Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro
by Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto · Portuguese · Gutenberg #20508 · 570,437 chars · public domain (US)
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Title: Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro
Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
Release date: February 2, 2007 [eBook #20508]
Language: Portuguese
Original publication: Londres: Sampson Low, Marston, Searle, E Rivington, Editores, Crown Buildings, 188 Fleet Street, 1881
Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/20508
Credits: Produced by Rita Farinha, João Miguel Neves, Carlo Traverso
and the Online Distributed Proofreading Team at
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de France (BnF/Gallica) at http://gallica.bnf.fr)
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[Mappa 2.--De Benguella ao Bihé]
COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.
A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;
DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.
Por SERPA PINTO.
Dois Volumes.
Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.
VOLUME PRIMEIRO.
Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.
LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.
[_Tôdos os direitos sam reservados_.]
LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.
A SUA MAGESTADE EL-REI D. LUIZ 1^o,
COM PRÈVIA LICENÇA
OFFERECE ESTE LIVRO
O AUTÔR.
SENHOR,
Não foi um sentimento de adulação servil que me levou a pedir licença a
Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de uma
dupla dìvida de justiça e de gratidão: de justiça ao Monarcha
intelligente e illustrado que firmou o decreto creando recursos para a
primeira expedição scientìfica Portugueza d'este sèculo á Àfrica
Central; de gratidão, ao prìncipe cujos dotes de coração e de espìrito
disputam primazias ás suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis
constitucionaes da Europa contemporànea.
Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu obscuro
nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas
tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro
pertence a Vossa Magestade como legìtimo tìtulo da minha immensa
gratidão. Ouso rogar respeitosamente a Vossa Magestade queira aceitar a
minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que se dignou dar-me
incitamentos para uma empresa, da qual, depois de realisada, fôram ainda
os favôres de Vossa Magestade a mais sincera e não regateada recompensa.
O Vosso ajudante de campo
E o mais dedicado dos
Vossos sùbditos,
Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 61 Gower Street,
_5 de Dezembro de 1880_.
A SUA EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOÃO D'ANDRADE CORVO.
Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},
Com propor o meu nome, em 1877, na Commissão Central Permanente de
Geographia, para fazer parte da expedição Portugueza ao interior
d'Àfrica, assumio Vossa Excellencia a responsabilidade da minha
nomeação.
Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia satisfação
plena do encargo que tomou indigitando-me para tão àrdua tarefa.
Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os
resultados dos meus trabalhos e estudos.
Não sei se corresponderá ao que Vossa Excellencia esperava de mim; como
não sei se cumpri os deveres que Vossa Excellencia, em nome do paiz, me
impoz.
Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto
quanto em fôrças humanas cabia, o pensamento e as instrucções de Vossa
Excellencia.
A leitura da minha narrativa mostrará a Vossa Excellencia, com quantas
difficuldades lutei, e de quão minguados recursos dispuz.
Se, porem, os meus trabalhos corresponderem á confiança com que Vossa
Excellencia me quiz honrar, será isso o maior prèmio a que pode aspirar,
o mais respeitoso admirador do talento, vasto saber e elevadas
qualidades de Vossa Excellencia,
Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 61 Gower Street,
_28 de Novembro de 1880_.
TRIBUTO DE GRATIDÃO.
Vou citar nomes. É difficil e perigosa tarefa. Ha sempre o receio de
ferir modestias, ou levantar susceptibilidades. Não importa; sigo
avante.
Será grande a lista, por serem multiplicados os favôres; e posso bem
peccar por omissão, filha de memoria preguiçosa.
Que me perdôem os que desejariam esconder êsses favôres na mais velada
modestia, como aquelles a quem um lapso de reminiscencia deixasse no
olvido.
Seguindo a ordem chronològica dos factos, procurarei no profundo
sentimento de gratidão a lembrança dos serviços e favôres recebidos.
Cabe á Commissão Central de Geographia o primeiro logar no meu
reconhecimento; por me ter distinguido com a sua escôlha para
instrumento da exploração que decidio fazer em Àfrica.
Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui unànimemente
aceito, e attendido nas propostas que apresentei para a organização da
emprêsa. Falando da Commissão Central de Geographia, não posso omittir
de citar nomes; porque, recebendo obsèquios de tôdos, fui
particularmente auxiliado por muitos.
O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio
Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos
seus jazigos, não podem occultar á minha gratidão.
O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de
Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da
Costa e Silva, fôram os cavalheiros que, no seio da Commissão, mais se
esforçáram por me encher de favôres.
Outro, que só annos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se
organizou a expedição), não deixou de concorrer com o sem consêlho
abalizado para a parte scientìfica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito
Limpo.
Fora da Commissão, prestáram-me valiôso auxilio, os meus particulares
amigos Marrecas Ferreira e João Botto.
Vem depois da Commissão Central, a Sociedade de Geographia de Lisboa; e
com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.} Bocage e
Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano Cordeiro e
Rodrigo Pequito.
Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente agradêço tôdos os
favôres que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeação.
Fora do paiz prestáram-me valiôso auxilio, o S^{nr.} Mendes Leal,
Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Vizconde de
Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que á
cooperação d'estes cavalheiros, e só a ella, podémos eu e Capello ter
dado conta do encargo que tomámos de organizar em um mez o material da
expedição.
Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que
concorrêram poderosamente para a realização da nossa emprêsa.
Sam o Conselheiro José de Mello e Gouvea, que então governava nos
negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral do Ministerio
das Colonias.
Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensáram-me taes favôres
em viagem, que não posso deixar de escrever aqui os seus nomes.
Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vêrde, Vasco Guedes, e o do
Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me dispensáram
innùmeras finezas.
Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul Newton, a
Associação Commercial, e sôbre tudo os officiaes e Commandante da
Canhoneira _Tâmega_, sam crèdores do meu mais profundo reconhecimento.
Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do
mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro:
Henrique Moreland Stanley.
O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais
prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro,
e d'elle recebi proveitosas lições. Melhor mestre não poderia ter. Que
elle recêba n'estas curtas linhas o mais sincero tributo da grande
admiração que nutro por elle, e a mais franca expressão da minha estima,
e da gratidão que lhe consagro.
Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar; e
nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus
actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente
Seraphim, o pharmacèutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam outros tantos
cavalheiros que não posso esquècer.
Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de
Quillengues, sam mais dois crèdores á minha gratidão.
Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e da
familia Coillard, transpòrto-me ao Bamanguato, a _Shoshong_ (Xoxon),
onde os favôres do rei Kama, e sobre tudo os de M^{r.} e Madame Taylor,
me obrigam a não olvidar os seus nomes.
Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em Pretoria; estou na
primeira terra do mundo civilisado que encontro depois de Benguella; e
ali sam tantos os favôres que se me prodigalizam, que não sei como sahir
do embaraço que elles me causam para os agradecer.
M^{r.} Swart, o thesoureiro do Govêrno, foi o primeiro a obsequiar-me, e
será o primeiro citado.
Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.}
Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e tôdos os
officiaes do Regimento 80.
A Baronêza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim o Coronel
Lanyan.
Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e não se demorou o nosso
Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.
Se dêvo muita gratidão ao Governador Inglez, não dêvo menos ao Consul
Portuguez, que, por telegrammas immediatos, veio prestar-me a maior
assistencia.
Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, então residindo em
Pretoria, não foi dos ùltimos a encher-me de favôres.
Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe, e
em Maritzburgo multiplicáram-se os obsequios do Coronel Baker, Capitão
Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.
Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de
Waal, chefe da Handels Company em Àfrica Oriental, muito se distinguíram
em favôres prestados.
Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a minha missão. Vou
regressar á Europa, tendo terminado a minha viagem, e accumùlam-se os
obsèquios que recêbo a cada momento.
Em Lourenço Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em
Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e tôdos.
Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e sôbre tôdos o Capitão
Draper do 'Danubio' da _Union Steamship Company_, que de Durban me
transportou ali.
No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favôres. Em Alexandria,
sobressáe a tôdos o Conde e a Condêssa de Caprara.
Ainda antes de chegar a Lisbôa, recêbo um serviço importante do Barão de
Mendonça, em Bordeos.
Em Lisbôa, o Govêrno, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos,
porfiam em obsequiar-me.
Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favôres, e
em que me não sobejou um minuto para os agradecer.
Quizéram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda das fadigas
da viagem; e sem o poderôso concurso que me prestáram Pequito, Sarrea
Prado, Batalha Reis e D^{or.} Bocage, impossivel me seria fazel-a.
Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam elles, não
deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento, á Sociedade de
Geographia de Lisboa tudo o que por mim fez.
Á Associação Commercial e ao seu digno Presidente, o S^{nr.} Chamisso,
que sempre tomou o maior interesse pela exploração de que eu fiz parte.
Sube em Lisbôa um facto que não posso deixar de consignar aqui com um
nome.
Agradêço ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da
Marinha, para que me fôssem enviados soccorros de Moçambique para o
interior d'Àfrica.
Ao Côrpo Diplomàtico residente em Lisbôa expresso os meus sentimentos de
gratidão, e sobre todos aos S^{nrs.} Morier, Barão de P. Hegeurt,
Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.
Á Associação Commercial do Porto, aos bombeiros voluntarios d'aquella
cidade, á Sociedade Euterpe e á Sociedade de Instrucção, aos municipios
e mais instituições do paiz que me obsequiáram, consigno aqui um
testemunho de agradecimento.
Ás Associações Portuguezas no Brazil, aos meus conterraneos que longe da
patria me saudáram, a elles que nada poupáram para mim em honras e
distincções, envio um fraternal protesto de immensa gratidão.
Sobre todos áquelles que formáram uma sociedade com o meu nome, e que de
Pernambuco me offerecêram um mimoso presente, de tal distincção, que
nunca os poderei esquècer.
Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros
as altas honras com que me distinguíram, sôbre tôdos ao Monarcha Belga,
ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento
geogràphico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me
podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais
affectuoso interesse.
Ás Sociedades de Geographia da França, principalmente ás de Paris, onde
o Almirante La Roncière le Noury, Ferdinand de Lesseps, MM. Daubré,
Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, me enchêram de favôres;
de Marselha, que me conferio uma subida distincção, e cujo Presidente,
M^{r.} Babaut, muito me obsequiou; e á Commercial de Paris, onde
distingo o seu digno Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot.
Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.}
Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite,
Garrido, e D^{or.} Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favôres
recebidos.
Ás Sociedades de Geographia Belga, e á de Anvers, nomeadamente aos seus
Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e àlém d'estes
cavalheiros, não posso deixar de falar, em um paiz onde tôdos me
obsequiáram, nos nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e
ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favôres repetidos e
cordialidade de trato convertêram em verdadeira amizade a sincera estima
das primeiras relações.
Cabe, pela ordem dos factos, o ùltimo lugar á Inglaterra, que seria
talvez a primeira pêlo nùmero de favôres dispensados.
Principiou nas colonias Inglezas da Àfrica do Sul a ter juz á minha
gratidão este paiz, onde depois se me tinham de multiplicar os
obsequios.
Á Sociedade de Geographia de Londres, ao seu Presidente o Conde de
Northbrook, aos seus Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus
Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat,
e muitos outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus
sentimentos de reconhecimento.
Ao S^{nr.} Frederico Youle, ao D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas,
Sampaio, Fonseca Vaz, Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que
alem de subidos favôres me dispensáram grandes serviços durante a minha
grave doença, não posso deixar de lavrar um bem pùblico testimunho de
gratidão.
Ainda me falta citar o nome de M^{r.} David Ward, o Mayor de Sheffield,
e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovett
Cameron, para fechar a lista, que seria interminavel a não tomar a
resolução de a fechar aqui.
Ás Sociedades Scientìficas dos outros paizes, e a tôdos aquelles que não
posso citar, e que me cobríram de favôres, agradêço tudo quanto por mim
fizéram, e agradêço tanto mais sinceramente, quanto me custa não os
poder personalizar.
Major Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, _5 de Dezembro de 1880_.
O LIVRO.
Não tem pretenções a obra de literatura este livro.
Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de
viagem.
Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no
descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo
fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos
geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou
outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa
empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de
importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando
demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a
exposição das causas determinantes.
Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior
d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as
difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não
interrompido para o explorador.
As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan
de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os
soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o
não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o.
Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto
trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor
aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim
indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido
pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e
passáram os maos tratos que eu por lá passei.
Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente
da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode
comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não
podem avaliar sem se haverem experimentado.
Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.
Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.
Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos
mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou
autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em
quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não
me convencer do contrario.
As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser
erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma
demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a
asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que
não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles
que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com
a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador.
Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do
exèrcito e não quiz outra.
Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo
para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes,
na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a
consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.
Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal
materia o avalial-o.
Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não
tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes
da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa
jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi.
Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus
trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a
vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos.
Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo
escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em
Portugal.
A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a
incorrecção da forma.
A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa
editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades
que não pude obter fora d'ella.
Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão
difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer
imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque
a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo,
por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.
Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que t[~e]m dedicado a esta
publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito,
elles de certo concorrêram muito.
O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da
sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do
livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura
das minhas cartas geogràphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou
magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a
obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella.
Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á
curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos
á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do
Continente Nêgro.
Londres, 61 Gower Street,
_5 de Dezembro de 1880_.
O TÌTULO DO LIVRO.
Hôje, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a casa,
encontrei sôbre a minha mêsa de trabalho, pregado com um alfinete, um
pedacinho de papel, recortado não sei de que jornal, que dizia assim:
"O _Athenaeum_ diz, que o Major Serpa Pinto, restabelecido da sua
prolongada doença, chegou a Londres, para terminar a publicação do livro
descriptivo da sua jornada atravez d'Àfrica. Dá-nos grande satisfação o
saber, que o tìtulo d'elle foi alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o
de 'Como eu Atravessei Àfrica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um
magnìfico tìtulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid
ou Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na pàgina tìtulo de um
livro sèrio de explorador Africano."
É meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes d'isso não
posso deixar de escrever duas palavras sôbre o assumpto.
A consideração tinha e não tinha razão de ser.
As viagens n'Àfrica produzem sempre um romance, e algumas vêzes tambem
um livro de sciencia.
A minha, se, como todas, é um verdadeiro romance, não deixa por isso de
conter trabalhos geogràphicos de alguma importancia.
Formei logo o projecto, que hôje executo, de misturar em a narrativa
esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham sido
misturados nos sertões Africanos.
A respeito do tìtulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.
Sendo salva a expedição, e por isso tôdos os trabalhos que a ella se
ligavam, pêla Carabina d'El-Rei, pensei em dar aquelle tìtulo á obra
tôda. Não me davam cuidado juizos dos crìticos severos. A minha
justificação estaria no correr da narrativa.
Veio porem uma consideração modificar o meu projecto.
Um homem, um ùnico homem no mundo, incapaz de me increpar em pùblico
pêlo exclusivismo do tìtulo, de certo pensaria um momento em que eu
tinha sido injusto para com elle em fazer sobressahir no meu livro o
facto de ter sido salva a expedição pêla Carabina d'El-Rei, quando elle
teria igual juz á minha gratidão, tendo-me salvo por seu turno.
Pesou-me aquelle primeiro tìtulo escolhido, como uma injustiça que fazia
a Francisco Coillard, quando esse tìtulo me tinha sido dictado sòmente
por um sentimento de justiça, porque sou pouco propenso a expressões de
adulação.
Resolvi immediatamente conservar o tìtulo de Carabina d'El-Rei á
primeira parte da minha narrativa, e dar á segunda o nome de Francisco
Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os trabalhos da expedição que
eu dirigia. Cumpria um devêr.
Mas desde esse momento, era preciso dar um tìtulo geral á obra, e esse
não é nunca difficil de se encontrar quando se tem atravessado um
continente de mar a mar.
Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei Àfrica."
Sei que pouco deve importar ao pùblico o tìtulo, qualquér, de uma obra
d'estas. É preciso chamar-se-lhe alguma cousa, e eu chamei-lhe assim.
Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim não me
preoccupo com isso a ponto de não me ir deitar já, esperando ter um sono
profundo durante a noite.
Londres, 61 Gower Street,
_12 de Dezembro de 1880, á meia noite_.
CONTEÜDO.
PRÒLOGO.
I.--Como eu Fui Exploradôr
II.--Como foi Preparada a Expedição
CAPÌTULO I.
EM BUSCA DE CARREGADÔRES.
Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não ha
carregadôres--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chêgo ao Porto da Lenha--Os
resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley
a bôrdo da _Tâmega_--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu
hòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens
CAPÌTULO II.
AINDA EM BUSCA DE CARREGADÔRES.
O Governadôr, Alfredo Pereira de Mello--A casa do
Governadôr--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--O
que é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A
Catumbela--Obtenho carregadôres--Chegada de Capello e Ivens--Nova
alteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho
sertanejo--Apparecem novos obstàculos--O Capello vai ao
Dombe--Partida--O que é o Dombe--Novas difficuldades--Partimos
emfim
CAPÌTULO III.
HISTORIA DE UM CARNEIRO.
Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu
perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque eu e
uma prêta--Perde-se um burro--Quillengues emfim--Morte do carneiro
CAPÌTULO IV.
POR TERRAS AVASSALLADAS.
Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do caminho--Chegada
a Caconda--José d'Anchieta--Nada de correspondencia--Chegada do
Chefe--Vamos aos carregadôres--Ivens vai ao Cunene e eu vou ao
Cunene--Volta de casa do Bandeira--Falham os carregadôres--O meu
juizo
CAPÌTULO V.
VINTE DIAS DE AGONIA.
Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova Cáimbo--40
carregadôres--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho
Capôco--80 carregadôres--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo
avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Cahungamua
e Cunene--Nova e séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas e
temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O Bihé finalmente!
CAPÌTULO VI.
PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.
No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto
Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição no
Bihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os
meus trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--Até ao
Cuanza--Escravatura
Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo
CAPÌTULO VII.
ENTRE OS GANGUELAS.
Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e
Onda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--Os
Luchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os
Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os
Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi
CAPÌTULO VIII.
AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.
O Cuchibi--O sova Caú-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo e
Capeu--Abundancia--Bondade dos indìgenas--Povoações e costumes--Um
vao no Cuchibi--O rio Chicului--Caçada--Feras--O Rio Chalongo--Uma
jornada atroz--As Nascentes do Ninda--O tùmulo de Luiz Albino--A
planicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final
LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.
FIG.
