aos seus, que immediatamente carregaram
ás costas as nossas mochilas, cantinas, mantas e outras
miudezas--excepto as espingardas, de que elles se afastavam em grandes
voltas e com olhares de terror.
Um d'elles lançou mão ao fato do capitão John, ainda cuidadosamente
dobrado á beira d'agua. O excellente John deu logo um pulo para as
calças. E rompeu então uma immensa altercação.
--Não, meu senhor, gritava Infandós, não consentirei que o meu senhor
carregue com essas coisas!
--Mas é que eu quero pôr as calças! berrava John.
--Todos somos aqui seus escravos para servir e carregar...
--Mas as calças...
--Meu senhor!...
--Larga as calças, malandro!
Tive de intervir, suffocado de riso.
--Escute, John. O caso é mais serio do que parece. Um dos motivos do
terror que estamos inspirando é a sua luneta, a sua cara meia barbada e
meia rapada, os seus dentes postiços, e essas pernas brancas á mostra...
Tudo isso espanta as imaginações de selvagens. E se o amigo quer que não
nos percam o medo, é necessario continuar a apparecer-lhes n'essa
figura. Se o amigo lhes surgir ámanhã d'outro modo, tomam-nos por
impostores, e a nossa vida não vale mais um pataco. Assim o viram n'esta
terra, assim n'ella tem de ficar.
John, inquieto, hesitante, voltou os olhos para o barão:
--O amigo Quartelmar tem razão, affirmou o barão. E dá graças a Deus que
já estavas de botas, e que a temperatura é tão dôce.
John teve um suspiro de furiosa resignação. E, durante a nossa estada na
terra dos Kakuanas, foi assim que John se mostrou sempre e praticou
notaveis feitos--de botas, de pernas núas, com uma metade da cara
rapada, outra coberta de barba, e a fralda voando ao vento!
CAPITULO VI
PENETRAMOS NO REINO DOS KAKUANAS
Toda essa tarde trilhamos a larga, magnifica estrada que seguia
infindavelmente para o lado de noroeste. Alguns dos negros marchavam
adiante (uns cem passos) como vedetas. Outros seguiam levando as nossas
bagagens. Nós iamos no meio, entre Infandós e Scragga.
Pouco a pouco, Infandós e eu descahimos n'uma palestra familiar e
amigavel. O velho era esperto e loquaz.
--Quem fez esta estrada, Infandós?
--Foi feita ha muito tempo, meu senhor. Ninguem sabe quando; nem mesmo
uma mulher que tudo sabe, Gagula, que tem vivido através de gerações...
Já ninguem póde fazer estradas assim... Mas o rei não consente que se
desmanche, nem que lhe cresça a herva por cima.
--E ha quanto tempo vivem aqui os Kakuanas, Infandós?
--A nossa gente, meu senhor, veio para aqui de grandes terras que estão
para além (indicava o Norte) ha mais de dez mil milhares de luas. Para
baixo não puderam seguir, segundo diziam nossos avós, que o disseram a
nossos paes, e segundo conta Gagula, a mulher que tudo sabe. Não puderam
por causa das altas montanhas que estão em redor, e do deserto onde tudo
morre. De modo que, como a terra era fertil, aqui assentaram; e tantos e
tão fortes se tornaram que agora, quando Tuala, nosso rei, chama os seus
regimentos, o chão treme todo com o seu peso, e até onde a vista alcança
só se vêem plumas de guerreiros e lanças.
--Mas se a terra está murada de montanhas, e se não tendes visinhos,
para que são tantos soldados?
--A terra está aberta para além (e indicava o Norte). E ás vezes descem
de lá multidões, que não sabemos quem são, e que nós destruimos. Já
correu a terça parte d'uma vida de homem desde a ultima guerra. Depois
houve outra guerra, mas foi entre nós, irmão contra irmão.
--Como foi isso, Infandós?
Infandós começou então uma d'essas historias de pretendentes e de
guerras dynasticas, que abundam em todos os continentes. O pae d'elle,
Kapa, que era o rei dos Kakuanas, tivera por primeiros filhos, da
primeira mulher (elle, Infandós, era filho d'uma concubina) dois gemeos.
Ora a lei dos Kakuanas manda que de dois gemeos reaes o mais fraco seja
sempre destruido. Mas a mãe, por piedade e amor, escondeu o gemeo mais
fraco, que se chamava Tuala, e, ajudada por Gagula, educou-o em segredo
n'uma caverna. Quando Kapa morreu, o gemeo mais velho, que se chamava
Imotú, foi portanto rei; e logo depois teve da sua mulher favorita um
filho por nome Ignosi. Ora por esse tempo passára a guerra com os povos
do Norte: os campos não tinham sido semeados; veio uma fome; e havia
grande miseria e dôr entre o povo, que, como uma fera esfaimada,
rosnava, procurando com os olhos sangrentos alguma coisa em redor para
despedaçar. Foi então que Gagula, a mulher que tudo sabe e que não
morre, rompeu a dizer que os males todos provinham de que Imotú reinava
sem ser rei. Imotú a esse tempo estava doente na sua cubata, com uma
ferida. Começou a correr um clamor entre o povo. Por fim, Gagula um dia
reune os soldados, vai buscar Tuala, o gemeo mais novo que ella e a mãe
tinham escondido nas cavernas, apresenta-o ao povo, descobre-lhe a
cinta, e mostra a marca real com que entre os Kakuanas os reis são
marcados ao nascer--uma tatuagem representando uma cobra, que se enrosca
em torno do ventre real, e vem reunir, sobre o umbigo real, a cabeça e o
rabo. E ao mesmo tempo, Gagula gritava: «Eis o vosso verdadeiro rei, que
eu salvei e que escondi, para elle vos vir salvar agora!» O povo, tonto
de fome, ignorando a verdade, espantado com a evidencia da marca real,
largou a bradar: «Este é o rei! Este é o rei!» Alguns sabiam bem que
não--e que n'este só havia impostura. Mas n'esse momento, ouvindo os
alaridos, o rei Imotú sae doente e tropego da sua cubata, com a mulher e
com o filho que tinha tres annos, a saber porque vinham tantos brados e
porque pediam elles «o rei!» Immediatamente Tuala, o irmão, corre para
elle e crava-lhe uma faca no coração! E o povo, que as acções decididas
e bruscas sempre fascinam, gritou logo: «Tuala é rei! Tuala provou que é
rei!» Diante d'isto a pobre mulher de Imotú agarrou o filho, o seu
Ignosi, e fugiu. Ainda appareceu, passados dias, n'uma aringa, pedindo
de comer. Depois viram-na seguir para os lados dos montes e nunca mais
voltou.
