A Relíquia
by Eça de Queirós · Portuguese · Gutenberg #17515 · 518,625 chars · public domain (US)
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Title: A Relíquia
Author: Eça de Queirós
Release date: January 14, 2006 [eBook #17515]
Language: Portuguese
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A RELIQUIA
*A Reliquia*
Decidi compôr, nos vagares d'este verão, na minha quinta do _Mosteiro_
(antigo solar dos condes de Landoso) as memorias da minha Vida--que
n'este seculo, tão consumido pelas incertezas da Intelligencia e tão
angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu
cunhado Chrispim, uma lição lucida e forte.
Em 1875, nas vesperas de Santo Antonio, uma desillusão de incomparavel
amargura abalou o meu sêr: por esse tempo minha tia D. Patrocinio das
Neves mandou-me do Campo de Sant'Anna, onde moravamos, em romagem a
Jerusalem: dentro d'essas santas muralhas, n'um dia abrazado do mez de
Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa, Elius Lamma legado
imperial da Syria e J. Kaiapha Summo Pontifice testemunhei,
miraculosamente, escandalosos successos: depois voltei--e uma grande
mudança se fez nos meus bens e na minha moral.
São estes casos--espaçados e altos n'uma existencia de bacharel como, em
campo de herva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e
murmurio--que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, emquanto
no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos
perfumam o meu pomar.
Esta jornada á terra do Egypto e á Palestina permanecerá sempre como a
gloria superior da minha carreira; e bem desejaria que d'ella ficasse
nas Lettras, para a Posteridade, um monumento airoso e macisso. Mas
hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituaes, pretendi que as
paginas intimas em que a relembro se não assemelhassem a um _Guia
Pittoresco do Oriente_. Por isso (apesar das solicitações da vaidade)
supprimi n'este manuscripto succulentas, resplandecentes narrativas de
Ruinas e de Costumes...
De resto esse paiz do Evangelho, que tanto fascina a humanidade
sensivel, é bem menos interessante que o meu sêcco e paterno Alemtejo:
nem me parece que as terras favorecidas por uma presença Messianica
ganhem jámais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os
Lugares Santos da India em que o Budha viveu--arvoredos de Migadaia,
outeiros de Veluvana, ou esse dôce valle de Rajagria por onde se
alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou
nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia é
uma fogueira que devora o homem--alimentada pelas enganosas sensações de
Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem
não visitei a caverna d'Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina
que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e
pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania
até ás aguas caladas de Galilêa, conheço bem os sitios onde habitou esse
outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem
chamamos Jesus-Nosso-Senhor:--e só n'elles achei bruteza, seccura,
sordidez, soledade e entulho.
Jerusalem é uma villa turca, com viellas andrajosas, acaçapada entre
muralhas côr de lôdo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.
O Jordão, fio d'agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem
póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do
_Mosteiro_, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vêde! estas
meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d'um
Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes,
trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!
Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas
terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao
preço da cerveja--eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu
companheiro de romagem, o allemão Topsius, doutor pela Universidade de
Bonn e membro do _Instituto Imperial de Excavações Historicas_. São sete
volumes _in-quarto_, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo
fino e profundo--Jerusalem Passeada e Commentada.
Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim,
com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o _illustre fidalgo
lusitano_; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos
Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Além
d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, através d'esses repletos
volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo,
dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade--que elle logo
rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:--«Diante
de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo
lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a Santa
Veronica...»--E logo alastra a tremenda, turgida argumentação com que me
deliu. Como porém as arengas que me attribue não são inferiores em sabio
chorume e arrogancia theologica ás de Bossuet, eu não denunciei n'uma
nota á _Gazeta de Colonia_--por que tortuoso artificio a afiada razão da
Germania se enfeita assim de triumphos sobre a romba fé do Meio-Dia.
Ha porém um ponto de Jerusalem Passeada que não posso deixar sem
energica contestação. É quando o doutissimo Topsius allude a dois
embrulhos de papel, que me acompanharam e me occuparam, na minha
peregrinação, desde as viellas de Alexandria até ás quebradas do
Carmello. N'aquella fórma rotunda que caracterisa a sua eloquencia
universitaria, o dr. Topsius diz:--«O illustre fidalgo lusitano
transportava alli restos dos seus antepassados, recolhidos por elle,
antes de deixar o sólo sacro da patria, no seu velho solar torreado!...»
Maneira de dizer singularmente fallaz e censuravel! Porque faz suppôr á
Allemanha erudita que eu viajava pelas terras do Evangelho--trazendo
embrulhados n'um papel pardo os ossos dos meus avós!
Nenhuma outra imputação me poderia tanto desaprazer e desconvir. Não por
me denunciar á Egreja como um profanador leviano de sepulturas
domesticas: menos me pezam a mim, commendador e proprietario, as
fulminações da Egreja--que as folhas sêccas que ás vezes cahem sobre o
meu guardasol de cima d'um ramo morto: nem realmente a Egreja, depois de
ter embolsado os seus emolumentos por enterrar um mólho d'ossos, se
importa que elles para sempre jazam resguardados sob a rigida paz d'um
marmore eterno, ou que andem chocalhados nas dobras molles d'um papel
pardo. Mas a afirmação de Topsius desacredita-me perante a Burguezia
Liberal:--e só da Burguezia Liberal, omnipresente e omnipotente, se
alcançam, n'estes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas
da vida, desde os empregos nos bancos até ás commendas da Conceição. Eu
tenho filhos, tenho ambições. Ora a Burguezia Liberal aprecia, recolhe,
assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares: é o
vinho precioso e velho que vai apurar o vinho novo e crú: mas com razão
detesta o bacharel, filho d'algo, que passeie por diante d'ella,
enfunado e têso, com as mãos carregadas de ossos de antepassados--como
um sarcasmo mudo aos antepassados e aos ossos que a ella lhe faltam.
Por isso intímo o meu douto Topsius (que com seus penetrantes oculos viu
formar os meus embrulhos, já na terra do Egypto, já na terra de Canaan)
a que na edição segunda de Jerusalem Passeada, sacudindo pudicos
escrupulos de Academico e estreitos desdens de Philosopho, divulgue á
Allemanha scientifica e á Allemanha sentimental qual era o recheio que
continham esses papeis pardos--tão francamente como eu o revelo aos meus
concidadãos n'estas paginas de repouso e de ferias, onde a Realidade
sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da
Historia, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farça!
I
Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em theologia, author
de uma devota _Vida de Santa Philomena_, e prior da Amendoeirinha. Meu
pai, afilhado de Nossa Senhora da Assumpção, chamava-se Rufino da
Assumpção Raposo--e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo,
por alcunha a «Repolhuda,» doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá
tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no _Pharol do
Alemtejo_.
Em 1853, um ecclesiastico illustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de
Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. João a Evora, a casa do
conego Pitta, onde o papá muitas vezes á noite costumava ir tocar
violão. Por cortezia com os dois sacerdotes, o papá publicou no _Pharol_
uma chronica, laboriosamente respigada no _Peculio de Prégadores_,
felicitando Evora «pela dita d'abrigar em seus muros o insigne prelado
D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.»
O bispo de Chorazin recortou este pedaço do _Pharol_ para o metter entre
as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o
aceio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que elle cantava,
acompanhando-se no violão, a xacara do conde Ordonho. Mas quando soube
que este Rufino da Assumpção, tão moreno e sympathico, era o afilhado
carnal do seu velho Rufino da Conceição, camarada de estudos no bom
Seminario de S. José e nas veredas theologicas da Universidade, a sua
affeição pelo papá tornou-se extremosa. Antes de partir de Evora deu-lhe
um relogio de prata; e, por influencia d'elle, o papá, depois de
arrastar alguns mezes a sua madraçaria pela alfandega do Porto, como
aspirante, foi nomeado, escandalosamente, director da alfandega de
Vianna.
As macieiras cobriam-se de flôr quando o papá chegou ás veigas suaves
d'Entre-Minho-e-Lima; e logo n'esse julho conheceu um cavalheiro de
Lisboa, o commendador G. Godinho, que estava passando o verão com duas
sobrinhas, junto ao rio, n'uma quinta chamada o _Mosteiro_, antigo solar
dos condes de Lindoso. A mais velha d'estas senhoras, D. Maria do
Patrocinio, usava oculos escuros, e vinha todas as manhãs da quinta á
cidade, n'um burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Sant'Anna. A
outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de cór os
versos do _Amor e Melancolia_, e passava horas, á beira da agua, entre a
sombra dos amieiros, rojando o vestido branco pelas relvas, a fazer
raminhos silvestres.
O papá começou a frequentar o _Mosteiro_. Um guarda da alfandega
levava-lhe o violão; e emquanto o commendador e outro amigo da casa, o
Margaride, doutor delegado, se embebiam n'uma partida de gamão, e D.
Maria do Patrocinio rezava em cima o terço--o papá, na varanda, ao lado
de D. Rosa, defronte da lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer
no silencio os bordões e dizia as tristezas do conde Ordonho. Outras
vezes jogava elle a partida de gamão: D. Rosa, sentava-se então ao pé do
titi, com uma flôr nos cabellos, um livro cahido no regaço; e o papá,
chocalhando os dados, sentia a caricia promettedora dos seus olhos
pestanudos.
Casaram. Eu nasci n'uma tarde de sexta-feira de Paixão; e a mamã morreu,
ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Alleluia. Jaz, coberta de
goivos, no cemiterio de Vianna, n'uma rua junto ao muro, humida da
sombra dos chorões, onde ella gostava de ir passear nas tardes de verão,
vestida de branco, com a sua cadellinha felpuda que se chamava
_Traviata_.
O commendador e D. Maria não voltaram ao _Mosteiro_. Eu cresci, tive o
sarampo; o papá engordava; e o seu violão dormia, esquecido ao canto da
sala, dentro d'um sacco de baeta verde. N'um julho de grande calor, a
minha criada Gervasia vestiu-me o fato pesado de velludilho preto; o
papá poz um fumo no chapéo de palha; era o luto do commendador G.
Godinho a quem o papá muitas vezes chamava, por entre dentes,
«malandro.»
Depois, n'uma noite de entrudo, o papá morreu de repente, com uma
apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado
d'urso, para ir ao baile das senhoras Macedos.
Eu fazia então sete annos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia, no
nosso pateo, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha rica de renda
negra, a soluçar diante das manchas de sangue do papá, que ninguem
lavára, e já tinham seccado nas lages. Á porta uma velha esperava,
rezando, encolhida no seu mantéo de baetilha.
As janellas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro, sobre
um banco, um candieiro de latão ficou dando a sua luzinha de capella,
fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela vidraça da cozinha, emquanto
a Marianna, choramigando, abanava o fogareiro, eu vi passar no largo da
Senhora da Agonia, o homem que trazia ás costas o caixão do papá. No
alto frio do monte a capellinha da Senhora, com a sua cruz negra,
parecia mais triste ainda, branca e nua, entre os pinheiros, quasi a
sumir-se na nevoa; e adiante, onde estão as rochas, gemia e rolava, sem
descontinuar, um grande mar d'inverno.
Á noite, no quarto de engommar, a minha criada Gervasia sentou-me no
chão, embrulhado n'um saiote. De quando em quando, rangiam no corredor
as botas do João, guarda da alfandega, que andava a defumar com
alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão de ló. Adormeci: e
logo achei-me a caminhar á beira d'um rio claro, onde os choupos, já
muito velhos, pareciam, ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia
andando um homem nú, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos,
que era Jesus, Nosso Senhor.
Passados dias, acordaram-me, n'uma madrugada em que a janella do meu
quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenuncio de
coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito risonho e gordo fazia-me
cocegas nos pés com ternura e chamava-me _bréjeirote_. A Gervasia
disse-me que era o snr. Mathias, que me ia levar para muito longe, para
casa da tia Patrocinio: e o snr. Mathias, com a sua pitada suspensa,
olhava espantado para as meias rôtas que me calçára a Gervasia.
Embrulharam-me no chale-manta cinzento do papá; o João, guarda da
alfandega, trouxe-me ao collo até á porta da rua, onde estava uma
liteira com cortinas d'oleado.
Começámos então a caminhar por compridas estradas. Mesmo adormecido, eu
sentia as lentas campainhas dos machos: e o snr. Mathias, defronte de
mim, fazia-me de vez em quando uma festinha na cara, e dizia: «Ora cá
vamos.» Uma tarde, ao escurecer, parámos de repente n'um sitio ermo,
onde havia um lamaçal; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o
archote acceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O
snr. Mathias, enfiado, tirou o relogio da algibeira e escondeu-o no cano
da bota.
Uma noite, atravessámos uma cidade onde os candieiros da rua tinham uma
luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da fórma d'uma tulipa
aberta. Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gonçalves,
conhecia o snr. Mathias: e depois de nos trazer os bifes, ficou
familiarmente encostado á mesa, de guardanapo ao hombro, contando coisas
do snr. barão, e da ingleza do snr. barão. Quando recolhiamos ao quarto,
alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma
senhora, grande e branca, com um rumor forte de sêdas claras, espalhando
um aroma d'almiscar. Era a ingleza do snr. barão. No meu leito de ferro,
desperto pelo barulho das seges, eu pensava n'ella, rezando Ave-Marias.
Nunca roçára corpo tão bello, d'um perfume tão penetrante: ella era
cheia de graça, o Senhor estava com ella, e passava, bemdita entre as
mulheres, com um rumor de sêdas claras...
Depois, partimos n'um grande coche que tinha as armas do rei, e rolava a
direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavallos
gordos. O snr. Mathias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada,
dizia-me, aqui e além, o nome d'uma povoação aninhada em torno d'uma
velha igreja, na frescura d'um valle. Ao entardecer, por vezes, n'uma
encosta, as janellas d'uma calma vivenda faiscavam com um fulgor d'ouro
novo. O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as arvores;
através dos vidros embaciados eu via luzir a estrella de Venus. Alta
noite tocava uma corneta; e entravamos, atroando as calçadas, n'uma
villa adormecida. Defronte do portão da estalagem moviam-se
silenciosamente lanternas mortiças. Em cima, n'uma sala aconchegada, com
a mesa cheia de talheres, fumegavam as terrinas; os passageiros,
arripiados, bocejavam, tirando as luvas grossas de lã; e eu comia o meu
caldo de gallinha, estremunhado e sem vontade, ao lado do snr. Mathias,
que conhecia sempre algum moço, perguntava pelo doutor delegado, ou
queria saber como iam as obras da camara.
Emfim, n'um domingo de manhã, estando a choviscar, chegámos a um
casarão, n'um largo cheio de lama. O snr. Mathias disse-me que era
Lisboa; e, abafando-me no meu chale-manta, sentou-me n'um banco, ao
fundo d'uma sala humida, onde havia bagagens e grandes balanças de
ferro. Um sino lento tocava á missa; diante da porta passou uma
companhia de soldados, com as armas sob as capas d'oleado. Um homem
carregou os nossos bahús, entrámos n'uma sege, eu adormeci sobre o
hombro do snr. Mathias. Quando elle me poz no chão, estavamos n'um pateo
triste, lageado de pedrinha miuda, com assentos pintados de preto: e na
escada uma moça gorda cochichava com um homem d'opa escarlate, que
trazia ao collo o mealheiro das Almas.
Era a Vicencia, a criada da tia Patrocinio. O snr. Mathias subiu os
degraus conversando com ella, e levando-me ternamente pela mão. N'uma
sala forrada de papel escuro, encontrámos uma senhora muito alta, muito
secca, vestida de preto, com um grilhão d'ouro no peito; um lenço rôxo,
amarrado no queixo, cahia-lhe n'um bioco lugubre sobre a testa; e no
fundo d'essa sombra negrejavam dois oculos defumados. Por traz d'ella,
na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dôres olhava para mim, com o
peito trespassado d'espadas.
--Esta é a titi, disse-me o snr. Mathias. É necessario gostar muito da
titi... É necessario dizer sempre que _sim_ á titi!
Lentamente, a custo, ella baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu
senti um beijo vago, d'uma frialdade de pedra: e logo a titi recuou,
enojada.
--Credo, Vicencia! Que horror! Acho que lhe puzeram azeite no cabello!
Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ella,
murmurei:
--Sim, titi.
Então o snr. Mathias gabou o meu genio, o meu proposito na liteira, a
limpeza com que eu comia a minha sopa á mesa das estalagens.
--Está bem, rosnou a titi seccamente. Era o que faltava, portar-se mal,
sabendo o que eu faço por elle... Vá, Vicencia, leve-o lá para dentro...
Lave-lhe essa ramella, veja se elle sabe fazer o signal da cruz...
O snr. Mathias deu-me dois beijos repenicados. A Vicencia levou-me para
a cozinha.
Á noite vestiram-me o meu fato de velludilho; e a Vicencia, séria,
d'avental lavado, trouxe-me pela mão a uma sala em que pendiam cortinas
de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as columnas
d'um altar. A titi estava sentada no meio do canapé, vestida de sêda
preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anneis.
Ao lado, em cadeiras tambem douradas, conversavam dois ecclesiasticos.
Um, risonho e nedio, de cabellinho encaracolado e já branco, abriu os
braços para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só
«boas noites.» E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um
homemzinho, de cara rapada e collarinhos enormes, comprimentou,
atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.
Cada um d'elles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste
perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava _Tedrico_. O outro,
amoravel, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as
syllabas e dissesse _The-o-do-ri-co_. Depois acharam-me parecido com a
mamã, nos olhos. A titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu
não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes collarinhos fechou o
livro, fechou a luneta, e timidamente quiz saber se eu trazia saudades
de Vianna. Eu murmurei, atordoado:
--Sim, titi.
Então o padre mais idoso e nedio chegou-me para os joelhos,
recommendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre
obediente á titi...
--O Theodorico não tem ninguem senão a titi... É necessario dizer sempre
que _sim_ á titi...
Eu repeti, encolhido:
--Sim, titi.
A titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da bocca. Depois disse-me
que voltasse para a cozinha, para a Vicencia, sempre a seguir pelo
corredor...
--E quando passar pelo oratorio, onde está a luz e a cortina verde,
ajoelhe, faça o seu signalzinho da cruz...
Não fiz o signal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratorio da titi
deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de sêda rôxa, com
paineis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do
Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos
de marfim e de madeira, com aureolas lustrosas, viviam n'um bosque de
violetas e de camelias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar
duas salvas nobres de prata, encostadas á parede, em repouso, como
broqueis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um docel,
Nosso Senhor Jesus Christo era todo d'ouro, e reluzia.
Cheguei-me devagar até junto da almofada de velludo verde, pousada
diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da titi. Ergui para Jesus
crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céo os
anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de
ouro, cravejados talvez de pedras: o seu brilho formava a luz do dia; e
as estrellas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo
através dos véos negros, em que os embrulhava á noite, para dormirem, o
carinho beato dos homens.
Depois do chá, a Vicencia foi-me deitar n'uma alcovinha pegada ao seu
quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mãos, ergueu-me a face
para o céo. E dictou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saude da
titi, pelo repouso da mamã, e por alma d'um commendador que fôra muito
bom, muito santo, e muito rico, e que se chamava Godinho.
* * * * *
Apenas completei nove annos, a titi mandou-me fazer camisas, um fato de
pano preto, e collocou-me, como interno, no collegio dos Isidoros, então
em Santa Isabel.
Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz Chrispim,
mais crescido que eu, filho da firma Telles, Chrispim & C.^a, donos da
fabrica do fiação á Pampulha. O Chrispim ajudava á missa aos domingos;
e, de joelhos, com os seus cabellos compridos e louros, lembrava a
suavidade d'um anjo. Ás vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a
face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; á noite, na
sala, d'estudo, á mesa onde folheavamos os somnolentos diccionarios,
passava-me bilhetinhos a lapis, chamando-me _seu idolatrado_ o
promettendo-me caixinhas de pennas d'aço...
Á quinta-feira era o desagradavel dia de lavarmos os pés. E tres vezes
por semana o sebento padre Soares, vinha, de palito na bocca,
interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor.
--Ora depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caiphás... Olá, o
da pontinha do banco, quem era Caiphás?... Emende! Emende adiante!...
Tambem não! Irra, cabeçudos! Era um judeu o dos peores... Ora diz que,
lá n'um sitio muito feio da Judêa, ha uma arvore toda d'espinhos, que é
mesmo d'arripiar...
A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e d'estalo, fechavamos a
cartilha.
O tristonho pateo de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa
da visinhança das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar
uma fumaça do cigarro, ás escondidas, n'uma sala terrea onde aos
domingos o mestre de dansa, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos
decotados, nos ensinava mazurkas.
Cada mez a Vicencia, de capote e lenço, me vinha buscar depois da missa,
para ir passar um domingo com a titi. Isidoro Junior, antes de eu sair,
examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia
d'elle, dava-me uma ensaboadella furiosa, chamando-me baixo _sebento_.
Depois trazia-me até á porta, fazia-me uma caricia, tratava-me de seu
_querido amiguinho_, e mandava pela Vicencia os seus respeitos á snr.^a
D. Patrocinio das Neves.
Nós moravamos no Campo de Sant'Anna. Ao descer o Chiado, eu parava n'uma
loja de estampas, diante do languido quadro d'uma mulher loura, com os
peitos nús, recostada n'uma pelle de tigre, e sustentando na ponta dos
dedos, mais finos que os do Chrispim, um pesado fio de perolas. A
claridade d'aquella nudez fazia-me pensar na ingleza do snr. barão: e
esse aroma, que tanto me perturbára no corredor da estalagem,
respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua cheia de sol, pelas
sêdas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e
graves.
A titi, em casa, estendia-me a mão a beijar: e toda a manhã eu ficava
folheando volumes do _Panorama Universal_, na saleta d'ella, onde havia
um sofá de riscadinho, um armario rico de pau preto, e lithographias
coloridas, com ternas passagens da vida purissima do seu favorito santo,
o patriarcha S. José. A titi, de lenço rôxo carregado para a testa,
sentada á janella por dentro dos vidros, com os pés embrulhados n'uma
manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas.
Ás tres horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do lenço
começava a perguntar-me doutrina. Dizendo o _Credo_, desfiando os
_Mandamentos_, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e
adocicado a rapé e a formiga.
Aos domingos vinham jantar comnosco os dois ecclesiasticos. O de
cabellinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da titi:
dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar _arbor arboris, currus
curri_; proclamava-me com affecto «talentaço.» E o outro ecclesiastico
elogiava o collegio dos Isidoros, formosissimo estabelecimento de
educação, como não havia nem na Belgica. Esse chamava-se padre Pinheiro.
Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por
diante d'um espelho, deitava a lingua de fóra, e alli se esquecia a
estical-a, a estudal-a, desconfiado e aterrado.
Ao jantar o padre Casimiro gostava de vêr o meu appetite.
--Vai mais um bocadinho da vitellinha guisada? Rapazes querem-se alegres
e bem comidos!...
E padre Pinheiro, palpando o estomago:
--Felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitella!
Elle e a titi fallavam então de doenças. Padre Casimiro, córadinho, com
o guardanapo atado ao pescoço, o prato cheio, o copo cheio, sorria
beatificamente.
Quando, na praça, entre as arvores, começavam a luzir os candieiros de
gaz, a Vicencia punha o seu chale velho de xadrez e ia levar-me ao
collegio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada
e vastos collarinhos, que era o snr. José Justino, secretario da
confraria de S. José, e tabellião da titi, com cartorio a S. Paulo. No
pateo, tirando já o seu paletot, fazia-me uma festa no queixo, e
perguntava á Vicencia pela saude da snr.^a D. Patrocinio. Subia; nós
fechavamos o pesado portão. E eu respirava consoladamente--porque me
entristecia aquelle casarão com os seus damascos vermelhos, os santos
innumeraveis, e o cheirinho a capella.
Pelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis
annos, da Misericordia. Assim eu fui sabendo que ella padecia do figado;
tinha sempre muito dinheiro em ouro n'uma bolsa de sêda verde; e o
commendador Godinho, tio d'ella e da minha mamã, deixára-lhe duzentos
contos em predios, em papeis, e a quinta do _Mosteiro_ ao pé de Vianna,
e pratas e louças da India... Que rica que era a titi! Era necessario
ser bom, agradar sempre á titi!