1.--Mulheres Mundombes, vendedeiras de carvão
2.--Mulheres e Donzellas, Mundombes
3.--Homens Mundombes (_De uma photo. de Monteiro_)
4.--Homem e Mulhér do Huambo
5.--Mulhér do Sambo
6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé
7.--Ponte de Cassanha sôbre o rio Cubango
8.--O Secúlo que me deu um Pôrco
9.--Mulheres Ganguelas das margens do Cubango
10.--Termites na margem do rio Cutato dos Ganguelas
11.--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato
dos Ganguelas, coberto de vegetação
12.--Sepultura de Secúlo
13.--Ferreiros Caquingues
14.--1. Folles; 2. Bocal de Barro; 3. Bigorna; 4. Martello
15.--Objectos fabricados pelo gentio entre a Costa e o Bihé
16.--Casa de Belmonte
17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé
18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé
19.--Mulhér do Bihé cavando
20.--Carregador Biheno em marcha
21.--Palissada sôlta; Palissada amarrada com Casca de àrvore; Palissada
travada com Forquilhas
22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé
23.--Fora da Porta das Libatas ha isto
24.--Objectos fabricados por Bihenos
25.--Quinda, cêsta de palha que não deixa passar a àgua; Peneiro para
secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Cabaça para
tirar àgua á capata
26.--Uma Casquilha do Bihé
27.--Mulheres do Bihé pisando Milho
28.--Mulheres Ganguelas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam
os Dentes incisivos
29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a Costa e o Bihé
29A.--Viagem ao Cunene
30.--Passagem do Cuanza
31.--Homem e Mulhér Quimbandes
32.--Raparigas Quimbandes
33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos
34.--Esqueleto da Barraca
35.--Barraca concluida em uma hora
35A.--Ganguelas e Quimbandes
36.--O Sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu Campo
37.--Mulhér Quimbande carregada
38.--1. Cachimbo; 2. Facas; 3. Cacêtes de guerra
39.--Ditassoa, peixe do rio Onda
40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda
41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça
42.--Homem de Cabango
43.--Homem de Cabango
44.--O Lago Liguri
45.--Luchaze das margens do rio Cuito
46.--Mulhér Luchaze carregada
47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil
48.--Atundo, Planta e Fruto
49.--Povoação de Cambuta, Luchaze
50.--Mulhér Luchaze de Cambuta
51.--Homem Luchaze de Cambuta
52.--Objectos fabricados pelos Luchazes
53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo
54.--Cachimbo Luchaze
55.--Capoeira dos Luchazes
56.--Urivi, Armadilha para caça
57.--Luchaze do Cutangjo
58.--Objectos Luchazes
59.--O Cuchibi
60.--Fôlha e Fruto do Cuchibi
61.--O Mapole, Àrvore e Fôlha
62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos
63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba
64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas do Cangamba
65.--Cachimbo Ambuela
66.--O Quichôbo
67.--Oúco
68.--Opumbulume
69.--O Rato mencionado
70.--Songue;
70A.--Rasto do Songue
71.--Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas
72.--Mulhér Ambuela
73.--Opudo
74.--Capêu
75.--Barco e Remo do Cuchibi
76.--Tambor das festas Ambuelas
77.--Caú-eu-hue
78.--O Irmão do Sova
79.--Caçador Ambuela
80.--Chinguene
81.--Lincumba
82.--Chipulo ou Nhele
83.--O Vao do Cuchibi
84.--Azagaias dos Ambuelas
85.--Ferros de frechas dos Ambuelas
86.--Malanca
87.--1. Cornos vistos de frente; 2. Rasto da Malanca
88.--O Bùfalo Africano
89.--Escudo dos Luinas
90.--O Chefe Cicota
91.--Termites do Nhengo
92.--1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui
93.--Corte vertical de uma Casa Luina da aldea da Tapa
* * * * *
MAPPAS NO VOLUME PRIMEIRO.
Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral
" " 2.--De Benguella ao Bihé
" " 3.--Entre Cubango e Cuanza
" " 4.--O Paiz dos Quimbandes
" " 5.--Disposição da àgua em Cangala
" " 6.--De Cambuta ao Cubangué
" " 7.--Paúl da nascente do Cuando
" " 8.--De Cangamba ao Cuchibi
COMO EU ATRAVESSEI A ÀFRICA.
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.
PRÒLOGO.
I.--Como eu fui Explorador.
No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de operações que no
baixo Zambeze sustentou cruenta guerra contra os indìgenas de
Massangano. O S^{nr.} José Maria Latino Coelho, então Ministro da
Marinha e Ultramar, dera ordem ao Governador de Moçambique, para que,
finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer
um detalhado reconhecimento do paiz, tão longe quanto me fôsse possivel.
A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de vãs instancias, e de
um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas d'Àfrica Oriental, voltei á
Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior d'aquelle
continente, que mal tinha entrevisto.
Razões particulares de familia fizéram adiar, se não aniquiláram, os
meus projectos.
Official do exèrcito, sempre de guarnição em pequenas terras de
provincia, fazia das minhas horas de òcio horas de trabalho; e ainda que
mal antevia a possibilidade de ir á Àfrica, era o estudo das questões
Africanas o meu ùnico e exclusivo passatempo.
As sublimes questões de astronomia não eram por mim desprezadas, e o
muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o
estudo da Àfrica e do ceo.
Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos
mais intelligentes homens que tenho conhecido, o Capitão Daniel Simões
Soares.
Pouco depois de havermos feito conhecimento, èramos ligados por estreita
amizade.
O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da
Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a
viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de serviço, têve a
companhia do outro! Àfrica, e sempre Àfrica, era o nosso assumpto de
conversação. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazìamos
correr velozes, debatendo questões, que eu mal pensava seria chamado a
resolver um dia.
Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti á crìtica de Simões
Soares, e de outro meu camarada, o Capitão Camacho; memoria filha das
nossas interminaveis palestras Africanas.
Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas
colonias de Àfrica Oriental, e isso com a maior economía para o Estado.
Depois de muito debatida a questão por nós tres, foi a memoria enviada
ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca chegara ás mãos
do Ministro da Marinha.
A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar á Àfrica, apesar de ser
chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses de subida
importancia.
Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões Africanas
tinham ali tomado grande interesse com a creação da Commissão Central
Permanente de Geographia, e com a fundação da Sociedade de Geographia de
Lisboa.
Falava-se muito n'uma grande expedição geogràphica ao interior d'Àfrica
Austral.
Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.} João
d'Andrade Corvo. Se não é facil explorar a Àfrica, não é menos difficil
falar ao Ministro, e sôbre tudo se esse Ministro é o S^{nr.} João
d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha
e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos importunos.
Persegui-o uns oito dias, e na vèspera da minha partida de Lisboa,
obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros.
Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispôr de
pouco tempo, e perguntando-me, ¿o que eu queria?
Travou-se entre nós o seguinte diàlogo:--
"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar á Àfrica uma expedição
geogràphica; e sôbre isto venho falar."
O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda
afabilidade.
"¿Já estêve em Àfrica?" me perguntou elle.
"Já estive em Àfrica, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me
occupado muito em estudar questões Africanas."
"¿Quer ir fazer uma longa viagem na Àfrica Austral?"
Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir," disse
por fim.
"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande expedição á Àfrica,
bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não
esquècerei o seu nome."
"É verdade"; me disse, quando eu já ia a sahir, "¿que condições e que
vantagens pede por esse serviço?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi.
Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros á Calçada da Gloria, N^{o.}
3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Vice-presidente da
Commissão Central Permanente de Geographia. Tivémos larga conferencia, e
o distincto sabio, então todo entregue a questões geogràphicas,
disse-me, que já tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha
de Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da expedição.
No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizéram
arrefècer um pouco o febril enthusiasmo que se apossara de mim em
Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em Àfrica.
Minha mulhér e minha filha eram laços difficeis de romper, e cada vez
que a idéa de me privar das caricias da meiga criança me passava pela
mente, arrefècia completamente em mim o ardor das explorações.
De um lado, a familia, e do outro a Àfrica, eram dois poderosos
atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a
questão. Se eu fosse nomeado Governador de um districto, podia ir
estudar uma parte d'Àfrica, sem me separar da familia. Fui collocado no
4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em
Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratoria, e apenas um
enthusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ella se faria;
e na sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um
alto brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, já de
idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia
já os primeiros symptomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a
vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores illustrações
Portuguezas do sèculo 19.
Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a quem hoje me
prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.
Todos aquelles a quem falava de exploração, me diziam ser cousa adiada.
Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em Lisboa me compungia,
pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um
impulso harmònico ás explorações Portuguezas em Àfrica; por outro lado,
sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu
compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.
Nutri então a idéa de ir governar, e de me estabelecer em Àfrica, n'essa
Àfrica em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus.
Fui falar ao Ministro.
D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se
falando já de explorações.
"¿O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o governo de
Quillimane, que está vago." O S^{nr.} Corvo rio-se. "Tenho missão de
maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de si para cousa
differente de governar um districto em Àfrica; e por isso não lhe dou o
governo de Quillimane."--
"¿Então V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar a Àfrica? Eu com
franqueza digo, que hoje não creio que a idéa se realize."--
"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de
deixar de ser João de Andrade Corvo, ou na pròxima primavera, uma
expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na
Europa, ha de partir de Lisboa para a Àfrica Austral."--
"¿E conta comigo?"--
"Conto comsigo," me disse, "e em breve terá noticias minhas."
Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.
Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "Não tenho a honra de o
conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista."
Sôbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito Capello--Official de
guarnição a bordo do couraçado _Vasco de Gama_."
No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no Café
Martinho, ás 3 horas.--Capello."
Ás tres horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam
completamente desertas. Só a uma dellas estava sentado um primeiro
tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu
homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta.
Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle
sentado. Moreno, de olhar plàcido; o cabello raro, e grisalho, o pequeno
bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido
pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude.
"¿É o S^{nr.} Capello?"--
"Sou; ¿é o S^{nr.} Serpa Pinto? já o esperava, e sei que, provavelmente,
vem falar-me d'Àfrica."--
"É verdade. ¿Então está decidido a fazer parte da expedição?"--
"Estou; e já n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio Gomes."--
"Foi elle que me falou no S^{nr.}; ¿que compromissos tem?"--
"Nenhuns. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o
D^{or.} Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que,
se for á Àfrica, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na
armada, Roberto Ivens. ¿Conhece-o?"--
"Não o conheço. Falei ao Ministro e elle disse-me, que contava comigo
para a expedição."--
"N'esse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto
de ir."--
"¡Ora essa!... então desisto eu."--
"Mesmo, eu não creio que a cousa vá a effeito."--
"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, ¿porque não havemos de
ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos ìntimas
relações, e creio bem chegaremos a ser amigos."--
"¿E porque não? Então, se a expedição for ávante, iremos juntos, e
escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--
"Esta dito. ¿Pensa sèriamente que o Governo votará uma tão grande verba
como a que é precisa para uma empresa d'estas?"--
"Não sei, duvido; e agora ùltimamente fala-se menos na expedição."
Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a ìntima convicção de que
a expedição nunca se realizaría.
Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois
separámo-nos. Elle seguio viagem no couraçado _Vasco da Gama_ para
Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em Caçadores 4,
no Algarve.
Com o descanço da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a
felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira,
distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do
trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões
mathemàticas, que elle maneja com intelligencia superior. Foi por seu
intermedio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem
depois me devia ligar estreita amizade.
Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de
Luciano Cordeiro chegáram ás mãos do Ministro da Marinha, em que tratava
do modo de organizar uma expedição de exploração na Àfrica Austral.
Passáram-se mezes, e não mais me faláram de expedição.
Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa
descrença em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria igual
descrença. Na Commissão Permanente de Geographia discutiam-se varios
projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões.
Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} João d'Andrade Corvo,
apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crèdito de 30 contos
para uma expedição em Àfrica; mas, pouco depois, cahio o Ministerio, e
foi o S^{nr.} José de Mello Gouvea encarregado da Pasta das Colonias;
quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento.
Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornaes davam por
escolhidos exploradores que eu não conhecia, e ás vezes apenas falavam
em Capello.
Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos
astronòmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Botto, distincto
professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já idéas de viajar. O
meu tempo era passado entre as caricias da familia e os meus livros de
estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchêgos do lar domèstico, para
pensar em trocar a minha vida plàcida pelo bulicio e azares das viagens.
Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o nôvo
ministro, José de Mello Gouvea, havia no parlamento apoiado a proposta
de João d'Andrade Corvo, e que fôra votada a somma de 30 contos para uma
exploração. A morte de Bernardino Antonio Gomes, vìctima, talves, do
muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, n'uma
idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de
espìrito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um grande vàcuo
na Commissão Central de Geographia. Outros, é verdade, tomando grande
interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da
commissão; mas discussões repetidas iam adiando a pràctica urgente.
Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via
possibilidade de se levar a effeito a expedição em 1877; e em vista do
que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se
aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer.
O Algarve é um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera oriental, e as
copas elegantes das palmeiras que se inclinam sôbre as casas em
terraços, faz-nos, ás vezes, esquècer de que vivemos no prosaïsmo da
Europa. Eu era ali o commandante militar, quer dizer, que afazeres
poucos tinha.
O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus
livros de estudo, e os meus instrumentos de observações, faziam-me
passar horas bem felizes, d'essa plàcida felicidade que a muitos não é
dado conhecer. O lar caseiro, o xambre e os pantufos chegáram a ser para
mim o ideal do bem-estar.
Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz
fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o verão; quando, um
dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me apresentar
immediatamente ao General commandante da Divisão; e ali achei uma ordem
para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro das Colonias.
Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e
plàcida junto dos meus; ahi vôlvo a correr mundo.
Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do
Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns d'òculos,
outros sem òculos, uns velhos outros nôvos, todos conhecidos, ou pelas
sciencias, ou pelas letras, ou pelos seus serviços pùblicos, tratavam de
questões Africanas. Presidía a esta solemne sessão o Ministro José de
Mello Gouvêa.
Eram Secretarios D^{or.} José Julio Rodrigues e Luciano Cordeiro. Conde
de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos Testa, Jorge
Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio Teixeira de
Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.
Lá no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona, estava um homem
de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por entre os
vidros da luneta de tartaruga. Era João de Andrade Corvo, que me dizia
com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se havia de fazer."
Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas sahìamos d'ali, com
as instrucções precisas para a nossa viagem. Tìnhamos escolhido um
terceiro socio, e esse era o tenente Roberto Ivens, o amigo de Capello,
que eu não conhecia, e que a esse tempo estava em Loanda a bordo do seu
navio de guerra. Estàvamos a 25 de Maio, e tomámos o compromisso de
partir a 5 de Julho. Era muito, porque tìnhamos que vir preparar a
expedição a França e Inglaterra, e só dispùnhamos de um mez para isso.
Então Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a peito
desfazer todos os obstàculos que os indispensaveis caminhos burocràticos
nos podiam trazer; e andou de modo, que a 28 de Maio eu e Capello
partìamos para Paris e Londres, a comprar o que se nos tornava
necessario. Levàvamos um crèdito de oito contos de réis.
II.--Como foi Preparada a Expedição.
Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da
Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.
D'elles ouvímos conselhos e recebémos os maiores obsequios.
Infelizmente, não encontrámos no mercado, nem instrumentos, nem armas,
nem artigos de viagem, taes como os desejávamos.
Foi preciso encommendar tudo.
Com uma recommendação especial de M. d'Abbadie, fomos procurar os
constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias, Lorieux, Baudin
e Radiguet trabalhàram para nós.
Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage (Fauré) das
armas, Tissier do calçado, e Ducet jeune da roupa.
Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali comprámos
os chronòmetros, em casa de Dent, e alguns instrumentos em casa de
Casella; uma boa provisão de sulfato de quinino, e muitos objectos de
cautchouc na casa Macintosh, entre elles dous barcos e algumas
banheiras.
Procurámos de balde em Londres, como tìnhamos de balde procurado em
Paris, um theodolito que tivesse as condições necessarias para uma
viagem de tal ordem qual ìamos emprehender. Uns, òptimos para
observações terrestres, não tinham as condições precisas para as
observações astronòmicas; outros, que reuniam as condições requeridas,
eram intransportàveis, já pelo peso, já pelo volume.
Não havia tempo para fazer construir um de propòsito, e de volta a
Paris, tivémos de aceitar aquelle que já antes nos tinha sido offerecido
por M. d'Abbadie.
Recolhémos, em Paris, tudo o que tìnhamos encommendado, e que tinha sido
fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho, desembarcàvamos
eu e Capello em Lisboa, completamente preparados para a nossa viagem;
podendo assim cumprir o nosso compromisso, de partir para Loanda no
paquete de 5. Tìnhamos feito os preparativos em 19 dias.
Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em
Àfrica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens, o modo
porque se haviam preparado outros viajantes.
Em todas as narrativas havia escassez de informações a esse respeito, e
lembra-me ainda o quanto isso me enfadou.
Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em Àfrica, e se
d'ella escrevesse a narrativa, não ser omisso n'essa parte, e dizendo
quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me prestáram
serviços reaes, e quaes os que me fôram carga inutil.
A historia das explorações d'Àfrica está no seu comêço.
Muitos exploradores me succederám em Àfrica, como eu succedi a muitos, e
creio fazer um bom serviço áquelles que depois de mim se aventurarem no
inhòspito continente, apresentando-lhes agora uma relação dos objectos
de que me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou
os inconvenientes que n'elles encontrei.
Segundo as instrucções que do Governo tinha recebido, podia demorar-me
tres annos em viagem, e para isso me preparei.
A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me
sôbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei aterrado
quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e Londres.
Só malas tìnhamos 17! todas das mesmas dimensões, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6.
Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia, caixas
para escovas e mais objectos competentes; outra continha um serviço de
meza e chá para tres pessôas; e uma terceira o trem de cozinha.
Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4
frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte
artificial, um chronòmetro, umas tàbuas logarìthmicas, umas ephemèrides,
um aneroide, um hypsòmetro, um thermòmetro, uma bùssola prismàtica, uma
bùssola simples, um livro em branco, lapis, papél e tinta; 50 cartuxos
para cada arma; um vestuario completo, e tres mudas de roupa branca;
isca, fusil, pederneiras, e alguns pequenos objectos de uso pessôal.
Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura,
escrivaninha e logar para papél. Eram pessôaes, e pertencia cada uma a
um de nós.
As outras 10 malas continham indistinctamente roupas, calçado,
instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras
iguaes e abriam com a mesma chave.
A nossa barraca era uma _tente marquise_ de 3 metros de lado por 2^m, 3
de alto. As camas eram de ferro, fortes e còmmodas. As mesas de tezoura,
os bancos e cadeiras de lona.
Todos estes artigos fôram da fàbrica de Walker.
Cada um de nós tinha uma carabina magnìfica de calibre 16, cujos canos,
forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido cuidadosamente montados por
Fauré Lepage.
Uma espingarda do mesmo calibre da fàbrica de Devisme, uma Winchester de
8 tiros, um revólver e uma faca de mato completavam o nosso armamento.
Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas,
das mesmas dimensões das malas, contendo, em latas cuidadosamente
soldadas, chá, café, assucar, hortaliças secas, e farinhas substanciaes.
Hoje devo aqui lavrar um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira,
proprietario da mesma fàbrica, pelo escrùpulo que têve na escôlha dos
gèneros que nos forneceu, e que muito nos servìram no comêço da viagem.
Os instrumentos que levámos fôram os seguintes: 3 sextantes, sendo um de
Casella, de Londres; um de Secretan, e um de Lorieux, verdadeiro primor.
Dois cìrculos de Pistor, fabricados por Lorieux, com dois horizontes de
espelho, e os competentes nivéis. Um horizonte de mercurio de Secretan.
Tres lunetas astronòmicas de grande fôrça, duas de Bardou e uma de
Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella; 4
pedòmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6 bùssolas de algibeira;
1 bùssola Bournier de Secretan; 3 outras azimutaes, duas de Berlin e uma
de Casella; 2 agulhas circulares Duchemin; 6 hypsòmetros Baudin, 1 de
Casella, 3 de Celsius de Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12
thermòmetros de Baudin, Celsius e Casella; 1 baròmetro Marioti-Casella;
1 anemòmetro Casella; 2 binòculos Bardou; 1 bùssola de inclinação, e um
apparelho de fôrça magnètica, que nos fôram obsequiosamente emprestados
pelo Capitão Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E finalmente, o
theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de _Aba_, e que tão
cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor.
Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado o
seguinte letreiro--_Expedição Portugueza ao interior d'Àfrica Austral,
em 1877_.
Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares zoològicos
e botànicos nos fôram enviadas pelos S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de
Ficalho.
Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que
ìamos deixar Lisboa, para nos internarmos nos sertões desconhecidos da
Àfrica Austral.
CAPÌTULO I.
EM BUSCA DE CARREGADORES.
Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não ha
carregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da Lenha--Os
resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley
a bordo da _Tâmega_--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu
hòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens.
No dia 6 de Agosto de 1877, chegàvamos a Loanda, no vapor _Zaire_, do
commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho
affectuoso de muita gratidão, pelos favores que me dispensou durante a
viagem.
Desde a minha saïda de Lisboa, uma preoccupação constante me perseguia.
A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser ainda muito aumentada, com
fazendas, missangas e outros gèneros, que seriam a nossa moeda no
sertão.
Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li
eu as difficuldades em que se encontráram muitos exploradores, por não
poderem obter o nùmero sufficiente de carregadores para as cargas
indispensaveis. ¿Como os obteria eu? Em Cabo-Verde sube, que uma carta
que eu e Capello tìnhamos dirigido ao Ivens não fôra por elle recebida;
pois que sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por
isso não podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe
fazìamos, de estudar a questão, e ver se nos obtinha em Loanda os
auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas ficou sem
resultado, e apesar do apoio que nos prestou o Capitão Tito, nem um só
_keruboy_ podémos ajustar ali.
