O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
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Title: O Mysterio da Estrada de Cintra. Cartas ao Diário de Noticias
Author: Eça de Queirós
Ramalho Ortigão
Release date: February 12, 2007 [eBook #20574]
Language: Portuguese
Original publication: Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor 50--Rua Augusta--54 Typographia e Stereotypia Moderna 11--Apostolos--1.^o, 1894
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/20574
Credits: Produced by Pedro Saborano (This file was produced from
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Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
O Mysterio da Estrada de Cintra
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO
O Mysterio da Estrada de Cintra
Cartas ao _Diario de Noticias_
Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio
LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor
50--RUA AUGUSTA--54
MDCCCXCIV
LISBOA
TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA
11--Apostolos--1.^o
+PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+
CARTA AO EDITOR D'O _Mysterio da Estrada de Cintra_
Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de
duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em
torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante _pot-pourri_ dos
_Dois Foscaris_, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo
a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do _Diario
de Noticias_.
Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem
estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos
a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com
com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.
Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela
curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_
o _Mysterio da Estrada de Cintra_, o comprou ainda n'uma edição em livro;
e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o
que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com
saudade...
Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o
sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do
Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas
tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr.
Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas.
Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das
bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro
intitulado... (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam
commovidamente os criticos:--_Eis ahi uma obra que ha de ficar!_... Nós,
emfim, eramos novos.
O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?...
Pensamos simplesmente--louvores a Deus!--que elle é execravel; e nenhum de
nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor
inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um
romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria
tirar.
Poupemol-o--para o não aggravar fazendo-o em tres volumes--á enumeração de
todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus
mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre
os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os
seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se
arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda,
sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes,
sobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados
por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das
phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!...
Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre
sinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os
seus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem
pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua.
Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo
d'imaginação, scismando e não observado, desmente toda a campanha que
temos feito pella arte de analyse e de certeza objectiva?
Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer
envergonhar-se do ser trabalho.
Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do
throno o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o
sceptro mostrava depois o açoite, gostando de repetir: _Comecei por ali_.
Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos
dizer que ella se applique ás nossa pessoas. Como throno temos ainda a
mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; não temos docel
que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem, não se cingem por
emquanto de corôa alguma, nem de louros, nem de Napoles.
Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só
dia desde aquelle em que datámos este livro até o instante em que elle nos
reapparece inesperadamente na sua terceira edição, com um petulante
arzinho de triumpho que, á fé de Deus, não lhe vae mal!
Então, como agora, escreviamos honestamente, isto é, o melhor que
podiamos: d'esse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio
talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade.
Ha mais duas razões, para auctorizar esta reedição.
A primeira é que a publicação d'este livro, fóra de todos os moldes até o
seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a
receber, uma util lição de independencia.
A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz,
revolucionaria, destruidosa d'idolos, parece-nos servil, imitadora,
copista curvada de mais deante dos mestres. Os novos escriptores não
avançam um pé que não pousem na pégada que deixaram outros. Esta
pusilanimidade torna todas as obras tropegas, dá-lhes uma expressão
estafada; e a nós, que partimos, a geração que chega faz-nos o effeito de
sahir velha do berço e de entrar na arte de muletas.
Os documentos das nossas primeiras loucuras de coração queimámol-os ha
muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos
vinte annos é preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para que
o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser
ponderado, correcto e immovel ha tempo de sobra na velhice.
Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde força de resistencia ás
correntes da tradição, é indispensavel para a revivescencia da invenção e
do poder criativo, e para a originalidade artistica. Ai das litteraturas
em que não ha mocidade! Como os velhos que atravessaram a vida sem o
sobressalto de uma aventura, não haverá n'ellas que lembrar. Além de que,
para os que na edade madura foram arrancados pelo dever ás facilidades da
improvisação e encontram n'esta região dura das coisas exactas,
entristecedora e mesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da
belleza das paixões, só ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos
sentimenos, seria dôce e reconfortante ouvir de longe a longe, nas manhãs
de sol, ao voltar da primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a
doirada abelha da phantasia.
A ultima razão que nos leva a não repudiar este livro, é que elle é ainda
o testemunho da intima confraternidade de dois antigos homens de lettras,
resistindo a vinte annos de provação nos contactos de uma sociedade que
por todos os lados se dissolve. E, se isto não é um triumpho para o nosso
espírito, é para o nosso coração uma suave alegria.
Lisboa, 14 de dezembro de 1881
De V.
Antigos amigos
Eça de Queiroz
Ramalho Ortigão
+O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+
+EXPOSIÇÃO DO DOUTOR*** +
I
Sr. redactor do _Diario de Noticias_
Venho pôr nas suas mãos a narração de um caso verdadeiramente
extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe que, pelo
modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia, pelo
menos, do que vou expôr.
Os successos a que me refiro são tão graves, cerca-os um tal mysterio,
envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que se passou
por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerração de
um drama que supponho terrivel com quanto não conheça d'elle senão um só
acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas precedentes e quaes
tenham de ser as ultimas.
Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F..., um
amigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.
Montavamos dois cavallos que F... tem na sua quinta e que deviam ser
reconduzidos a Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa.
Era ao fim da tarde quando atravessámos a charneca. A mellancolia do logar
e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos na
paizagem, caminhando a passo.
A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem,
n'um ponto a que não sei o nome, porque tenho transitado pouco n'aquella
estrada, sitio deserto como todo o caminho através da charneca, estava
parada uma carruagem.
Era um _coupé_ pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma parelha
côr de castanha.
O cocheiro, sem libré, estava em pé, de costas para nós, diante dos
cavallos.
Dois sujeitos achavam-se curvados ao pé das rodas que ficavam para a parte
da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar
attentamente o jogo da carruagem.
Um quarto individuo, egualmente de costas para nós, estava perto do
vallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma
pedra para calçar o trem.
É o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo.
Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada.
Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F...
tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o
cavallo que eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e
caiu de chapa.
O homem que estava junto do vallado, ao qual eu não dava attenção porque
ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo
repentinamente e com a maxima força as redeas que ficavam para o lado
d'elle e impellindo ao mesmo tempo com um pontapé o flanco do animal para
o lado oposto.
O cavallo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, escorregou das
pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham
constrangido.
O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e,
ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna
que ficára debaixo do cavallo.
Este individuo tinha na voz a entoação especial dos homens bem educados. A
mão que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o coberto com uma mascara
de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu.
Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez
cair o cavallo.
Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma
palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu
companheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que
tinham a cara coberta como aquelle de que já fallei.
Puro Ponson du Terrail! dirá o sr. redactor. Evidentemente. Parece que a
vida, mesmo no caminho de Cintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais
romanesca do que pede a verosimilhança artistica. Mas eu não faço arte,
narro factos unicamente.
F..., vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha
obrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabeça descarregára uma
pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo
depois arrancar-lhe da mão.
Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da
algibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo
estirando-se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça d'aquelle que o
tinha seguro.
O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do
cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver á cabeça do meu amigo e
disse-lhe com serenidade:
--Menos furia! menos furia!
O que levára com o chicote na cabeça e ficára por um momento encostado á
portinhola do trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo
era de baleia e tinha por castão uma simples guarnição feita com uma
trança de clina, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça
o chapeu que lhe caira.
A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me
deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d'aquellas
a que chamam em França _coups de poing_ e que varam uma porta a trinta
passos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o braço,
dizendo-me com afabilidade:
--Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offereço na carruagem
do que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a pé d'aqui á
pharmacia da Porcalhota a sua perna magoada.
Não sou dos que se amedrontam mais promptamente com a ameaça feita com
armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o. Eu
movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo
possante; somos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez
minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais
provavel, em estrada tão frequentada como a de Cintra n'esta quadra, do
que apparecerem passageiros que nos prestassem auxílio.
Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma tão
extranha aventura.
Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia
suspeitar que alguem podesse ter interesse em exercer comnosco pressão ou
violencia alguma.
Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me parecia tambem que
as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um
homicidio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e
tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me
pessoas de bom mundo. Agora que de espírito socegado penso no acontecido,
vejo que a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas,
nas quaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de
analyse. Lembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do
chapeu do que levara a pancada na cabeça. O que apontára o rewolver a F...
trazia calçada uma luva côr de chumbo apertada com dois botões. O que me
ajudára a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas; as calças, de
casimira côr de avelã, eram muito justas e de presilhas. Tinha esporas.
Não obstante a disposição em que me achava de ceder da lucta e de entrar
no trem, perguntei em allemão ao meu amigo se elle era de opinião que
resistissemos ou que nos rendessemos.
--Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos é precioso!
disse gravemente um dos desconhecidos. Por quem são, acompanhem-nos! Um
dia saberão por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes
a nossa palavra que ámanhã estarão nas suas casas, em Lisboa. Os cavallos
ficarão em Cintra d'aqui a duas horas.
Depois de uma breve reluctancia, que eu contribuí para desvanecer, o meu
companheiro apeou-se e entrou no _coupé_. Eu segui-o.
Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da
parelha segurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para
a almofada e pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e
sentaram-se nos logares fronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os
stores de madeira dos postigos e correu-se uma cortina de seda verde que
cobria por dentro os vidros fronteiros da carruagem.
No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidraça e pediu um
charuto. Passaram-lhe para fóra uma charuteira de palha de Java. Pella
fresta por onde recebeu os charutos lançou para dentro do trem a mascara
que tinha no rosto, e partimos a galope.
Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de
Lisboa, um omnibus, talvez uma sege. Se me não illudi, a pessoa ou pessoas
que vinham no trem a que me refiro terão visto os nossos cavallos, um dos
quaes é russo e o outro castanho, e poderão talvez dar noticia da
carruagem em que íamos e da pessoa que nos servia de cocheiro. O coupé
era, como já disse, verde e preto. Os stores, de mogno polido, tinham no
alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.
Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de
expedir ainda hoje esta carta pela posta interna.
Continuarei. Direi então, se o não suspeitou já, o motivo porque lhe
occulto o meu nome e o nome do meu amigo.
II
Julho, 24 de 1870--Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada
integralmente por v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em
vista da collocação dada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver
de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do
jornal.
Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso
qual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta
feira, 20 do corrente mez de julho.
Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando
minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que
travámos, tanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n'elle
se empregaram.
A carruagem partiu na direcção de Cintra. Presumo porém que deu na estrada
algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela
intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me a suppol-o,
em primeiro logar as differenças de declive no nivel do terreno, com
quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada e lisa; em
segundo logar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro
do _coupé_ coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem
passava por encontradas exposições com rellação ao sol que se escondia no
horisonte.
Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que
tomassemos.
É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria
absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha
de Cintra para Lisboa.
Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia
distinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um
quarto.
O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio
que elle não introduziu bem na algibeira do collete e que um momento
depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente,
era um relogio singular que se não confunde facilmente e que não deixará
de ser reconhecido, depois da noticia que dou d'elle, pellas pessoas que
alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador era de
esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo
de armas de ouro encobrado e polido.
Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte
de F..., o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o
acompanhassemos, nos disse:
--Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em
quanto á segurança das suas pessoas...
--Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente
socegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de
acreditar que nos não têem coactos pelo medo. Nenhum de nós é tão creança
que se apavore com o aspecto das suas mascaras negras ou das suas armas de
fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não
querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte annunciar-lhes que
desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos
desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes as mascaras,
arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse por
nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida aos
cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos.
Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos
sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos.
D'outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e nós
assustados.
Com quanto estas cousas fossem ditas por F... com um ar de bondade
risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao
ouvil-o. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovello n'um
joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois,
reclinando-se para traz e como se mudasse de resolução:
--No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e
dissesse o mesmo no seu logar.
E, tendo meditado um momento, continuou:
--Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta mascara em que
querem ver apenas um symptoma burlesco é em vez d'isso a confirmação da
seriedade do caso que nos trouxe aqui?... Queiram imaginar por um momento
um d'esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo
marido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa,
está gravida. Que deliberação ha de tomar?
Houve um silencio.
Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude
d'aquelle problema e respondi:
--Enviar ao marido uma escriptura de separação em regra. Depois, se é
rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é porbre,
comprar uma machina de costura e trabalhar para fóra n'uma agua furtada. É
o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se
morre depressa n'essas condições, n'um _cottage_ á beira do lago Genebra
ou n'um quarto de oito tostões ao mez na rua dos Vinagres. Morre-se
egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento do trabalho ou no enjôo
do idyllio.
--E o filho?
--O filho, desde que está fóra da familia e fóra da lei, é um desgraçado
cujo infortunio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube
definir a responsabilidade do pae clandestino. Se os paes fazem como a
legislação, e mandam buscar gente á estrada de Cintra para perguntar o que
se ha de fazer, o melhor para o filho é deital-o á roda.
--O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico,
esquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o
filho á roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que é deital-o ao
mundo.
--Isso é com os especialistas. Creio que não é n'essa qualidade que estou
aqui.
--Engana-se. É precisamente como medico, é n'essa qualidade que aqui está
e é por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa á estrada de Cintra e
o levamos a occultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa d'elle.
--Mas eu não faço clinica.
--É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso:
não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos
seguir n'esta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma these
de cirurgia que despertou a attenção e mereceu o elogio da faculdade.
Queira fazer de conta que vae assistir a um parto.
O meu amigo F... poz-se a rir e observou:
--Mas eu que não tenho curso medico nem these alguma de que me accuse na
minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer?
--Quer saber o motivo porque se encontra aqui?... Eu lh'o digo.
N'este momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos
companheiros sobresaltados ergueram-se.
III
Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir
successivamente as duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti
depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de
accender as velas, e rangerem nos anneis dos cachimbos os pés das
lanternas como se as estivessem endireitando.
Não comprehendí logo a razão porque nos tivessemos detido para similhante
fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.
Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos
servia de cocheiro não quereria parar em logar onde houvesse gente. Se
tivessemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a
accender-se e que nós veriamos atravez da cortina ou das fendas dos
stores, poderiam dar-nos alguma idéa do sitio em que nos achassemos. Por
esta fórma esse meio de investigação desapparecia. Ao passarmos entre
predios ou muros mais altos, a projecção da luz forte das lanternas sobre
as paredes e a reflexão d'essa claridade para dentro do trem
impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma aldeia ou uma rua
illuminada.
Logo que a carruagem começou a rodar depois de accezas as lanternas,
aquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F... a razão
porque elle nos acompanhava, prosseguiu:
--O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no
unicamente n'este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de
infancia, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um
constantemente prompto a prestar aos outros os derradeiros sacrificios que
póde impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um medico.
Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que não passasse a
outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor
de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente
esta noite ou ámanhã pela manhã; não devendo saber ninguem quem é sua mãe,
não devendo sequer por algum indicio vir a suspeitar um dia quem ella
seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem falla, e
qual é a casa em que vae entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto
uma mascara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permittir que
continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos
antes de os apearmos defronte do predio a que vão subir. Agora
comprehende, continuou elle dirigindo-se a F..., a razão por que nos
acompanha. Era-nos impossivel evitar que o senhor viesse hoje de Cintra
com o seu amigo, era-nos impossivel adiar esta visita, e era-nos
impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada em que tomámos o doutor. O
senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.
--A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisongeira para a minha
discrição.
--A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não
pertence.
F... achava-se inteiramente d'accordo com esta maneira de ver, e disse-o
elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.
As palavras de F... accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me
que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava
discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e
surprehendia desagradavelmente esse córte imprevisto. Elle, que tinha a
replica prompta e a palavra facil, não achou que retorquir á confiança com
que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegámos, um
silencio que devia pezar ás suas tendencias expansivas e discursadoras.
É verdade que pouco depois d'este dialogo o trem deixou a estrada de
macadam em que até ahi rodara e entrou n'um caminho vicinal ou n'um
atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que
seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrepito dos
stores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.
Tornámos por fim a entrar n'uma estrada lisa. A carruagem parou ainda uma
segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:
--Lá vou!
Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:
--Vão com raparigas para Lisboa.
O trem prosseguiu.
Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto
plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola?
Entender-se-hia com os meus companheiros a phrase que eu ouvira?
Não posso dizel-o com certeza.
A carruagem entrou logo depois n'um pavimento lageado e d'ahi a dois ou
tres minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:
--Chegámos.
O mascardo que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que
acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma
commoção:
--Tenham paciencia! perdôem-m'o... Assim é preciso!
F... approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente
vendado pelo que estava em frente de mim.
Apeámo-nos em seguida e entrámos n'um corredor conduzidos pela mão dos
nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo
por que nos encontrámos e démos passagem a alguem que sahia. Quem quer que
era disse:
--Levo o trem?
A voz do que nos guiara respondeu:
--Leva.
Demorámo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada á
chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:
--Vamos!
Démos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomámos á direita e
entrámos na escada. Era de madeira, ingreme e velha, coberta com um tapete
estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na
superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente
angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia
de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar
humido e impregnado das exhalações interiores dos predios deshabitados.
Subimos oito ou dez degraus, tomámos á esquerda n'um patamar, subimos
ainda outros degraus e parámos n'um primeiro andar.
Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de
lugubre n'este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppressão, uma
especie de sobresalto pueril.
Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que
foi outra vez fechada á chave depois de havermos entrado.
--Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.
Descobri os olhos. Era noite.
Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n'uma
serpentina de bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que
estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.
Não pude conter a commoção que senti, e soltei um grito de horror.
O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.
IV
Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me
acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em
que estou para comprehender a secreta verdade d'esta aventura, os habitos
da minha vida repousada subitamente exaltados,--tudo isto me dá um estado
de irritação morbida que me aniquilla.
Logo que vi o cadaver perguntei violentamente:
--Que quer isto dizer, meus senhores?
Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:
--Não ha tempo para explicações. Perdôem ter sido enganados! Pelo amor de
Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com
algum narcotico?
Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente
interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d'aquella situação,
approximei-me do cadaver, e examinei-o.
Estava deitado n'uma _chaise-longue_, com a cabeça pousada n'uma almofada,
as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descançando no
peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha
golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha signaes
de congestão, nem vestigios de estrangulação. A expressão da physionomia
não denotava soffrimento, contracção ou dôr. Os olhos cerrados
frouxamente, eram como n'um somno leve. Estava frio e livido.
Não quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria
embaraçar esta narração concisa com explicações scientificas. Mesmo sem
exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a
analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle homem estava sob a
influencia já mortal de um narcotico, que não era tempo de dominar.
--Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica.
Não pensava então em crime nem na mysteriosa aventura que ali me prendia;
queria só ter uma historia progressiva dos factos que tinham determinado a
narcotisação.
Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da _chaise-longue_
sobre uma cadeira de estofo.
--Não sei, disse elle, talvez aquillo.
O que havia no copo era evidentemente opio.
--Este homem está morto, disse eu.
--Morto! repetiu um d'elles, tremendo.
Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilatação fixa,
horrivel.
Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:
--Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d'um doente sou inutil;
como testemunha posso ser perigoso.
Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave:
--Escute, crê em sua consciencia que esse homem esteja morto?
--De certo.
--E qual pensa que fosse a causa da morte?
--O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam
mascarados surprehendendo gente pela estrada de Cintra.
Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que
cortasse os embaraços da minha situação.
--Perdão, disse um, e ha que tempo suppõe que esse homem esteja morto?
Não respondi, puz o chapeu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F...
junto da janella batia o pé impaciente. Houve um silencio.
Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos
na face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras,
tudo dava áquelle momento um aspecto profundamente sinistro.
--Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o
que tinha guiado a carruagem--comprehendem perfeitamente, que se nós
tivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma
testemunha importuna! Desconfiavamos, é claro, que estava sob a acção de
um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os
trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se
não entregamos este caso á policia, se cercámos de mysterio e de violencia
a sua visita a esta casa, se lhes vendámos os olhos, é porque receavamos
que as indagações que se podessem fazer, conduzissem a descobrir, como
criminoso ou como cumplice, alguem que nós temos em nossa honra salvar; se
lhes damos estas explicações...
--Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui ha um crime; este homem
está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitaria, nós
achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias teem um mysterio
tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais
leve acto, nem pela mais involuntaria assistencia, ser parte n'este
negocio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquella porta.
Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu.
--Ah! os senhores escarnecem! gritou F...
E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os
fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle,
curvaram-n'o, arrastaram-n'o até uma poltrona, e deixaram-n'o cair,
offegante, tremulo de desespero.
Eu tinha ficado sentado e impassivel.
--Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela
colera, eu protesto pelo tedio.
E accendi um charuto.
--Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente.
Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a mascara,
tiro-a eu! É necessario que nos vejam! Não quero, nem escondido por um
pedaço de cartão, passar por assassino!... Senhores! dou-lhes a minha
palavra que ignoro quem matou este homem!
E fez um gesto furioso. N'este movimento, a mascara desapertou-se,
descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto.
Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desesperação. Os outros
cercaram-n'o, olhando rapidamente para F..., que tinha ficado impassivel.
Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera
defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com
suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam
baixo. Eu no emtanto examinava a sala.
Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom
para correr com os pés nús. O estofo dos moveis era de seda vermelha com
uma barra verde, unica e transversal, como têem na antiga heraldica os
brasões dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam em pregas amplas e
suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante, onde se
sentia a verbena e o perfume de _marechala_.
O homem que estava morto era moço, de perfil sympathico e fino, de bigode
louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa
reluzia com botões de perolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma
côr clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda
em grandes quadrados brancos e cinzentos.
Pella physionomia, pela construcção, pelo corte e côr do cabello, aquelle
homem parecia inglez.
Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente
corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo
luxo, d'um aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os
logares onde ordinariamente se está, se falla e se vive, aquelle quarto
não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira,
umas luvas cahidas, alguma d'estas mil pequenas coisas confusas, que
demonstram a vida e os seus incidentes triviaes.
F..., tinha-se approximado de mim.
--Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei.
--Não. Conheceste?
--Tambem não. Ha um que ainda não fallou, que está sempre olhando para ti.
Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.
Um dos mascarados approximou-se, perguntando:
--Quanto tempo póde ficar o corpo assim n'esta _chaise-longue_?
Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas
conteve-se. N'este momento o mascarado mais alto, que tinha saido,
entrara, dizendo para os outros:
--Prompto!...
Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F..., que
passeiava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.
--Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado--damos-lhe a
nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo.
Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão
retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões,
tudo o que quizerem. Imaginem que estão aqui pela violencia, pela
corrupção, pela astucia, ou pela força da lei... como entenderem! O facto
é que ficam até amanhã. O seu quarto--disse-me--é n'aquella alcova, e o
seu--apontou para F.--lá dentro. Eu fico comsigo, doutor, n'este sofá. Um
dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Ámanhã
despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte á policia ou escrever para
os jornaes.
Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. Não
respondemos.
Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta
de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova.
Eu passeava. N'uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto
d'uma poltrona, uma coisa branca similhante a um lenço. Passei defronte da
poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz
para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objecto caido. Era
effectivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande
delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter
bordadas uma firma e uma corôa.
N'este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se
a F...
--Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessario vendar-lhe
os olhos.
F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu elle mesmo os
olhos, e sairam.
Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente.
Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente,
elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias.
Bebi apenas um copo d'agua. Elle comeu.
Lentamente, gradualmente, começámos a conversar quasi em amizade. Eu sou
naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha
viajado e tinha lido.
De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar
leve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O
mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso.
Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou
as luzes.
Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das
chaves que a pessoa que estava fóra ás escuras procurava introduzir na
fechadura.
Nós, immoveis, não respiravamos.
Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um
phosphoro, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, immovel,
com os braços estendidos.
Ámanhã, mais socegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.
* * * * *
P.S.--Uma circumstancia que póde esclarecer sobre a rua e o sitio da casa:
De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando
o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:
Escrevi uma carta a Cupido
A mandar-lhe perguntar
Se um coração offendido...
Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando,
lerem esta carta, prestarão um notavel esclarecimento dizendo em que rua
passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas
populares.
V
Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade,
reconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se
seguiu á entrada imprevista d'aquella pessoa no quarto onde estava o
morto.
O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhámos-lhe a
testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda
tremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a
janella!
O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e
arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto.
Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:
--Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o
coração!
--Vá, vá, disse eu, breve! responda... Que quer? Que veio fazer aqui?
Elle não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia
machinalmente:
--Está perdido tudo! Está tudo perdido!
--Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veiu
fazer aqui? Que é isto? como soube?...
A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim negro da
mascara.
--Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o
como um vime.
--Escute... disse o homem convulsivamente. Vinha saber... disseram-me...
Não sei. Parece que já cá estava a policia... queria... saber a verdade,
indagar quem o tinha assassinado... vinha tomar informações...
--Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.
Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia
ali um cadaver! Só elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente
ignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde
estava o cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao
logar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava
positivamente envolvido no crime...
--Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.
O homem calou-se.
--Quem lhe fallou n'isto?
Calou-se.
--Que vinha fazer, de noite, ás escondidas, a esta casa?
Calou-se.
--Mas como sabia d'este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento
nós?...
E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do
expediente que ia tomar, accrescentou:
-- ... nós e o senhor comissário.
O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os
bolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos.
--Para que era isto?
--Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa... um
caixote...
O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento
rapido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a
livida face do cadaver.
--Conhece este homem?
O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar,
demorado e attento.
Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos
olhos d'elle, dominei-o, dísse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:
--Porque o matou?
--Eu? gritou elle. Está doido!
Era uma resposta clara, franca, natural, innocente.
--Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como
tinha a chave? Para que era este martello? Quem é o senhor? Ou dá
explicações claras, ou d'aqui a uma hora está no segredo, e d'aqui a um
mez nas galés. Chame os outros, disse elle para mim.
--Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o
desconhecido.
Esperámos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem
dicta:
--A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem
desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é
destemido, vá a tal rua, n.º tantos...
Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde
estava!
Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôz-lhe a mão aberta sobre a
bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:
--Se diz onde estamos, mato-o.
O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali,
sem saber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presença eram
tambem suspeitos, e que por consequencia não eramos empregados da policia.
Esteve um momento calado e accrescentou:
--Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem
aqui?
--Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o
assassino.
--Esperem, esperem, gritou elle, não comprehendo! Quem são os senhores?
Suppuz que eram da policia... São talvez... disfarçam para me
surprehender! Eu não conheço aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me sair...
Que desgraça!
--Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado.
Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astucia.
Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me
que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu.
O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o
homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Elle pedia-me _que o
salvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado
pela imaginação. Era facil surprehender a verdade dos seus actos. Com um
modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras e
simples, mas cheias de traição e de analyse. Elle, com uma boa fé
inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.
--Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.
--Qual?
--É que não tivesse deixado signaes o arsenico...
--Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.
Ergui-me de salto. Aquelle homem, se não era o assassino, conhecia
profundamente todos os segredos do crime.
--Sabe tudo, disse eu ao mascarado.
--Foi elle, confirmou o mascarado convencido.
Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:
--A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a mão,
dêmos parte á policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem
decerto que vêr n'este negócio.
--De certo que não. Este homem é o assassino.
E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da
mascara:
--E porque o matou?
--Matei-o... respondeu o homem.
--Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para
lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso,
dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de
prata, que eram as iniciais do seu nome.
--Eu!... para o roubar! Que infamia! Mente! Eu não conheço esse homem,
nunca o vi, não o matei!
--Que malditas contradicções! gritou o mascarado exaltado.
A.M.C. objectou lentamente:
--O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o unico
amigo que elle conhecia em Lisboa?
--Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço.
Falle,diga.
--Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este
sujeito, que é extrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou ha
poucas semanas, vinha a esta casa...
--É verdade, atalhou o mascarado.
--Que se encontrava aqui com alguem...
--É verdade, disse o mascarado.
Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das idéas perturbada, via
apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel.
--Além d'isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem que um
grande segredo occupava a vida d'este infeliz...
--É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto.
--Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa,
pediu-me que viesse ver se o encontrava...
Nós esperavamos, petrificados, o fim daquellas confissões.
--Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.
E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.
--Leia, disse elle ao mascarado.
Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com
os braços pendentes, os olhos cerrados.
Ergui o papel, li:
_I declare that I have killed myself with opium._
(Declaro que me matei com opio).
Fiquei petrificado.
O mascarado dizia com a voz absorta como n'um sonho:
--Não é possivel. Mas é a lettra dele, é! Ah! que mysterio, que mysterio!
Vinha a amanhecer.
Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até
ámanhã.
VI
Peço-lhe agora toda a sua attenção para o que tenho de contar-lhe.
A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruidos da povoação que desperta. A rua
não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada.
Tambem não era uma rua larga, porque o echo das carroças era profundo,
cheio e proximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.
O mascarado tinha ficado n'uma prostração extrema, sentado, immovel, com a
cabeça apoiada nas mãos.
O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os
olhos cerrados, como adormecido.
Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas
estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros.
Entrava uma luz lugubre, esverdeada.
--Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessario fazer o
exame do quarto, movel por movel.
Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma
cama, e á cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de
velludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de
setim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fôfo, como se não
usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra com
flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas
dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova
estava uma bengala grossa com estoque.
Na disposição dos objectos na sala não havia nenhuma particularidade
significativa. O exame d'ella dava na verdade a persuasão de que se estava
n'uma casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um logar
de entrevistas, e não um interior regular.
A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos
via-se no chão, ao pé da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre o
tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao pé da
cama.
Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou
carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o
relogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha
d'ouro, com dinheiro miudo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde
averiguar em que tivesse sido trazido de fóra o opio; não appareceu
frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou
em pó; e foi a primeira difficuldade que no meu espírito se apresentou
contra o suicidio.
Perguntei se não havia na casa outros quartos que communicassem com
aquelle aposento e que devessemos visitar.
--Há, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas escadas.
Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontrámol-a
fechada pelo outro lado quando chegámos aqui. Logo este homem não saiu
d'esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.
Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o
frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer.
Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto
da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir a
hypothese do suicidio: não se encontrou a gravata do morto. Não era
natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lançado
fóra. Não era tambem racional que tendo vindo áquelle quarto,
esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse
gravata. Alguem pois tinha estado n'aquella casa, ou pouco antes da morte
ou ao tempo d'ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a
gravata do morto.
Ora a presença de alguem n'aquelle quarto, coincidindo com a estada do
supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava
presumpções ao crime.
Aproximámo-nos da janella, examinámos detidamente o papel em que estava
escripta a declaração do suicida.
--A lettra é d'ele, parece-me indubitavel que é--disse o mascarado--mas na
verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escripta!
Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas.
Notei logo no alto da pagina a impressão muito apagada, muito indistincta,
d'uma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia
folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao
mascarado: elle ficou surprehendido e confuso. No quarto não havia papel,
nem tinteiro, nem pennas. A declaração pois tinha sido escripta e
preparada fóra.
--Eu conheço o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado; não é
d'este; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar d'outro.
A impressão da marca não era bastante distincta para que se percebesse
qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração
não tinha sido escripta nem em casa d'elle, onde não havia d'aquelle
papel, nem n'aquelle quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem
um livro, um _buvard_, um lapis.
Teria sido escripta fóra, na rua, ao acaso? Em casa d'alguem? Não, porque
elle não tinha em Lisboa, nem relações intimas, nem conhecimento de
pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.
Teria sido feita n'uma loja de papel? Não, porque o papel que se vende
vulgarmente nas lojas não tem corôas.
Seria a declaração escripta n'alguma meia folha branca tirada de uma velha
carta recebida? Não parecia tambem natural, porque o papel estava dobrado
ao meio e não tinha os vincos que dá o _enveloppe_.
Demais a folha tinha um aroma de pós de _marechala_, o mesmo que se
sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.
Além d'isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz,
distingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o
papel no momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua
brancura lisa e assetinada, havendo deixado uma impressão exacta. Ora este
dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente
vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente
efficaz e seguro.
--Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de
escrever, abreviando-a, a palavra _that_, d'este modo: dois TT separados
por um traço. Esta abreviatura era só d'elle, original, desconhecida.
N'esta declaração, aliás pouco ingleza, a palavra _that_ acha-se escripta
por inteiro.
Voltando-se então para M. C.:
--Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta
declaração foi falsificada.
--Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com
surpreza.
--Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios
d'isso. Mas o grande, o forte, o positivo indicio é este: onde estão 2:300
libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?
M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.
--Não apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este
homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.
--Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a
minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.
Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada
sobre as feições do mancebo:
--Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer
este novo negocio das 2:300 libras, de que só agora se falla; o que vejo é
que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o
matou, o que sei é que evidentemente o cumplice é uma mulher.
--Não póde ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma supposição absurda.
--Absurda!?... E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente
perfumado, carregado de estofos, illuminado por uma claridade baça coada
por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado
com uma corda de seda; ali aos pés d'aquella volteriana aquelle tapete
feito de uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o
vestigio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta
evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?...
--Ou a qualquer outro fim.
--E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres
compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?
--Muitos homens o usam!
--Mas não o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia o
mesmo aroma que se respira no ambiente d'esta casa. Este papel pertence a
uma mulher, que examinou a falsificação que elle encerra, que assistiu a
ella, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os
dedos humidos, deixando no papel um vestigio tão claro...
O mascarado calava-se.
--E um ramo de flôres murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e
que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita
está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco,
como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um
buraquinho... É o vestigio flagrante que deixou no veludo um gancho de
segurar o cabello!
--Esse ramo podiam ter-lh'o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de fóra.
--E este lenço que encontrei hontem debaixo de uma cadeira?
E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou n'elle avidamente,
examinou-o e guardou-o.
M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das
minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois
com voz humilde, quasi supplicante:
--Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios não provam. Este lenço,
de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto
trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontrámos lenço?
--E não se lembra tambem que não lhe encontrámos gravata?
O mascarado calou-se succumbido.
--No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro
vivamente esta morte, e fallo n'isto unicamente pelo pezar e pelo horror
que ella me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que
caisse ás mãos de uma mulher ou ás mãos de um homem, importa-me pouco. O
que devo dizer-lhe é que o cadáver não póde ficar por muito mais tempo
insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é
sair.
--Tem razão, vae sair já, cortou o mascarado.
E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:
--Um momento! Eu volto já!
E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa,
fechando-a á chave pelo outro lado.
Fiquei só, passeando agitadamente.
A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de
pensamentos inteiramente novos e diversos d'aqueles que me haviam occupado
durante a noite. Ha pensamentos que não vivem senão no silencio e na
sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que só surgem
ao clarão do sol.
Eu sentia no cerebro uma multidão de idéas extremunhadas, que á luz
repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas
amedrontadas pelo estridor de um tiro.
Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no
travesseiro.
Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commoção, sobre a
alvura do travesseiro, preso n'um botão de madreperola, um longo cabello
louro, um cabello de mulher.
Não me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.
--Era então certo! ahi estás pois! encontro-te finalmente!... Pobre
cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi,
patente, descuidado, preguiçoso, languido! Pódes ter maldade, pódes ter
malvadez, mas não tens malicia, não tens astucia. Tenho-te nas mãos,
fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não córas; dás-te,
consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente... E, no emtanto,
tenue, exigua, quasi microscopica, és uma parte da mulher que eu
adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ella auctora do crime? é
inteiramente innocente? é apenas cumplice? Não sei, nem tu m'o poderás
dizer?
De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de
espírito inexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro,
reconhecel-o em tudo: na sua côr, na sua _nuance_ especial, no seu
aspecto! Lembrou-me, appareceu-me então a mulher a quem aquelle cabello
pertencia! Mas quando o nome d'ella me veio insensivelmente aos
labios,disse commigo:
--Ora! por um cabello! que loucura!
E não pude deixar de rir.
Esta carta vae já demasiadamente longa. Continuarei ámanhã.
VII
Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado á cabeceira da
cama um cabello louro.
Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso,
languidamente enrolado, quasi casto, era o indicio d'um assassinato, d'uma
cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando,
immovel, aquelle cabello perdido.
A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena,
_mignonne_, porque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente
puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por
uma ligação tenue, delicadamente organisada.
O caracter d'essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante,
porque o cabello não tinha ao contacto aquella aspereza cortante que
offerecem os cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento,
altivo e egoista.
Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, já
pelo imperceptivel perfume d'elle, já porque não tinha vestigios de ter
sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados
phantasiosos.
Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello
denotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do
norte, completamente extranho ás meridionaes, que abandonam os seus
cabelos á abundante espessura natural.
Isto eram apenas conjecturas, deducções da phantasia, que nem constituem
uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.
Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d'um cabello, e que me
apparecia doce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter
sido o protagonista cheio de astucia d'aquella occulta tragedia? Mas
conhecemos nós porventura a secreta logica das paixões?
Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como
cumplice. Aquelle homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no
momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado, sem
violencia evidentemente, por ardil ou engano, n'um copo d'agua. A ausencia
do lenço, o desapparecimento da gravata, a collocação do fato, aquelle
cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de
uma cabeça, tudo indicava a presença d'alguem n'aquella casa durante a
noite da catastrophe. Por consequencia: impossibilidade de suicidio,
verosimilhança de crime.
O lenço achado, o cabello, a disposição da casa, (evidentemente destinada
a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha,
devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido...
tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a
parte d'ella n'aquella aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.?
Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? Não sei. M. C. não
podia ser extranho a essa mulher. Não era de certo um cumplice tomado
exclusivamente para o crime. Para dar opio n'um copo de agua não é
necessario chamar um assassino assalariado. Tinham por consequencia um
interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E accudia-me á
memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras que de repente me
tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas
fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as idéas que se formavam e que
se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n'um ceu varrido pelo vento?
Há de certo na minha hypothese ambiguidades, contradicções e fraquezas, ha
nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas
significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores
inexpressivos se me gravaram na memoria, mas eu estava n'um estado morbido
de perturbação, inteiramente desorganisado por aquella aventura, que
inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na
minha vida.
O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que
socegadamente, em sua casa, lêem esta carta, poderão melhor combinar,
estabelecer deducções mais certas, e melhor approximar-se pela inducção e
pela logica da verdade occulta.
Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o
chapeu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.
--Vamos, disse elle.
Tomei calado o meu chapéu.
--Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar dê-me a sua palavra de
honra que ao subir agora á carruagem não terá um gesto, um grito, um
movimento que me denuncie.
Dei a minha palavra.
--Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu
caracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em
qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso
affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez
entregue este caso á policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez
carrasco. Esta casa é um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva
d'aqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu n'este crime: não o
supponha, não podia ser. No emtanto, se alguma vez lá fóra fallar, a
respeito d'este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a
minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia,
naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah!
esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas
lunetas de cambraia.
E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.
Descemos a escada, entrámos na carruagem, que tinha os stores fechados.
Não pude vêr quem guiava os cavallos porque só dentro do coupé achei a
vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte
da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida, o cabello castanho,
levemente annelado.
A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela
differença de velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas
de macadam e de calçada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na
vespera, no começo da aventura. Rodámos finalmente na estrada larga.
--Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? É
que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se póde remediar isto. Mas não
se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi encontra facilmente
conducção para Lisboa.
E offereceu-me charutos.
Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem
parou.
--Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.
E abriu por dentro a portinhola.
--Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou.
Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no
prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da
scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!
Apertámo-nos a mão, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu os stores e
estendendo-me para fóra um pequeno cartão:
--Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.
Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente,
olhei. O retrato estava tambem mascarado!
--É um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou
elle, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a
rodar a trote.
Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma
capa traçada sobre o rosto.
Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle
trem levava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle
homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.
O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sophá, que lhe servia de
sarcophago!
Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancolica. Ao
longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto
áquelle por onde elle desapparecia.
--Onde fica o Cacem?
--De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.
A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.
Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, á quinta de F., saber
se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a
a uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores
e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda
a brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o
vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa
alvadia.
Tomei informações a respeito da carruagem que passara na vespera comnosco.
Havia contradicções sobre a côr dos cavallos.
Voltou de Cintra o homem que eu ali mandára, dizendo que na quinta de F.
tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera
que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara
comsigo em uma caleche para Lisboa. D'ahi a momentos chegou a minha
carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido
este bilhete a lapis: _Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem
me procurar, que fui para Madrid._
Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava
evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do
mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa,
notei que era seguido.
Entregar á policia este negocio, tão vago e tão incompleto como elle é,
seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que, em resultado das
primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa officiou ao
administrador de Cintra convidando-o a metter o esforço da sua policia no
descobrimento d'este crime. Foram inuteis estas providencias. Assim devia
ser. O successo que constitue o assumpto d'estas cartas está por sua
natureza fóra da alçada das pesquizas policiaes. Nunca me dirigi ás
authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo para isso
as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando ser
victima de uma emboscada.
São obvias, depois d'isto, as rasões por que lhe occulto o meu nome:
assignar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como
quero.
Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do
sol nascente atravez das minhas jelozias. Oiço os pregões dos vendedores
matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens, o murmurio
alegre da povoação que se levanta depois de um somno despreoccupado e
feliz... Invejo aquelles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras
passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu--pobre de mim!--estou encarcerado
por um mysterio, guardado por um segredo!
P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias,
só hoje me veiu á mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu
ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora
pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor, copiada
por mim, a primeira parte d'essa carta, da qual depois de ámanhã lhe
enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante
esclarecimento n'este obscuro successo; é um vestigio luminoso e profundo.
F... é um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem é muito mais
facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher. É
gravissima a situação do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso, hesitante,
perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão,
rendo-me á decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do
autographo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa
carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me
a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem... se poderem.
Adeus!
+INTERVENÇÃO DE Z.+
Nota do Diario de Noticias.--No original da carta publicada hontem havia
algumas palavras a lapis, nas quaes só fizemos reparo depois de impresso o
jornal. Essas palavras continham esta observação: _A photographia do
mascarado foi feita em casa de Henrique Nunes, rua das Chagas, Lisboa.
Talvez ahi possa haver noticia do sujeito photographado._
Antes de darmos á estampa a longa carta de F..., cuja primeira parte nos
foi hontem enviada pelo medico, é dever nosso tornar conhecida uma outra
importantissima que recebemos pela posta interna, assignada com a inicial
_Z._, e que temos em nosso poder ha já tres dias. Esta carta, que tão
estreitamente vem prender-se na historia dos successos que constituem o
assumpto d'esta narrativa, é a seguinte:
Senhor redactor do _Diario de Noticias_.--Lisboa, 30 de julho de
1870.--Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quasi
toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor
anonymo conta o caso que essa redacção intitulou _O mysterio da Estrada de
Cintra_. Interessava-me essa narrativa e segui-a com a curiosidade
despreoccupada que se liga a um _canard_ fabricado com engenho, a um
romance á similhança dos _Thugs_ e de alguns outros do mesmo genero com
que a veia imaginosa dos phantasistas francezes e americanos vem de quando
em quando acordar a attenção da Europa para um successo estupendo. A
narração do seu periodico tinha sobre as demais que tenho lido o merito
original de se passarem os successos ao tempo que se vão lendo, de serem
anonymas as personagens e de estar tão secretamente encoberta a mola
principal do enredo, que nenhum leitor poderia contestar com provas a
veracidade do caso portentosamente romanesco, que o auctor da narrativa se
lembrara de lançar de repente ao meio da sociedade prosaica, ramerraneira,
simples e honesta em que vivemos. Ia-me parecendo ter diante de mim o
ideal mais perfeito, o typo mais acabado do _roman feuilleton_, quando
inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciaes de um nome
de homem--A. M. C.--accrescentando-se que a pessoa designada por estas
lettras é estudante de medicina e natural de Vizeu. Eu tenho um amigo
querido com aquellas iniciaes no seu nome. É justamente estudante de
medicina e natural de Vizeu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia por
tanto o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamissima. Isto não
é licito a romancista nenhum.