Á porta do collegio a Vicencia dizia «Adeus, amorzinho,» e dava-me um
grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu
pensava na Vicencia, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e
brancos como leite. E assim, foi nascendo no meu coração, pudicamente,
uma paixão pela Vicencia.
Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio _lambisgoia_.
Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um
murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Chrispim sahira dos
Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela
Vicencia desappareceu um dia, insensivelmente, como uma flôr que se
perde na rua.
E os annos assim foram passando: pelas vesperas de Natal accendia-se um
brazeiro no refeitorio, eu envergava o meu casacão forrado de baeta e
ornado d'uma gola d'astrakan; depois chegavam as andorinhas aos beiraes
do nosso telhado, e no oratorio da titi, em lugar de camelias, vinham
braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés d'ouro de Jesus;
depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava á titi
um gigo d'uvas da sua quinta de Torres... Eu comecei a estudar
rhetorica.
* * * * *
Um dia o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os
Isidoros, indo acabar os meus preparatorios em Coimbra, na casa do dr.
Rôxo, lente de Theologia. Fizeram-me roupa branca. A titi deu-me n'um
papel a oração que eu diariamente devia rezar a S. Luiz Gonzaga,
padroeiro da mocidade estudiosa, para que elle conservasse em meu corpo
a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre
Casimiro foi-me levar á cidade graciosa onde dormita Minerva.
Detestei logo o dr. Rôxo. Em sua casa soffri vida dura e claustral; e
foi um ineffavel gosto quando, no meu primeiro anno de Direito, o
desagradavel ecclesiastico morreu miseravelmente d'um anthraz. Passei
então para a divertida hospedagem das Pimentas--e conheci logo, sem
moderação, todas as independencias, e as fortes delicias da vida. Nunca
mais rosnei a delambida oração a S. Luiz Gonzaga, nem dobrei o meu
joelho viril diante de imagem benta que usasse aureola na nuca;
embebedei-me com alarido nas Camellas; affirmei a minha robustez
esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carne com
saborosos amores no Terreiro da Herva; vadiei ao luar, ganindo fados;
usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho
a alcunha de _Raposão_. Todos os quinze dias porém escrevia á titi, na
minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a
severidade dos meus estudos, o recato dos meus habitos, as copiosas
rezas e os rigidos jejuns, os sermões de que me nutria, os dôces
desaggravos ao Coração de Jesus á tarde, na Sé, e as novenas com que
consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados...
Os mezes de verão em Lisboa eram depois dolorosos. Não podia sahir,
mesmo a espontar o cabello, sem implorar da titi uma licença servil. Não
ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente á noitinha: e antes
de me deitar tinha de rezar com a velha um longo terço no oratorio. Eu
proprio me condemnára a esta detestavel devoção!
--Tu lá nos estudos costumas fazer o teu terço? perguntára-me, com
seccura, a titi.
E eu, sorrindo abjectamente:
--Ora essa! É que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico
terço!...
Aos domingos continuavam as partidas. O padre Pinheiro, mais triste,
queixava-se agora do coração, e um pouco tambem da bexiga. E havia outro
commensal, velho amigo do commendador Godinho, fiel visita das Neves, o
Margaride, o que fôra delegado em Vianna, depois juiz em Mangualde. Rico
por morte de seu mano Abel, secretario da Camara Patriarchal, o doutor
aposentára-se, farto dos autos, e vivia em ocio, lendo os periodicos,
n'um predio seu na Praça da Figueira. Como conhecêra o papá, e muitas
vezes o acompanhará ao _Mosteiro_, tratou-me logo com authoridade e por
_você_.
Era um homem corpulento e solemne, já calvo, com um carão livido, onde
destacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Raras
vezes penetrava na sala da titi sem atirar, logo da porta, uma noticia
pavorosa. «Então, não sabem? Um incendio medonho, na Baixa!» Apenas uma
fumaraça n'uma chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, n'um sombrio
accesso d'imaginação, compuzera duas tragedias; e d'ahi lhe ficára este
gosto morbido d'exagerar e d'impressionar. «Ninguem como eu, dizia elle,
saborêa o grandioso...»
E, sempre que aterrava a titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma
pitada.
Eu gostava do dr. Margaride. Camarada do papá em Vianna, muitas vezes
lhe ouvira cantar, ao violão, a xacara do conde Ordonho. Tardes inteiras
vagueára com elle poeticamente, pela beira da agua, no _Mosteiro_,
quando a mamã fazia raminhos silvestres á sombra dos amieiros. E
mandou-me as amendoas mal eu nasci, á noitinha, em sexta-feira de
Paixão. Além d'isso, mesmo na minha presença, elle gabava francamente á
titi o meu intellecto, e a circumspecção dos meus modos.
--O nosso Theodorico, D. Patrocinio, é moço para deleitar uma tia... V.
exc.^a, minha rica senhora, tem aqui um Telemaco!
Eu córava, modesto.
Ora foi justamente passeando com elle no Rocio, n'um dia d'agosto, que
eu conheci um parente nosso, afastado, primo do commendador G. Godinho.
O dr. Margaride apresentou-m'o, dizendo apenas:--«o Xavier, teu primo,
moço de grandes dotes.» Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que
fôra galante e desbaratára furiosamente trinta contos, herdados de seu
pai, dono d'uma cordoaria em Alcantara. O commendador G. Godinho, mezes
antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade á
secretaria da Justiça, com vinte mil reis por mez. E o Xavier agora
vivia com uma hespanhola chamada Carmen, e tres filhos d'ella, n'um
casebre da rua da Fé.
Eu fui lá n'um domingo. Quasi não havia moveis; a bacia da cara, a
unica, estava entalada no fundo rôto da palhinha d'uma cadeira. O Xavier
toda a manhã deitára escarros de sangue pela bocca. E a Carmen,
despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fustão manchada de
vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma criança embrulhada n'um
trapo e com a cabecinha coberta de feridas.
Immediatamente o Xavier, tratando-me por _tu_, fallou-me da tia
Patrocinio... Era a sua esperança, n'aquella sombria miseria, a tia
Patrocinio! Serva de Jesus, proprietaria de tantos predios, ella não
podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se alli n'aquelle casebre,
sem lençoes, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar
por pão. Que custava á tia Patrocinio estabelecer-lhe, como já fizera o
Estado, uma mesadinha de vinte mil reis?
--Tu é que lhe devias fallar, Theodorico! Tu é que lhe devias dizer...
Olha essas crianças. Nem meias teem... Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao
tio Theodorico. Que comeste hoje ao almoço?... Um bocado de pão
d'hontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida,
Theodorico! Olha que é duro, menino!
Enternecido, prometti fallar á titi.
Fallar á titi! Eu nem ousaria contar á titi que conhecia o Xavier, e que
entrava n'esse casebre impuro onde havia uma hespanhola, emmagrecida no
peccado.
E para que elles não percebessem o meu ignobil terror da titi, não
voltei á rua da Fé.
No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo
dr. Barroso que o primo Xavier, quasi a morrer, me queria fallar em
segredo.
Fui lá, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A Concha, na
cozinha, conversava por entre soluços com outra hespanhola, magrita, de
mantilha preta e corpetesinho triste de setim côr de cereja. Os
pequenos, no chão, rapavam um tacho d'açorda. E na alcova o Xavier,
enrodilhado n'um cobertor, com a bacia da cara ao lado, cheia de
escarros de sangue, tossia, despedaçadamente:
--És tu, rapaz?
--Então que é isso, Xavier?
Elle exprimiu, n'um termo obsceno, que estava perdido. E estirando-se de
costas, com um brilho secco nos olhos, fallou-me logo da titi.
Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o coração: a fera não
respondera. E, agora, ia mandar para o _Jornal de Noticias_ um annuncio,
a pedir uma esmola, assignando «Xavier Godinho, primo do rico
commendador G. Godinho.» Queria vêr se D. Patrocinio das Neves deixaria
um parente, um Godinho, mendigar assim, publicamente, na pagina d'um
jornal.
--Mas é necessario que tu me ajudes, rapaz, que a enterneças! Quando
ella lêr o annuncio, conta-lhe esta miseria! Desperta-lhe o brio.
Dize-lhe que é uma vergonha vêr morrer ao abandono um parente, um
Godinho. Dize-lhe que já se rosna! Olha, se hoje pude tomar um caldo, é
que essa rapariga, a Lolita, que está em casa da Benta Bexigosa, nos
trouxe ahi quatro corôas... Vê tu a que eu cheguei!
Ergui-me, commovido.
--Conta commigo, Xavier.
--Olha, se tens ahi cinco tostões que te não façam falta, dá-os á
Concha.
Dei-lh'os a elle: e sahi, jurando-lhe que ia fallar á titi,
solemnemente, em nome dos Godinhos e em nome de Jesus!
Depois do almoço, ao outro dia, a titi, de palito na bocca, e vagarosa,
desdobrou o _Jornal de Noticias_. E decerto achou logo o annuncio do
Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da terceira pagina onde
elle negrejava, afflictivo, vergonhoso, medonho.
Então pareceu-me vêr, voltados para mim, lá do fundo nú do casebre, os
olhos afflictos do Xavier; a face amarella da Concha, lavada de
lagrimas; as pobres mãosinhas dos pequenos, magras, á espera da côdea de
pão... E todos aquelles desgraçados anciavam pelas palavras que eu ia
lançar á titi, fortes, tocantes, que os deviam salvar, e dar-lhes o
primeiro pedaço de carne d'aquelle verão de miseria. Abri os labios. Mas
já a titi, recostando-se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz:
--Que se aguente... É o que succede a quem não tem temor de Deus e se
mette com bebedas... Não tivesse comido tudo em relaxações... Cá para
mim, homem perdido com saias, homem que anda atraz de saias, acabou...
Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que
tambem Nosso Senhor Jesus Christo padeceu!
Baixei a cabeça, murmurei:
--E ainda nós não padecemos bastante... Tem a titi razão. Que se não
mettesse com saias!
Ella ergueu-se, deu as graças ao Senhor. Eu fui para o meu quarto,
fechei-me lá, a tremer, sentindo ainda regeladas e ameaçadoras, as
palavras da titi, para quem os homens «acabavam quando se mettiam com
saias.» Tambem eu me mettera com saias, em Coimbra, no Terreiro da
Herva! Alli, no meu bahú, tinha eu documentos do meu peccado, a
photographia da Thereza dos Quinze, uma fita de sêda, e uma carta
d'ella, a mais dôce, em que me chamava «unico affecto da sua alma» e me
pedia dezoito tostões! Eu cosera essas reliquias dentro do fôrro d'um
collete de pano, receando as incessantes rebuscas da titi, por entre a
minha roupa intima. Mas lá estavam, no bahú de que ella guardava a
chave, dentro do collete, fazendo uma dureza de cartão que qualquer dia
poderiam palpar os seus dedos desconfiados... E eu acabava logo para a
titi!
Abri devagarinho o bahú, descosi o fôrro, tirei a carta deliciosa da
Thereza, a fita que conservára o aroma da sua pelle, e a sua
photographia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade, queimei
tudo, amabilidades e feições: e sacudi desesperadamente para o saguão as
cinzas da minha ternura.
N'essa semana não ousei voltar á rua da Fé. Depois, um dia que
choviscava, fui lá, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-chuva. Um
visinho, vendo-me espreitar de longe as janellas negras e mortas do
casebre, disse-me que o snr. Godinho, coitado, fôra para o hospital
n'uma maca.
Desci, triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepusculo
humido, tendo roçado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente
o meu nome de Coimbra, lançado com alegria.
--Oh, Raposão!
Era o Silverio, por alcunha o _Rinchão_, meu condiscipulo, e companheiro
de casa das Pimentas. Estivera passando esse mez no Alemtejo, com seu
tio, ricaço illustre, o barão d'Alconchel. E agora, de volta, ia vêr uma
Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, n'uma casa côr de
rosa, com roseirinhas á varanda.
--Queres tu vir cá um bocado, ó Raposão? Está lá outra rapariga bonita,
a Adelia... Tu não conheces a Adelia? Então que diabo, vem vêr a
Adelia... É um mulherão!
Era, um domingo, noite de partida da titi; eu devia recolher
religiosamente ás oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinchão fallou
da brancura dos braços da Adelia: e eu comecei a caminhar ao lado do
Rinchão, enfiando as luvas pretas.
Munidos d'um cartucho de pasteis e de uma garrafa de Madeira,
encontrámos a Ernestina a coser um elastico nas suas botinas de duraque.
E a Adelia, estendida no sofá, de chambre e em saia branca, com os
chinelos cahidos no tapete, fumava um cigarro languido. Eu sentei-me ao
lado d'ella, commovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos.
Só quando o Silverio e Ernestina correram dentro á cozinha, abraçados, a
buscar copos para o Madeira, ousei perguntar á Adelia, córando:
--Então a menina d'onde é?
Era de Lamego. E eu, novamente acanhado, só pude gaguejar que era
tristonho aquelle tempo de chuva. Ella pediu-me outro cigarro,
cortezmente, dizendo-me--o _cavalheiro_. Apreciei estes modos. As mangas
largas do seu roupão, escorregando descobriam braços tão brancos e
macios que entre elles a Morte mesma deveria ser deleitosa.
Fui eu que lhe offereci o prato onde a Ernestina collocára os pasteis.
Ella quiz saber o meu nome. Tinha um sobrinho que tambem se chamava
Theodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu
coração, enrodilhar-se no meu.
--Porque é que o cavalheiro não põe o guarda-chuva alli a um canto?
disse-me ella, rindo.
O brilho picante dos seus dentinhos miudos fez desabrochar dentro em mim
uma flôr de madrigal.
--É para não me tirar d'aqui d'ao pé da menina nem um instantinho que
seja.
Ella fez-me uma cocega lenta no pescoço. Eu, aboborado de gôzo, bebi o
resto do Madeira que ella deixára no calice.
A Ernestina, poetica, e cantando o _fado_, aninhou-se nos joelhos do
Rinchão. Então a Adelia, revirando-se languidamente, puxou-me a face--e
os meus labios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido,
mais profundo que até ahi abalára o meu sêr.
N'esse dôce instante, um relogio medonho, com o mostrador fingindo uma
face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o marmore d'uma mesa do
mogno, d'entre dois vasos sem flôres, começou a dar dez, horas, fanhoso,
ironico, pachorrento.
Jesus! era a hora do chá em casa da titi! Com que terror eu trepei,
esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as viellas escuras e
infindaveis que levam ao Campo de Sant'Anna! Em casa, nem tirei as botas
enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de
damasco, os oculos da titi, mais negros, assanhados, esperando por mim e
fuzilando. Ainda balbuciei:
--Titi...
Mas já ella gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos.
--Relaxações em minha casa não admitto! Quem quizer viver aqui ha de
estar ás horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, emquanto eu
fôr viva! E quem não lhe agradar, rua!
Sob a rajada estridente da indignação da snr.^a D. Patrocinio, padre
Pinheiro e o tabellião Justino tinham dobrado a cabeça embaçados. O dr.
Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu
pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como
sacerdote, como procurador, influente e suave.
--D. Patrocinio tem razão, tem muita razão em querer ordem em casa...
Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no
Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios...
Exclamei amargamente:
--Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No
convento da Encarnação! É verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia
lá buscar a irmã. Hoje era festa, a irmã tinha ido passar o dia com uma
tia, uma commendadeira... Estivemos á espera, a passear no pateo... A
irmã vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do
apaixonada que ella está... Eu morto por me safar, mas com ceremonia do
rapaz, que é sobrinho do barão d'Alconchel... E elle zás, zás, a fallar
da irmã, e do namoro, e das cartas...
A tia Patrocinio uivou de furor.
--Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa
para o pateo d'uma casa de religião! Cala-te, alma perdida, que até
devias ter vergonha!... E fique entendendo! Para outra vez que venha a
estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão...
Então o dr. Margaride estendeu a mão pacificadora e solemne:
--Está tudo explicado! O nosso Theodorico foi imprudente, mas o sitio
onde esteve é respeitavel... E eu conheço o barão d'Alconchel. É um
cavalheiro da maior circumspecção, e um dos mais abastados do
Alemtejo... Talvez mesmo um dos mais ricos proprietarios de Portugal...
O mais rico, direi!... Mesmo lá fóra não haverá fortuna territorial que
lhe exceda. Nem que se lhe compare!... Só em porcos! Só em cortiça!
Centenares de contos! milhões!
Erguera-se; o seu vozeirão empolado rolava serras d'ouro. E o bom
Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:
--Tome o seu chásinho, Theodorico, vá tomando o seu chásinho. E creia
que a tia não deseja senão o seu bem...
Puxei, com a mão a tremer, a minha chavena de chá: e, remexendo
desfallecidamente o fundo d'assucar, pensava em abandonar para sempre a
casa d'aquella velha medonha que assim, me ultrajava diante da
Magistratura e da Igreja, sem consideração pela barba que me começava a
nascer, forte, respeitavel e negra.
Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do commendador G.
Godinho. Eu via-as, macissas e resplandecentes, diante de mim: o grande
bule terminando em bico de pato; o assucareiro cuja aza tinha a fórma
d'uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil em figura de macho trotando
sob os seus alforges. E tudo pertencia á titi. Que rica que era a titi!
Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!...
Por isso, mais tarde, quando ella penetrou no oratorio para cumprir o
terço, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martellando o peito, e
supplicando ao Christo de ouro que me perdoasse ter offendido a titi.
* * * * *
Um dia emfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor mettidas
n'um canudo de lata. A titi examinou-as reverente, achando um sabor
ecclesiastico ás linhas em latim, ás paramentosas fitas vermelhas, e ao
sêllo dentro do seu relicario.
--Está bom, disse ella, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves, vê
não lhe faltes...
Corri logo ao oratorio, com o canudo na mão, agradecer ao Christo de
ouro o meu glorioso grau de bacharel.
Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba, que agora
tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e
a esfregar as mãos.
--Boa nova vos trago aqui, snr. doutor Theodorico!...
E depois de me acariciar, segundo o seu affectuoso costume, com
palmadinhas dôces nos rins, o santo procurador revelou-me que a titi,
satisfeita commigo, decidira comprar-me um cavallo para eu dar honestos
passeios, e espairecer por Lisboa.
--Um cavallo! Oh, padre Casimiro!
Um cavallo. E além d'isso, não querendo que seu sobrinho, já barbado, já
letrado, soffresse um vexame, por lhe faltar ás vezes um troco para
deitar na salva de Nossa Senhora do Rosario, a titi estabelecia-me uma
mezada de tres moedas.
Abracei com calor o padre Casimiro. E desejei saber se a amoravel
intenção da titi era que eu não tivesse outra occupação além de cavalgar
por Lisboa, e lançar pratinhas na salva de Nossa Senhora.
--Olhe, Theodorico, eu parece-me que a titi não quer que você tenha
outro mister senão temer a Deus... O que lhe digo é que o amigo vai
passal-a boa e regalada... E agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e
diga-lhe uma coisinha mimosa.
Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do patriarcha
S. José, a titi, sentada a um canto do sofá de riscadinho, fazia meia,
com um chale de Tonkin pelos hombros.
--Titi, murmurei eu encolhido, venho aqui agradecer...
--Está bom, vai com Deus.
Então, devotamente, beijei-lhe a franja do chale. A titi gostou. Eu fui
com Deus.
Começou d'ahi, farta e regalada, a minha existencia de sobrinho da
snr.^a D. Patrocinio das Neves. Ás oito horas, pontualmente, vestido de
preto, ia com a titi á igreja de Sant'Anna, ouvir a missa do padre
Pinheiro. Depois d'almoço, tendo pedido licença á titi, e rezadas no
oratorio tres _Gloria Patri_ contra as tentações, sahia a cavallo, de
calça clara. Quasi sempre a titi me dava alguma incumbencia beata:
passar em S. Domingos, e dizer a oração pelos tres santos martyres do
Japão; entrar na Conceição Velha, e fazer o acto de desaggravo pelo
Sagrado Coração de Jesus...
E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar estes ternos
recados que ella mandava a casa do Senhor.
Mas era este o momento desagradavel do meu dia: ás vezes, ao sahir,
surrateiro, do portão da igreja, topava com algum condiscipulo
republicano, dos que me acompanhavam em Coimbra, nas tardes de
procissão, chasqueando o Senhor da Cana Verde.
--Oh, Raposão! pois tu agora...
Eu negava, vexado:
--Ora essa! Não me faltava mais nada! Sou mesmo lá de carolices... Qual!
entrei aqui por causa d'uma rapariga... Adeus, tenho a egua á espera.
Montava--e de luva preta, a perna bem collada á sella, um botãosinho de
camelia no peito, ia caracolando, em ocio e luxo, até ao largo do
Loreto. Outras vezes deixava a egua no Arco do Bandeira, e gozava uma
manhã regalada no bilhar do Montanha.
Antes do jantar, em chinelas, no oratorio com a titi, eu fazia a
jaculatoria a S. José, aio de Jesus, custodio de Maria e amorosissimo
patriarcha. Á mesa, adornada apenas por compoteiras de doce de calda em
torno d'uma travessa d'aletria, eu contava á titi o meu passeio, as
igrejas em que me deleitára, e quaes os altares alumiados. A Vicencia
escutava com devoção, perfilada no seu lugar costumado, entre as duas
janellas, onde um retrato de nosso santo padre Pio IX enchia a tira de
parede verde, tendo por baixo, pendente d'um cordão, um velho oculo
d'alcance, reliquia do commendador G. Godinho. Depois do café a titi,
lentamente, cruzava os braços; e o seu carão sumia-se, dormente e
pesado, na sombra do lenço rôxo.
Eu ia enfiar as botas; e, authorisado agora por ella a recrear-me fóra
de casa até ás nove e meia, corria ao fim da rua da Magdalena, ao pé do
largo dos Caldas. Ahi, com resguardo, encolhido na gola do meu
sobretudo, cosido com o muro, como se o candieiro de gaz que alli havia
fosse o olho inexoravel da titi--penetrava sofregamente na escadinha da
Adelia...
Sim, da Adelia! Porque nunca mais me esquecera, desde a noite em que o
_Rinchão_ me levou ao Salitre, o beijo que ella me dera, languida e
branca, sobre o sofá. Em Coimbra procurára mesmo fazer-lhe versos: e
esse amor dentro do meu peito foi no ultimo anno de Universidade, no
anno de Direito ecclesiastico, como um maravilhoso lirio que ninguem via
e que perfumava a minha vida... Apenas a titi me estabeleceu a mezada
das tres moedas, corri em triumpho ao Salitre; lá havia as roseirinhas á
janella, mas a Adelia já lá não estava. E foi ainda o prestante
_Rinchão_ que me mostrou esse primeiro andar, junto ao largo dos Caldas,
onde ella agora vivia patrocinada por Eleuterio Serra, da firma Serra
Brito & C.^a, com loja de fazendas e moelas na Conceição Velha.
Mandei-lhe uma carta ardente e séria, pondo reverentemente no alto:
«Minha senhora.» Ella respondeu, com dignidade:--«O cavalheiro póde vir
aqui ao meio dia.» Levei-lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate,
atada com uma fita de sêda azul: pizando commovido a esteira nova da
sala, eu antevia, pela engommada brancura das bambinellas, a frescura
das suas saias; e o rigido alinho dos moveis revelava-me a rectidão dos
seus sentimentos. Ella entrou, um pouco constipada, com um chale
vermelho pelos hombros. Reconheceu logo o amigo do _Rinchão_; fallou da
Ernestina, com severidade, chamando-lhe «porcalhona.» E a sua voz
enrouquecida, o seu defluxo, davam-me o desejo de a curar nos meus
braços, d'um longo dia d'agasalho e somnolencia, sob o peso dos
cobertores, na penumbra molle da sua alcova. Depois ella quiz saber se
eu era empregado ou estava no commercio... Eu contei-lhe com orgulho a
riqueza da titi, os seus predios, as suas pratas. Disse-lhe, com as suas
mãos grossas presas nas minhas:
--Se a titi agora rebentasse, eu é que lhe punha á menina uma casa chic!
Ella murmurou, banhando-me todo na negra doçura do seu olhar:
--Ora! o cavalheiro, se apanhasse o bago, não se importava mais commigo!