Chegámos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa do S^{nr.}
José Maria do Prado, um dos primeiros proprietàrios e capitalistas da
Provincia de Angola, que immediatamente poz á nossa disposição, uma das
muitas casas que possue na cidade; casa com accommodações bastantes para
receber o enorme trem da expedição.
Do S^{nr.} Prado recebemos innùmeros favores. Na noite do dia 6, fomos
procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua Excellència o
Governador-Geral, que vinha, em nome do S^{nr.} Albuquerque, fazer-nos
os mais cordiaes offerecimentos.
No dia 7, procurámos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu
affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus
trajos, que, òptimos para a vida do mato, eram, a não poder ser mais,
ridìculos para uma visita ceremoniosa.
O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior
assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a
impossibilidade de obtermos carregadores.
Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em
Àfrica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe: _Não ha carregadores_.
Decidí immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por ali os poderia
contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me mandasse
transportar ao Zaire.
O só navio de guerra que podia ser posto á minha disposição andava
cruzando na foz do Zaire; resolvi d'ir procural-o, e no dia 8, parti
n'um escalér, tripulado por 8 prêtos cabindas, que me foi fornecido pela
capitanía do Porto. Levava ordens do Governo para o commandante da
canhoneira. Não ha nada mais desagradavel do-que fazer uma viagem de 120
milhas em um escalér. De Loanda ao Ambriz comi apenas umas sardinhas e
bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no escalér no mesmo dia da
partida, não tive tempo de fazer preparativos.
No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no
planalto de um còmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam cortadas a
prumo sôbre o mar.
Fazia as vêzes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.} Tavares, que
caprichou em obsequiar-me, assim como tôdos os habitantes da villa,
mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem estive hospedado.
Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de conhêcer
Avelino Fernandes a bordo do vapor _Zaire_, e relações ìntimas se
estabelecêram entre nós.
É filho das margens do Zaire, e tem grande paixão por esse rico solo,
onde as àrvores gigantescas da floresta virgem lhe assombráram o berço.
Tem 24 annos. A côr morena e o cabello crespo indicam que nas suas
veias, de envolta com o sangue Europêu, gira o sangue Africano. Rico,
dotado de uma esmerada educação, adquirida nos principaes centros da
Europa, e que uma intelligencia superior soube desenvolver, é o
verdadeiro typo do cavalheiro palaciano, que não se pôde conhêcer sem
que a elle nos prenda logo verdadeira sympathìa. As muitas relações que
elle tinha no Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali
carregadores.
Sube no Ambriz que a canhoneira _Tâmega_ devia chegar áquelle ponto
dentro de dois dias; e por isso resolvi esperal-a.
A viagem de Loanda no escalér não me tinha deixado recordações tão
fàgueiras, para que eu persistisse em continuar para o norte da mesma
forma.
No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois traços vou
narrar o que vi.
Do planalto em que assenta a povoação Europêa, desce-se para a praia por
um caminho em zigzag, que estava sendo reconstruido por alguns
grilhetas. Na praia, entre dois soberbos edificios, que sam armazens das
casas commerciaes Franceza e Hollandeza, ostenta-se um albergue,
meio-derrocado pêla velhice, meio-em-construcção recente não-continuada,
que é a Alfàndega; Alfàndega sem depòsitos, onde as fazendas, arrumadas
á porta sôbre o areal, pagam um irrisòrio tributo de armazenagem. A
N.N.E. da villa, muitos hectares de terreno sam occupados por um
pàntano, inferior de 3 metros e 12 centìmetros ao maior preamár; e na
encosta da escarpa que do planalto da villa desce ao pàntano, assentam
as cubatas da povoação indìgena, nas peiores condições de salubridade.
Ao sul da villa, entre umas moitas de mato virgem, é o cemiterio--onde
os cadàveres enterrados de dia, sam pasto das hyenas á noite.
A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, está prestes a
ser inutilizada; porque a oxidação do ferro em contacto com o ar e a
àgua, produz-se cêdo; e a ponte não foi pintada, não ha verba para sua
conservação, nem alguem que por ella vigie.
A casa do chefe é um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro perigo em
habitar.
O paio ameaçava ruina; e isso fêz-me impressão, porque elle contém a
pòlvora do commercio, que não rende menos de duzentos mil réis mensaes
para o Estado.
É bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da minha visita
ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados áquella bonita villa, cuja
importancia é patente, sendo um grande centro de commercio.
Um kilòmetro ao N. da ponte de desembarque, lança no Atlàntico as suas
àguas o rio Loge, cuja foz é obstruida por um banco de areia, que lhe dá
difficil accesso, mas que depois é navegavel por uns trinta kilòmetros.
No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrìcula, fundada pêlo
cèlebre Jacintho do Ambriz, e hôje pertença de seu filho Nicolao. Esta
propriedade representa um dos maiores esfôrços feitos na provincia de
Angola, para o desenvolvimento da agricultura.
Jacintho do Ambriz foi levado á Àfrica por uma desgraça ìntima. Filho do
povo, sem a menor instrucção, não sabendo mesmo ler ou escrever (mas
dotado de uma razão clara, de um espìrito fino, e de muita felicidade),
chêgou a fazer uma grande fortuna. Jacintho casou no Ambriz com uma
mulhér da sua igualha. Era a tia Leonarda, mais conhêcida por _tia
Lina_, natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhêci eu vestida sempre á
moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar que fala o pôvo
d'aquella provincia, como se de lá tivêsse chêgado. Na sua casa comi um
jantar beirense, e por um momento julguei-me transportado a uma das
hospitaleiras casas dos nossos lavradores do Norte. A tia Lina entrou
muito na felicidade que levou Jacintho á riqueza.
Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na Àfrica, obriga a dois
distinctos ramos:
Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e
adquirir dos prêtos esses productos, vendendo-lhes as fazendas.
Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os
prêtos.
Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vêzes vìctima da sua
boa fé, e das extorções de alguns chefes; o que provocava uma phrase á
tia Lina, que eu muitas vêzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos
esmagam-te; mas eu esmago os prêtos!"
O verbo empregado pêla tia Lina não era precisamente o verbo _esmagar_,
mas, por muito enèrgico, substituo-lhe outro algo semelhante.
Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criança que
puxava por elle. Comprou terreno, e lançou os fundamentos d'essa
vastissima propriedade que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o
seu trabalho e a sua bôlça, até ao ùltimo momento de vida que têve.
Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle
tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou de outro vocàbulo que
decorara, mas cuja significação não conhecia bem; com tudo, tinha muito
espìrito, e ha d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo:
Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que
ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer
offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.
Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco.
"¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande ámanhã um escalér,
pelo Loge até minha casa, buscal-os."
No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens, encostava ao
muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o escalér até dois kilòmetros
mais, e chêgando á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em
cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos
marinheiros: "Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da minha
propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao
commandante."
Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das enormes àrvores,
cujos troncos, de espantoso diàmetro, não lhes permitiam a subida; e
depois de alguns vãos esfôrços, retiráram desanimados, perseguidos pêla
grita e pêlas caretas da macacaria.
"Eu dei-lhos; se os não levam, não é culpa minha," dizia o Jacintho,
rindo ás gargalhadas.
Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que,
màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fàbrica
Portugueza.
Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e, custassem-lhe o dôbro,
fazia elle fabricar em Lisboa tôdos os seus artigos, já para a
agricultura, já para a industria.
A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido pêlos disparates que
dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas que fêz--dêve ser respeitada
por tôdos os que se interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque
elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para
desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua
immensa fortuna, e trabalhando até ao seu ùltimo dia.
Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade agrìcula, tambem
importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto Garrido. Não tive tempo de a
visitar, porque, no dia que ali passei, não pude esquivar-me aos muitos
favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o
que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito.
No dia seguinte, chêgou a canhoneira _Tâmega_, e sube, indo a bordo, que
se achava sem mantimentos, e com grande nùmero de praças doentes; motivo
por que combinei com o commandante, o S^{nr.} Marques da Silva,
esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar.
Três dias depois chêgou a _Tâmega_ de volta de Loanda; indo eu logo para
bordo, com Avelino Fernandes, seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire.
Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei
logo que comêçou a viagem.
Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino
Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em
carregadores. Disséram-me, que seria, talvêz, possivel obtel-os, se os
chefes indìgenas me quizêssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim,
era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o serviço que eu
exigia.
Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse para os libertar em
seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo
livres?
Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora não obtivêsse um
só carregador ali.
Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia 9, o grande
explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha
seguido para Cabinda.
Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os
nossos serviços ao arrojado viajeiro. Partímos, e logo que ancorámos no
porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da
canhoneira.
Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura,
que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal.
Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez, e
disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia
obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia
transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo
Portuguez puz á sua disposição o dinheiro de que carecêsse.
Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão.
Os officiaes da _Tâmega_ confirmáram os meus offerecimentos em nome do
seu Commandante.
Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á sua
disposição.
Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes não deixàvamos
Stanley, e àvidos de ouvir a narração da sua viagem, o tempo que elle
tinha preso, era por nós passado a questionar os seus homens.
No dia 19, os officiaes da _Tâmega_ déram um soberbo banquête ao
intrèpido explorador, para o qual convidáram o Commandante Marques,
Fernandes e a mim.
No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo tôda a comitiva de
Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre ellas 12 mulhéres e
algumas crianças.
Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distincção a que eu
fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que
têve, e com elles commodidades que eu não podia offerecer-lhe, n'uma
casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro.
O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e
offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa, perguntei a
Stanley, ¿qual a impressão que trazia do S^{nr.} Albuquerque? E elle
disse-me apenas: "_He is a very cold gentleman_." ("É um cavalheiro mui
frio.")
O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um almôço, e muitos
favores nos dispensou.
Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto, ainda não tìnhamos um só
carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley pêlo Governador,
me repetira sua Excellencia, que não me seria possivel obtel-os, sôbre
tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major
Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do nùmero de homens de que
precisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza.
É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instrucções
do Governo.
O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se estudarem as
relações hydrogràphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes
comprehendidos entre as Colònias Portuguezas de uma e outra costa
d'Àfrica Austral.
Umas instrucções subsequentes indicavam mais particularmente o
estudar-se o rio Cuango, nas suas relações com o Zaire; o estudo dos
paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até
ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria
estudar-se o curso do Cunene.
O que fôra designado na lei do Parlamento, elaborada pêlo S^{nr.} Corvo,
parece ao principio problema vasto de mais para uma só expedição, e uma
verba de trinta contos de réis; mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.}
Corvo sabía, que o viajante em Àfrica, não só nem sempre é senhor dos
seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde encontrar um
não-previsto problema, que julgue de importancia superior á do que lhe
foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores.
Quanto ás instrucções, fôram ellas mais restrictas, mas ainda assim,
deixavam bastante largos os movimentos da expedição.
O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde
obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado.
Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, até
encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao
Cassibi, que intentàvamos descer até ao Zaire; e finalmente, reconhêcer
o Zaire até á sua foz.
Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que nós
propunhamos fazer, e sôbre tudo a impossibilidade de obter carregadores
em Loanda, tivémos de modificar completamente o nosso plano.
Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e
que, se ali os obtivêsse, entràssemos pêla foz do rio Cunene, subindo-o
até ás suas nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para
S.E., até ao Zambeze.
Como não podìamos ter grande confiança na gente que ajustàssemos,
lembrámo-nos de pedir ao Governador um certo nùmero de soldados, que
fôssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e
mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam
acompanhar; porque, não sendo aquelle serviço regular, não podia
compellir os soldados a irem.
Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no
principio de Setembro devia chêgar de Lisboa.
N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu via. Sympàthico,
ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado pêlas
viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrámos-lhe tudo
o que resolvêramos fazer, e as difficuldades que tìnhamos encontrado até
então. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a
minha partida para Benguella, no dia 6.
Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.
Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as
bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada
partida da Europa.
Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia
ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros,
differentemente do que o devia fazer.
No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino
Fernandes, a respeito da escravatura, e mostràvamos a Stanley o espìrito
das leis Portuguezas sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de
asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer
então escravos onde o Governo tinha força. Discorrìamos ácerca do
assumpto, quando Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador.
Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta
official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, ¿se nas
terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido
mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos ficámos eu, os meus
companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversação
ao almôço, e aquella carta depois de um de nós ir a Palacio, pareceria
ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada.
Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da _Tâmega_, em
minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, não tinha
visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia
muito bem sabía, só por informações nossas poderia falar, convivendo
quasi exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum do paiz
governado pêlo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.} Governador
viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um
certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.
Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que èramos estranhos
áquella carta.
No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.} José Maria do
Prado para alguns particulares, e nem uma recommendação para o
Governador do Districto, que eu não conhecia.
Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu, Portuguez, não tinha
podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um
estrangeiro, o explorador Schutt, que não encontrou as menores
difficuldades, para seguir o primeiro caminho que nós tìnhamos
tencionado seguir.
Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns
carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns
20 ou 30.
Foi já um pouco animado com esta promessa, que chêguei a Benguella, no
dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de recommendação para alguns
negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem.
CAPÌTULO II.
AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.
O Governador, Alfredo Pereira de Mello--A casa do
Governador--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--O
que é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A
Catumbela--Obtenho carregadores--Chêgada de Capello e Ivens--Nôva
alteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho
sertanejo--Apparecem nôvos obstàculos--O Capello vai ao
Dombe--Partida--O que é o Dombe--Nôvas difficuldades--Partimos
emfim.
Alfredo Pereira de Mello,[1] Governador de Benguella, ao ouvir o meu
pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e disse-me, que
não tinha meio de me receber em sua casa. Sorprendeu-me o caso, sabendo
eu que o Governador era bizarro de genio e de natureza franco. Tive
convites, logo á minha chegada, já de Antonio Ferreira Marques, já de
Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.
Elle disse-me, que não tinha cama a offerecer-me, e eu mostrei-lhe a
minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa d'elle a minha
bagagem. Disse-me, que não tinha quarto; apontei-lhe para um canto da
sala em que estàvamos, onde ficaria òptimamente.
Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a curiosidade a
resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas
cêdo desvendei o misterio.
Alfredo Pereira de Mello era homem nôvo, ainda que tinha já uma patente
superior na armada. Sympàthico e intelligente, é estimado por tôdos
aquelles que o conhêcem de perto; porque a uma finissima educação, reune
grande rectidão de caracter, e a energía peculiár a tudo bom marinheiro.
Serviu na marinha Ingleza, e tem de viagens larga pràtica.
Vio as Amèricas, e antes de ir para Àfrica como Ajudante-de-Campo do
Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japão.
O Governador, que já me conhêcia de nome, ao ouvir o meu pedido,
esquèceu que tinha diante de si o explorador, para só se lembrar do
homem habituado a viver no meio do luxo e das commodidades. Pereira de
Mello têve vergonha de hospedar-me.
Um Governador de Benguella, se é recto e probo, vive mesquinhamente com
a paga que recebe.
A casa do governo é arrendada. A mobilia, um pouco menos de modesta,
guarnece a sala e um quarto.
Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei, o
melhor que tenho visto.
E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas vêzes navios de guerra
estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a bordo;
e elle nem um copo d'àgua lhes pôde offerecer em sua casa, porque a
prêta ou o muleque tem de trazer o côpo n'um prato velho. O serviço de
mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sôbre a cabêça de
Pereira de Mello, ao ouvir a minha teimozía em ficar. Não tinha razão. O
asseio que presidía a tudo, suppría o vidrado da louça gasto com o
tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o appetite já
derrancado pêlos ares Africanos; e não se offenda o cozinheiro do Hotel
Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhór em casa do
Governador de Benguella do que comia dos seus opìparos manjares, ainda
que a prêta Conceição, cozinheira do Governador, nunca ouvio falar do
heroe das caçarolas, o cèlebre Brillat-Savarin.
Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu
coração, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Três
officios dirigidos ao Governo da Provincia, em que pedia autorização
para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta.
Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim.
Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo de
Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador de
então já se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a ellas lhe não dar
remedio o Governador Geral da Provincia, e entre outras cousas que pede
com urgencia, figuram os reparos para duas peças de bronze que designa,
e que ainda hôje os carecem.
Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora é, que os
reparos já fôram encommendados e não podem tardar em chegar; porque,
sendo a encommenda d'elles feita em 1790, dêve estar quasi concluida a
sua construcção.
Benguella é uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlàntico
até ao sopé das montanhas que formam o primeiro degrao do planalto da
Àfrica tropical. É cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco,
ainda hoje povoada de feras; e isso não admira, que os Portuguezes, em
geral, de caçadores não t[~e]m manhas. As habitações dos Europêos
occupam uma grande àrea, porque todas as casas t[~e]m grandes quintaes e
dependencias.
Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortaliças da Europa, e
muitos frutos tropicaes.
Vastos pàteos cercados de alpendres servem para dar guarida ás grandes
caravanas que do sertão descem á costa em viagem de tràfico, e que
repousam três dias na casa onde effeituam as permutações.
Um rio, que na estação estía apenas é larga fita de àrea branca, que se
desenrola das montanhas ao mar, a travez da floresta do Cavaco, é ainda
assim a grande fonte de Benguella, que os poços ali cavados dam àgua boa
philtrada pêlas àreas calcàreas.
Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de àrvores,
pela maior parte figueiras sycòmoros, de pouco arraigadas, e por isso
ainda pequenas. As praças sam vastas, e em uma ajardinada, crescem
bonitas plantas de vistoso aspecto.
As casas, todas terreas, sam construidas de adôbes, e os pavimentos sam,
em umas de tijolos, e de madeira em outras.
A alfàndega é bom edificio, recentemente construido, e tem vastos
armazens para as mercadorias do tràfico. Esta alfàndega, e o largo
ajardinado, como outros melhoramentos de Benguella, fôram de um
Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto.
Uma ponte magnìfica de architraves de ferro, creio que encommendada pêlo
mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada pêlo Governador
Teixeira da Silva, é guarnecida por dois guindastes e carrís, por onde,
em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas á alfàndega. Eu
aqui commetti um erro de grammàtica, escrevendo o verbo transportar no
presente do indicativo, quando no condicional é que era.
_Transportariam_, se houvesse pessôal para isso; mas não _transportam_,
porque o não ha.
Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado.
A povoação Europêa é cercada, por todos os lados, de _senzalas_, ou
povoações de prêtos, e mesmo entre a povoação branca ha pequenas
_senzalas_, em quintaes abandonados. O seu aspecto geral é agradavel e
aceiado.
Tem Benguella má fama entre as terras Portuguezas de Àfrica; e supõem
muitos, ser aquillo um paiz infecto, que exhala de miasmàticos pàntanos
a peste, e com a peste a morte.
Não é assim. Eu não conhêci Benguella como ella fôra em tempos passados;
mas hôje, não é nem melhor nem peior do que outros muitos pontos
d'Àfrica.
O aceio e as plantações de arvoredo, de certo t[~e]m. modificado muito
as suas anteriores condições hygiènicas, e com uma pouca de boa vontade,
não seria difficil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque
não pôde deixar de merecer verdadeira attenção um ponto de tão subida
importancia commercial, e em facil contacto com tão ricas terras nos
sertões.
Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam cêra,
marfim, borracha e urzella, que chêgam á cidade trazidos pêlas caravanas
dos sertões. Estas caravanas sam de duas espècies. Umas, dirigidas por
agentes das casas commerciaes, trazem ás mesmas casas que os despacham
os productos do seu tràfico no interior; outras, exclusivamente
compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor
ganho encontram.
O tràfico com o gentío faz-se por permutação directa do gènero por
fazenda de algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros productos
Europêos sam objecto de uma segunda permutação pêla fazenda recebida; e
assim, depois da primeira troca do marfim ou cêra pelo algodão, é este
trocado por armas, pòlvora, àgua-ardente, missanga, etc., á vontade do
comprador; porque a fazenda de algodão é, por assim dizer, a moeda
corrente n'este tràfico.
O commercio está entre mãos de Europêos e crioulos, e felizmente já ali
encontrámos muitos d'esses rapazes que, aventurosos, deixam patria e
familia, para ir em terras longinquas buscar fortuna.
Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, já por conta
propria, já como empregados de casa alheia.
Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tôda a vida, sam
deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali quantidade
de patifes, de que é bom resguardar-se; não os confundindo com a gente
digna e capaz, que a ha.