A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tedio. Saindo de
casa pouco depois da leitura do seu periodico, procurei o meu amigo para
lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me á sua disposição no
caso que precisasse de mim para pedir quanto antes á redacção do _Diario
de Noticias_ a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não
poderiam de certo recusar a semelhante aggravo.
Em casa do meu amigo acabo porém de saber, cheio de confusão e de
surpresa, que elle desappareceu e que é ignorado o seu destino!
Este desapparecimento e a coincidencia achada na carta do doutor levam-me
desgraçadamente a acreditar que por extranhas fatalidades o meu infeliz
amigo se acha involuntariamente envolvido n'este tenebroso negocio. A data
do desapparecimento d'elle condiz perfeitamente com a que encontro na
carta do seu correspondente. É claro que ha pois em volta da pessoa de A.
M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.
Serei tristemente obrigado a ter por veridica, no todo ou em parte, a
noticia que leio na sua folha?
Julgo do meu dever assegurar o seguinte:
Não sei o que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa casa
desconhecida, tendo uma chave d'ella, martello e pregos. Não sei porque se
declarou auctor do assassinato, negando-o depois. Ignoro a intima verdade
d'estas contradicções.
Mas o que sei, aquillo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas
amigos, mas numerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do
assassinato elle esteve, até quasi de madrugada, em minha casa,
conversando, rindo, bebendo cerveja.
Saiu talvez ás tres horas da noite.
Declaro tambem, e isto póde ser egualmente apoiado por seguras
testemunhas: que ás nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto
d'elle. Ainda dormia, acordou sobresaltado á minha voz, e tornou a
adormecer em quanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.
As donas da casa que o hospedam disseram-me que elle entrara pela
madrugada.
--Ali pela volta das tres e meia, conjecturavam ellas.
Ora da minha casa, d'onde saiu ás tres, até casa d'elle, onde entrou ás
tres e meia, o caminho que é longo, occupa justamente este espaço de
tempo.
Por consequencia, respondam: quando commetteu elle o crime? O emprego do
seu tempo está todo justificado: das nove da noite até á madrugada em
minha casa, n'uma conversa jovial e intima; da madrugada até ás nove, n'um
somno pacifico em sua propria casa.
Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não ha testemunhas. É
crivel que em meia hora podesse ir alguem a essa casa, preparar opio,
fazel-o beber a um homem, falsificar uma declaração e vir socegadamente
dormir? Tem isto logica?
Demais o crime foi commettido n'uma casa, o opio foi deitado n'um copo
d'agua, dado traiçoeiramente. O cadaver estava meio despido. Tudo isto
indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham
conversado intimamente, tinham rido decerto; o que depois morreu tinha
talvez calor, poz-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura
anedoctas, e n'um momento de sede, o opio foi dado n'um copo d'agua. E
tudo isto se faz em meia hora! em _meia hora!_ Devendo, meus senhores,
descontar-se d'esta meia hora o tempo que vae de minha casa á casa do
crime, e d'ahi a casa de A. M. C.! Póde isto ser?
Agora outro argumento: Eu conheço A. M. C.: o seu caracter é digno,
impeccavel; o seu coração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e
isolada; não existe n'ella nem mysterio, nem aventura, nem pathetico:
estava para casar, sem romance, trivialmente.
Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Estou certo
que nunca viu o assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia
extrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado ha pouco tempo em Portugal!
Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impossivel. Se o
homem foi encontrado estendido n'um sophá, morto com opio!
Poderia M. C. ter sido assalariado para commetter este crime? Que loucura!
Um homem da sua intelligencia, do seu caracter, da sua elevação de
espírito! Além de que, hoje o emprego de homicida, regular e devidamente
retribuido como uma funcção publica, não existe nos costumes.
Póde-se conceber que um homem que premedita um crime esteja até ao momento
decisivo distrahido, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo
cerveja? E que depois vá socegadamente dormir, e que um amigo que o visite
na manhã seguinte encontre sobre a sua banca de cabeceira, uma chavena de
chá e um livro de historia?
E dê-se isto com um homem de caracter timido, de habitos modestos, homem
de estudo, sem energia de acção, e de uma notavel franqueza de impressões!
Se me perguntarem, porém, porque apparece M. C. de noite n'aquella casa
com um martello, com pregos, e se declara assassino,--isso não o sei
explicar.
Suspeito que haja uma grande influencia que peza sobre elle, alguem que
com promessas extraordinarias, com seducções indisiveis, o obriga a
apresentar-se como auctor do crime. M. C. evidentemente sacrifica-se. Por
quem, ignoro-o. Mas sacrifica-se, e na ignorancia de que estas dedicações
são sempre desapreciadas perante o trabalho da policia, quer expiar o
crime de outro; perde-se para salvar alguem.
Com que interesse? por que seducções? Não sei explicar. Elle, tão
indifferente ao dinheiro! tão rigido de costumes e de sensações!
Pois bem! M. C. póde sacrificar-se; póde-o fazer. Nós, seus amigos, é que
não podemos consentil-o. O seu corpo, que lhe pertence exclusivamente,
póde dal-o á infecção d'um carcere, ou ao peso d'uma grilheta. Mas o seu
caracter, a sua honra, a sua reputação, a sua alma, essa pertence tambem
aos seus amigos, e a parte que nos pertence havemos de defendel-a
corajosamente.
Não! M. C. não foi o assassino. Dil-o a evidencia, a fatal logica dos
factos, a terrivel mathematica do tempo, o conhecimento do seu caracter, e
a coherencia dos temperamentos, que é uma verdade nas sciencias
physiologicas. Não, não é o assassino. Se o diz, está louco, _mente_.
Digo-lh'o claramente, em frente, diante dos seus proprios olhos fitos
sobre os meus:--Se te declaras o auctor d'esse crime, _mentes_!
Elle tem de certo o senso moral transviado. Se me deixassem fallar-lhe!...
Esclareçam-lhe, pelo amor de Deus, aquella rasão cheia de escuras nuvens
da paixão e da dôr! Isto é afflictivo! Honra, amor, familia, esperança,
tudo esqueceu esse homem! Que se lembre, o desgraçado, que não é só n'este
mundo. Que se lembre que talvez a estas horas, no fundo da provincia, sua
mãe, suas irmãs, sabem já que elle está aqui apontado como assassino! Que
se lembre da terrivel deshonra, do seu futuro perdido, das horas
solitarias da prisão, da atroz vergonha de um interrogatorio publico, e do
echo profundo que faz na alma humana o ruido sinistro dos ferros da
grilheta.
Não ponho no fim d'esta carta o meu nome, porque presinto vagamente n'este
grupo de successos, confusamente conglobados perante a minha apreciação, a
passagem mysteriosa e fatal de um crime que vae poderosamente na direcção
do seu fito, esmagando e despedaçando os estorvos que o impecem. Ora eu
não quero que a publicidade do meu nome leve os cumplices no attentado de
que se trata, ou porventura a policia, a aniquillar ou a embaraçar de
qualquer modo a intervenção expontanea que eu proprio vou ter no
descobrimento dos reus. Conto com os meus recursos, mas preciso para os
pôr em pratica de toda a minha liberdade.
Creia-me, senhor redactor, etc--_Z._
+DE F... AO MEDICO+
I
Julho 21 à 1 hora da noite.
--Meu querido amigo.
--Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se
continuas, como eu, permanecendo aqui em carcere privado. Em qualquer dos
casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão
encerrando para aquelle de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa
das horas mais extraordinarias da nossa vida.
Escrevo mais para coordenar e fixar na memoria estes momentos do que para
empregar n'outro destino puramente hypothetico esta carta. Será uma pagina
das minhas confidencias que entregarei á discrição ou ao acaso da posta,
reservando-me o direito de lhe pedir que m'as restitua a seu tempo.
Não tornei a ter noticias tuas desde que nos separámos hontem á noite,
pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadaver. O
mascarado que se encarregára de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me
o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua
e o numero de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da
casa em que ella mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui
dizer serenamente:
--Não o comprehendo.
Este individuo era o mesmo que na carruagem se conservára sempre calado, o
mesmo que na sala me observava com attenção e desconfiança.
Aquella estatura, aquella falla, aquella voz, posto que apenas perceptivel
ao meu ouvido, não eram novas para mim.
Elle respondeu fallando-me ainda mais baixo:
--Não poderá sair d'aqui antes de dois ou tres dias. Veja se precisa de
escrever uma carta ou de mandar um recado.
Passou-me pela mente uma idéa a respeito d'aquelle homem... Se fosse...
Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou se
não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relogio;
bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o
dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio teria a lisura
do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.
--Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lapis?
Tinhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo
em que elle saia promettendo trazer-me o necessario para escrever. O
individuo que voltou com papel e pennas não era o mesmo que acabara de
sair. Assim tinha eu perdido a occasião de confirmar uma suspeita ou de
desvanecer uma duvida.
Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu creado serenando-o com relação
ao meu desapparecimento.
--Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete.
--Nada mais.
Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de
escrever directamente á pessoa a quem o mascarado se referira.
Fecharam a porta e fiquei só.
Achei-me n'um quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janella. A um
lado havia um lavatorio; sobrepostas a um canto tres malas de viagem, de
coiro de Varsovia com pregos d'aço, estrelladas com senhas de caminhos de
ferro, d'hoteis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em
grandes lettras pretas sobre uma tira de papel este distico:
_Grand-Hotel-Paris_; uma das senhas era dos paquetes inglezes da carreira
da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples
guarnição d'este aposento um sophá forrado de marroquim verde, collocado
no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha
ceia á luz fulgurante de um grande candeeiro com largo _abat-jour_.
Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquelle recolhimento, aquelle
socego, aquella solidão, depois da grande sobreexcitação em que me tinha
achado!
Estirei-me no sophá, puz-me a olhar machinalmente para o circulo da luz
trepidante projectada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura
do _abat-jour_, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos spasmos do
coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me
convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação occupada n'um
trabalho inconsciente, similhante ao dos sonhos, ia tirando no emtanto do
caso que eu presenceára as ramificações mais illogicas e mais
phantasticas. Os successos por que passámos desde a estrada de Cintra até
á minha entrada n'este quarto appareciam-me redemoinhando convulsamente no
ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impellidos
pelos pontapés de diabinhos sarcasticos, que se riam para mim e me
deitavam de fóra as linguasinhas em braza.
Fui caindo mollemente n'um despego languido, fecharam-se-me os olhos,
adormeci.
Ao acordar, depois de um somno breve mas socegado e reparador, encarei na
ceia que reluzia aos meus olhos.
Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma
terrinasinha de _foie gras_, uma perdiz, uma fatia de queijo e tres
garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto d'estas, quatro
garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o
sacarolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos côr
de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas
de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se collocado o
instrumento destinado a abril-a. O copo era de cristal finissimo, o garfo
de prata dourada, a faca de cabo de madreperola, os pratos de porcellana
brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei
rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sophá, senti a fome
encavallar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia,
cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estomago
vasio os acicates da gula.
Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto,
cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão
descarnada e tremula com um gesto prohibitivo e solemne. Atarantado,
perplexo, escutei então dentro de mim um breve dialogo similhante áquelles
que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a _besta_, na sua
viagem á volta do quarto.
Havia uma voz pausada e grave que dizia:
--Attenta no que fazes, temerario! abre teus olhos, inconsiderado mortal!
Essa perdiz, cujo peito insidioso e perfido está lourejando a teus olhos,
foi apimentada com arsenico. Aquelle Chambertin, que te espera como uma
onda da lagoa Stigia, embuscada por detraz d'aquelle lettreiro
envernizado, apparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade
tenebroso e fatal como o distico do festim de Balthazar, aquelle vinho,
que te offerece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com
acido prussico. As truffas, lubricas, venaes, devassas, envoltas n'esses
figados de pato, estão empapadas nos temperos lethaes da cosinha dos
Borgias!
A outra voz, insinuante e meiga, dizia n'uma vaga melodia de sereia:
--Come, se tens fome, estupido! Estás com medo do papão, maluco?... Põe os
olhos n'esse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que
elle tapa a marca d'esse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada,
chumbada e garantida com os mais especiaes lavores a lata d'essas
sardinhas pescadas nas costas de França e cosinhadas ha seis mezes em
Marselha? Não vês religiosamente grudada e sellada com as etiquetas
insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de _foie
gras_? Suppões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te
arrancar essa vida inutil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da
sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso.
Deleita-te conversando depois comtigo e repousando-te no seio tepido da
melancolia, d'essa deliciosa fada que só apparece evocada pelos namorados
e pelos solitarios, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã
_gatée_, a irmã feliz!
Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da
terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que
misturára n'um copo.
Puz-me por fim a comer com apetite, com valor, com delicia, com uma
especie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta
de mim os espiritos beneficos do carcere que bafejaram as prisões de
Silvio Pellico.
É singular isto: achava-me bem!
Depois da ceia accendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo
comigo:
--Visitemos o paiz!
Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra
porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei
a cama encostada á parede em que se achava esta porta e abri-a.
Era uma armario na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia
altura por um prateleiro espaçoso e solido.
Occorreu-me que ao fundo do armario haveria talvez um tabique delgado
atravez do qual me seria possivel escutar o que se passasse na casa
contigua.
Penetrei no armario, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado
havia um ruido volumoso e macisso. Parecia que se estava arrastando um
movel pesado e grande.
O fundo do armario era effectivamente formado por um tapamento franzino.
Era possivel que tivesse havido primitivamente uma porta no logar em que
se fizera o armario. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via
deante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da
cal.
Peguei no saccarolhas, e no logar indicado fui esburacando devagarinho e
progressivamente o cimento do muro, até operar um orificio imperceptivel,
pelo qual me era dado vêr a luz e ouvir distinctamente o que se dizia do
outro lado.
