Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo
by Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto · Portuguese · Gutenberg #20783 · 649,160 chars · public domain (US)
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Title: Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo
Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
Release date: March 8, 2007 [eBook #20783]
Language: Portuguese
Original publication: Londres: Sampson Low, Marston, Searle, e Rivington, Editores Crown Buildings, 188 Fleet Street Na Typographia De Guilherme Clowes E Filhos (Companhia Limitada) Stamford Street E Charing Cross, 1881
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/20783
Credits: Produced by Rita Farinha, João Miguel Neves, Carlo Traverso
and the Online Distributed Proofreading Team at
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VOLUME SEGUNDO ***
Produced by Rita Farinha, João Miguel Neves, Carlo Traverso
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COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.
A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;
DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.
Por SERPA PINTO.
Dois Volumes.
Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.
VOLUME SEGUNDO.
Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.
LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.
[_Tôdos os direitos sam reservados_.]
LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.
CONTEÜDO.
CAPÌTULO IX.
NO BARÔZE.
No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou
Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias
particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando
geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os
Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e
Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de
Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas
CAPÌTULO X.
A CARABINA D'EL-REI.
A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com
o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As
pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A
região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio
Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima
Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita
caça--Tragedia--Embarira
Capìtulo Supplementar
* * * * *
Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.
CAPÌTULO I.
EM LEXUMA.
Prêso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do
Doutor--O Pão--Graves questões--Os chronòmetros não
param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença
grave--Receios e irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma
decisão--Partida de Lexuma (em Inglez, _Leshuma_)
CAPÌTULO II.
MOZIOATUNIA.
Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do
Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.}
Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia
Coillard
CAPÌTULO III.
TRINTA DIAS NO DESERTO.
O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O
grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de
àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (_Shoshong_)
CAPÌTULO IV.
NO MANGUATO.
Doença grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei Cama--Os
Inglezes em Àfrica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor--Os
Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros--Despedidas--Parto
para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os
chronòmetros?
CAPÌTULO V.
DE SHOSHONG A PRETORIA.
Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.}
Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nôvo
gènero--Chuvas--O Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que
não presta--Augusto furioso--Adicul--Os leões--Stanley desanima--Os
Böers nomadas--Nôvo vagom--Peripècias--Doenças graves--Um
Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo
tùmulo--Magalies-berg--Pretoria
CAPÌTULO VI.
NO TRANSVAAL.
Ràpido esbôço da historia dos Böers--O que sam os Böers--Suas
emigrações e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de
diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado á cerca dos Böers--O que eu
vi e que eu penso
CAPÌTULO VII.
NO TRANSVAAL (_continuação_).
M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrònomo!--Sir
Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario
Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev.
Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de
infanteria--Major Tyler e Capitão Saunders--Insubordinação--M^{r.}
Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia
de pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos Zulos
CAPÌTULO VIII.
O FIM DA VIAGEM.
A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um
_dog-cart_--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no
Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios
burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi
Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O
Danubio--O Commandante Draper--Regresso á Europa
Conclusão
Breve Vocabulario
Indice
* * * * *
LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.
FIG.
94.--O Rei Lobossi
95.--Gambela
96.--Matagja
97.--Cachimbos de fumar o Bangue
98.--Vasilha para leite feita de madeira
99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas.
Especie de Espàtula
100.--Pratos e Escudellas para a comida
101.--Colhér
102.--Machado de cortar madeira
103.--Artigos de Barro
104.--Homem Luina
105.--Mulhér Luina
106.--Azagaias Luinas
107.--Machadinhas de guerra
108.--Porrinho
109.--Ataque contra o acampamento no Lui
110.--Casa na Itufa
111.--O meu Barco
112.--Acampamento na Sioma
113.--Cataracta de Gonha
114.--Passagem dos Barcos em Gonha
115.--Cataracta de Cale
116.--Ràpidos de Bombue
117.--Nos ràpidos
118.--Três Europêos atravessáram o rio
119.--O Campo do Doutor Bradshaw
120.--Monsieur e Madame Coillard
121.--Acampamento da Familia Coillard em Lexuma
122.--Interior do Campo de Monsieur Coillard em Lexuma
123.--Mozioatunia. A Queda de Oeste.
124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.
125.--O Rio depois da Cataracta
126.--Os Tumulos em Patamatenga
127.--Os Desfiladeiros de Letlotze
128.--Ruinas da Casa do Rev. Price (Xoxom)
129.--No Deserto
130.--Fly, o meu Cavallo do Deserto
131.--Fly perseguindo os Ongiris
132.--Uma Vista do Alto Limpôpo
133.--Montes termìticos junto ao Limpôpo
134.--Os meus Bôis foram salvos
135.--O ùltimo enterro
136.--Magalies-berg
137.--O que restava da Expedição
138.--Eu em Pretoria (_De uma photo. de Mr. Gross_)
139.--Betjuanas (_De uma photo. de Mr. Gross_)
Mappa de Mozioatunia
Três Facsìmiles, de pàginas do Diario, dos Livros de Càlculos, e do Albo de
Cartas
COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA
* * * * *
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.
CAPÌTULO IX.
NO BARÔZE.
No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou
Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias
particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando
geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os
Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e
Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de
Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas.
A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em febre. Estava
no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na cidade de
Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Barôze,
Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode ter o vasto imperio da Àfrica
tropical do sul. Como se sabe pêlas descripções de David Livingstone, um
homem vindo do Sul á frente de um exèrcito poderôso, o guerreiro
Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua
confluencia com o Cuando, e invadio os territorios do alto Zambeze,
sujeitando ao seu dominio tôdas as tribus que habitavam o vasto paiz
conquistado.
Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na Àfrica Austral,
partira das margens do Gariep com um pequeno exèrcito formado de Basutos
e Betjuanas, ao qual foi aggregando os mancêbos dos povos que vencia, e
ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas phalanges, que
depois se tornáram tão terriveis, ja na conquista do alto Zambeze, ja na
defensa do paiz conquistado.
A êsse exèrcito, formado de elementos differentes, de povos de muitas
raças e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e d'ahi lhe veio o
nome de Macololos que tão conhecido se tornou em Àfrica.
No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados
por chefes independentes, que não podéram, separados como estavam, oppor
séria resistencia ao terrivel guerreiro Basuto.
Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro,
Chibitano soube dar união aos povos conquistados, e fazer com que elles
se considerassem irmãos no interesse commum.
Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando três raças
distinctas.
Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no centro, os
Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas, raça mais vigorosa e
intelligente, que devia substituir um dia os Macololos na governação do
paiz.
É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que se tem conservado as
sedes do govêrno desde o tempo de Chicreto, o filho e successor de
Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao vasto imperio Lui ou
Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de Barôze. Mais
tarde, n'este capìtulo, terei occasião de falar na historia d'este pôvo
desde a ùltima visita de Livingstone até á minha passagem ali;
proseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sôb o reinado de
Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela.
A organização polìtica do reino do Lui é muito differente da dos outros
povos que eu tinha visitado em Àfrica. Ali ha dois ministerios
perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios estrangeiros; sendo
este ùltimo dividido em duas secções, cada uma com o seu ministro. Uma
d'ellas trata dos negocios de Oeste, outra dos do Sul. Isto é, uma trata
com Portuguezes de Benguella, outra com os Inglezes do Cabo.
Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois
dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos negocios estrangeiros de
Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da guerra e a dos
negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do consêlho do rei.
Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conducta nas graves
questões que tinha a tratar.
Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.
Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja possuia,
dirigindo-me em seguida á grande praça onde devia ter logar a audiencia.
Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande praça,
e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe sombra com um guarda-sol.
Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente
grôsso.
Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de côr, e em logar
de gravata, trazia ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos.
As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver as meias de fio de
escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.
Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa de capote, e na
cabêça um chapéo cinzento, ornado de duas grandes e bellas pennas de
avestrús, completavam o traje do grande potentado.
Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual estavam prêsas muitas
clinas de cavallo, servia-lhe para enxotar as môscas, acção que elle
fazia com tôda a gravidade.
Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na
frente os três conselheiros. Umas mil pessôas, sentadas no chão em
semi-cìrculo, deixavam perceber a sua jerarchia pelas distancias a que
estavam do soberano.
[Figura 94.--O Rei Lobossi.]
Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida os
conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um apertar-de-mão com elle e com
Gambela, abaixei a cabêça a Matagja e aos outros dous conselheiros, e
sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.
Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de
uma côrte Europea do que de um pôvo bàrbaro, eu disse ao rei, que não
era negociante, que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que
tinha a falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados ali diante de
tão numerosa assemblea.
[Figura 95.--Gambela.]
Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a recepção que
me mandara fazer na vèspera e a que elle mesmo me fazia ali, me
mostravam que eu não era confundido com um negociante qualquér; que eu
era seu hòspede, e teriamos tempo de falar em negocios, porque elle
esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua côrte. Depois
de me dizer esta amabilidade, despedio-se de mim, que voltei a casa
abrasado em febre.
No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me mandava de presente.
Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha
parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de bôi ao rei, e
dar carne á gente da côrte.
Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina
enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne distribuida entre os
meus carregadores e a gente da côrte; tendo o cuidado de mandar ao rei e
aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor
quinhão a Gambela, a quem fiz notar a distincção que fazia.
[Figura 96.--Matagja.]
As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.
Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia particular, em uma casa
tambem semi-cilìndrica, mas de grandes dimensões, que não contava menos
de 20 metros de comprido por 8 de largo.
Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro
conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os
quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia sympàthica e expressiva
me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na
viagem que o cèlebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem elle
fala, no seu roteiro com tanto elogio.
Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois
de o rei ter bebido, bebêram tôdos com profusão, e nem me offerecêram,
sabendo que eu só àgua bebia.
Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu entendi não dever falar-lhe
ainda dos meus negocios. Entre outras cousas, falámos a respeito de
lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que falasse um bocado em
Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres d'Alma do poema "D.
Jayme," e os prêtos ficáram encantados ao escutar a harmonia da nossa
lìngua, que o mimôso e grande poeta, Thomas Ribeiro, soube imprimir e
fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.
Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem
percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada.
Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana, com quem
conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de
amizade.
Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle estava n'um dos pàteos
interiores, sentado em uma esteira, junto a um grande fôgo, que ardia
n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro. Na sua frente, em
semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam
a maior immobilidade e silencio.
Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a nossa
conferencia.
Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho
os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido
salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma farda e
um chapéo, que lhe apresentei logo.
Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa vio aos
lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de Penafiel, e que fôram
vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residencia luxuosa de
Lisboa, pelo viver mais buliçôso da capital da França.
Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e fêz-me mil
agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importancia, entrámos
em assumpto.
No Barôze falam-se três lìnguas. O Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto,
idioma deixado ali pêlos Macololos, que modificáram os costumes
d'aquelles povos a ponto tal, que até lhes implantáram a sua lìngua, que
é a lìngua official e elegante da côrte.
Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de
intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao règulo, que vinha da
parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome pêlo qual sua Magestade
Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da Àfrica Austral, e que é
formado por duas palavras--_Muene_, que quer dizer Rei, e _Puto_, nome
dado em Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir
caminhos ao commercio, e que estando o Lui no centro de Àfrica, e ja em
communicação com Benguella, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim
um mercado muito mais perto, onde elles poderiam ir abastecer-se dos
gèneros Europêos de que precisassem.
Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe havia feito o
não virem ali negociantes de Benguella, não me occultando que, entre
outras cousas, estava sem pòlvora. Eu respondi-lhe, que elles viriam, se
com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia affirmar, que o
Mueneputo estava dispôsto a proteger o commercio com elle, se elle se
compromettesse a não consentir nos seus estados a compra e a venda de
escravos.
Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o
desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometti-lhe, se
elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo
possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle carecia.
O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha prêtos),
quiz por vêzes enredar-me, mas eu não sahia da verdade e da lògica, e
elle foi vencido.
No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma
comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de
confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que elle
me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo.
Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre
desconfiado de prêtos, não posso deixar de confessar que me retirei
satisfeito.
O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma hora me recolher,
sobreveio-me um enorme accesso de febre.
Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e
Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul de Lialui,
para o quê obtive autorização do rei.
Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma grande casa
circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panellas
de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a gente do règulo,
dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e ninguem se entendia ali. Eu
voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre.
Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio senão ouvir
uns e outros, porque aquelles nêgros não t[~e]m a menor consideração por
um doente, peiorei muito.
Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda furtada pêla gente
d'elle, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e
Augusto, Verissimo e Camutombo completamente bêbados, não quizéram saber
d'isso.
No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu estava um
pouco melhor, mas a febre era constante e não queria ceder aos
medicamentos.
Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu
grande consêlho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus
projectos.
Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz embaraçar, e outra
vez se saío mal. Tive de explicar Geographia a Gambela e aos
conselheiros da corôa.
Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo a elle o
curso do Loengue, que, com o nome de Cafúcué, vai entrar no Zambeze a
jusante dos ràpidos de Cariba.
Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a povoação de Cainco, situada em
uma ilha do Loengue, e que descerìamos o rio embarcados até ao Zambeze,
e por este ao Zumbo.
Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o Zambeze de
Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.
Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma
travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10
(citando-lhes para isso um facto de uma expedição Luina que, partindo de
Narieze, tinha alcançado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia
por terra, elles estariam em ràpida, communicação com os
estabelecimentos Portuguezes de Leste, por vias fluviaes completamente
navegaveis.
O pùblico estava admirado da minha erudição, e Gambela, que sabia mais
geographia Africana do que muitos ministros d'estado Europêos, e que
conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu ás razões.
Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se enviasse a
comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente sufficiente para
atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando três ou quatro fortes
postos no caminho, para segurar a passagem áquelles que, indo comigo até
ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sessão, houve grande
enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguella,
e os que me deviam acompanhar.
Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão, melhorando
ás 6 horas da tarde.
Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o
primeiro rei da dinastia Luina.
Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e
sympàthico.
Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de cavallaria ligeira, em
muito bom estado. Fez-me profunda impressão ver aquella farda! ¿A quem
teria pertencido? ¿Como teria ido parar ao centro d'Àfrica?
Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto,
que pertencêra a um espôso estremecido, algumas migalhas de pão para
matar a fome.
Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e elle
respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia ja
muito tempo.
Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e elle
respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de official sem bolsos,
era impossivel.
Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito,
effectivamente vi que não tinha bôlso ali.
Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das
abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha bolsos ali. Em um
d'elles os meus dêdos encontráram um pequenino bilhête.
¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?
¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos
e não me atrevia a abrir?
Cheio de commoção, desdobrei o papél, e vi n'elle algumas linhas
escritas a lapis, que li àvidamente.
Não pude conter uma gargalhada.
O papél dizia assim:--
"Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me indicar o modo
de nos correspondermos."
Por baixo um nome e uma morada.
Sabia de quem fôra a farda.
O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo, que hôje
occupa uma distintissima posição n'uma das armas scientìficas do
exêrcito Portuguez.
Um dia em pùblico commetti a indiscrição de pronunciar o nome do
signatario do bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, não
creio ter de modo algum offendido aquelle nobre official e distincto
cavalheiro.
Uma farda que o talento e a applicação ao estudo fizéram trocar por
outra, mais distincta; que, abandonada ou dada a algum criado, pêla
instabilidade das cousas, foi parar ao centro de Àfrica, creio é cousa
que não desdoura ninguem. Em quanto ao bilhête de amôres, creio bem que
ainda menos o deve vexar.
Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não escrevêram bilhêtes
assim, e mais infelizes os que depois dos trinta ja os não podem
escrever.
"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um _papá_, ou uma _máma_, sempre
impertinentes em taes casos, te não deixou entregar, ao sahir do theatro
ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos
desoito annos fêz recolher ao bôlso. Imagino, meu amigo, que te deves
ter rido, sabendo que aquelle bilhête esquècido, depois de atravessar os
mares, atravessou aquelles inhòspitos paizes, e andou em companhia de um
prêto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que
esse prêto era filho de rei."
N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamentos tristes, á
vista do bilhête encontrado no bôlso da farda de um alferes de
cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhête só podia ser um
bilhête d'amôres.
Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os paizes, é sempre
um fogacho onde as maripôsas v[~e]m queimar as azas douradas.
Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de
tristeza, lembrando-me que ja era major.
No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar.
Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico de confiança.
Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.
Principiou elle por tirar do pescôço um cordão onde tinha enfiado oito
metades de caroços de uma fruta qualquér que eu não conhecia. Começou,
com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras màgicas, e atirou
com os caroços ao chão. D'estes, uns ficáram com a parte interna voltada
para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposição,
concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de
mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu
aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me
dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pòlvora.
N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e
massambala.
Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.
No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino
que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que peiorava
de instante a instante.
Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia
ante a fraqueza moral que se apossava de mim.
Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia.
O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada portador que
vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido
cada vez mais impertinente.
N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem para me
enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pòlvora por
cada mùsico.
N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei
mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo
que eu satisfiz mandando doze homens dar fôgo.
Sube depois que aquillo era uma convocação á guerra, e antes de falar
nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o
ponto em que ficou narrada pêlo D^{or.} Livingstone, isto é, desde a
morte de Chicrêto.
O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de ferro, sabia prudencia e
fina polìtica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pègada de
decadencia no reinado de seu filho Chicrêto. David Livingstone, muito
grato aos favôres de Chicrêto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a
Moçambique, é talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este
rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmão
Carlos e o Doutor Kirk, não pôde deixar de narrar a desordem e profunda
decadencia em que encontrou o imperio Macololo.
Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos
existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do paiz, que nem os
naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os
desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a autoridade aos
invasores. Môrto Chicrêto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia
reinar durante a minoridade de Pepe, irmão muito mais nôvo de Chicrêto,
e filho ainda do Grande Chibitano.
Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não
tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma _Saint Barthélemi_
por os Luinas, os restos d'esse forte exèrcito invasor foi assassinado,
escapando apenas poucos, sôb o commando de Siroque, irmão da mãe de
Chicrêto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.
Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira, acclamáram seu chefe
Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o paiz, e procurou
conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano.
Chipópa reinou muitos annos, mas as ambições apparecêram e, em 1876, um
tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criança
de 17 annos.
O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabêça a
Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tôdos os parentes e amigos
do pai que o eleváram ao poder, chamou para junto de si só os parentes
maternos. Aquelles conspiráram, fizéram uma revolução, e tentáram
assassinal-o, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pôde
escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação
de Mutambanja.
Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e Manuanino têve
de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no
paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos,
caçadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi
entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou
contra elle um nôvo exèrcito. Foi do resultado d'aquella expedição que
n'esse dia chegáram noticias.
Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que
elles chamam _Mozungos_, intimáram estes a que lhes entregassem
Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacáram,
mas, com tanta infelicidade, que fôram completamente batidos pêlos
brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegáram a Lialui a
narrar o seu desastre.
Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á guerra; e
porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praça da
cidade.
Ja que falei na historia do Lui, não dêvo proseguir sem narrar um dos
seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo
verdadeiramente sympàthico.
É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da Saint Barthélemi dos
Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.
Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango,
onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elephantes.
Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando
por vêzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo
umas questões em que bateu os que o atacáram, retirou por prudencia para
o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou
a vida de caçador.
Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado,
não podia deixar de ser ambiciôso.
Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se
approximando d'ali pêlo Cuando.
Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pòlvora,
denunciou-o, e Manuanino, então acclamado de pouco, fel-o assassinar
junto da povoação de Mutambanja, pêla mais cobarde traição.
Tôdos os seus fôram vìctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio
o tùmulo ao ùltimo dos Macololos.
Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarcha, que só
via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado,
envolvido em nuvens de tempestade.