A policia é confiada á fôrça militar, que um dos regimentos destaca para
Benguella; sendo que de Benguella ainda sam espalhadas differentes
fôrças nos concêlhos do interior; desfalcando a guarnição da cidade, já
de si pequena.
Nós temos dois exèrcitos, um na Metròpoli, outro nas colonias, que
nenhuma relação t[~e]m entre si.
O nosso exèrcito da Metròpoli é bom, porque o Portuguez é bom soldado; o
nosso exèrcito das colonias é mao, porque o prêto é mao soldado; e os
brancos que ali servem de mistura com prêtos, sam peiores ainda do que
estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade, fazendo-lhes
perder na Europa o fôro de cidadãos, vam desempenhar em Àfrica o posto
nobre do soldado; sendo a nossa autonomía Africana, e a segurança
pùblica e particular, confiada á defeza de homens, que dam por garantía
um detestavel passado.
Dahi as contìnuas scenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali.
Durante a minha permanencia em Benguella, houve um grande roubo com
arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior
energía na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados,
sendo muito coadjuvado pêlo seu Secretario, o Capitão Barata, que
conseguio descobrir os ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fôra o roubo
planeado pêlo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por
elle e alguns soldados!!!
Se o nosso exèrcito Metropolitano não se presta á censura do homem mais
pichoso, as nossas fôrças coloniaes sam vìctimas das merecidas chufas de
tôdos os estrangeiros, que as observam.
Por mais que tenha cogitado, nunca pôde attingir ao prèstimo de tal
exèrcito em nossas colonias, que para policia não serve; servindo menos
para a guerra, que da minha lembrança tenho visto ser feita por côrpos
voluntarios, levantados no reino, e que àlém vam servir por certo praso.
Hôje mesmo, em Lisboa, três batalhões estam sempre prontos a marchar
para as colonias, e já lá t[~e]m ido; o que prova sabermos nós, que o
ter exèrcito no ultramar, tal como elle é, não passa de velha
costumeira.
Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhêcimento do Juiz de
Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que,
como elle, empregaria tôda a sua influencia para que eu não tivêsse
vindo de balde a Benguella, e assim o fêz.
O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião em sua
casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado
itinerario, pediu-lhes que o coadjuvâssem na empresa de arranjar
carregadores; para que eu podêsse levar a cabo a expedição. Todos assim
o prometêram.
O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fôram incansaveis, e
no dia 17, dia em que este ùltimo se retirou para Lisboa, tinha eu o
nùmero de carregadores que pedira, cincoenta, que, com trinta esperados
de Nôvo Redondo, prefaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia
julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bihé.
O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao
Bihé o grôsso das bagagens, que nós encontrarìamos n'aquelle ponto; onde
deverìamos contratar mais carregadores para seguir ávante.
N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando a
ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa
Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me.
No dia seguinte, um prêto meu serviçal furtou-me uns 75 mil réis, e
desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse.
A 19 chegáram os meus companheiros na canhoneira _Tâmega_, e n'esse
mesmo dia resolveu-se, que não irìamos á foz do Cunene, mas sim
entraríamos directamente ao Bihé.
Esta nôva resolução que tomámos, alterava o que havia contratado com os
carregadores, e àlém d'isso, a gente de Benguella, que, transportada a
paiz distante, não pensaría em desertar, não me inspirava garantía,
viajando logo no comêço em paiz de que conhêcia a língua e os costumes.
Comêçou nôva campanha. Eu tinha presentes as narrações de Cameron e
Stanley a respeito dos embaraços causados por deserções, e até as do
proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de
Tete com o D^{or.} Kirk.
Logo depois da chêgada dos meus companheiros, combinámos em ser o Ivens
encarregado dos trabalhos geográphicos, o Capello de Meteorologia e
Sciencias Naturaes, e eu do pessôal auxiliar da expedição,
coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me pôr logo em campo, e
o primeiro passo que dei, foi ir tomar consêlho de Silva Porto.
Narrei-lhe a nôva decisão que havìamos tomado, de seguir directamente ao
Bihé, e expuz-lhe o meu embaraço. Silva Porto veio a Benguella comigo,
pois que a sua casa da Bemposta dista 6 kilòmetros da cidade, e
precorrémos as casas onde haviam caravanas de Bailundos, sem que elles
quizêssem annuir a levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha
chêgado uma grande caravana, e este cavalheiro chêgou a offerecer uma
avultada gratificação ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se
quizêssem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguío.
Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros
viajantes d'Àfrica, e nenhum outro pôvo estende mais longe as suas
correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os
Bihenos viajam só do Bihé para o interior como assalariados; e se de
maravilha v[~e]m á costa, é por conta propria. Os Bailundos alugam os
seus serviços entre a costa e o Bihé, e não vam ao interior para leste;
mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Loanda.
Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias
de Benguella ao Bihé por Bailundos, e d'ali aos pontos remotos do
interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao Bihé.
D'este ponto á costa tornam a servir-se dos Bailundos.
Depois de informado d'isto, só me restava mandar assalariar Bailundos,
para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva Porto,
despachando logo cinco prêtos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho
sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora, porque os
enviados levavam 15 dias a chêgar ao paiz, e outro tanto tempo, pêlo
menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir;
fazendo uma somma de 45 dias; afiançando-me elle, que antes não os
teria. Nós estàvamos em fins de Setembro, e por isso só poderìamos
partir por meado de Novembro.[2]
Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com
elles, resolvémos não perder tanto tempo em Benguella; e entregando as
cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos Bailundos,
partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo esperar no
Bihé; tempo que aproveitarìamos no arranjar de carregadores ali para
seguir ávante.
Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma
confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Nôvo Redondo,
faziam um total de 66 homens. Tìnhamos, àlém d'isso, 14 soldados; os
meus muleques pequenos de serviço; uns Cabindas de serviço de Capello, e
Ivens; e 2 chefes prêtos, um contratado por mim na Catumbella, o prêto
Barros, e outro por Capello, em Nôvo Redondo, o Catão.
Em tôda esta gente não tìnhamos um só homem de confiança.
Tratámos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e conhêcémos que
eram 87; isto é, tìnhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de
balde que trabalhei para os haver, não me foi possivel obter um só.
Os prêtos, não comprehendendo o que ìamos fazer, ao sertão, estavam
receiosos, e com a sua desconfiança natural, imaginavam loucuras e
recusavam-se.
Chêgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.
Resolvi, por consêlho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os
Mundombes faríam menos difficuldades, do que a gente de Benguella; mas,
sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali fôsse por mim.
No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fêz. Os
Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho
conhêcido d'elles; mas, fora d'isso, não fazem outras viagens; e
recusáram as pagas avultadas que lhes offerecìamos para irem ao Bihé.
Tornava-se necessario tomar uma resolução, e essa foi logo tomada;
seguirìamos sempre para o Bihé, mas tomarìamos por Quillenges e Caconda.
O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que
tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para
Quillengues.
Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bihé, e
eram umas 400.
Poz o Governador á nossa disposição uma lancha, para transportar por mar
ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali deviam ser carregadas até
Quillenges, e alguns carregadores de Benguella que estavam doentes.
No dia 11 de Novembro, estàvamos prontos a deixar a costa, e fixámos a
partida para o dia 12. Nesse dia fugíram 4 carregadores de Nôvo Redondo,
e no seguinte 5 de Benguella.
Emfim, no dia 12 deixàvamos a Cidade, depois das mais cordiaes
despedidas dos amigos, que se reuníram para nos dizer adeos.
Pouco antes tinha eu ido á praia, e por muito tempo tive os olhos fixos
na vastidão do Atlàntico, d'esse mar enorme que ia perder de vista; e
mal cogitava então, que só o volveria a ver dois annos depois, na
França, em Bordeos.
Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida,
senti uma pungente mágoa, uma indefinivel saudade, uma dôr profunda, que
me produzíram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a
consciencia de ter deixado Benguella.
A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao
passo cadenciado da caravana; seguí-a.
No dia 13, chegàvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64
kilòmetros. Tìnhamos com-nosco 69 pessôas, e seis jumentos, que fôram,
homens e burros, alojados na fortaleza. Nós três, com os nossos muleques
de serviço, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio
de Santos Reis, distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.
Dois dias depois, chegáram as cargas que tinham vindo por mar, e
inventariando tudo, conhêci, que para seu transporte precisava de 100
homens, àlém dos effectivos que comigo tinha.
Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a lancha,
mettendo a bordo mais cargas do que tìnhamos julgado absolutamente
necessarias.
Decidímos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o
paquete, de costume, está em Benguella a 14; mas a 18 nem o vapor tinha
ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado um só homem.
A 21 chêgou a mala, mas de gente só tìnhamos a trazida de Benguella. O
chefe declarou-nos, que no dia 26 poderìamos partir; mas, precisando nós
de 100 homens, apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia
aparecêram mais 27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os
fizesse esperar, despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por
dois soldados dos que comigo tinha.
O chefe declara-me que lhe é impossivel conseguir mais gente. Faço
reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo
tratar com elles. Sam três typos magnìficos.
Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella,
que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é Batara. Os meus
companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque desde o
dia 24 estam com febre.
O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de ramageus,
muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de infanteria,
desabotoada, deixando ver o peito nú, porque camisa não usa; e na
cabêça, sôbre um barrete de lã vermelha, põe nobremente um chapéo armado
de estado-maiór.
O Bahita traja saias de lã de vistosas côres, uma rica farda de Par do
Reino, quasi nôva, e na cabêça, sôbre o indispensavel barrete, uma
barretina de caçadores 5.
O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz á cinta um
espadão enorme.
Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos séculos e altos
dignitarios das suas negras côrtes, que tomam assento no chão em torno
da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que
tirava de uma marimba, monòtona toada.
Esta marimba é formada de dois paos de 1 metro de comprido, ligeiramente
curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas pequenas de
madeira, cada uma das quaes é uma nota da escala. O som é reforçado por
uma fila de cabaças collocadas inferiormente, sendo a que corresponde á
nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e á mais alta 3 a 4
decilitros.
Os Sobas portáram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem que os
tamava a sério.
Depois de me prometterem carregadores, viéram acompanhar-me a casa, que
distava uns dois kilòmetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de
àgua-ardente a cada um, mandáram elles dançar a sua fidalgaria, e o
Bahita mandou entrar na dança umas raparigas que haviam ficado de parte.
Eu pedi-lhes que dançassem elles; mas respondéram-me, que a sua
dignidade lh'o não permittia; sendo isso contra as pragmàticas
estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita dançando, de saias e
farda de Par; e conhêcedor do imperio da àgua-ardente nos prêtos, mandei
dar outra garrafa aos sobas.
Foi o bastante. Atropeláram as suas leis, e eil-os saltando em brutesça
dança no meio do seu pôvo, que enthusiasmado por tal honra, redobra de
contorsões e momices, que chegam a atingir o delirio. O Bahita é
magnìfico, e com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este
molde. Fala continuamente em mandar cortar cabêças, sentenças estas que
os seus escutam com a maior submissão, mas de que interiormente se riem,
porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o não consente.
O Dombe Grande é um fertilissimo valle, que se estende primeiro do Sul
ao N., e depois a Oeste, quasi em àngulo recto, até ao mar. É enquadrado
por dois systemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro
por leste, em cujo sopé corre o rio _Dombe_, _Coporolo_, ou _Quiporolo_,
e até rio _de S. Francisco_--que todos estes nomes tem.
[Figura 1.--Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão. (De uma
photographia do pharmaceutico Monteiro.)]
É rio que de inverno traz muita àgua, mas de verão é sêco; sendo que,
mesmo nas maiores estiagens, àgua se encontra cavando poços; o que
acontece em tudo o valle do Dombe, onde não é preciso profundar mais de
3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o
valle se estende N. S., ha uma lagôa, de 50 metros de largo por 1
kilòmetro de extenção, e da forma de S. Esta lagôa é curiosa, porque não
é formada por depòsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte
nascente subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir
infiltrações, que, um kilòmetro abaixo, vam formar nascentes, que sam
aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre,
tainha e muitos crocodilos.
Tenho-a visitado muitas vêzes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas é
certo que os ha, porque m'o afiançou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo,
que sam muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade
atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaçados
pêlos seus prêtos, tentáram na fuga atravessar a nado a lagôa, não
logrando um só atingir á outra margem, porque tôdos fôram prêsa dos
vorazes amphibios.
Nas montanhas de oeste junto á lagôa, montanhas formadas de carbonato
calcàreo e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quaes
nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e
parecer, tanto quanto por fóra se podia observar, que contém extensas
galerias.
Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e verificámos
não ter ella merecimento.
É um salão pròximamente circular, de 14 metros de diàmetro, architectado
pêla natureza na immensa mole de calcàreo, que forma a montanha. Parece
ser guarida habitual de feras, que o dá a entender o ar saturado do
fedôr almiscarado de certos animaes, bem como as traças de leão
impressas no pó impalpavel que cobre o chão, onde encontrámos alguns
espinhos do Hystrix Africano.
No valle do Dombe ha algumas feitorias agrìcolas importantes, sendo as
principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro
Santos Reis. Esta ùltima conta apenas três annos de existencia, e produz
cana de açucar de que extrahe para cima de 40 mil litros de
àgua-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado
ha só três annos. É uma feitoria que começa, tudo ali está ainda em
construcção; mas pêlo resultado já obtido se pôde aquilatar a riqueza do
solo ali.
Tudo o valle é cultivado de mandioca, pêlos indìgenas, e tão fertil é,
que depois de três annos de falta de chuva, não tem deixado de ter
producção regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por
anno. É o celeiro de Benguella. Os indìgenas ali não permutam as
fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor já conhêcem.
[Figura 2.--Mulhéres e Donzellas, Mundombes. (De uma photo. de
Monteiro.)]
A demora que ali tivémos foi prejudicialissima á ordem, e disciplina da
minha gente.
Tôdos os dias apresentavam nôvas exigencias, tôdos os dias levantavam
querellas entre si; e eu não podia ser demasiado severo, de receio que
me desertassem tôdos.
Vendéram os pannos para comprar àgua-ardente, e chegáram a vender as
rações de comida para se embriagarem.
Os soldados eram os peiores. Os sobas não mandáram gente, e eu
principiei a ver a repetição das scenas de Benguella. Não podìamos
seguir.
[Figura 3.--Homens Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)]
No dia 1 de Dezembro, chegáram ao Dombe 30 homens mandados de
Quillengues pêlo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu lancei mão
d'elles, e decidi com os meus companheiros partirmos no dia 4.
Tinha havido mais três deserções, dois homens de Nôvo Redondo e um de
Benguella.
Os nossos burros eram muito manhosos, e não havia ensinal-os; todavia
resolvêmos conserval-os.
CAPÌTULO III.
HISTORIA DE UM CARNEIRO.
Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu
perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e uma
prêta--Perde-se um burro--Quillengues em fim--Morte do carneiro.
A 4 de Dezembro deixei o Dombe, pêlas 8 horas da manhã, e segui para
Quillengues. O Capello e o Ivens ficáram ainda, para enviar algumas
cargas; deviam ir encontrar-me á noite. Foi consêlho dos guias, que não
tomàssemos o caminho das caravanas, mas sim um atalho conhêcido d'elles,
para evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que já então levava muita
àgua; dando difficeis vaos, e que aquelle caminho corta em diversos
pontos.
Depois de duas horas de jornada na planicie, chegámos ao sopé da serra
da Cangemba, que borda por leste o valle do Dombe. Descançámos um pouco,
e ás 11 horas, emprehendémos o subir da serra pêlo leito de uma
torrente, então sêco. Foi difficil trabalho. Os homens iam muito
carregados; porque, àlém das cargas da expedição, do peso de 30
kilogrammas, levavam para si rações para nove dias, em farinha de
mandioca e peixe sêco. A differença de nivel era de 500 metros apenas;
mas o leito da torrente, formado de rochas calcàreas, offerecia
obstàculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos, era preciso
com as mãos ajudar o côrpo na subida, e o passar ali os seis jumentos,
deu grande canceira. Tìnhamos comprado no Dombe dois carneiros, para
matar em caminho; um dos quaes facilmente seguiu a comitiva, mas o outro
deu trabalho, porque se recusava a andar, e a sua teimosía em volver ao
Dombe era constante. Fôram três horas de fadigosa marcha; que tanto
gastámos para transpor um espaço que não passava de mil metros, e isto
por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de fadiga. Acampámos logo
junto a um poço cavado no leito arenoso de um ribeiro que ia sêco;
ribeiro a que os Mundombes chamam Cabindondo. O logar era àrido, e
apenas vegetavam aqui e àlém alguns espinheiros brancos, rachìticos e
ressequidos pêlo sol, que n'esta època do anno queima. O nosso horizonte
era formado pêlas cumiadas das montanhas que correm norte-sul.
Pêla tarde chegáram Capello e Ivens, e fomos logo comer; que eu estava
ainda em jejum. No dia 5 de manhã, seguímos a S.E., e depois de 4 horas
de marcha, em que vencémos um espaço de 20 kilòmetros, assentámos campo
em um logar que os guias chamáram Taramanjamba; valle extenso, cercado
de cêrros pouco altos. A altitude é de 600 metros; mostrando que apenas
estàvamos elevados 100 metros acima do nosso campo de hontem.
A vegetação continúa pobre, e a falta de àgua é grande.
Para beber e cozinhar, apenas obtivémos pouca, de depòsitos fluviaes nas
cavidades das rochas; depòsitos que fôram logo esgotados pêla nossa
sedenta caravana, sendo que á noite já se fazia sentir a sêde.
Durante a marcha, se os jumentos continuáram a ser incòmmodos, não o foi
menos o carneiro, que era bravissimo, e mais teimoso que os burros.
Decidi matal-o, e tendo combinado isso com os meus companheiros, dei as
ordens n'esse sentido aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.
De volta ao campo, vi que os muleques não tinham comprehendido a minha
ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o manso.
No dia seguinte partímos de madrugada, e depois de cinco horas de
marcha, acampámos no logar chamado Tine, onde nos afiançáram os guias
haver àgua.
Contra o que eu esperava, o carneiro, não só deixou de ser teimoso, mas
poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia, já em marcha já no
campo.
A marcha n'esse dia foi difficil; porque, não só a sêde abrasava a
gente, mas ainda por uma hora andámos no leito sêco do rio Canga,
pedregoso e desnivelado, o que nos fatigou muito.
O terreno é já granìtico, e a vegetação arborescente luxuriante.
Àgua, como na vèspera, foi da chuva, recolhida nas cavidades das rochas;
mas era melhor ao paladar e mais lìmpida á vista.
Tìnhamos alguns homens com feridas nos pés, que só chegavam tarde ao
campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda outros que, por
fracos, se atrazavam, e por preguiça muitos.
N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho;
fazendo isso que só tarde comêssemos. O Capello, de si pouco
communicativo, não se queixava dos incòmmodos que soffria; mas Ivens,
loquaz e de gènio alegre, não se calava e nos fazia rir a cada passo,
com os seus ditos engraçados. O appetite era já grande, quando chegáram
os carregadores, e elle não desfitava os olhos de uma perna de carneiro
que um muleque volteava junto da fogueira em espeto de pao, e de repente
disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho para aquella carne até
chorava."
Desde o Dombe apenas tìnhamos comido uma vêz no dia, e assim, a nossa
gente; com a differença, porem, que elles comiam sem interrupção desde o
acampar até dormir: o que me fazia receiar, que as rações distribuidas
para nove dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em
paiz onde era impossivel obter vìveres.
Avançámos 25 kilòmetros no dia seguinte, a E.S.E., e fomos acampar em
uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso d'esse dia
relativamente melhor, sempre por terrenos granìticos, e por entre
vegetação mais vigorosa que até ali.
N'essa floresta encontrámos os primeiros baobabs que desde a costa temos
visto. Àgua continuava a ser escassa, e sempre de depòsitos pluviaes.
Pêlas três horas d'esse dia, fomos avisados de que uma caravana se
dirigia ao nosso campo, vindo do interior; e saindo logo ao seu
encontro, soubémos ser o ex-chefe de Quillengues, Capitão Roza, que ia
doente para Benguella.