Eis-aqui o que ás onze horas e meia da noite se estava passando no quarto
contiguo áquelle que me serve de prisão:
II
Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do logar em
que elle estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho
d'aquella em que se passava a scena que descrevo, e exactamente para junto
do logar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de
orelha.
Um d'esses homens dizia assim:
--Será o que muito bem quizer, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos
trambulhões com os moveis á hora da meia noite.
--Ha de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para
me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo
estendido ao pé da mangedoura, á espera que chegue o trem para ir tratar
dos cavallos, a enfastiar-se sem ganhar vintem.
Aquelle que dizia estas palavras, comquanto se expressasse claramente,
tinha todos os defeitos de pronuncia que distinguem os extrangeiro que
falla portuguez. Pela aspiração especial de certas vogaes e pela
contracção habil com que pronunciava os aa, era por certo allemão.
O que primeiramente fallára, proseguiu:
--É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E
olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a
estas horas, ainda que os pese a oiro!
--Para mudar uma cama!
--Não é pela cama, é por ser a casa que é!
--Ora adeus! que tem a casa?!...
--Não tem nada! É uma graça! Ella é de tal casta que o senhorio teve-a
quatro annos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já
de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A ultima gente que cá
morou esteve só duas noites, e foi-se d'aqui tolhida com as coisas que lhe
appareceram e com as trapalhadas que ouvia... Cruzes demonio! cruzes
diabo!
--Petas! historias da vida!
--O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a familia!?... não
estive com elles!? Fugiram de noite, fugiram á segunda noite que dormiram
cá, estarrecidos de medo.
--Então que viram elles?
--Elles não viram nada.
--Então ahi tem!
--Não viram, mas ouviram.
--Haviam de ouvir boas coisas!
--Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a elles que succedeu isso,
foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que
não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram
com ella perdida!
--Então que ouviam elles?
--O senhor bem o sabe!... O que elles ouviam? Ouviam pancadas nas portas,
quando ninguem batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem
os carvões exactamente como se estivessem abanando á fogueira, quando
estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um
passaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes;
ouviam-o arquejar e bufar approximando-se cada vez mais dos que estavam
deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das
pennas, o calor de lume que elle deitava do bico e ao mesmo tempo o frio
de neve que fazia a mover as azas!
--Ora adeus! tinham ouvido fallar n'isso e pareceu-lhes que sentiam o tal
passaro, de que já fallavam os inquilinos anteriores, os quaes tambem
tinham ouvido fallar n'elle, não havendo ao fim de contas ninguem que
verdadeiramente o tivesse ouvido.
--Então o senhor não sabe porque foi que elles fugiram, os ultimos que
estiveram cá, faz agora quatro annos?
--Ouvi fallar n'isso, mas por alto, não me deram pormenores.
--Eis ahi está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram
gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis annos. Para o
que désse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem
elles não contavam nada por causa do medo, estava n'uma caminha a um lado.
Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam
cansadissimos á noite, lá pegavam no somno apesar do barulho das faúlas do
fogareiro e das argoladas nas portas. Vae senão quando, á segunda noite
que passavam cá, accordam aos gritos da creança. Tinha-se apagado a luz.
Accenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por
dentro. Os fechos das janellas achavam-se corridos. No quarto não havia
mais ninguem. Mas a roupa da cama da creança estava cahida a dois ou tres
passos de distancia do berço em que ella dormia, e a pequenita, nua,
tranzida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes,
disse, quando lhe chegou a falla que teve perdida por um bocado, que
sentira umas cousas como os pés de uma gallinha muito grande que se lhe
pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas
suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que mettiam medo e que ella
não entendia, emquanto um peito coberto de pennas se lhe roçava pelo seio
nu. A mãe então vestiu-lhe á pressa uns fatinhos, embrulhou-a n'um chale,
estreitou-a nos braços, poz-se a dar-lhe beijos e acalental-a com o bafo,
e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e
destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, mettendo-se por todos os
cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com
uma faca de ponta que levava em punho. Não appareceu ninguem! Ninguem
podia ter saido! Ninguem podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a
chave do predio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro
lhe compraria esta casa para elle mesmo a deitar abaixo com um picão e a
machado, para lançar o fogo a quanto podesse arder, e calcar depois aos
pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.
--Pois senhor, eu nenhuma d'essas cousas tenho ouvido, e é esta a segunda
noite que durmo aqui.
--Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?
--Nenhum.
--Por isso por ahi dizem do senhor o que dizem!
--Então que dizem por ahi de mim?
--Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um allemão da Moirama e que
tem partes com o demonio.
--Mais um bocadinho para traz, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro,
mudando de tom.
--Isto assim?
--Ainda mais... um quasi nada... até ficar a cabeceira unida á hombreira
da porta... Basta!
--Não quer mais nada?
--Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve d'ali uma d'aquellas velas para
que o avejão lhe não appareça na escada ao apanhal-o ás escuras.
--Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta...
--A fallar-lhe a verdade gosto!
--Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá,
veja se passa ahi para a casa que fica ao lado!
--Bem me queria a mim parecer que a casa do lado tambem tem...
--Se tem! Essa então é o diabo, é o proprio diabo que lá mora!
O homem que viera ajudar á mudança da cama accendeu a luz e desceu a
escada. O allemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para
se deitar.
O dialogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e
despertado em mim o mais curioso interesse.
Sem procurar directamente indagar cousa alguma, começava a entrar pelo
modo mais extranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados
pela superstição ou pela ignorancia, explicariam de certo o desfecho a que
viemos assistir e a presença do cadaver na sala em que o fomos encontrar.
Agora nós, meu interessante e precioso visinho.
III
A cama do allemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de
observação. O meu visinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou ás
escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se
ageitava para dormir.
--Ah! tua amas o murmurio dos espiritos invisiveis?... exclamei eu,
dirigindo-me mentalmente ao philosopho que me ficava do outro lado do
muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moleculas da vida animal que
vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro mysterioso que as
condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu
espírito esses elos informes e incoerciveis, que ligam o mundo das cousas
conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas
as tuas faculdades de _medium_...
E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede tres pancadinhas
seccas, methodicamente espaçadas, como as dos signaes maçonicos.
Senti roçar a mão d'elle pelo papel que forrava o muro, como quem
procurasse apalpar algum signal do rumor que ouvira.
Entrei então a repetir com successiva frequencia o rebate que lhe dera
percorrendo differentes pontos da parede que servia de fundo ao armario.
Percebi que elle se sentava na cama. Ouvi estalar um phosphoro.
Accendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei
silencioso e immovel. O meu visinho apagou finalmente a luz ao cabo de
alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como
primeiro fizera. Elle, tendo escutado por algum tempo ás escuras, accendeu
outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual
lhe ficava a cama.
No momento em que a chamma da vela perpassava na mão d'elle por defronte
do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.
O allemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede,
expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror,
com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo.
O que produzira esse estrondo fôra o baque do corpo d'elle, cahindo da
cama abaixo.
Logo depois ouvi a voz do visinho perguntando com decisão e firmeza:
--Quem está ahi?
Respondi-lhe:
--Sou eu.
--Quem és tu?
--E tu quem és?
--Frederico Friedlann, cidadão prussiano.
--Ah! disse eu.
--Viajo por conta da primeira fabrica de productos chimicos de Buda Pesth,
os quaes sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriaes da
Europa.
--Bem! observei.
Elle continuou impassivelmente:
--Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa tres predios de que
elle tinha noticia, os quaes se achavam abandonados depois de algum tempo
de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi
morar successivamente nas casas que elle me indicou e é esta a primeira
que habito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo.
Poderei saber agora a quem me dirijo?
--Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das
minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e occupando-me
de quando em quando com a politica ou com a litteratura, quando não tenho
outra cousa menos insipida e menos inutil em que agitar a minha ociosidade
e o meu tedio. Não sou espiritista.
--Pois faz mal! O espiritismo é um systema e póde bem succeder que venha
ainda a ser uma religião.
--Puff! exclamei eu rindo.
--O quê! continuou elle. O materialismo, guiado de um lado pelas
conquistas das sciencias physicas e naturaes e de outro lado pelo
relaxamento dos costumes contemporaneos, e pela depressão successiva e
assustadora da moral, vae comendo no campo da philosophia o espaço não já
muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão
successivamente sustituir as crenças e as doutrinas mortas por que se
regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades,
não poderá nunca prescindir do maravilhoso, d'esse attractivo supremo da
sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e
aperfeiçoado pela sciencia futura, a theoria de uma tal ou qual
sobrevivencia que o lisongeie, e a base de correlações ainda não estudadas
dos seres que existem com aquelles que os precederam e com os que se lhes
hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os philosophos
contemporaneos que não querem acceitar em absoluto o dogma esteril e
desconsolador da materia omnipotente, os unicos que hão de collaborar na
philosophia do futuro.
--Ora ha de me dar licença que lhe pergunte uma cousa...
--Tem-me ás suas ordens.
--Sem com isto querer fazer aggravo ao seu juizo!
--Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a
natureza d'ella.
--Acredita em alguma das cousas em que esteve ahi fallando o homem que
veiu ajudal-o a mudar a cama?
Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava fallando com
um doido, com um visionario, com um monomaniaco, ou simplesmente com um
homem de espírito extravagante, com um excentrico.
--Eu não creio nem tambem descreio de cousa alguma que ouço, responde-me
elle. É meu systema admittir tudo quanto esteja para se provar e duvidar
de tudo aquillo que me apresentem como cousa positiva. É o unico meio
prudente de nunca nos affastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa
de ha pouco, tem uma parte da historia d'esta casa. Neguei quanto me disse
o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do predio a
desvanecer com as minhas informações o anathema que pesa sobre a sua
propriedade. A verdade é que tenho ouvido distinctamente ha duas noites
consecutivas um rumor insistente e prolongado similhante aos estalidos que
produz ao ateiar-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca
um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se
move, sem que ninguem lhe toque, do centro da mesa em que o colloquei para
uma das extremidades d'ella. O pó agglomerado em volta da base do busto, e
que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vae deixando
successivamente sobre a superficie da mesa o vestigio d'esse movimento
vagaroso, lento, quasi imperceptivel, mas progressivo e constante. N'esta
porta ao pé da qual colloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por
duas, ora por tres vezes, uma argolada perfeitamente clara e distincta.
Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder
fazel-o do modo mais rapido), fica sempre inexplicavel para mim a razão
porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!
Todas estas cousas eram asseveradas pelo prussiano com a emphase da
sinceridade e da convicção mais profunda!
--E d'esta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que
lhe consta?
--Eu lhe digo...
--Sinceramente!
--Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu
conta que ouvia no silencio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar
de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns visinhos têem visto entrar
vultos mysteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural d'este
mundo.
--Qual é então o seu juizo, vejamos?
--É evidentemente...
--Diga! diga!
--Presumo eu, pelo menos...
--Vamos! sem rodeios, francamente!
--De duas uma: ou uma loja maçonica, ou uma casa de jogo.
IV
As palavras do allemão acabavam de lançar no meu espírito a luz subita de
uma revelação que me obrigava a meditar.
O que se passava por mim, o mysterio que me cercava, o cadaver que vira, a
presumpção--ainda que vaga--da concorrencia de um ou mais amigos meus
envolvidos n'este acontecimento, tudo isto era tão extraordinario e tão
grave que eu não ousava referil-o ao homem desconhecido que o acaso me
deparava por visinho.
Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente
saber qual era a rua e a casa em que estava; não me occorria porém um
pretexto plausivel para levar o allemão a dizer-m'o, sem que eu o
interrogasse de um modo ambiguo, que poderia levantar sobre a situação em
que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas
compromettidas n'este negocio. Contentei-me pois em allegar o incommodo a
que me obrigava a posição em que estava, e dei as bôas noites ao meu
visinho. Elle despediu-se batendo no muro tres pancadas espaçadas por
pausas eguaes ás d'aquellas com que eu primeiro lhe despertára a attenção.
Lembrou-me que poderia ser mação aquelle homem, e que nas circumstancias
em que eu estava me serviria a protecção que lhe pedisse em nome de
juramentos reciprocos e de compromissos communs. Dei-lhe então uma letra,
elle respondeu-me com outra e assim construimos successivamente a palavra
da senha.
--_Salut, mon frêre!_ exclamou elle.
--Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro
ao sinal que me déra.
Fechei em seguida o armario, cheguei a cama para o logar d'onde a tinha
removido, e deitei-me vestido.
Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.
N'esta casa, debaixo d'estes mesmos tectos, está morto um homem, moço,
elegante e bello, que entrára aqui, cheio talvez de esperanças,
d'alegrias, de projectos no futuro, e que de repente caiu para todo o
sempre, envenenado por mão mysteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe
de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da familia que
o acarinhou em pequeno, longe dos logares saudosos que o viram nascer, da
mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pae angustiado que em nome da
humanidade lhe lançasse a derradeira benção.
Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito
para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu
corpo inerte, impassivel, mudo como a interrogação de um enigma posto
anonymamente no meio de uma pagina branca? quem sabe os pensamentos que a
morte immobilisou no teu cerebro? quem sabe os affectos que ella enregelou
no teu coração, onde ha pouco tempo ainda golphava abundantemente a
fecunda seiva d'essa mocidade esterilisada e extincta agora para sempre?
Pobre moço! tão digno de lastima como és, merecedor talvez de profundas
saudades, ahi estás adormecido no teu somno eterno, vestido de baile,
coberto com uma manta de viagem, estirado n'um sophá, insensivel para
sempre ás alegrias e ás amarguras d'esta vida miseravel; e não haverá por
ventura uma só lagrima que commemore, na historia breve da tua passagem na
terra, este praso tão pungentemente melancolico em que os mortos estão
esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade póde
dispensar áquelles que mais présa e que mais ama: a doação da cova em que
reside o esquecimento!
Os olhos d'aquelles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados
talvez pelo somno tranquillo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem
querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam
sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz
cantarolando a ultima valsa que o baile te deixou no ouvido, vêr-te
finalmente apparecer, descuidado, risonho e feliz.
Coitados!... Os passos d'aquelle que ainda hoje talvez se despediu da vós
contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir
o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais á voz
que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o
fitavam; os seus labios não voltarão outra vez a approximar-se dos labios
que se collavam nos d'elle!
Eu não choro a tua memoria, porque não te conheço, porque nunca nos
encontrámos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dôr que
adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes
insepulto, em quanto alguem te espera vivo no mundo.
Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei
da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite
escrevendo-te estas longas paginas, que de certo estimaremos ler um dia,
em disposição de espírito bem differente d'aquella em que ambos nos
achamos hoje.
Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o
silencio que me envolvia, cortado apenas pelo fremito da minha penna no
papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados fallando baixo no
aposento que atravessei antes de entrar n'aquelle em que estou. Tinha
terminado o paragrapho anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e
tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Approximei-me da porta e
collei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo
natural que os nossos aprisionadores estejam ás escuras, é provavel que
haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquelle em que
eu me acho e o quarto proximo em que elles fallam. Não podia perceber o
que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me
chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar
esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distinctamente estas
palavras:
--Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia elle?
--Sei que as trazia, dizia outra voz.
--É atroz então!
Estas palavras, unicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes
calcular!
É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho
consagrado a entrevistas d'amor, como eu primeiro suppuz. Das hypotheses
do prussiano é absolutamente necessario acceitar uma: isto ou é uma casa
de jogo ou uma loja maçonica. Assim o provam convincentemente os ruidos
que se ouviam na morada contigua. N'um retiro de paixões ternas não se
escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas
mezas. A referencia dos vultos mysteriosos feita pela visinhança permitte
a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo
aspecto do _boudoir_ em que estivemos não consentem duvidar-se que esta
casa é uma caverna de jogo e de orgia.
As palavras que ha pouco ouvi suggerem-me sobre estas supposições a mais
tenebrosa suspeita.
O desgraçado que jaz ahi dentro podia ter sido victima de um homicidio,
premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que elle trazia comsigo.
Occorre uma contradicção: na suggerida hypothese para que foram buscar um
medico? Explicam-n'o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham
propinado opio á sua victima com o intuito de a roubarem, encontram
illudido este projecto com o desapparecimento das notas que lhe suppunham
na algibeira. N'esta conjectura sobrevem-lhes um recurso extremo: procurar
um medico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem
por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua innocencia,
affastar de si a presumpção do crime, e crear as difficuldades de um
mysterio! É possivel que eu não attinja exactamente a verdade do que se
passou. O indubitavel porém é que o desapparecimento já constatado da
somma que o assassinado trazia comsigo não póde adunar-se dentro d'esta
casa com a probidade e com a honra.
Depois d'isto é quasi escusado dizer-te qual é a determinação que vou
tomar. O meu visinho prussiano é um homem um tanto phantastico, mas
parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscriptal-a e
pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para
o quarto d'elle. Se conseguir arrombar completamente, sem que me
presintam, o tapamento que serve de fundo ao armario, passarei eu em vez
de expedir a carta. No caso contrario, apenas se abrir aquella porta,
precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e
abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciencia
delibera passar por cima de meia duzia de miseraveis.
Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos
ámanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas
depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, _posta
restante, Lisboa_. Elle te procurará no logar que indicares e te dirá onde
estou.--Adeus.--_F_
* * * * *
Nota.--Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de
papel escriptas pela mesma lettra das cartas do medico, anteriormente
publicadas n'esta folha:
F... não appareceu. No mesmo dia, dois dias e tres dias depois de haver
recebido a extensa carta que elle me dirigiu e de que enviei logo a
primeira parte, depois as seguintes, a essa redacção, procurei por todos
os meios ter noticias d'elle. Foram inuteis todos os esforços que
empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao
correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual
lhe aprasava uma entrevista.
Estou vivamente inquieto, sobresaltado, cuidadoso.
F... é um homem arrebatado, irascivel, pundonoroso até o delirio. Receio
do seu caracter e da violencia das suas determinações uma explosão que
teria podido talvez ser-lhe fatal.
Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redactor, que discordo
completamente da opinião d'elle emquanto á qualidade moral das pessoas com
quem estivemos reunidos na casa onde encontrámos o cadaver.
O mascarado alto, com quem tive occasião de fallar por mais tempo, não
póde ser uma assassino cobarde. F... demorou-se pouco tempo comnosco, não
pôde attentar nos individuos que o rodeavam. Ouviu apenas uma phrase, que
para mim proprio é ainda inexplicavel e terrivel, e baseou n'ella a sua
indignação e o seu odio.
Eu tratei apenas com um d'esses homens--o mais alto--mas com este fallei
incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe
os movimentos da physionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos,
scintillantes. Ouvia-lhe a voz metallica, pura, clara, vibrante,
obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo
dos sentimentos.
Nas discussões que tivemos, na conversação que travámos, nos diversos
incidentes que acompanharam o inquerito de A. M. C., escutei-lhe sempre
com interesse, com sympathia, algumas vezes com admiração, a palavra
sincera, facil, despresumida, espontanea, original, pittoresca sem
litteratismo, eloquente sem propositos oratorios,--limpido espelho de uma
alma energica, integra, perspicaz e sensivel. Tinha arrebatamentos
enthusiasticos, indignações convictas, concentrações melancolicas, que se
via provirem d'esse fundo de lagrimas, que todas as naturezas
priveligiadamente boas e honestas têem no intimo da sua essencia.
Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é facil enganar-se
por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquella em
que nos achámos, um homem com a minha experiencia do mundo e a minha
pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redactor, as principaes
considerações que do principio logo me impediram de tornar publico o nome
do meu amigo violentamente retido em carcere privado. F... é um homem
conhecido, é quasi um homem celebre; em Lisboa ninguem ha que não conheça
o seu nome entre os escriptores mais applaudidos, ninguem que não distinga
a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente
uniformes dos passeios, das salas e dos theatros.
Se eu communicasse á policia o desapparecimento do meu amigo, é quasi
seguro que ella encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto
a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus
companheiros que eu todavia considero innocentes?
A carta de F..., apesar da revelação que encerra sobre o desapparecimento
das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.
Na carta de F... encontra-se o seguinte periodo:
* * * * *
«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era effectivamente ou
se não era um amigo intimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o
relogio: bastar-me-hia apalpal-o, ainda vendado como eu estava, para
reconhecer o dono. A ser o individuo que eu suppunha, a caixa do relogio
teria a lisura do esmalte e no centro a saliencia de um brasão.»
Ora o relogio a que n'estas linhas se allude, se bem lembrado está, é
exactamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse
periodico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na
carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fóra da algibeira do collete,
suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F... ao quarto em que
elle se acha preso, é effectivamente um amigo d'elle, intimo e particular.
Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha
vida com uma sombra eterna, denunciar á policia uma particularidade, um
nome, uma circumstancia positiva, que a ponha no encalço d'este crime e no
descobrimento das pessoas, innocentes ou culpadas, que circulam fatalmente
em torno d'elle?
As mesmas noticias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente
comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anonymo, me
vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a
severidade incorruptivel, despreocupada e fria dos homens de bem, uma
traição aos imprescriptiveis deveres da amisade, um aggravo á
inviolabilidade do sigillo, uma offensa a esse culto intimo que se baseia
na delicadeza, no melindre, no primor,--culto que para as almas honradas
constitue uma parte dos principios supremos da primeira das religiões--a
religião do caracter?
Mas podia tambem calar-me? ficar mudo, impassivel, inerte, neutro, diante
d'este successo obscuro mas tremendo? Podia acaso acceitar na
impassibilidade e no silencio a responsabilidade terrivel de um homicidio
tenebroso, do qual sou eu a unica testemunha com iniciativa, com
liberdade, com faculdade de acção?...
Decidam-no as pessoas que por um momento quizerem imaginar-se nas
circumstancias excepcionaes e unicas em que eu estou.
Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstaculos em que
me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um
unico momento que perder, uma só cousa me occorreu, possivel, clara,
solvente: publicar anonymamente o que me succedera, entregar por este modo
á sociedade a historia da minha situação e esperar dos outros, do publico,
a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.
Nem uma palavra de conselho, de analyse, de critica!
Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não
posso ficar eternamente immovel, como um condemnado, com o pesado fuzil de
um segredo soldado a um pé.
Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redactor, terei
partido para fóra do paiz. As ambulancias do exercito francez precisam de
cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu paiz dispensa-me, e eu,
como todo o homem na presença dos infortunios irremediaveis, sinto a doce
necessidade de ser util. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu
nome.
Despedindo-me--seguramente para sempre--dos seus leitores, cuja attenção
tenho largamente prendido com a narrativa d'este caso lugubre, seja-me
permittido acrescentar uma derradeira palavra:
A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso n'esta
pagina, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo
quanto em contrario quiz allegar o amigo d'elle que sob a letra Z. veiu
defendel-o n'este mesmo logar, A. M. C., quaesquer que sejam as causas que
o levaram a intervir nas circumstancias que rodeiam o crime, conhece-o
interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.
Se estas linhas chegarem aos olhos d'esse moço, uma coisa lhe peço em nome
da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das
pessoas envolvidas em tão extranho successo. Procure no correio uma carta
que lhe dirijo n'esta mesma data. N'essa carta verá quem eu sou, onde
poderá enviar as suas cartas ou vêr-me e fallar-me pessoalmente. Se a sua
idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da
sua carreira, a tranquillidade da sua familia, a incompetencia da sua
auctoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este
acontecimento até á ultima das suas consequencias, arrancando a um tal
mysterio a secreta verdade que elle envolve, dirija-se a mim,
collaboraremos juntos n'essa obra, que tenho por meritoria e honrada. Eu
acceitarei clara e abertamente para todas as consequencias e para todos os
effeitos a responsabilidade que d'ahi provenha, e terei meio de salvar o
seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre
ou o macule.
Emquanto a ti, meu querido e meu honrado F..., não creio que sejas victima
de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu unico perigo está, a meu vêr,
no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrupulos, no teu valor,
finalmente, e no teu brio.
Que te matassem cobardemente no carcere clandestino que ha pouco tempo
ainda tu illuminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não póde ser. Que
a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desaggravo
de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus mysteriosos
commensaes, isso acho logico, e é possivel.
Punge-me não sei que vago e triste presentimento... Meu pobre F...! Se
estará destinado que não nos tornemos a vêr! Se o dia fatal em que
regressámos ambos de Cintra, descuidados, contentes, suspirando com as
nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortunios, terá acaso de ser o
ultimo d'essa doce convivencia que por tanto tempo nos juntou!...
E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam
envolvidos no turbilhão implacavel e terrivel da crua solidariedade
humana!
Que remedio?!
Se a vida é isto, aceitemol-a corajosamente como ella é, e ávante!
aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se
ser feliz!
+Segunda carta de Z+
Senhor redactor.--Acabo de vêr publicada na sua folha de hoje uma carta em
que o doutor..., com uma insistencia malevola, torna a inculcar, como
cumplice no attentado de que elle se fez o historiador voluntario, o meu
pobre amigo A. M. C.
Disse-lhe na minha primeira carta, senhor redactor, que eu ia com o
auxílio unico da minha coragem e da minha astucia, pôr-me ao serviço da
curiosidade de todos, procurando penetrar e desfiar a tenebrosa historia
que ha mais d'uma semana, vem todos os dias successivamente, no folhetim
do seu jornal, apresentar deante d'um publico attonito um quadro
mysterioso e lugubre.
Não pude, porém, descobrir nada: indagações, interrogatorios, visitas aos
logares, tudo foi inutil. A historia perde-se cada vez mais n'uma nevoa
que a afoga: e o meu pobre M. C. lá está ainda--não sei se n'um retiro
voluntario, se n'uma sequestração forçada.
Na impossibilidade de descobrir, physicamente, por essas ruas, a verdade,
resolvi ir buscal-a ás mesmas cartas do doutor. Analysei-as, decompul-as
palavra por palavra. E sem contar os processos, apresento os resultados.
O _Mysterio da estrada de Cintra_ é uma invenção: não uma invenção
litteraria, como ao principio suppuz, mas uma invenção criminosa, com um
fim determinado. Eis aqui o que pude deduzir sobre os motivos d'esta
invenção:
Ha um crime; é indubitavel; é claro. Um dos cumplices d'este crime é o
doutor ***. Elle está envolvido no anonymo: não tenho por isso duvida em
apresentar esta accusação formal. Se o seu nome fosse conhecido, se as
suas cartas estivessem assignadas, eu, só com provas judiciarias, me
atreveria a escrever esta grave affirmativa.
Sim, o doutor *** é o cumplice d'um crime: o meu pobre amigo M. C. é um
desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer recahir as suspeitas que se
possam ter já, e as provas que mais tarde venham a juntar-se. Este crime,
que existe, apparece-nos envolvido nas roupas litterarias d'um mysterio de
theatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.
É possivel que n'uma cidade pequena como Lisboa, em que todos são
visinhos, amigos de _tu_, e parentes, o doutor *** que parece ser um homem
notado na sociedade, vivendo n'ella, frequentando as suas salas e os seus
theatros, não conhecesse nenhum d'estes quatro mascarados, que pelas suas
indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás,
escutam a mesma musica nos mesmos salões e nos mesmos theatros?
Uma mascara de velludo preto não basta para disfarçar um conhecido. O seu
cabello, o seu andar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as suas
mãos, a sua _toillete_, são bastantes para revelar, trahir o individuo. O
doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão galantes, tão
distinctos, governam tão bem as suas parelhas, fallam tão bem as suas
linguas, pareciam tão ricos, e o doutor *** um medico, um homem
relacionado, um velho dilletante de S. Carlos, nunca os viu, nunca os
percebeu, n'esta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de
lama do Chiado! E F... tem um amigo intimo entre os mascarados, diante de
si, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos
olhos, pelo corpo, pelo silencio até! Comedia!
E o menos conhecido, o menos celebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no
carnaval de Turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de
Mephistopheles, de Ci-devant, ou de Melão, e não ha ninguem que no salão
de S. Carlos, não diga ao passar por elle: _lá vae fulano!_ E é de noite,
ás luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distrahidos, e não estamos
n'uma estrada, de dia, surprehendidos e violentados! Tanto nos conhecemos
todos! Comedia! Comedia!
E aquelles mascarados, são tão innocentes, tão ingenuos, que vão procurar,
n'um momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua
posição, pela sua intelligente penetração, mais facilmente os poderia
reconhecer.
Se lhes era repugnante serem descobertos, para que procuraram aquelle
homem? Se lhes era indifferente, para que se mascararam?
E depois, para que era um medico? Era para verificar a morte? Para acudir?
Para salvar? N'esse caso então que homens são esses, que em logar d'ir á
botica mais proxima, a casa do primeiro medico rapidamente, logo,
logo,--vão em socego mascarar-se nos seus quartos, para irem ao
crepusculo, para uma charneca, a duas legoas de distancia, representar os
velhos episodios de floresta dos dramas de Soulié?