Ajoelhei sobre a esteira, tremulo, esmagando o peito contra os seus
joelhos, offertando-me como uma rez; ella abriu o seu chale, aceitou-me
misericordiosamente.
Agora, á noitinha (emquanto Eleuterio, no club da rua Nova do Carmo,
jogava a manilha) eu tinha alli na alcova da Adelia a radiante festa da
minha vida. Levára para lá um par de chinelas--era o eleito do seu seio.
Ás nove e meia, despenteada, envolta á pressa n'um roupão de flanella,
com os pés nús, acompanhava-me pela escadinha de traz, colhendo em cada
degrau, nos meus labios, um beijo lento e saudoso.
--Adeus, Délinha!
--Agasalha-te, riquinho!
E eu recolhia devagar ao campo de Sant'Anna, ruminando o meu gozo!
O verão passou, languidamente. Os primeiros ventos d'outono levaram as
andorinhas e as folhagens do campo de Sant'Anna: e logo n'esse outubro,
de repente, a minha vida se tornou mais facil, mais larga. A titi
mandára-me fazer uma casaca; e eu estreei-a, com permissão d'ella, indo
ouvir a S. Carlos o _Poliuto_--opera que o dr. Margaride recommendára,
como «repassada de sentimentos religiosos e cheia de elevada lição.» Fui
com elle, de luvas brancas, frizado. Depois, no outro dia, ao almoço,
contei á titi o devoto enredo, os idolos derrubados, os canticos, as
fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo velludo vestia a
rainha.
--E sabe quem me veio fallar, titi? O barão d'Alconchel, o ricaço, tio
d'aquelle rapaz que foi meu condiscipulo. Veio apertar-me a mão, esteve
um bocado commigo no salão... Tratou-me com muita consideração.
A titi gostou d'esta consideração.
Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me do nedio
decote d'uma senhora immodesta, núa nos braços, núa no peito, mostrando
toda essa carne, esplendida e irreligiosa, que é a desolação do justo e
a angustia da Igreja.
--Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a titi, estava com nojo!
A titi gostou d'este nojo.
E passados dias, depois do café, quando eu me dirigia, ainda de
chinelas, ao oratorio, a fazer uma curta petição ás chagas do nosso
Christo d'ouro--a titi, já de braços cruzados e somnolenta, disse-me
d'entre a sombra do lenço:
--Está bom, se queres, volta hoje a S. Carlos... E lá quando te
appetecer, não te acanhes, tens licença, pódes ir gozar um bocado de
musica... Agora que estás um homem, e que parece que tens proposito, não
me importa que fiques fóra, até ás onze ou onze e meia... Em todo o caso
a essa hora quero estar já de porta fechada, e tudo prompto, para
começarmos o terço.
Ella não viu o triumphante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei,
requebrado, a babar-me de gosto devoto:
--Lá o terço, titi, lá o meu querido terço não perdia eu, nem pelo maior
divertimento... Nem que el-rei me convidasse para um chásinho no paço!
Corri, delirante, a enfiar a casaca. E este foi o começo d'essa anhelada
liberdade que eu conquistára laboriosamente, vergando o espinhaço diante
da titi, macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem vinda, agora
que Eleuterio Serra partira para Paris, fazer os seus fornecimentos, e
deixára a Adelia só, solta, bella, mais jovial, mais fogosa!
Sim, decerto, eu ganhára a confiança da titi com os meus modos pontuaes,
sisudos, servis e beatos! Mas o que a levára a alargar assim, com
generosidade, as minhas horas de honesto recreio, fôra (como ella disse
confidencialmente ao padre Casimiro) a certeza de que eu «me portava com
religião e não andava atraz de saias.»
Porque para a tia Patrocinio todas as acções humanas, passadas por fóra
dos portaes das igrejas, consistiam em _andar atraz de calças_ ou _andar
atraz de saias_:--e ambos estes dôces impulsos naturaes lhe eram
igualmente odiosos!
Donzella, e velha, e resequida como um galho de sarmento; não tendo
jámais provado na livida pelle senão os bigodes do commendador G.
Godinho, paternaes e grisalhos; resmungando incessantemente, diante de
Christo nú, essas jaculatorias das _Horas de piedade_, soluçantes de
amor divino--a titi entranhára-se, pouco a pouco, d'um rancor invejoso e
amargo a todas as fórmas e a todas as graças do amor humano.
E não lhe bastava reprovar o amor como coisa profana: a snr.^a D.
Patrocinio das Neves fazia uma carantonha, e varria-o como coisa suja.
Um moço grave, amando sériamente, era para ella «uma porcaria!» Quando
sabia d'uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado,
rosnava--«que nojo!» E quasi achava a Natureza obscena por ter creado
dois sexos.
Rica, apreciando o conforto, nunca quizera em casa um escudeiro--para
que não houvesse na cozinha, nos corredores, _saias a roçar com calças_.
E apesar de irem embranquecendo os cabellos da Vicencia, de ser
decrepita e gaga a cozinheira, de não ter dentes a outra criada chamada
Eusebia, andava-lhes sempre remexendo desesperadamente nos bahús, e até
na palha dos enxergões, a vêr se descobria photographia d'homem, carta
d'homem, rasto d'homem, cheiro d'homem.
Todas as recreações moças; um passeio gentil com senhoras, em burrinhos;
um botão de rosa orvalhado offerecido na ponta dos dedos; uma decorosa
contradança em jucundo dia de Paschoa; outras alegrias, ainda mais
candidas, pareciam á titi perversas, cheias de sujidade, e chamava-lhes
_relaxações_. Diante d'ella já os sisudos amigos da casa não ousavam
mencionar d'essas emoventes historias, lidas nas gazetas, e em que
transparecem motivos d'amor--porque isso a escandalisava como o
desbragamento de uma nudez.
--Padre Pinheiro! gritou ella um dia furiosa, com os oculos chammejantes
para o desventuroso ecclesiastico, ao ouvil-o narrar d'uma criada que em
França atirára o filho á sentina. Padre Pinheiro! Faça favor de me
respeitar... Não é lá pela latrina! É pela outra porcaria!
Mas era ella propria que sem cessar alludia a desvarios e a peccados da
Carne--para os vituperar, com odio: atirava então o novello de linha
para cima da mesa, espetando-lhe raivosamente as agulhas de meia--como
se trespassasse alli, tornando-o para sempre frio, o vasto e inquieto
coração dos homens. E quasi todos os dias, com os dentes rilhados,
repetia (referindo-se a mim) que se uma pessoa do seu sangue, e que
comesse o seu pão, andasse atraz de saias, ou se désse a relaxações,
havia d'ir para a rua, escorraçado a vassoura, como um cão.
Por isso agora as minhas precauções eram tão apuradas que, para evitar
me ficasse na roupa ou na pelle o delicioso cheiro da Adelia, eu trazia
na algibeira bocados soltos d'incenso. Antes de galgar a triste
escadaria de casa, penetrava subtilmente na cavalhariça deserta, ao
fundo do pateo; queimava no tampo d'uma barrica vazia um pedaço da
devota resina; e alli me demorava, expondo ao aroma purificador as abas
do jaquetão e as minhas barbas viris... Depois subia; e tinha a
satisfação de vêr logo a titi farejar, regalada:
--Jesus, que rico cheirinho a igreja!
Modesto, e com um suspiro, eu murmurava:
--Sou eu, titi...
Além d'isso, para melhor a persuadir «da minha indifferença por saias,»
colloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida, uma carta com
sêllo--certo que a religiosa D. Patrocinio, minha senhora e tia, a
abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escripta por mim a um
condiscipulo d'Arrayollos; e dizia, em letra nobre, estas cousas
edificantes: «Saberás que fiquei de mal com o Simões, o de philosophia,
por elle me ter convidado a ir a uma casa deshonesta. Não admitto
d'estas offensas. Tu lembras-te bem como já em Coimbra eu detestava taes
relaxações. E parece-me ser uma grandissima cavalgadura aquelle que, por
causa d'uma distracção que é _fogo-viste-linguiça_, se arrisca a penar,
por todos os seculos e seculos, amen, nas fogueiras de Satanaz, salvo
seja! Ora n'uma d'essas refinadissimas asneiras não é capaz de cahir o
teu do C.--_Raposo_.»
A titi leu, a titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizia-lhe
que ia ouvir a _Norma_, beijava com unção os ossos dos seus dedos;--e
corria, ao largo dos Caldas, á alcova da Adelia, a afundar-me
perdidamente nas beatitudes do Peccado. Alli, á meia luz que dava
através da porta envidraçada o candieiro de petroline da sala, os
cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam brancuras
celestes de nuvem; o cheiro dos pós d'arroz excedia em doçura o olor dos
junquilhos mysticos; eu estava no céo, eu era S. Theodorico; e sobre os
hombros nús da minha amada desenrolavam-se as madeixas do seu cabello
negro, forte e duro como a cauda d'um corcel de guerra.
N'uma d'essas noites, eu sahia d'uma confeitaria do Rocio, de comprar
trouxas d'ovos para levar á minha Adelia--quando encontrei o dr.
Margaride que me annunciou, depois do seu abraço paternal, que ia a S.
Carlos vêr o _Propheta_.
--E você, vejo-o de casaca, naturalmente tambem vem...
Fiquei varado. Com effeito vestira a casaca, dissera á titi que ia gozar
o _Propheta_, opera de tanta virtude como uma santa instrumental
d'igreja... E agora tinha de soffrer o _Propheta_, deveras, entalado
n'uma cadeira da Geral, roçando o joelho do douto magistrado--em vez de
preguiçar n'um colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o
seu docinho d'ovos.
--Sim, com effeito, tambem eu ia d'aqui para o _Propheta_, murmurei
aniquilado. Diz que é uma musicasinha de muita virtude... A titi gostou
muito que eu viesse.
Com o meu inutil cartucho de trouxas d'ovos, lá fui subindo,
melancolicamente, ao lado do dr. Margaride, a rua Nova do Carmo.
Occupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com
tons d'ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adelia, e no
desalinho das suas saias--quando reparei que d'uma friza ao lado uma
senhora loura e madura, uma Ceres outonal, vestida de sêda côr de palha,
voltava para mim, a cada dôce arcada das rebecas, os seus olhos claros e
sérios.
Perguntei logo ao dr. Margaride se conhecia aquella dama «que eu
costumava encontrar ás sextas na igreja da Graça, visitando o Senhor dos
Passos, com uma devoção, um fervor...»
--O sujeito que está por traz, a abrir a bocca, é o visconde de Souto
Santos. E ella ou é a mulher, a viscondessa de Souto Santos, ou a
cunhada, a viscondessa de Villar-o-Velho...
Á sahida, a viscondessa (de Souto Santos ou de Villar-o-Velho) ficou um
momento á porta esperando a sua carruagem, embrulhada n'uma capa branca
que uma pennugem orlava, delicadamente; a sua cabeça pareceu-me mais
altiva, incapaz de rolar, tonta e pallida, n'um travesseiro d'amor; a
cauda côr de palha alastrava-se sobre as lages; era esplendida, era
viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos
claros e sérios.
A noite estava estrellada. E, descendo o Chiado em silencio ao lado do
dr. Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da titi fosse meu e
dourasse a minha pessoa, eu poderia então conhecer uma viscondessa de
Souto Santos ou de Villar-o-Velho, não na sua friza, mas na minha
alcova, já cahida a grande capa branca, despidas já as sêdas côr de
palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os
meus braços... Ai, quando chegaria a hora, dôce entre todas, de morrer a
titi?
--Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? perguntou-me o dr.
Margaride ao desembocarmos no Rocio. Não sei se você conhece a torrada
do Martinho... É a melhor torrada de Lisboa.
No Martinho, já silencioso, o gaz ia adormecendo entre os espelhos
baços; e havia apenas n'uma mesa do fundo um moço triste, com a cabeça
enterrada entre os punhos diante d'um capilé.
O Margaride encommendou o chá--e vendo-me olhar com inquietação os
ponteiros do relogio, affirmou-me que eu chegaria a casa ainda a horas
de fazer a minha tocante devoção com a titi.
--A titi agora, disse eu, não se importa que eu esteja até mais tarde...
A titi agora louvado seja Deus, tem mais confiança em mim.
--E você merece-o... Faz-lhe a vontade, é sisudo... Ella pouco a pouco
tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro...
Então lembrei-me da velha affeição que ligava o dr. Margaride ao padre
Casimiro, procurador da tia Patrocinio e seu zeloso confessor. E,
arrebatando a opportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao
magistrado, largamente, como a um pai.
--É verdade, a titi tem-me amizade... Mas acredite v. exc.^a, dr.
Margaride, que o meu futuro inquieta-me ás vezes... Olhe que tenho
pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se
seria difficil entrar como despachante na alfandega. Porque emfim a titi
é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, unico parente, unico
herdeiro; mas...
E olhei anciosamente para o dr. Margaride, que, pelo loquaz padre
Casimiro, conhecia talvez o testamento da titi... O silencio grave em
que elle ficou, com as mãos cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro:
e n'esse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e
felicitando o magistrado por o vêr melhor do seu catarrho.
--Deliciosa torrada! murmurou o doutor.
--Excellente torrada! suspirei eu cortezmente.
De vez em quando o dr. Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a
face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com
religião.
Eu arrisquei outra palavra timida.
--A titi, é verdade, tem-me amizade...
--A titi tem-lhe amizade, atalhou com a bocca cheia o magistrado, e você
é o seu unico parente... Mas a questão é outra, Theodorico. É que você
tem um rival.
--Rebento-o! gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chammas,
esmurrando o marmore da mesa.
O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o dr.
Margaride reprovou com severidade a minha violencia.
--Essa expressão é impropria d'um cavalheiro, e d'um moço comedido. Em
geral não se rebenta ninguem... E além d'isso o seu rival não é outro,
Theodorico, senão Nosso Senhor Jesus Christo!
Nosso Senhor Jesus Christo? E só comprehendi, quando o esclarecido
jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no ultimo
anno da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e
predios, a Irmandades da sua sympathia e a padres da sua devoção.
--Estou perdido! murmurei.
Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste
diante do seu capilé. E pareceu-me que elle se assemelhava a mim como um
irmão, que era eu proprio, Theodorico, já desherdado, sordido, com as
botas cambadas, vindo alli ruminar as dôres da minha vida, á noite,
diante d'um capilé.
Mas o dr. Margaride acabára a torrada. E estendendo regaladamente as
pernas, consolou-me, de palito na bocca, affavel e perspicaz.
--Nem tudo está perdido, Theodorico. Não me parece que esteja tudo
perdido... É possivel que a senhora sua tia tenha mudado d'idéa... Você
é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ella...
Tudo isto influe. Que é necessario dizel-o, o rival é forte!
Eu gemi:
--É d'arromba!
--É forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito... Jesus Christo
padeceu por nós, é religião do Estado, não ha senão curvar a cabeça...
Olhe, quer você a minha opinião? Pois ahi a tem, franca e sem rebuço,
para lhe servir de guia... Você vem a herdar tudo, se D. Patrocinio, sua
tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como
deixal-a á Santa Madre Igreja...
O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, já abafado no seu
paletot, ainda me disse baixinho:
--Com franqueza, que tal, a torrada?
--Não ha melhor torrada em Lisboa, dr. Margaride.
Elle apertou-me a mão com affecto--e separamo-nos, quando estava dando a
meia noite no velho relogio do Carmo.
Estugando o passo pela rua Nova da Palma, eu sentia agora bem
claramente, bem, amargamente, o erro da minha vida... Sim, o erro!
Porque até ahi, essa minha devoção complicada, com que eu procurára
agradar á titi e ao seu ouro, fôra sempre regular, mas nunca fôra
fervente. Que importava murmurar com correcção o terço diante de Nossa
Senhora do Rosario? Diante de Nossa Senhora em todas as suas
encarnações, e bem em evidencia para commover a titi, eu devia mostrar
habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo
pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilicios... Até ahi a titi
podia dizer com approvação: «É exemplar.» Era-me preciso, para herdar,
que ella exclamasse um dia, babada, de mãos postas: «É santo!»
Sim! eu devia identificar-me tanto com as coisas ecclesiasticas e
submergir me n'ellas de tal sorte, que a titi, pouco a pouco, não
podesse distinguir-me claramente d'esse conjunto rançoso de cruzes,
imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era
para ella a Religião e o Céo; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar
dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já
salpicada d'estrellas, e diaphana como a tunica de bem-aventurança.
Então, evidentemente, ella testaria em meu favor--certa que testava em
favor de Christo e da sua dôce Madre Igreja!
Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho
de Maria, a aprazivel fortuna do commendador G. Godinho. Pois quê! Não
bastavam ao Senhor os seus thesouros incontaveis; as sombrias cathedraes
de marmore que atulham a terra e a entristecem; as inscripções, os
papeis de credito que a piedade humana constantemente averba em seu
nome; as pás d'ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés
trespassados de pregos; as alfaias, os calices, e os botões de punho de
diamantes que elle usa na camisa, na sua igreja da Graça? E ainda
voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e
uns insipidos predios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos,
fugitivos haveres--tu, ó filho do Carpinteiro, mostrando á titi a chaga
que por ella recebeste, uma tarde, n'uma cidade barbara da Asia, e eu
adorando essa chaga, com tanto ruido e tanto fausto, que a titi não
possa saber onde está o merito, se em ti que morreste por nos amar de
mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!...
Assim pensava, olhando de través o céo, no silencio da rua de S. Lazaro.
Quando cheguei a casa, senti que a titi estava no oratorio, sósinha, a
rezar. Enfiei para o meu quarto, surrateiramente; descalcei-me; despi a
casaca; esguedelhei o cabello; atirei-me de joelhos para o soalho--e fui
assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito,
clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor...
Ao ouvir, no silencio da casa, estas lugubres lamentações de arrastada
penitencia, a titi veio á porta do oratorio, espavorida.
--Que é isso, Theodorico, filho, que tens tu?...
Abati-me sobre o soalho, aos soluços, desfallecido de paixão divina.
--Desculpe, titi... Estava no theatro com o dr. Margaride, estivemos
ambos a tomar chá, a conversar da titi... E vai de repente, ao voltar
para casa, alli na rua Nova da Palma, começo a pensar que havia de
morrer, e na salvação da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor
padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar... Emfim, a titi faz
favor, deixa-me aqui um bocadinho só, no oratorio, para alliviar...
Muda, impressionada, ella accendeu reverentemente, uma a uma, todas as
velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de S. José, favorito
da sua alma, para que fosse elle o primeiro a receber a ardente rajada
de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu coração cheio e ancioso.
Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silencio, desappareceu, cerrando
o reposteiro com recato. E eu alli fiquei, sentado na almofada da titi,
coçando os joelhos, suspirando alto--e pensando na viscondessa de Souto
Santos ou de Villar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por
aquelles hombros maduros e succulentos, se a podesse ter só um instante,
alli mesmo que fosse, no oratorio, aos pés de ouro de Jesus, meu
Salvador!
* * * * *
Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o
bacalhau das sextas-feiras não fosse uma sufficiente mortificação,
n'esses dias, diante da titi, bebia asceticamente um copo d'agua e
trincava uma côdea de pão: o bacalhau comia-o á noite, de cebolada, com
bifes á ingleza, em casa da minha Adelia. No meu guarda-roupa, n'esse
duro inverno, houve apenas um paletot velho, tão renunciado me quiz
mostrar aos culpados regalos da carne; mas orgulhava-me de ter lá,
purificando os cheviottes profanos, a minha opa rôxa de irmão do Senhor
dos Passos, e o devoto habito cinzento da Ordem Terceira de S.
Francisco. Sobre a commoda ardia uma lamparina perennal diante da
lithographia colorida de Nossa Senhora do Patrocinio: eu punha todos os
dias rosas dentro d'um copo, para lhe perfumar o ar em redor; e a titi,
quando vinha remexer nas minhas gavetas, ficava a olhar a sua padroeira,
desvanecida, sem saber se era á Virgem, ou se era a ella,
indirectamente, que eu dedicava aquelle preito da luz e o louvor dos
aromas. Nas paredes dependurei as imagens dos santos mais excelsos, como
galeria d'antepassados espirituaes de quem tirava o constante exemplo
das difficeis virtudes; mas não houve de resto no céo santo, por mais
obscuro, a quem eu não offertasse um cheiroso ramalhete de Padre-Nossos
em flôr. Fui eu que fiz conhecer á titi S. Telesforo, Santa Secundina, o
beato Antonio Estronconio, Santa Restituta, Santa Umbulina, irmã do grão
S. Bernardo, e a nossa dilecta e suavissima patricia Santa Basilissa,
que é solemnisada juntamente com S. Hypacio, n'esse festivo dia d'agosto
em que embarcam os cirios para a Atalaya.
Prodigiosa foi então a minha actividade devota! Ia a matinas, ia a
vesperas. Jámais falhei igreja ou ermida onde se fizesse a adoração ao
Sagrado Coração de Jesus. Em todas as exposições do Santissimo eu lá
estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desaggravos ao
Sacramento. Novenas em que eu rezei contam-se pelos lumes do céo. E o
Septenario das Dôres era um dos meus dôces cuidados.
Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia
á missa das sete a Sant'Anna, e á missa das nove da igreja de S. José, e
á missa do meio dia na ermida da Oliveirinha. Descansava um instante a
uma esquina, de ripanço debaixo do braço, chupando á pressa o cigarro:
depois voava ao Santissirno exposto na parochial de Santa Engracia, á
devoção do Terço no convento de Santa Joanna, á benção do Sacramento na
capella de Nossa Senhora ás Picôas, á novena das Chagas de Christo, na
sua igreja, com musica. Tomava então a tipoia do _Pingalho_, e ainda
visitava, ao acaso, de fugida, os Martyres e S. Domingos, a igreja do
convento do Desagravo e a igreja da Visitação das Selesias, a capella de
Monserrate ás Amoreiras e a Gloria ao Cardal da Graça, as Flamengas e as
Albertas, a Pena, o Rato, a Sé!
Á noite, em casa da Adelia, estava tão derreado, mono e molle ao canto
do sofá,--que ella atirava-me murros pelos hombros, e gritava, furiosa:
--Esperta, morcão!
Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adelia, em vez de me chamar
_morcão_, quando, esfalfado no serviço do Senhor, eu mal podia ajudal-a
a desatacar o collete--passou, sempre que os meus labios insaciaveis se
collavam de mais ao seu collo, a empurrar-me, a chamar-me _carraça_...
Foi isto pelas alegres vesperas de Santo Antonio, ao apparecerem os
primeiros manjaricões, no quinto mez da minha devoção perfeita.
A Adelia começára a andar pensativa e distrahida. Tinha ás vezes, quando
eu lhe fallava, um modo de dizer «hein?», com o olhar incerto e
disperso, que era um tormento para o meu coração. Depois um dia deixou
de me fazer a caricia melhor, que eu mais appetecia--a penetrante e a
regaladora beijoca na orelha.
Sim, decerto permanecia terna... Ainda dobrava maternalmente o meu
paletot; ainda me chamava _riquinho_; ainda me acompanhava ao patamar em
camisa, dando, ao descollar do nosso abraço, esse lento suspiro que era
para mim a mais preciosa evidencia da sua paixão;--mas já me não
favorecia com a beijoquinha na orelha.
Quando eu entrava abrazado--encontrava-a por vestir, por pentear, molle,
estremunhada e com olheiras. Estendia-me a mãosinha desamoravel,
bocejava, colhia preguiçosamente a viola: e emquanto eu, a um canto,
chupando cigarros mudos, esperava que se abrisse a portinha envidraçada
da alcova que dava para o céo--a deshumana Adelia, estirada no sofá, de
chinelas cahidas, beliscava os bordões, murmurando, por entre longos
_ais_, cantigas de estranha saudade...
N'um arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me á beira do seu peito. E lá
vinha logo a dura, a regelada palavra:
--Está quieto, carraça!
E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: «não posso, estou com
azia.» Dizia-me: «adeus, tenho a dôr na ilharga.»
Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Sant'Anna--espoliado,
miserrimo, chorando na escuridão da minha alma pelos tempos ineffaveis
em que ella me chamava _morcão_!