As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o
poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.
Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam alvitres, todos pensavam
loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pôvo
semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra,
Machauana o General em chefe.[1]
Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios fiéis, que
partiam para povoações distantes.
¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o
paiz?
Diziam e repetiam, que fôram os _Muzungos_ que matáram os sicarios de
Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era
_Muzungo_, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente
ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raça
differente dos Portuguezes de oeste.
No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados _Chiudéres_,
nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, _Muzungos_; e os
Inglezes do sul, _Macúas_. A tôdo e qualquér prêto que vem das colonias
Portuguezas chamam _Mambares_, de certo corrupção da palavra
_Quimbares_, com que sam designados os prêtos semi-civilizados de
Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a
oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de _Mambares_.
Os _Quimbares_ sam prêtos de qualquér procedencia, geralmente escravos
ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das
senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa.
Em Benguella chamam _Quimbundos_ ao gentio selvagem do interior,
designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.
No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer
a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.
O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o
Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e
por isso, que tudo o que havìamos combinado estava prejudicado.
Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha posição.
N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de febre, viéram
prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.
Levantei-me a custo e fui ouvil-os.
Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que me iam deixar, porque
viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e só desejavam voltar
ao Bihé.
Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!
Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois
carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viéram
protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tôdos os
_Quimbares_ me viéram fazer igual declaração.
Aquella resolução inesperada dos Bihenos fêz-me recobrar o sangue frio
que ja não tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso
lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.
Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento,
entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a
Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a
Benguella.
Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58 homens.
No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me repetidas
exigencias de cousas que eu não possuia, e elle queria por fôrça que eu
tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança,
mas criança impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites
para o aturar.
Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a
minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e
alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.
Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que
d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino.
Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que
se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas as armas e a pòlvora que possuia,
porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por
ella, e não precisava levar tanta gente armada.
Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e
que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora, mas
neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fôsse das outras, dos homens
que me ficáram, ou das minhas particulares.
Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.
No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito
as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou
espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tôda a minha
gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propòsito para me ir
juntar aos _Muzungos_ que estavam no Cafuque com o Manuanino, e
fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pêla minha insistencia
em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra elle prevenido dos
projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus
estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé.
Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimação; cousa que em
nada me desconcertou o espìrito, porque, desde a vèspera á noute, eu
esperava novidade grande.
Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com que o não
encontrassem em tôdo o dia.
Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do
passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os
sertanejos do Bihé de virem ali, têve por ùnica resposta nôvo mandado de
despejo, e só livre o caminho do Bihé.
Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a
guerra, não sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de
Benguella.
Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sôbre o
caso, porque a noute era bôa conselheira, e que esperava ainda a sua
ùltima decisão no dia immediato.
A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da
parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que
o ùnico caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem
por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S.
Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estêve em minha casa,
conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnìfico
revólver Adams-Colt.
Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá
dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo
d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exèrcito,
que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo
lhe tomará contas d'isso. Vocês estam indispostos com os Matebeles,
ameaçados pêla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se
tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que não
sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."
Gambela sahio da minha barraca furioso.
N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de
que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se
negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que
assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sôbre-aviso.
A larga conversação que tive com o antigo companheiro de Livingstone,
mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo
guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só
pensava em ver occupar o trôno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu
protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira.
Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio e aquella affeição,
considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha
influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias,
que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos
protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei
Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.
Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me
abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas cubiçosas, que
elle não tinha n'aquelle momento.
Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos
meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha comigo,
como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo á audiencia
do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem
sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ìntimos, e
eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que
tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "¡Viva
Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"
Uma revolução feita n'estes termos não podia deixar de dar bom resultado
n'um paiz que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não
houvesse uma gôta de sangue derramado.
Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para
acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha
prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.
Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha
mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres para mim.
Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das cousas que se
estavam passando nos seus estados, não podia dar-me fôrça para me
seguir, nem se responsabilizava por qualquér desastre que me podesse
acontecer, indo eu com 58 homens apenas.
Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só
eu mesmo me responsabilizar pêla minha vida, e não tornar ninguem
responsavel d'ella.
Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que ficáram sem satisfação,
por não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tôdos
os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo
que eu não tinha cavallos, era impertinencia tal desejo.
Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fôra filha de
reïteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do
passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu.
No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma
audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao
nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e
tambores, dirige-se á grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta
sebe semi-circular, cujo centro é occupado pêla cadeira real.
Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a côrte, e á sua direita
Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes.
Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em linha, e aos lados, em
muitas fileiras, o pôvo.
Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que não precisam ser tratados
em conselho privado. Aquella audiencia é tambem judicial. N'aquelle dia
tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio
sentar-se em frente d'elle, e fez a accusação. O acusado negou o crime,
e logo de entre o pôvo sahio um homem que veio advogar em favor do réo.
Ali qualquér amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.
Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle;
fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.
Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusação e defesa. O
crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhér do
ladrão; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do
roubo, pêla posse da mulhér.
Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhér de lhe
não obedecer. Esta accusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e
mais de vinte sùbditos de Lobossi fizéram amargas queixas contra as
espôsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa
revolta domèstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que tôda a
mulhér que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fôsse amarrada
e mettida na lagôa, onde passaria uma noute só com a cabêça de fora.
Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a
promulgassem nas povoações.
Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo porque Gambela
conferenceia com o rei em segrêdo, diante de tôdos. A um signal de
Gambela, começa a mùsica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de
tal modo infernal, que é impossivel perceber uma palavra das que trocam
o rei e o ministro.
Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se
embebedarem.
V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um
verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á tarde,
depois de novas libações, dá nova audiencia. Logo que, ao anoutecer,
termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde
raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi
deitar-se ao som ruidoso dos tambores.
O cessar dos batuques annuncía que o règulo está recolhido, e então a
guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma mùsica, que,
apesar de monòtona, é agradavel; e tôda a noute cantam um côro suave e
harmonioso a meia voz. Esta mùsica que no Barôze acalenta o sono do
soberano, serve para mostrar que a guarda vela em tôrno do seu aposento.
N'estes poucos traços dou uma idéa resumida do viver monòtono do
autòcrata Africano, viver repartido entre a lascivia tôrpe e a
embriaguez brutal.
N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que,
em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem assassinar;
dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha
sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os Luinas que o
acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um
branco da mesma raça.
Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era caso grave
para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos
ministerios; precaução tomada pêlos novos conselheiros, que com alguns
golpes de azagaia cortam pela raiz as opposições.
Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a reputação dos
antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pôvo, para lhes
diminuir a fôrça moral como opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e
mais seguro o systema polìtico dos Luinas, o que não quer dizer que o
recommende.
O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana, decidio, que
eu não morrêsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta
propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do
acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de
arremesso passou tão perto de mim que a aste vergastou-me o braço
esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prêto a vinte
passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fôgo sôbre elle, foi
acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino
virou costas e correu em direcção a Lialui. Corri sôbre elle.
Sentindo-me no encalço, o prêto deitou-se por terra. Receei uma cilada,
e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fôgo.
Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com as azagaias cahidas ao
lado.
Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao
contacto da minha mão, senti um lìquido quente correr-me por entre os
dêdos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de
mêdo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver,
obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.
Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque tôdas as noutes se
ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiança, e
entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara
junto á cabêça superior do hùmero direito, perto da clavìcula, e não
tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. Não lhe apparecendo sangue
nas vias respiratorias, calculei que o pulmão não tinha sido offendido,
assim como o fio de sangue que corria da ferida, pêla sua tenuidade me
mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido
cortado. N'estas condições a ferida não apresentava gravidade, pêlo
menos de momento.
Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e
ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os
muleques conduzissem para ali o ferido.
Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela
antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era
aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do
assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o
ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que enviara aquelle braço.
Lobossi mandou logo retirar d'ali o prêto, e disse-me, que aquillo era
um grande agouro, e que ja não durmiria aquella noute socegado.
Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito,
lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e dizendo-me, que ia matar
meio mundo.
O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disséram
nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sôbre o facto o
maior segrêdo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto
estivesse nos seus estados.
Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de
Gambela.
Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e
puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me
sorpresa.
A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella Traviata não
ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguem se
introduzia de rastos.
Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a prêta Marianna,
que, com meio côrpo dentro da barraca, me fazia signal para que
entivesse calado.
Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca
atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do rei, tornou a Lialui
a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reunio com muito socêgo a
gente de Silva Porto, e estêve a falar com elles na barraca d'elle. Eu
fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem la estava.
Elles disséram, que como tu não entendias a lìngua do Lui, quando tu
lhes dissesses uma cousa para dizer ao rei, elles diriam outra, e te
dariam tambem a resposta trocada, que assim haviam de fazer com que o
rei te matasse.
"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."
Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o ùnico collar de missanga
que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana.
A declaração da Marianna, veio ferir-me profundamente. Os homens em que
eu confiava eram os primeiros a atraiçoar-me.
Mil pensamentos tristes, que não conseguíram alquebrar-me o espìrito,
produzíram uma noite de insomnia. É verdade, que a prevenção de Marianna
veio dar-me uma vantagem enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes
conhecia a traição nos seus detalhes; e de manhã ao levantar-me, eu
repetia a mim mesmo o rifão Portuguez, de que "um homem avisado vale por
quatro."
Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu
presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a espada de
Damocles estava suspensa sôbre a minha cabêça.
N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguella,
e a comitiva do rei do Lui, commandada por três chefes Luinas e guiada
pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho da costa.
Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava satisfeito
com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se
perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um pôvo tão poderôso em
relações com a civilização Europea da costa, era ja um resultado
importante da minha viagem.[2]
A revelação feita n'essa noute por Marianna trazia-me preoccupado, e eu
só pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traição
d'aquelles em que eu mais confiava.
Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse mesmo dia.
A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se déram comigo
depois da minha chegada ao Lui, não me tem deixado falar dos povos
Luinas e seus costumes.
Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada por
Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com uma
raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que
t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pègada de
decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha (_Cannabis Indica_),
a embriaguez e a syphilis, t[~e]m lançado aquelle pôvo no mais abjecto
embrutecimento moral, e enfraquecimento physico.
[Figura 97.--Cachimbos de fumar o Bangue.]
O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da raça prêta chegou-lhe do
sul e leste pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali importados pêlos
Bihenos, que lhe trouxéram ainda outro inimigo não menos terrivel, o
tràfico da escravatura.
Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os Luinas a pràtica da
polygamia. ¡Gambela, á èpocha da minha estada no Barôze, tinha mais de
setenta mulheres!
O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz que fica ao norte da
primeira região das cataractas, compõe-se, da enorme planicie onde corre
o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vêzes, de 30 a
35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao mar; do paiz mais elevado a
leste, onde assentam innùmeras povoações, que v[~e]m estabelecer as suas
culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde
corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do Zambeze por
uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre parallela ao rio,
e onde estam muitas povoações, livres das maiores cheias.
Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é inundada, e
eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado signaes do maior nivel das
àguas três metros.
No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na
èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima de 20 metros por
minuto, devem passar ali 240 milhões de metros cùbicos d'àgua por hora.
Isto dá uma medida do que sam as chuvas na Àfrica tropical,
acrescentando-se, que regularmente a inundação atinge o seu màximo em
oito dias.
O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira para o paiz
montanhoso durante as inundações.
Ao retirar das àguas, volvem a occupar as povoações abandonadas na
invernía, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a
verdade, não encontra ali um pasto viçoso em èpocha alguma do anno;
porque os prados sam formados, pêla maior parte, de caniçal, onde abunda
uma especie do _Calamagrostis arenaria_.
As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do
Zambeze, e sempre junto das encostas.
A inundação deixa na planicie um sem-nùmero de pequenas lagôas, que se
atulham de vegetação aquàtica, e que sam outros tantos focos miasmàticos
de infecção palustre. Ha èpochas no anno em que os proprios indìgenas
sam fortemente atacados pelas febres endèmicas.
Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios.
É d'estas lagôas que se fornecem de àgua potavel os indìgenas, mas é
preciso confessar, que elles só a bebem depois de transformada em
Capata.
Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres. Os seus rebanhos
constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu
principal alimento.
O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.
O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com a batata dôce, a base
da sua alimentação. A farinha de milho é empregada para fazer a Capata,
de mistura com a de massambala, principal cultura do paiz.
Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e tôdos os seus
utensilios, sam feitos no paiz. Não usam facas, e não podemos deixar de
nos admirar das esculpturas que fazem em madeira, sabendo que não
empregam facas, e mais ainda, logo que conheçamos o instrumento com que
trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste,
começa a obra da azagaia. O ferro d'esta é instrumento para tudo. Os
bancos onde se assentam, as escudellas em que comem as vasilhas do
leite, e tôdos os seus utensilios de madeira, sam cortados com ella.
[Figura 98.--Vasilha para leite feita de Madeira.]
Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a colhér.
Vivendo de leite, o Luina não pode prescindir da colhér, e dispensa a
faca. O seu systema de alimentação explica a falta d'esta e o muito uso
d'aquella.
[Figura 99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos
Luinas. Especie de Espàtula.]
[Figura 100.--Pratos e Escudellas para a comida.]
[Figura 101.--Colhér.]
[Figura 102.--Machado de cortar Madeira.]
A industria ceràmica limita-se no Barôze á fabricação de panellas para
cozinha, para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes.
Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar o _bangue_.
[Figura 103.--Artigos de Barro.
1. Panellas de cozinha.
2. Tálha de guardar cereaes.
3, 3. Fornalhas dos cachimbos.]
O Luina só fuma o _bangue_; o muito tabaco que cultivam é empregado
exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem grande uso homens e
mulheres. É este o pôvo mais coberto que encontrei em Àfrica. É raro
ver-se ali um homem ou mulhér despidos da cintura para cima. Os homens,
como ja disse no capìtulo anterior, usam umas pelles passadas em um
cinto, que pendem adiante e atraz, chegando até aos joêlhos. Um manto de
pelle, que posto, assemelha as capas do tempo de Henrique 3^o,
cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até meia perna.
Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da
cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu trajar. As
mulheres trajam um saio de pelles, que adiante chêga ao joêlho, e atraz
desce até ao grôsso da perna. Sôbre o saio um largo cinto enfeitado de
buzio (_caurim_). Um pequeno manto de pelles, muitas missangas ao
pescôço e muitas manilhas nos braços e pernas, sam o vestuario do paiz.
Vemos hôje muitas indìgenas substituindo as pelles por estôfos Europêus,
os capotes por cobertores de algodão, e mesmo tôdo o trajar gentìlico,
por o fato do homem civilizado; mas eu aqui não curo das excepções, falo
no traje primitivo do paiz, e não nas innovações que o commercio ali tem
levado. É preciso contudo revelar, que este pôvo tem uma tendencia
manifesta para se vestir. De certo, antes da invasão dos Macololos, os
Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos Chuculumbes, seus
vizinhos de leste, andam completamente nús, homens e mulheres. A oeste
os Ambuelas fôram tambem encontrados nús, pêlos primeiros sertanejos
Portuguezes que ali se aventuráram,[3] e ainda hôje não se cobrem muito.
[Figura 104.--Homem Luina.]
O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado outróra pêlos
Macololos, e por isso é de crer que fôsse introduzido por elles.
Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo para se vestir, deve
merecer a attenção do commercio, e é uma tendencia a explorar em
beneficio d'elle, dos indìgenas e da civilização.
[Figura 105.--Mulhér Luina.]
As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com manteiga de
vacca misturada de talco em pó, que lhes dá á pelle um lustro
avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro desagradabilissimo.
Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de
fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do sul, e outras de silex
Belgas, vindas do commercio Portuguez de Benguella; mas os indìgenas, ao
contrario do que acontece, com tôdos os povos da costa de Oeste até ao
Zambeze, preferem as armas de fulminante, e alguns ha, que só querem ja
carabinas raiadas. Não usam cartuxo como os Bihenos e povos
circumvizinhos d'estes, e trazem a pòlvora sôlta em cornos, ou em
cabaças. As armas do paiz sam azagaias, porrinhos, e machadinhas. Não
usam frechas.
[Figura 106.--Azagaias Luinas.]
[Figura 107.--Machadinhas de guerra.]
[Figura 108.--Porrinho.]
T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de bôi
armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a seis azagaias
de arremêço.
Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam por isso
menos terriveis; devido ás barbas desencontradas que lhes fazem, de modo
que, na maior parte dos ferimentos, é preciso matar o ferido para lh'-as
arrancar do côrpo.
O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m, fôram
as missangas chamadas no commercio de Benguella, missanga leite, azul
celeste e Maria 2^a.
Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.
Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo elles as melhores. O
arame de latão, de três a quatro milìmetros de diàmetro, tem valor, e a
roupa feita, cobertôres, armas de percussão, fulminantes, pòlvora,
chumbo em barra, e artigos de caça, sam ali cotados em subido prêço.
Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente com o règulo, que faz
d'elle monopolio; pertencendo-lhe tôdo o marfim que se caça nos seus
estados, e tôdos os gados dos seus sùbditos, a quem elle os pede quando
precisa. Das fazendas, armas e outros artigos que permuta, faz presentes
aos seus caçadores, chefes de povoação, côrte, etc.
As mulheres gozam de bastante consideração, e entre a nobreza não fazem
nada, passando a vida sentadas em esteiras, a beber capata e a cheirar
tabaco. Possúem muitos escravos, pêla maior parte Macalacas, que as
servem.
Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma raça magnìfica, e
mesmo as suas gallinhas e cães sam de melhores raças do que os que
encontrei até ali.
O valle do Barôze está cercado por éste a sul da terrivel mosca zê-zê, o
que os obriga a concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a
sahida d'elles, a não ser para oeste no caminho de Benguella, tôdo limpo
do prejudicial diptéro.
Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da
invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva Porto), que
foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio dos
Macololos, e que eu encontrei em condições bem differentes, sôb a
dinastia Luina, em 1878.
Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de
Setembro, dia seguinte ao da revelação de Marianna, resolvi fazer com
que os traidôres fôssem trahidos por um dos seus, e lancei as minhas
vistas sôbre Verissimo Gonçalvez.
Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar, a copia de
uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em que eu dizia ao
governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe pedia que
mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe d'elle, e se acaso
acontecesse eu ser vìctima de alguma traição, as mandasse para Portugal,
onde eu disse ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.
Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra escrita
como simples prevenção, porque eu confiava plenamente na sua dedicação
por mim; mas que essa dedicação tinha de estar vigilante, porque eu
desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me acontecêsse alguma desgraça,
eu não poderia evitar os horrores que estavam reservados aos entes que
lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que Caiumbuca não
transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me dava transtornadas
as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar sempre presente nas
minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em Portuguez (Caiumbuca não
falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.
Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me enganava, e contou-me
tudo. Eu preveni-o, que não deixasse perceber nada a Caiumbuca, e que me
tivesse ao corrente do que elle tramava.
N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que me
devia acompanhar, para eu seguir para a costa de Moçambique, e por isso
podia partir quando eu quizesse.
Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda não
tinha passado tão bem como n'esse dia.
O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam
dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida d'estes. O
centro era um largo circular, de não menos de cem metros de diàmetro. A
um lado, dentro da fila das barracas, ficava a minha barraca, cercada
por uma sebe de canas, que fechava um recinto, onde só entravam os meus
muleques de serviço.
Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha marcado com
persistencia 33 graos centìgrados, e o calor reflectido pêla areia tinha
sido incòmmodo.
A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado á porta da minha
tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e nos amigos, no futuro da
minha emprêsa, tão ameaçada ali, e ora alegre ora triste, não perdia a
fé e esperava. O acontecimento da ante-vèspera vinha pairar como nuvem
nêgra sôbre o ceo lìmpido da esperança.
Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das
fogueiras, só eu estava fora. De sùbito prendeu-me a attenção um
sem-nùmero de pontos luminosos que vi atravessarem o espaço.
Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um
presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a barraca.
Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de
angustia suprema escapou-se-me da garganta.
Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e lançavam achas
ardentes sôbre as barracas cobertas de herva sêca.
Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava
incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas
incandescentes, e pareciam loucos.
Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em tôrno de mim. Em presença
de um perigo tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de uma vez me tem
acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e tranquillo de
espìrito, pensando só em lutar e vencer.
Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um cìrculo de
fôgo, e consegui reunil-a no meio do espaço interior do campo.
Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na minha barraca
em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos instrumentos, os meus
papéis e trabalhos, e a pòlvora. A esse tempo as barracas abrazavam
tôdas, mas o fôgo não podia attingir-nos. Verissimo estava a meu lado,
inclinei-me para elle e disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo,
passa por onde poderes e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi
que a sua gente me ataca, diz tambem a Machauana o perigo que côrro."
Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o desapparecer por entre
as labaredas. A esse tempo ja as azagaias ferviam em tôrno de nós, e ja
haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do prêto Jamba de Silva
Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho direito. Ás azagaias
respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o gentio
avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as barracas
consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em tôrno de mim, que
desarmado segurava a bandeira da minha patria, estavam batendo-se como
verdadeiros bravos os meus valentes Quimbares. ¿Estavam tôdos? Não.
Faltava ali um homem, um homem que deveria estar ao meu lado e que
ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu immediato, desapparecêra!
[Figura 109.--Ataque contra o acampamento no Lui.]
Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem
contra um.
Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que com
estridente grita pulavam ao clarão das chamas, avançando para nós
cobertos com o alto escudo e brandindo as puidas azagaias. Foi um
combater encarniçado em que as carabinas de carregar pêla culatra, pêlo
seu fôgo sustentado, continham em respeito aquella horda selvagem.
Contudo eu calculava que o têrmo do combate não estava longe, porque as
munições desappareciam ràpidamente; eu só tinha no comêço quatro mil
tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar
pêla bôca, mas não seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fôgo
abrandasse, por faltarem as armas de carregamento ràpido, serìamos
esmagados pêlo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leão
raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia, mostrando-me a carabina,
que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque Pépéca, que lhe entregasse
a minha carabina de elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a
frente, e fez fôgo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um
momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom
differente, e virando costas, tomáram elles precipitada fuga.
Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um
tal reviramento. Fôram os tiros do meu Augusto.
Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas carregadas de
nitro-glicerina.
O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla explosão, as
cabêças e os peitos em que acertavam, produzio o pànico no meio
d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa nova para elle, um feitiço
irresistivel.
Foi a Providencia que me quiz valer.
Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo,
com uma grande fôrça capitaneada por Machauana, que vinha em meu
soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era
estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo, sabendo que eu fôra
ali para os atacar de combinação com os Muzungos de leste, que estavam
com Manuanino, fizéram aquillo por sua conta; mas que elle ia tomar as
mais vigorosas providencias para eu não soffrer mais aggressões. Tudo
aquillo, se não foi ordenado por elle, foi por Gambela.
Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o que haviamos
de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens
Portuguezes dos ùltimos sèculos:--"Enterrar os mortos, e tratar dos
vivos."
No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as pêrdas de
vidas por tão insòlito ataque. A bandeira Portugueza estava furada das
azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que
tinha, só serviam para fazer realçar a sua pureza immaculada; e mais uma
vez, longe da patria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer
respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saberá.
Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião cuidadoso, e
o resto da noute foi passado a curar os feridos e a alentar os sãos,
sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei
Lobossi.
Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe àsperamente sôbre o
acontecimento da noute. Tornei-o, diante do seu pôvo, responsavel pêlas
desgraças d'aquella noute; e disse bem alto, que aquelles que tivessem a
chorar a perda de parentes, só a elle deviam lançar culpas.
Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que ia
estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem
resistir a um nôvo ataque.
Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço que eu tinha
empregado na vèspera, fazendo com que os prêtos rebentassem por si. Era
assim que elles explicavam o caso funesto das balas explosivas
inconscientemente empregadas por o meu Augusto.
Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as
montanhas, não pude realizar esse desejo senão a 9, por causa do estado
dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos com a fome; porque ninguem nos quiz
vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Fôram as
lagôas que fornecéram abundante pesca e alguns patos muito magros.
Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicação.
Foi, como disse, a 9 que deixei a planicie e alcancei as montanhas perto
de Catongo, chegando tôdos, feridos e sãos, no maior estado de fraqueza.
O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome, preoccupou-me, e
dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem caça.
Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas.
CAPÌTULO X.
A CARABINA D'EL-REI.
A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com
o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As
pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A
região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio
Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima
Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita
caça--Tragedia--Embarira.
Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos
das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante
do sitio que escolhi para acampar.
Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de
comer. Algumas mulheres viéram vender pouca cousa a trôco dos invòlucros
metàlicos dos cartuxos queimados das carabinas Winchester.
Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagôas pròximas, e
tirámos algum peixe, que se comia cozido em àgua sem sal.
De Caiumbuca não havia noticias, e eu convencia-me que elle tinha
partido com a gente que retrocedêra ao Bihé; quando n'essa tarde me
viéram dizer, que elle estava no acampamento, e me queria falar.
Apresentou-se, dizendo que fôra acompanhar a comitiva de Lobossi, que
seguira com o prêto Antonio, porque tinha de mandar prevenir a gente da
sua libata no Bihé, de que tinha muita demora ainda no sertão, pois
seguia comigo para a costa de leste.
Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com relação a elle;
e depois de pensar um momento, resolvi aceitar a desculpa da ausencia
d'elle na noute do combate, e não lhe mostrar que tinha perdido a minha
confiança, e que sabia da sua projectada traição. Elle pedio-me para
regressar n'essa noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato
com a gente que Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para
Quisseque, logo que o estado de alguns feridos m'o permittisse.
Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos
que não quizesse que morrèssemos á fome no seu paiz.
Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente.
No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que comer e os
meus.
Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem
fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se á terra em
cìrculo enorme, lembrei-me de determinar a variação da agulha magnètica
pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos azimuthes, que eu
tinha sido forçado a empregar até então.
Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a observação,
muito antes de tempo, porque o sol estava ainda elevado do horizonte uns
dez graos; quando um phenòmeno curiosissimo se deu na atmosphera. Estava
ella lìmpida, de um azul um pouco carregado mas sem uma nuvem, sem um
extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol começou a
perder a sua forma circular, e a desapparecer lentamente, como se eu
observasse um occaso no oceano; e isto dez graos acima do horizonte, por
ceo na apparencia limpo, como ja disse. Só depois do seu completo
desapparecimento é que se podia mal perceber, pêlo feixe de luz que em
leque se espargia no ceo, uma barra de extractos, tão iguaes em côr ao
azul da atmosphera, que a vista mais apurada a confundiria com ella;
parecendo que a limpidez do firmamento não era interrompida até ao
horizonte. Algumas vêzes mais observei igual phenòmeno, mas não a tanta
altura, nem tão perfeitamente definido.
Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem Caiumbuca, nem a
gente que Lobossi devia mandar-me.
Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o
satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar pròximo da meia-noute; e como
eu não quizesse perder essa observação, por encontrar grande differença
em longitude na posição do Zambeze, recomendei ao Augusto, que me
chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe indiquei, o que
correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga, deitei-me cêdo, e adormeci
profundamente; esperando que Augusto velasse, depois da instante
recommendação que eu lhe tinha feito. Por noute fora acordei ao
chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto, julgando ser a hora
indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu fiel nêgro, elle
disse-me, cheio de commoção: "Senhor, estamos atraiçoados; a gente fugio
tôda, e roubáram tudo."
Levantei-me, e sahi da barraca.
O acampamento estava deserto.
La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e Pépéca, e as
mulheres dos muleques, estavam silenciosos e pasmados olhando uns para
os outros.
Não pude conter uma gargalhada.
O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe de
mim.
Era tão crìtica a minha posição, vivendo no meio de tantas miserias,
rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles quereria ser
meu socio. Ànimos mais fortes e espìritos mais enèrgicos do que os dos
prêtos que acabavam de fugir, não teriam querido partilhar da minha
sorte.
Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e puz-me a indagar
o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A gente tinha fugido
tôda, sem que algum dos presentes a presentisse. Os cães, habituados com
elles, não ladráram. O Pépéca foi passar revista ás barracas, e nada
encontrou.
As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca, e que
consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido.
Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me restava o que havia
dentro da minha barraca. Eram os meus papéis, os meus instrumentos, e as
minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma das cargas roubadas
continha os meus cartuxos, e sem elles de nada serviam.
Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e achei-me com
trinta tiros de balas d'aço para a carabina Lepage, e com vinte e cinco
cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de pouco ou nada
serviam. Era tudo quanto possuia.
Não pude deixar de curvar a cabêça ante este ùltimo golpe que me feria,
e um atroz confrangimento de coração trouxe-me, pêla primeira vez em
Àfrica, o presentimento de que estava perdido. Estava no centro
d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo de trinta balas
apenas, quando só da caça poderia viver e só a caça me poderia salvar; e
tinha em tôrno de mim só três homens, três crianças e duas mulheres!
Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e
entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar
tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto fiel; e sem
consciencia do que dizia, sem a menor convicção nas palavras que
proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que não receiassem nada,
porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de véla. Recolhidos ás barracas,
eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente e sem fôrças. O abalo
moral tinha despedaçado o côrpo, já fortemente abatido pêlas febres.
Sentado, com os braços encostados nos joêlhos e a cabêça encostada ás
mãos, eu olhava fito para a crepitação da chama, sem ter um pensamento,
sem uma idéa, em perfeito estado de imbecilidade. Contudo, o instincto
filho do hàbito, fêz-me sentir, que estava desarmado; chamei o meu
muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe uma arma. Elle entrou na
barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar, colloquei sôbre os
joêlhos.
Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as idéas
principiáram a vir mostrar-me os horrôres da minha posição. Havia muitos
mêzes, que eu caminhava ávante, pobre e sem recursos; havia muito tempo
que eu contava ùnicamente com a caça para sustentar a minha caravana.
Essa idéa perfeitamente arraigada no meu espìrito, tinha-me dado sempre
a fôrça de seguir, de ter fé e de esperar. De repente sentia em mim um
vazio enorme. A idéa tinha cahido por terra, e desapparecido com a caixa
que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu ùnico recurso.
Deve ser ao encarar uma posição como a minha que o homem se suicida.
Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a
cabêça e os meus olhos fixáram-se na carabina que eu tinha pousada nos
joêlhos. Olhei, a talvez meio minuto, e uma idéa atravessou-me o
espìrito. De um salto entrei na barraca, e corri a levantar as pelles do
meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que me servia de
travesseiro, estava um estôjo de couro, rectangular, baixo e comprido.
Foi com mão febril que abri aquelle estôjo esquècido, e apalpei trèmulo
os objectos que elle continha. As idéas occorriam-me de nôvo em tumulto.
Deixei o estôjo, e abri a mala dos instrumentos, onde a caixa do meu
sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti debaixo da
mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da barraca e do acampamento,
e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu grande
tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e tensa pêlo peso
do chumbo que lhe envolvia a tralha.
Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a rêde voltei ao campo,
curvado ao pêso d'ella. Cheguei junto á fogueira, e depuz no chão o meu
fardo.
Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia
louco, e louco estava eu de contente.
O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o thesouro que empobrece
a sua miseria, não deve ter na vista expressão differente da que eu
tinha a olhar para aquella carabina. É que ella para mim era a vida, a
salvação, e tudo. É que ella para o meu paiz era uma expedição coroada
de èxito; era a realização de um voto formulado por elle no seu
parlamento; era o bom èxito obtido, tanto mais meritorio, quanto mais
estorvado.
A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha estremecida, a arma
que me ia salvar, e comigo a expedição atravez d'Àfrica, era a Carabina
d'El-Rei.
No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para fazer balas, e tudo o
necessario para se carregarem os cartuxos, logo que existissem os
invòlucros metàlicos, cada um dos quaes, pêlo seu systema de
construcção, pode servir muitas vêzes. Uma pequena caixa, que vinha no
estôjo ja quando El-Rei me offerecêra o valioso presente, continha
quinhentos fulminantes.
As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle recurso,
trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de pòlvora que eu desde
Benguella empregava, á falta de cousa melhor, para entalar a caixa do
sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha rêde de pesca ia
fornecer-m'-o.
Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns
centos de tiros sentia-me com fôrça de criar recursos n'esse paiz de
caça.
O resto da noute foi para mim como manhã bonançosa depois de noute de
temporal.
Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava tranquillo e
confiante.
Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a mandar dois
homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi; disse-lhe tambem, que
ia mudar o meu campo para mais pròximo da aldea, e logo nós quatro, eu,
Verissimo, Augusto e Camutombo, construímos quatro barracas e um forte
cercado, onde nos recolhémos com o meu magno espolio.
N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho,
cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.
Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me estendi nas
pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono sôlto até ao
pôr-do-sol.
O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos patos,
conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella alimentação sem
condimentos a fome ja impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi
pouco e pensei muito. Sustentar nove pessôas era mais facil do que
sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão mais momentosa e que
mais urgente era resolver, estava, se não resolvida, pêlo menos muito
simplificada por si mesmo.
A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente arraigada em
mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um projecto,
sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha confiança era tal, que
os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes. Diziam elles, que
eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia, que não tinha ainda
formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."
Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2
kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada cartuxo era de
5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella pòlvora carregar
duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda possuia, e
com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage, prefaziam um total de
trezentos cartuxos.
Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e
cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de 35
grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de trinta kilos.
Fulminantes tinha duzentos a mais.
Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado d'elle, para que
eu fôsse viver para Lialui até tomar uma deliberação.
Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o Verissimo a Lialui
tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei que sahisse antes de
amanhecer no dia immediato, para ter tempo de voltar no mesmo dia.
Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito
doente.
No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente até á
volta do Verissimo, que só chegou de tarde.
Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam alguma comida, e
um presente de leite coalhado, enviado por Machauana. Lobossi mandava
dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto a ajudar-me, mas
que fôsse eu viver para casa d'elle; e que com tempo decidiriamos o que
havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe pêlos muleques, que logo que
estivesse melhor iria falar-lhe; mas que não deixaria o mato, e que me
era impossivel ir viver com elle, por causa das febres. Estava ancioso
por me achar só com Verissimo, para ter noticias de Lialui.
A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda impressão.
Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi, estava reunido o grande
consêlho em discussão acalorada.
Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali,
pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em
Patamatenga, e queria vir ao Lui.
Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze opunha-se com tôda a sua
eloquencia o ministro dos estrangeiros Matagja, e d'ahi nascêra a
acalorada discussão a que assistira o Verissimo; sendo resolvido em
consêlho, que não fôsse concedida a licença para o homem penetrar nos
estados do rei Lobossi.
O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a menor
importancia, começou a narrar-me o que tinha podido colher de noticias
ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto e Caiumbuca; mas eu é
que não o escutava ja, e aquelle missionario Inglez (_Macúa_, diziam
elles) não se me tirava do pensamento. Quando o Verissimo acabou o seu
aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu problema, e a resolução
consistia, em ir encontrar aquelle missionario.
Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era ja convicção
minha.
Fui àvidamente buscar uma pèssima carta d'Àfrica que tinha, e calculando
approximadamente onde seria Patamatenga, medi uma distancia de
seiscentos kilòmetros.
Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10 kilòmetros por dia, eram
sessenta dias de jornada, e trezentos tiros que eu possuia, divididos
por sessenta dias, dava-me cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de
me pôr a caminho, mas ardia em febre tambem, e comecei por deitar-me.
Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me permittindo
sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15 para 16,
resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de pôr em execução um
plano que tinha concebido, para ir encontrar o missionario, idéa que me
não sahia da mente.
Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de Lobossi. Fui muito
bem recebido por elle, que negou ter sido connivente com Caiumbuca e os
prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus _Quimbares_; o que era falso,
porque sem o consentimento d'elle, não poderiam elles ter passado o
Zambeze.
Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia
estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me, ¿como
queria eu ir para ali, não tendo carregadores? Esta pergunta do rei foi
muito applaudida pêlos assistentes, que notáram a esperteza d'elle em
m'-a fazer.
Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que tinha o rio
Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu dispensava
os carregadores, tanto mais que não tinha cargas.
Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha
cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da parte do
auditorio.
Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por
terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar.
Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca fôrça, e não podiam
arrastrar os barcos por terra. Novamente applaudido; estava fazendo um
gôsto immenso em patentear o seu espìrito fino diante dos ouvintes; e de
salto, sem esperar resposta, perguntou-me, ¿porque não tinha ido viver
com elle para Lialui, como me tinha ordenado?
Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por muitas razões;
sendo a principal, o ser elle um refinado velhaco, que, desde a minha
chegada, só tinha procurado enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei
ladrão e assassino, levantei-me e puz-me a caminho.
O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me
embargar o passo.
Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno,
o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem fiz a
profecia de que ainda seria rei do Lui.[4]
Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi
veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.
O rei disse-me, que não tinha razão para me zangar com elle, que era
muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que o Liambai estava livre
para mim.
Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era mal
aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis
Macololos, foi a grande protecção que dispensáram a Livingstone. Que os
Luinas queriam perder o commercio; e que elle completaria a ruina do Lui
começada por Manuanino. Que o seu pôvo, não a camarilha que o rodeava,
mas o seu pôvo sensato, ainda o expulsaria do poder, por incapaz de
governar, e não fazer mais do que disparates.
Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me daria os
barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu não chegasse a alcançar o
missionario, mesmo porque queria que eu mudasse de opinião a seu
respeito.
Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me mandaria
dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse arranjado as
tripulações. Chamou diante de mim o Chefe de Libouta, e deu-lhe ordens a
esse respeito.
Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o. Elle
pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os factos.
Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito
de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda a verdade,
nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem fôra ao longe o motor dos
acontecimentos.
Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o
nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito.
Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente approvados,
porque muito convinha aos Luinas estar em communicação com a costa de
Leste. Dias depois da minha chegada, rebentou no Chuculumbe a revolução,
á testa da qual se achava Manuanino, o rei destronado. Caiumbuca foi
então dizer a Lobossi, que eu não era estranho áquella revolta, e que
queria ir para Leste juntar-me aos brancos que apoiavam Manuanino.
N'essa occasião Caiumbuca levara os Bihenos a abandonar-me,
dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que me ia mandar matar, e não
poderia impedir que fôsse morta a gente que estivesse comigo.
Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que não queriam estar
comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.
A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao meu principio de
sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de tudo, fui enganado. É verdade
que Silva Porto, o homem em quem eu tinha a màxima confiança, disse-me e
escreveu-me, que podia fiar-me em Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.
Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas
deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e não seria
facil convencel-os da verdade.
Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi então
que os muleques de Silva Porto fôram dizer ao rei, que tinham ordem de
seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer, que me
fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé voltassem ali, sem o
quê não teria mais relações com Benguella.
Foi então que tentáram matar-me, affirmando Machauana, que Lobossi
sempre se opoz a isso, assim como a maioria do seu consêlho, mas que
Gambela era de opinião contraria.
Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que tôdo o que
eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas muito ricas,
despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos exploradores tem perdido no
Continente Africano.
Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas produzíram, eu ia
continuar a minha viagem com a gente de Benguella, quando o ataque da
noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma nova intriga dos prêtos de
Silva Porto levou á fuga os restantes. ¿Por ordem de quem trabalhou
Caiumbuca? Eis o que não pude saber.
Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar n'isso. A
encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios d'ella os muleques de
Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal, depois das instrucções
recebidas dos prêtos de Belmonte. O mandatario estava ao longe, muito ao
longe.
A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do meu
Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da escravatura.
Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos o _Commander_ Cameron e
David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e
verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior d'Àfrica por
sertanejos Portuguezes.
Por muitas vêzes, a opinião pùblica em Portugal tem levantado a sua voz
potente, contra as asserções vilipendiosas dos accusadores estrangeiros,
querendo negar factos que elles asseveram; e em que ella não acredita,
porque, na sua ìndole bondosa, é incapaz de os comprehender e de os
admittir.
Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados, não
deixam de conter um germen de realidade.
¿Mas serám esses factos uma nòdoa para Portugal? Não sam. Affirmo-o, e
sustento-o.
Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do
continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser Portuguezes.
Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a
sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam rèprobos a quem a
sentença infamante da justiça imprimio um indelebil ferrête de
ignominia; sam os salteadores e assassinos, a quem a patria banio do seu
seio com horror, que podéram quebrar o grilhão de ferro com que estavam
acorrentados ao patìbulo aviltante; e fugindo a um mundo onde só os
espera o desprezo da gente civilizada, vam ao longe buscar entre os
selvagens a guarida que perdêram, e continuar ali a sua vida de crimes.
Taes homens não deshonram a sua patria, porque não t[~e]m patria.
Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos, é
querer tornar a França responsavel dos actos da Communa, a Amèrica do
assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores dos Abruzos.
Ha rèprobos em tôda a parte, e não podem ser nòdoas nos povos que os
esmagam na sua justa indignação.
Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no Bihé, de dois
apenas tenho noticia, que não pertencessem a tal ordem de gente. Sam
elles Silva Porto, e Guilherme José Gonçalves; mas estes fôram sempre
queridos e estimados do indìgena e do Europêu, gozáram sempre da
consideração que a sua honradez e probidade lhes grangeáram, fôram
cidadãos prestantes, que, com um tràfico legal e digno, nem chegáram a
fazer fortuna, e fôram muitas vêzes vìctimas dos outros.
O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e conhecido n'uma grande
parte da Àfrica central pêla corrupção da palavra _Prôto_, e mais de uma
vez me servi d'elle para desfazer obstàculos.
Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica central, ha
Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande serviço á
humanidade no commercio lìcito com o interior; esse commercio, que é o
mais seguro mensageiro da civilização na terra dos nêgros.
Não confundamos pois; não confundamos, e será pouco nobre ir buscar a
autoridade do explorador, para lançar, apontando factos verdadeiros, mas
nada producentes, um labéo sôbre um pôvo nobre, o primeiro que deu mão
forte á Inglaterra contra o tràfico infame; sôbre um pôvo que sacrificou
os seus interesses Africanos legislando a abolição da escravatura;
contra um pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade até
á Àfrica, mandando para lá as leis que o regem na Metròpoli; chegando ao
excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um còdigo que
por libèrrimo é impossivel entre gente mais que semibàrbara.
Não precisa Portugal justificação; que o defendem os factos, as leis e a
energia que emprega na grande obra da civilização Africana; mas, falando
do tràfico da escravatura de que por vêzes ia sendo vìctima, não me pude
eximir a pôr a questão nos seus verdadeiros têrmos.
José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de
nascença; não se parecem com Portuguezes na côr, sam indìgenas, sem
instrucção, verdadeiros selvagens de calças e chapéos.
Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em Àfrica por terras onde
elles t[~e]m andado, do que nas regiões bàrbaras dos canibaes, que nunca
víram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de
armas na mão frente a frente; ali é a traição e a covardia que o
esperam. Aqui é explorar na brenha espinhosa onde o leão occulta o seu
antro; ali é caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes.
Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás sedes dos grandes
potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que
aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem
acontecido a mim com Lobossi, no Lui.
O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim, dá tudo ao règulo;
chêga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bihé de tanga de
pelles, como os seus carregadores.
No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o
costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que elle lhes
desse pêla factura que levavam, o que entendesse sufficiente.
O explorador que hôje chêgue ali e não faça o mesmo, está perdido.
Àlém d'esta, outra razão deve aconselhar o explorador a evitar os
grandes potentados; é ella o caso de uma aggressão, sempre de recear.
Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da Àfrica austral,
poderá, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios será
forçosamente esmagado.
Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de
Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de
Machauana.
Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma
gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.
As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.
Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o tempo; podendo obter
uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinação da
declinação da agulha, estudos meteorològicos, etc.
No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decidí
mandar lá o Verissimo, a saber se a offerta das canôas era ou não
comedia. N'esse dia apparecêram ali uns prêtos, que pêlo typo conheci
logo não serem do paiz. Diziam elles serem da Luêna, e querendo indagar
onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de nòs
dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado
vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe
comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz,
viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.
Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da aldeola, que
falava a lìngua dos Machachas, lìngua em que elles se exprimiam bem,
dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Disséram-me, haver no
seu paiz muitos elephantes, e serem caçadores; empregando para isso a
azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos de côrpo e de pequena
estatura, com feições bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam,
quasi tôdos, na cabêça uns penachos feitos de sêdas de elephante,
demonstrando cada penacho um elephante môrto pêlo que o traz. Vestem
pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de _liconde_ para se
cobrirem.
Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A
difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio levar muito
longe as averiguações ácerca do paiz d'elles e dos terrenos que
atravessáram para chegar ali.
No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas estavam
promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia
immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que só iria em dois
dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter
de fazer observações e completar estudos meteorològicos no dia 22. Por
esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento
em sua casa, porque iria ser seu hòspede. Eu queria fazer do ladrão
fiél.
A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei
ás duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com pompa, e foi
conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha por um sol
abrasador prostrou-me de fadiga, e só á noute pude ir visitar Lobossi.
Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que estava convencido de que fôra
illudido por Caiumbuca e pêlos muleques do Silva Porto; que acreditava
ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria dar todas as
satisfacções pêlos transtornos que eu tinha soffrido nos seus estados,
de que elle dizia não ter tido a menor culpa.
Aproveitei tão bôas disposições, para renovar o meu pedido de gente e
auxilio, para seguir pêlo paiz do Chuculumbe até Caiuco, e descer depois
o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo pêlo Zambeze. Respondeu-me, que isso
não podia ser, porque esse projecto encontrava uma grande opposição nos
velhos do seu conselho. Que o Munari (Livingstone), no tempo de
Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com gente do Lui, e que nenhum
dos que com elle fôram para leste voltara mais ao paiz.
Os velhos falando elle n'isso, disséram-lhe, que me perguntasse o que
era feito dos seus irmãos Mbia, Caniata e Scuêbu, e muitos outros que
fôram e não voltáram. Diziam elles, que, ao partir, Livingstone
prometteu, que os tornaria a trazer ali; e ainda hôje as mulheres e os
filhos esperam por maridos e pêlos pais.
Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do pôvo
era grande, e não lhe convinha ir contra ella. Os três barcos estavam ás
minhas ordens para descer o Zambeze, e nada mais podia fazer por mim.
A 24 de Setembro, logo de manhã recebi a visita de Lobossi, que se vinha
despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que deviam tripular as
canôas até umas povoações do Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos
barcos e novas tripulações. Deu-me uma pequena ponta de marfim, para eu
offerecer ao chefe das povoações onde arranjaria os barcos, e trazia
tambem um bôi para a matalotagem. Agradeci-lhe muito, e separámo-nos nos
melhores termos de amizade. Segui a S.O., e depois de uma hora de
caminho, encontrava o braço do rio a que chamam pequeno Liambai, e pouco
depois, três pequenas canôas largavam a margem, levando a minha bagagem,
a mim, a Verissimo, Camutombo e Pépéca.
O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguíram por terra,
acompanhados do caçador Jasse e do chefe Mutiquetéra, mandados por
Lobossi, para seguirem comigo, e irem dando as suas ordens aos chefes, a
fim de ter o caminho livre.
Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que
representavam duas dedicações inquebraveis, aquelles que desde a minha
sahida não me haviam dado um ùnico dissabor, estavam ali comigo, sempre
promptos a seguir quando eu marchava, a pararem quando acampava, a
dispensarem-me mil caricias quando me viam triste, a divertirem-me
quando alegre estava. Eram Córa e Calungo, a minha cabrinha e o meu
papagaio.
A viagem do rio ia separar-me tôdos os dias de Córa, que não podia ir
sempre embarcada pêla exiguidade de espaço nas canôas, mas Calungo
voando sem mêdo para o meu hombro, seguio embarcado.
Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha, deixámos o
pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um canalête, por onde o braço
oeste do rio deita um pequeno veio de àgua, de lagôa em lagôa para o
braço leste.
No intervallo entre as lagôas, ás vêzes de mais de cem metros, o navegar
é difficil, porque é difficil navegar onde não ha àgua. Foi preciso
muitas vêzes descarregar os barcos e arrastal-os sôbre um fundo de lôdo.
Nas lagôas o caniçal espêsso embaraçava tambem a navegação.
Depois de um trabalho violento e aturado, parámos ás seis horas na
margem de uma lagôa, em planicie recentemente queimada, onde não havia
com que construir o mais pequeno abrigo.
Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podémos assar carne,
que eu comi com appetite voraz, por não ter ainda n'esse dia tomado
alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sôbre a terra hùmida e
deitei-me ao relento.
Os remadores estivéram tôda a noute assando carne e comendo; fazendo
assim desapparecer a maior parte do bôi dado por Lobossi, e mostrando
que a capacidade estomàchica dos sùbditos do rei do Lui é
verdadeiramente incommensuravel.
Depois de uma pèssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e naveguei em
uma lagôa por meia hora, entrando em seguida no braço principal do
Liambai. Apparecia nas margens uma tal quantidade de caça, que fiz parar
a flotilha, e entrar em serviço a Carabina d'El-Rei; que, na sua estrea,
me forneceu logo vìveres que calculei chegariam para dois dias, apesar
da voracidade dos Luinas.
O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era
pequena, e essa mesma não aproveitada pêlos remadores, que receando os
hippopòtamos, que sem cessar vinham resfolgar no pego, iam sempre
encostados ás margens, onde a àgua pouco funda não permitia o accesso
aos enormes pachidermes. Tìnhamos de parar de instante a instante, para
tirarmos àgua das canôas velhas e fendidas.
Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os prêtos
faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade da corrente, que
achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era S.E., mas o rio
dá ali voltas curtas em grande zig-zag; tendo eu em uma d'ellas navegado
por 20 minutos a N.O. Acampei na margem esquêrda, pêlas cinco da tarde,
nas mesmas condições da vèspera, sem abrigo e ao relento.
Muitas vêzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos hippopòtamos de um
lado, appareciam elles no outro, e corrémos perigo grave.
Eu não lhes quiz atirar, para não gastar as munições. Só quem se vê no
centro d'Àfrica com pouca pòlvora sabe o valor de um tiro.
Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizéram ser insolentes
comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo instrucções recebidas do
proprio Lobossi, que prevenira o caso.
O Verissimo, que desde Quillengues resistira á febre, cahio com um
violento accesso, e eu mesmo não estava sem ella.
No dia immediato naveguei apenas por espaço de uma hora, parando junto á
povoação de Nalólo, governada por uma mulhér, irmã de Lobossi. Mandei
pedir-lhe desculpa de a não ir visitar, allegando a minha doença e a
febre do meu intèrprete Verissimo. Ella aceitou a desculpa, e enviou-me
um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui caçar, para
fazer nova provisão de vìveres, e consegui matar dois antìlopes
(Pallahs). As pelles, como as da ante-vèspera, fôram sêcas com cuidado e
guardadas.
Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de feijão
fradinho.
Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu á noute ardia em febre tambem,
tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno hùmido. Acordei
completamente encharcado do orvalho, e muito doente. Segui viagem, e
depois de seis horas uteis de navegação, com o rumo medio de S.S.E.,
acampei, sempre na margem esquêrda.
Apesar de outra noute pèssima, a febre ia cedendo a fortes doses de
quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para alcançar a povoação
de Moangana, cujo chefe me devia fornecer um barco por ordem de Lobossi.
O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso,
que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria
elle mesmo á povoação da Itufa, onde eu devia pernoitar, um barco e
algum presente que me podesse arranjar.
O vento era fortissimo de leste, e encrespava as àguas do rio, que não
tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo para canôas tão pequenas
como as nossas, mas, apesar d'isso, seguímos, e em hora e meia chegámos
a Itufa, grande aldea, na margem esquêrda.
Mais de uma vez estivémos em grande risco de soçobrar, e declaro que é
triste perspectiva a de cahir a um rio coalhado de crocodilos.
O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi
constante que me minava, sentia-me com mais fôrças.
Ja me esperavam na aldea, prevenidos pêlos meus muleques que jornadeáram
por terra, e que, com o caçador Jasse, e com o chefe, haviam chegado
n'essa manhã.
O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma
panella de leite coalhado e uma cêsta de farinha de milho; mas começou
por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que elle não tinha barco.
Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento
fizéram desapparecer o resto do presente do chefe, declarando-me que
tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com o chefe para me
obter alguns vìveres mais; mas elle respondeu-me, que só a trôco de
fazendas m'os dariam, e como eu não as tinha, nada se poderia fazer.
Dei aos muleques as pelles dos antìlopes que tinha môrto, e a trôco
d'ellas sempre arranjáram farinha, ginguba e tabaco.
Á noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de aranhas enormes,
muito chatas e nêgras, que desciam das parêdes em vagaroso caminhar; e
fugi da casa, indo deitar-me no pàteo ao relento. Estava escrito, que
durante a minha viagem no Zambeze, nem uma só noute um tecto abrigaria o
meu sono.
No dia 29, logo de manhã, chegou o velho Moangana com o promettido
barco.
Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me, que
tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu estivesse
satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos.
Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra canôa; o chefe só
fazia repetir-me, que a não tinha, e lastimar que houvessem enganado
Lobossi e a mim.
Os Luinas e Macalacas t[~e]m por hàbito esconder as canôas em lagôas
interiores cobertas de caniçal, que communicam com o rio por pequenos
canalêtes disfarçados pêla vegetação e só d'elles conhecidos. Quando não
querem que as vejam, difficil é encontral-as.
O caçador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das manhas dos
Luinas, tanto buscáram entre os caniçaes das lagôas, que encontráram uma
canôa; fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que ignorava que ella
estivesse ali.
As casas da Itufa sam, como tôdas as dos Luinas, de três formas
differentes, e taes como ja descrevi falando das povoações de Canhete e
da Tapa; mas aquellas que t[~e]m a forma tronco-cònica sam de muito
grandes dimensões. A que me foi offerecida pêlo chefe, a casa das
aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de diàmetro, e no exterior
10.
[Figura 110.--Casa na Itufa.]
N'estas dimensões, não podem como as outras ser construidas só de
caniços, e umas fortes estacas verticaes sustentam o tecto, cuja armação
é de longas varas de madeira.
Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que é original d'ali.
Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma
semi-cilìndrica deitada no sentido do eixo, formando assim dois
compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente construidas,
ao passo que a casa tronco-cònica, verdadeiro typo da casa Luina, é
edificada com cuidado, e muito resguardada.
Pêla primeira vez, depois de ter deixado o Bihé, vi gatos em Àfrica, que
os ha em abundancia na povoação da Itufa. Ha tambem ali muitos cães de
bôa raça, que empregam com vantagem na caça dos antìlopes.
Continuava a difficuldade de obter vìveres, mas a carabina suppria a
falta de fazendas para permutações, e sempre ìamos obtendo alguma
farinha de massambala a trôco de carne e pelles.
As tripulações estavam promptas, e os dois barcos em acção de seguir,
quando uma nova difficultade veio retardar a viagem.
Os remadores declaráram, que não embarcavam, em quanto eu não deposesse
nas sepulturas das mulheres dos antigos chefes da Itufa, alguns massos
de missanga branca.
Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a
innùmeros perigos durante a viagem; porque as almas das mulheres dos
chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem trègua. Eu, que
não tinha missanga, nem branca nem prêta, chamei o chefe e mostrei-lhe a
absoluta impossibilidade de socegar as almas das fidalgas da Itufa. Elle
a muito custo pôde resolver as tripulações a seguir, mas foi só no
primeiro de Outubro que largámos d'ali.
O meu nôvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco de
Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centìmetros de bôca, e 40
centìmetros de pontal.
As duas àrvores empregadas no alto Zambeze para a fabricação das
almadias, sam o _Cuchibi_ e o _M'ucussi_, enormes leguminosas das
florestas, da região das cataractas. A madeira d'estas àrvores gigantes,
é de extrema dureza, e de maior densidade do que a àgua.
A minha piroga era tripulada por quatro homens, um á proa e três a ré.
Eu ia sentado na frente, a um têrço do comprimento do barco, sôbre a
minha mala pequena, que continha os meus trabalhos. O duplicado do meu
diario, observações iniciaes, etc., levava eu amarrados ao côrpo com uma
cinta de lã. As minhas armas iam ao meu lado, e as pelles do meu leito
completavam a carga.
Na outra canôa, Verissimo, Camutombo e Pépéca, as malas da roupa e
instrumentos, e a caça que ia matando. Os remadores remam sempre de pe,
para equilibrarem as canôas, que se voltariam sem isso. O remar em taes
barcos é verdadeiro exercicio acrobàtico.
[Figura 111.--O meu Barco.
Remos.]
Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em que o remador
tem de fazer tôdos os prodigios de equilibrio do patinador sôbre o gêlo,
para sustentar a posição estavel. Foi em taes condições que eu, no dia 1
de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sôbre o rio gigante, cujas
ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaçavam a cada
momento submergir as estreitas almadias.
Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquêrda, em uma
pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de
reunião aos barqueiros. As minhas novas tripulações eram mais comedidas
do que os muleques do rei que me trouxéram a Itufa, mas começavam ja com
pedidos e exigencias.
Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a
uma lagôa pròxima, fui ao barco buscar a espingarda de caça miüda, de
que só tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros.
O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As
duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de 30
milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de dois kilòmetros
ao Zambeze. Á planicie monòtona e nua succede o paiz accidentado e
coberto de luxuosa vegetação. Ás margens de arêa branca e finissima, uma
arêa que, comprimida sôb os passos do homem, solta vagidos como os de
uma criança, produzindo uma impressão inexplicavel, porque, estando
muito sêca, imita um fraco grito humano. A essas margens de arêa tão
extraordinaria, succede, em transição ràpida, o terreno vulcànico; e sam
blocos de basalto que marginam o rio.
Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixáram sôbre
esses penêdos denegridos, vomitados em ondas de fôgo nas èpochas
primitivas do mundo. Desde o Bihé, que não via uma pedra, e com
satisfação olhava para aquellas que via ali.
Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fôgo para cozinhar
os patos, o lume communicou-se á herva alta e sêca que cobria o solo, e
logo, assoprado por um vento forte, voou por sôbre a terra em ondas de
chamas.
O atear do incendio foi tão ràpido, que por um momento estivémos
envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar nas canôas para lhe escapar.
No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de
navegação, comecei a encontrar grandes filões basàlticos, atravessando o
rio no sentido E.O. Alguns v[~e]m tanto á flôr d'àgua, que tornam
difficil a navegação, e ainda que a corrente é inapreciavel, foi preciso
diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos,
n'aquelles paredões naturaes.