Convidámol-o á nossa barraca, onde jantou; partindo em seguida, depois
de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe offerecêmos. Logo que
elle partiu, fui avisado pêlos muleques, de que em torno do campo se
viam traças frescas de caça; e sahi a ver se a encontrava. Segui um
rasto de grandes antìlopes, e tão longe me levou elle, que veio a noite,
e com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo.
Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo
nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive idéa de subir a ella,
para do cume, vendo o clarão dos fôgos do meu campo, dirigir ali meus
passos; idéa que executei com bom resultado, porque effectivamente
enxerguei ao longe um clarão que tratei de alcançar, tendo marcado pêla
bùssola a sua direcção. Não se imagina o que seja caminhar em noite
escura por entre as sárças de uma floresta virgem, e quanto tempo se
leva a transpor um curto espaço; deixando aqui e àlém farrapos da roupa,
senão tiras da pelle.
Chêguei por fim, já guiado pelo vozear do gentio; mas ¡qual não foi a
minha decepção, vendo, que pêlo meu tinha tomado o campo do Capitão
Roza, que devia estar a 6 kilòmetros longe d'elle! Porem, como um
caminho ligava os dois campos, porque uma caravana que passa deixa
trilho, endireitei n'elle, e depois de uma hora de jornada, já ouvia o
som das businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para
guiar meus passos.
Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chêguei á minha
tenda, onde Capello e Ivens não estavam livres de cuidados.
Ali tive uma noticia inquietadora, mas que não foi sorpresa.
Já se sentia falta de vìveres, e sôbre tudo os soldados já tinham em 5
dias comido a ração de 9.
No seguinte dia forçámos a marcha um pouco mais, e percorrémos em 6
horas 30 kilòmetros a E.S.E.
O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do Capitão Roza. Nas
florestas que atravessámos continuáram apparecendo baobabs gigantescos.
Depois de passarmos o rio Calucúla, acampámos na sua margem direita.
O rio leva pouca àgua, mas esta é lìmpida e bôa.
Continuàvamos a comer só uma vêz ao dia, e a hora da refeição variava
entre a 1 e 3, conforme ás marchas. Era preciso poupar os vìveres.
Ressentido da fadiga da vèspera não sahi a caçar n'esse dia, e fiquei na
barraca.
O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e
réptiz.
Os soldados termináram as rações, e começáram a queixar-se de fome,
falando em matar o carneiro. Eu tinha-me afeiçoado ao animal, que de
bravo que era se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas
marchas e não me abandonando um momento. Opuz-me a que fôsse morto, e o
Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.
A 9, levantámos campo, ás 5 horas, e sustentámos a marcha até á uma;
hora a que acampámos nas faldas da serra da Tama. Das 8 ás 9 horas
seguímos ao sul, na margem esquêrda do rio Chicúli Diengui, que vai ao
N., provavelmente ao Coporolo. A vegetação é cada vêz mais luxuriante, e
n'esse dia o nosso caminhar foi por entre floresta espêssa.
Logo que se estabeleceu o campo, renováram-se as representações dos
soldados famintos, e com ellas a idéa de matar o carneiro. O Ivens deu
nôva ração de arroz aos soldados, e isto, ainda que contemporizava, não
era uma positiva salvação para o pobre animal.
Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caçar, para salvar a vida do
meu carneiro.
Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e já voltava ao
campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que
pastavam.
Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou
para sôbre uma rocha, e d'ali comêçou a espiar a floresta com a sua
vista experimentada; em quanto a fêmea, de orelha á escuta, investigava
os arredores.
Era grande a distancia, mas não hesitei, e atirei ao macho, que vi cair
fulminado para àlém do rochêdo. A fêmea, ouvindo o estampido do tiro,
saltou ligeira sôbre o penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro,
vendo-a em seguida pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.
O meu muleque correu logo a buscar o antìlope môrto, mas eu vi que, em
logar de parar junto do rochêdo, seguiu sempre; eu dirigi-me para ali
com o coração palpitante, porque suppuz que me tinha enganado julgando
ver cair o primeiro antìlope. Torneei a rocha, e tive um grande
alvorôço. O lindo animal (_Cervicapra bohor_) estava estendido sem vida.
Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque
curvado ao peso de grande carga.
Era o segundo antìlope, que elle tinha levantado môrto, a poucos passos
na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao passo que o
macho cahiu sem vida, a fêmea pôde effeituar uma pequena carreira.
Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devìamos chegar a
Quillengues, e ali terìamos recursos, estava salvo para sempre.
No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilòmetros, e de termos passado
a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na margem
direita do Vambo--que tôdos correm ao N., a unir as suas àguas (quando
as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui já se chama Calunga, nome que conserva
até á sua nascente.
Na jornada d'esse dia começámos a encontrar gramìneas enormes, nas
clareiras do mato. Tão grandes, que era impossivel ver nada com ellas, e
difficil o caminhar. Durante a marcha desappareceu um meu muleque
pequeno, e uma prêta, mulhér do muleque Catraio do Capello; e ainda que
despachei gente a buscal-os, não fôram encontrados.
A escaçez dos mantimentos era grande, e não eram já só os soldados a
queixarem-se de fome, tôdos faziam representações, e não attendiam
razão. Tivémos de seguir.
No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam
caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do
rio Tui, muito pròximo de Quillengues. Dos muleques perdidos não havia
noticia, e faltava desde a vèspera um jumento, que não appareceu. Em
quanto se estabelecia o campo, eu segui para a fortaleza de Quillengues
á busca de vìveres, com que voltei ás 8 da noite. Estava decididamente
salvo o meu carneiro.
N'essa noite apparecêram o muleque e a prêta perdidos, e isso deu-me um
verdadeiro prazer; porque, fôrçados a marchar, pela fome, não tìnhamos
podido demorar-nos a procural-os.
O logar onde acampámos era baixo e pantanoso, fôra de recursos, é
isolado; e por isso resolvémos ir acampar na libata do chefe de
Quillengues, onde entrámos no dia 12, pelas 11 horas.
Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados até
ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter outros até Caconda;
o que elle me certificou ser facil, dizendo-me logo, que sabia como os
rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios, e por isso não davam
passagem; o que nos impedia de partir immediatamente.
N'esse dia já comémos bem, e tivémos duas comidas, almôço e jantar.
Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato,
trazido por um indìgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei bem o
prêto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca julguei ver mais o
pobre animal, que, se escapasse das feras, não escaparia á ladroagem dos
naturaes, pensava eu.
Quillengues é um valle regado pêlo Calunga (rio que eu supponho ser o
curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e coberto de povoações
indìgenas.
O estabelecimento Portuguez occupa uma àrea de 45,500 metros quadrados;
por ser um rectàngulo de 250 metros por 182. Este rectàngulo, cercado de
palissada, tem quatro baluartes de alvenaria, a um meio de cada face; e
dentro uns abarracamentos, que sam morada do chefe militar, e quartéis
dos soldados.
Algums baobabs e figueiras sycòmoros crescem ali, assombrando com seus
ramos gigantescos um terreno coberto de gramìneas indìgenas, onde pastam
os rebanhos do chefe.
Se a importància de Quillengues é grande como ponto productivo, e
facilmente colonisavel, não o é menos como posição estratègica; pois que
pôde ser considerado uma das chaves do sertão interior, com respeito a
Benguella.
Os sobetas do paiz reconhêcem a autoridade Portugueza; mas, de natureza
salteadores, atacam sem cessar outros pôvos indìgenas, para lhes
furtarem o gado.
Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a terra,
que de ubèrrima suppre o pouco trato; produzindo milho, massambala, e
mandioca, em quantidade grande.
As suas habitações sam cubatas circulares, de 3 a 4 metros de diàmetro,
construidas de grossos troncos de madeira, revestidas de barro. A porta
é bastante alta, para dar entrada a um homem sem curvar-se.
Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e
guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo
azagaias, ferros de frechas, e machados, já de guerra, já de cortar
madeira.
As enxadas não as forjam, e sam por elles compradas no Dombe, ou em
Benguella.
Os seus curraes sam, como as povoações, cercados de forte palissada;
sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos, para evitar o
assalto nocturno de feras.
Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque ali
abundam corças pequenas (_Cephalophus mergens_), que das folhas sam
àvidas, e causam damno grande ás plantações.
A àgua-ardente é gènero muito estimado pêlos Quillengues, e sam elles
tão dados á embriaguez, que, durante três mezes no anno, tanto quanto
dura o fruto do gongo, fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam
continuamente embriagados; não sendo possivel obter d'elles o menor
serviço.
Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente,
que dêve ser pêlo menos de 4 metros de panno da costa, e duas garrafas
de àgua-ardente; e logo com o portador vem a noiva e seus parentes
comer, em grande bròdio, um boi, que dêve offerecer-lhes o noivo. O
adulterio é coisa de grande estimação para os maridos; sendo que por lei
fazem pagar ao amante multa, que se traduz em gado e àgua-ardente.
A mulhér que não tem commettido algum adulterio é mal vista do marido,
que não augmenta o seu haver por esse meio.
Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi
seduzida, e entre elles faz prova a accusação da mulhér.
Entre o pôvo, os cadàveres sam enterrados em logar escolhido, e
conduzidos á cova n'uma pelle de boi, cobertos de panno de algodão
branco. Os dias de nôjo, sam dias de grande festa em casa do finado. Os
sobetas t[~e]m sepultura reservada, e sam ali conduzidos dentro de uma
pelle de boi preparada em ôdre, depois de lhe vestirem as melhores
roupas.
Nas festas d'òbito ha mortandade enorme de gado, porque o herdeiro tem
obrigação de matar todo o rebanho, para regalar o seu pôvo, e contentar
a alma do finado.
No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo.
Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema Pertuisset;
e de companhia com dois outros, decidíram repartil-a de modo que a cada
um tocasse seu pedaço de chumbo. Armáram-se de uma faca, e pôsta a bala
sôbre uma pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois
acocorados para melhor ver a partilha; quando sùbito a bala faz
explosão, ficando os três feridos, e sôbre tudo o muleque de Silva Porto
Calomo, que recebeu treze estilhaços, produzindo alguns feridas
profundas.
Mandámos uns prêtos reconhêcer, se já dariam vao os rios; e por elles
soubémos, que se conservavam altos; o que bem soppùnhamos, porque,
durante a nossa estada ali, não cessou de chover. Resolvémos então
seguir outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de
àguas; e por isso, pedímos ao chefe nos tivesse prontos os carregadores;
o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23; mas n'esse dia
senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas, fiquei eu, e os
meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta febre por três
dias, e não tenho consciencia de ter passado o dia 25; dia duplamente
festivo para mim, porque, sendo o de Natal, é o anniversario de minha
filha.
Tivéram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua esposa; e no
dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no 1^{o.} de
Janeiro de 1878, isto é, três dias depois.
A esposa do Tenente Roza fêz-me dois presentes, que eu mal sabia então
estavam destinados a representar um papél, ao diante, na minha viagem.
Fôram elles um serviço de chá de porcelana de Sèvres, e uma cabrinha
muito meiga, de raça pequena, a que puz o nome de Córa.
A esse tempo succedeu um desastre, que de véras me contristou. O meu
carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com os
carregadores famintos, foi môrto por uma cadella perdigueira, que eu
levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pêla cadella, na fuga
quebrou uma perna ao passar por entre a paliçada do campo, e em breve se
finou. Foi o meu primeiro grande desgosto n'esta viagem, tão abundante
d'elles.
CAPÌTULO IV.
POR TERRAS AVASSALLADAS.
Jornada a Ngola.--O Sova Chimbarandongo.--Belleza do
caminho.--Chegada a Caconda--José d'Anchieta.--Nada de
correspondencia.--Chegada do Chefe.--Vamos aos carregadores.--Ivens
vai ao Cunene e eu vou ao Cunene.--Volta de casa do
Bandeira.--Falham os carregadores.--O meu juizo.
No dia 1^{o.} de Janeiro de 1878, deixámos Quillengues, tendo ali feito
provisão de vìveres, e comprado bastante gado para matar, bois e
carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns 7 kilòmetros, e
voltou á sua residencia, seguindo nós sempre a S.E., até ás faldas da
serra de Quillengues, onde acampámos junto á povoação do Secúlo Unguri.
Tìnhamos um companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido,
o deixàssemos ir até ao Bihé em nossa companhia. Era elle Verìssimo
Gonçalves, filho de um conhêcido sertanejo do Bihé, môrto havia pouco,
que em Quillengues era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz,
mulato e de mesquinha educação, como era de côrpo acanhado, cheio de
vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e era
intelligente.
Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais
particularmente.
Era acanhado e tìmido, mas não covarde, e debaixo de uma apparencia
fraca, possuia uma forte organização e mùsculos de ferro. Sabía apenas
ler e escrever, mas era um soffrivel atirador de segunda ordem, e
manhoso caçador.
Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos,
que n'esta nôva jornada já me servíram de cavalgaduras.
No seguinte dia, logo á saída, começámos a ascensão da serra de
Quillengues, que n'esse ponto se chama Serra Quissècua.
A subida foi difficìlima, e durante três horas lutámos com as agruras da
montanha, elevando-nos a 1740 metros do nivel do mar, ou 836 acima do
planalto que termina em Quillengues.
Em um desfiladeiro da serra passámos um pequeno ribeiro, que os
indìgenas chamam _Obaba-tenda_, o que quer dizer àgua fria, fomos
acampar na margem de outro chamado _Cuverai_, affluente do Cúe. Estes
dois ribeiros sam permanentes, e sam àguas que correm ao Cunene.
O terreno continúa granìtico, mas a vegetação muda completamente de
aspecto--de certo devido isto á altitude. O baobab desappareceu, e já se
encontram fetos á sombra das innùmeras e variadas acacias que povôam as
matas. A flôra apresenta riqueza maior em plantas herbàceas, e nas
gramìneas sôbre tudo nota-se uma fôrça de vegetação vigorosissima.
Notei que atravessámos regiões onde se não encontra uma só ave, e de
repente entra-se em zonas onde milhares de passarinhos fazem uma chiada
enorme. Caça vi ali pouca, mas os rastos anunciam havel-a.
Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa. Estàvamos
acampados junto do ribeiro Quicúe, que corre a S.E., em leito granìtico,
e vai, provavelmente, engrossar o Cúe; quando sentímos a cadella do
Capello ladrando e arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se
aproximava da barraca. Ao mesmo tempo sentìamos um forte ruminar perto
de nós; o que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e
pastavam dentro do campo, que era cercado de abatises espinhosas.
Falámos á cadella e adormecémos. Ao alvorescer ouvímos grande rumor no
campo, e saindo logo, soubémos, que os prêtos, que ao principio tinham
julgado, como nós, que os burros andavam á sôlta, percebêram depois que
se enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo.
Fôra effectiva menta um bùfalo enorme que nos dera a honra da sua
companhia durante a noite.
O caso era notavel e de explicação difficil, a não serem os repetidos
rugidos dos leões que se tinham ouvido; fazendo com que o bùfalo viesse
buscar guarida entre nós.
No seguinte dia fomos acampar pròximo da povoação de Ngóla, e eu fiz
logo annunciar a minha visita ao Sova.
Depois do almôço, fui á libata procural-o.
Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e
dois guardasóes.
O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.
Trajava tanga comprida de panno da costa, e sôbre ella uma pelle de
leopardo. Tinha o peito nú pendendo-lhe do pescôço um sem-nùmero de
amuletos. Recebeu-me fôra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu
offereci-lhe um guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado;
favor a que elle se mostrou muito grato.
Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle não percebeu
muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe offerecia um
pequeno barril de pòlvora, 50 pederneiras e uma duzia de guizos de
latão, sem nada lhe pedir em troca--o que sôbre modo o espantou.
Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle accedeu
a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes indìgenas
sam desconfiados.
Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar
àgua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro. Mostrei-me admirado
de que um chefe quizesse tão pouco, e convidei-o a procurar vasilha
maior. Mandou então buscar uma cabaça que levaria o duplo da botija, e
eu pedi-lhe que juntasse outra igual.
O Règulo não podia dissimular a sua admiração pêla minha generosidade.
Partímos a pé, acompanhados por três das mulhéres, as filhas, e muito
pôvo, tôdos sem armas, para me mostrarem a confiança que eu lhes havia
inspirado.
Chegámos ao campo quando Capello fazia observações meteorològicas, e o
Sova ficou admirado diante dos thermòmetros e dos baròmetros.
O Ivens veio logo para junto de nós, e depois de grandes comprimentos,
mostrámos ao Règulo as armas de Snider e de Winchester, que lhe causáram
verdadeiro assombro.
Este _Chimbarandongo_, que tal é o nome do sova de Ngóla, é
intelligente, e sabe viver com o seu pôvo.
Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licença para o matar, por haver
necessidade de provisões, consentio n'isso, pedindo-me para lhe atirar
eu.
O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de nós.
Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei. O boi cahio.
Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria
o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou tão
maravilhado, que me deu repetidos abraços no meio do seu enthusiasmo.
Pêlas 4 horas, formou-se sôbre nós tempestade violenta, que se desfez em
raios e copiosa chuva, durando até ás 6 horas.
O Sova e as mulhéres recolhéram-se á nossa barraca, assim como alguns
dos macotas.
Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a provar-lhes,
que nós tìnhamos trazido a chuva, e com ella um grande beneficio ao
paiz, ressequido pêlos calores do estío.
Tentámos explicar-lhe, que não tìnhamos tão grandes poderes, e que só
Deus governava nos grandes phenòmenos da natureza; levando o Ivens a
questão a ponto de lhe explicar como e porque chovía. Ouvindo isto, fez
o Sova sair os seus macotas e mais pôvo que escutava a lição
meteorològica.
Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o pôvo, elle disse, que se
deixasse de chover, indagaria qual dos seus sùbditos tirara a chuva, e o
castigaria de morte. Nôvo discurso da nossa parte contra a pena capital;
e nôva ordem de despejo da parte d'elle, que, a pesar do meio
embriagado, tinha tino bastante para não comprehender que as nossas
theorías não quadravam ao seu systema governativo.
Ao anoitecer retirou-se do modo o mais còmico, indo acavallo em um dos
seus conselheiros, que levava as mãos nos hombros de outro; e como
estivessem tôdos embriagados, a cada passo perdiam o equilibrio,
ameaçando com a queda partir a cabêça ao seu soberano.
Este règulo é sensato e homem de bom juizo. Não acredita em feitiços;
nem acreditava que nós lhe tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe
apparentar que o crê, para não perder o prestigio entre os seus, que só
assim querem ser governados.
No seguinte dia, vindo elle despedir-se de nós, me disse, que a sua
polìtica era ser amigo dos brancos; pois que das bôas relações com elles
provinha a roupa com que se cobria, e as armas e a pòlvora com que
continha em respeito os seus inimigos.
"Sem os brancos," me disse elle, "nós somos mais pobres que os animaes;
porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e sam bem
loucos os prêtos que não cultivam a amizade dos filhos do Puto."
A libata ou povoação de Ngóla é fortemente defendida por uma dupla
palissada feita com arte, que tem até uma das faces dentada para
cruzamento de fogos. É tão vasta que pôde conter tôda a povoação do
paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O
ribeiro Cutóta corre dentro d'ella, fazendo que possa resistir a longo
assedio sem receiar a sêde.
Deixando Ngóla, caminhámos por duas horas a N.E., e encontrámos o Cúe, o
maior dos rios, que corre entre Quillengues e Caconda. No sitio em que
tentámos a passagem tinha elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo,
não dando por isso vao. A chuva torrencial da vèspera, augmentando-lhe o
volume d'àgua, tinha tornado impetuosa a corrente.
Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil
passagem aos homens carregados; mas os bôis e os jumentos só a nado
podiam passar. Depois de grande trabalho, os bôis nadáram para a outra
margem; os burros porem recusáram seguil-os.
Só a grande custo conseguio o prêto Barros, ajudado de mais dois,
fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar pé na outra
margem; o que era perigoso, que ali abundam crocodilos.