Uma noite de julho, macia como um velludo preto e pespontada
d'estrellas, chegando mais cedo a casa d'ella, encontrei a portinha
aberta. O candieiro de petroline, pousado no soalho do patamar, enchia a
escada de luz;--e dei com a Adelia, em saia branca, fallando a um rapaz
de bigodinho louro, embrulhado pelintramente n'uma capa á hespanhola.
Ella empallideceu, elle encolheu--quando eu surgi, grande e barbudo, com
a minha bengala na mão. Depois a Adelia, sorrindo, sem perturbação, vera
e limpida, apresentou-me «seu sobrinho Adelino.» Era filho da mana
Ricardina, a que vivia em Vizeu, e irmão do Theodoriquinho... Tirando o
chapéo, apertei na palma larga e leal os dedos fugidios do snr. Adelino:
--Estimo muito conhecel-o, cavalheiro. Sua mamã, seu mano, bons?
N'essa noite a Adelia, resplandecente, tornou a chamar-me _morcão_,
restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana foi deliciosa como
a d'um noivado. O verão ardia; e começára na Conceição Velha a novena de
S. Joaquim. Eu sahia de casa á hora repousante em que se regam as ruas,
mais contente que os passaros chalrando nas arvores do campo de
Sant'Anna. Na salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fustão
branco, encontrava a minha Adelia de chambre, fresca de se ter lavado,
cheirando a agua de colonia, e aos lindos cravos vermelhos que a
toucavam; e depois das manhãs calorosas, nada havia mais idyllico, mais
dôce que as nossas merendas de morangos na cozinha, ao ar da janella,
contemplando bocadinhos verdes de quintaes e ceroulas humildes a seccar
em cordas... Ora uma tarde que assim nos apraziamos, ella pediu-me oito
libras.
Oito libras!... Descendo á noite a rua da Magdalena, eu ruminava quem
m'as poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O bom Casimiro estava em
Torres, o prestante _Rinchão_ estava em Paris... E pensava já no padre
Pinheiro (cujas dôres de rins eu lamentava sempre com affecto) quando
avistei a escapar-se, todo encolhido, todo surrateiro, d'uma d'essas
viellas impuras onde Venus Mercenaria arrasta os seus chinelos--o José
Justino, o nosso José Justino, o piedoso secretario da confraria de S.
José, o virtuosissimo tabellião da titi!...
Gritei logo: «boas noites, Justininho!» E regressei ao Campo de
Sant'Anna, tranquillo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a
Délinha, quando eu risonho lhe estendesse na mão as oito rodellas
d'ouro. Ao outro dia cedo, corri ao cartorio do Justino, a S. Paulo,
contei-lhe a pranteada historia d'um condiscipulo meu, tisico,
miseravel, arquejando sobre uma enxerga, n'uma fetida casa d'hospedes,
ao pé do largo dos Caldas.
--É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho... Eu é que
o ajudo: mas, que diabo, estou a tinir... Faço-lhe companhia, é o que
posso; leio-lhe orações, e _Exercicios da vida christã_. Hontem á noite
vinha eu de lá... E acredite você, Justino, que nem gósto d'andar por
aquellas ruas, tão tarde... Jesus, que ruas que indecencia, que
immoralidade!... Aquelles beccos d'escadinhas, hein?... Eu hontem bem
percebi que você ia horrorisado: eu tambem... De sorte que esta manhã
estava no oratorio da titi, a rezar pelo meu condiscipulo, a pedir a
Nosso Senhor que o ajudasse e que lhe désse algum dinheiro, e vai
pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: «entende-te com o
Justino, falla ao nosso Justininho, elle que te dê oito libras para o
rapaz...» Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho,
Justino, por ordem d'Elle.
O Justino escutava-me, branco como os seus collarinhos, dando estalinhos
tristes nos dedos;--depois, em silencio, estendeu-me uma a uma sobre a
carteira as oito moedas d'ouro. Assim eu servi a minha Adelia.
Fugaz foi porém a minha gloria!
D'ahi a dias estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada--o
criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de chale, a snr.^a
Marianna, esperava por mim á esquina... Santo Deus! A Marianna era a
criada da Adelia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada
ficára soffrendo da sua abominavel dôr na sua branca ilharga. Pensei
mesmo em começar o Rosario das dezoito apparições de Nossa Senhora de
Lourdes, que a titi considera efficacissimo em casos de pontada ou de
touros tresmalhados...
--Ha novidade, Marianna?
Ella levou-me para dentro d'um pateo onde cheirava mal; e ahi, com os
olhos vermelhos, destraçando furiosamente o chale, rouca ainda da bulha
que tivera com a Adelia, rompeu a contar-me coisas torpes, execrandas,
sordidas. A Adelia enganava-me! O snr. Adelino não era sobrinho: era o
querido, o _chulo_. Apenas eu sahia, elle entrava: a Adelia
dependurava-se-lhe do pescoço, n'um delirio; e chamavam-me então o
_carraça_, o _carola_, o _bode_, vituperios mais negros, cuspindo sobre
o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de
verão; e ainda sobrára para irem á feira de Belem, em tipoia descoberta,
e de guitarra... A Adelia adorava-o com pieguice e com furor:
cortava-lhe os callos; e os suspiros da sua impaciencia, quando elle
tardava, lembravam o bramar das cervas, nos mattos quentes, em maio!...
Duvidava eu? Queria uma evidencia? Que fosse n'essa noite, tarde, depois
da uma hora, bater á portinha da Adelia!
Livido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me suffocava vinha
do canto escuro do pateo--se das immundicies que borbulhavam da bocca da
Marianna, como d'um cano d'esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a
desfallecer:
--Está bom Marianna, obrigadinho, eu verei, vá com Deus...
Cheguei a casa tão sombrio, tão murcho, que a titi perguntou-me, com um
risinho, se eu «malhára abaixo da egoa.»
--Da egoa?... Não, titi, credo! Estive na igreja da Graça...
--É que vens tão enfiado, assim com as pernas molles... E então o Senhor
hoje estava bonito?
--Ai, titi, estava rico!... Mas não sei porquê, pareceu-me tão
tristinho, tão tristinho... Até eu disse ao padre Eugenio: «Ó Eugeninho,
o Senhor hoje tem desgosto!» E disse-me elle: «Que quer você, amigo? É
que vê por esse mundo tanta patifaria!» E olhe que vê, titi! Vê muita
ingratidão, muita falsidade, muita traição!
Rugia, enfurecido: e cerrára o punho como para o deixar cahir, punidor e
terrivel, sobre a vasta perfidia humana. Mas contive-me, abotoei devagar
a quinzena, recalquei um soluço.
--Pois é verdade, titi... Fez-me tanta impressão aquella tristeza do
Senhor que fiquei assim um bocado amarfanhado... E de mais a mais tenho
tido um desgosto: está um condiscipulo meu muito mal, coitadinho, a
espichar...
E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscencias do
Xavier e da rua da Fé), estirei a carcassa d'um condiscipulo sobre a
podridão d'uma enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de
caldos... Que miseria, titi, que miseria! E então um moço tão
respeitador das coisas santas, que escrevia tão bem na _Nação_!...
--Desgraças, murmurou a tia Patrocinio, meneando as agulhas da meia.
--É verdade, desgraças, titi. Ora como elle não tem familia e a gente da
casa é desleixada, nós os condiscipulos é que vamos por turnos
servir-lhe d'enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria então que a titi
me désse licença para eu ficar fóra, até cerca das duas horas... Depois
vem outro rapaz, muito instruido, que é deputado.
A tia Patrocinio permittiu:--e até se offereceu para pedir ao patriarcha
S. José que fosse preparando ao meu condiscipulo uma morte somnolenta e
ditosa...
--Isso é que era um grande favor, titi! Elle chama-se Macieira... O
Macieira vesgo. É para S. José saber.
Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na molleza do luar de
julho. E por cada rua me acompanharam sempre, fluctuantes e
transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa á hespanhola,
enroscadas, beijando-se furiosamente--e só desligando os beiços pisados
para rirem alto de mim e para me chamarem _carola_.
Cheguei ao Rocio quando batia uma hora no relogio do Carmo. Ainda fumei
um cigarro, indeciso, por debaixo das arvores. Depois voltei os passos
para a casa da Adelia, vagaroso, e com medo. Na sua janella vi uma luz
enlanguecida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta,--mas hesitei
com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparavel... Meu
Deus! Talvez a Marianna, por vingança, calumniasse a minha Adelia! Ainda
na vespera ella me chamára _riquinho_, com tanto ardor! Não seria mais
sensato e mais proveitoso acreditar n'ella, tolerar-lhe um fugitivo
transporte pelo snr. Adelino, e continuar a receber egoistamente o meu
beijinho na orelha?
Mas então á idéa lacerante de que ella tambem beijava na orelha o snr.
Adelino, e que o snr. Adelino também dizia _ai! ai!_ como
eu--assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros,
alli, n'esses degraus onde tantas vezes arrulhára a suavidade dos nossos
adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o
seu fragil, ingrato peito.
Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ella surgiu em camisa,
com os seus bellos cabellos revoltos:
--Quem é o bruto?
--Sou eu, abre.
Reconheceu-me--a luz dentro desappareceu; e foi como se aquella torcida
de candieiro, apagando-se, deixasse tambem a minha alma em escuridão,
fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente só, viuvo, sem
occupação e sem lar. Do meio da rua olhava as janellas negras, e
murmurava: «ai, que eu rebento!»
Outra vez a camisa da Adelia alvejou na varanda.
--Não posso abrir, que ceei tarde e estou com somno!
--Abre! gritei erguendo os braços desesperados. Abre ou nunca mais cá
volto!...
--Pois á fava, e recados á tia.
--Fica-te, bebeda!
Tendo-lhe atirado, como uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito
teso, muito digno. Mas á esquina aluí de dôr, para cima d'um portal, a
soluçar, escoado em pranto, delido.
Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia dos dias d'estio...
Tendo contado á titi que andava a escrever dois artigos, piamente
destinados ao _Almanach da Immaculada Conceição_ para 1878, encerrava-me
no quarto, toda a manhã, emquanto faiscavam ao sol as pedras da minha
varanda. Ahi, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía,
entre suspiros, recordações da Adelia; ou diante do espelho contemplava
o lugar macio da orelha em que ella costumava dar-me o beijo... Depois
sentia um ruido de vidraça--e o seu perfido, o seu affrontoso brado «á
fava!» Então, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os
murros que não podia vibrar ao peito magro do snr. Adelino.
Á tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada
janella aberta ás aragens da tarde, cada cortina de cassa engommada me
lembrava a intimidade da alcovinha da Adelia; n'um simples par de meias,
esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição da sua
perna; tudo o que era luminoso me suggeria o seu olhar; e até o sorvete
de morango, no Martinho, me fazia repassar nos labios o adocicado e
gostoso sabor dos seus beijos.
Á noite, depois do chá, refugiava-me no oratorio, como n'uma fortaleza
de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado
na sua linda cruz de pau preto. Mas então o brilho fulvo do metal
precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva côr de carne,
quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos,
arredondava-se em fórmas divinamente cheias e bellas; por entre a corôa
d'espinhos, desenrolavam-se lascivos anneis de cabellos crespos e
negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos,
dois esplendidos seios de mulher, com um botãosinho de rosa na ponta;--e
era ella, a minha Adelia, que assim estava no alto da cruz, núa,
soberba, risonha, victoriosa, profanando o altar, com os braços abertos
para mim!
Eu não via n'isto uma tentação do Demonio--antes me parecia uma graça do
Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos das minhas rezas as queixas
do meu amor. O céo é talvez grato: e esses innumeraveis santos, a quem
eu prodigalisára Novenas e Coroinhas, desejariam talvez recompensar a
minha amabilidade restituindo-me as caricias que me roubára o homem
cruel da capa á hespanhola. Puz mais flôres sobre a commoda diante de
Nossa Senhora do Patrocinio; contei-lhe as angustias do meu coração. Por
traz do limpido vidro do seu caixilho, com os olhos baixos e magoados,
ella foi a confidente do tormento da minha carne; e todas as noites, em
ceroulas, antes de me deitar, eu lhe segredava, com ardor:
--Ó minha querida Senhora do Patrocinio, faze que a Adelinha goste outra
vez de mim!
Depois utilisei o valimento da titi com os santos seus amigos--o
amorosissimo e perdoador S. José, S. Luiz Gonzaga, tão benevolo para a
juventude. Pedia-lhe que fizesse uma Petição por certa necessidade
minha, secreta e toda pura. Ella accedia, com alacridade; e eu,
espreitando pelo reposteiro do oratorio, regalava-me de vêr a rigida
senhora, de joelhos, de contas na mão, em supplicas aos Patriarchas
castissimos para que a Adelia me désse outra vez a beijoquinha na
orelha.
Uma noite, cedo, foi experimentar se o céo escutára tão valiosas preces.
Cheguei á porta da Adelia; e bati, tremendo todo, uma argoladinha
humilde. O snr. Adelino assomou á janella, em mangas de camisa.
--Sou eu, snr. Adelino, murmurei abjectamente e tirando o chapéo. Queria
fallar á Adeliasinha.
Elle rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome. Creio mesmo que
disse _o carola_. E lá do fundo, d'entre os cortinados, onde eu a
presentia toda desalinhada e formosa, a minha Adelia gritou com furor:
--Atira-lhe para cima dos lombos o balde da agua suja!
Fugi.
* * * * *
No fim de setembro, o _Rinchão_ chegou de Paris: e um domingo, á
noitinha, á volta da Novena de S. Caetano, entrando no Martinho,
encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente os seus feitos
d'amor e de gentil audacia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei
a ouvir o _Rinchão_. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo
pendente d'uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o _Rinchão_
impressionava, quando por entre o fumo do charuto esboçava traços do seu
prestigio: «Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora,
com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe...» O que o
_Rinchão_ tinha visto! o que o _Rinchão_ tinha gozado! Uma condessa
italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada _Popotte_, amára-o,
levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria--cujo velho brazão eram dois
chavelhos encruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de
serpentinas d'ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam
respeitosamente _Mr. le Comte_. E o _Acazar_, com festões de gaz entre
as arvores, e a Paulina cantando, de braços nús, o _Chouriço de
Marselha_--revelára-lhe a verdade, a grandeza da civilisação.
--Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de lunetas pretas, que roía as
unhas.
--Não, nunca andava cá na roda chic!
Toda essa semana, então, a idéa de vêr Paris brilhou incessantemente no
meu espirito, tentadora e cheia de suaves promessas... E era menos o
appetite d'esses gozos do Orgulho e da Carne com que se abarrotára o
_Rinchão_, que a anciedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas, claro
rio e claro céo, só me lembravam a Adelia, o homem amargo de capa á
hespanhola, o beijo na orelha perdido para sempre... Ah! se a titi
abrisse a sua bolsa de sêda verde, me deixasse mergulhar dentro as mãos,
colher ouro, e partir para Paris!...
Mas, para a snr.^a D. Patrocinio, Paris era uma região ascorosa, cheia
de mentira, cheia de gula--onde um povo sem santos, com as mãos
maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o
sol, ou luza o gaz, commettendo uma _relaxação_. Como ousaria eu mostrar
á titi o desejo immodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva
moral?...
Logo no domingo porém, jantando no Campo de Sant'Anna os amigos
dilectos, aconteceu fallar-se, ao cozido, d'um sabio condiscipulo do
padre Casimiro que recentemente deixára a quietação da sua cella no
Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O
nosso modesto Casimiro não comprehendia esta cubiça d'uma mitra,
cravejada de pedras vãs: para elle a plenitude d'uma vida ecclesiastica
era estar assim aos sessenta annos, são e sereno, sem saudades e sem
temores, comendo o arrozinho do forno da snr.^a D. Patrocinio das
Neves...
--Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu
arroz está um primor!... E a ambição de ter sempre um arroz d'estes, e
amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma
alma justa...
E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem aggravo do
Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabellião Justino era
uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle
pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.
--Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta
era a sua missa na Conceição Velha... Quando a gente se acostuma a uma
missinha, não ha outra que console... A mim, se me tirassem a de
Sant'Anna, parece-me que começava a definhar...
Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe
no prato outra aza de gallinha;--e padre Pinheiro revelou tambem a
ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado
n'esse throno forte e fecundo em que resplandecera Leão X...
--Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o
Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n'uma masmorra,
em farrapos, sobre palha... É de Caipházes, é de judeus!
Bebeu um gole da sua agua morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma--a
rezar a Ave-Maria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo
termo do seu captiveiro.
O dr. Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontifice dormisse
sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo
Padre, querendo, podia ter carruagem.
--Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára;
mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade...
Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam
as suas ambições) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride.
--Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com
affecto.
Elle sorria, grave.
--Deixe-me v. exc.^a primeiro, D. Patrocinio, minha senhora, servir-me
d'essa lingua guizada, que marcha para nós e que me parece preciosa.
Depois de fornecido, o veneravel magistrado confessou que appetecia ser
Par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para
defender o principio sacro da authoridade...
--Só por isto, acrescentou com energia. Porque desejava tambem, antes de
morrer, poder dar, se v. exc.^a, D. Patrocinio, me permitte a expressão,
uma cacheirada mortal no atheismo e na anarchia. E dava-lh'a!
Todos declararam fervorosamente o dr. Margaride digno d'esses fastigios
sociaes. Elle agradeceu, seriissimo. Depois volveu para mim a face
magestosa e livida:
--E o nosso Theodorico? O nosso Theodorico ainda não nos disse qual era
a sua ambição.
Córei: e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas
serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do
seu champagne--fascinante, embriagante, e adormentando toda a dôr... Mas
baixei os olhos; e affirmei que só aspirava a rezar as minhas corôas, ao
lado da titi, com proveito e com descanso...
O dr. Margaride porém pousára o talher, insistia. Não lhe parecia um
desapego de Deus, nem uma ingratidão com a titi, que eu, intelligente,
saudavel, bom cavalleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cubiça...
--Nutro! exclamei então decidido como aquelle que arremessa um dardo.
Nutro, dr. Margaride. Gostava muito de vêr Paris.
--Cruzes! gritou a snr.^a D. Patrocinio, horrorisada. Ir a Paris!...
--Para vêr as igrejas, titi!
--Não é necessario ir tão longe para vêr bonitas igrejas, replicou ella,
rispidamente. E lá em festas com orgão, e um Santissimo armado com luxo,
e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, e imagens de dar
gosto, ninguem bate cá os nossos portuguezes!...
Calei-me, esmagado. E o esclarecido dr. Margaride applaudiu o
patriotismo ecclesiastico da titi. Decerto, não era n'uma republica sem
Deus, que se deviam procurar as magnificencias do culto...
--Não, minha senhora, lá para saborear coisas grandiosas da nossa santa
religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia... Sabe v.
exc.^a onde eu ia, snr.^a D. Maria do Patrocinio?
--O nosso doutor, lembrou o padre Pinheiro, corria direito a Roma...
--Upa, padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!
Upa? Nem o bom Pinheiro, nem a titi comprehendiam o que houvesse de
superior a Roma pontifical! O dr. Margaride então ergueu solemnemente as
sobrancelhas, densas e negras como ebano.
--Ia á Terra Santa, D. Patrocinio! Ia á Palestina, minha senhora! Ia vêr
Jerusalem e o Jordão! Queria eu tambem estar um momento, de pé, sobre o
Golgotha, como Chateaubriand, com o meu chapéo na mão, a meditar, a
embeber-me, a dizer «salvè!» E havia de trazer apontamentos, minha
senhora, havia de publicar impressões historicas. Ora ahi tem v. exc.^a
onde eu ia... Ia a Sião!
Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento
reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu
parecia-me vêr lá muito longe, na Arabia, ao fim de arquejantes dias de
jornada sobre o dorso d'um camêlo, um montão de ruinas em torno d'uma
cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céo arqueia-se
mudo e triste como a abobada d'um tumulo. Assim devia ser Jerusalem.
--Linda viagem! murmurou o nosso Casimiro, pensativo.
--Sem contar, rosnou padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração,
que Nosso Senhor Jesus Christo vê com grande apreço, e muito agradece,
essas visitas ao seu Santo Sepulchro.
--Até quem lá vai, disse o Justino, tem perdão de peccados. Não é
verdade, Pinheiro? Eu assim li no _Panorama_... Vem-se de lá limpinho de
tudo!
Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-flôr, que considerava
indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia á Terra Santa, n'uma devota
peregrinação, recebia sobre o marmore do Santo Sepulchro, das mãos do
Patriarcha de Jerusalem, e pagando os rituaes emolumentos, as suas
Indulgencias Plenarias...
--Não só para si, segundo tenho ouvido dizer, acrescentou o instruido
ecclesiastico, mas para uma pessoa querida de familia, piedosa, e
comprovadamente impedida de fazer a jornada... Pagando, já se vê,
emolumentos dobrados.
--Por exemplo! exclamou o dr. Margaride inspirado, batendo-me com força
nas costas. Assim para uma boa titi, uma titi adorada, uma titi que tem
sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!...
--Pagando, já se vê, insistiu padre Pinheiro, os emolumentos dobrados!
A titi não dizia nada; os seus oculos, girando do Sacerdote para o
Magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o
clarão interior d'uma idéa: um pouco de sangue subira á sua face
esverdinhada. A Vicencia offereceu o arroz dôce. Nós rezamos as graças.
Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente.
Nunca a titi me deixaria visitar a terra immunda de França: e aqui
ficaria enclausurado n'esta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais
rumorosas ruas me aggravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do
fino céo de estio me recordava a torva perfidia d'essa que fôra para mim
estrella e Rainha da Graça... Depois, n'esse dia, ao jantar, a titi
parecera-me mais rija, solida ainda, duradoura, e por longos annos dona
da bolsa de sêda verde, dos predios e dos contos do commendador G.
Godinho... Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa
velha o fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de
tanta bocca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante
do corpo d'um Deus, magro e cheio de feridas? Oh vida entre todas
amargurosa! E já não tinha, para me consolar do enfadonho serviço de
Jesus, os macios braços da Adelia...
* * * * *
De manhã, apparelhada a egoa, e já d'esporas, fui saber se minha titi
tinha algum pio recado para S. Roque, por ser esse seu milagroso dia. Na
saleta votada ás glorias de S. José, a titi, ao canto do sofá, com o
chale de Tonkin cahido dos hombros, examinava o seu grande caderno de
contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte, calado, com as mãos
cruzadas atraz das costas, o bom Casimiro sorria pensativamente ás
flôres do tapete.
--Ora venha cá, venha cá! disse elle, mal eu assomei curvando o
espinhaço. Ouça lá a novidade! Que você é uma joia, respeitador de
velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha
de lá esse abraço!
Sorri, inquieto. A titi enrolava o seu caderno.
--Theodorico! começou ella, cruzando os braços, impertigada. Theodorico!
tenho estado aqui a consultar com o snr. padre Casimiro. E estou
decidida a que alguem que me pertença, e que seja do meu sangue, vá
fazer por minha intenção uma peregrinação á Terra Santa...
--Hein, felizão! murmurou Casimiro, resplandecendo.
--Assim, proseguiu a titi, está entendido e ficas sabendo que vaes a
Jerusalem e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer, é para
meu gosto, e para honrar o tumulo de Jesus Christo, já que eu lá não
posso ir... Como, louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, has
de fazer a viagem com todas as commodidades; e para não estar com mais
duvidas, e pela pressa d'agradar a Nosso Senhor, ainda has de partir
n'este mez... Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o snr. padre
Casimiro. Obrigado, não quero nada para o snr. S. Roque: já me entendi
com elle.
Balbuciei: «Muito agradecido, titi; adeusinho, padre Casimiro.» E segui
pelo corredor, atordoado.
No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas
barbas, onde em breve pousaria o pó do Jerusalem... Depois, cahi sobre o
leito.
--Olha que tremenda espiga!
Ir a Jerusalem! E onde era Jerusalem? Recorri ao bahú que continha os
meus compendios e a minha roupa velha; tirei o Atlas, e com elle aberto
sobre a commoda, diante da Senhora do Patrocinio, comecei a procurar
Jerusalem lá para o lado onde vivem os Infieis, ondulam as escuras
caravanas, e uma pouca d'agua n'um poço é como um dom precioso do
Senhor.