O rio começa, na região basàltica, a ser povoado de ilhas cobertas de
vegetação pomposa. Pêla tarde, avistámos um bando de ongiris
(_Strepsiceros kudu_) que pastavam na margem direita.
Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos
antìlopes.
Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de uma hora.
Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (_Numida
meleagris_), que nunca tantos vi em Àfrica. A terrivel môsca zê-zê
tambem é abundantissima ali, incommodou-me muito na floresta com as suas
picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas havia e tanto
me perseguíram, que até depois de estar no barco ainda por muito tempo
estive coberto d'ellas.
Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois de
seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E.
O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por
uma febre lenta e contìnua, que me minava a existencia.
No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosissimas,
cobertas de vegetação luxuriante. Navegámos, havia duas horas, quando
vimos dois leões que na margem direita bebiam àgua do rio. Apesar de eu
ter estabelecido como regra não me entremetter com feras, sem a isso ser
forçado, e apesar ainda do valor que então tinham para mim os cartuxos,
os instinctos do caçador vencêram a razão, e mandei abicar a canôa á
margem, direita aos bichos.
Os leões, percebendo-nos, deixáram o rio, e fôram postar-se em uma
eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para elles.
Deixáram-me approximar a uns cem metros, e depois poséram-se lentamente
a caminho para montante do rio, parando de nôvo depois de curto espaço.
D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas elles caminháram de nôvo
e embrenháram-se em um pequeno massiço de arbustos. Eram dois leões
machos de grandeza desigual, tendo um quasi o dôbro da corpolencia do
outro.
Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a cabêça de um dos
magestosos animaes, por entre os arbustos, a vinte metros de mim.
Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo
tôdos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pêla
febre, e receei que o pulso tremêsse ao dar ao gatilho. Tive uma
sensação singular que até então não havia experimentado, e que
provavelmente era a do susto. Por um esfôrço de vontade o tremor parou,
a carabina tomou firme a direcção que eu lentamente lhe dava, e como ao
atirar a um alvo, quasi fui sorprendido pêlo meu proprio tiro. Passou
ràpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde segundos antes se
mostrava a cabêça da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e
com dois tiros promptos, dei volta ao massiço. Para o lado do Norte
seguiam as pégadas de um leão, mas de um só. O outro estava ainda ali.
Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo
inerte do rei das florestas Africanas. A bala _express_ esmigalhando-lhe
o cràneo, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e n'um momento a
pelle e garras fôram-lhe arrancadas.
Na massa encephàlica foi encontrada a bala que produzio a morte.[5]
Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distincto, um ruido
longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias.
Devia ser uma cataracta, e essa idéa, que logo me occorreu, foi
confirmada pêlos remadores. Pouco depois, os filões basàlticos
multiplicavam-se, formando paredões naturaes, sempre no sentido E.O.;
mas, ao contrario do que tinha acontecido até ali, o rio ja levava uma
corrente ràpida que tornava perigosissimo o navegar.
Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de nôvo a
parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na viagem depois de nova
interrupção de uma hora.
[Figura 112.--Acampamento na Sioma.]
Pêla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma, estabelecendo o meu
campo sôb uma gigante Figueira-Sycòmoro, perto do rio.
A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E.
N'essa noute o meu sono foi acalentado pêlo ruido da cataracta de Gonha,
que, a jusante dos ràpidos da Situmba, interrompe a navegação do
Zambeze.
No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de
ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para
as cataractas. O braço do Liambai cuja margem esquerda eu descia,
correndo a principio a S.E., vai vergando para O., até que chega a
correr perfeitamente E.O.; e n'essa posição recebe dois outros braços do
rio, que formam três ilhas cobertas de vegetação esplèndida. No sitio
onde o rio começa a curvar para O., ha um desnivelamento de três metros
em 120, formando os ràpidos da Situmba. Depois da juncção dos três
braços do Zambeze, toma elle uma largura de seiscentos metros apenas, e
logo ali deita um pequeno braço a S.O., pouco fundo e obstruido. O resto
das àguas encontram um corte transversal de basalto, com um
desnivelamento ràpido de 13 metros, e n'elle se precipitam com fragôr
immenso.
O corte é N.N.O., e forma três grandes quedas, duas aos lados, e uma no
meio. Por entre as rochas que separam as três grandes massas de àgua,
cahem um sem-nùmero de cascatas de maravilhoso effeito. Ao Norte, um
terceiro braço do rio continúa a correr no mesmo nivel superior da
cataracta, e despenha-se no ramo principal em cinco cascatas
lindissimas, a ùltima das quaes fica quatrocentos metros a jusante da
grande queda. Ahi o rio encurva de nôvo a S.S.E., estreia a 45 metros, e
conserva uma corrente de 150 metros por minuto.
Os diversos pontos-de-vista que se gozam da borda sôbre tôdo o espaço
das quedas, sam sorprendentes, e nunca vi em paiz algum dos que tenho
visitado, paizagem mais bella.
Gonha não tem a imponencia das grandes cataractas. Ali a paizagem é
suave, variada e atrahente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e
com a àgua, estam harmonizadas, como por mão de artista habil em tela
primorosa.
[Figura 113.--Cataracta de Gonha.]
Mêsmo o despenhar da àgua no abismo, não causa ruido pavoroso, e é de
certo amortecido pêla vegetação enorme que a rodea.
[Mappa: Alto Zambeze -- Cataractas de Gonha]
Ali não se elevam vapôres, que convertidos em chuva alaguem as
visinhanças; ali o accesso é livre a tôda a parte, parecendo que a
natureza se comprazeu a tornar facil a visita á sua bella obra. Gonha é
como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a
admirem.
Depois de levantar a planta da grandiosa cataracta, demorei-me ali até á
noute, não cançando os olhos de ver tão esplèndido quadro, em que a cada
momento descobria uma nova belleza.
Voltei ao meu campo, saudoso pêla lembrança de que não veria mais em
minha vida, o espectàculo sublime que deixava para sempre.
No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para
jusante da cataracta, e era elle por floresta espêssa, e não inferior em
extensão a cinco kilòmetros, porque em tôda essa extensão o Zambeze,
apertado em margens de rocha apenas distanciadas de 40 a 50 metros,
conserva uma velocidade de 150 metros por minuto, e é tal o referver das
àguas, que impossivel é navegar nelle.
Este espaço estreito a jusante da cataracta de Gonha, chama-se o
Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome.
O ponto onde recomeça a ser navegavel chama-se o Mamungo.
A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das povoações da
Sioma, povoações de Calacas ou escravos, governados por un chefe Luina,
mandados, estabelecer ali pêlo governo do Lui expressamente para o
serviço de carregarem os barcos por terra; serviço a que sam obrigados
sem terem direito a retribuição alguma.
Foi fatigante aquelle trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado
de não ter nada que desse áquelles desgraçados, que tão humildemente se
prestam a trabalho tão rude.
O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas continúa apertado em
cinta de rocha, onde estam marcadas as cheias por traços horizontaes
provenientes dos depòsitos das àguas lodosas. Por esses traços vi que as
àguas se elevam ali a 10 metros, nas màximas cheias, acima do nivel de
então, que deveria ser o mìnimo proximamente.
Logo que sôbre as rochas basàlticas começa a haver terra vegetal,
principia uma vegetação frondosa. O aspecto do Zambeze n'aquelle ponto
assemêlha o do Douro no seu têrço medio, com a differença apenas, de que
n'aquelle o granito é substituido por basalto.
Depois de ter navegado por espaço de hora e meia, encontrei a foz do rio
Lumbé, onde parei. Este rio vem do N., e tem, pròximo da embocadura, 20
metros de largo, por um e meio de fundo. Cem metros antes de entrar no
Liambai, é-lhe superior de trinta metros, e por isso despenha-se em
cascatas, que seriam talvez lindissimas se ali perto não ficasse Gonha.
Segui, depois de ter visitado a foz do Lumbé, mas n'esse dia apenas
naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris, acampei, e
fui caçar. Consegui matar dois antìlopes, que nos demorámos a preparar;
decidindo não navegar mais n'aquelle dia.
No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a
cataracta Cale.
[Figura 114.--Passagem dos barcos em Gonha.]
Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros. Três
ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste, é o que contém
maior volume d'àguas, mas é tambem aquelle em que o desnivelamento é
mais ràpido.
Nos outros braços o desnivelamento, que é de três metros, produz-se em
cem de extensão, enquanto n'este não se estende a mais de quarenta.
Tôdos os canaes sam obstruidos com rochêdos desencontrados, onde as
àguas resaltam com fragor immenso.
Descarregámos os barcos, que fôram arrastados por um canalête junto á
margem direita, e logo a jusante da queda reembarcámos e seguímos
viagem. Meia hora depois, passàvamos uns ràpidos, onde só pequenos
canaes sam praticaveis, e por onde os remadores governáram as pirogas
com prodigiosa destreza.
[Figura 115.--Cataracta de Cale.]
Pouco depois, outros ràpidos fôram passados com igual felicidade; sendo
o resto da navegação d'esse dia por entre pontas de rochas açoutadas por
violenta corrente d'àgua, sem que outros desnivelamentos ràpidos
apparecêssem.
Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e
a falta de alimentação vegetal era sensivel. O dormir sempre ao relento,
e o nenhum resguardo que era forçado a ter, tendo de sustentar a minha
gente pela carabina, faziam peiorar o meu padecer constante. N'essa
noute, rebentou sôbre nós uma violenta trovoada, e com ella cahíram as
primeiras gôtas d'àgua d'aquella nova èpocha das chuvas.
O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de côrpo,
mas não mais fraco de espìrito. Segui viagem, e meia hora depois,
encontrava os grandes ràpidos de Bombue.
O rio forma um grande ràpido central, onde o desnivelamento é de 2
metros. Do lado de Este três canalêtes obstruidos por innùmeras rochas,
e de Oeste um canal mais largo, onde o desnivelamento é mais ràpido.
A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de vegetação
divide o rio em dois braços iguaes. Bombue tem mais dois
desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros a jusante do primeiro,
e o terceiro duzentos metros a jusante d'este. Tôdos estes ràpidos sam
cheios de pontas de rochas desencontradas, tornando impossivel a
navegação.
Os barcos descarregados fôram lascados junto a terra, operação fadigosa,
que levou muito tempo.
[Figura 116.--Rapidos de Bombue.]
Pozémos os barcos a caminho, encontrando um ràpido que sem querer
passámos embarcados com inaudita felicidade; e depois de 4 horas de
viagem, parámos junto á confluencia do rio Jôco. Viajei n'esse dia por
entre ilhas de uma belleza admiravel, que apresentavam os panoramas mais
pintorescos á minha vista, fatigada da monotonia do planalto Africano.
N'essa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobresalto por os
nêgros, que tinham visto perto alguns elephantes. Apesar do meu mao
estado de saude, tomei a carabina e segui-os.
Na margem do Jôco avistei eu os enormes pachidermes, que se enlodavam
n'um paúl.
Tomei-lhe o vento e approximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animaes.
A floresta espêssa que descia até junto ao paúl, permittio-me
approximar-me sem ser visto.
Por um momento contemplei aquelles gigantes da fauna Africana, e não
posso occultar que tinha remorsos prematuros de lhes fazer mal. A
necessidade venceu o escrúpulo, e atirei ao mais pròximo, dirigindo-lhe
a bala ao frontal. O colosso oscillou um momento, sem mover as patas, e
dobrando os joêlhos, foi cahindo de vagar sôbre elles--posição que
conservou um momento, tombando depois para o lado, e fazendo tremer a
terra com o baque enorme.
Os outros seis atravessáram o rio Jôco em apressado trotar, e
desapparecêram na floresta.
Acerquei-me do inoffensivo quadrùpede, e ao contemplar a minha obra de
destruição, não pude deixar de olhar para mim, depois de olhar para
elle, e de me achar bem pequeno. O meu estado era tão melindroso, que ja
não pude voltar por meu pé, e tive de ser amparado pêlos nêgros para
chegar ao acampamento.
No dia immediato estava peior, e sobreveio-me uma grande inflammação do
fìgado. Deitei causticos, que pulverizei de quinino depois de cortados.
A doença não me permittia partir n'aquelle dia, e resolvi ficar ali até
experimentar melhoras. N'esse dia aconteceu ao meu Augusto a mais
extraordinaria aventura de que tenho tido conhecimento. Atirou a um
bùfalo que ferio, e que correu ràpido sobre elle. Augusto tirou o
machado, e no momento em que a fera baixava a cabêça para lhe marrar,
atirou-lhe um golpe á fronte, com a sua força hercùlea.
Homem e bùfalo roláram por terra. A gente que estava perto do meu
valente nêgro, julgára este morto, quando víra o feróz ruminante
levantar-se e fugir. Augusto levantou-se, e àlém do abalo do choque, não
tinha soffrido nada.
Os nêgros acercáram-se d'elle, quando o meu muleque se abaixou, e depois
de apanhar o machado, apanhou, tão admirado como os que o viam, um côrno
do animal, cortado cerce pêlo golpe vigoroso.
Nas matas da região das cataractas, ha o Cuchibi, o Mapole, o Opumbulume
e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no planalto, e àlém
d'esses, dois frutos privativos d'ali, a Mocha-mocha, e o Muchenche.
Este ùltimo é muito sacharino, e d'elle fiz eu um refresco muito
agradavel.
Os causticos pulverizados de quinino, e três grammas d'elle que
introduzi no organismo, em três injecções hypodèrmicas a curtos
intervallos, acalmáram o meu estado febril, e no dia 10 levantei-me com
sensiveis melhoras. A primeira noticia que me déram foi que o meu
Augusto desapparecera desde a vèspera, e não tinha sido encontrado por
alguns homens que o fôram procurar ao mato.
Esta noticia deu-me grande cuidado, porque o Augusto é de um atrevimento
louco, e fêz-me recear uma desgraça. Mandei gente em tôdas as direcções
a buscal-o, e eu mesmo fui com alguns homens, apesar do meu estado, e do
muito que me faziam soffrer os causticos. Fôram infructuosas as nossas
pesquizas, e da excursão apenas trouxémos dois seb-seb (_Rubalis
lunatus_) que eu matei, e muitas varas de madeira, que os Luinas
colhêram proprias para astes de azagaias, e que sam do mesmo pao de que
fazem os remos. Chamam-lhe Minana.
De volta ao campo, secámos ao fôgo muita carne dos antìlopes.
Esta região, a que chamam o paiz de Mutema, é abundantissima de caça da
floresta, e desde o elephante até á codorniz, ha milhares de animaes de
tôdas as familias, gèneros e especies do planalto Africano. No Zambeze,
ao contrario, escaceia a caça d'àgua, abundantissima na região das
planicies.
Pêla tarde appareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha perdido na
floresta, e que encontrara uma povoação de Calacas, onde lhe tinham
furtado tudo o que elle trazia, excepto a espingarda.
Os Luinas, ouvindo isto, declaráram que iam desforçar o Augusto, e por
mais esforços que empreguei não consegui contel-os.
Alta noute voltáram os marinheiros, carregados com os despojos do saque,
e entre elles vinha o casaco do meu muleque.
É costume d'elles, logo que encontram povoações de Calacas na região das
cataractas, saqueal-as e destruil-as. N'essa noute o meu estado de saude
aggravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei
ordem de partir no dia immediato.
Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Jôco, encontrei os grandes
ràpidos de Lusso.
Desembarquei e segui por terra, fazendo três kilòmetros em três horas.
O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos,
formando ilhas cobertas de vegetação esplèndida.
Depois do bello panorama de Gonha, nada vi mais bello do que os ràpidos
de Lusso.
Embarquei de nôvo por baixo dos ràpidos, e tendo navegado por duas
horas, parei a montante da cataracta de Nambue.
As ilhas, com a sua vegetação pomposa, continuavam a apresentar os mais
atrahentes aspectos.
Decidi passar a cataracta n'esse dia, e houve grande trabalho, com a
pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou
quatro horas aquelle fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da
queda.
A cataracta de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro é de meio
metro, o segundo, 150 metros a jusante, é de dois metros, e
perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo, é de um metro, e o
ùltimo, tambem de 1 metro, fica a 100 metros d'este.
Occupam por isso as quedas uma extensão de 310 metros. O Zambeze corre
ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a tomar o seu curso
regular a S.S.E.
Durante a noute estive á morte. A febre intensa devorava-me, e nunca
pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre festivo para
mim, por ser o anniversario de minha mulhér. As repetidas injecções
hypodèrmicas de sulphato de quinino em alta dose, conseguíram dominar a
febre. Eu chamei o Verissimo e Augusto, e entreguei-lhes os meus
trabalhos, recommendando-lhes, que, se eu morrêsse, proseguissem na
viagem até encontrar o missionario, e lh'os entregassem.
Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se elles salvassem
aquelles papéis, e os entregassem em mão segura, que os fizesse chegar a
Portugal.
Ás 6 horas da manhã do dia 12, senti um grande allivio e decidi seguir
viagem.
Parti ás 6 e meia, e ás 7 e 15 minutos, passei uns pequenos ràpidos, e
logo abaixo outros, mais desnivelados, extensos e perigosos. Entestámos
ao ùnico canal praticavel, e logo que o barco se achou envolvido na
corrente, um hippopòtamo veio resfolgar a jusante. Estàvamos entre
Scylla e Charybdis, ou a fera ou o abismo. Tornámos a entestar com a
corrente e subindo o rio, por uma habil manobra, pozémo-nos a coberto do
perigo junto a um rochêdo quasi em sêco.
[Figura 117.--Nos ràpidos.]
O barco da carga, receando o cavallo-marinho, desviou-se do canal, e foi
impellido com velocidade enorme de encontro ás rochas de um canalête
obstruido. Nunca pensámos que se salvasse, mas elle derivou por entre as
fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe de àgua que
quasi o encheu.
Ás 7.50, outros ràpidos, e ás 8, uns muito desnivelados e extensos.
Quizémos sahir em terra, porque sentiamos a jusante um ruido enorme,
semelhante ao rebombar dos trovões pêlos alcantiz das serras, que nos
fez recear grandes ràpidos, ou uma cataracta impossivel de transpor. Foi
baldado esfôrço. A margem mais pròxima, a esquêrda, ficava-nos a 600
metros, e a corrente ràpida, quebrando-se entre os cabêços basàlticos, e
resaltando em ondas de espuma, tornava impossivel o abeirar á margem.
Sam momentos indescriptiveis estes.
Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido,
presentindo o perigo imminente a cada desnivelamento do rio que se lhe
mostra, arrastado de voragem em voragem pêlos turbilhões da àgua
revôlta, o homem experimenta a cada momento sensações novas, e cem vêzes
soffre a agonia da morte, para sentir outras tantas o prazer da vida.
Das 8 horas e 5 minutos ás 8 e 40, passámos seis ràpidos de pequeno
desnivelamento; mas a essa hora, uma queda desnivelada de um metro se
nos apresentou na frente. Semelhante ao homem que, em corrida, estaca
por um movimento instinctivo, ao ver o abismo aberto sôb o seu caminho,
o meu barco, como se fôsse animado, parou, por um impulso dos remos;
machinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de hesitação
produzio o desgovêrno, e a comprida piroga atravessou na corrente, e
saltou ao abismo, na corôa de espuma de uma onda enorme. Foi um segundo,
mas foi o peior momento da minha vida. Era a Providencia que nos
salvava. Se o barco tivesse atestado de prôa com a voragem, seria
submergido, e estariamos perdidos. O desgoverno d'elle foi-nos a
salvação. Logo abaixo d'estes, outros ràpidos menores; e então fizémos
fôrça de remos para uns rochêdos, que a meio rio estavam collocados em
ponto onde a corrente era mais fraca. Abeirámos a elles, e estivémos a
tirar àgua e a arrumar as cargas, desarranjadas pêlo abalo dos ràpidos.