--De modo, observei eu interessado por esta pagina de historia negra,
que Tuala não é o verdadeiro rei.
O velho respondeu com prudencia:
--Tuala, o grande, é rei. Mas se Ignosi vivesse ainda, só esse tinha o
legitimo direito de reinar sobre os Kakuanas. A cobra sagrada foi-lhe
marcada em torno da cinta. O rei é elle. Sómente decerto ha muito que
Ignosi morreu...
Casualmente n'esse instante, voltando-me para fallar aos camaradas que
marchavam atraz--esbarrei com Umbopa, que quasi me pisava os
calcanhares, absorto n'aquella historia de Imotú e de Ignosi, com uma
curiosidade, um interesse que lhe punham nos olhos um brilhar desusado,
lhe davam a expressão de quem de repente lembra coisas vagas, remotas,
semi-esquecidas, perturbadoras. N'essa occasião permaneci indifferente.
Mas, depois, através da jornada, muitas vezes pensei n'aquella anciosa,
esgazeada curiosidade do Zulú.
* * * * *
No emtanto já trilharamos algumas fortes milhas d'estrada. As montanhas
de Sabá ficavam para traz envoltas nos seus mysticos véos de nevoa. E o
paiz cada vez se offerecia mais formoso e mais rico.
Ao começo da tarde avistámos emfim uma grande povoação,--que, segundo
Infandós nos declarou, pertencia ao seu commando militar e continha uma
vasta guarnição. O velho guerreiro mandára mensageiros adiante,
correndo, n'um passo de gazella, a annunciar a nossa vinda. E quando nos
aproximámos da aldêa, descobrimos com effeito, sahindo das portas e
marchando ao nosso encontro, densas companhias de soldados.
O barão tocou-me no braço, com um receio que «as coisas se apresentassem
desagradavelmente». Infandós decerto comprehendeu, pelo tom, pelo
franzir de sobrancelhas do barão, o sobresalto que o tomára (e a mim),
porque acudiu anciosamente, com redobrada reverencia:
--Que os meus senhores não suspeitem de mim! Aquelle é um dos regimentos
que eu commando! Mandei-o sahir e desfilar, para prestar as honras aos
que vêm do mundo das estrellas...
Esbocei um gesto e um sorriso de soberana indifferença. Realmente estava
bem inquieto!
A povoação ficava á direita da estrada, separada d'ella por um declive
de terreno areado e bem pisado, onde o regimento se formára em parada.
Havia alli talvez uns tres mil homens. E quando nos acercámos, podémos
vêr com admiração e assombro, de que esplendida, de que formidavel raça
eram estes guerreiros kakuanas! Nenhum media menos de seis pés d'altura;
e todos eram veteranos de quarenta annos, ageis, experientes,
prodigiosamente robustos, endurecidos por exercicios perpetuos. Sobre a
cabeça todos traziam a corôa d'altas e pesadas plumas negras, sempre
tremendo ao vento. Em volta da cinta pendia-lhes um saião feito de rabos
de boi, muito juntos uns aos outros e brancos; e no braço esquerdo
sustentavam escudos redondos de ferro, recobertos de couro pintado de
branco. Por armas tinham uma azagaia semelhante á dos Zulús--e tres
facas (uma no cinto, duas em presilhas no escudo), facas enormes que
elles chamam _tollas_ e que arremessam a distancias de cincoenta jardas
e mais, com uma certeza terrivel.
As companhias conservavam-se mais immoveis que estatuas de bronze. Mas,
á medida que iamos passando em frente d'ellas, cada official (que se
distinguia por uma capa de pelle de leopardo) dava um signal: e os
homens, brandindo a azagaia no ar, soltavam a saudação real, a grande
voz: «krum! krum! krum!»
Assim penetrámos na povoação ao rumor de acclamações. A aldêa devia ter
uma milha de circumferencia; e era defendida por um largo fosso e por
uma alta estacada feita de troncos d'arvores. Na porta central, do lado
da estrada, havia uma ponte levadiça.
Parecia uma aldêa admiravelmente bem ordenada. Ao centro, entre arvores,
corria uma ampla, extensa rua, cortada em angulos rectos por outras mais
estreitas, formando séries de quarteirões, cada um dos quaes alojava uma
companhia. As cubatas, redondas, feitas d'uma grossa verga entrelaçada,
findavam á maneira das dos Zulús por tectos de colmo em fórma de
zimborio agudo: mas, differentes n'isto das dos Zulús, tinham uma porta,
larga e facil, e eram cercadas por uma varanda, cujo chão de cal dura
rebrilhava ao sol. Os dois lados da grande rua apinhavam-se de mulheres,
que tinham corrido de todas as cubatas para nos admirar. Era uma bella
raça de mulheres--altas, airosas, esplendidamente feitas, com o cabello
mais ondeado que encarapinhado, as feições por vezes aquilinas, e os
beiços sempre finos. Mas o que mais nos impressionou foi o seu ar grave
e serio. Nem pasmo selvagem, nem risos, nem injurias, ao vêrem-nos
desfilar, tão estranhos e differentes de todos os homens que até ahi
tinham encontrado. Nem mesmo a singular figura de John lhes arrancou uma
exclamação: apenas os largos olhos negros se lhes arregalavam para as
pernas niveas do pobre amigo, que, roído de vergonha, praguejava baixo.
Quando chegámos ao centro da aldêa, Infandós parou em frente d'uma
espaçosa e rica cubata, cercada de dependencias menores, entre arvoredo.
E com palavras grandiosas, á maneira dos Zulús, offereceu-nos a
hospitalidade:
--Aqui habitareis, meus senhores. E não tereis de apertar o ventre com
fome! Em breve vos traremos mel, leite, uma ou duas vaccas, alguns
carneiros. Não é muito, oh Espiritos! Mas é dado por corações, que se
regosijam de vos vêr.
--Bem, bem, Infandós, murmurei eu. O que precisamos sobretudo é
descançar, fatigados da nossa descida através dos espaços e dos reinos
do ar...
A cubata era muito confortavel, com herva aromatica espalhada no chão,
grandes pelles servindo de leitos, e vistosos cantaros para a agua.
D'ahi a pouco, entre cantos e risos, appareceu á porta um bando de
raparigas trazendo leite, mel em covilhetes, fructas em cestos:--e atraz
dois rapazes seguiam, arrastando um vitello pelos cornos. Um dos
rapazes, tirando a faca do cinto, matou o vitello de um golpe: e logo o
outro, agil e destramente, o esfolou e retalhou.