Depois de uma hora de trabalho, avançámos para E.N.E., encontrando o
ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba, onde assentam as
povoações de Caluqueime. Passámos depois o rio Cacurocáe, que corre a
S.S.E. ao Cúe; e meia hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e
vai affluir ao Cúe; acampando na margem d'este ùltimo, pêlas 4 horas da
tarde, junto da povoação de Catonga, onde tem a sua libata um tal Roque
Teixeira.
A marcha foi de 30 kilòmetros, o que muito nos fatigou.
O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude varía apenas entre
1450 e 1500 metros.
A vegetação arbòrea apresenta um certo rachitismo; mas a herbàcea
continúa a ser variada e rica.
No dia 6, seguímos sempre a N.E., passando logo o Cúe, em ponte feita
pêlo gentío. Este ribeiro tem 5 metros de largo, por 1 de fundo, e corre
a S.E. ao Catápi. Alcançámos o Coúngi ou Catápi, ás 11 e meia, e
acampámos na sua margem esquêrda. O Coúnge, que a montante toma o nome
de Catápi, tinha ali 10 metros de largo por um de fundo, com violenta
corrente, e dirigindo-se a S.E. vai lançar-se no Cunene pròximo do
Lucéque.
N'esse dia matei uma grande gazella (_Cervicapra bohor_), a maior do
gènero que vi em tôda a minha viagem, tão grande que fôram precisos 4
homens para a transportar ao campo.
Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato;
verificando nós ser contra as hyenas que nos rondavam as barracas, e por
noite fôra tivémos mùsica, em um duêto de baixo e contra-baixo, pela voz
clara de um leão, na mata, e pêla ronquenha de um hippopòtamo, no rio.
O aspecto do paiz continúa o mesmo. Nas lombadas matas rachìticas, de
uma vegetação que mais se pôde chamar arborescente do que arbòrea, pêla
maior parte. Leguminosas, nas depressões; vastas clareiras, verdadeiros
prados de gramìneas diversas, por entre as quaes serpea um ribeiro ou um
rio. O terreno continúa granìtico, apresentando as rochas aspectos
variados; mas sendo pouco abundantes em mica.
Continuámos caminho ao N.E., passando junto da libata de Cuassequera,
fortificada entre enormes rochêdos granìticos, e rodeada de gigantescos
sycòmoros, produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o
ribeiro Lossóla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na margem
do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao Catápi, mas
correndo ao N.
O planalto já é mais elevado, e caminhàvamos então n'uma altitude de
1600 metros.
D'esse ponto seguímos a Caconda, tendo atravessado três ribeiros, que
correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o Chitequi, o Jamba, e
o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que corre a O.S.O., e que já
no dia 6 tìnhamos atravessado com o nome de Coúnge.
No ponto em que o passámos tem 10 metros de largo por 1 de fundo, e
pequena corrente.
Algumas das clareiras que n'esse dia atravessámos eram cobertas de
junco, pantanosas e de difficil accesso.
A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros precedêram-me na
chegada a Caconda.
Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido á porta pêlo chefe
interino, mulato e rico proprietario do consêlho, sargento da guerra
prêta; o qual me disse, que o chefe tinha ido para Benguella,
deixando-lhe a _espiga_ de nos receber (textuaes palavras).
Depois de me ter dito esta amabilidade, o S^{nr.} Matheus convidou-me a
entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das fortificações, vi
entre os meus companheiros um homem de estatura mais que mediana,
aspecto macilento, testa ampla e elevada, olhar pouco fixo, trajando
casaca e gravata branca, que o Capello me apresentou, dizendo-me, "Aqui
tem José d'Anchieta." Estava diante de mim o primeiro explorador
zoologista d'Àfrica, esse homem que tinha passado 11 annos nos sertões
d'Angola, Benguella, e Mossàmedes, enchendo as vitrinas do museu de
Lisboa com valiosissimos exemplares. Tive depois occasião de presenciar
o seu viver, que é digno de ser descrito.
Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da
fortaleza.
A casa no interior era em forma de T, e tôda cercada de estantes, onde
haviam, de mistura, livros, instrumentos mathemàticos, màchinas
photogràphicas, telescopios, microscopios, retortas, pàssaros de mil
côres, vidros variados, louça, pão, frascos cheios de lìquidos
multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos,
cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e carabinas
de differentes systemas. Junto á casa, um cercado, aprisionando umas
vacas e uns porcos. Á porta algumas prêtas e prêtos esfolando pàssaros e
preparando mamìferos; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado em
velha poltrona, que attesta longos serviços.
Sôbre a mesa é impossivel dizer o que ha.
Pinças, escalpellos e microscopios ha muitos.
De um lado, um monte de bocados de pàssaros mostra que elle acabou de se
entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente d'elle, uma flôr
cuidadosamente dissecada, attesta que elle acaba de ler na disposição
das suas pètalas, no nùmero de seus estames, na forma do seu
receptàculo, no arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia,
do gènero e da especie em que a dêve collocar.
De escalpello na mão e microscopio no ôlho, passa elle as horas que pôde
tirar ao trabalho de colleccionador, e é já a planta, já a ave, o ponto
de mira do seu estudo.
A momentos, é interrompido por um doente que chega, a quem elle dispensa
os cuidados de mèdico, e ao mesmo tempo os remedios da cura, quando lhe
não dá tambem a gallinha da dieta.
Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do
Museu Zoològico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa amizade que
é difficil encontrar onde não existem estreitos laços do mesmo sangue.
Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos serviços que
tem prestado ás sciencias zoològicas, conhêce que tem no D^{or.} Bocage
o homem que lhe faz justiça, e sabe aquilatar esses serviços; o homem
que completa na Europa o trabalho que elle começa em Àfrica; o homem,
emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos incòmmodos
custáram cada um d'esses exemplares, que descreve, descrevendo com elles
nôvas especies.
José d'Anchieta é um d'esses nomes que merece o respeito dos homens de
sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas; porque,
trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz, conservando-se
elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da desmoralização que
lavra nas terras em que vive, e de que poderia tirar proveito se fôsse
menos escrupuloso.
Basta de falar d'elle, que não ha elogios que lhe não caibam; falando
mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado para sempre aos
seus trabalhos, que não morrem.
Soubémos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do commando, e fôra
nomeado outro official do exèrcito de Àfrica para o substituir.
Dois dias depois da nossa chegada, chegáram tambem a Caconda o nôvo
chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa correspondencia da Europa,
que lemos com avidez.
Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a
acompanhar-me a casa de José Duarte Bandeira, o primeiro potentado de
Caconda, onde me disse que se arranjariam, pêla grande influencia de que
dispunha o tal Bandeira.
Partímos para Vicéte no dia 13 de manhã, e n'esse mesmo dia o Ivens
seguio para casa de Matheus, a fazer um reconhecimento ao Cunene, no
logar da sua confluencia com o Quando. Eu tambem devia ir fazer uma
visita ao mesmo rio para o sul.
O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue aos
cuidados de Anchieta. Seguí a S.S.E., passando logo os rios
Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a O.N.O.,
com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande
contribuição d'àgua.
Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, chêguei pêla noite a Vicéte,
libata fortificada entre rochas, no cume de um outeiro que domina vasta
planicie.
Fui recebido por José Duarte Bandeira, que, depois de bôa ceia, me
proporcionou òptima cama, de que bem precisava.
Logo na manhã seguinte, o Alferes Castro falou nos carregadores, e
Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram
precisos para seguirmos ao Bihé.
Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que partìssemos no
seguinte dia.
Caminhámos nove milhas a Leste, e encontrámos o rio no Porto do Fende.
Logo á chegada, matei um grande hippopòtamo, que têve a imprudencia de
vir resfolgar a meio rio ao alcance da minha carabina. Passei ali dois
dias. O rio tem ahi 100 metros de largo por 6 a 7 de fundo, com uma
corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no Fende é N.O. a S.E. por
espaço de 2 milhas, sendo a montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O.
a jusante inclina-se para S.S.O. por 26 milhas, até ao Luceque. Por
vêzes toma uma largura de 200 metros e mais.
Abundam n'elle hippopòtamos e crocodilos.
1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns ràpidos a que chamam Da
Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e 10
milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete, ùltimas que tem no
seu curso superior; sendo depois navegavel até ao Humbe.
A margem direita é, nos pontos em que a visitei, montanhosa e coberta de
mato virgem; á esquêrda, vasta planicie, de 4 a 5 kilòmetros de largo,
que encosta ao sopé dos montes, que formam um pouco elevado systema,
correndo N.S.; em cujas vertentes oeste assentam as povoações do Fende.
Pêlas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre nós uma tormenta, que
despedio innùmeras faïscas e copiosa chuva, deixando-nos completamente
molhados.
A 17 voltámos para Caconda, com a promessa de termos os carregadores
dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte, um barril de
àgua-ardente para a _convocação_. Nesta parte de Àfrica, a àgua-ardente
desempenha para com os homens o mesmo papél, que na Europa o azeite para
com as màchinas. Sem ella não se movem.
O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa, esquèceu-se de que
tìnhamos a gastar o dia em jornada; e saindo nós ao alvorecer, só á
noite alcançarìamos Caconda. Partímos com o alforje vazio, e pêlo
meio-dia já o appetite degenerava em fome.
Parámos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia ver se
matava caça para comer; mas apenas avistei uma codorniz, que nos servio
a ambos de almôço e jantar, cozinhada n'uma marmita de soldado. Confesso
que já tenho almoçado e jantado melhor do que n'esse dia.
Os meus prêtos, vendo a minha avidez em roer os ossos da codorniz, que a
cadella de balde devorou com os ôlhos, fazendo-me mil negaças com a
cauda, déram-me uma raiz de mandioca, que partilhei com o Alferes.
Chêguei, á noite, a Caconda, e depois de uma bôa ceia, dei fé que Ivens
ainda não tinha chegado, e que Capello já estava bom.
O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mandámos o tal barril de àgua-ardente
ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na convocação dos
carregadores.
No dia 23, chegáram de Benguella uns artigos que tinham sido
requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me
offerecia Antonio Ferreira Marques.
N'esse dia despachei outro portador a Vicéte, pedindo ao Bandeira os
carregadores, que já se demoravam.
Não appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe para que fôsse
a Vicéte, e usando da sua influencia como autoridade, visse se dava
pressa ao Bandeira em nos mandar a gente precisa.
O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo já estarem promptos 61
homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os
pagamentos, que ali só querem algodão branco, mas disse serem precisas
mais 50 peças, que nós não tìnhamos, mas que o Bandeira ficou de
emprestar.
No dia seguinte, nôva carta do chefe, dizendo, que os carregadores iam
ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira carta, dizendo, já
lá ter 94 homens; e finalmente, no dia 5 de Fevereiro, outra carta,
dizendo, que não havia nem um carregador, e que nenhum se arranjaria.
Imagine-se o nosso desapontamento.
Eu a esse tempo ainda não tinha formulado e arraigado no meu espìrito um
principio, que mais tarde me sugerio a experiencia, e que entrou depois,
de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz resultado da minha viagem.
O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu espìrito,
traduzio-se n'esta sentença:--
"Desconfiar, no sertão d'Àfrica, de tudo e de tôdos, até que provas
repetidas e irrefutaveis nos permittam confiar um pouco em alguma cousa
ou alguem."
Ora, para mim, essas provas sam tão difficeis de se apreciarem, como o
sam as de um amor eterno, ou as da sòlida fortuna do commerciante,
embrulhado em transacções de vulto.
Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de nós
propoz alvitre qual d'elles mais disparatado.
O desapontamento era grande. Socegados os espìritos, decidímos ir eu
procurar os carregadores fôsse onde fôsse, e se longe ou perto os não
podesse encontrar, seguirmos para o Bihé, e mandarmos d'ali buscar as
cargas. Julgàvamos isso possivel.
O chefe voltou de Vicéte, e não me deu explicação plausivel do facto.
Acordámos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha
carregadores; porque, não só o Alferes Castro, como o chefe, e Anchieta
mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar mais perto.
Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraços para fazer uma
remessa de productos zoològicos para Benguella, o que era relativamente
mais facil.
O que nos estava acontecendo é digno de notar-se.
Não só Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento Matheus e outros, enviam
grandes caravanas a sertões longìnquos; ¡e todos elles não podéram obter
um só carregador para nós!
Eu começava de antever um propòsito firme de nos embaraçarem o passo, e
mal cuidava então que esse propòsito fôsse tão longe como infelizmente
tive occasião de experimentar depois.
O correr d'esta narrativa mostrará, quam habilmente me fôram levantados
obstàculos, que só uma decidida protecção de Deos me fez vencer.
Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que continúe com a narração
das minhas aventuras, que começam aqui a tomar um caracter mais
extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a respeito de Caconda.
A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hôje no districto de
Benguella tremula a bandeira Portugueza, é um quadrado de 100 metros,
cercado de um profundo fosso e de um parapeito, onde aqui e àlém se
pôdem ver as linhas distinctas de uma fortificação passageira,
construida outrora com arte. Uma palissada forma segunda fortificação no
interior, resguardando umas casas arruinadas, que fôram habitação do
chefe, quartèis e paiol.
Algumas bôas peças de bronze, montadas a barbete, deixam ver por sôbre o
plano de tiro, deformado pêlo tempo, as suas bôcas verde-negras e
oxidadas.
A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.
Ao norte, uma reunião de pequenas cubatas, morada dos soldados.
O paiz é agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de febres, é
certo que ellas ali sam mais benignas do que em outros pontos. A
povoação é pouquissima, e tem-se retirado muito da fortaleza.
O solo é ubèrrimo, e muitas plantas Europêas facilmente se aclimam ali,
produzindo espantosamente. No trigo, feijão e batata vi eu isso, em
pequenissimas plantações.
O ribeiro Secula-Binza é uma fonte de àgua cristallina correndo em leito
de granito.
Junto da fortaleza ha poucas àrvores; que as necessidades dos habitantes
t[~e]m despovoado as matas que dêvem ter existido outrora, como ainda
hôje existem mais longe.
O commercio é pouco, e esse mesmo é feito muito longe no interior.
A mesma pégada de decadencia que se nos revela em Quillengues, é ainda
mais patente aqui.
A importancia de Caconda é igual, senão superior, á de Quillengues; mas
tem menos segurança ainda para o commercio; que o caminho de Benguella é
infestado de salteadores.
CAPÌTULO V.
VINTE DIAS DE AGONIA.
Parto de Caconda--O sova Quipembe--Quingolo e o sova Cáimbo--40
carregadores--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho
Capôco--80 carregadores--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo
avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe,
Canhungamua e Cunene--Nôva e séria questão no Sambo--O
Cubango--Chuvas e temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O
Bihé finalmente!
Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia 10
homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo Gonçalves, de quem
já falei, e o chefe de Caconda, o Tenente Aguiar, que quiz por fôrça
acompanhar-me n'esta expedição, que tinha por ùnico fim o arranjar
carregadores; querendo mostrar assim a sua bôa vontade em nos auxiliar,
e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.
Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar;
porque a esse tempo não tinha ainda arreigado no meu espìrito o
principio que formulei no capìtulo anterior, e hôje mesmo creio que elle
foi enganado como eu, apesar da sua muita experiencia dos sertões
avassallados.
Depois de uma jornada de 17 kilòmetros a N.E., alcançei a libata de
Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu
hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda; e
depois o Catapi, que ali corre a S.O.
O sova mandou-me logo um porco pequeno, e não tendo eu podido comprar
gallinhas, mandou-me uma. À tarde veio á minha barraca, e depois de
larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus antepassados fôram
sempre avassallados a El-Rei de Portugal, elle não o era; porque as
muitas arbitrariedades commettidas pêlos chefes contra elle e os seus,
tinham quebrado os compromissos antigos; que o _Mueneputo_ ja lhe não
fazia justiça, e narrou-me muitos dos acontecimentos em que baseava as
suas accusações aos chefes, falando com modo muito atilado.
O chefe estava presente á entrevista, e não podia responder ás
accusações dirigidas aos seus antecessores, tão claramente eram ellas
formuladas.
Este velho era homem de tino, e falou-me na polìtica dos Portuguezes em
Caconda com um juizo difficil de encontrar em prêto boçal.
Procurei desfazer a má impressão que o soba tinha dos chefes de Caconda,
mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma vêz tive occasião
de apreciar o mao resultado dos minguados estipendios que se conferem
aos chefes dos consêlhos do interior; causa primordial da decadencia do
nosso poderio e influencia ali.
O sova de Quipembe é muito idoso, e soffre de gota, que lhe embaraça o
caminhar.
A sua libata é vasta, bem fortificada e muito bem situada. Desde a minha
chegada muitas dezenas de prêtos e prêtas pequenos olhavam pasmados para
mim, fugindo em debandada ao menor movimento que eu fazia. Tentei
fazer-lhes perder o mêdo que manifestavam, dando-lhes alguns guisos e
bagos de coral; mas só mui receosos se chegavam a mim, fugindo logo que
recebiam o presente.
Fôram objecto de grande admiração, os meus òculos e o meu cobertor, em
que se desenhava um enorme leão em fundo vermelho.
No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro
Utapaira, e uma hora depois alcançava o Cuce, affluente do Quando. Este
rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando difficil passagem,
por serem as suas margens escarpadas e lodoso o fundo.
A margem direita é montanha suave e pouco elevada, e a esquêrda campina
de 1 kilòmetro de largo. Passei ao sul da libata de Banja,
magnificamente situada no tôpo de um outeiro, e depois de atravessar
três ribeiros, o Canata e Chitando, que vam ao Cuce, e o Atuco ao
Quando, alcancei este ùltimo rio, um dos grandes affluentes do Cunene.
O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a três de
fundo.
No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de
massas enormes de granito, para reapparecer um kilòmetro a jusante.
Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As
margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante vegetação,
onde as palmeiras elegantes se destacam do verde-negro dos gigantescos
espinheiros. Os rochêdos denegridos sobressaem aqui e àlém por entre os
tufos de mato, mostrando os cabêços puïdos do bater das tempestades.
Nuvens de passarinhos chilram nas árvores e innùmeras rôlas esvoaçam
sôbre os espinheiros. De quando em quando ouve-se o resfolgar dos
hippopòtamos nos pegos do rio.
É a belleza selvagem em tôda a sua força, mas a par d'ella ha ali alguma
cousa de horrivel, que sam venenosissimas serpentes que a cada passo se
arrastam junto de nós.
Matei algumas, que me certificáram os prêtos serem de mortal peçonha.
Apparecéram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem da margem
esquêrda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma muralha de pedra,
que pêla extensão parecem ter sido muro de povoação antiga. Foi este o
primeiro dia na minha viagem em que de noite tive por tecto o ceo
estrellado, mas por isso não foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer
matámos, entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.
Seguímos a N.E., e para àlém da povoação de Pessange, encontrámos a de
Canjongo, governada por um secúlo, que nos offereceu capata e vendeu
algumas gallinhas a trôco de panno de algodão ordinario, e depois de
passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E., descançámos
algumas horas na margem esquêrda, e caminhando depois a N.N.E.,
chegámos, ás 5 horas da tarde, á libata grande de Quingolo.
O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente.
Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos
recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os
chefes de Caconda não faziam caso d'elle, e faziam mal n'isso; que ainda
assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e fôsse eu ver
se obtinha os outros ao Huambo.
Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manhã, o sova veio
visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que me disse
partiriam no seguinte dia para Caconda.
Quiz fazer algumas compras de vìveres, mas nada me quiséram vender;
sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um grande porco. Eu fiz-lhe um
presente de 3 peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente.
O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro
prazer.
Ao meio dia apparecéram os chefes dos carregadores que partiam, para
receberem os pagamentos.
Esta libata grande de Quingolo é situada sôbre um outeiro granìtico que
domina uma enorme planicie.
Por entre as rochas crecéram sycòmoros enormes, que lhe dam uma frescura
constante. Estas rochas combinadas com as palissadas formam uma temivel
fortificação, rodeada de um fosso meio obstruido. No tôpo do outeiro
dois rochêdos enormes de elevadas proporções formam uma especie de
mirante, d'onde se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho
visto.
Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez
de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos
Carvoeiro ao Mondego até á beira-mar, apenas interrompida aqui e àlém
por verdejantes clareiras, o paiz que se avista do alto de Quingolo é
talvez, mais vasto e grandioso, sendo limitado em tôrno por um perfil
azulado de longínquas montanhas que de distantes mal se avistam.
No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito
as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui ás 8h.
30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem fiquei
nos melhores termos de amizade. Logo á saida passei o ribeiro Luvubo,
que corre ao Calae, e pêlas 10 horas alcancei a libata do secúlo
Palanca, onde pedi agasalho, por me ser impossivel caminhar com febre
que recrescia a cada momento.
Apesar do meu estado de saude, fiz observações astronòmicas, para
determinar a minha posição; e falo n'isso, por ser este o primeiro
d'essa sèrie de pontos que eu devia determinar através d'Àfrica.
Foi a povoação de Palanca o primeiro ponto determinado por mim, n'essa
linha que marca o meu caminho do mar Atlàntico ao Indico.
Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia produzíram-me
ràpidas melhoras que me permitíram seguir no dia immediato.
Eu viajava acavallo em um possante bôi, e tinha um outro de reserva,
bôis muito bem domesticados e que offereciam bôa commodidade ao andar,
podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um galope curto.
Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dôro, a que chamam das
mulhéres, onde foi muito difficil a passagem dos bôis, por ser de fundo
lodoso.
O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente, pêlo que
resolvi deitar-me a descançar um pouco.
Não haviam arvores no sitio, e ao sol ardente sôbre uma terra ardente
adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que estava fresco
e tinha sombra. Eram os meus prêtos que, de motu proprio estavam em
tôrno de mim segurando um panno para desviar do meu côrpo as ardencias
de um sol a prumo. Tocou-me tal prova de cuidado. Segui ávante e passei
um riacho--o Dôro, a que chamam dos homens, que se une ao primeiro e
corre depois ao Calae, não sei se com o mesmo nome. Duas horas depois
encontrava o rio Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de
fundo, em cuja margem descancei. É affluente do Calae e abunda em peixe
miudo, que muito ali pescámos. Eu sentia-me bastante doente. Á febre que
tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que, havia dois
dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.
Aproveitei o descanço para mandar fazer um caldo de frango, que não
levou sal, por se me ter acabado a pequena provisão trazida de Caconda.
Depois de duas horas de repouso, seguímos sempre a N.E., e meia hora
depois passàvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de largo por 1,5 de
fundo, e corre ao Calae.
Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco
elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2
metros, tornáram difficil a passagem dos bois.
Trabalhámos ali duas horas. Duas horas depois, já ao cahir da noite,
alcancei a libata do Capôco, o poderoso filho do sova do Huambo.
O Capôco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para habitar,
offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente mandou-me duas
gallinhas.
Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.
Fiz-lhe um presente de duas peças de riscado e duas garrafas de
àgua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que se conhêcem
pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem dos artelhos,
trouxeram em cestas abundante comida aos meus prêtos. Depois de tomar
alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por ver coroada de
èxito a minha excursão.
No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles,
não só a amizade e a companhia dos meus conterraneos, mas ainda os
recursos que já me faltavam completamente.
Adormeci sorrindo. ¡Quam longe estava eu de pensar que adormecia na
vèspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por 20 dias!
No dia 14 fui a casa do pai do Capôco, o sova das terras do Huambo. A
libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3 kilòmetros da do
filho, e está assente na margem esquêrda do rio Calae.
Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pôvo, trajava soberbamente uma
casaca escarlate, cobrindo-lhe a cabêça uma barretina de caçadores.
Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em 3 peças de riscado
ordinario e duas garrafas de àgua-ardente, a que se mostrou muito grato.
Ficou muito sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me
para eu atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas
balas n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um
ôvo a 50 metros.
Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas está hôje reduzido a
dominar apenas em parte d'elle. A sua historia é curta, mas vulgar. Elle
era casado com a filha do sova do Bihé, que entretinha relações amorosas
com um dos seus secúlos.
Tremiam os criminosos da còlera do rei se viesse a saber a sua falta.
Houve rompimento entre Bilombo e um règulo vizinho, e a guerra foi
declarada. Bilombo tomou o commando do seu exèrcito e partio, ficando a
governar na sua ausencia o amante da sua mulhér. Conspiráram ambos e
Capussocússo fêz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do
paiz banhada pêlo Calae, onde o pôvo se lhe conservou fiel, e á epocha
da minha passagem, me disse, estar preparando uma terrivel vingança á
adùltera e ao seu amante o traidor Capussocússo.
De volta a casa do Capôco, despedi os três guias, que me acompanháram
desde Quingôlo, e por elles escrevi a Capello e Ivens, dizendo-lhes, que
os esperava, e que não abandonassem as cargas, por ser o paiz pouco
seguro.
Fui de tarde dar um passeio ás margens do Calae, e sorprendeu-me a
quantidade de caça que encontrei, que nunca tanta tinha visto, mas nada
matei por não ir prevenido para isso.
O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande
bôi, presente mui valioso, por ser escaço o gado bovino n'aquelle paiz.
Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia
immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando
chegáram três portadores do sova de Quingôlo, com cartas d'elles, e uma
cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.
Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular,
assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir
sós, e que pêlos 40 carregadores enviados por mim de Quingôlo, me
mandavam 40 cargas, acompanhadas pêlo guia Barros, para eu as conduzir
ao Bihé.
Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão Africano, que então tinham
os meus companheiros, podia desculpar um tal proceder. Eu achava-me n'um
paiz hostil, e se até ali tinha sido respeitado, fôra só porque o gentio
me julgava a vanguarda de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o
receio das represalias tinha até então sostido a rapacidade dos
indìgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho sertanejo, que
percorrera impunemente os mais longinquos sertões Africanos, tivera de
sustentar cruento combate com um gentio àvido de rapina.
¿Que seria de mim logo que se soubesse que tôda a minha força consistia
em 10 homens? Encarei a minha posição e achei-a um pouco séria. Capello
e Ivens tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade não lhes
consentiria de certo o deixarem-me em tal posição, se elles conhêcessem
bem essa posição.
¿Que fazer? Em três dias podia alcançar Caconda, e voltar d'ali a
Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma jornada de vinte
dias ao Bihé, jornada em que teria de arriscar cada dia e a cada hora a
vida e as bagagens. ¿Que fazer?
A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma agitação febril
indescriptivel.
¿Devia seguir ávante? ¿Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez
homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos junto de mim? ¿Teria o
direito de arriscar a minha propria vida em imprudente passo? ¿Deveria
voltar a Benguella?
¿Quem comprehenderia na Europa o obstàculo quasi insuperavel que me
fazia recuar? Ninguem, a não ser um ou outro explorador infeliz como eu.
¡Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o cuidado a
augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de pé, e havia
momentos que uma phrase estava gravada no meu pensamento e eu repetia
machinalmente aquella phrase.
_Audaces fortuna juvat_. Era a velha sentença dos fortes Romanos, era a
lei que dicta as acções dos aventureiros.
Decidi seguir ávante, eu que não tinha ido a Àfrica para só visitar o
paiz do Nano, que, digamos a verdade, não deixa de ser muito
interessante, sôbre tudo para nós os Portuguezes.
Descrevi aos meus 10 homens a nossa posição precaria e a resolução
tomada de caminhar para o Bihé; elles protestáram-me a sua dedicação e a
intenção de sempre me acompanharem.
D'esses dez homens 3, Verissimo Gonçalves, Augusto e Camutombo estivéram
em Lisboa depois de terem atravessado comigo a Àfrica; 4 seguíram do
Bihé Capello e Ivens, por minha ordem; 1, o prêto Cossusso, enlouqueceu,
junto ao Quanza, e foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto,
Domingos Chacahanga, para d'elle ter cuidado; e os dois restantes,
Manuel e Catraio grande, cahiram aos meus pes varados pêlas azagaias
Luinas, e cumprindo a sua promessa formulada rudemente n'este dia,
morréram defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.
Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhêcia, e não tivera
até então logar de experimentar o seu valor.
Eu estava em casa do Capôco, que até então me tinha dispensado os
maiores favores; mas Capôco era o cèlebre salteador do Nano, que chegara
a ir atacar Quillengues, um anno antes. ¿O que faria elle, logo que
conhêcesse a minha fraqueza?
D'elle dependia o èxito da minha empresa. Capôco é homem de vinte e
quatro annos, sympàthico e de maneiras agradaveis. Muitas vêzes me dizia
Verissimo Gonçalves, que lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo
nome era tão temido, e que tão longe dirigia as suas correrias de
devastação e morte. Entre as suas escravas conhêceu Verissimo algumas
raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno anterior. Uma
mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de Quillengues, e
Capôco pedia por ella grande resgate.
Capôco é intelligente, parco no comer e beber, e ainda que possue grande
nùmero de escravas, as que formam o seu harem sam mui poucas.
Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver
e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me
referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas de
pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e
elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capôco ¿porque não havia feito
d'ella sua amante? "Porque não dêvo," me respondeu elle, "é minha
escrava pêlo direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o
intento de a resgatar, dêvo respeital-a e será respeitada, porque a dêvo
entregar como a tomei."
Um dia Capôco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado (apontava
para o oeste), o sol passava primeiro pêlo Huambo antes de ir a
Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber quanto tempo
depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei fazer-lhe
comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um homem leva a
percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque julgava, me
disse, ser o nosso paiz muito mais longe.
Os costumes entre os pôvos do Nano e do Huambo sam os mesmos que entre
os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de
que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas não enxadas, que v[~e]m do
norte.
Como já incidentalmente notei, as raparigas, em quanto virgens, usam nos
artelhos de ambas as pernas ou só na esquêrda, umas manilhas de verga de
pao, e é grande crime para a familia, conservar as manilhas áquellas que
já não t[~e]m direito de as usar.
Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é haver em tôdas as
povoações uma especie de kiosques para conversação.
[Figura 4.--Homem e Mulhér do Huambo.]
Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de côlmo, sam
bastante separados. No meio arde a fogueira, socia constante do gentio
Africano, e em tôrno tomam assento os habitantes da povoação em toros de
pao. É o sitio da palestra, sôbre tudo quando chove; ali narram-se
episodios de guerra ou de caça, fala-se tambem de amor, e muito menos de
vidas alheias do que na Europa.
No paiz do Huambo comêça na costa de oeste o grande luxo nos penteados,
tanto em homens como em mulhéres, e tenho visto alguns que difficilmente
seriam executados pelos melhores cabelleireiros da Europa.
Ha penteados que levam dois e três dias a fazer, e que se conservam por
muitos mezes.
Os penteados das mulhéres sam profusamente enfeitados com umas contas de
vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral branco ou
encarnado, e é este gènero muito procurado no paiz. Eu infelizmente não
levava nenhum.
A pòlvora, armas e o sal de cozinha sam ali gèneros de grande valia.
Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse dispensar, o que
tornava mais embaraçosa a minha posição.
Fui falar ao Capôco e expuz-lhe que os meus companheiros tinham seguido
por Gallangue, e que só viriam 50 cargas, não precisando eu por isso
mais de 40 homens e esses só para irem d'ali ao Bihé.
Despedímos por isso os 80 carregadores que a essa hora já estavam
reunidos, e que se retiráram muito descontentes. Capôco prometeu-me que
teria os 40 de que precisava até ao Bihé. N'esse dia chegou o prêto
Barros com as 40 cargas, e trouxe-me nôva carta dos meus companheiros,
confirmando o que diziam as primeiras.
Por elle sube que elles tinham saïdo de Caconda para o Bihé;
acompanhados pêlo ex-chefe, Alferes Castro, e pêlo degradado Domingos,
que me tinham mostrado a impossibilidade de obter gente em Caconda, e
que a obtivéram no dia em que eu sahi d'aquelle ponto.
A elles, talvez, devia eu a crìtica posição em que me achava, porque os
meus companheiros, pouco conhêcedores d'Àfrica, e nada d'aquelle paiz,
não podiam julgar das difficuldades que me creavam, ao passo que
aquelles dois senhores, de sobra as conheciam. Não os accuso de um
crime, mas culpo-os de uma leviandade.
Não lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez depois de se
passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos perigos a
que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me tinha prendido
com garras de ferro a doença, proveniente de 20 dias de cruel agonia, a
que elles déram causa; vi-os entrar, famintos e sem recursos, na casa de
Silva Porto, que eu occupava no Bihé; e esquècendo tudo o mal que me
haviam feito; e não me lembrando de que um estava privado dos direitos
de cidadão por uma sentença infamante; reparti com elles o pouco de
vìveres que eu tinha, dando-lhes os meios de voltarem com relativa
commodidade a Caconda. É que eu vi n'elles, não só dois brancos, dois
Portuguezes, perdidos no já longinquo sertão do Bihé, mas vi mais os
homens que me fizéram ter de mim uma opinião de que me sentia orgulhoso,
os homens que em 20 dias de agonia que me déram, em mil perigos a que me
lançáram, com que me fizéram lutar e que eu venci, me retemperáram a
alma para commettimentos maiores. A elles devia a confiança que tinha em
Deos e em mim mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava
pagar uma dìvida de gratidão, onde outros, succumbindo ao soffrimento,
só veriam, talvez, um motivo de vingança.
Não antecipemos factos.
Capôco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens que queria,
mas só até ao Sambo, porque elles se recusavam a ir mais àlém; por
estarem despeitados pêla despedida dos 80 que se haviam reunido para ir
a Caconda e ao Bihé, e que eu tinha dispensado. Àlém d'isso, elles
exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia contratado por
10 pannos de Caconda ao Bihé, e estes exigiam só do Huambo ao Sambo 8
pannos. Acertei tudo, para poder partir.
No dia seguinte de manhã, reuníram-se os 40 homens; mas de repente
surgio uma nôva difficuldade. Quando em Caconda fomos enganados pêlo
Bandeira, o Ivens tinha tirado a tôdos os fardos sortidos o algodão
branco; porque os prêtos que esperàvamos do Bandeira não queriam
pagamento em outro gènero. Esquèceu esta circunstancia, e eu, levando
dois fardos sortidos, não levava nem uma só peça de algodão branco. A
gente do Capôco declarou-me logo, que não queriam receber senão algodão
branco, e não pegariam nas cargas se eu lho não désse.
Recusáram-se a receber o riscado, e já se iam, quando appareceu o
Capôco, e não sem custo os decidio a receberem metade em riscado, metade
em zuarte.
Havia grande descontentamento entre elles quando ás 10 horas os fiz
seguir acompanhados pêlo guia Barros. Eu devia partir dentro de uma
hora; mas fui atacado de tão violento accesso de febre, que tive de
deitar-me.
Desde a vèspera chovia torrencialmente, e sôbre tudo a noite foi
tempestuosa.
A febre comêçou a declinar ás 4 horas da tarde, e a chuva cessou. Pêlas
5 horas, precisei sahir da libata e fui a um mato pròximo, os meus
passos eram vacilantes e apoiava-me pesadamente no meu bordão.
Precavido sempre, disse ao meu prêto pequeno Pépéca, que me acompanhasse
e trouxesse uma das minhas carabinas.
Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme bùfalo
a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.
Tomei das mãos do pequeno a espingarda, e qual não é o meu desespêro,
vendo que, em logar de carabina, elle tinha trazido uma simples arma de
caça, carregada de chumbo! Senti-me perdido e vi a morte inevitavel,
terrivel caminhando para mim n'aquella fera, que mugia surdamente.
Lembrei-me de Deos, de minha mulhér e de minha filha. A fera avançava
aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam para o ataque. A 8
passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de chumbo, elle parou meio
segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o outro tiro não havia mais
distancia entre a bôca da espingarda e a cabêça do bùfalo do que alguns
decìmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O bùfalo seguio
sempre, passando a tomar uma carreira vertiginosa, e desappareceu no
mato. O meu Pépéca ria a bandeiras despregadas, e inconsciente do
perigo, batia as palmas gritando, "O bôi fugio, o bôi fugio, têve mêdo
de nós."
Voltei a casa do Capôco; e passei a noite mais socegado. Quiz escrever,
e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma velha caixa
de sardinhas de Nantes.
Era a 21 de Fevereiro de manhã. Despedi-me do Capôco, e febril ainda,
segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi un bilhete. Era
elle do guia Barros, dizendo-me, que na vèspera á noite, os carregadores
tinham fugido tôdos, deixando as cargas na libata do secúlo Quimbungo,
irmão do sova Bilombo.
Parei, e mandei chamar o Capôco. Contei-lhe o occorrido, e elle
disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar. Segui
ávante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S. para o Cunene,
tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta corrente.
As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de
gramìneas, por entre as quaes surge aqui e àlém um solitario dragoeiro.
O solo é de formação animal, que tudo o terreno é coberto por um mundo
infinito de termites, ou antes o cobre.
Uma ponte, construida toscamente de troncos de àrvore, une as duas
margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um
affluente importante, o Cuçuce, que traz volume d'àgua igual ao seu.
Caminhei a E.N.E., e pêlas 10 horas passei junto á libata do secúlo
Chacaquimbamba, em cuja frente havia grande ajuntamento de gentio.
Passei sem nada me dizerem; mas tinha andado uns 50 metros, quando senti
um grande barulho do lado da libata. N'esse momento Verissimo correu a
mim e disse-me, que havia questão com um carregador nosso.
Voltei a traz e vi o prêto Jamba, carregador da minha mala, a quem
tinham tirado a espingarda, o que conseguíram facilmente, porque elle a
largou com receio de deixar cair a mala, que continha os chronòmetros e
outros instrumentos delicados.
Àlém da arma, elles tinham mettido para a libata uma cabra e um
carneiro, que me tinham sido dados pêlo Capôco. Intimei-os a que me
entregassem o roubo; mas apenas me respondéram com um murmurio
ameaçador.
Calculei ràpidamente as circunstancias, e vi-me com 10 homens, cercado
por 200 que me ameaçavam furiosos.
Esquèci por um momento tôda a prudencia e bom senso, e quiz experimentar
o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de ser meus socios em
perigos maiores, e caminhando para a porta da libata, armei o revólver e
ordenei-lhes que entrassem e me trouxessem o roubo. O meu prêto de
Benguella, Manuel, um môço de que eu nunca fizera caso, soffreu uma
transformação sùbita, e armando a carabina, de um salto entrou na
libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e Catraio grande. Os
outros seguíram, e eu, estudando os meus homens, esquèci-me de mim, e
podia ter sido vìctima do furor da populaça que me cercava; mas a nossa
audacia espantou-os, e recuáram, vendo sahir da libata Verissimo com a
cabra, o Augusto com o carneiro, e os outros de carabina prompta
cobrindo-lhes a retirada.
A arma, mais facil de esconder do que os animaes, não foi encontrada,
mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a primeira; que o
successo desta tinha autorizado.
Os meus prêtos, animados pêla indecisão dos gentios, só proferiam
palavras de morte, e custou-me a contel-os para que não fizessem fogo
sôbre os indìgenas.
Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos satisfação
plena.
Eu dizia isto fiado no Capôco, em quem já confiava um pouco.
Seguímos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio Põe, affluente do
Caláe, que tem 5 metros de largo por 1 de fundo, cujo leito lodoso e
molle dá difficil passagem.
Ás 3 horas chegava á libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova do
Huambo, onde estavam as cargas abandonadas e o prêto Barros. O Quimbungo
recebeu-me muito bem, e disse-me que me daria carregadores até ao Sambo,
e sabendo do occorrido de manhã, pedio-me que não fizesse mal ao secúlo
Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena
satisfação do insulto. Pêlas 6 horas, chegou ali o Capôco, trazendo
alguns carregadores dos que tinham fugido, e as fazendas apprehendidas
aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia feito adiantados.
Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a arma roubada, e poria
á minha disposição o chefe da povoação para eu o castigar.
Que não receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle mesmo, ou o
tio, me acompanhariam até ao Sambo.
Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.
No dia seguinte reuníram-se mais carregadores; mas não ainda os
sufficientes.
Capôco tinha partido logo de madrugada para casa do Chacaquimbamba, e ao
meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle secúlo, a quem
perdoei a offensa da vèspera. O delinquente deu-me mil satisfações, e
melhor do que as satisfações, dois magnìficos carneiros.