Segui ás 8 e 55 minutos, e logo, ás 9 e 15, encontrámos novas
cachoeiras. Ás 9 e 25, os grandes ràpidos da Manhicanga. Ás 9 e 30,
outros; e d'ahi aos grandes ràpidos da Lucanda, que passámos ás 11 e 8
minutos, saltámos em sete cachoeiras mais. Depois de passarmos um
pequeno ràpido, encontrámos a cataracta de Catima-moriro (_apaga o
fôgo_) ao meio-dia.
É Catima-moriro o ùltimo desnivelamento da região superior das
cataractas do alto Zambeze. D'ali até á nova região de ràpidos, que
precede a grande cataracta de Mozi-oa-tunia, o rio é perfeitamente
navegavel.
O espìrito tambem se fatiga como o côrpo, e foi verdadeiramente fatigado
de espìrito, que eu cheguei ao têrmo d'essa perigosa jornada do dia 12,
jornada que não posso relembrar sem terror. As commoções d'aquelle dia
tinham sárado o côrpo, e achava-me sem febre, mas muito fraco. Appareceu
muita caça, mas a minha fraqueza e as dôres que me produziam os
causticos ainda abertos, não me permittíram caçar.
O curso do rio foi sempre a S.S.E.
D'ahi em diante, o rio torna a ter o mesmo aspecto do Barôze, planicies
enormes, fundo de areia, e nem mais um rochêdo. As margens sam formadas
por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento leste era de nôvo
fortissimo, e encrespava a superficie das àguas, levantando ondas
bastante grandes. Apesar d'isso, segui a 13, e fui acampar junto da
povoação de Catongo. De nôvo tinha peorado, e era prostrado pêla febre
que me mettia no barco para seguir.
Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do
Jôco, e que chegou n'essa noute.
Sube, que na vèspera tinham corrido um eminente perigo, sendo atacados
por um bando de leões. Subindo para cima de àrvores podéram escapar-lhe,
mas estivéram muito tempo cercados por elles. A minha cabrinha Córa foi
içada por um pano que lhe atáram aos cornos, e estêve amarrada a um
tronco junto de Augusto. O Augusto matou um dos leões, atirando-lhe de
cima da àrvore, e trocou em Catongo a pelle d'elle por uma grande porção
de tabaco.
No dia 14, naveguei a leste, direcção que toma o Zambeze, e fui acampar,
pêla tarde, ja perto da povoação do Quisseque.
O rio continúa a dividir-se, formando grandes ilhas, mas não como as da
região das cataractas. Sam canaviaes monòtonos, que cançam a vista.
Tivémos n'esse dia pescadores, que nos fornêceram abundante peixe. Fôram
os Uanhis, como lhes chamam os Luinas, e que não sam mais do que
_pygargos_ gigantêscos que povoam as margens do rio. Fôram perseguidos
alguns, que abandonáram o peixe que levavam.
Uma d'essas Àguias aquàticas, tinha nas garras poderosas um peixe mais
corpulento do que uma pescada, e levou-o fugindo dos meus remadores, sem
que mostrasse esfôrço ao voar.
Todavía, a maior parte abandonavam a prêsa, para fugir mais ràpidamente.
Estes pygargos do Zambeze, que não vi acima da região das cataractas,
t[~e]m a cabêça, o peito e a cauda completamente brancos, e as azas e
costas de um nêgro de èbano.
Sam exactamente como a especie Americana descripta com o nome de
_pygargo de cabeça branca_, mas menos corpulenta do que a ave que serve
de emblema ao pavilhão dos Estados-Unidos.
No dia 15 de Outubro, cheguei de manhã ao Quisseque, tendo navegado por
uma hora a leste.
Não quiz ir para a povoação, ja desconfiado do gentio, e fui acampar no
meio do caniçal de uma ilha fronteira. Mandei prevenir o chefe de que
estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de nôvo reapparecera
intensa.
Pouco depois da minha chegada, appareceu na ilha um homem trajando á
Européa, que, pêla côr de café com leite da pelle, eu reconheci ser um
filho das margens do Orange.
Disse-me, por intermedio do Verissimo, usando da lìngua Sesuto, que era
criado do missionario, e estava ali esperando a resposta do rei Lobossi
a respeito de seu amo. Por elle sube, que o missionario era Francez, o
que sôbre modo me fez admirar. Este homem, que se chamava Eliazar,
vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi em nêgro.
Dizendo-lhe eu, que vinha de propòsito procurar seu amo, elle
manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionario era
o melhor homem do mundo.
Eu não sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que o meu homem
era Francez, mas é facto que o tive.
Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome é
Carimuque, mas que tambem é conhecido pêlo de Moranziani, nome de guerra
dos chefes do Quisseque.
Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia immediato, porque estava
muito doente, e precisava encontrar o missionario, para elle me dar
remedios.
Preveni-o de que não tinha vìveres, nem com que os comprar, e elle
prometteu-me mandar n'esse dia mesmo comida para mim e para os meus.
N'essa tarde os meus remadores começáram a gritar que não deixariam o
Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os e fiz-lhe ver, que não tinha
nada que lhes dar. Que o marfim só poderia ser convertido em fazendas
logo que eu chegasse ao missionario que as deveria ter, e por isso para
serem pagos era preciso seguir ávante.
Elles parecêram convencer-se com o meu argumento. Passei uma noute
horrivel no caniçal da ilha. Eram cobras que perseguiam ratos, e ratos a
fugir de cobras, os companheiros que tive em tôrno de mim. A febre
augmentou. Carimuque veio ver-me na manhã de 16, e trouxe-me um presente
de massamballa e uma pequena porção de farinha de mandioca.
Declarou-me elle, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem
pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionario para elle me
mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados.
Recusei terminantemente fazel-o, e declarei-lhe, que lhes não pagava se
elles não seguissem no dia immediato. Depois de grandes debates, em que
fiz prova de enorme paciencia, e em que Eliazar pleiteava por mim,
repetindo cem vêzes, que seu amo, logo que me visse, pagaria tudo o que
elles quizessem, ficou resolvido que no dia 17 nos porìamos de nôvo em
viagem.
N'esse dia chegáram ali os enviados que Carimuque mandara ao Lui com a
mensagem do missionario.
Como se sabe, e eu ja narrei no comêço d'este capìtulo, Matagja
opposera-se formalmente ao ingresso do missionario no paiz do Lui. A
resposta do rei Lobossi, dada por Gambela, vinha cheia de hypocrisia, e
não era uma negativa formal.
Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que elle fôsse para ali; mas
que, n'aquelle momento, as guerras e a falta de commodidade que poderiam
offerecer-lhe em Lialui, cidade novamente construida, fazia com que
elles lhe pedissem, que se fôsse embora, e voltasse no anno seguinte.
Para Carimuque vinha uma ordem positiva para não lhe dar meios de elle
seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com a mensagem do
rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me sempre de seu
amo a quem tecia verdadeiros panegyricos.
Nesse dia, ás 4 horas da tarde, desencadeou sôbre nós uma horrivel
trovoada, que despejou copiosa chuva até ás 6 horas. Carimuque veio
ver-me de nôvo, e trouxe-me duas gallinhas.
Parti ás 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas horas e meia,
encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E.
O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas de
certo influe n'esta altura a àgua do Zambeze que o represa.
Corre em uma planicie enorme, onde pastam milhares de bùfalos, zêbras e
grande variedade de antìlopes. Vi ali muitos coroanes, e presenciei um
effeito de miragem sorprendente, apresentando-me tôda aquella manada
heterogènea, de patas para o ar.
Nunca vi tanta caça junta como ali, é ella muito esquiva, e não deixa
approximar a menos de duzentos metros.
Pude matar uma zêbra, que nos forneceu òptima carne, muito melhor do que
a de qualquér antìlope. Depois de duas horas de demora ali, segui
viagem, e naveguei por duas horas e meia mais, parando, ás 5 da tarde,
por vermos na margem uma àrvore velha trazida pêla corrente, onde fomos
fazer provisão de lenha para a noute. Foi um verdadeiro beneficio
aquella àrvore, sem a qual não teriamos lenha para cozinhar em campinas
despidas de arvorêdo.
Quando ìamos a seguir, appareceu um prêto, gritando que os outros barcos
tinham amarrado muito acima e acampado ali a gente. Tivémos que voltar a
traz, por não termos provisões no meu barco, e ir a carne na barco da
carga.
Só ás 6 e 30 minutos, ja noute, juntei a minha gente, e acampei com
elles.
N'essa occasião ja iam tôdos embarcados, porque Carimuque tinha pôsto
dois barcos grandes á minha disposição, e n'elles eu havia accommodado
Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha.
Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo.
Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma porção de farinha de
mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim tão doente e tão
debilitado.
N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho
que a continha completamente vazio.
Entrando em averiguações do caso, sube que fôra o meu muleque Catraio
que a furtara e comêra.
N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio
das trevas.
Foi o combate cruento entre um bùfalo e um leão, que terminou pêla morte
d'aquelle em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava
prolongados rugidos, acompanhados por um côro de hyenas. De manhã, a 100
metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do bùfalo, cuja
cabêça estava intacta, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de
carne deixados pêlas hyenas.
Segui viagem, e depois de cinco horas de navegação, entre ilhas
divididas por canalêtes, formando um systema complicado, aportei sôbre
um ràpido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadea de cachoeiras
que vai terminar pêla grande cataracta de Mozi-oa-tunia.
Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras
àrvores, sôbressahem já os baobabs, esses gigantes da flora Africana,
que eu não via desde Quillengues.
Desembarquei, e fui deitar-me á sombra de um d'esses colossos vegetaes.
Tinha terminado a minha navegação no alto Zambeze, e d'ali até encontrar
o missionario o meu caminhar era de nôvo a pé.
A povoação de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e
para lá partíram os marinheiros com as cargas.
Eu adormeci, e só acordei por noute escura. Só o Verissimo, Camutombo e
Pépéca estavam junto de mim. Perguntei-lhes ¿porque estàvamos ainda ali?
respondendo-me o Verissimo, que não tinha querido interromper o meu
sono. Apesar do escuro da noute, ia pôr-me a caminho, quando reparei que
não tìnhamos uma só arma. O Verissimo, que de vez em quando fazia
asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. Não fiquei
socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras.
Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas ás escuras
elles nenhuma encontravam que servisse.
Pépéca lembrou-se então de ter visto perto de nós um barco velho, que
effectivamente encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao
corte da minha faca de mato.
Lembrei-me de o jogar como arìete contra o tronco do baobab, e logo nós
três dando-lhe o movimento de vai-vem, o lançámos com a màxima fôrça. A
canôa fez-se em rachas na parte que soffreu o choque. Esta operação,
repetida algumas vêzes, forneceu lenha e com ella uma bôa fogueira.
Estàvamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentímos gente, e logo
appareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me.
Parti com elles, e cheguei a Embarira pêla meia noute. O chefe da
povoação tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e
fadiga.
Estava em Embarira, na margem esquêrda do rio Cuando, cujas nascentes
havia descoberto e determinado três mezes antes.
Estava pròximo a alcançar o missionario, de quem esperava auxilio para
poder continuar a minha viagem, e estava em vèspera de novas aventuras,
que não calculava ainda.
O estado da minha saude muito melindroso, a dùvida no futuro, as
apprehensões do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa
onde me recolhi, fizéram-me passar uma noute atribulada.
Depois, uma outra idéa, não me sahia da mente. Ao chegar ali, sube, que
um branco (Macua), que não era nem missionario nem commerciante, estava
acampado de fronte de mim, na outra margem do Cuando.
¿Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens?
Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia
seguinte.
CAPÌTULO SUPPLEMENTAR.
A pàginas 184, em capìtulo anàlogo a este, tratei por modo succinto, dos
paizes comprehendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bihé.
N'este capìtulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de
mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do Bihé ao
curso superior do rio Zambeze, até onde termina a narrativa da minha
viagem na pàgina antecedente.
Apresentando um resumo das minhas determinações astronòmicas, dos meus
estudos meteorològicos, etc., sem pedantismo o faço, e creio apenas,
n'isso cumprir um dever, tornando pùblicos um certo nùmero de estudos e
trabalhos de que fui encarregado, e que, se não interessam a alguns
leitores, podem merecer attenção de outros.
Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria affectação.
Àlém da carta geral d'Àfrica tropical do sul, quiz eu apresentar algumas
cartas parciaes dos paizes que mais merecéram a minha attenção no
caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes
que a pequena escala d'aquella não comportaria.
Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de vista
geogràphico, com tanto mais interesse, quanto elle é desconhecido aos
geògraphos; que nas suas cartas o t[~e]m preenchido até hoje com linhas
mal seguras, traçadas pela mão trèmula da dùvida, colhida nas
informações pouco idòneas e contradictorias de gente ignara.
Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana,
antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui;
mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que
agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas notas dam um
valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo muito que a
sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos nêgros, dam
ellas um fraco auxilio ás sciencias geogràphicas, em que elle, por falta
de elementos, não pôde fazer um trabalho sério.
Sam paizes completamente novos á geographia aquelles que apresentei nos
antecedentes capìtulos, e de que vou tratar n'este.
As coordenadas geogràphicas dos principaes pontos do meu itinerario
fôram calculadas dos elementos que adiante publíco.
Começarei por descrever o systema fluvial d'esta parte da planura
Africana.
As ùltimas àguas que correm á costa de Oeste nascem em tôrno do Bihé,
dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cúito, que,
depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E. no Deserto do Calaari.
O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene,
termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste,
que vam buscar as suas àguas ao meridiano 18 E. Greenw.; taes sam: o rio
Onda, que ainda nasce dentro do àngulo formado pelo Cubango e Cúito, e o
Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as suas nascentes com as do Cúito e as
de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo Zambeze vai lançar no mar Indico
àguas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que
percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas, para
atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas
nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas àguas para
pontos da terra tão distantes, é pròximamente de 12° e 30', isto é, está
n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13, onde nascem os
dois rios gigantes da Àfrica Austral, o Zaire e o Zambeze, e seus
principaes affluentes.
Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois
systemas d'àguas perfeitamente definidos, mas que t[~e]m um traço commum
de união no parallelo 12 e na faxa que borda esse parallelo 60 milhas ao
Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas origens muitos dos grandes
affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um d'elles um
systema d'àguas que vai engrossar as duas artérias principaes.
Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os
parallelos 8 e 15 austraes, tôda a àgua que corre ao Norte vai entrar no
Atlàntico por 6°, 8', com o nome de Zaire; tôda a que corre ao sul entra
no Oceano Indico por 18°, 50', com o nome de Zambeze.
Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das
àguas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se
entregavam ao estudo de um d'esses systemas d'àguas filial do Zaire, eu
seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e á medida que avançava no
interior do continente, esse systema ia-se apresentando firmemente
definido e claro.
Os paizes de que falei nos anteriores capìtulos, os mesmos de que estou
tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma um dos
principaes, se não o principal, affluentes do Zambeze.
O rio Cuando, artèria principal d'este systema, nasce, por 18°, 57' de
longitude, 12°, 59' latitude, n'um pequeno charco apaülado, superior ao
nivel do mar em 1362 metros.
A sua foz, na confluencia com o Zambeze, está collocada em 17°, 49' de
latitude, 25°, 23' de longitude, na altura de 940 metros do nivel do
mar. A extensão do seu curso é de 540 milhas geogràphicas, ou
pròximamente mil kilòmetros. O seu desnivelamento da nascente á foz é de
422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso.
Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam
uma extensão de vias fluviaes não inferior a mil milhas geogràphicas, ou
pròximamente mil e oitocentos kilòmetros, que com o curso d'aquelle rio
perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de tres mil kilòmetros.
Estes algarismos enormes representam a importancia d'aquella parte do
planalto Africano.
Forçando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude seguir a linha
das nascentes do grande rio e seus principaes affluentes, que ficáram
perfeitamente determinados nos seus cursos superiores.
Aos traçados hypothèticos, a que a maior parte dos geògraphos preferiam
deixar na carta d'aquella parte d'Africa um branco enorme, pude
substituir um traçado firme e seguro do paiz ignoto.
O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, sam todos rios
navegaveis, banhando fèrteis paizes e promettendo um futuro áquella
parte do continente nêgro, livre do zê-zê, a môsca terrivel, que corta
cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos.
Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal systema
d'aguas das terras comprehendidas entre o Bihé e o Zambeze, vou
succintamente falar da sua orographia.
Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituição geològica do
solo, que facilmente explica os pequenos accidentes d'elle.
O solo Africano Austral é rocha das èpochas primitivas. Se junto ás
costas, nos terrenos baixos observamos os depòsitos sedimentares, e o
trabalho da àgua, elles acabam ali, para não deixar perceber mais do que
a acção do fôgo.
Os calcàreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os
primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o terreno
plutònico, e encontramos até ao Bihé o granito primitivo, profusamente
distribuido. Do Bihé para leste o granito vai desapparecendo, e àlém
Cuanza é substituido pelos xistos argilosos, e micaxistos.
É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da acção do metamorphismo.
Effectivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo é metamòrphico.
Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plàsticos, pela acção das
grandes àguas, que do Bihé ao Zambeze, se algum viajante tencionar um
dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe, que leve pedras do
Bihé e d'onde termina a região granìtica, porque em todo o caminho que
segui não encontra uma só.
A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a
falta de cataractas e ràpidos nos rios d'esta região Africana. Em tôdo o
caminho que segui ha uma depressão constante no terreno até ao leito do
Zambeze, formando uma inclinação suave. Esta depressão é de 292 metros,
em 720 kilòmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza á planicie do
Nhengo.
A orographia d'aquella região é produzida pela acção da àgua, e
perfeitamente marcada pelas depressões dos leitos dos rios.
30 a 40 metros acima do nivel das àguas correntes, se elevam systemas de
montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem
excepção o curso das àguas.
A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura attinge a sua
maior elevação, mais pobre em àrvores, mas riquissima em arbustos e
plantas herbàceas; na parte leste do paiz do Bihé, e sobre tudo
àlém-Cuanza, já recupera, com a menor elevação do solo, tôda a sua
riqueza tropical.
A caça, que escaceia desde o paiz do Huambo até pròximo da nascente do
Cuando, reapparece abundante d'ali até ao Alto Zambeze. Seis raças
perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo
do nome genèrico de Ganguelas, assentam as suas povoações do Cuanza ao
Nhengo.
O paiz a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios, Cuime, Onda
e Varea, e seus pequenos affluentes, é habitado pelos Quimbandes.
Do Cuito á nascente do Cuando, assentam as suas povoações os Luchazes.
Os affluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, sam povoados de gentes de
raça Ambuela.
Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes está sendo invadido
por uma emigração enorme de Quiôcos ou Quibôcos, que tendem a
estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e
muito para o sul, o paiz, sem povoações fixas, é com tudo occupado por
uma grande população nòmada, os Mucassequeres.
A margem sul do rio Lungo-é-ungo e seus pequenos affluentes, sam
habitados por os Lobares. Tres d'estas raças, os Quimbandes, Luchazes e
Ambuelas, falam a mesma lìngua, o Ganguela, com pequenas modificações.
Os Quiôcos e Lobares falam dialectos differentes, e os Mucassequeres uma
lìngua original, tão diversa das outras, que é impossivel serem
comprehendidos de povos estranhos.
Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e
pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as condições
de dar a riqueza aos seus possuidores.