Suppunham por ventura que elle estava morto? Para que era então um medico,
uma testemunha? E se não receavam as testemunhas para que punham nos seus
rostos uma mascara, e nos olhos dos surprehendidos um lenço de cambraia?
Comedia! Comedia sempre!
Veja-se o doutor *** diante do cadaver: não ha ali uma palavra que seja
scientifica: desde a serenidade das feições até á dilatação das pupillas,
tudo é falso n'aquella descripção symptomatica.
E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F... que na rua d'uma cidade,
dentro d'uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelles
mascaras? Como é que, sendo generosos e altivos supportam certas
violencias humilhantes? Como é que, sendo honestos e dignos, acceitam pela
sua attitude condescendente uma parte da cumplicidade?
E A. M. C.! Como o representam ali, pueril, nervoso, timido, imbecil e
coacto! Elle d'uma tão grande força de temperamento! d'uma tão energica
coragem! d'um tão altivo sangue frio! Como se póde acreditar n'aquella
astucia infantil, com que o doutor *** o envolve?
--O que admira é que não deixasse vestigios o arsenico!
--Mas foi o opio! responde M. C., segundo conta o doutor ***.
Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade
lôrpa?
E emfim, que mulher é aquella, que ahi se entrevê? Porque a quer o
mascarado salvar? Que roubo é aquelle de 2:300 libras? Sejamos logicos:
dado o typo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que elle, vendo que
o crime teve por origem o roubo, procura salvar e tem considerações por
uma mulher que mata para roubar?
Se elle suspeita que o crime commetido por essa mulher teve por mobil a
paixão, como explica o roubo?
Demais, se desconfiava que ella estivesse envolvida n'aquelle facto, se
estava tão ligado com ella que a queria salvar, por que a não procurou
logo, por que a não interrogou, em logar de ir surprehender gente para as
estradas, e vir fazer _tableau_ em volta d'um cadaver?
Ah! como toda esta historia é artificial, postiça, pobremente inventada!
aquellas carruagens como galopam mysteriosamente pelas ruas de Lisboa!
aquelles mascarados, fumando n'um caminho, ao crepusculo, aquellas
estradas de romance, onde as carruagens passam sem parar nas barreiras, e
onde galopam, ao escurecer, cavalleiros com capas alvadias! Parece um
romance do tempo do ministerio Villele. Não fallo nas cartas de F... que
não explicam nada, nada revelam, nada significam--a não ser a necessidade
que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa ôca, nas columnas
d'um jornal honesto.
Deducção: o doutor *** foi cumplice d'um crime; sabe que ha alguem que
possue esse segredo, presente que tudo se vae espalhar, receia a policia,
houve alguma indiscrição; por isso quer fazer poeira, desviar as
pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar,
enlear, e em quanto lança a perturbação no publico, faz as suas malas, vae
ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!
O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o.
Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas
inverosimeis invenções.--Z.
NARRATIVA DO +MASCARADO ALTO+
I
Senhor redactor.--A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n'essa
aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***,
guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de
setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido
com interesse a successiva apparição d'estes segredos singulares; eu era
nas cartas do doutor *** designado pelo--_mascarado mais alto._--Sou eu.
Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal
trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações
improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim,
eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece
a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções
hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real,
implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde
dominar um caracter altivo: era necessario fallar n'uma mulher, e arrastar
pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e
de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas
considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a
minha mesa, este bilhete simples e nobre:--«Vi as accusações contra si e
os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade,
imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu
já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se
não fizer isto, denuncio-me á policia.»
Apesar porém d'estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar
do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com
aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em
Lisboa, e determinado esse desenlace passado n'uma alcova solitaria, n'uma
casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores
murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d'essa noite. Eu
não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia
das dores mais profundas d'um coração que estimo.
Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa,
aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de _whist_, onde
ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a
casa do conde de W. A condessa era minha prima.
Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a
_graça_. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando
estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d'uma infinita doçura de
ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se
estendesse, como a corda n'um instrumento, de encontro á claridade,
reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra
tirada ao coração do sol.
Os seus olhos eram d'um azul profundo como o da agua do Mediterraneo.
Havia n'elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e
havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho
sonho de se affogar n'aquelles olhos.
Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a
cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella
ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.
De resto, simples e espirituosa.
Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza
infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d'um extranho orgulho.
Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor
indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella
doce creatura. Disse-lh'o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos
gravemente a mão; jogámos n'essa noite o _écarté_; e ella terminou por
fazer n'uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos;
nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava
contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas
tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e
definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus
estados de espírito nervosos, ou melancolicos.
--Estou hoje com os meus _blue decils_, dizia ella.
Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o
marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era
estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha
amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o
seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram
excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d'elle admirado:
--Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem _ar_, não tem
grammatica, não tem _toilette_, e todavia não é desagradavel.
Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas
repugnancias, com a presença d'esta pessoa trivial e monotona. Elle no
emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores,
mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu _dog-cart_.
O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais
sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente
do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas
gravatas.
Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos
aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do
Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido
secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India
havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em
Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto
heroico dos palacios, e a animação petulante das _maltezas_ de grandes
olhos arabes...
--Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.
--Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a
Malta. Venha tambem, primo.
--Está claro que vem! gritou o conde.
E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu
parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n'um
navio, e que me deixava seu herdeiro.
Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade,
queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de
caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados--mil planos incoherentes que nos
faziam rir...
Partimos n'um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete
da India.
Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por
traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos
d'aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma
malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava
na tolda, sentada n'uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida,
os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude
e no rosto.
--Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta;--estou com uma
sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos...
E mais baixo:
-- ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto?
Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa
ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico
calor d'Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n'um segredo:
--Sabe que está linda!
--Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está
doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo,
creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus,
foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi
ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro,
meu Deus! E eu que estou velha!
Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o
capitão approximou-se:
--Conhecem aquella luz?
--Nunca viajei n'este mar, capitão--respondi.
--São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta.
Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta.
D'ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha
ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu
coração. Achava-se n'aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para
sempre d'uma existencia.
Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe
dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas
infinitas da paixão?
Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N'uma
praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava
ao som da canção do general Boum.
--Detesto os inglezes, disse a condessa.
--O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os
inglezes?
E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:
--Detesta os inglezes, menino!
II
Sr. Redactor.--Em Gibraltar fomos para _Club House-Hotel_. Os quartos
abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n'uma luz
admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas
brumas esbatidas, a terra de Africa.
Fomos passeiar logo n'um d'aquelles carros de Gibraltar que são dois
bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes,
puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas
convivencias hispanholas um espirito teimoso.
O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima
da cidade, contorna a montanha, e é orlada de _cottages_, de jardins, de
pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes,
nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no
fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo.
A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada
pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas
das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre
alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha
_verve_, e uma luz bailava-lhe nos olhos.
Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes
artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de
generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e
a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias.
Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal!
Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado,
absorto n'uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em
baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz.
Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras
fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa,
voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde
passava um regimento de Highlanders, o som das _cornemuses_ que tocavam as
arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces,
ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar.
A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d'aquella
admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos
vivos aromas.
--Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só...
--Só? perguntei eu.
Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte
luminoso.
--Só... disse ella, não!
--Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando
assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso
coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois...
--E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós,
radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto
vermelho.
Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de
recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no
mar um tiro de peça.
--Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um
canhão respondeu com um echo cheio e poderoso.
--Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei.
--Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com
licença do governador.
Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas
esplanadas, sentimos na sala de _Club-House_, ruido, vozes alegres,
estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu
para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que
vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham
desembarcado, e ceavam.
Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de
approximar d'um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco
de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri
alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço,
na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o
mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração
admiravel das montanhas, a vasta agua immovel.
Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e
delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade
triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e
batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha
amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos,
e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente.
Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se
uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na
varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a
condessa.
O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava
á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu
penteador caia largamente ao redor d'ella, em grandes pregas quebradas.
--Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo.
Quem será?
--Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W.
Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para
a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella
pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre,
capitão?
--Um pouco. Falla o inglez sua prima?
--Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre.
Separámo-nos.
--Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima--disse eu entrando na
sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando;--um romance onde se caçam
tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras
inglezas, e elephantes...
--Ah! como se chama?
--Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem
para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra
na excentricidade, um perfeito _gentleman_.
--Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus.
--Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma
indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas
isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e
respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d'aquella perfeição!...
murmurava elle, fazendo ranger a penna.
Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o _Ceylão_. Eram 7
horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu
barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre
a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de
cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de
vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á _cabine_, para dormir um
pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de
Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor
fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol
dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se
em terra o rufar dos tambores.
A condessa, sentada n'uma cadeira indiana, olhava para as pequenas
povoações hispanholas que assentam na bahia.
O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que
adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e
a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta
e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis.
--Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a
senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz
caricaturas.
A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com
umas unhas polidas como o marfim de Dieppe.
--Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India
para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma
paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos
senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita?
--Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende
por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo.
--Demora-se em Malta? perguntou a condessa.
--Uma semana.
A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no
official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido:
--Ah! vae deixar-me ver o seu album.
--Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares,
apontamentos topographicos.
--Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo
menos, a não ser que haja uma bayadera!
E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official.
O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um
pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos,
risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma
mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um
horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle
tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do _Club-House_.
O conde tinha-se approximado.
--Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão.
Que desenho! Que verdade!
--Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em
_Club-House_; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu
querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis
que deve ser castigado.
--O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que
vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro!
Ha de ser o nosso _cicerone_ em Malta. Mas que talento! Que verdade!
E fallando em portuguez para a condessa:
--E um bebedor de cerveja, hein?
N'esse momento uma sineta tocou: era o almoço.
III
Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu
conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda
a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria
excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as
noites, quando fico só, apontar n'um livro branco os factos, as idéas, as
imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a
minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui.
Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao
pé do capitão. O commandante do _Ceilão_ era um homem magro, esguio, com
uma pelle muito vermelha, d'onde sahiam com a hostil aspereza com que as
urzes saem da terra, duas duras suissas brancas.
Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o
_Purser_, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e
pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de
Londres. O _Purser_ era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens
robustos mettidos e apertados n'uma farda de marinha mercante. Mr. Colney
era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta
repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O
_Purser_ tinha uma fraqueza que o dominava--era o desejo de fallar bem
brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os
grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para
me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney,
esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros
passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas
_misses_ alegres e loiras, um _clergiman_ com doze filhos, e duas velhas
philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos
patagonios.
Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que
se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o,
ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:
--_Viva Dios!_ É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo,
hombre, está mais gordo!
Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos
negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se
fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente
bella, que estava sentada ao pé d'aquelle homem guloso e expansivo, o qual
era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla.
A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D.
Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia
lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro
coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d'esses a que
Beaudelaire chamava _tenebrosos_. Vestia de seda preta e com mantilha.
--Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel.
--Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta.
Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se
hein?
--Captain Rytmel--disse sorrindo friamente Carmen--esquece depressa, e
bem!
No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a
_sublime_. Eu admirado tambem, disse á condessa:
--Que formosa creatura!
--Sim! Tem ares d'uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente.
Olhei para a condessa, ri:
--Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se
poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar,
aqui no alto mar, n'um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica
condensada! Oh prima! confesse que é perfeita... Menino! accrescentei para
o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes...
No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de
velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não
comia, parecia nervosa.
--Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá.
Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:
--Está incommodada a condessa?
--Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe
da India. Eu, não posso deixar este _carril_...
Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen,
concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu
excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos.
Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois
ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um
_bournous_, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada
n'uma alta bengala de castão de marfim.
O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord
Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e
fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.
A condessa estava sentada n'um banco á pôpa; ao pé d'ella o capitão
Rytmel, n'um _pliant_ de vime.
Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se
nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e
ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam
de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a
assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no
flanco dos galeões!
IV
D. Nicazio Puebla, que o _Purser_ me apresentara já, viera fumar para o pé
de mim.
--Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu.
--Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel.
Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle.
Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas!
--O capitão é um valente official.
--É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a
vida.
--N'alguma caçada.
--Eu lhe conto.
Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N'este momento vi eu a
hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com
Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe:
--Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra?
A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas
ergueu-se e seguiu a hispanhola.
Eu approximei-me da condessa.
--Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ella toda tremula.
Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio.
--Viu aquelle movimento de sua mulher?
--Vi.
--É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou
pelos habitos d'aquella senhora...
--Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que
quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d'ella, se póde! Olhe: quel-a o
senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d'estas scenas! E não lhe posso
fazer uma observação! É uma furia, usa punhal!
--Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e
parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a
presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como
se ella fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda!
A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao
capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão.
O conde subiu n'este momento. Outras senhoras vieram, os grupos
formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo _do
boi_...
Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia:
--Então esta sua senhora dá-lhe desgostos?
--É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer
que lhe conte?...
--Diga lá.
Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas,
recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.
--Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor...
Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio
capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos
seus albuns de impressões de viagem.
* * * * *
...«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que
chega á India é caçar o tigre.
D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu
acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade
de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia.
Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá.
A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre.
Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na
propriedade d'um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de
um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado.
Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava
Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns
officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador
experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em
Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido,
meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e
dormia sempre em cima de uma palmeira.
Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois
gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de
ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de
cães, forte e dextra, da confiança dos malaios.
Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser
encontrado n'uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso
implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n'um
ar suffocado, cheio d'aromas acres. Toda aquella natureza estava
entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as
suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam,
sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente;
os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi
que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua
pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com
a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim.
Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o
elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos
proximo da clareira.
Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen
entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os
olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros,
pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e
agua...
Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia,
e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me
respondendo ao meu.
Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n'um terrasso em
Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado
de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A
sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n'aquella
floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen
apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não
foge.
--Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!
--Está rindo, capitão...
--Na caçada do tigre póde-se pensar n'isto: o tigre é astuto; tem o
instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.
--Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.
--Só hoje?
--Sempre, e bem sabe por quê.
De repente o meu cavallo estacou.
--O tigre! o tigre! gritaram os malaios.
Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da
caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o
elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa
solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.
Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro
lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia.
Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto.
--D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d'alarma!
D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz
suffocada:
--Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver
perigo...
Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde
se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto
pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro
do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho
faiscante e medroso.
Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu,
gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera.
--Tirem-me d'aqui, tirem-me d'aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar
dentro d'uma gaiola...
Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se
podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha,
perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo.
Disse-lh'o.
Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás
cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu
estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os
officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e
apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras
do tigre a arrancariam d'alli...
Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava
Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés
firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.
Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem.
Carmen apertava-me exaltada.
--Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal.
Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se
um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava
perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar...
--Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma
palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava!
Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o
salto do tigre. Eu déra uma _cuchilla_ a Carmen, tinha na mão da redea um
forte rewolver e na outra um punhal curvo...
De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se,
sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um
rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel.
Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos
fulvos, ferozes, n'um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha
como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca.
Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com
um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no
prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas
pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo.
Alguns ficaram logo despedaçados.
E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só,
magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram.
O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido.
Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o
tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas
laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o
peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle,
succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se
ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.
--Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane.
Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos
chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d'excitação. O
tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista,
seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de
repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen.
Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do
cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no
chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair
a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle,
cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido,
que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca
malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen.
--Hurrah! gritaram todos, e o echo d'este grito estendeu-se pela floresta.
Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle
aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.
--Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores.
Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com
enthusiasmo, dizendo alto:
--Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!...
E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:
--Amo-te.
A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a
dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n'uma plantação de indigo. E ao
começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente
para a cidade, pela floresta, n'um caminho conhecido e seguro. As luzes
davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e
sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d'uma caçada barbara, das
velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu
montava, ao lado d'ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para
mim e com a voz abafada:
--Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que
em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei
os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa.
--O quê?
--É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres
um pouco de mim.
O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da
floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os
tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos
chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a
logica, disse-lhe:
--Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires
que te esqueço, quero que me mates!
Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um
gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e
beijou-me os dedos.
A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes...»
V
Ao terceiro dia de viagem do _Ceylão_, um dia antes de avistarmos Malta,
um official inglez, ao almoço, lembrou que n'aquelle dia fazia 28 annos o
principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam
o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente
_byroneano_. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e
valsar á noite, na tolda, á luz d'um _punch_ collossal.
O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas
taças facetadas; a pesada _pale ale_ espumou; o Xerez ferveu na _soda
water_. Carmen, pela sua belleza e pela extranha _verve_ da sua agitação,
foi a alegria d'aquelle pesado e longo banquete de annos reaes.
Houve _toasts_, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á
companhia _P. and O._; e um inglez rico fez um _speech_ aos estrangeiros:
_The count and countess of W_.
--Peço um _toast_, disse Carmen, de repente.
Os copos tiniram, estalaram as rolhas.
--Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que
salvam as damas que têem á garupa!
A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o _toast_ era
excentrico, foi escoltado d'applausos.
--_Oh! shocking!_ disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo
amplo ventre do _Purser_ uma fascinação concentrada.
--_Not at all, Madam!_ disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella
viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora
quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue
meridional...
A ingleza escutava, como quem se instrue.
-- ... Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete
contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com
mãos impias os seus oculos, milady...
--Ouh! gritou ella.
-- ... era ainda o sangue meridional!
--_Oh! very shocking the_ sangue meridional.
Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen.
No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se
um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools.
Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes.
A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.
D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda,
de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d'um leve pó apimentado de
Ceylão.
Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos.
--Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das _misses_: como
senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras,
frias e leitoras da _Revista d'Edimburgo_. Estão na verdade do seu
caracter: um pouco menos vivas seriam de _biscuit_, um pouco mais seriam
_shockings_. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos
virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz,
pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma
italiana, uma portugueza, caindo no _missismo_, e dando-se ares vaporosos,
hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não
serve para esconder dois.
Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras
reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava
poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola.
--Perdão, _señora_, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras
maneiras não são o _salero_, são a _gravidade_. O _salero_ póde ser bom no
theatro, na _zarzuella_, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á
Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n'uma sala.
Ella empallideceu levemente, e fitou-me:
--_Caballero_, perguntou, _es usted pedante de rhetorica?_
Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo _toast_.
Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras,
tinha achado um som pittoresco e extranho n'aquelle dizer--_pedante de
rhetorica_, e exclamava para os outros inglezes, rindo:
--_Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!_
Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á _cabine_, adormeci
ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido.
Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o _punch_.
Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava,
fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares
escuros saiam risadas de _flirtations_. Havia uma flauta, e uma rebeca. E
já um ou outro par valsava em roda da _clara-boia_ da tolda.
A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do
_punch_, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan.
Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da
valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n'uma claridade
phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos
louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes
de dança macabra...
Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do _punch_, travava do
braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque.
D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando
entornavam-lhe _punch_ pela bocca: elle abria uma frestado olho:
--_Thank you_, caballeros! e adormecia.
--Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n'o... Quero
valsar com elle.
Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz.
--Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes.
Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo.
--Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola.
A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em
grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d'ar, os seus cabellos
desmanchavam-se; a luz do _punch_ tremia; ao compasso rapido, os giros
vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada
por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os
olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos.
--Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda.
A luz do _punch_ erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel
passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos
idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os;
parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se
na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus:
--Hip! hip! hip!
Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava
observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante.
Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer
n'uma voz grave e reprehensiva:
--Não dance mais.
Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva,
tão casta, tão timida!...
Approximei-me d'ella.
--Prima, é tarde. Não quer descer?...
Ella olhou-me serenamente, sorrindo.
--Não. Porquê?
E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se
fumava, e agora deserta e quasi escura.
Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado
opposto, e quasi sem querer ouvi.
O capitão dizia-lhe:
--Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada
perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um
momento. Agora nem uma recordação é...
Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um
momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar...
Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen
que dizia:
--Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a
condessa, não viram? Vamos procural-os.
Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda
_fumoir_, entrei, sentei-me n'um banco, conversando alto, ao acaso. A
tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me
apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera.
Mas n'este momento chegavam alguns officiaes, gritando:
--Rytmel! Rytmel!
Eu adiantei-me, dizendo:
--Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais...
Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de
uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me,
profundamente.
--Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu.
Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel:
--Está frio, adeus!
Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes.
Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido,
e d'orgia.
--Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma _seguidilla_ ou uma _habanera_!
Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui _gentlemen_ que nunca ouviram
a musica dos nossos paizes.
--Sim, sim, gritaram todos. _Uma seguidilla_!
Ella queria recusar-se, descer ao beliche.
--Não, não, cante, mylady, cante!
Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio
do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento
crescente, e cantou com uma voz forte e languida:
Á la puerta de mi casa
Hay una piedra mui larga...
Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como
foguetes, encheram-se os copos, um gritou:
--Pela _señorita Carmen!_ hip! hip! Hurrah!
Os applausos echoaram no mar.
Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio
d'aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada.
--Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que
as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na
pandiga.
Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado.
Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio
de _punch_:
--A Carmen Puebla! Hip! hip! hip!
--Hurrah! responderam os outros enthusiasmados.
E o echo triste do mar, repetiu:
--Hurra!
Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos
desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio
crescia. Navegavamos então á vista da terra d'Africa. Quando a tolda ficou
deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a
grande pancada do mar.
De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do
marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:
--_All is well_.
Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n'aquella confusa
penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se
sente e que se domina: via a condessa passar n'uma nuvem com Rytmel,
alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a
corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do
helice.
De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou
um grande grito.
VI
Dei um salto, corri á porta do beliche:
--_Stewart! Stewart!_
_Stewart_,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.
--Que é? Estamos perdidos? Batemos n'um rochedo?
--Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.
Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n'um perigo.
--Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação
angustiada.
A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda
pesada entrar, alagar a _cabine_.
Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos
brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais
lugubre. A officialidade estava impassivel.
--Que foi? que foi? perguntei a alguem.
--Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel
vendaval...
--Estamos perdidos!
--O navio é seguro, respondeu o outro.
Ao lado diziam:
--O capitão devia deitar as lanchas ao mar.
O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O
navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem
os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d'agua. Olhei os astros, o
ceu impassivel, a agua negra,--e senti um immenso despreso pela vida.
Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns
diziam que ficariamos _á capa_, esperando firmemente o mau tempo; outros
que o navio estava perdido... Um official disse ao passar:
--Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas
vezes d'Aden a Bombaim.
Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se
caminhassemos n'um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim,
appareceu:
--Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo
grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas
com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco
dias.
No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma.
Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.
A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado
para as _cabines_, indifferentes ao perigo. Algumas _ladies_, tranzidas,
mas graves, ficaram no convez.
Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem
cessar.
Captain Rytmel approximou-se de mim.
--É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d'este commandante
navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d'Africa. Se o vendaval
nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo,
Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?
Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e
pallida.
--Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o
perigo!
Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam
uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma,
reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.
--Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se,
havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma
baleia morta!...
Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era
necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me
equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A
sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos.
Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de
temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.
Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada
no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos
crusadas.
--Morremos, hein? perguntou ella.
--Tem medo? disse eu.
--Um pouco, de morrer affogada. D'uma bala ou d'uma facada, não me
custava. Mas aqui, estupidamente, n'este antipathico elemento, é cruel! Ao
menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!...
--Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.
--Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes,
deshonra a Peninsula. Ahi está.
--Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por
ella.
--E que me importa a mim esse cavalheiro?
E deu uma curta risada.
No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi
á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo
deprehendi, debaixo da _tenda_. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar,
apesar do ruido do vento.
Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do
espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d'um
perigo,--e as acções humanas n'esses momentos não se podem sujeitar ao
criterio da vida trivial,--tudo me levou a ir escutar, apesar das
repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d'espião:
--E custa-lhe morrer?
--Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o
primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque,
francamente, sou eu feliz?
--Se a minha amisade é para si um interesse profundo...
A condessa calou-se.
--Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da
minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa.
Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que
esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu
espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão
da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de
mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a
sua alma...
--Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos
passear, vamos ver o mar.
O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de
vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina
trabalhava-se sempre.
Rytmel continuava fallando á condessa.
--Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.
--Não; devo dizer-lh'o: esta palavra «amisade» é falsa. D'aqui a duas
horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma
justiça. Digo-lh'o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta
confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d'estas palavras, o mar é um
bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...
--Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos
levaria? ou ao despreso ou á tortura...
Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia
lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam
como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os
martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.
De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua
voz era alta e vibrante:
--Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?
--Penso, condessa.
--Pois bem, quero dizer-lh'o então: amo-o!
E depois de um momento:
--Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a
certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.
N'este momento um ruido extranho tomou o navio.
Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga.
Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha
retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio
movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei
para a abertura que desce á machina.
--Que é? perguntei a um official que subia.
--Um milagre de Pernester!
Todos tinham corrido. Era uma anciedade.
O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior
da machina sobe ao pavimento do navio.
Estava radiante.
--Imaginem que Pernester...
--Sim, sim, interrompi, mas então?
--Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.
--Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.
O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho,
grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse
n'um tom suave:
--_Now, I should enjoy a nice glass of beer..._
VII
No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A
agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte _La Valette_,
elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em
redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia
e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade
ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular.
Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.
Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da
celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes
inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres
primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o
palacio dos grã-mestres, os palacios chamados _Estalagens_, e que eram
pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas
brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os
arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso,
que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de
cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam
jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O
ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por
um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny,
_viajante por tedio_, dizia elle.
Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação
combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em
todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites
nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das
grandes tranças louras d'uma rapariga que nós viamos sempre na 1.^a ordem
do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d'uma frescura de
_miss_ e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize,
dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de
Rytmel.
Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto
sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia,
dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios
no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella
paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem
perdidamente namorado.
Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me
determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente
os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me
n'uma discripção completa e delicada.
Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord
Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus _blue
devils_. Tinha vindo de Inglaterra n'um lindo _yacht_, chamado _The
Romantic_, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir
ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley
ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.
Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro,
onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da
condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de _ladies_, não a
encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção
dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de
Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de
allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre
Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as
opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se
apenas pelo gosto de o vêr contrariado...
Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a
Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.
--Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.
--Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que _transformação
fecunda_ fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da
imaginação, do sol, n'uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu
estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores
inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do
_Morning Post_. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a
grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no
divino Ganges paquetes a tres _schellings_ por cabeça; fazem beber ás
_bayaderas_, _pale ale_, e ensinam-lhes o jogo do _criket_; abrem
_squares_ a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores,
desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n'os
por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de _porter_, que
quando não vão ser forçados em _Botany-Bay_, vão ser governadores da
India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de
rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!
Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:
--Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu
logar, a sua hora e as suas armas.
E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e
transmitti-lhe as palavras do meu amigo.
Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços
na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o
achava um adoravel _gentleman_, que pedia das suas palavras as mais
humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas
quaesquer...
--Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as
armas...
--Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho
que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter
e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.
Nomearam-se padrinhos n'essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em
Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d'armas têem as mais
severas penalidades. Era difficil, porém, estando n'uma ilha ingleza, não
se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no
alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o
seu _yacht_ e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre.
As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o
pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de
nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol
davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no
ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley
deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a
pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a
clavicula partida. Foi deitado n'uma _cabine_ preparada. Levantou-se o
pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.
Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.
--Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.
--Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está
tramando aqui dentro d'este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio
apenas... Diga ao conde que vigie a condessa!
Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde,
Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o
capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma
visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto
a excursão, e offerecia o seu _yacht_. O conde esquivava-se, dizendo que o
mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.
--Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa,
tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.
--Mas, então?
--Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês!
Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d'ella, tem o sangue maltez!
Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim
no corredor e tomou-me pela mão.
--Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.
Era Carmen.
--Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.
E desappareceu.
VIII
No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia
estado durante a noite sob o dominio d'uma extrema agitação nervosa, mas
não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com
Rytmel, tomando chá.
Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado:
lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e
tinha ainda na _boutonniêre_ um jasmim do Cabo, murcho e amarellado.
--Bonita madrugada! disse Rytmel.
Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim
cantavam os passaros.
--Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se
transtorna o passeio... Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel?
--Para quê?
--Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem
nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma.
Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado.
--Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar
desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vae?
--Porque? como assim, mylord?
--Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel.
Tenho uma pena immensa...
Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes
Marsa-Muscheto.
Notei ao entrar no _yacht_ que a equipagem estava augmentada e havia um
piloto arabe.
Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam
em roda das velas, as casas brancas de _La Valette_ tinham uma côr rosada,
ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d'uma pureza encantadora.
A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto
mar azul, livre, infinito, coberto de luz.
--O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está
encantada por se vêr só, com rapazes, n'um _yacht_, no alto mar. É para
ella quasi uma aventura!
Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante.
Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas
moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e
apaixonado, o encarregado de fazer a policia d'aquelle romance sympathico!
_Á la grace de Dieu!_ O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui
a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer,
quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e
na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe canta
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