Ajudado por uma das raparigas (que era extremamente bonita), Umbopa
passou a cozer a carne n'uma panella de barro, sobre uma alegre fogueira
accesa á porta da cubata: e nós mandamos convidar Infandós e Scragga
para partilhar do nosso repasto. Quando entraram, notei que, para comer,
se não encruzavam no chão á maneira dos Zulús--mas se sentavam em
pequenos bancos, que abundavam na cubata encostados ás paredes. O jantar
foi longo e affavel. O velho guerreiro todo elle exhibia doçura e
respeito. Mas o rapaz Scragga parecia olhar para nós, e para cada um dos
nossos gestos, com singular desconfiança. Talvez, ao vêr que nós
comiamos, bebiamos, e tinhamos as necessidades de qualquer kakuana,
começava a suspeitar da nossa origem divina. Não me agradou este
sentimento, tão real e logico. Que nos poderia assegurar as vidas,
perdidos entre aquellas turbas negras, senão o terror supersticioso?
Depois de jantar accendemos os cachimbos--o que encheu os nossos amigos
d'espanto. Na terra dos Kakuanas, como na dos Zulús, a planta do tabaco
cresce em abundancia--mas elles só a sabem usar torrada e sêcca,
pulverisada. Só conhecem o rapé.
No emtanto conversamos a respeito da nossa jornada. Infandós já tudo
organisára para que ella continuasse na madrugada seguinte, mandando
adiante emissarios a prevenir Tuala da nossa chegada ao seu reino. Tuala
estava então na sua grande cidade de Lú, preparando-se para a revista de
tropas, a dança das flores, e «caça aos feiticeiros», que constituem a
maior solemnidade religiosa e militar dos Kakuanas, na primeira semana
de junho. E segundo affirmava Infandós, nós deviamos (a não ser que nos
detivessem os rios transbordados) entrar as portas de Lú ao fim de dois
dias de marcha.
Depois, como começavam a luzir as estrellas e a aldêa ia cahindo em
silencio, os nossos amigos deixaram a cubata. E tres de nós atiraram-se
logo para cima dos leitos de pelles, emquanto outro, com as carabinas
carregadas, velava, no seu turno de sentinella, para prevenir as
traições.
Mas essa primeira noite na terra dos Kakuanas foi muito calma e segura.
CAPITULO VII
O REI TUALA
Não me dilatarei nos incidentes da nossa jornada até Lú--que nem foram
consideraveis nem pittorescos. Durante dois longos dias trilhámos a
estrada de Salomão, por entre ricas terras cultivadas, e alegres
povoações que nos encantavam pelo seu ar florescente e calmo. A cada
instante passavam por nós troços de gente armada, regimentos emplumados
marchando tambem para a cidade, para o grande festival sagrado. No
segundo dia, ao pôr do sol, parámos n'uma collina, que a estrada galgava
por entre dois renques d'arvores em flôr:--e em baixo, n'uma planicie
deliciosamente fertil, avistámos emfim Lú, a capital dos Kakuanas.
Para cidade d'Africa era enorme,--com seis milhas talvez de
circumferencia, toda ella defendida por estacadas, e rodeada de pomares
e de vastas aringas onde se aquartelavam tropas. Pelo centro corria um
largo e claro rio, vadeado por pontes. Para o norte, a duas milhas,
erguia-se uma collina, que offerecia a fórma singular d'uma ferradura:
e, mais longe, a umas sessenta milhas, surgiam bruscamente da planicie,
em triangulo, tres serras isoladas, escarpadas, todas cobertas de neve.
--A estrada (explicou Infandós, vendo que contemplavamos com estranheza
os tres montes) acaba além n'essas serras, que se chamam as _Tres
Feiticeiras_.
--E porque acaba além, Infandós?
--Quem sabe! murmurou o velho encolhendo os hombros. As tres montanhas
estão todas furadas por cavernas. Ha no meio d'ellas uma cova immensa. É
lá que se sepultam agora os nossos reis. E era alli que os homens
antigos, que sabiam tudo, vinham buscar certas coisas...
--Que coisas, Infandós? exclamei eu, cravando n'elle um olhar que o
sondava.
O velho sorriu, com uma grossa malicia de negro:
--Os Espiritos que vêm das estrellas sabem decerto mais do que um
Kakuana...
--Com effeito! acudi eu, n'um tom sciente e profundo. E por isso te
posso dizer, Infandós, que esses homens antigamente vinham procurar um
ferro amarello que rebrilha, e umas pedras brancas que faiscam.
--Talvez fosse, talvez fosse! balbuciou Infandós, embaraçado,
afastando-se bruscamente para lançar uma ordem aos carregadores da
bagagem.
--Acolá, disse eu aos companheiros mostrando as _Tres Feiticeiras_,
estão as minas de Salomão!
Todos tres, commovidos, ficámos a olhar aquelles montes tão proximos,
onde jaziam ainda talvez (se o velho D. José da Silveira contára a
verdade) os mais ricos thesouros da terra... A que prodigioso momento
chegára a nossa aventura!
De repente, quando assim pasmavamos, o sol desappareceu--e a noite
cahiu, sem transição, visivelmente, como uma coisa tangivel. N'aquellas
latitudes não ha crepusculo. A luz acaba como a chamma d'um bico de gaz
que se fecha: e, n'um instante, a terra toda fica envolta n'uma cortina
de treva.
N'essa occasião porém, durou pouco a escuridão, porque bem cedo a mais
larga e esplendida lua que me lembro de ter visto subiu magestosamente
ao céo, derramando uma tão sublime refulgencia, tão divinamente serena,
que, sem saber porquê, cada um de nós tirou o chapéo, como n'um templo,
ante uma imagem sagrada.
Infandós, porém, quebrou a nossa contemplação, dando o signal de descer
para a cidade, que agora, batida de luar, cheia de lumes, parecia
infindavel através da planicie.
E d'ahi a uma hora, tendo passado a ponte levadiça, entre piquetes de
sentinellas a quem Infandós deu baixo o _santo e senha_, seguiamos
calados pela rua central de Lú, toda ladeada de sombras d'arvores e de
senzalas onde se cozinhava. Levou uma hora antes de chegarmos á grade
d'um pateo redondo, com o chão muito batido e duro, todo caiado de
branco. Em volta erguiam-se cubatas espaçosas, cobertas de colmo. Eram
alli (segundo declarou Infandós) os nossos «humildes pousos».
Cada um de nós tinha, só para si, uma cubata. Havia dentro um grande
asseio. Os leitos eram feitos com pelles estendidas sobre enxergões de
herva aromatica. Uma esteira tapetava o sólo. Tripeças pintadas
alternavam com frescas vasilhas d'agua. Não podiamos esperar mais
cuidadosa hospedagem! E apenas nos lavámos, sacudimos o pó, appareceu
logo um bando de raparigas, das mais bellas que até ahi encontraramos no
paiz, trazendo leite, carnes assadas e bolos de milho em vistosos pratos
de madeira.