Formando federação, não deixam de andar em questões continuadas com os
vizinhos da mesma raça.
Não sam bravos, mas sam ladrões, e atacam sempre as comitivas do Bihé
que vam negociar cêra mais ao interior, logo que essas comitivas sam
fracas e elles conhecem que podem vencer.
É certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem elles embuscados
a contar as espingardas que traz, e o nùmero de caixas de pòlvora, que
se distinguem pelo seu invòlucro de pelle de leopardo, costume adoptado
pelos sertanejos Bihenos.
Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou
oito caixas de cartuxos, pode dormir descançado, que só terá d'elles
amizade e respeito.
Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, não
possuem já rebanhos bovinos, e apenas ha aqui e àlém algum gado caprino
de inferior especie.
Já cuidam de colher cêra, e sam um pouco mais industriosos do que os
seus vizinhos de oeste.
Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo. Constituidos em
federação como aquelles, cada povoação tem um chefe independente, um
pequeno senhor, que não se dá ares de tyranno com o seu pôvo.
Os Ambuelas, de muito melhor ìndole, não sam nada guerreiros. Sam talvez
a melhor gente indìgena d'Àfrica Austral.
Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da cêra. Sam
pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados.
Formam federação como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais
de independencia.
Em geral, vi n'Àfrica, que mais felizes e livres sam os povos governados
por pequenos senhores. Não se praticam ali as scenas de horror tão
vulgares nos grandes imperios regidos por autòcratas.
Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o assassinio, ao passo que entre
os grandes potentados o roubo vem depois do homicidio.
Sem pertenções a propheta, quero crer, que, um dia, será entre aquelles
povos que se estabelecerám os mais seguros elementos de civilisação
Europea n'Àfrica.
É minha opinião, que nos paizes occupados pelas confederações Africanas,
regidos por pequenos règulos, de ìndole menos guerreira, por se
reconhecerem mais fracos, é que deve entrar a civilisação com mão forte,
debaixo da forma do commercio, do missionario e do explorador.
Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos exploradores, do mais
enèrgico trabalhador Africano, do mais dedicado apòstolo da civilisação
do continente nêgro, do meu amigo H. M. Stanley.
Diz elle, que devem os missionarios atacar a Àfrica pelos grandes
potentados.
Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrario.
O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e não ha
ali um só Christão! Se o chefe é catechizado, o seu pôvo obedece e finge
seguir a lei de Christo.
É como a estàtua de Nabuchodonosor, tem pes de barro aquella
civilisação.
Môrra o chefe, venha outro que não queira trocar o harém onde ceva a
brutal lascivia, pelo thàlamo nupcial onde uma só espôsa lhe acompanhe
os passos na carreira da vida, e cahio o monumento, a civilisação
desfez-se, e não ha àmanhã um só christão na igreja que hoje regorgitava
de pôvo.
O commercio é bem recebido pelo grande potentado, porque representa
interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto.
No Matebelle, onde os missionarios Inglezes não t[~e]m podido fazer
escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes t[~e]m
introduzido com o vestuario e com outras necessidades que t[~e]m sabido
crear, uma civilisação relativa.
Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que já
disse. Môrra o rei Khama, e vá ao poder um sova que não queira ser
Christão, e tôdos os cathequizados se esvaïrám como fumo. Os negociantes
continuarám o seu tràfico, mas o missionario terá de repetir com elle as
orações do Domingo, ás pessôas de familia que o rodeam.
Digo-o sem receio de errar.
No Transvaal, entre pequenos règulos, vemos muitos indìgenas que seguem
a lei do Evangelho. No Basuto ha Christãos convictos, independente da
influencia d'alguns chefes que o não sam.
Se os exemplos sam estes, aquelles que vêem no missionario o primeiro
mensageiro da civilisação Africana, que ataquem os pontos fracos do
reducto, e não vam perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos é
mais activo.
Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior consideração não só
as missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos
povos bàrbaros do continente nêgro. Tenho visto em quasi todos os que
conhêço a tendencia para seguirem um caminho differente d'aquelle que
aponto.
Tôdos querem um grande nùmero de adeptos para a catechese, sem olharem
ao terreno em que semeam.
Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou
ràpidamente dizer duas palavras mais sôbre o assumpto, que me proponho a
ratar um dia largamente em obra adequada.
Eu francamente não creio o cèrebro do prêto á altura de comprehender um
certo nùmero de questões, comezinhas entre povos de raças evidentemente
superiores.
As questões abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a tão inferiores
organizações.
Explicar theologia a um prêto equivale a expor as sublimidades do
càlculo differencial a uma assemblea de camponios.
Mas, se o prêto não está á altura de poder jàmais comprehender as
verdades da religião de Christo, têm sem dùvida o sentimento do bem e do
mal, e está nas condições de comprehender os principios de moral commum.
Marchem para entre os povos ignaros d'Àfrica Central os missionarios,
sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a sua missão evangèlica, mas
desvendem os olhos.
Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e não queiram
ensinar aos nêgros o que ha de sublime n'ella para cèrebros mais bem
organizados. Ensinem moral e só moral, com o exemplo e com a palavra;
criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de tudo;
criem-lhes necessidades, que ellas farám nascer o trabalho, e só por
elle se regenera um pôvo.
Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da
civilisação, homens que compenetrados dos seus devêres para com Deos e
para com a sociedade, saibam firmar o edificio social em sòlidas bases;
ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o prêto possa comprehender;
esperando a occasião que o tempo, a civilisação, não deixará de trazer,
se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos ànimos as
verdades da theologia e da moral.
Busque primeiro fazer do prêto um homem, que tempo terá de fazer do
homem um Christão. Seguir o caminho contrario é edificar na areia.
No correr d'esta obra terei ainda de falar nas missões Africanas, e
falarei desassombradamente com a consciencia de que presto um verdadeiro
serviço á causa das missões e á causa da humanidade, apontando erros de
que ellas estam eivadas.
O homem que mais poderia coadjuvar o missionario em Àfrica seria o
negociante.
Infelizmente o commercio sertanejo está em mãos de bem tristes apòstolos
da civilisação.
Já falei dos Portuguezes, e com bem pesar meu tenho de metter
estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invasão do commercio pelos
Àrabes de Zanzibar não dá em civilisação e cultura o que devia dar,
porque a dissolução de costumes de taes gentes destroe tudo quanto o
commercio adianta.
Por outro lado, os _traders_ (traficantes) Inglezes, creio que deixam
muito a desejar em moralidade, segundo ouvi dizer a missionarios seus
conterraneos. Esta questão, do commercio sertanejo como meio
civilisador, é questão que me proponho a tratar um dia, e que não é
cabida aqui, onde só por incidente falei de missões e commercio.
Volvendo a entrar em assumpto, dizia eu, que os paizes comprehendidos
entre o Cuanza e o Zambeze estam em condições de receberem com mais
facilidade do que os outros povos que conhêço em Àfrica, o impulso
civilisador que a Europa hoje se empenha em imprimir aos esquècidos
povos do grande continente.
Deixando estes paizes, dos quaes já falei detidamente nos anteriores
capìtulos, vou entrar no Alto Zambeze.
Até ali era eu o primeiro explorador a pisar aquellas paragens, o
primeiro a descrevel-as, o primeiro a apresentar uma carta geogràphica
que as representasse; ali havia sido já precedido por outro, e por outro
que se tornou tão distincto na obra da civilisação Africana, que ganhou
um tùmulo em Westminster Abbey, e repousa hoje junto dos reis, dos
grandes homens de Inglaterra. Vinte annos antes de mim, David
Livingstone percorreu aquelle paiz.
N'esse tempo era elle governado por outra raça, e eu fui encontral-o em
condições bem differentes.
As condições de geographia physica eram as mesmas; mas os geògraphos que
seguirem outros, terám sempre rectificações a fazer, terám sempre alguma
cousa a acrescentar.
Entre a carta de Livingstone e a minha ha differenças que já déram nas
vistas a alguns geògraphos Europeos.
Que o vulto respeitavel do cèlebre explorador me perdôe se eu o
contradizer em alguns pontos da sua geographia do Alto Zambeze. Era a
sua primeira viagem, e o Missionario ousado estava longe ainda de ser o
explorador geògrapho do futuro. Elle mesmo não se vexa de confessar que,
n'esse tempo, de balde tentou medir a largura do rio por um processo
trigonomètrico comezinho.
Da confluencia do Liba á do Cuando, o Zambeze apenas recebe na margem
direita dois affluentes, o Lungo-é-ungo e o Nhengo.
Quem viaja da Costa de Oeste vê logo, que entre o Nhengo e o Cuando
nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko, etc., sam
traços filhos de informações erròneas.
Na longitude do Zambeze, no parallelo 15, encontrei tambem differença
grande para oeste; notando-se que essa differença envolve um êrro
manifesto; porque eu observava os reapparecimentos do primeiro satèlite
de Jùpiter, e havendo erro da minha parte era esse erro prejudicial a
mim, porque envolvia approximação da determinação de Livingstone.
Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reapparecimento, era uma
milha mais a favor d'elle.
O que poderia produzir um erro que me afastasse da posição determinada,
era eu ver o satèlite antes do reapparecimento, o que é materialmente
impossivel.
O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto é, do parallelo
15 á cataracta de Mozi-oa-tunia, é dividido em quatro trôços
perfeitamente distinctos. Do parallelo 15 (e mesmo muito mais do Norte)
até pròximo do parallelo 17, é perfeitamente navegavel em tôdas as
èpochas do anno.
Ahi começa a apparecer o terreno vulcànico, e com elle o basalto. É a
primeira região dos ràpidos e cataractas, onde fôra um serio obstàculo,
a grande cataracta de Gonha; tudo mais com pequeno trabalho se tornava
facilmente navegavel, abrindo um canal junto de uma das margens. Mesmo
em Gonha, era de pequena difficuldade profundar um canalête que existe
na margem esquêrda junto do caminho que segui por terra, e que vem
designado na carta, por onde se escôam àguas na èpocha das cheias.
Da ùltima cataracta, Catima-Moriro, até á confluencia do Cuando, torna o
rio a ter uma navigabilidade facil.
D'ahi para jusante novos ràpidos vam terminar na enorme cataracta de
Mozi-oa-tunia, e essa região não poderá nunca ser aproveitada como via
importante, porque uma sèrie de abismos lhe corta um futuro melhoramento
qualquér quanto a navegação.
No valle do Alto Zambeze ha terrenos productivos e ferteis. Vastas
pastagens alimentam milhares de rêzes nos valles, acima e abaixo da
região das cataractas. Na região montanhosa ha a môsca Zê-zê, e torna-se
difficil passar os gados de Lialui ao Quisseque.
Contudo, a môsca está concentrada nas florestas da região das
cataractas, e para leste do Barôze não existe, porque os povos
Chuculumbes sam grandes pastôres.
O valle do Alto Zambeze, cheio de belleza, fertil e rico, exhala do seu
seio envôlto nos aromas das suas flôres o miasma pestilente. Os
Macololos fôram dizimados pelas febres, e quando as azagaias do rei
Chipopa libertáram o paiz dos ùltimos conquistadores, já o clima tinha
feito a sua obra de destruição.
Os Bihenos, que resistem ás febres de quasi tôdos os paizes Africanos
que visitam, sam fulminados pelos miasmas do Zambeze.
No paiz entre o Bihé e o Zambeze, onde as caravanas se demoram muito
tempo a permutar cêra, é rarissimo haver um caso de febre no gentio
Biheno; àlém da planicie do Nhengo, multiplicam-se as sepulturas
d'elles.
Verissimo, indìgena e possuindo uma organização refractaria ao miasma,
Verissimo, que nunca em sua vida estivera doente, não pôde escapar ao
clima do Barôze, e vímos no capìtulo antecedente ser elle prostrado pêla
febre. Eu mesmo, que resisto bastante ás endemias Africanas, sentia
respirar a morte com o ar que respirava ali.
Esta verdade, se tivera sido apregoada ha mais tempo, teria poupado a
vida á familia Elmore, que só d'abeirar-se ao paiz succumbio; porque o
clima na região do Quisseque, e da confluencia do Cuando até Linianti,
não tem melhores condições de salubridade do que o Barôze.
Cumpro um dever falando bem alto a linguagem da verdade a respeito de um
paiz que está merecendo a attenção da Europa.
Ahi fica ella, e salva está a minha responsabilidade de informador
consciencioso, para todas as desgraças, que aquella voragem ainda ha de
causar aos que não crerem.
¿Será por isso o Lui um paiz de que se dêva fugir e ao qual ninguem se
deverá abeirar? Não é, e eu vou procurar demonstrar, que elle deve
merecer uma séria attenção, não só á Europa em geral, como muito
particularmente a Portugal.
A Àfrica Austral, entre os parallelos 12 e 18, tem uma largura media de
dois mil e seiscentos kilòmetros, e a partilha das àguas para as duas
costas faz-se a um quinto d'esta extensão, junto á Costa de Oeste;
porque se faz pròximo do meridiano 18 E. Greenw., isto é, a 600
kilòmetros apenas, da Costa Oeste.
D'ahi já se lançam dois rios, cujas àguas se juntam ao Zambeze, o
Lungo-é-ungo e o Cuando.
Antes de vermos a importancia d'estes dois cursos d'àgua, estudemos o
proprio rio gigante, aquelle que bebe as àguas de tôdo o planalto
Africano ao sul do parallelo 12 até ao parallelo 20, e a leste do
meridiano 18.
O Zambeze divide-se naturalmente em tres grandes trôços perfeitamente
distinctos:
O alto curso, o curso medio, e o curso inferior.
O Alto Zambeze comprehende o rio desde as suas nascentes, ainda ignotas,
até á sua grande Cataracta Mozi-oa-tunia.
O curso medio estende-se desde Mozi-oa-tunia aos ràpidos de Cabrabassa;
e o Baixo Zambeze d'ahi ao Mar Indico.
Vejamos agora quaes sam as condições de navigabilidade de cada uma
d'estas partes do rio, e qual a sua importancia relativa, e a dos seus
affluentes.
Já n'este mêsmo capìtulo descrevi as condições do Alto Zambeze e por
isso começarei por tratar do seu curso medio.
Conta elle de Mozi-oa-tunia a Cabrabassa uma extensão de 460 milhas
geogràphicas, ou de 828 kilòmetros, e divide-se em duas regiões
perfeitamente distinctas, a superior e a inferior, cada uma das quaes é
extensa de 230 milhas, ou 414 kilòmetros.
A região superior, que principia na grande cataracta e termina nos
ràpidos de Cariba, não tem importancia como via navegavel, nem pelos
affluentes que recebe, todos pequenos e inaproveitaveis á navegação.
Tem esta região alguns trôços navegaveis, mas em pequenas extensões, e
logo interrompidos com ràpidos. A segunda parte do curso medio, de
Cariba a Cabrabassa, está em condições bem differentes, tanto por
offerecer uma facil navigabilidade como por os importantes affluentes
que recebe do Norte. De um d'estes affluentes me occuparei em breve.
O Baixo Zambeze, de Cabrabassa ao mar, conta uma extensão de 310 milhas
geogràphicas, ou 560 kilòmetros, onde apenas poucas milhas sam occupadas
pelas cachoeiras de Cabrabassa; sendo o resto do curso navegavel, ainda
que em más condições, por falta de àgua na estação estia.
Esta parte do rio, mesmo nas más condições em que está da confluencia do
Chire a Tete, é ainda uma grande via por onde se faz todo o commercio do
interior com Quelimane. Recebe elle um affluente importante, o Chire,
magnìfico rio, que da sua foz a Chibisa, não tem cataractas, sendo
perfeitamente navegavel. O Chire que vem do Norte, no seu têrço medio
corre a S.E. quasi parallelamente ao Zambeze; e por isso de Chibisa a
Tete apenas medea uma distancia de 65 milhas geogràphicas, ou 117
kilòmetros, em terreno pouco accidentado, e que hoje, sem caminhos, se
vence facilmente a pé em cinco dias.
Esta circunstancia é muito para merecer a attenção; porque, sendo o rio
Zambeze pobre em profundidade da foz do Chire a Tete, não o é do Mazaro
ao mar; e assim, navegando-se por elle e pelo Chire até Chibisa,
chegamos a 5 dias de jornada a pé, de Tete, com toda a rapidez que nos
podem proporcionar aquellas magnìficas vias. Os 117 kilòmetros que
separam Chibisa de Tete, podem ser vencidos em um dia com uma simples
estrada de rodagem, e em tres horas com uma ferrovial.
Estam pouco ou nada estudados os ràpidos de Cabrabassa, e não faço idéa
até que ponto elles constituem um sério obstàculo á navegação, e se com
pequeno ou grande trabalho se poderia remover esse obstàculo.
Sei porem, que a região que elles occupam é pouco extensa, o que já
constitue uma vantagem indiscutivel.
Voltemos ao curso medio do Zambeze.
Recebe elle pelo norte dois importantes rios, o Aruangua do norte, e o
Cafucué.
O primeiro, em cuja foz assentou outrora a importante e commercial villa
do Zumbo, cujas ruinas attestão até que ponto a ouzadia Portugueza, ia
fundar os seus mercados, introduzindo a civilisação e o commercio nas
mais remotas terras Africanas, é um rio volumoso em àguas, mas, (dizem
os sertanejos Portuguezes) muito cortado de cataractas.
Seria contudo importantissimo o seu estudo, ainda que não lhe vejo a
mesma importancia que tem o outro rio, o Cafucué, de que vou falar.
Os pombeiros Bihenos passam ao norte do Lui, atravessam o paiz dos
Machachas, e encontram um rio enorme a que elles chamam o Loengue. Esse
rio é percorrido por elles nas suas viagens de tràfico, que o sobem até
ás origens, e descem até á foz, onde toma o nome de Cafucué.
Alguns dos que estavam comigo fizéram muitas vezes essa viagem, e raro é
o Biheno que não tenha estado em Caiuco.
Miguel, o meu caçador de elefantes, de quem mais de uma vez falei no
correr da minha narrativa, passou dois annos n'aquelle paiz caçando
elefantes, e muitas vezes percorreu o rio embarcado de Caiuco a
Semalembue; isto é uma distancia que eu calculo grosseiramente em 220
milhas geogràphicas, ou 400 kilòmetros.
De Lialui a Caiuco deve a distancia ser de 220 kilòmetros, porque é
facilmente vencida pelos Luinas em dez dias, havendo exemplos de ter
muitas vezes sido ganha em 8 e 7. Em virtude d'estes dados, lancemos um
ràpido golpe de vista ao estudo que temos feito do Zambeze, e
reconheceremos que, n'uma extensão de 900 milhas geogràphicas, ou 1620
kilòmetros, seguindo pelo Zambeze, Chiri-Tete, Cafucué ou Loengoe, a
Caiuco e Lialui, temos apenas 18 dias de caminho por terra, 5 de Chibisa
a Tete, 3 de Cabrabassa, e 10 de Caiuco a Lialui; representando uma
extensão de 400 kilòmetros, e por isso sendo aproveitados 1220
kilòmetros de vias fluviaes perfeitamente navegaveis.
Voltemos agora ao Alto Zambeze, e vejamos quaes as suas circunstancias
com relação aos seus affluentes. De um sabemos nos já que é navegavel, o
Cuando, mas sabemos tambem, que elle desàgua entre duas regiões de
cataractas; o que o isola das partes importantes do curso do Zambeze.
Mas da região que está entre a sua foz e o Lui, já disse que não vejo
impossibilidade de ser facilmente tornada em via aproveitavel; e logo
que assim seja, e mesmo agora, poderìamos descer do Lui, e subir pelo
Cuando até perto do meridiano 18.