Capôco, esse homem selvagem e ferôz, que é o terror do Nano, esse homem
que eu consegui dominar completamente e que tantos serviços me prestou,
despede-se de mim e volta á sua libata, recommendando-me instantemente
ao tio.
De tarde desencadeou-se sôbre nós uma horrivel tempestade, e á chuva
torrencial misturava-se o raio e o trovão da tormenta perpendicular.
Recresceu-me a febre.
Durante a noite nôva tormenta; mas com chuva moderada. O secúlo
Quimbungo, logo de manhã cêdo, me veio dizer estarem promptos os
carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.
Recusei positivamente, porque, àlém da experiencia adquirida com o mao
resultado dos pagamentos adiantados, foi consêlho do Capôco, nunca fazer
taes pagamentos.
Os homens recusáram-se a seguir e fôram-se. Quimbungo reune a gente da
sua povoação, e ordena-lhe que sigam comigo; elles obedecêram, mas sam
mui poucos e reunidos aos que me trouxe o Capôco, deixam ainda 27
cargas, que eu entrego ao Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me
ámanhã para o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.
Parti ás 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio Canhungamua,
de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao Sul vai unir
as suas àguas ás do Cunene.
Uma ponte de troncos de àrvore, de construcção nôva, deu-me facil
passagem e á comitiva, que na margem esquêrda do rio se recusou a ir
mais longe n'aquelle dia, sendo-me preciso empregar a maior energia para
os fazer seguir até as 3 horas, hora a que acampei n'uma espêssa
floresta de acacias.
O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular
tratamento que eu lhe podia fazer.
Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou
junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.
Levanto campo no dia seguinte ás 6 horas, e duas horas depois, passava o
Cunene, em ponte construida, como tôdas n'esta parte d'Àfrica, de
troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de largo por 2 de fundo, e
corre ao Sul. As margens sam levemente accidentadas, cobertas de
gramìneas, e pouco arborizadas. Duas fileiras de àrvores, mui
semelhantes aos salgueiros da Europa, desenham duas linhas tortuosas,
por entre as quaes o rio se deslisa com veloz corrente em leito de areia
branca e fina.
Descancei um pouco, depois de ter feito as observações precisas para
determinar a altitude, e segui ao meio dia, alcançando, pêlas 2 horas, a
libata do sova Dumbo, no paiz do Sambo.
Este sovêta é vassallo do sova do Sambo, é homem rico e tem muita gente
nas povoações que governa. Recebeu-me muito bem, e quiz que me
hospedasse na libata, o que aceitei.
Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter eu
chegado em má occasião, por ter muita gente fôra em guerra. Paguei e
despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei certo de seguir no dia
immediato.
Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um secúlo rico, que mora na
margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o sovêta de quem era
amigo. Este Cassoma, com quem não sympathizei, veio fazer-me mil
protestos de amizade, offerecendo-se para me acompanhar ao Bihé.
De tarde mandei ao sovêta 3 garafas de àgua-ardente, e fiz lembrar-lhe
que me não faltassem os carregadores na manhã seguinte. Ao contrario dos
usos da hospitalidade do gentio n'estas paragens, o sovêta nada me
mandou para comer, e eu e os meus tivémos fome, porque ninguem nos
vendeu farinha.
Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e estômago vazio,
me ia deitar, senti bater á porta e logo entrarem o sovêta Dumbo, o tal
Cassoma e um secúlo chamado Palanca, amigo e principal conselheiro do
sovêta, e cinco das mulhéres d'este ùltimo.
Conversámos um pouco sôbre a minha viagem; mas de repente o Cassoma,
interrompendo a conversa, disse ao sovêta, "Nós não viémos aqui para
conversar, queremos àgua-ardente, e diga a esse branco que nol-a dê já."
O sovêta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que lhe desse
àgua-ardente a elles e ás mulhéres. Eu respondi-lhe que já lhe tinha
dado três garrafas, que elle nada me tinha offerecido, que era esta a
primeira hospedagem que eu recebia de um chefe em que me deitava com
fome, e por isso não lhe daria nem mais uma gota de àgua-ardente. O
Cassoma meteu-se logo na questão, animando o sovêta contra mim, e entre
nós comêçou uma controversia que durou mais de uma hora, em que eu fiz
prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por fim elles concluiram
dizendo-me, que pois eu lh'a não queria dar por bem, m'a iam tirar á
fôrça.
Eu então, perdendo a paciencia, empurrei com o pé o barril, e armando o
revólver, perguntei-lhes qual era o primeiro que bebia.
Elles vaciláram um momento, mas o Cassoma disse ao sovêta: "Tu es rei,
vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o envolvia,
entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o branco m'o não
furte," e caminhou ao barril.
Eu levantei o revólver á altura da cabêça do sovêta e fiz fogo; mas
Verissimo Gonçalves, que estava junto a mim, empurrou-me o braço e a
bala, desviando-se da pontaria, foi cravar-se na parêde.
Os três nêgros, transidos de mêdo, recuáram até á parêde, e as 5
mulhéres fizéram um berreiro horrivel.
Eu ouvi então junto á porta uma estrepitosa gargalhada que me chamou a
attenção, e devisei na sombra dois homens encostados ás carabinas, que
riam como riem prêtos. Eram os meus Augusto e Manuel, que se tinham
aproximado, ao ouvirem a discussão, e que, acompanhados dos outros 8
homens, guardavam a porta.
O Verissimo disse então ao sovêta e aos seus companheiros, que se fôssem
deitar, e não me dissessem mais nada, porque, se eu me zangasse outra
vez, elle não lhes poderia salvar a vida como ha pouco.
Elles tomáram o prudente consêlho, e retiráram-se, ficando tudo em
silencio.
Sem o empurrão que me deu o Verissimo, eu teria môrto um homem, e na
situação em que nos achàvamos, estarìamos completamente perdidos. Foi
elle que salvou tudo.
Com a excitação que me produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem
fôrças nas pelles que estendidas no chão me serviam de leito.
Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e disséram-me, que dormisse
descançado, que elles velariam por mim.
Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em três
occasiões differentes: 1^o com o bùfalo no Huambo, 2^o na libata do
Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.
Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia lá
fora.
Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo. ¿O que
succederia de manhã? Eu estava só com 10 homens, dentro de uma povoação
fortificada, d'onde não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as
portas ¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto
com o règulo?
Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora.
Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir,
e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo.
Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua
responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que
o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfações
do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado fôra o Cassoma, que
elle já tinha posto fôra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi
depois.
[Figura 5.--Mulhér do Sambo.]
Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente não
eram só carregadores, que no grupo devisei 6 raparigas, ainda de
manilhas nos artêlhos; tal cuidado poz elle em servir-me, que, para não
me demorar, mandando ir homens das povoações distantes, me deu os que na
sua tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o
nùmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal prova de
cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo presente digno, de
offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse
um homem da sua confiança recebel-a no Bihé, mostrando-lhe desejos de
que esse homem fôsse o secúlo Palanca seu conselheiro ìntimo. Exultei de
alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido
satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovêta Dumbo
entregava nas minhas mãos um preciôso refem, que me responderia já pêla
minha segurança, já pêla das cargas que deixei dois dias antes entregues
ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo.
Deixei a povoação ás 11 horas, á frente da estranha comitiva, formada
dos meus dez bravos de Benguella, dez salteadores do Sambo, e seis
virgens escravas do sovêta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar
d'isso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoação onde
passei tão horrivel noite.
Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoação
de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre.
Não aceitei a hospitalidade offerecida pêlo chefe da povoação, porque,
depois do que se passou na vèspera, recordei-me de um bom consêlho que
me deu Stanley, e protestei não mais em Àfrica pernoitar em casa de
gentio.
[Figura 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.]
Viéram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e
batatas magnìficas, em nada inferiores ás da Europa.
A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito
doente.
Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas àguas iam a um
ribeiro affluente do Cubango, sam as àguas que este ùltimo rio recebe
mais de Oeste.
Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5 da manhã,
hora em que parou. Ha grande abundancia de òptimo tabaco n'este paiz,
onde me vendêram muito e baratissimo. Ali poucos prêtos fumam, mas tôdos
cheiram tabaco em pó, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de
fumo, e reduzindo-o a pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um
pao, especie de mão-de-almofariz, que a elle anda prêso com uma correa
fina.
Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma região muito cultivada
e muito povoada.
Ás 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande povoação de Vaneno, e ás 10
parei para descançar junto da aldea de Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia
sempre a N.E., ás 11 passei junto da povoação de Chacapombo, muito
populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de
tôdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e
offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o valor do
porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaças
de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois
fui acampar no mato pròximo da povoação do Gongo.
Esta ùltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa, porque choveu
muito, e o vento S.O. era rijo e frio.
Pêla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoação me
ficava uns 15 kilòmetros a N.O., mandando-me pedir alguma cousa, e
dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado á porta do
sova, elle me daria um bôi. Agradeci a bôa intenção, e resolvi dar-lhe
no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o despedisse
sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria
facil porque já o tinham querido fazer, e foi preciso tôda eloquencia do
Verissimo para os convencer a seguirem ávante.
O secúlo Capuço, chefe da povoação pròxima, mandou-me comprimentar por
três das suas mulhéres (tôdas feias), e por ellas um presente de uma
gallinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis côvados de riscado e
dei algumas missangas ás mulhéres. Junto á noite viéram algumas mulhéres
vender farinha, milho e mandioca.
Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha é
enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de oleo de ricino,
que ellas prodigalizam na sua _toilette_. Os homens do sovêta Dumbo eram
verdadeiramente insobordinados, querelavam-se com a gente de Benguella,
e durante a noite só houve tranquillidade na barraca onde dormiam as
seis virgens nêgras, as minhas gentís carregadoras.
A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o secúlo Capuço,
veio agradecer os 6 côvados de riscado que lhe dei, e em logar das três
mulhéres feias que me enviou na vèspera, trouxe-me um lindo porco e uma
gorda gallinha.
O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e
que foi muito insignificante, sendo como era em trôco da intenção de me
dar um bôi, se eu passasse junto da libata d'elle.
Segui pêlas 8 horas, e ás 9 passei junto das povoações de Chacáhônha,
primeiras da raça (Ganguela) na Àfrica de Oeste.
Passei o riacho Bomba, cuja margem esquêrda segui por dois kilòmetros,
quando os carregadores pousáram as cargas, recusando seguir ávante, e
pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois kilòmetros do
Cubango, e querendo passar o rio, instei com elles a que andassem mais
aquelle curto espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes
daria os seus pagamentos e os despediria.
Recusáram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito offendido na
sua libata, pêlo sovêta Dumbo, e por isso não iam para diante, sendo
certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fôra do seu
paiz, me vingaria n'elles das offensas recebidas.
Fôram baldados os meus esfôrços e tudo foi eloquencia perdida.
Recusei-me a pagar-lhes se elles não passassem o Cubango; responderão-me
que se retiravam sem pagamento, e logo chamáram as seis raparigas e
ordenáram-lhes que os seguissem.
Eu estava no desespero; ali perto era a povoação do Cassoma, e eu vi ser
aquillo plano combinado de antemão para me entregarem a elle, que me
havia precedido no caminho.
As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se
com que ôlhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.
Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas
estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa carabina
atravessada sôbre os joêlhos.
Era o secúlo Palanca, que eu havia esquècido. Saltar sôbre elle e
derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de pés e mãos, e dei
ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acacia que se
estendia sôbre as nossas cabêças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida,
elle, transido de mêdo, gritou-me, "Não me mates, os carregadores vam
passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fêz reunir os
carregadores já dispersos.
Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles obedecêram.
Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometti-lhe um tiro na cabêça á
menor excitação dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango
n'uma bem construida ponte, e acampava na margem esquêrda junto das
povoações de Chindonga.
[Figura 7.--Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.]
Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio
extrae abundante minerio.
Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo
e Sambo, de que guardarei eterna memoria.
O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de
fundo. Fiz observações para determinar a posição e altitude, e logo
corri á barraca, que uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sôbre nós
copiosa chuva.
Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois côvados de
riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.
Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as
mulhéres tinham obrigação de trabalhar e não mereciam paga. Ellas
retiráram-se tristes; mas achando natural o meu modo de proceder, tão
aviltada é a mulhér n'aquelles paizes.
Quando já se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo, mandei-as chamar
e dei 4 côvados do mais brilhante zuarte pintado que possuia a cada uma,
e algums fios de missangas differentes.
É impossivel descrever o contentamento d'aquellas desgraçadas ao
receberem tão valiosa paga. Os homens roiam-se de inveja, e eu
convenci-os de que, se não tivessem querido voltar para casa na outra
margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.
Foi a minha vingança, e ao mesmo tempo proveitosa lição.
[Figura 8.--O Secúlo que me deu um Porco.]
N'essa noite veio procurar-me um secúlo da povoação de Chindonga, que me
trouxe de presente um porco.
Este secúlo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a um côvado de
riscado por dia, dizendo-me, que elles só iriam até ao paiz de
Caquingue, onde eu facilmente obteria gente para o Bihé.
A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas
completamente molhado havia três dias, eu sentia já os primeiros
symptomas do terrivel ataque de rhèumatismo que depois ia compromettendo
a minha viagem.
A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.
O secúlo veio logo de manhã com os carregadores; mas eu tinha resolvido
descançar ali um dia, e por isso convoquei-os para o dia seguinte.
Disse-me elle, que os meus companheiros tinham passado na vèspera,
vindos do Sul.
O secúlo Palanca, do Sambo, continúa bem vigiado, mas livre. Eu na
vèspera tinha mandado dizer ao sovêta Dumbo, que a cabêça do seu amigo
me respondia pêlas cargas que vinham escoltadas pêlo prêto Barros,
resolução que Palanca achou muito justa e natural, por ser lei do paiz.
Talvez o meu procedimento, que eu confesso francamente, me seja
censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um pouco na posição de
algum, acompanhado só de dez homens, n'um paiz em que tudo lhe é hostil,
desde o clima até ao homem. Se eu não professo o principio de que os
fins justificam os meios, não sou tambem bastante virtuoso para
apresentar uma face á mão que me esbofeteou a outra. Longe das vistas do
mundo civilisado, fôra d'esses dois cìrculos de ferro que apertam a
humanidade culta, a que chamam o còdigo penal e as conveniencias
sociaes, cìrculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante
latitude ao crime e á infamia; o explorador d'Àfrica, perdido no meio de
pôvos ignaros, cujos còdigos differem essencialmente dos nossos; tendo
por ùnica testemunha dos seus actos a Deos, por ùnico censor das suas
obras a sua consciencia, precisa ter uma fôrça sublime para se conservar
honrado e digno, quando muitas vêzes as paixões travam no seu ìntimo uma
luta infrene. Por mim o digo, que tôdas as ovações que me tem dispensado
o mundo civilisado, pêla felicidade que tive de vencer os obstàculos
materiaes no meu caminho, seriam talvez mais justamente applicadas, se
se soubesse quantas lutas, e que terriveis lutas sustentei para me
vencer a mim mesmo.
Vencer as suas paixões indòmitas, vencer os seus hàbitos materiaes e
moraes da vida civilisada, sam os dois grandes trabalhos do explorador.
Aquelle que o conseguiu, attingirá o seu fim, cumprirá a sua missão.
Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.
Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de
que sahi sempre vencedor. O meu genio indòmito têve de ceder á vontade
inquebrantavel, e na falta de tempo para escrever um còdigo, tomei um
que accommodei ao meu uso. Os meus principios fôram os do direito
natural; a minha lei, curta mas òptima, resumiu-se nos dez preceitos do
Decàlogo.
Não se julgue que quero fazer jus á canonização, nem mesmo que pretendo
ter seguido á risca os preceitos gravados no vigèsimo capìtulo do livro
sublime do Èxodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas fiz o que
pude para não me afastar muito d'elles, e fiz bem.
Esta divagação fica aqui, não como narrativa de àguas passadas, mas como
consêlho a exploradores futuros, que não sejam missionarios, que a esses
Deos me defenda de falar em materia da sua competencia.
É verdade que eu encontrei alguns em Àfrica que me fizéram lembrar o
velho rifão, "Em casa de ferreiro, espeto de pao."
Passemos adiante.
Durante o dia, viéram muitas prêtas vender alimentos, e entre outras
cousas vulgares, trouxéram uma mui extraordinaria.
Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes ás do
_Acherontia Atropos_, e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidòptero
no seu primeiro estado vive nas gramìneas, e é facil ali colher grande
provisão. Os Ganguelas sam àvidos de tal manjar, que os meus prêtos
recusáram.
[Figura 9.--Mulhéres Ganguelas das margens do Cubango.]
No dia seguinte logo de manhã, viéram offerecer-se muitos mais
carregadores, que recusei, por me serem inuteis.
Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da
sahida quebrei os meus òculos, que usava desde Lisboa. Andei a N.E., e
cinco horas depois, acampava na margem esquêrda do rio Cutato das
Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sôbre uma pequena cataracta.
No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente do
Cutato.
O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e depois
pêlo Leste para o Sul. Este S gigantesco é uma serie de ràpidos, em que
o rio se precipita com fragor enorme, pôr sôbre as rochas de granito que
formam o seu leito.
[Figura 10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.]
No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante e
jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os
naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.
[Figura 11--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio
Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação.]
A margem direita é occupada pêlas plantações da povoação de Moma, que
occupam um espaço que avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as
maiores que tenho visto em Àfrica. A cultura entre estes pôvos consiste
principalmente em milho, feijão e batata, mas o que mais se vê sam
campos de milho. Antes de chegar ás plantações, atravessei uma floresta
de acacias enormes, de sorprendente belleza. O aspecto das margens do
Cutato é muito original. Onde termina o granito do leito do rio comêça
um solo de formação termìtica, e o terreno coberto de milhares de
montìculos, uns cultivados, outros cobertos de vegetação silvestre,
tôdos ligados, formando como que systemas de montanhas, ferem a vista,
admirada ao contemplar um tão estranho systema orogràphico artificial.
Marquei a grande povoação de Moma, três kilòmetros a O.S.O., e depois de
ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me, molhado da incessante
chuva, e atacado de nôvo accesso de febre.
Os ameaços de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi
torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta època do anno,
as gramìneas de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais
comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta é difficil, senão
impossivel, vedar a àgua em uma barraca.
A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de
abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144 pulsações.
Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bôi; mas,
depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar.
Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores Ganguelas
dispensavam-me os maiores cuidados.
O logar em que acampei foi junto de umas povoações a que chamam Lamupas,
por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz t[~e]m o
nome de _Mupas_.
É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pôvos grandes
cultivadores.
Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam cobertas de
barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam
cobertas por um alpendre de côlmo, e sam sempre debaixo de uma àrvore
grande.
Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos pêlos
parentes do defunto, como nós depomos nos tùmulos das pessôas queridas,
as saudades e as perpètuas.
De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio.
A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas comêçavam a fazer-se
sentir atrozmente. Segui ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu
campo, passei junto da grande povoação de Cassequera.
Logo que passei um pequeno riacho que fica para àlém da povoação,
deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramìneas, que me
prenderam a attenção pêlo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma
èpocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse
desenvolvimento.
[Figura 12.--Sepultura de Secúlo.]
O meu muleque Pépéca foi atacado de tão violento e repentino accesso de
febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar contratar um homem, na
povoação de Cassequera, para o levar ás costas. Ao meio dia, passei
junto da libata do Capitão do Quingue, primeira povoação do paiz de
Caquingue. Fui hospedar-me em casa de João Albino, mestiço de Benguella,
filho do antigo sertanejo Portuguez Luiz Albino, môrto por um bùfalo nos
sertões do Zambeze.
João Albino mora na libata de Camenha, filho do Capitão do Quingue.
Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das fôrças do sova
de Caquingue, que ia fazer a guerra a uns sovêtas do Cubango.
O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo
continuava a ameaçar-me.
A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.
Fui visitar o velho capitão do Quingue, a quem levei de presente uma
peça de lenços. Elle deu-me um bôi, que mandei logo matar, porque há
muito que tìnhamos só carne de porco para comer. O capitão era muito
velho e doente. Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha
viagem, e não comprehen
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