Depois da ceia fizemos reunir todas as quatro camas na maior das cubatas
(precaução que encheu de riso as raparigas),--e não tardamos em
adormecer com grata tranquillidade. Acordámos quando o sol ia nado--e a
primeira e aprazivel impressão que recebemos foi a do bando das
raparigas, acocoradas no chão, a um canto, á espera que despertassemos
«para nos ajudar a lavar e a vestir».
Quando uma d'ellas, a mais alta (e que figura! que braços!) fez esta
amavel offerta, o capitão John teve uma exclamação, um gesto d'atroz
desespero:
--Vestir! É bom de dizer! Quando uma pessoa não tem senão uma camisa e
um par de botas!... E com estas raparigas todas, bonitas raparigas, ahi
por essa cidade... Não! isto não póde continuar! Eu não arredo pé d'aqui
da cubata, senão de calças! Quero as calças!
Vi o meu amigo tão decidido, que reclamei as calças. Mas uma das
raparigas voltou d'ahi a momentos declarando que essas sagradas e
maravilhosas reliquias tinham sido já mandadas ao rei!
O furor do nosso John foi immenso. Teve de se contentar em barbear a
face direita; porque na esquerda não consentimos nós que elle eliminasse
um só pêllo á farta suissa que já lhe crescêra. Aquella cara espantosa,
rapada d'um lado, barbuda do outro, era uma das evidencias da nossa raça
sobrenatural. Todos nós, de resto, tinhamos aspectos estranhos. Os
cabellos do barão, amarellos e sempre longos, desciam-lhe agora até aos
hombros, n'uma juba rude, que lhe dava o ar d'um barbaro dos tempos do
rei Olloff.
O almoço já esperava, fóra, no terreiro, em caçoulas que fumegavam. Mas,
primeiramente, quizemos tomar o nosso _tub_, atirar pelas costas alguns
frios baldes d'agua. E o assombro, a desconsolação das raparigas foi
consideravel, quando lhe pedimos pudicamente que se retirassem, cerrando
a porta de vime...
Logo depois do almoço, Infandós appareceu annunciando que el-rei Tuala
nos mandava muito saudar, e esperava a nossa comparencia em Palacio.
Declarei immediatamente, com indifferença e altivez, que ainda nos
achavamos cançados, tinhamos ainda um cachimbo a fumar, etc., etc.
Convém sempre, tratando com potentados negros, não mostrar pressa nem
respeito. Tomam invariavelmente a polidez por pavor. De sorte que,
apesar da nossa anciedade em vêr o terrivel Tuala, retardámos nas
cubatas uma farta hora, preparando, ao mesmo tempo, os escassos
presentes que destinavamos ao rei e á côrte: a espingarda do pobre
Venvogel, um bocado de sêda, alguns fios de contas de vidro.
Afinal partimos, guiados por Infandós--e seguidos por Umbopa que levava
as dadivas.
* * * * *
Ao fim d'um curto kilometro, chegámos a um immenso terreiro, com o chão
duro e caiado de branco como o das nossas moradas, e cercado por uma
estacada baixa. Em redor, fóra da estacada, corria uma fileira de
cubatas, que (segundo nos informou Infandós) pertenciam ás mulheres do
rei: e ao fundo, fronteira á porta por onde entraramos, estendia-se uma
construcção, uma cubata enorme, com varas e plumas espetadas no tecto de
colmo, que era o palacio real. No recinto não crescia uma arvore: e todo
elle estava n'esse dia cheio de regimentos em fórma, perfilados,
immoveis, verdadeiramente magnificos, com os seus altos pennachos, os
escudos brancos, as lanças a rebrilhar.
Em frente á cubata real ficava um espaço vasio, com uns poucos de
escabellos de madeira. A convite do bom Infandós occupámos tres d'esses
assentos privilegiados, tendo Umbopa por traz, de pé: e assim ficámos á
espera, no meio d'um silencio absoluto, sentindo cravados sobre nós oito
mil pares d'olhos sofregos. Finalmente a porta da cubata rangeu--e
surgiu d'ella uma figura gigantesca, com um esplendido manto de pelles
de tigre lançado sobre o hombro, e uma azagaia na mão. Atraz d'elle
vinha Scragga e uma outra creatura estranha, equivoca, que nos pareceu
uma macaca--uma macaca velhissima e friorenta, toda embrulhada em
pelles. A figura gigantesca abateu-se pesadamente sobre uma das tripeças
de pau. Scragga permaneceu de pé, por traz, apoiado á lança. A velha
macaca arrastou-se para a sombra que lançava a cubata real, e alli se
acocorou lentamente.
O mesmo silencio continuava no emtanto oppressivo, afflictivo.
Então a figura gigantesca arrojou o manto que a envolvia, e ergueu-se,
offerecendo ás vistas a sua real pessoa, verdadeiramente terrifica!
Nunca em minha longa vida encarei um homem mais repulsivo. E ainda ás
vezes revejo, ante mim, aquella face horrivel com os beiços muito
grossos ressudando sensualidade, as ventas enormes e chatas de fera, e o
olho unico (porque o outro era apenas um buraco negro) atrozmente
brilhante, d'um brilho frio e cruel. Uma cota de malha reluzente
cobria-lhe o corpo formidavel. Da cinta pendia-lhe o saião d'uniforme,
feito de rabos brancos de boi. Ao pescoço trazia uma gargalheira d'ouro:
e da testa, onde luzia um enorme diamante bruto, subia-lhe, ondeando no
ar, um tufo esplendido de plumas d'abestruz.
O silencio ainda pesou, mais profundo, diante d'aquella presença
assustadora! Mas de repente o monstro (que logo comprehendemos ser
Tuala, o rei) levantou a lança no ar. Oito mil lanças faiscaram ao sol.
E de oito mil peitos rompeu, atroando o céo, a grande acclamação
real:--_Krum_! _Krum_! _Krum_!
Depois, no silencio que recahira, vibrou uma voz, agudissima, estridula,
horripilante, e que parecia vir da macaca agachada á sombra:
--Treme e adora, oh povo! É o rei!
E oito mil peitos de novo atroaram o céo, bradando:
--É o rei! É o rei! Treme e adora, oh povo!
E tudo de novo emmudeceu. Mas quasi immediatamente, ao nosso lado, houve
um ruido de ferro batendo sobre pedra. Era um soldado que deixára cahir
o escudo.
Tuala dardejou logo o olho cruel para o sitio onde o som retinira:
--Avança tu! berrou, n'um tom trovejante.