Contudo, outro rio poderia fornecer-nos o meio de attingir aquelle ponto
mais directa e facilmente, se fôsse navegavel.
Era elle o Lungo-é-ungo.
O Lungo-é-ungo é a grande estrada dos Bihenos para o Alto Zambeze, e por
isso muito conhecido d'elles. Affirmam-me, que não tem cataractas, e não
deve tel-as, correndo em terreno igual ao do Cuando e do Ninda.
O seu desnivelamento é de 400 metros em 540 kilòmetros de curso.
Dizem os Bihenos, e affirmáram-me os naturaes, sempre que andei pròximo
d'esse rio, que elle não tem cataractas, como já disse, mas que por
vezes a sua corrente é muito violenta, sendo preciso puxar as canôas á
cirga. Sendo isto verdade, como supponho, chegarìamos do Mar Indico,
quasi á Costa de Oeste d'Àfrica, apenas com 18 dias de caminho por
terra, a pé! Isto é, em uma extensão superior a dois mil kilòmetros,
apenas terìamos de caminhar em terra 400!
A exploração do Loengue ou Cafucué e a do rio Lungo-é-ungo sam hoje das
mais importantes a emprehender na Àfrica Austral, e sam relativamente
faceis e pouco custosas.
Não pude deixar de chamar a attenção para este ponto, que resolve o
problema da facil communicação entre as duas costas.
Já vam longas estas divagações, em um capìtulo onde eu apenas tencionava
apresentar os meus trabalhos geogràphicos e meteorològicos.
Nas seguintes pàginas vai publicado d'esses trabalhos, o que eu julguei
mais interessante para alguns leitores.
Ás observações iniciaes de astronomia que me déram a determinação dos
pontos do meu caminho, seguem-se aquellas que me premitíram fazer o
relêvo do continente.
V[~e]m depois as notas meteorològicas, com interrupções inevitaveis
quando se é só a fazer um trabalho tal.
Constam ellas de dois boletins, que registam as observações feitas 0 h.
43 m. de Greenwich, e ás 6 horas da manhã do logar em que me achava,
hora a que dava corda aos chronòmetros.
O estudo d'esses boletins mostra sempre a grande uniformidade das
oscillações baromètricas, e as enormes desigualdades de temperatura e de
humidade do ar nos paizes a que se referem.
Vê-se tambem, que os ventos reinantes sam do quadrante Este em todo o
paiz do Bihé ao Zambeze.
Como já tive occasião de dizer, e bem se comprehende ao ler a minha
narrativa, não pude fazer collecções naturalistas, e apenas,
aproveitando muito pouco papél de que podia dispor, levei das nascentes
do rio Ninda algumas plantas, que estam em poder do Snr. Conde de
Ficalho, para serem estudadas, e onde parece já terem apparecido algumas
especies novas.
É opinião do Snr. Conde de Ficalho, que o cereal muito cultivado entre
os Quimbandes e Luchazes, a que eu chamo _Massango_, e erradamente
chamei Alpiste, é uma especie de _Penicillaria_, a que chamavam outrora
os botànicos _Penicetum typhoideum_.
Aquelle que eu designo com o nome de _Massamballa_ é o _Sorghum_.
*Quadro das Observações Astronòmicas pelo Major Serpa Pinto do rio
Cuanza ao Zambeze*.
+--------------+---------------------------+---------------+-------------+
| Anno de | Logares onde | Hora dos | Estado para |
| 1879. | observei. | Chronòmetros. | Greenwich. |
+--------------+---------------------------+---------------+-------------+
| | | H. M. S. | H. M. S. |
a| Junho 17 |Mavanda | --- | --- |
b| " " | " | 9 12 39 |+ 3 47 18 |
c| " " | " | 5 53 44 |+ 3 47 4 |
d| " " | " | 5 37 55 | --- |
e| " 22 | " | 9 25 38 |+ 3 47 48 |
f| " 24 |Rio Onda | --- | --- |
g| " " | " | 8 57 0 |+ 3 47 54 |
h| " 25 | " | --- | --- |
i| " 26 | " | 9 42 58 |+ 3 48 10 |
j| " 30 |1.5 milha a O. do rio Cuito| --- | --- |
l| " " | " | 9 3 51 |+ 3 48 46 |
m| Julho 2 |Alem do Cuito | --- | --- |
n| " 3 | " | 0 29 32 |+ 3 49 7 |
o| " " | " | 3 53 7 | --- |
p| " 4 |Cambimbia | --- | --- |
q| " " | " | 8 56 46 |+ 3 49 15 |
r| " " | " | --- | --- |
s| " " | " | 8 55 26 |+ 3 49 15 |
t| " 6 |Cambuta | --- | --- |
u| " " | " | 9 0 2 |+ 3 49 31 |
v| " 7 | " | --- | --- |
x| " " | " | 9 10 14 |+ 3 49 39 |
z| " 10 |Nascente do Cuando | --- | --- |
0| " 11 | " | 8 53 23 |+ 3 50 24 |
1| " " | " | --- | --- |
2| " 14 |Nascente do Cubangui | --- | --- |
3| " " | " | 9 11 11 |+ 3 50 54 |
4| " 17 |Cangamba | 9 2 40 |+ 3 51 24 |
5| " 18 | " | --- | --- |
6| " 19 | " | --- | --- |
7| " " | " | 9 5 8 |+ 3 51 44 |
8| " 23 | " | 9 9 29 |+ 3 51 56 |
9| " " |Margem Direita do Cubangui | 4 49 47 |+ 3 52 5 |
A| " " | " | 4 52 5 |+ 3 52 5 |
B| " " | " | --- | --- |
C| " 29 |Caú-eu-hue | --- | --- |
D| " " | " | 8 55 42 |+ 3 52 48 |
E| " " | " | 8 58 22 |+ 3 53 1 |
F| " " | " | 8 59 5 |+ 3 53 1 |
G| " " | " | 8 59 42 |+ 3 53 1 |
H| " 31 | " | 8 45 30 |+ 3 53 19 |
I| " " | " | 8 46 28 |+ 3 53 19 |
J| " " | " | 8 47 27 |+ 3 53 19 |
L| " " | " | 8 48 58 |+ 3 53 19 |
M| " " | " | 8 50 40 |+ 3 53 19 |
N| Agosto 3 | " | 9 9 11 |+ 3 53 49 |
O| " 4 |Margem Esquerda do Cuchibi | 3 15 7 |+ 3 53 51 |
P| " " | " | 2 40 47 | --- |
Q| " 5 |Ponto onde deixei o Rio | --- | --- |
R| " " | " | 8 53 7 |+ 3 54 0 |
S| " 7 |Rio Chicului | --- | --- |
T| " " | " | 9 0 6 |+ 3 54 16 |
U| " 10 |Nascente do rio Ninda | 6 57 20 |+ 3 54 41 |
V| " " | " | 6 58 20 |+ 3 54 41 |
X| " " | " | 3 3 52 |- 2 7 56 |
Z| " 11 | " | --- | --- |
=| " " | " | 3 3 9 |- 2 7 53 |
-| " 13 |Margem do Ninda | --- | --- |
+| " " | " | 6 33 5 }| |
/| | | }| 3 55 7 |
*| " 16 | " | 6 55 53 }| |
:| " " |Povoação de Calomba | --- | --- |
;| " " | " | 6 29 36 }| |
!| | | }|+ 3 55 33 |
?| " " | " | 6 54 8 }| |
| | | | |
^| " " | " | 6 31 48 }| |
'| | | }|+ 3 55 33 |
.| " " | " | 6 51 46 }| |
,| " 18 |Povoações do Nhengo | --- | --- |
\| " " | " | 8 58 21 |+ 3 55 42 |
"| " 21 |Canhete | --- | --- |
$| " 25 |Lialui | --- | --- |
%| " 29 | " | --- | --- |
&| Setembro 10 |Catongo | --- | --- |
(| " 12 | " | 3 46 19 |+ 3 57 35 |
)| " " | " | 1 9 50 | --- |
[| " 19 | " | 9 6 53 |+ 3 58 42 |
]| " " | " | 3 4 9 | --- |
«| " 20 | " | 0 20 0 |+ 3 58 0 |
»| " 21 | " | 6 2 0 |- 1 33 0 |
<| " " | " | 6 0 0 |- 1 33 0 |
>| " 22 | " | 5 38 0 |- 1 33 0 |
~| Outubro 1 |Sinanga | --- | --- |
{| " 4 |Sioma | --- | --- |
}| " " | " | 10 10 1 |+ 4 0 40 |
_| " 9 |Confluencia do Jôco | 9 8 9 |+ 4 1 30 |
£| " " | " | 10 42 0 |- 1 36 0 |
#| " 11 |Cataracta de Nambué | 12 3 0 |- 1 37 0 |
¨| " " | " | 3 48 34 |+ 4 1 50 |
+--------------+---------------------------+---------------+-------------+
+----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
| Natureza | Dupla | | | | | |
| da | altura do | [A] | [B] | [C] | [D] | Resultados. |
| Observação | astro. | | | | | |
+----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
| | ° ' " | ° '|H. M.| ' " | | ° ' |
a|Altura Mer. [*-]| 107 32 20 | --- | 1 9| -0 40 | 1 |Lat. 12 35 S.|
b|Chron. [*-] | 83 45 10 |12 35| --- | -0 35 | 3 |Long. 17 26 E.|
c| " [)-] | 70 33 10 |12 35| --- | " | 1 |Diff. do Chron. |
| | | | | | | 4^h.57^m.6^s.|
d|Eclipse do 1^o. | --- | --- | --- | --- | --- |Long. 17°30'E.|
| satèlite de Jup| | | | | | |
e|Chron. [*-] | 79 30 16 |12 35| --- | -0 50 | 3 | " 17 30 E.|
f|Altura Mer. [*-]| 107 24 10 | --- | 1 10| -0 30 | 1 |Lat. 12 37 S.|
g|Chron. [*-] | 88 24 20 |12 37| --- | -0 25 | 1 |Long. 17 45 E.|
h|Altura Mer. [*-]| 107 25 30 | --- | 1 10| -0 30 | 1 |Lat. 12 38 S.|
i|Chron. [*-] | 73 18 40 |12 37| --- | -0 40 | 1 |Long. 17 46 E.|
j|Altura Mer. [*-]| 107 31 20 | --- | 1 12| " | 1 |Lat. 12 48 S.|
l|Chron. [*-] | 86 4 24 |12 48| --- | " | 5 |Long. 18 7 E.|
m|Altura Mer. [*-]| 107 35 50 | --- | 1 12| " | 1 |Lat. 12 54 S.|
n|Chron. [)-] | 83 23 30 |12 57| --- | -0 40 | 3 |Diff.para o logar|
| | | | | | | 5^h. 2^m. 45^s.|
o|Eclipse do 1^o. | --- | --- | --- | --- | --- |Long. 18°23'E.|
| satèlite de Jup| | | | | | |
p|Altura Mer. [*-]| 107 50 0 | --- | 1 13| -0 40 | 1 |Lat. 12 56 E.|
q|Chron. [*-] | 86 38 40 |12 56| --- | " | 3 |Long. 19 41 E.|
r|Altura Mer. [*-]| 107 50 20 | --- | 1 14| " | 1 |Lat. 12 56 S.|
s|Chron. [*-] | 87 3 47 |12 56| --- | " | 4 |Long. 19 41 E.|
t|Altura Mer. [*-]| 108 9 0 | --- | 1 15| " | 1 |Lat. 12 58 S.|
u|Chron. [*-] | 87 3 50 |12 58| --- | " | 3 |Long. 18 43 E.|
v|Altura Mer. [*-]| 108 22 0 | --- | 1 15| " | 1 |Lat. 12 58 S.|
x|Chron. [*-] | 83 57 36 |12 58| --- | " | 3 |Long. 18 45 E.|
z|Altura Mer. [*-]| 109 2 0 | --- | 1 16| " | 1 |Lat. 12 59 S.|
0|Chron. [*-] | 89 36 30 |12 58| --- | " | 3 |Long. 18 57 E.|
1|Altura Mer. [*-]| 109 16 50 | --- | 1 16| " | 1 |Lat. 12 59 S.|
2| " | 109 43 40 | --- | 1 18| " | 1 | " 13 12 S.|
3|Chron. [*-] | 83 33 16 |13 12| --- | " | 3 |Long. 19 27 E.|
4| " | 86 1 40 |13 38| --- | -0 50 | 3 | " 19 41 E.|
5|Altura Mer. [*-]| 110 9 20 | --- | 1 19| " | 1 |Lat. 13 38 S.|
6| " | 110 30 50 | --- | " | " | 1 | " 13 38 S.|
7|Chron. [*-] | 85 41 33 |13 38| --- | -1 50 | 3 |Long. 19 41 E.|
8|Azimuth 26° 15' | 84 42 30 | " | --- | -0 20 | 1 |Variação 18 22 O.|
9|Chron. [*-] | 87 48 50 |13 48| --- | -0 35 | 3 |Long. 19 42 E.|
A| " | 88 37 27 | " | --- | " | 3 | " 19 44 E.|
B|Altura Mer. [*-]| 111 42 40 | --- | 1 19| " | 1 |Lat. 13 48 S.|
C| " | 112 58 40 | --- | " | -1 0 | 1 | " 14 30 S.|
D|Chron. [*-] | 89 23 10 |14 30| --- | " | 1 |Long. 20 19 E.|
E| " | 88 28 40 | " | --- | " | 1 | " 20 17 E.|
F| " | 88 15 0 | " | --- | " | 1 | " 20 16 E.|
G| " | 88 2 20 | " | --- | " | 1 | " 20 16 E.|
H| " | 93 16 50 | " | --- | " | 1 | " 20 17 E.|
I| " | 92 59 10 | " | --- | " | 1 | " 20 16 E.|
J| " | 92 39 40 | " | --- | " | 1 | " 20 17 E.|
L| " | 92 11 0 | " | --- | " | 1 | " 20 15 E.|
M| " | 91 36 30 | " | --- | " | 1 | " 20 17 E.|
N| " | 86 5 50 | " | --- | -0 55 | 2 | " 20 15 E.|
O| " | 76 56 50 |14 34| --- | " | 2 |Diff.para o logar|
| | | | | | | 5^h. 14^m. 56^s.|
P|Eclipse do 1^o | --- | --- | --- | --- | --- |Long. 20 23 E.|
| satèlite de Jup| | | | | | |
Q|Altura Mer. [*-]| 116 8 10 | --- | 1 21| -0 55 | 1 |Lat. 14 42 S.|
R|Chron. [*-] | 91 47 53 |14 42| --- | " | 3 |Long. 20 25 E.|
S|Altura Mer. [*-]| 117 21 40 | --- | 1 21| " | 1 |Lat. 14 39 S.|
T|Chron. [*-] | 89 44 50 |14 42| --- | " | 3 |Long. 20 38 E.|
U|Alt. prox. do | 118 37 50 | --- | --- | " | 1 |Lat. 14 46 S.|
| Mer. [*-] | | | | | | |
V| " | 118 35 10 | --- | --- | " | 1 | " 14 46 S.|
X|Chron. [*-] | 89 35 15 |14 46| --- | " | 3 |Long. 20 55 E.|
Z|Altura Mer. [*-]| 119 26 20 | --- | 1 23| -0 50 | 1 |Lat. 14 46 S.|
=|Chron. [*-] | 90 8 46 |14 46| --- | " | 3 |Long. 20 56 E.|
-|Altura Mer. [*-]| 120 33 30 | --- | 1 25| -0 55 | 1 |Lat. 14 48 S.|
+| | | | | | | |
/|Alturas | 120 17 10 | --- | --- | " | 2 |Long. 21 16 E.|
*| iguaes [*-] | | | | | | |
:|Altura Mer. [*-]| 122 12 0 | --- | 1 25| -0 50 | 1 |Lat. 14 54 S.|
;| | | | | | | |
!|Alturas | 121 52 10 | --- | --- | " | 2 |Long. 21 41 E.|
?| iguaes [*-] | | | | | | |
^| | | | | | | |
'| " | 121 58 50 | --- | --- | " | 2 | " 21 41 E.|
.| | | | | | | |
,|Altura Mer.[*-] | 123 15 50 | --- | 1 28| " | 1 |Lat. 15 1 S.|
\|Chron. [*-] | 90 53 53 |15 1| --- | -0 55 | 3 |Long. 22 2 E.|
"|Altura Mer. [*-]| 124 53 40 | --- | 1 30| " | 1 |Lat. 15 11 E.|
$|Altura Mer. [*-]| 127 34 40 | --- | 1 30| -0 55 | 1 |Lat. 15 13 S.|
%| " | 130 22 20 | --- | " | " | 1 | " 15 13 S.|
&| " | 139 8 0 | --- | 1 31| -3 30 | 1 | " 15 17 S.|
(|Chron. [)-] | 71 42 50 |15 17| --- | -0 20 | 3 |Diff.para o logar|
| | | | | | | 5^h.30^m.53^s.|
)|Reapparecimento | --- | --- | --- | --- | --- |Long. 23°19'E.|
| do 1^o sat. de | | | | | | |
| Jup. | | | | | | |
[|Chron. [*-] | 91 35 43 |15 17| --- | -0 55 | 3 |Diff.para o logar|
| | | | | | | 5^h.31^m.36^s.|
]|Reapparecimento | --- | --- | --- | --- | 1 |Long. 23°15'E.|
| do 1^o sat. de | | | | | | |
| Jup. | | | | | | |
«|Amplitude mag. | --- |15 17| --- | --- | 1 |Variação 18 38 O.|
| 18° 40' | | | | | | |
»|Amplitude mag. | --- | " | --- | --- | 1 | " 18 11 O.|
| 17° 20' | | | | | | |
<|Amplitude mag. | --- | " | --- | --- | 1 | " 18 33 O.|
| 19° 10' | | | | | | |
>|Amplitude mag. | --- | " | --- | --- | 1 | " 18 44 O.|
| 18° 20' | | | | | | |
~|Alt. Mer.[+] | 58 5 0 | --- | --- | -1 0 | 1 |Lat. 16 8 S.|
| Dubuhe ([a] de | | | | | | |
| Cygne) | | | | | | |
{| " " | 57 5 0 | --- | --- | " | 1 | " 16 37 S.|
}|Chron. [)-] | 86 3 30 |16 37| --- | -1 5 | 1 |Long. 23 45 E.|
_| " [*-] | 89 19 3 |17 7| --- | -0 50 | 3 | " 24 15 E.|
£|Altura Mer. [)-]| 138 30 0 | --- | --- | -1 0 | 1 |Lat. 17 7 S.|
#| " | 115 55 0 | --- | --- | " | 1 | " 17 18 S.|
¨|Chron. [)-] | 81 46 0 |17 18| --- | " | 1 |Long. 24 22 E.|
+----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+
*Legenda*:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.
[*-] símbolo do sol por cima da barra
[)-] símbolo da lua por cima da barra
[+] símbolo de estrela
[a] Letra grega "Alpha"
*Quadro das Observações Hypsomètricas, feitas de Caconda á foz do rio
Cuando no Zambeze, para determinar o relevo do Continente*.
Anno de 1878.
---------+----+-----------------------------+-------+-----+---+-----+------
| | | | | | |
Mez. |Dia.| Designação das localidades. | [A] | [B] |[C]| [D] | [E]
| | | | | | |
---------+----+-----------------------------+-------+-----+---+-----+------
Fevereiro| 9 |Quipembe | 636.0 | 1
Showing first 200,000 characters. Full text: gutenberg.org/ebooks/20783