O meu dedo errante sentia já o cansaço d'uma longa jornada: e parei á
beira tortuosa d'um rio que devia ser o devoto Jordão. Era o Danubio. E
de repente o nome de Jerusalem surgiu, negro, n'uma vasta solidão
branca, sem nomes, sem linhas, toda de arêas, nua, junto ao mar. Alli
estava Jerusalem. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!
Mas então comecei a considerar que, para chegar a esse sólo de
penitencia, tinha d'atravessar regiões amaveis, femininas e cheias de
festa. Era primeiro essa bella Andaluzia, terra de Maria Santissima,
perfumada de flôr de laranjeira, onde as mulheres só com metter dois
cravos no cabello, e traçando um chale escarlate, amansam o coração mais
rebelde, _bendita sêa su gracia_! Era adiante Napoles--e as suas ruas
escuras, quentes, com retabulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os
corredores d'um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grecia: desde a
aula de Rhetorica ella apparecera-me sempre como um bosque sacro de
loureiros onde alvejam frontões de templos, e, nos lugares de sombra em
que arrulham as pombas, Venus de repente surge, côr de luz e côr de
rosa, offerecendo a todo o labio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus
seios immortaes. Venus já não vivia na Grecia; mas as mulheres tinham
conservado lá o esplendor da sua fórma e o encanto do seu impudor...
Jesus! o que eu podia gozar! Um clarão sulcou-me a alma. E gritei, com
um murro sobre o Atlas, que fez estremecer a castissima Senhora do
Patrocinio e todas as estrellas da sua corôa:
--Caramba, vou fartar o bandulho!
Sim, fartal-o! E mesmo, receando que a titi, por avareza do seu ouro ou
desconfiança da minha piedade, renunciasse á idéa d'esta peregrinação
tão promettedora de gozos--resolvi ligal-a supernaturalmente por uma
ordem divina. Fui ao oratorio; desmanchei o cabello, como se por entre
elle tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da titi,
esgazeado, com os braços a tremer no ar.
--Ó titi! pois não quer saber? Estava agora no oratorio, a rezar de
satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de
cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer: «Fazes bem, Theodorico,
fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulchro... E estou muito contente
com tua tia... Tua tia é das minhas!...»
Ella juntou as mãos, n'um fogoso transporte d'amor:
--Louvado seja o seu santissimo nome!... Pois disse isso? Ai, era bem
capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando...
Louvado seja outra vez o seu santissimo nome! Louvado seja em Terra e
Céo! Anda, filho, vai, reza-lhe... Não te fartes, não te fartes!
Eu ia, murmurando uma Ave-Maria. Ella correu ainda á porta, n'uma
effusão de sympathia:
--E olha, Theodorico, vê lá a respeito de roupa branca... Talvez te
sejam necessarias mais ceroulas... Encommenda, filho, encommenda, que
graças a Nossa Senhora do Rosario tenho posses, e quero que vás com
decencia e te apresentes bem lá na sepulturasinha de Deus!...
Encommendei: e, tendo comprado um _Guia do Oriente_ e um capacete de
cortiça, informei-me, sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalem,
com Benjamim Sarrosa & C.^a, judeu sagaz, que ia todos os annos, de
turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, n'um
papel, o meu grandioso itinerario. Embarcaria no _Malaga_, vapor da casa
Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, n'um mar
sempre azul, á velha terra do Egypto. Ahi um repouso sensual na festiva
Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da
Syria, aportaria a Jaffa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo
uma estrada macadamisada, ao chouto d'uma egoa dôce, veria, ao fim d'um
dia e ao fim d'uma noite, surgirem, negras entre collinas tristes, as
muralhas de Jerusalem!
--Diabo, Benjamim... Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um
bocadinho de Hespanha? Ó menino, olhe que eu quero refastelar-me.
--Refastela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipoia,
tem a batota, tem a mulherinha... Tudo do bom. É lá que você se
refastela!
No emtanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se fallava da minha
santa empresa. Uma manhã, li, escarlate d'orgulho, no _Jornal das
Novidades_ estas linhas honorificas: «Parte brevemente a visitar
Jerusalem, e todos os sacros lugares em que padeceu por nós o Redemptor,
o nosso amigo Theodorico Raposo, sobrinho da exc.^{ma} D. Patrocinio das
Neves, opulenla proprietaria, e modelo de virtudes christãs. Boa
viagem!» A titi, desvanecida, guardou o jornal no oratorio, debaixo da
peanha de S. José: e eu jubilei, por imaginar o despeito da Adelia
(leitora fiel do _Jornal_) ao vêr-me assim abalar desprendido d'ella,
atestado d'ouro, para essas terras musulmanas--onde a cada passo se topa
um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sycomoros...
A vespera da partida, na sala dos damascos, teve elevação e solemnidade.
O Justino contemplava-me--como se contempla uma figura historica.
--O nosso Theodorico... Que viagem!... O que se vai fallar n'isto!
E padre Pinheiro murmurava com unção:
--Foi uma inspiração do Senhor! E que bem que lhe ha de fazer á saude!
Depois mostrei o meu capacete de cortiça. Todos o admiraram. O nosso
Casimiro, todavia, depois de coçar pensativamente o queixo, observou que
me daria talvez mais seriedade um chapéo alto...
A titi acudiu, afflicta:
--É o que eu lhe disse! Acho de pouca ceremonia, para a cidade em que
morreu Nosso Senhor...
--Ó titi, mas já lhe expliquei! Isto é só para o deserto!... Em
Jerusalem, está claro, e em todos aquelles santos lugares, ando de
chapéo alto...
--Sempre é mais de cavalheiro, affirmou o dr. Margaride.
Padre Pinheiro quiz saber, solicitamente, se eu ia prevenido com
remedios para o caso d'um contratempo intestinal n'esses descampados
biblicos...
--Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista... Até linhaça, até arnica!...
O pachorrento relogio do corredor começou a gemer as dez; eu devia
madrugar; e o dr. Margaride, commovido, agasalhava já o pescoço no seu
lenço de sêda. Então, antes dos abraços, perguntei aos meus leaes amigos
que «lembrançasinha» desejavam d'essas terras remotas onde vivera o
Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho d'agua do Jordão. Justino
(que já me pedira no vão da janella um pacote de tabaco turco) diante da
titi só appetecia um raminho de oliveira, do monte Olivete. O dr.
Margaride contentava-se com uma boa photographia do sepulchro de Jesus
Christo, para encaxilhar...
Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas
imcumbencias--voltei-me para a titi, risonho, carinhoso, humilde...
--Cá por mim, disse ella do meio do sofá como d'um altar, tesa nos seus
setins de domingo, o que desejo é que faças essa viagem com toda a
devoção, sem deixar pedra por beijar, nem perder novena, nem ficar
lugarzinho em que não rezes ou o terço ou a corôa... Além d'isso, tambem
estimo que tenhas saude.
Eu ia depôr na sua mão, brilhante de anneis, um beijo gratissimo. Ella
deteve-me--mais aprumada e secca:
--Até aqui tens sido apropositado, não tens faltado aos preceitos, nem
te tens dado a relaxações... Por isso te vaes regalar de vêr as
oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no Jordãosinho...
Mas se eu soubesse que n'esta passeata tinhas tido maus pensamentos, e
praticado uma relaxação, ou andado atraz de saias, fica certo que,
apesar de ser a unica pessoa do meu sangue, e teres visitado Jerusalem,
e gozar indulgencias, havias de ir para a rua, sem uma côdea, como um
cão!
Curvei a cabeça, apavorado. E a titi, depois de roçar o lenço de rendas
pelos beiços sumidos, proseguiu com mais authoridade, e uma emoção
crescente que lhe punha, sob o corpete raso, como o fugitivo arfar d'um
peito humano:
--E agora quero dizer-te para teu governo uma só coisa!...
Todos de pé, e reverentes, logo percebemos que a titi se preparava a
proferir uma palavra suprema. N'essa hora de separação, rodeada dos seus
sacerdotes, rodeada dos seus magistrados, D. Patrocinio das Neves ia
decerto revelar qual fôra o seu intimo motivo, em me mandar, como
sobrinho e como romeiro, á cidade de Jerusalem. Eu ia saber emfim, e tão
indubitavelmente como se ella m'o escrevesse n'um pergaminho, qual
deveria ser o mais precioso dos meus cuidados, velando ou dormindo, nas
terras do Evangelho!
--Aqui está! declarou a titi. Se entendes que mereço alguma coisa pelo
que tenho feito por ti desde que morreu tua mãi, já educando-te, já
vestindo-te, já dando-te egoa para passeares, já cuidando da tua alma,
então traze-me d'esses santos lugares uma santa reliquia, uma reliquia
milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas
afflicções e que cure as minhas doenças.
E pela vez primeira, depois de cincoenta annos de aridez, uma lagrima
breve escorregou no carão da titi, por sob os seus oculos sombrios.
O dr. Margaride rompeu para mim, arrebatadamente:
--Theodorico, que amor que lhe tem a titi! Rebusque essas ruinas,
esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma reliquia á titi!
Eu bradei, exaltado:
--Titi, palavra de Raposão que lhe hei de trazer uma tremenda reliquia!
Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e tocante, a commoção
dos nossos corações. Eu achei me com os beiços do Justino, ainda molles
da torrada, collados á minha barba...
Cedo, na manhã de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libania, fui
bater, devagar, ao quarto da titi, ainda adormecida no seu leito
castissimo. Senti, por sobre o tapete, aproximar-se o som molle dos seus
chinelos. Entreabriu pudicamente a porta; e, decerto em camisa,
estendeu-me, através da fenda, a sua mão escarnada, livida, cheirando a
rapé. Appeteceu-me mordel-a; depuz n'ella um beijo baboso; a titi
murmurou:
--Adeus, menino... Dá muitas saudades ao Senhor!
Desci a escadaria, já de capacete, sobraçando o meu _Guia do Oriente_.
Atraz a Vicencia soluçava.
A minha mala nova de couro, o meu repleto sacco de lona enchiam o coupé
do _Pingalho_. Ainda as andorinhas retardadas cantavam no beiral dos
telhados; na capella de Sant'Anna tocava para a missa. E um raio de sol,
vindo do Oriente, vindo lá da Palestina ao meu encontro, banhou-me a
face, acolhedor e risonho, como uma caricia do Senhor.
Fechei a tipoia, estirei-me, gritei: «Larga, _Pingalho_!»
E, romeiro abastado, soprando á brisa o fumo do meu cigarro--assim
deixei o portão de minha tia, em caminho para Jerusalem!
II
Foi n'um domingo e dia de S. Jeronymo que meus pés latinos pisaram
emfim, no caes de Alexandria, a terra do Oriente, sensual e religiosa.
Agradeci ao Senhor da Boa Viagem. E o meu companheiro, o illustre
Topsius, Doutor allemão pela Universidade de Bonn, socio do _Instituto
imperial de Excavações historicas_, murmurou, grave como n'uma
invocação, desdobrando o seu vastissimo guardasol verde:
--Egypto! Egypto! Eu te saúdo, negro Egypto! E que me seja em ti
propicio o teu Deus Phtah, Deus das Letras, Deus da Historia, inspirador
da obra de Arte e da obra de Verdade!...
Através d'este zumbido scientifico eu sentia-me envolvido n'um bafo
morno como o d'uma estufa, amollecedormente tocado d'aromas de sandalo e
rosa. No caes faiscante, entre fardos de lã, estirava-se, banal e sujo,
o barracão da Alfandega. Mas além as pombas brancas voavam em torno aos
minaretes brancos; o ceu deslumbrava. Cercado de severas palmeiras, um
languido palacio dormia á beira d'agua; e ao longe perdiam-se os areaes
da antiga Lybia, esbatidos n'uma poeirada quente, livre, e da côr d'um
leão.
Amei logo esta terra de indolencia, de sonho e de luz. E saltando para a
caleche forrada de chita, que nos ia levar ao _Hotel das Pyramides_,
invoquei as Divindades, como o illustrado Doutor de Bonn:
--Egypto, Egypto! Eu te saúdo, negro Egypto! E que me seja propicio...
--Não! que vos seja propicia, D. Raposo, Isis, a vacca amorosa! acudiu o
eruditissimo homem, risonho, e abraçado á minha chapeleira.
Não comprehendi, mas venerei. Eu conhecêra Topsius em Malta, uma fresca
manhã, estando a comprar violetas a uma ramalheteira que tinha já nos
olhos grandes um langor musulmano: elle andava medindo consideradamente
com o seu guardasol as paredes marciaes e monasticas do palacio do
Grão-Mestre.
Persuadido que era um dever espiritual e doutoral, n'estas terras do
Levante, cheias de historia, medir os monumentos da antiguidade, tirei o
meu lenço e fui-o gravemente passeando, esticado como um covado, sobre
as austeras cantarias. Topsius dardejou-me logo, por cima dos oculos
d'ouro, um olhar desconfiado e ciumento. Mas tranquillisado, de certo,
pela minha face jucunda e material, pelas minhas luvas almiscaradas,
pelo meu futil raminho de violetas--ergueu cortezmente de sobre o longo
cabello, corredio e côr de milho, o seu bonésinho de sêda preta. Eu
saudei com o meu capacete de cortiça; e communicamos. Disse-lhe o meu
nome, a minha patria, os santos motivos que me levavam a Jerusalem. Elle
contou-me que nascêra na gloriosa Allemanha; e ia tambem á Judêa, depois
á Galilêa, n'uma peregrinação scientifica, colhêr notas para a sua
formidavel obra, a _Historia dos Herodes_. Mas demorava-se em Alexandria
a amontoar os pesados materiaes de outro livro monumental, a _Historia
dos Lagidas_... Porque estas duas turbulentas familias, os Herodes e os
Lagidas, eram propriedade historica do doutissimo Topsius.
--Então, ambos com o mesmo roteiro, podiamos acamaradar, Doutor Topsius!
Elle espigado, magrissimo e pernudo, com uma rabona curta de lustrina
enchumaçada de manuscriptos, cortejou gostosamente:
--Pois acamarademos, D. Raposo! Será uma deleitosa economia!
Encovado na gola, de guedelha cahida, o nariz agudo e pensativo, a calça
esguia,--o meu erudito amigo parecia-me uma cegonha, risivel e cheia de
letras, com oculos d'ouro na ponta do bico. Mas já a minha animalidade
reverenciava a sua intellectualidade: e fômos beber cerveja.
A sabedoria n'este moço era dom hereditario. Seu avô materno, o
naturalista Shlock, escreveu um famoso tratado em oito volumes sobre a
_Expressão physionomica dos Lagartos_, que assombrou a Allemanha. E seu
tio, o decrepito Topsius, o memoravel egyptologo, aos setenta e sete
annos dictou da poltrona, onde o prendia a gota, esse livro genial e
facil--a _Synthese monotheista da Theogonia egypcia, considerada nas
relações do Deus Phtah e do Deus Imhotep com as Triadas dos Nómos_.
O pai de Topsius, desgraçadamente, através d'esta alta sciencia
domestica, permanecia figle n'um a charanga, em Munich: mas o meu
camarada, reatando a tradição, logo aos vinte e dois annos tinha
esclarecido, radiantemente, em dezenove artigos publicados no _Boletim
hebdomadario de Excavações historicas_, a questão, vital para a
Civilisação, d'uma parede de tijolo erguida pelo rei Pi-Sibkmé, da
vigesima primeira dynastia, em torno do templo de Ramèses II, na
lendaria cidade de Tanis. Em toda a Allemanha scientifica, hoje, a
opinião de Topsius ácerca d'esta parede brilha com a irrefutabilidade do
sol.
Só conservo de Topsius recordações suaves ou elevadas. Já sobre as aguas
bravias do mar de Tyro; já nas ruas fuscas de Jerusalem; já dormindo
lado a lado, sob a tenda, junto aos destroços de Jerichó; já pelas
estradas verdes de Galilêa--encontrei-o sempre instructivo, serviçal,
paciente e discreto. Raramente comprehendia as suas sentenças, sonoras e
bem cunhadas, tendo a preciosidade de medalhas d'ouro; mas, como diante
da porta impenetravel d'um santuario, eu reverenciava, por saber que lá
dentro, na sombra, refulgia a essencia pura da Idéa. Por vezes tambem o
Doutor Topsius rosnava uma praga immunda; e então uma grata communhão se
estabelecia entre elle e o meu singelo intellecto de bacharel em leis.
Ficou-me a dever seis moedas;--mas esta diminuta migalha de pecunia
desapparece na copiosa onda de saber historico com que fecundou o meu
espirito. Uma coisa apenas, além do seu pigarro d'erudito, me
desagradava n'elle--o habito de se servir da minha escova de dentes.
Era tambem intoleravelmente vaidoso da sua patria. Sem cessar, erguendo
o bico, sublimava a Allemanha, mãi espiritual dos povos; depois
ameaçava-me com a irresistibilidade das suas armas. A omnisciencia da
Allemanha! A omnipotencia da Allemanha! Ella imperava, vasto acampamento
entrincheirado d'in-folios, onde ronda e falla d'alto a Metaphysica
armada! Eu, brioso, não gostava d'estas jactancias. Assim, quando no
_Hotel das Pyramides_ nos apresentaram um livro para n'elle registarmos
nossos nomes e nossas terras, o meu douto amigo traçou o seu «Topsius»,
ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas como
galuchos:--«Da Imperial Allemanha.» Arrebatei a penna; e recordando o
barbudo João de Castro, Ormuz em chammas, Adamastor, a capella de S.
Roque, o Tejo e outras glorias, escrevi largamente em curvas mais
enfunadas que velas de galeões:--«Raposo, Portuguez, d'Áquem e
d'Álém-mar.» E logo, do canto, um moço magro e murcho, murmurou,
suspirando e a desfallecer:
--Em o cavalheiro necessitando alguma coisa, chame pelo Alpedrinha.
Um patricio! Elle contou-me a sua sombria historia, desafivelando a
minha maleta. Era de Trancoso e desgraçado. Tivera estudos, compuzera um
negrologio, sabia ainda mesmo de cór os versos mais doloridos «do nosso
Soares de Passos.» Mas apenas sua mamãsinha morrêra, tendo herdado
terras, correra á fatal Lisboa, a gozar; conheceu logo na travessa da
Conceição uma hespanhola deleitosissima, do adocicado nome de Dulce; e
largou com ella para Madrid, n'um idyllio. Ahi o jogo empobreceu-o, a
Dulce trahiu-o, um _chulo_ esfaqueou-o. Curado e macilento passou a
Marselha; e durante annos arrastou como um frangalho social, através de
miserias inenarraveis. Foi sacristão em Roma. Foi barbeiro em Athenas.
Na Morêa, habitando uma choça junto a um pantano, empregára-se na
pavorosa pesca das sanguesugas; e de turbante, com ôdres negros ao
hombro, apregoou agua pelas viellas de Smyrna. O fecundo Egypto
attrahira-o sempre, irresistivelmente... E alli estava no _Hotel das
Pyramides_, moço de bagagens e triste.
--E se o cavalheiro trouxesse por ahi algum jornal da nossa Lisboa, eu
gostava de saber como vai a Politica.
Concedi-lhe generosamente todos os _Jornaes de Noticias_ que embrulhavam
os meus botins.
O dono do hotel era um grego de Lacedemonia, de bigodes ferozes, e que
_hablaba un poquitito el castellano_. Respeitosamente elle proprio, têso
na sua sobrecasaca preta ornada d'uma condecoração, nos conduziu á sala
do almoço--_la más preciosa, sin duda, de todo el Oriente, caballeros_!
Sobre a mesa murchava um ramo grosso de flôres escarlates: no frasco do
azeite fluctuavam familiarmente cadaveres de moscas; as chinelas do
criado topavam a cada instante um velho _Jornal dos Debates_, manchado
de vinho, rojando alli desde a vespera, pisado por outras chinelas
indolentes: e no tecto, a fumaraça fetida dos candieiros de latão
juntára nuvens pretas ás nuvens côr de rosa onde esvoaçavam anjos e
andorinhas. Por baixo da varanda uma rebeca e uma harpa tocavam a
_Mandolinata_. E emquanto Topsius se alagava de cerveja, eu sentia
estranhamente crescer o meu amor por esta terra de preguiça e de luz.
Depois do café, o meu sapientissimo amigo, com o lapis dos apontamentos
na algibeira da rabona, abalou a rebuscar antigualhas e pedras do tempo
dos Ptolomeus. Eu, accendendo um charuto, reclamei Alpedrinha; e
confiei-lhe que desejava, sem tardança, ir rezar e ir amar. Rezar era
por intenção da tia Patrocinio, que me recommendára uma jaculatoria a S.
José, apenas pisasse esse sólo do Egypto, tornado, desde a fuga da Santa
Familia em cima do seu burrinho, chão devoto como o d'uma Sé. Amar era
por necessidade do meu coração, ancioso e ardido. Alpedrinha, em
silencio, ergueu as persianas, e mostrou-me uma clara praça, ornamentada
ao centro por um heroe de bronze, cavalgando um corcel de bronze: uma
aragem quente levantava poeiradas lentas por sobre dois tanques seccos;
e em redor perfilavam-se no azul altos predios, hasteando cada um a
bandeira da sua patria como cidadellas rivaes sobre um sólo vencido.
Depois o triste Alpedrinha indicou-me, a uma esquina, onde uma velha
vendia canas d'assucar, a tranquilla rua das Duas Irmãs. Ahi (murmurou
elle) eu veria, pendurada sobre a porta d'uma lojinha discreta, uma
pesada mão de pau, tosca e rôxa--e por cima, em taboleta negra, estes
dizeres convidativos a ouro: «Miss Mary, Luvas e Flores de Cera.» Era
esse o refugio que elle aconselhava ao meu coração. Ao fundo da rua,
junto d'uma fonte chorando entre arvores, havia uma capella nova onde a
minha alma acharia consolação e frescura.
--E diga o cavalheiro a miss Mary que vai de mandado do _Hotel das
Pyramides_.
Puz uma rosa ao peito--e sahi, ovante. Logo da entrada das Duas Irmãs
avistei a ermidinha virginal, dormindo castamente sob os platanos, ao
rumor meigo da agua. Mas o amantissimo patriarcha S. José estava
certamente, a essa hora, occupado em receber jaculatorias mais
instantes, e evoladas de labios mais nobres: não quiz importunar o
bondosissimo santo;--e parei diante da mão de pau, pintada de rôxo, que
parecia estar alli esperando, alongada e aberta, para empolgar o meu
coração.
Entrei, commovido. Por traz do balcão envernizado, junto a um vaso de
rosas e magnolias, ella estava lendo o seu _Times_, com um gato branco
no collo. O que me prendeu logo foram os seus olhos azues-claros, d'um
azul que só ha nas porcelanas, simples, celestes, como eu nunca vira na
morena Lisboa. Mas encanto maior ainda tinham os seus cabellos, crespos,
frisadinhos como uma carapinha d'ouro, tão dôces e finos que appetecia
ficar eternamente e devotamente a mexer-lhes com os dedos tremulos; e
era irresistivel o profano nimbo luminoso que elles punham em torno da
sua face gordinha, d'uma brancura de leite onde se desfez carmezim, toda
tenra e succulenta. Sorrindo, e baixando com sentimento as pestanas
escuras, perguntou-me se eu queria _pellica_ ou _Suecia_.
Eu murmurei, roçando-me sôfregamente pelo balcão:
--Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.
Ella escolheu entre o ramo um timido botão de rosa, e deu-m'o na ponta
dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade d'esta caricia
pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais quente veio afoguear-lhe a
face--e chamou-me baixo «mausinho!» Esqueci S. José e a sua
jaculatoria--e as nossas mãos, um momento unidas para ella me calçar a
luva clara, não se desenlaçaram mais, n'essas semanas que passei, na
cidade dos Lagidas, em festivas delicias musulmanas!