Um soberbo rapagão sahiu da fileira, ficou perfilado.
--Cão infernal! rugiu o rei. Foste tu que deixaste cahir o escudo?
Queres que eu, teu chefe, seja escarnecido pelas gentes que vêm das
estrellas!
--Foi sem querer, oh mestre das artes negras! acudiu o rapaz cuja pelle
fusca parecia empallidecer.
--Pois, tambem sem querer, vaes morrer!
O soldado baixou a cabeça e murmurou simplesmente:
--Eu sou a rez do rei!
--Scragga! bramiu Tuala. Mostra como sabes usar bem a lança. Vara-me
aquelle cão!
O odioso Scragga deu um passo para diante, com um sorrisinho feroz, e
levantou o dardo. O desgraçado tapou a face, e esperou, immovel. Nós nem
respiravamos, petrificados.
«Um, dois, tres!» Scragga soltou a lança. O soldado atirou os braços ao
ar, cahiu morto.
D'entre os regimentos subiu então um longo murmurio que rolou, ondulou,
se esvaiu por fim no silencio.
O barão, livido de indignação, agarrára a espingarda das mãos d'Umbopa.
E eu, afflicto, tive de o agarrar a elle, lembrar que as nossas vidas
estavam á mercê do rei, e que eramos quatro contra todo um reino.
Tuala, no emtanto, sorria sinistramente:
--O golpe foi bom. Arrastem para fóra o cão morto.
Quatro homens sahiram da fileira, levaram o corpo.
E então a mesma voz esganiçada, sibilante, horrivel (que evidentemente
era da macaca) cortou o ar:
--A palavra do rei foi dita! A vontade do rei foi feita! Treme e adora,
oh povo! E cobri bem depressa as manchas de sangue. A palavra foi dita,
a vontade foi feita!
Uma rapariga sahiu de traz da cubata real com um vaso de louça, e,
atirando d'elle cal ás mãos cheias, escondeu as nodoas horriveis. Tuala
permanecia immovel, como um idolo.
Por fim, lentamente, voltou para nós a face medonha.
--Gente branca! disse elle. Gente branca, que vindes não sei d'onde, nem
sei a quê, sêde bemvinda!
--Bem estejas, rei dos Kakuanas! respondi eu, com dignidade.
Houve um silencio, através do qual ficamos immoveis, sentados, com os
olhos cravados no monstro.
--Gente branca, volveu elle, que vindes vós procurar aqui?
--Vimos do mundo das estrellas, oh rei! Não indagues como, nem para quê.
São coisas muito altas para ti, Tuala.
O rei franziu a face, d'um modo inquietador:
--Altas me parecem as vossas palavras, gentes das estrellas!... Não
esqueçaes que as estrellas estão longe e a minha vontade está perto...
Póde bem ser que saiaes d'aqui como aquelle que agora levaram.
Era necessario ostentar um soberbo desdem da ameaça. Comecei por lançar
uma risada, muito cantada (e na verdade muito forçada):
--Oh rei, tem cautela! Não caminhes sobre brazas que pódes escaldar os
pés! Toca n'um só dos nossos cabellos e a tua destruição está certa. Não
te disseram estes (e apontei para Infandós e para Scragga), que especie
de homens nós somos, e que grandes artes temos? Viste tu alguem como
nós, entre os filhos dos homens?
--Nunca vi, murmurou elle.
--Não te contaram esses como nós damos a morte de longe, através d'um
trovão?
--Não creio! exclamou Tuala, batendo fortemente o joelho. Mostrai-me
primeiro, vós mesmos, a vossa arte. Matai um d'esses homens que estão
além (apontava uma companhia de soldados magnificos junto á porta da
aringa) e eu prometto acreditar!
Repliquei que não derramavamos nunca sangue de homem, senão em justo
castigo. Mas que o rei soltasse um boi para dentro do pateo, através dos
soldados, e antes d'elle correr vinte passos, cahiria morto, de chofre.
O rei rompeu a rir.
--Um boi! Um boi!... Não, matai um homem para eu acreditar!
--Perfeitamente! exclamei eu, com tranquillidade. Ergue-te tu, oh rei,
caminha através do pateo, e antes de chegares ao portal da aringa
rolarás morto no chão. Ou, se não queres ir tu mesmo, manda teu filho
Scragga.
A isto, Scragga deu um grito, lançou um pulo, e fugiu para dentro da
aringa real.
Perante a estranha audacia com que lhe propunhamos para mostrar as
nossas Artes Magicas matar um principe ou um boi, á sua escolha--Tuala
ficou esgazeadamente perplexo. O seu olho coruscante ora se poisava em
nós, ora no chão. Depois, n'um tom surdo:
--Bem, que enxotem uma vacca para dentro do pateo!
Dois homens, immediatamente, largaram correndo.
--Barão, disse eu ao nosso amigo, chegou a sua vez. Mate a vacca. Não
quero que imaginem que só eu sei fazer as maravilhas.
O barão tomou a carabina «Express», e esperou, no fundo silencio que se
alargára. Por fim, á porta da aringa houve um ruido; e vimos entrar por
ella, correndo, enxotada, uma grande vacca russa. Ao avistar a multidão,
o animal estacou, olhou estupidamente, deu uma volta lenta, e mugiu.
--Agora! gritei ao barão, vendo a vacca de lado e em bom alvo.
Bum! O tiro partiu, a vacca tombou, varada no coração. De toda a enorme
soldadesca se exhalou um murmurio de admiração e terror.
--Então menti, rei Tuala? exclamei eu, fitando o monstro com altivez.
--Não, é verdade, rosnou elle.
Baixára o olho cruel, parecia atemorisado. Eu continuei, com soberana
confiança:
--Escuta, Tuala! Na arte magica de destruir ninguem nos vence.
Destruimos de longe a vida dos homens e a vida dos animaes... E as
proprias armas, os ferros mais duros, reduzimol-os de longe a
estilhaços. Escuta! Manda cravar além no chão, com a ponta do ferro
voltada para cima, essa lança que tens na mão, a tua propria lança, que
nunca foi vencida, oh Tuala! Manda, e eu te mostrarei!
Espantado, o rei cedeu. Um soldado cravou no chão, ao fundo da aringa, a
lança real, com a ponta faiscando no ar, sob um raio de sol.
--Bem, disse eu. Agora vê em que estilhas vai ficar a tua lança
invencivel.
Apontei, disparei:--a bala bateu na folha da lança e separou-a em
bocados. Um susurro maior, de assombro, rolou através do terreiro.
Dei então um passo para o rei, com a carabina na mão.
--Tuala, este tubo magico que troveja e destroe é um presente que te
fazemos. Se te mostrares leal comnosco ensinar-te-hemos o segredo de o
usar e de vencer com elle. Mas se descobrirmos traição em ti, esse
proprio tubo se voltará contra o teu peito, e serás como a vacca morta
ou como a lança partida. Aqui tens.
E estendi-lhe a arma. Elle tomou-a com desconfiança, com uma sêcca
antipathia, e pôl-a no chão, aos pés, devagar.
N'esse instante aquella figura estranha que o acompanhára, e que me
parecera uma velha macaca, deu um guincho e surgiu da sombra da cubata
real, onde permanecera agachada. Muito devagar, muito devagar, vinha
caminhando nas quatro patas:--mas quando chegou defronte do rei,
ergueu-se subitamente, arrojou de si a longa cobertura de pelles que a
envolvia, e mostrou aos nossos olhos attonitos um vulto
extraordinariamente sinistro e quasi phantastico. Era uma mulher
evidentemente, uma mulher velhissima, tendo passado todos os limites
conhecidos da vida humana. A face que voltou para nós estava reduzida ao
tamanho d'uma facesinha de creança, d'uma creança d'um anno, toda em
rugas profundas, resequidas, duras e amarellas, como se fossem
entalhadas em marfim. A bôca já se não via, de sumida, entre o queixo
sahido para fóra e extremamente agudo--e a testa proeminente, livida,
com duas sobrancelhas ainda espessas e todas brancas. A cabeça de facto
pareceria a d'um cadaver cortido ao sol, se os olhos grandes não
refulgissem com intenso fogo e vida. Mas a hediondez principal d'aquelle
semblante estava no craneo, todo nú, pellado, liso como uma bola, e a
que ella fazia mover e enrugar a pelle como as cobras contrahem e movem
o capello.
Não se podia contemplar aquella creatura sem um arripio de horror.
Durante um momento, o estranho monstro permaneceu immovel--depois
estendeu lentamente um braço descarnado, a mão sêcca de Parca,
verdadeira garra armada de unhas longas e recurvas, e começou, n'uma voz
silvante que regelava:
--Rei Tuala, escuta! Povo, escuta! Montes, rios, céos, coisas vivas e
coisas mortas, escutai! Escutai, escutai, que o Espirito desceu dentro
de mim e eu vou prophetisar!
As syllabas findaram n'um uivo longo e triste. Toda a multidão que
enchia a aringa parecia gelada de terror. E eu mesmo, que vira tantas
vezes na Africa os esgares e as declamações das feiticeiras, senti não
sei que peso no coração. A velha era decerto terrifica.
--_Som de passos, som de passos que vem_! proseguiu ella, com a garra
tremula no ar. São os passos da gente branca que vem de longe! É a terra
que treme sob os passos dos brancos. _Cheiro a sangue, cheiro a sangue_!
São rios de sangue que vão correr. Eu já os vejo, já os sinto. Toda a
terra está vermelha, todo o céo fica vermelho! Os leões lambem sangue
por toda a parte! Os abutres batem as azas de alegria!
Parou um momento. Os olhos rebrilhavam-lhe como lumes. Depois soltou um
grito longo, como uma ululação sepulchral.
--Sou velha! velha! velha! Tenho visto correr muito sangue. E hei de vêr
correr muito ainda, e dançar de gozo! Que idade pensaes vós que eu
tenho? Os vossos paes já me conheceram; e os paes dos vossos paes; e os
outros paes que geraram a esses. Tenho visto muitas coisas, aprendi
muitas coisas. Já vi o branco, e sei o desejo que elle tem no coração.
Quem fez a grande estrada, que desce dos montes? Quem gravou as figuras
nas rochas? Não sabeis. Mas eu sei! Foi um povo branco, que estava aqui
antes de vós virdes, que voltará e vos destruirá, e ficará aqui quando
vos fôrdes como a nuvem de pó que passou!
E de repente, deu um passo, com os dois braços, as duas garras recurvas
estendidas para nós:
--Que vindes aqui fazer, gente branca? Vindes das estrellas? Das
estrellas! Ah, ah! Vindes procurar um como vós? Não está aqui. E o que
veio, ha muito, ha muito, veio só para morrer. São as pedras que brilham
que vós procuraes? Eu conheço o vil desejo do coração do branco.
Procurai, procurai! Talvez as acheis quando o sangue seccar. Mas
voltareis vós ás estrellas, ou ficareis aqui commigo?
Depois com um arremesso terrivel, voltando-se para Umbopa, que as suas
garras estendidas pareciam querer despedaçar:
--E tu, tu que tens a pelle escura, quem és, que procuras aqui? Não as
pedras que brilham, nem o metal que reluz! Ah, parece-me bem que te
conheço! Oh céos! oh montes! Serás tu?... Eu conheço, eu conheço pelo
cheiro o sangue que tens nas veias! Desaperta essa cintura...
Um momento, ficou como esgazeada em face d'Umbopa. E subitamente,
batendo os braços no ar, cahiu no chão, como morta.
Um bando de raparigas surdiu da cubata, levou nos braços a feiticeira.
Tuala erguera-se sombriamente. Todo elle tremia. Lançou um gesto:--e uns
após outros os regimentos começaram a desfilar, até que todo o pateo
ficou vasio e rebrilhando ao sol.
Então Tuala voltou-se para nós, com a face pavorosamente franzida:
--Gente branca! Gagula annunciou males estranhos! Está-me a parecer que
vos devo matar.
Eu sorri, com superioridade.
--Oh rei, tu viste a vacca. Queres tu ser como a vacca?
--Oh gentes, vós ameaçaes o rei! volveu elle, cerrando os punhos.
--Não ameaço. Digo só que tão facil é ás nossas Artes matar uma vacca
como matar um rei. Pensa e treme, Tuala!
O enorme bruto levou os dedos á testa, reflectindo.
--Ide em paz! disse por fim. Esta noite é a Grande Dança. Vireis e
vereis. Não tenhaes medo que eu vos arme ciladas. E ámanhã decidirei.
--Está bem, Tuala, gritei eu, com um grande gesto.
E acompanhados por Infandós, recolhemos á nossa aringa.
Quando chegamos ás cubatas, depuz n'um escabello o rewolver, e
voltando-me para Infandós que entrára comnosco:
--O teu rei Tuala é um monstro, Infandós!
O velho guerreiro teve um suspiro.
--Ai de mim! Toda a nação geme com as suas crueldades, meu senhor!