Ella era d'York, esse heroico condado da velha Inglaterra, onde as
mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como as rosas dos seus
jardins reaes. Por causa da sua meiguice e do seu riso d'ouro quando lhe
fazia cocegas, eu puzera-lhe o nome galante e cacarejante de
_Maricoquinhas_. Topsius, que a apreciava, chamava-lhe «a nossa
symbolica Cleopatra.» Ella amava a minha barba negra e potente: e, só
para não me afastar do calor das suas saias, eu renunciei a vêr o Cairo,
o Nilo, e a eterna Esphinge, deitada á porta do deserto, sorrindo da
Humanidade vã...
Vestido de branco como um lirio, eu gozava manhãs ineffaveis, encostado
ao balcão da Mary, amaciando respeitosamente a espinha do gato. Ella era
silenciosa: mas o seu simples sorrir com os braços cruzados, ou o seu
modo gentil de dobrar o _Times_, saturava o meu coração de luminosa
alegria. Nem precisava chamar-me «seu portuguezinho valente, seu
bibichinho.» Bastava que o seu peito arfasse:--só para vêr aquella dôce
onda languida, e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos,
eu teria vindo de tão longe a Alexandria, iria mais longe, a pé, sem
repouso, até onde as aguas do Nilo são brancas!
De tarde, na caleche de chita com o nosso doutissimo Topsius, davamos
lentos, amorosos passeios á beira do canal Mamoudieh. Sob as frondosas
arvores, rente aos muros de jardins de serralho, eu sentia o aroma
perturbador de magnolias, e outros calidos perfumes que não conhecia.
Por vezes uma leve flôr rôxa ou branca cahia-me sobre o regaço: com um
suspiro eu roçava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ella,
sensivel, estremecia. Na agua jaziam as barcas pesadas que sobem o Nilo,
sagrado e bemfazejo, ancorando junto ás ruinas dos templos, costeando as
ilhas verdes onde dormem os crocodilos. Pouco a pouco a tarde cahia.
Vagarosamente rolavamos na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de
Goethe. E as palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente
amarello--como feitas em relevo de bronze sobre uma lamina d'ouro.
Maricocas jantava sempre comnosco no _Hotel das Pyramides_; e diante
d'ella Topsius desabrochava todo em flôres d'erudição amavel.
Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos Ptolomeus, no
canal que levava a Canopia: ambas as margens resplandeciam de palacios e
de jardins; as barcas, com toldos de sêda, vogavam ao som dos alaúdes;
os sacerdotes d'Osiris, cobertos de pelles de leopardo, dançavam sob os
laranjaes; e nos terraços abrindo os véos, as damas d'Alexandria bebiam
á Venus Assyria, pelo calice da flôr do lotus. Uma voluptuosidade
esparsa amollecia as almas. Os philosophos mesmo eram frascarios.
--E, dizia Topsius requebrando o olho, em toda a Alexandria só havia uma
dama honesta que commentava Homero e era tia de Seneca. Só uma!
Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver n'essa Alexandria, e navegar
para Canopia, n'uma barca toldada de sêda!
--Sem mim? gritava eu, ciumento.
Ella jurava que sem o seu portuguezinho valente não queria habitar nem o
céo!
Eu, regalado, pagava o _champagne_.
E os dias assim foram passando, leves, flaccidos, gostosos, repicados de
beijos--até que chegou a vespera sombria de partirmos para Jerusalem.
--O cavalheiro, dizia-me n'essa manhã Alpedrinha engraxando os meus
botins, o que devia era ficar aqui na Alexandriasinha, a refocilar...
Ah! se pudesse! Mas irrecusaveis eram os mandados da titi! E, por amor
do seu ouro, lá tinha d'ir á negra Jerusalem, ajoelhar diante de
oliveiras seccas, desfiar rosarios piedosos ao pé de frios sepulchros...
--Tu já estiveste em Jerusalem, Alpedrinha? perguntei, enfiando
desconsoladamente as ceroulas.
--Não senhor, mas sei... Peor que Braga!
--Irra!
A nossa cêa com Maricocas, á noite, no meu quarto, foi cortada de
silencios, de suspiros: as velas tinham a melancolia de tochas: o vinho
anuviava-nos como aquelle que se bebe nos funeraes. Topsius offertava
consolações generosas.
--Bella dama, bella dama, o nosso Raposo ha de voltar... Estou mesmo
certo que trará da ardente terra da Syria, da terra da Venus e da Esposa
dos Cantares, uma chamma no seu coração mais fogosa e mais moça...
Eu mordia o beiço, suffocado:
--Pois está visto! Ainda havemos d'andar de caleche pelo Mamoudieh...
Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvario... Até me faz bem...
Volto como um touro.
Depois do café fomos encostar-nos á varanda a olhar, calados, aquella
sumptuosa noite do Egypto. As estrellas eram como uma grossa poeirada de
luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sósinho pelas
estradas do céo. O silencio tinha uma solemnidade de sacrario. Nos
escuros terraços, em baixo, uma fórma branca movendo-se por vezes, de
leve, mostrava que outras creaturas estavam alli, como nós, deixando a
alma embeber-se mudamente no esplendor sideral: e n'esta diffusa
religiosidade, igual á d'uma multidão pasmando para os lumes d'um
altar-mór, eu sentia subir aos labios irresistivelmente a doçura d'uma
Ave-Maria...
Ao longe o mar dormia. E, á quente irradiação dos astros, eu podia
distinguir, n'um pontal de arêa, mergulhando quasi n'agua, uma casa
deserta, pequenina, toda branca e poetica entre duas palmeiras... Então
comecei a pensar que, mal a titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu
poderia comprar esse dôce retiro, forral-o de lindas sêdas, e viver ao
lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas
as inquietações da civilisação. Desaggravos ao Sagrado Coração de Jesus
ser-me-hiam tão indifferentes como as guerras que entre si travassem os
Reis. Do céo só me importaria a luz anilada que banhasse a minha
vidraça; da terra só me importariam as flôres abertas no meu jardim para
aromatisar a minha alegria. E passaria os dias n'uma fôfa preguiça
oriental, fumando o puro Latakié, tocando viola franceza, e recebendo
perpetuamente essa impressão de felicidade perfeita que a Mary me dava
só com deixar arfar o seio e chamar-me «seu portuguezinho valente.»
Apertei-a contra mim n'um desejo de a sorver. Junto á sua orelha, d'uma
brancura de concha branca, balbuciei nomes ineffaveis: disse-lhe
_rechonchudinha_, disse-lhe _riquiquitinha_. Ella estremeceu, ergueu os
olhos magoados para a poeirada d'ouro.
--Que d'estrellas! Deus queira que ámanhã o mar esteja manso!
Então, á idéa d'essas longas ondas que me iam levar á rispida terra do
Evangelho, tão longe da minha Mary, um pezar infinito afogou-me o
peito--e irrepressivelmente se me escapou dos labios, em gemidos
entoados, queixosos e requebrados... Cantei. Por sobre os terraços
adormecidos da musulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para
as estrellas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam
estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos--suspirei o
_fado_ mais sentido da saudade portugueza:
Co'a minh'alma aqui te ficas,
Eu parto só com os meus ais,
E tudo me diz, Maricas,
Que não te verei nunca mais.
Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quiz saber se estes dôces
versos eram de Luiz de Camões. Eu, choramigando, disse-lhe que
estes--ouvira-os no Dáfundo ao _Calcinhas_.
Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta _Calcinhas_. Eu fechei
a vidraça: e depois d'ir ao corredor fazer ás escondidas um rapido
signal da cruz, vim desapertar sôfregamente, e pela vez derradeira, os
atacadores do collete da minha saborosa bem-amada.
Breve, avaramente breve, foi essa noite estrellada do Egypto!
Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemonia avisar-me que já
fumegava na bahia, aspera e cheia de vento, _el paquete_, ferozmente
chamado o _Caimão_, que me devia levar para as tristezas d'Israel.
_El señor D. Topsius_, madrugador, já estava em baixo a almoçar
pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de
cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da
commoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a nevoa das
lagrimas. A minha solida mala de couro atravancava o corredor, fechada e
afivelada; mas Alpedrinha estava ainda accommodando, á pressa, a roupa
suja dentro do sacco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente á
borda do leito, com o seu gentil chapéo enfeitado de papoulas e as
olheirinhas pisadas--contemplava aquelle enfardelar de flanellas, como
se fossem bocados do seu coração atirados para o fundo do sacco, para
partirem e não voltarem mais!
--Levas tanta roupa suja, Theodorico!
Balbuciei, dilacerado:
--Manda-se lavar em Jerusalem com a ajuda de Nosso Senhor!
Deitei os meus bentinhos ao pescoço. N'esse instante Topsius assomava á
porta, cachimbando, com a barraca do seu guardasol fechada sob o braço,
de galochas anchas para a humidade do tombadilho--e um volume da Biblia
enchumaçando-lhe a rabona d'alpaca. Ao vêr-me sem collete, reprehendeu a
minha amorosa preguiça.
--Mas comprehendo, bella dama, comprehendo! acudiu elle, ás cortezias a
Mary, esgrouviado e onduloso, d'oculos na ponta do bico. É doloroso
deixar os braços de Cleopatra... Já Antonio por elles perdeu Roma e o
mundo... Eu mesmo, todo absorvido na minha missão, com recantos
crepusculares da Historia a alumiar, levo gratas memorias d'estes dias
de Alexandria... Deliciosissimos os nossos passeios pelo Mamoudieh!...
Permitta-me que apanhe a sua luva, bella dama!... E se voltar jámais a
esta terra dos Ptolomeus, não me esquecerá a rua das _Duas irmãs_...
«Miss Mary, luvas e flôres de cêra.» Perfeitamente. Consentirá que lhe
mande, quando completa, a minha _Historia dos Lagidas_... Ha detalhes
muito picantes... Quando Cleopatra se apaixonou por Herodes, o rei da
Judêa...
Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava, alvoroçado:
--Cavalheiro! Ainda ha aqui roupa suja!
Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de
rendas, com laços de sêda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma
saudoso de violeta e d'amor... Ai! era a camisa de dormir da Mary,
quente ainda dos meus abraços!
--Pertence á snr.^a D. Mary! É a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando
os suspensorios.
A minha luveirinha ergueu-se, tremula, descórada--e teve um poetico
rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-m'a para os braços, tão
ardentemente, como se entre as dobras viesse tambem o seu coração.
--Dou-t'a, Theodorico! Leva-a, Theodorico! Ainda está amarrotada da
nossa ternura!... Leva-a para dormires com ella ao teu lado, como se
fosse commigo... Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra,
uma dedicatoria!
Correu á mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia á
titi a historia edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites
consumidas a embeber-me do Evangelho... E eu, com a camisinha perfumada
nos braços, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas,
procurava angustiosamente em redor onde guardar aquella preciosa
reliquia d'amor. As malas estavam fechadas. O sacco de lona estalava,
repleto.
Topsius, impaciente, tirára das profundezas do seio o seu relogio de
prata. O nosso Lacedemonio, á porta, rosnava:
--_D. Theodorico, es tarde, es mui tarde_...
Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ella
traçára, largas, impetuosas e francas como o seu amor: «_Ao meu
Theodorico, meu portuguezinho possante, em lembrança do muito que
gozámos_!»
--Oh, riquinha! E onde hei de eu metter isto? Eu não hei de levar a
camisa nos braços, assim núa e ao léo!
Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o sacco. Então
Maricoquinhas, com uma inspiração delicada, agarrou uma folha de papel
pardo, apanhou do chão um nastro vermelho; e as suas habilidosas mãos de
luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, commodo e
gracioso--que eu metti debaixo do braço, apertando-o com avara,
inflammada paixão.
Depois foi um murmurio arrebatado de soluços, de beijos, de doçuras...
--Mary, anjo querido!
--Theodorico, amor!...
--Escreve-me para Jerusalem...
--Lembra-te da tua bichaninha bonita...
Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeára,
enlaçado com Mary, por sob os arvoredos aromaticos do Mamoudieh--lá
partiu, ao trote da parelha branca, arrancando-me a uma felicidade onde
o meu coração deitára raizes, agora despedaçadas e gottejando sangue no
silencio do meu peito. O douto Topsius, abarracado sob o seu guardasol
verde, recomeçára, impassivel, a murmurar coisas de velha erudição.
Sabia eu por onde iamos rodando? Por sobre a nobre calçada dos
Sete-Stados, que o primeiro dos Lagidas construira para communicar com a
ilha de Pharos, louvada nos versos de Homero! Nem o escutava, debruçado
para traz, na caleche, agitando o lenço molhado da minha saudade. A dôce
Maricoquinhas, á porta do Hotel, ao lado d'Alpedrinha, linda sob o
chapéo florido de papoulas, fazia esvoaçar tambem o seu lenço amoroso e
acariciador: e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram uma
para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos corações. Depois eu cahi
sobre a almofada de chita como cae um corpo morto...
Apenas embarcado no _Caimão_, corri a esconder no beliche a minha dôr.
Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar sitios das grandezas
dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a enseada de marmore onde ancoravam
as galeras de Cleopatra. Fugi; na escada esbarrei, quasi rolei sobre uma
Irmã da Caridade, que subia timidamente com as suas contas na mão.
Rosnei um «desculpe, minha santinha.» E tombando emfim no catre, deixei
escapar o pranto á larga, por cima do embrulho de papel pardo: elle era
tudo que me restava d'essa paixão de incomparavel esplendor, passada na
terra do Egypto.
Dois dias e duas noites o _Caimão_ arquejou e rolou nos vagalhões do mar
de Tyro. Enrodilhado n'um cobertor, sem largar do peito o embrulhinho da
Mary, eu recusava com odio as bolachas que de vez em quando me trazia o
humanissimo Topsius; e desattento ás coisas eruditas que elle
imperturbavelmente me contava d'estas aguas chamadas pelos egypcios o
_Grande Verde_, rebuscava debalde na memoria bocados soltos de uma
oração que ouvira á titi para amansar as vagas iradas.
Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceu-me sentir
sob as chinelas um chão firme, chão de rocha, onde cheirava a
rosmaninho: e achei-me incomprehensivelmente a subir uma collina agreste
de companhia com a Adelia, e com a minha loura Mary--que sahira de
dentro do embrulho, fresca, nitida, sem ter sequer amarrotado as
papoulas do seu chapéo! Depois, por traz d'um penedo, surgiu-nos um
homem nú, colossal, tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam,
vermelhos como vidros redondos de lanternas; e com o rabo infindavel ia
fazendo no chão o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas
seccas. Sem nos cortejar, impudentemente, poz-se a marchar ao nosso
lado. Eu percebi bem que era o Diabo; mas não senti escrupulo, nem
terror. A insaciavel Adelia atirava olhadellas obliquas á potencia dos
seus musculos. Eu dizia-lhe, indignado: «Porca, até te serve o Diabo?»
Assim marchando, chegámos ao alto do monte--onde uma palmeira se
desgrenhava sobre um abysmo cheio de mudez e de treva. Defronte de nós,
muito longe, o céo desdobrava-se como um vasto estofo amarello: e sobre
esse fundo vivo, côr de gema d'ovo, destacava um negrissimo outeiro,
tendo cravadas no alto tres cruzinhas em linha, finas e d'um só traço. O
Diabo, depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: «A do meio é
a de Jesus, filho de José, a quem tambem chamam o Christo; e chegamos a
tempo para saborear a Ascensão.» Com effeito! A cruz do meio, a do
Christo, desairragada do outeiro, como um arbusto que o vento arranca,
começou a elevar-se, lentamente, engrossando, atravancando o céo. E logo
de todo o espaço voaram bandos de anjos, a sustel-a, apressados como as
pombas quando acodem ao grão; uns puxavam-na de cima, tendo-lhe amarrado
ao meio longas cordas de sêda; outros, de baixo, empurravam-na--e nós
viamos o esforço entumecido dos seus braços azulados. Por vezes do
madeiro desprendia-se, como uma cereja muito madura, uma grossa gotta de
sangue: um seraphim recolhia-a nas mãos e ia collocal-a sobre a parte
mais alta do céo, onde ella ficava suspensa e brilhando com o resplendor
d'uma estrella. Um ancião enorme de tunica branca, a que mal
distinguiamos as feições, entre a abundancia da coma revolta e os flocos
de barbas nevadas, commandava, estirado entre nuvens, estas manobras da
Ascensão, n'uma lingua semelhante ao latim e forte como o rolar de cem
carros de guerra. Subitamente tudo desappareceu. E o Diabo, olhando para
mim, pensativo: «_Consummatum est_, amigo! Mais outro Deus! Mais outra
Religião! E esta vai espalhar em terra e céo um inenarravel tedio.»
E logo, levando-me pela collina abaixo, o Diabo rompeu a contar-me
animadamente os Cultos, as Festas, as Religiões que floreciam na sua
mocidade. Toda esta costa do Grande Verde, então, desde Byblos até
Carthago, desde Eleusis até Memphis, estava atulhada de deuses. Uns
deslumbravam pela perfeição da sua belleza, outros pela complicação da
sua ferocidade. Mas todos se misturavam á vida humana, divinisando-a:
viajavam em carros triumphaes, respiravam as flôres, bebiam os vinhos,
defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com um amor que
não mais voltará: e os povos, emigrando, podiam abandonar os seus gados
ou esquecer os rios onde tinham bebido--mas levavam carinhosamente os
seus deuses ao collo. «O amigo, perguntou elle, nunca esteve em
Babylonia?» Ahi todas as mulheres, matronas ou donzellas, se vinham um
dia prostituir nos bosques sagrados, em honra da deusa Mylitta. As mais
ricas chegavam em carros marchetados de prata, puxados a búfalos, e
escoltadas d'escravas; as mais pobres traziam uma corda ao pescoço.
Umas, estendendo um tapete na herva, agachavam-se como rezes pacientes;
outras, erguidas, núas, brancas, com a cabeça escondida n'um véo preto,
eram como esplendidos marmores entre os troncos dos alamos. E todas
assim esperavam que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes
dissesse: «Em nome de Venus!» Seguiam-no então, fosse um principe vindo
de Suza com tiara de perolas, ou o mercador que desce o Euphrates no seu
barco de couro: e toda a noite rugia na escuridão das ramagens o delirio
da Luxuria ritual. Depois o Diabo disse-me as fogueiras humanas de
Molok, os Mysterios da Boa-Deusa em que os lirios se regavam com sangue,
e os ardentes funeraes d'Adonis...
E parando, risonhamente: «o amigo nunca esteve no Egypto?» Eu disse-lhe
que estivera e conhecera lá Maricocas. E o Diabo, cortez: «Não era
Maricocas, era Isis!» Quando a inundação chegava até Memphis, as aguas
cobriam-se de barcas sagradas, Uma alegria heroica, subindo para o sol,
fazia os homens iguaes aos deuses. Osiris, com os seus cornos de boi,
montava Isis; e, entre o estridor das harpas de bronze, ouvia-se por
todo o Nilo o rugido amoroso da Vacca divina.
Depois o Diabo contava-me como brilhavam, dôces e bellas, na Grecia as
religiões da Natureza. Ahi tudo era branco, polido, puro, luminoso e
sereno: uma harmonia sahia das fórmas dos marmores, da constituição das
cidades, da eloquencia das academias e das destrezas dos athletas: por
entre as ilhas da Ionia, fluctuando na molleza do mar mudo como cestas
de flôres, as Nereidas dependuravam-se da borda dos navios, para ouvir
as historias dos viajantes; as Musas, de pé, cantavam pelos valles: e a
belleza de Venus era como uma condensação da belleza da Hellenia.
Mas apparecera este carpinteiro de Galilêa--e logo tudo acabára! A face
humana tornava-se para sempre pallida, cheia de mortificação: uma cruz
escura, esmagando a terra, seccava o esplendor das rosas, tirava o sabor
aos beijos:--e era grata ao deus novo a fealdade das fórmas.
Julgando Lucifer entristecido, eu procurava consolal-o: «Deixe estar,
ainda ha de haver no mundo muito orgulho, muita prostituição, muito
sangue, muito furor! Não lamente as fogueiras de Molok. Ha de ter
fogueiras de judeus.» E elle, espantado: «Eu? Uns ou outros, que me
importa, Raposo? Elles passam, eu fico!»
Assim, despercebido, a conversar com Satanaz, achei-me no campo de
Sant'Anna. E tendo parado, emquanto elle desenvencilhava os cornos dos
ramos d'uma das arvores--ouvi de repente ao meu lado um berro: «Olha o
Theodorico com o Porco-sujo!» Voltei-me. Era a titi! A titi, livida,
terrivel, erguendo, para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de
suor--acordei.
Topsius gritava, á porta do beliche, alegremente:
--Levante-se, Raposo! Estamos á vista da Palestina!
O _Caimão_ parára; e no silencio eu sentia a agua roçando-lhe o costado,
de leve, n'um murmurio de mansa caricia. Porque sonhára eu assim, ao
avisinhar-me de Jerusalem, com os Deuses falsos, Jesus seu vencedor, e o
Demonio a todos rebelde? Que suprema revelação me preparava o Senhor?...
* * * * *
Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso
embrulho da Mary, subi ao tombadilho, encolhido no meu jaquetão. Um ar
fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo um aroma de serra e de
flôr de laranjeira. O mar emmudecera, todo azul, na frescura da manhã. E
ante meus olhos peccadores estendia-se a terra da Palestina, arenosa e
baixa--com uma cidade escura, rodeada de pomares, toucada no alto de
flechas de sol irradiando como os raios d'um resplendor de santo.
--Jaffa! gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de louça. Ahi tem o
D. Raposo a mais antiga cidade da Asia, a velhissima Jeppo, anterior ao
Diluvio! Tire o barrete, saúde essa anciã dos tempos, cheia de lenda e
d'historia... Foi aqui que o borrachissimo Noé construiu a sua Arca!
Cortejei, assombrado.
--Caramba! Ainda agora a gente chega, já lhe começam a apparecer coisas
de religião!
E conservei-me descoberto--porque o _Caimão_, ao ancorar diante da Terra
Santa, tomára o recolhimento d'uma capella, cheia de piedosas occupações
e d'unção. Um lazarista, de longa sotaina, passeava, com os olhos
baixos, meditando o seu Breviario. Sumidas dentro dos capuzes negros de
lustrina, duas Religiosas corriam os dedos pallidos pelas contas dos
seus rosarios. Ao longo da amurada humida, peregrinos da Abyssinia,
hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario de Jaffa,
aureolado de sol, como para a illuminação d'um sacrario. E a sineta á
pôpa tilintava, na brisa salgada, com uma doçura devota de toque de
missa...
Mas, vendo uma barcaça escura remar para o _Caimão_,--baixei depressa ao
beliche a pôr o meu capacete de cortiça, calçar luvas pretas, para pisar
decorosamente a terra do meu Salvador. Ao voltar, bem escovado, bem
perfumado, achei a lancha atulhada. E descia, com alvoroço, atraz d'um
franciscano barbudo--quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos meus
braços carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma pella, raspou a
borda do bote... Ia sumir-se nas aguas amargas! Dei um berro! Uma das
Religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de misericordia.
--Agradecido, minha senhora! gritei, enfiado. É um pacotesinho de roupa!
Seja pelo sagrado amor de Maria!
Ella refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como eu me
accommodára, mais longe, entre Topsius e o franciscano barbudo que
cheirava a alho--a santa creatura guardou o embrulho sobre o seu puro
regaço, deitou-lhe mesmo por cima as contas do seu rosario.
O arraes, empunhando o leme, bradou: «Allah é grande, larga!» Os arabes
remaram cantando. O sol surgiu por traz de Jaffa. E eu, encostado ao meu
guardachuva, contemplava a pudica religiosa que assim levava, ao collo,
para a terra de castidade, a camisinha da Mary.
Era nova: e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim o
seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra d'uma dolente
melancolia. Os beiços tinham perdido toda a côr e todo o calor, para
sempre inuteis, destinados sómente a beijar os pés arroxeados do cadaver
d'um Deus. Comparada com Mary, rosa d'York aberta e sensual, perfumando
Alexandria--esta pendia como um lirio ainda fechado e já murcho na
humidade d'uma capella. Ia certamente para algum hospicio da Terra
Santa. A vida para ella devia ser uma successão de chagas a cobrir de
fios e de lençoes a estender por cima de faces mortas. E era decerto o
medo do Senhor que a tornava assim tão pallida.
--Bem tola! murmurei eu.