Vereis esta noite. É a grande caça aos feitiços; vem Gagula e _as suas
farejadoras_ farejar, adivinhar quem são, d'entre os guerreiros e o
povo, os que meditam ou já commetteram feitiços e maleficios. Se o rei
appetece o gado de um visinho, ou o detesta, ou teme que elle se lhe
torne infiel, Gagula ou uma das _farejadoras_ aponta para esse homem, e
o homem é logo morto... Quem sabe? Talvez hoje mesmo me chegue a minha
vez. Até aqui Tuala tem-me poupado em respeito á minha experiencia das
armas, e porque os soldados me amam. Mas quem sabe? Tuala é cruel, a
terra toda soffre e está cançada d'elle!
--Mas, pela luz das estrellas, porque não depondes vós ou mataes essa
féra?
Infandós encolheu os hombros:
--É o rei!... E o filho que lhe succederia, Scragga, tem ainda o coração
mais negro, pesaria sobre nós com mais furor. Se Imotú não tivesse sido
morto, e se Ignosi, o filhinho d'elle, não tivesse acabado tambem no
deserto com a mãe, então havia uma esperança no reino! Mas assim...
De repente (e ainda me parece incrivel que eu tivesse assistido a lance
tão romanesco, tão semelhante aos que se lêem nos contos de grande
enredo)---de repente ergueu-se uma voz da sombra da cubata:
--E quem te diz a ti que Ignosi morreu?
Todos nos voltamos, espantados. Era Umbopa.
--Que queres tu dizer? Que tens tu a fallar, rapaz? gritou Infandós que,
como velho chefe de sangue real, detestava familiaridades.
Umbopa deu para nós um passo lento:
--Escuta, Infandós. Não é verdade que o rei Imotú foi morto, e que a
mulher e o filho desappareceram? Não é verdade que correu então voz de
ambos se terem perdido e morrido nas montanhas?
Com um gesto, Infandós concordou.
--Escuta! Nem a mãe nem o filho morreram. Galgaram as montanhas,
atravessaram as grandes areias guiados por uma turba errante, entraram
de novo em terras de relva e agua, viajaram durante muitas luas, e foram
ter a um povo dos Amazulus que é da raça dos Kakuanas. Escuta ainda! O
filho cresceu, a mãe morreu. O filho cresceu, e serviu nas guerras dos
Amazulus. Depois foi ao paiz dos brancos e aprendeu as artes dos
brancos: trabalhou com as suas mãos, meditou dentro do seu coração: e
sabendo que homens fortes vinham para o norte, tomou serviço com elles,
atravessou outra vez as grandes areias, galgou de novo as serras de
neve, pisou terra dos Kakuanas--e está na tua presença, Infandós!
E subitamente, arrancando a tanga que o cobria, ficou nú diante de nós,
com os braços abertos, gritando:
--_Sou Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas_!
Infandós precipitára-se sobre elle, com os olhos fóra das orbitas, a
examinar-lhe o ventre onde corria, n'uma tatuagem azul, o desenho d'uma
cobra que lhe dava volta á cinta e juntava a bôca com o rabo logo abaixo
do umbigo. Esta tatuagem é a marca, o emblema real, que se grava a tinta
azul, logo ao nascer, no legitimo herdeiro do reino. E a evidencia lá
estava, certamente irrecusavel, porque Infandós cahiu sobre os joelhos,
bradando:
--_Krum_! _Krum_! É o filho de Imotú! É o rei! É o rei!
Umbopa acudiu:
--Ergue-te, meu tio Infandós, que ainda não sou rei! Mas com a tua
ajuda, e a d'estes homens fortes com quem vim, posso ser rei! Dize pois.
Queres pôr a tua mão na minha e ser o meu homem? Queres correr commigo
os perigos que haja a correr para derrubar Tuala o usurpador, o coração
de féra? Dize.
O velho Infandós pousou dois dedos na testa e pensou. Depois tornou a
ajoelhar diante de Ignosi, pôz a sua larga mão na mão d'elle, e
murmurou, lentamente, como na formula de um ceremonial:
--Ignosi, legitimo rei dos Kakuanas, ponho a minha mão na tua mão, e até
morrer sou teu homem!
Nós, de pé, em redor, ficaramos verdadeiramente attonitos! O barão e o
capitão John só muito vagamente comprehendiam o maravilhoso lance. Tive
de lhes traduzir, desenrolar os detalhes. E ambos exhalavam o seu
assombro em exclamações, contemplando Umbopa--quando elle nos
interpellou, com um gesto que começava a ser regio:
--E vós, homens brancos de quem comi o pão? Quereis vós ajudar-me
tambem? Nada tenho que vos offerecer em troco do vosso braço forte. Mas
essas pedras brancas que reluzem, e que vós amaes, se, como rei, eu as
vier a possuir, podereis leval-as, tantas quantas quizerdes... Basta
isto?
Traduzi de novo aos meus amigos esta deslumbrante offerta. O barão
franziu o sobr'olho:
--Quartelmar, diga-lhe que um inglez não se vende por diamantes. Mas de
graça, porque sempre o achei leal, porque gosto d'elle, e porque me
appetece derrubar esse monstro de Tuala, estou prompto a ajudar Umbopa
com o pouco que posso, que é o meu braço. E tu John?
O capitão encolheu os hombros:
--Que lhe havemos nós de fazer? Além d'isso homem que não briga
enferruja. Em todo o caso ponho uma condição: quero as calças.
Communiquei estas adhesões a Umbopa--que apertou ardentemente as mãos
dos meus dois amigos.
--E tu, Macumazan, mestre da caça, olho vigilante, mais fino que o
bufalo, estarás tu tambem por mim?
Cocei a cabeça, pensativamente:
--Eu te digo, Umbopa, ou Ignosi, ou o que és; eu não gosto de
revoluções... Sou um homem de ordem e demais a mais um cobarde. Escusas
de te rires, sei perfeitamente o que digo, sou um cobarde. Por outro
lado, tenho por costume ser fiel a quem me foi fiel; e tu, n'esta
jornada, andaste sempre como um servo dedicado e bravo. Portanto, ás
ordens! Mas ha uma coisa. Eu sou um pobre caçador de elephantes e tenho
de ganhar a minha vida. Tu fallaste ahi nos diamantes. Eu aceito os
diamantes. Se lhe pudérmos lançar mão, aceito-os, e quantos mais e mais
graúdos melhor! Não é que eu acredite muito n'elles. Mas, se
apparecerem, desde já te prometto que, com licença tua, hei de abarrotar
as algibeiras...
--Tantos quantos puderes levar! exclamou Umbopa radiante.
E já se voltava para Infandós, n'aquelle triumphal enthusiasmo de
pretendente a quem as adhesões affluem--quando eu o interrompi
vivamente:
--Alto! Temos ainda outra, Ignosi. Nós viemos, como tu sabes
perfeitamente, á procura do irmão do Incubú (era a alcunha do barão, em
Zulú). Quero que me promettas que has de fazer tudo o que puderes como
rei para nos ajudar a encontral-o... Começa por te informar agora com
teu tio Infandós.