Pobre e esteril creatura! Percebeu ella por acaso o que continha aquelle
embrulho pardo? Sentiu ella subir de lá, e espalhar-se no escuro do seu
capuz, um perfume estranho e enlanguecedor de baunilha e de pelle
amorosa? A quentura do leito revolto, que ficára nas rendas da camisa,
atravessou por acaso o papel e veio aquecer-lhe brandamente os joelhos?
Quem sabe! Durante um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe
roseou a face desmaiada, e que debaixo do habito, onde brilhava uma
cruz, o seu seio arfou, perturbado: mesmo julguei vêr lampejar, por
entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado procurando as
minhas barbas cerradas e pretas... Mas foi só um relance. Outra vez, sob
o capuz, o rosto recahiu na sua frialdade de marmore santo; e sobre o
seio submettido a cruz pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra
religiosa, rochonchuda e de lunetas, sorria para o verde mar, sorria
para o sabio Topsius--com um sorriso claro que sahia da paz do seu
coração e lhe punha uma covinha no queixo.
Apenas saltámos na arêa da Palestina, corri a agradecer, de capacete na
mão, garboso e palaciano.
--Minha irmã, estou muito penhorado... Grande desgosto se se perdesse o
pacotesinho!... É de minha tia, uma encommenda para Jerusalem... Lá lhe
contarei... A titi é muito respeitadora de coisas santas, pella-se pela
caridade...
Muda, no refolho do seu capuz, ella estendeu-me o embrulhinho com a
ponta dos dedos, debeis e mais transparentes que os d'uma Senhora da
Agonia. E os dois habitos negros sumiram-se, entre muros faiscantes de
cal nova, n'uma viella em escadas onde apodrecia o cadaver d'um cão sob
o vôo dos moscardos. Eu murmurei ainda: «Bem tola!»
Quando me voltei, Topsius, á sombra do seu guardasol, conversava com o
homem prestante--que foi nosso Guia através das terras da Escriptura.
Era moço, moreno, espigado, com longos bigodes esvoaçando ao vento;
usava jaqueta de velludilho e botas brancas de montar; as coronhas
prateadas de duas pistolas, emergindo d'uma facha de lã negra,
armavam-lhe heroicamente o peito forte: e trazia amarrado na cabeça, com
as pontas e as franjas atiradas para traz, um lenço rutilante de sêda
amarella. O seu nome era Paulo Potte, a sua patria o Montenegro: e toda
a costa da Syria o conhecia pelo _alegre Potte_. Jesus, que alegre
matalote! A alegria faiscava-lhe na pupilla azul-clara; a alegria
cantava-lhe nos dentes incomparaveis; a alegria estremecia-lhe nas mãos
buliçosas; a alegria resoava-lhe no bater dos tacões. Desde Ascalon até
aos bazares de Damasco, desde o Carmelo até aos pomares d'Engadi--elle
era o _alegre Potte_. Estendeu-me rasgadamente a bolsa de tabaco
perfumado. Topsius maravilhou-se do seu saber biblico. Eu, com palmadas
pelo ventre, gritei-lhe logo--_meu gajo_! E, depois de valentes apertos
de mão, fomos para o _Hotel de Josaphat_ firmar o nosso contracto,
bebendo vasta cerveja.
O alegrissimo Potte depressa organisou a nossa caravana para a cidade do
Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro arabe, embrulhado n'um
farrapo azul, era tão airoso e lindo que eu, irresistivelmente e sem
cessar, procurava o negro afago do seu olhar de velludo; e, por luxo
oriental, como escolta, seguia-nos um beduino, velho, catarrhoso, com o
albornós de lã de camêlo listrado de cinzento, e uma forte lança
ferrugenta toda enfeitada de borlas.
Guardei n'um alforge, desveladamente, o embrulhinho mimoso da camisinha
da Mary: depois, já na sella, alongados os lóros do pernudo Topsius, o
festivo Potte, floreando o chicote, lançou o antigo grito das Cruzadas e
de Ricardo-Coração-de-Leão--_Avante, a Jerusalem, Deus o quer_! E a
trote, com os charutos em brasa, sahimos de Jaffa pela porta do
Mercado--á hora em que suavemente tocava a vesperas no Hospicio dos
Padres Latinos.
Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se através de jardins,
hortas, pomares, laranjaes, palmeiraes, terra de Promissão,
resplandecente e amavel. Por entre as sebes de myrtos perdia-se o
fugidio cantar das aguas. O ar todo, d'uma doçura ineffavel, como para
n'elle respirar melhor o povo eleito de Deus, era um derramado perfume
de jasmins e limoeiros. O grave e pacifico chiar das noras ia
adormecendo, ao fim do dia de rega, entre as romanzeiras em flôr. Alta e
serena no azul, voava uma grande aguia.
Consolados, parámos n'uma fonte de marmore vermelho e negro, abrigada á
sombra de sycomoros onde arrulhavam rôlas: ao lado erguia-se uma tenda,
com um tapete na relva coberto d'uvas e de malgas de leite; e o velho de
barbas brancas que a occupava saudou-nos em nome de Allah, com a nobreza
de um patriarcha. A cerveja tinha-me feito sêde: foi uma rapariga bella
como a antiga Rachel, que me deu a beber do seu cantaro de fórma
biblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas argolas d'ouro
batendo-lhe a face morena--e um cordeirinho branco e familiar preso da
ponta da tunica.
A tarde descia, muda e dourada, quando penetrámos na planicie de Saron,
que a Biblia outr'ora encheu de rosas. No silencio tilintavam os
chocalhos d'um rebanho de cabras negras, que um arabe ia pastoreando, nú
como um S. João. Lá ao fundo, os montes sinistros da Judêa, tocados pelo
sol obliquo que se afundava sobre o mar de Tyro, pareciam ainda
formosos, azues e cheios de doçura de longe, como as illusões do
peccado. Depois tudo escureceu. Duas estrellas de um resplendor infinito
appareceram:--e começaram a caminhar adiante de nós para os lados de
Jerusalem.
* * * * *
O nosso quarto, no _Hotel do Mediterraneo_, em Jerusalem, com a sua
abobada caiada de branco, o chão de tijolo, semelhava uma rigida cella
de rude mosteiro. Mas, fronteiro á janella, um tabique delgado,
revestido de papel de ramagens azues, dividia-o d'outro quarto, onde nós
sentiamos uma voz fresca cantarolar a _Ballada do rei de Thule_: e ahi,
exhalando conforto e civilisação, brilhava um guarda-roupa de mogno, que
eu abri, como se abre um relicario, para encerrar o meu embrulhinho
bemdito.
Os dois leitosinhos de ferro desappareciam sob as pregas virginaes dos
cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma mesa de pinho, onde
Topsius estudava o mappa da Palestina, emquanto eu, de chinelos,
passeava, limando as unhas. Era a devota sexta-feira em que a
christandade commemora, enternecida, os SS. Martyres d'Evora. Nós
tinhamos chegado n'essa tarde, sob uma chuva triste e miuda, á cidade do
Senhor: e de vez em quando Topsius, erguendo os oculos de cima das
estradas de Galilêa, contemplava-me de braços cruzados e murmurava com
amizade:
--Ora está o amigo Raposo em Jerusalem!
Eu, parando ao espelho, dava um olhar ás barbas crescidas, á face
crestada, e murmurava tambem, agradado:
--É verdade, cá está o bello Raposo em Jerusalem!
E voltava, insaciado, a admirar através dos vidros baços a divina Sião.
Sob a chuva melancolica erguiam-se defronte as paredes brancas d'um
convento silencioso, com as persianas verdes corridas, e duas enormes
goteiras de zinco a cada esquina, uma escoando-se ruidosamente sobre uma
viella deserta--a outra cahindo no chão molle d'uma horta plantada de
couves, onde orneava um jumento. D'esse lado, era uma vastidão
infindavel de telhados em terraço, lugubres e côr de lodo, com uma
cupulasinha de tijolo em fórma de forno, e longas varas para seccar
farrapos; e quasi todos decrepitos, desmantelados, miserrimos, pareciam
desfazer-se na agua lenta que os alagava. Do outro elevava-se uma
encosta atulhada de casebres sordidos, com verduras de quintal,
esfumadas, arripiadas na nevoa humida: por entre elles, torcia-se uma
viella esgalgada, em escadinhas, onde constantemente se cruzavam frades
de alpercatas sob os seus guardachuvas, sombrios judeus de melenas
cahidas, ou algum vagoroso beduino arregaçando o seu albornós... Por
cima pesava o céo pardacento. E assim da minha janella me apparecia a
velha Sião, a bem-edificada, brilhante de claridade, alegria da terra, e
formosa entre as cidades.
--Isto é um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto é peor que
Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um theatro! nada!
Olha que cidade para viver Nosso Senhor!
--Sim! No tempo d'elle era mais divertida, resmungou o meu sapiente
amigo.
E logo me propôz que no domingo partissemos para as margens do
Jordão--onde o reclamavam os seus estudos sobre os Herodes. Ahi eu
poderia ter deleites campestres--banhando-me nas aguas santas, atirando
ás perdizes, entre as palmeiras de Jerichó. Accedi com gosto. E descemos
a comer, chamados por uma sineta de convento, funeraria e badalando na
sombra do corredor.
O refeitorio era tambem abobadado, com uma esteira d'esparto sobre o
chão de ladrilho: e estavamos sós, o erudito investigador dos Herodes e
eu, na mesa tristonha, adornada com flôres de papel em vasinhos
rachados. Remexendo o macarrão de uma sopa dissaborida, murmurei,
succumbido: «Jesus, Topsius, que grande massada!» Mas uma porta de
vidraça ao fundo abriu-se de leve; e logo exclamei, arrebatado:
«Caramba, Topsius, que grande mulher!»
Grande, em verdade! Solida e saudavel como eu; branca, da alvura do
linho muito lavado, e picada de sardas; coroada por uma massa ardente de
cabello ondeado e castanho; presa n'um vestido de sarja azul que os
seios rijos quasi faziam estalar--ella entrou, derramando um fresco
cheiro de sabão Windsor e d'agua de Colonia, e logo alumiou todo o
refeitorio com o esplendor da sua carne e da sua mocidade... O fecundo
Topsius comparou-a á fortissima deusa Cybele.
Cybele sentou-se no topo da mesa, serena e soberba. Ao lado, fazendo
ranger a cadeira com o peso dos seus amplos membros, accommodou-se um
Hercules tranquillo, calvo, de espessas barbas grisalhas--que, no mero
gesto de desdobrar o guardanapo, revelou a omnipotencia do dinheiro e o
envelhecido habito de mandar. Por um _yes_ que ella murmurou comprehendi
que era da terra de Maricocas. E lembrava-me a ingleza do senhor barão.
Ella collocára junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser de
versos: o barbaças, mastigando com o vagar magestoso d'um leão, folheava
tambem, em silencio o seu _Guia do Oriente_. E eu esquecia o meu
carneiro guisado, para contemplar devoradoramente cada uma das suas
perfeições. De vez em quando ella erguia a franja cerrada das suas
pestanas: eu esperava com ancia o dom d'esse claro e suave olhar; mas
ella derramava-o pelos muros caiados, pelas flôres de papel, e deixava-o
recahir, desinteressado e frio, sobre as paginas do seu poema.
Depois do café beijou a mão cabelluda do barbaças; e desappareceu pela
porta envidraçada, levando comsigo o aroma, a luz, e a alegria de
Jerusalem. O Hercules accendeu morosamente o cachimbo; disse ao moço
«que lhe mandasse o Ibrahim, o guia»; levantou-se, pesado e membrudo.
Junto á porta derrubou o guardachuva de Topsius, do venerabilissimo
Topsius, gloria da Allemanha, membro do _Instituto imperial de
Excavações historicas_; e passou--sem o erguer, nem sequer baixar o olho
altivo.
--Irra, bruto! rosnei, a borbulhar de furor.
O meu douto amigo, com a sua cobardia social d'allemão disciplinado,
apanhou o seu guardachuva e escovou-lhe o paninho, murmurando, já
tremulo, que talvez «o barbaças fosse um duque...»
--Qual duque! Para mim não ha duques! Eu sou Raposo, dos Raposos do
Alemtejo... Rachava-o!
Mas a tarde descia--e deviamos fazer a nossa visita reverente ao
sepulchro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o meu chapéo
alto, como promettera á titi; e penetrava no corredor quando vi Cybele
abrir a porta, _junto da nossa porta_, e sahir envolta n'uma capa
cinzenta, com uma gorra onde alvejavam duas pennas de gaivota. O coração
bateu-me no delirio de uma grande esperança. Assim, era ella que
cantarolava a _Ballada do rei de Thule_! Assim, os nossos leitos estavam
apenas separados pelo fino, fragil tabique coberto de ramarias azues!
Nem procurei as luvas pretas: desci n'um alvoroço, certo de que a ia
encontrar no sepulchro de Jesus: e planeava já verrumar no tabique um
buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se nas bellezas
do seu desalinho.
Ainda chovia, lugubremente. Apenas começámos a atolar-nos no enxurro da
Via-Dolorosa, entalada entre muros côr de lodo--chamei Potte para
debaixo do meu guardachuva, perguntei-lhe se vira no hotel a minha forte
e sardenta Cybele. O jucundo Potte já a admirára. E pelo Ibrahim, seu
compadre dilecto, sabia que o barbaças era um escossez, negociante de
cortumes...
--Ahi está, Topsius! gritei eu. Negociante de cortumes... Qual duque! É
uma besta! Eu rachava-o! Em coisas de dignidade sou uma fera. Rachava-o!
A filha, a das bastas tranças, dizia Potte, tinha um nome radiante de
pedra preciosa: chamava-se _Ruby_, rubim. Amava os cavallos, era
arrojada; na Alta Galilêa, d'onde vinham, matára uma aguia negra...
--Ora aqui têm os cavalheiros a casa de Pilatos...
--Deixa lá a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com Pilatos! E então
que diz mais o Ibrahim? Desembucha, Potte!
Alli a Via-Dolorosa estreitava-se, abobadada, como um corredor de
Catacumba. Dois mendigos chaguentos roíam cascas de melões, assapados na
lama e grunhindo. Um cão uivava. E o risonho Potte contava-me que o
Ibrahim vira muitas vezes Miss Ruby enlevada na belleza dos homens da
Syria: de noite, á porta da tenda, emquanto o papá cervejava, ella dizia
versos baixinho, olhando para a palpitação das estrellas. Eu pensava:
«Caramba! tenho mulher!»
--Ora aqui estão os cavalheiros diante do Santo Sepulchro...
Fechei o meu guardachuva. Ao fundo de um adro, de lages descolladas,
erguia-se a fachada d'uma igreja, caduca, triste, abatida, com duas
portas em arco: uma tapada já a pedregulho e cal, como superflua; a
outra timidamente, medrosamente entreaberta. E aos flancos debeis d'este
templo soturno manchado de tons de ruina, collavam-se duas construcções
desmanteladas, do rito latino e do rito grego--como filhas apavoradas
que a Morte alcançou, e que se refugiam ao seio da mãi, meia morta
tambem e já fria.
Calcei então as minhas luvas pretas. E immediatamente, um bando voraz
d'homens sordidos envolveu-nos com alarido, offerecendo reliquias,
rosarios, cruzes, escapularios, bocadinhos de taboas aplainadas por S.
José, medalhas, bentinhos, frasquinhos de agua do Jordão, cirios,
agnus-dei, lithographias da Paixão, flôres de papel feitas em Nazareth,
pedras benzidas, caroços d'azeitona do Monte Olivete, e tunicas «como
usava a Virgem Maria!» E á porta do Sepulchro de Christo, onde a titi me
recommendára que entrasse de rastos, gemendo e rezando a corôa--tive de
esmurrar um malandrão de barbas de ermita, que se dependurára da minha
rabona, faminto, rabido, ganindo que lhe comprassemos boquilhas feitas
de um pedaço da arca de Noé!
--Irra, caramba, larga-me, animal!
E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guardachuva a pingar,
dentro do santuario sublime onde a Christandade guarda o tumulo do seu
Christo. Mas logo estaquei, surprehendido, sentindo um delicioso e grato
aroma de tabaco da Syria. N'um amplo estrado, afofado em divan, com
tapetes da Caramania e velhas almofadas de sêda, reclinavam-se tres
turcos, barbudos e graves, fumando longos cachimbos de cerejeira. Tinham
dependurado na parede as suas armas. O chão estava negro dos seus
escarros. E, diante, um servo em farrapos esperava, com uma taça
fumegante de café, na palma de cada mão.
Pensei que o Catholicismo, previdente, estabelecera á porta do lugar
divino uma _Loja de bebidas e aguas-ardentes_, para conforto dos seus
romeiros. Disse baixo a Potte:
--Grande idéa! Parece-me que tambem vou tomar um cafésinho!
Mas logo o festivo Potte me explicou que esses homens sérios, de
cachimbo, eram soldados musulmanos policiando os altares christãos, para
impedir que em torno ao mausoleu de Jesus se dilacerem por superstição,
por fanatismo, por inveja de alfaias, os Sacerdocios rivaes que alli
celebram os seus Ritos rivaes--Catholicos como o padre Pinheiro, Gregos
orthodoxos para quem a cruz tem quatro braços, Abissynios e Armenios,
Coptas que descendem dos que outr'ora em Memphis adoravam o boi Apis,
Nestorianos que veem da Chaldêa, Georgianos que veem do mar Caspio,
Maronitas que veem do Libano,--todos christãos, todos intolerantes,
todos ferozes!... Então saudei com gratidão esses soldados de Mahomet
que, para manter o recolhimento piedoso em torno do Christo Morto,
serenos e armados velam á porta, fumando.
Logo á entrada parámos diante d'uma lapide quadrada, incrustada nas
lages escuras, tão polida e reluzindo com um tão dôce brilho de nacar
que parecia a agua quieta d'um tanque onde se reflectiam as luzes das
lampadas. Potte puxou-me a manga, lembrou-me que era costume beijar
aquelle pedaço de rocha, santa entre todas, que outr'ora, no jardim de
José d'Arimathêa...
--Bem sei, bem sei... Beijo, Topsius?
--Vá beijando sempre, disse-me o prudente historiographo dos Herodes.
Não se lhe péga nada; e agrada á senhora sua tia.
Não beijei. Em fila e calados, penetrámos n'uma vasta cupula, tão
esfumada no crepusculo que o circulo de frestas redondas na cimalha
brilhava apenas, pallidamente, como um aro de perolas em torno de uma
tiara: as columnas que a sustentavam, finas e juntas como as lanças
d'uma grade, riscavam a sombra em redor--cada uma picada pela mancha
vermelha e mortal d'uma lampada de bronze. Ao centro do lagedo sonoro
elevava-se, espelhado e branco, um Mausoleu de marmore--com lavores e
com florões: um velho, pano de damasco cobria-o como um toldo, recamado
de bordados d'ouro esvaído: e duas alas de tocheiros faziam-lhe uma
avenida de lumes funerarios até á porta, estreita como uma fenda, tapada
por um trapo côr de sangue. Um padre armenio que desapparecia sob o seu
amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente e
mudamente.
Potte puxou-me outra vez pela manga:
--O tumulo!
Oh minha alma piedosa! Oh titi! Ahi estava pois, ao alcance dos meus
labios, o tumulo do meu Senhor!--E immediatamente rompi como um rafeiro,
por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos, a buscar um rosto
gordinho e sardento e uma gorra com pennas de gaivota! Longamente, errei
estonteado... Ora esbarrava n'um franciscano cingido na sua corda
d'esparto; ora me arredava diante d'um padre copta, deslisando como uma
sombra tenue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas
sagradas do tempo d'Osiris. Aqui topava n'um montão de roupagens
brancas, cahido nas lages como um fardo, d'onde se escapavam gemidos de
contrição; adiante tropeçava n'um negro, todo nú, estirado ao pé d'uma
columna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro d'um orgão
resoava, rolava pelos marmores da nave, morria com um susurro de vaga
espraiada: e logo mais longe um canto armenio, tremulo e ancioso, batia
os muros austeros como a palpitação das azas d'uma ave presa que quer
fugir para a luz. Junto d'um altar apartei dois gordos sacristães, um
grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de _birbantes_,
esbrazeados, cheirando a cebola: e fui d'encontro a um bando de romeiros
russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Caspio, com os pés
doloridos embrulhados em trapos, que não ousavam mover-se, enleados de
terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as mãos, d'onde lhes
pendiam grossos rosarios de vidro. Crianças, em farrapos, brincavam na
escuridão das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso
suffocava; e padres de cultos rivaes puxavam-me pela rabona para me
mostrarem reliquias rivaes, heroicas ou divinas--uns as esporas de
Godofredo, outros um pedaço da Cana Verde.
Atordoado, enfileirei-me n'uma procissão penitente--onde eu julgára
entrevêr, brancas, altivas, entre véos pretos d'arrependimento, as duas
pennas de gaivota. Uma carmelita, á frente, resmungava a ladainha,
detendo-nos a cada passo, arrebanhados n'um assombro devoto, á porta de
capellas cavernosas, dedicadas á Paixão--a do _Improperio_ onde o Senhor
foi flagellado, a da _Tunica_ onde o Senhor foi despido. Depois subimos,
de tochas na mão, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha...--E
subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo,
gemendo, flagellando os peitos, clamando pelo Senhor, lugubre e
delirante. Estavamos sobre a Pedra do Calvario.
Em torno a capella que a abriga resplandecia com um luxo sensual e
pagão. No tecto azul-ferrete brilhavam soes de prata, signos do Zodiaco,
estrellas, azas d'anjos, flôres de purpura: e, d'entre este fausto
sideral, pendiam de correntes de perolas os velhos symbolos da
Fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros d'Astarté e de Baccho
d'ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Christo tosco
pintado a ouro--que parecia vibrar, viver através do fulgor diffuso dos
mólhos de lumes, da faiscação das alfaias, do fumo dos aromaticos
ardendo em taças de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas
d'ebano, reflectiam as joias dos retabulos, a refulgencia das paredes
revestidas de jaspe, de nacar e de agatha. E no chão, em meio d'este
clarão precioso de pedraria e luz, emergindo d'entre as lages de marmore
branco--destacava um bocado de rocha bruta e brava com uma fenda
alargada e polida por longos seculos de beijos e de afagos beatos. Um
archidiacono grego, de barbas esqualidas, gritou: «N'esta rocha foi
cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kirie Eleison! Christo!
Christo!» As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre soluços. Um
cantico dolente balançava-se, ao ranger dos incensadores. Kirie Eleison!
Kirie Eleison! E os diaconos perpassavam rapidamente, sôfregamente, com
vastos saccos de velludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as
offrendas dos simples.
Fugi, aturdido e confuso. O sabio historiador dos Herodes passeava no
adro, sob o seu guardachuva, respirando o ar humido. De novo nos
accommetteu o bando esfaimado dos vendilhões de reliquias. Repelli-os
rudemente: e sahi do Santo Lugar como entrára--em peccado e praguejando.
No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impressões
do Sepulchro de Jesus; eu fiquei no pateo cervejando e cachimbando com o
aprazivel Potte. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já
resonava, com a vela accesa--e com um livro aberto sobre o leito, um
livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no paiz do Evangelho, o
_Homem dos tres calções_. Descalçando os botins, sujos da lama veneravel
da Via-Dolorosa--eu pensava na minha Cybele. Em que sacratissimas
ruinas, sob que arvores divinisadas por terem dado sombra ao Senhor,
passára ella essa tarde nevoenta de Jerusalem? Fôra ao valle do Cedron?
Fôra ao branco tumulo de Rachel?...
Suspirei, amoroso e moído: e abria os lençoes bocejando--quando
distinctamente, através do tabique fino, senti um ruido d'agua despejada
n'uma banheira. Escutei, alvoroçado: e logo n'esse silencio negro e
magoado que sempre envolve Jerusalem, me chegou, perceptivel, o som leve
d'uma esponja arremessada na agua. Corri, collei a face contra o papel
de ramagens azues. Passos brandos e nús pisavam a esteira que recobria o
ladrilho de tijolo; e a agua rumorejou, como agitada por um dôce braço
despido que lhe experimentava o calor. Então, abrazado, fui ouvindo
todos os rumores intimos de um longo, lento, languido banho: o espremer
da esponja; o fôfo esfregar da mão cheia de espuma de sabão; o suspiro
lasso e consolado do corpo que se estira sob a caricia da agua tepida,
tocada d'uma gotta de perfume... A testa, tumida de sangue, latejava-me:
e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco, uma fenda.