Ignosi pousou os olhos em Infandós, com singular magestade:
--Meu tio Infandós, em nome do emblema sagrado que me envolve a cinta, e
como teu rei legitimo, intimo-te a que me digas a verdade. Houve já
algum homem branco que, antes d'estes, tivesse vindo á terra aos
Kakuanas?
--Nunca, meu senhor!
--E poderia algum ter vindo, sem que tu o soubesses?
--Nenhum poderia ter vindo sem que eu o soubesse.
O barão deu um longo suspiro.
--Bem! Bem! exclamei logo, para lhe não matar de todo a esperança, e
cortar os tristes pensamentos. Quando Ignosi fôr rei teremos então mais
facilidade de procurar o irmão do Incubú, até aos confins do reino, e
nas terras que estão além! Agora vamos ao que urge. Que plano tens tu,
Ignosi, para recuperar a corôa? Porque emfim, meu rapaz, é bom ser rei
de direito divino, mas...
--Não tenho plano. E tu, meu tio Infandós?
Infandós pensou um instante, com a barba sobre o peito.
--Esta noite, disse elle por fim, é a caça aos feitiços. Muitos vão
morrer, e em muitos outros mais recrescerá o odio contra Tuala. Depois
da dança, fallarei a alguns dos grandes chefes que podem dispôr de
regimentos. É necessario que os chefes te venham vêr, Ignosi, se
convençam com seus olhos que és o rei. E se elles pozerem as mãos nas
tuas, ámanhã tens vinte mil lanças para combater por ti. Porque a guerra
é certa. Depois da dança, se eu viver, se todos vivermos, virei aqui,
para combinar na escuridão. Mas a guerra é certa!
N'este momento houve fóra do terreiro um brado, annunciando que se
avisinhavam mensageiros do rei. E tres homens entraram, cada um d'elles
trazendo erguida nas mãos uma cóta de malha que rebrilhava como prata e
uma magnifica acha de batalha.
Um arauto que os precedia exclamou, batendo no chão com o conto da
lança:
--Presentes de Tuala, o rei, aos homens que vêm das estrellas!
--Agradecemos ao rei, volvi eu sêccamente. Ide!
Apenas os homens partiram, examinamos as cótas com grande interesse.
Eram maravilhosas, d'uma malha tão fina, tão cerrada, tão elastica e
macia, que uma armadura toda podia caber no concavo das duas mãos.
Perguntei a Infandós se eram fabricadas no paiz.
--Não, meu senhor, são coisas que existem ha muito, e que herdamos de
paes para filhos. Já muito poucas restam. Só os de sangue real as podem
usar. E o rei que as mandou é que está muito contente ou que está muito
assustado. Em todo o caso não ha ferro que as atravesse, e bom será,
meus senhores, que as useis esta noite na dança.
Quando Infandós sahiu, ficamos conversando n'este estranho
incidente--que transformava a nossa pacifica jornada n'uma aventura
politica. Como notou o barão, fôra este decerto, desde a nossa partida
de Natal, um dos dias mais ricos de emoções e surprezas.
--Extraordinario, disse o capitão. Tem de ser registrado no _Livro de
Bordo_.
Chamava elle _Livro de Bordo_ a um Almanach do anno, com folhas brancas
intercaladas, onde costumava assentar os episodios notaveis da nossa
espantosa empreza.
--Que dia é hoje? perguntou elle, sentando-se, com o almanach sobre o
joelho.
--3 de julho.
O barão e eu voltaramos a examinar as dadivas de Tuala--quando, d'ahi a
instantes, o capitão exclamou com os olhos no almanach:
--É curioso! Ámanhã, 4 de julho, ha um eclipse total, visivel em toda a
Africa! Deve começar ás duas e quarenta minutos... Bom terror vão ter os
pretos!
Escassamente demos attenção áquella noticia: e como o capitão findára de
escrever, preparamo-nos para partir para a grande dança, porque o sol já
descia, e já ia fóra um rumor de regimentos passando. Pelo prudente
conselho de Infandós envergamos as cótas de malha,--que achamos
confortaveis e leves. A do barão, homem de forte estatura, vestia-o como
uma pellica: a do capitão e a minha dançavam-nos sobre as costellas com
pregas pouco marciaes.
A lua surgia, magnificamente clara, quando Infandós appareceu, com todas
as suas plumagens e armas de gala, acompanhado de vinte guerreiros, para
nos escoltar a palacio. Afivelamos os rewolveres á cinta, empunhamos as
achas de guerra, e largamos--consideravelmente commovidos.
No terreiro, onde estiveramos de manhã, encontramos a mesma formidavel
parada de regimentos, perfazendo talvez vinte mil homens--mas formados
de modo que entre cada companhia ficava um carreiro aberto «para as
farejadoras de feiticeiros» (como nos foi explicando Infandós). Não
havia outra luz além da lua, cheia e lustrosa, que punha longas fieiras
de faiscas nos ferros altos das lanças. D'aquella escura massa d'homens,
do luar, do silencio, sahia uma indefinivel impressão de magestade e
tristeza.
--Está aqui todo o exercito, murmurei eu para Infandós.
--Um terço, não mais, meu senhor. Outro terço ficou nas guarnições. E o
outro está fóra, em torno a palacio, para o caso de sedição, quando
começar a matança...
--Escuta, Infandós! Achas que corremos perigo?
--Não sei, espero que não... Mas não mostreis medo! E se escaparmos com
vida esta noite--quem sabe? Talvez ámanhã Tuala seja como o raio que
feriu e se apagou.
Iamos no emtanto caminhando, através dos regimentos mais immoveis que
bronzes, para espaço vasio diante da cubata real, onde havia como de
manhã uma fila de escabellos d'honra. E ao mesmo tempo outro grupo, com
um brilho e ruido d'armas, sahia da aringa real.
--É Tuala, disse baixo Infandós, e Scragga, e Gagula, e os homens que
matam.
Os «homens que matavam» eram uns doze negros gigantescos, de faces
hediondas, com plumagens vermelhas, armados de facalhões e de azagaias
pesadas.
--Bemvindos, gentes das estrellas! gritou logo Tuala abatendo-se
pesadamente sobre um escabello. Sentai, sentai! E não percamos o tempo
que a noite é curta para as grandes coisas que têm de ser feitas. Olhai
em roda, e dizei-me se nas estrellas tivestes jámais tantos valentes
juntos... Mas vêde tambem como elles já tremem, os que abrigam maldade
no s
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