Tentei verrumal-o com a tesoura; as pontas finas quebraram-se na
espessura da caliça... Outra vez a agua cantou, escoando da esponja:--e
eu, tremendo todo, julgava vêr as gottas vagarosas a escorrer entre o
rego d'esses seios duros e brancos que faziam estalar o vestido de
sarja...
Não resisti: descalço, em ceroulas, sahi ao corredor adormecido; e
cravei á fechadura, da sua porta um olho tão esbugalhado, tão
ardente--que quasi receava feril-a com a devorante chamma do seu raio
sanguineo... Enxerguei n'um circulo de claridade uma toalha cahida na
esteira, um roupão vermelho, uma nesga do alvo cortinado do seu leito. E
assim agachado, com bagas de suor no pescoço, esperava que ella
atravessasse, núa e esplendida, n'esse disco escasso de luz--quando
senti de repente, por traz, uma porta ranger, um clarão banhar a parede.
Era o barbaças, em mangas de camisa, com o seu castiçal na mão! E eu,
miserrimo Raposo, não podia escapar. D'um lado estava elle, enorme. Do
outro o topo do corredor, maciço.
Vagarosamente, calado, com methodo, o Hercules pousou a vela no chão,
ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas... Eu
rugi: «bruto!» Elle ciciou: «silencio!» E outra vez, tendo-me alli
acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou
tremendamente quadris, nadegas, canellas, a minha carne toda, bem
cuidada e preciosa! Depois, tranquillamente, apanhou o seu castiçal.
Então eu, livido, em ceroulas, disse-lhe com immensa dignidade:
--Sabe o que lhe vale, seu bife? É estarmos aqui ao pé do tumulo do
Senhor, e eu não querer dar escandalos por causa de minha tia... Mas se
estivessemos em Lisboa, fóra de portas, n'um sitio que eu cá sei,
comia-lhe os figados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta,
comia-lhe os figados!
E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções
d'arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sião.
Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao monte das
Oliveiras, á fonte clara de Siloé. Eu, dorido, não podendo montar a
cavallo, fiquei no sofá de riscadinho com o _Homem dos tres calções_. E
até para evitar o affrontoso barbaças não desci ao refeitorio,
pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar o sol no mar de
Tyro--estava restabelecido e vivaz: Potte preparára para essa noite uma
festividade sensual em casa da Fatmé, matrona bem acolhedoura, que tinha
no Bairro dos Armenios um dôce pombal de pombas: e nós iamos lá
contemplar a gloriosa bailadeira da Palestina, a _Flôr de Jerichó_, a
saracotear essa dansa da _Abelha_, que esbrazêa os mais frios e deprava
os mais puros...
A recatada portinha da Fatmé, ornada d'um pé de vinha secca, abria-se ao
canto d'um muro negro junto á Torre de David. Fatmé esperava-nos,
magestosa e obesa, envolta em véos brancos, com fios de coraes entre as
tranças, os braços nús--tendo cada um a cicatriz escura de um bubão de
peste. Tomou-me submissamente a mão, levou-a á testa oleosa, levou-a aos
labios empastados d'escarlate, e conduziu-me em ceremonia defronte d'uma
cortina preta, franjada d'ouro como o pano d'um esquife. E eu estremeci,
ao penetrar emfim nos segredos deslumbradores d'um serralho mudo e
cheirando a rosa.
Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algodão vermelho encimando
a gelosia; e ao longo das paredes corria um divan amassado, revestido de
sêda amarella, com remendos de sêda mais clara. N'um bocado de tapete da
Persia pousava um brazeiro de latão, apagado, sob o montão de cinzas;
ahi ficára esquecido um pantufo de velludo, estrellado de lentejoulas.
Do tecto de madeira alvadia, onde se alastrava uma nodoa de humidade,
pendia de duas correntes enfeitadas de borlas um candieiro de petroline.
Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas. No ar morno errava um
cheiro adocicado e molle a mofo e a benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo
dos poaiaes da gelosia, corriam carochas.
Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes. Uma negra de
Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes de prata a tilintar nos
braços, veio offerecer-nos um café aromatico: e quasi immediatamente
Topsius appareceu, descorçoado, dizendo que não podiamos saborear a
famosa dansa da _Abelha_! A _Rosa de Jerichó_ fôra bailar diante de um
principe de Allemanha, chegado n'essa manhã a Sião, a adorar o tumulo do
Senhor. E Fatmé apertava com humildade o coração, invocava Allah,
dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade! A _Rosa de Jerichó_ fôra
para o principe louro que viera, com cavallos e com plumas, do paiz dos
Germanos!...
Eu, despeitado, observei que não era um principe: mas minha tia tinha
luzidas riquezas: os Raposos primavam pelo sangue no fidalgo Alemtejo.
Se _Flôr de Jerichó_ estava ajustada para regosijar meus olhos
catholicos, era uma desconsideração tel-a cedido ao romeiro couraçado
que viera da hereje Allemanha...
O erudito Topsius resmungou, alçando o bico com petulancia, que a
Allemanha era a mãi espiritual dos povos...
--O brilho que sae do capacete allemão, D. Raposo, é a luz que guia a
humanidade!
--Sebo para o capacete! A mim ninguem me guia! Eu sou Raposo, dos
Raposos do Alemtejo!... Ninguem me guia senão Nosso Senhor Jesus
Christo... E em Portugal ha grandes homens! Ha Affonso Henriques, ha o
Herculano... Sebo!
Ergui-me, medonho. O sapientissimo Topsius tremia, encolhido. Potte
acudiu:
--Paz, christãos e amigos, paz!
Topsius e eu reencruzámo-nos logo no divan--tendo apertado as mãos,
galhardamente e com honra.
Fatmé, no emtanto, jurava que Allah era grande e que ella era a nossa
escrava. E, se nós a quizessemos mimosear com sete piastras d'ouro, ella
em compensação da _Rosa de Jerichó_ offerecia-nos uma joia inapreciavel,
uma Circassiana, mais branca que a lua cheia, mais airosa que os lirios
que nascem em Galgalá.
--Venha a Circassiana! gritei, excitado. Caramba, eu vim aos Santos
Lugares para me refocilar... Venha a Circassiana! Larga as piastras,
Potte! Irra! Quero regalar a carne!
Fatmé sahiu, recuando: o festivo Potte reclinou-se entre nós, abrindo a
sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Então, uma portinha branca,
sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de leve: e uma figura entrou,
velada, vaga, vaporosa. Amplos calções turcos de sêda carmesim tufavam
com languidez, desde a sua cinta ondeante até aos tornozêlos, onde
franziam, fixos por uma liga d'ouro; os seus pésinhos mal pousavam,
alvos e alados, nos chinelos de marroquim amarello; e através do véo de
gaze que lhe enrodilhava a cabeça, o peito e os braços--brilhavam
recamos d'ouro, scentelhas de joias, e as duas estrellas negras dos seus
olhos. Espreguicei-me, tumido de desejo.
Por traz d'ella Fatmé, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o véo devagar,
devagar--e d'entre a nuvem de gaze surgiu um carão côr de gesso,
escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes podres que
negrejavam no langor nescio do sorriso... Potte pulou do divan,
injuriando Fatmé: ella gritava por Allah, batendo nos seios, que soavam
mollemente como odres mal cheios.
E desappareceram, assanhados, levados n'uma rajada de ira. A
Circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso putrido, veio
estender-nos a mão suja, a pedir «presentinhos» n'um tom rouco
d'aguardente. Repelli-a com nojo. Ella coçou um braço, depois a ilharga;
apanhou tranquillamente o seu véo, e sahiu arrastando as chinelas.
--Oh Topsius! rosnei eu. Isto parece-me uma grande infamia!
O sabio fez considerações sobre a voluptuosidade. Ella é sempre
enganadora. Debaixo do sorriso luminoso está o dente cariado. Dos beijos
humanos só resta o amargor. Quando o corpo se extasia, a alma
entristece...
--Qual alma! não ha alma! O que ha é um eminentissimo desaforo! Na rua
do Arco do Bandeira, esta Fatmé tinha já dois murros na bochecha...
Irra!
Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas Potte
reappareceu, cofiando os bigodões, dizendo que por mais nove piastras
d'ouro Fatmé consentia em mostrar a sua secreta maravilha, uma virgem
das margens do Nilo, da alta Nubia, bella como a noite mais bella do
Oriente. E elle vira-a, afiançava-a, valia o tributo d'uma fertil
provincia.
Fragil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras d'ouro tiniram na
mão gordufa de Fatmé.
De novo a porta caiada rangeu, ficou, cerrada--e, sobre o tom alvaiado,
destacou, na sua nudez côr de bronze, uma esplendida femea, feita como
uma Venus. Durante um momento parou, muda, assustada pela luz o pelos
homens, roçando os joelhos lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os
flancos possantes e ageis: os cabellos hirsutos, lustrosos d'oleo, com
sequins d'ouro entreleçados, cahiam-lhe sobre o dorso, como uma juba
selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe em torno
do pescoço e vinha escorregar por entre o rego dos seios rijos,
perfeitos e de ebano. De repente soltou convulsamente, repicando a
lingua, uma ululação desolada: _Lu_! _lu_! _lu_! _lu_! _lu_! Atirou-se
de bruços para o divan: e estirada, na attitude d'uma Esphinge, ficou
dardejando sobre nós, séria e immovel, os seus grandes olhos tenebrosos.
--Hein? dizia Potte, acotovelando-me. Veja-lhe o corpo... Olhe, os
braços! Olhe a espinha como arqueia! É uma panthera!
E Fatmé, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos
dedos--exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor
d'aquella Nubia... Certo, pela persistencia do seu olhar, que as minhas
barbas fortes a tinham captivado, desenrosquei-me do divan, fui-me
acercando, devagar, como para uma preza certa. Os seus olhos
alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente, chamando-lhe «minha
lindinha», acariciei-lhe o hombro frio: e logo ao contacto da minha
pelle branca a Nubia recuou, arripiada, com um grito abafado de gazella
ferida. Não gostei. Mas quiz ser amavel. Disse-lhe paternalmente:
--Ah! se tu conhecesses a minha patria!... E olha que sou capaz de te
levar! Em Lisboa é que é! Vai-se ao Dáfundo, cêa-se no Silva... Isto
aqui é uma choldra! E as raparigas como tu são bem tratadas, dá-se-lhes
consideração, os jornaes fallam d'ellas, casam com proprietarios...
Murmurava-lhe ainda outras coisas profundas e dôces. Ella não
comprehendia o meu fallar: e nos seus olhos esgazeados fluctuava a longa
saudade da sua aldêa da Nubia, dos rebanhos de bufalos que dormem á
sombra das tamareiras, do grande rio que corre eterno e sereno entre as
ruinas das Religiões e os tumulos das Dynastias...
Imaginando então despertar o seu coração com a chamma do meu, puxei-a
para mim lascivamente. Ella fugiu; encolheu-se toda a um canto, a
tremer; e deixando cahir a cabeça entre as mãos começou a chorar,
longamente.
--Olha que massada! gritei, embaçado.
E agarrei o capacete, abalei, esgaçando quasi no meu furor o pano preto
franjado d'ouro. Parámos n'uma cella ladrilhada onde cheirava mal. E ahi
bruscamente foi entre Potte e a nedia matrona uma bulha ferina sobre a
paga d'aquella radiante festa do Oriente: ella reclamava mais sete
piastras d'ouro: Potte, de bigode erriçado, cuspia-lhe injurias em
arabe, rudes e chocando-se como calhaus que se despenham n'um valle. E
sahimos d'aquelle lugar de deleite perseguidos pelos gritos de Fatmé,
que se babava de furor, agitava os braços marcados da peste e nos
amaldiçoava, e a nossos paes, e aos ossos de nossos avós, e a terra que
nos gerára, e o pão que comiamos, e as sombras que nos cobrissem! Depois
na rua negra dois cães seguiram-nos muito tempo, ladrando lugubremente.
Entrei no _Hotel do Mediterraneo_, afogado em saudades da minha terra
risonha: os gozos de que me via privado n'esta lobrega, inimiga Sião,
faziam-me anciar mais inflammadamente pelos que me daria a facil,
amoravel Lisboa, quando, morta a titi, eu herdasse a bolsa sonora de
sêda verde!... Lá não encontraria, nos corredores adormecidos, uma bota
severa e bestial! Lá nenhum corpo barbaro fugiria, com lagrimas, á
caricia dos meus dedos. Dourado pelo ouro da titi, o meu amor não seria
jámais ultrajado, nem a minha concupiscencia jámais repellida. Ah! meu
Deus! Assim eu lograsse pela minha santidade captivar a titi!...--E
logo, abancando, escrevi á hedionda senhora esta carta ternissima:
«Querida titi do meu coração! Cada vez me sinto com mais virtude. E
attribuo-a ao agrado com que o Senhor está vendo esta minha visita ao
seu santo tumulo. De dia e de noite passo o tempo a meditar a sua divina
Paixão e a pensar na titi. Agora mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que
enternecedora que estava! É uma rua tão benta, tão benta, que até tenho
escrupulo de a pisar com os botins; e n'outro dia não me contive,
agachei-me, beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quasi
toda a rezar á Senhora do Patrocinio que todo o mundo aqui em Jerusalem
respeita muitissimo. Tem um altar muito lindo; ainda que a este respeito
bem razão tinha a minha boa tia (como tem razão em tudo) quando dizia
que lá para festas e procissões não ha como os nossos portuguezes. Pois
esta noite, assim que ajoelhei deante da capella da Senhora, depois de
seis Salve-Rainhas, voltei-me para a bella imagem e disse-lhe:--Ai, quem
me dera saber como está minha tia Patrocinio!--E quer a titi acreditar?
Pois olhe, a Senhora com a sua divina bocca disse-me, palavras textuaes,
que até, para não me esquecerem, as escrevi no punho da camisa:--A minha
querida afilhada vai bem, Raposo, e espera fazer-te feliz!--E isto não é
milagre extraordinario, porque me contam aqui todas as familias
respeitaveis com quem vou tomar chá que a Senhora e seu divino Filho
dirigem sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saberá
que já lhe obtive certas reliquias, uma palhinha do presepio, e uma
taboinha aplainada por S. José. O meu companheiro allemão, que, como
mencionei á titi na minha carta de Alexandria, é de muita religião e
muito sabio, consultou os livros que traz e affirmou-me que a taboinha
era das mesmas que, segundo está provado, S. José costumava aplainar nas
horas vagas. Emquanto _á grande reliquia_, aquella que lhe quero levar
para a curar de todos os seus males e dar a salvação á sua alma e
pagar-lhe assim tudo o que lhe devo, _essa espero em breve obtel-a_. Mas
por ora não posso dizer nada... Recados aos nossos amigos em quem penso
muito e por quem tenho rezado constantemente; sobretudo ao nosso
virtuoso Casimiro. E a titi deite a sua benção ao seu sobrinho fiel e
que muito a venera e está chupadinho de saudades e deseja a sua
saude--_Theodorico_.--P.S. Ai, titi, que asco que me fez hoje a casa de
Pilatos! Até lhe escarrei! E cá disse á Santa Veronica que a titi tinha
muita devoção com ella. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito
regalada... É o que eu digo aqui a todos estes ecclesiasticos e aos
patriarchas:--É necessario conhecer-se a titi para se saber o que é
virtude!»
Antes de me despir, fui escutar, collada a orelha ao tabique de
ramagens. A ingleza dormia serena, insensivel: eu resmunguei brandindo
para lá o punho fechado:
--Besta!
Depois abri o guarda-roupa, tirei o dilecto embrulho da camisinha da
Mary, depuz n'elle o meu beijo repenicado e grato.
Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jordão.
* * * * *
Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as collinas de Judá!
Ellas succedem-se, lividas, redondas como craneos, resequidas,
escalvadas por um vento de maldição: só a espaços n'alguma encosta
rasteja um tojo escasso, que na vibração inexoravel da luz parece de
longe um bolor de velhice e de abandono. O chão faisca, côr de cal. O
silencio radiante entristece como o que cae da aboboda de um jazigo. No
fulgor duro do céo rondava em torno a nós, lento e negro, um abutre...
Ao declinar do sol erguemos as nossas tendas nas ruinas de Jericó.
Saboroso foi então descançar sobre macios tapetes, bebendo devagar
limonada, na doçura da tarde. A frescura de um riacho alegre, que
chalrava junto ao nosso acampamento por entre arbustos silvestres,
misturava-se ao aroma da flôr que elles davam, amarella como a da
giesta; adiante verdejava um prado de hervas altas, avivado pela
brancura de vaidosos, languidos lirios; junto d'agua passeavam aos pares
pensativas cegonhas. Do lado de Judá erguia-se o monte da Quarentena,
torvo, fusco na sua tristeza de eterna penitencia; e para as bandas de
Moab os meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Canaan, areal
cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha d'uma raça
esquecida, até ás solidões do Mar Morto.
Fomos, ao alvorecer, com os alforges fornidos, fazer essa votiva
romaria. Era então em dezembro; esse inverno da Syria ia
transparentemente dôce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o
erudito Topsius contava-me como esta planicie de Canaan fôra outr'ora
toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos entre vinhedos, e
d'aguas de rega refrescando os muros das eiras; as mulheres, toucadas
d'anemonas, pisavam a uva cantando; o perfume dos jardins era mais grato
ao céo que o incenso: e as caravanas que entravam no valle pelo lado de
Segor achavam aqui a abundancia do rico Egypto--e diziam que era este em
verdade o vergel do Senhor.
--Depois, acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo, um dia o
Altissimo aborreceu-se e arrazou tudo!
--Mas porquê? porquê?
--Birra; mau humor; ferocidade...
Os cavallos relincharam sentindo a visinhança das aguas malditas:--e bem
depressa ellas appareceram, estendidas até ás montanhas de Moab,
immoveis, mudas, faiscando solitarias sob o céo solitario. Oh tristeza
incomparavel! E comprehende-se que pesa ainda sobre ellas a colera do
Senhor, quando se considera que alli jazem, ha tantos seculos--sem uma
recreavel villa como Cascaes; sem claras barracas de lona alinhadas á
sua beira; sem regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de
galochas, lhe recolham poeticamente as conchinas na areia; sem que as
alegrem, á hora das estrellas, as rebecas de uma Assembléa toda festiva
e com gaz--alli mortas, enterradas entre duras serras como entre as
cantarias de um tumulo.
--Além era a cidadella de Makeros, disse gravemente o erudito Topsius,
alçado sobre os estribos, alongando o guardasol para a costa azulada do
mar. Alli viveu um dos meus Herodes, Antipas, o tetrarcha da Galilêa,
filho de Herodes o Grande: alli, D. Raposo, foi degolado o Baptista.
E seguindo a passo para o Jordão (emquanto o alegre Potte nos fazia
cigarros do bom tabaco de Aleppo) Topsius contou-me essa lamentavel
historia. Makeros, a mais altiva fortaleza da Asia, erguia-se sobre
pavorosos rochedos de basalto. As suas muralhas tinham cento e cincoenta
covados d'altura; as aguias mal podiam chegar até onde subiam as suas
torres. Por fóra era toda negra e soturna: mas dentro resplandecia de
marfins, de jaspes, d'alabastros; e nos profundos tectos de cedro os
largos broqueis d'ouro suspensos faziam como as constellações d'um céo
de verão. No centro da montanha, n'um subterraneo, viviam as duzentas
egoas de Herodes, as mais bellas da terta, brancas como o leite, com
clinas negras como o ebano, alimentadas a bolos de mel, e tão ligeiras
que podiam, correr, sem lhes macular a pureza, por sobre um prado de
acuçenas. Depois, mais fundo ainda, n'um carcere, jazia Iokanan--que a
Igreja chama o Baptista.
--Mas então, esclarecido amigo, como foi essa desgraça?
--Pois foi assim, D. Raposo... O meu Herodes conhecera em Roma
Herodiade, sua sobrinha, esposa de seu irmão Filippe, que vivia na
Italia, indolente e esquecido da Judêa, gozando o luxo latino. Era
esplendidamente, sombriamente bella. Herodiade!... Antipas Herodes
arrebata-a n'uma galera para a Syria; repudia sua mulher, uma moabita
nobre, filha do rei Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e
fecha-se incestuosamente com Herodiade n'essa cidadella de Makeros.
Colera em toda a devota Judêa contra este ultraje á lei do Senhor! E
então Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Baptista que prégava no
vão do Jordão...
--Mas para quê, Topsius?
--Pois para isto, D. Raposo... A vêr se o rude propheta, acariciado,
amimado, amollecido pelo louvor e pelo bom vinho de Sichem, approvava
estes negros amores, e pela persuasão da sua voz, dominante em Judêa e
Galilêa, os tornava aos olhos dos fieis brancos como a neve do Carmello.
Mas, desgraçadamente, D. Raposo, o Baptista não tinha originalidade.
Santo respeitavel, sim; mas nenhuma originalidade... O Baptista imitava
em tudo servilmente o grande propheta Elias; vivia n'um buraco como
Elias; cobria-se de pelles de feras como Elias; nutria-se do gafanhotos
como Elias; repetia as imprecações classicas de Elias:--e como Elias
clamára contra o incesto d'Achab, logo o Baptista trovejou contra o
incesto de Herodiade. Por imitação, D. Raposo!
--E emmudeceram-no com a masmorra!
--Qual! Rugiu peor, mais terrivelmente! E Herodiade escondia a cabeça no
manto para não ouvir esse clamor de maldição, sahido do fundo da
montanha.
Eu balbuciei, com uma lagrima a amollentar-me a palpebra:
--E Herodes mandou então degolar o nosso bom S. João!
--Não! Antipas Herodes era um frouxo, um tibio... Muito lubrico, D.
Raposo, infinitamente lubrico, D. Raposo! Mas que indecisão!... Além
d'isso, como todos os galileus, tinha uma secreta fraqueza, uma
irremediavel sympathia por prophetas. E depois arreceava a vingança de
Elias, o patrono, o amigo d'Iokanan... Porque Elias não morreu, D.
Raposo. Habita o céo, vivo, em carne, ainda coberto de farrapos,
implacavel, vociferador e medonho...
--Safa! murmurei, arripiado.
--Pois ahi está... Iokanan ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e subtil
é o odio da mulher, D. Raposo. Chega, no mez de Schebat, o dia dos annos
de Herodes. Ha um vasto festim em Makeros, a que assistia Vitellius,
então viajando na Syria. D. Raposo lembra-se do crasso Vitellius que
depois foi senhor do mundo... Pois á hora em que pelo ceremonial das
Provincias Tributarias se bebia á saude de Cesar e de Roma, entra
subitamente na sala, ao som dos tamborinos e dançando á maneira de
Babylonia, uma virgem maravilhosa. Era Salomé, a filha de Herodiade e de
seu marido Filippe, que ella educára secretamente em Cesarea, n'um
bosque, junto do Templo d'Hercules. Salomé dançou, núa e deslumbrante.
Antipas Herodes, inflammado, estonteado de desejo, promette dar tudo o
que ella pedisse pelo beijo dos seus labios... Ella toma um prato
d'ouro, e tendo olhado a mãi, pede a cabeça do Baptista. Antipas,
aterrado, offerece-lhe a cidade de Tiberiade, thesouros, as cem aldeias
de Genesareth... Ella sorriu, olhou a mãi: e outra vez, incerta e
gaguejando pediu a cabeça de Iokanan... Então todos os convivas,
Saducceus, Escribas, homens ricos da Decapola, mesmo Vitellius e os
romanos, gritaram alegremente: «Tu prometteste, tetrarca, tu juraste,
tetrarca!» Momentos depois, D. Raposo, um negro da Idumea entrou,
trazendo n'uma das mãos um alfange, na outra presa pelos cabellos a
cabeça do propheta. E assim acabou S. João, por quem se canta e se
queimam fogueiras n'uma dôce noite de junho...
Escutando, embevecidos e a passo, estas coisas tão antigas--avistámos ao
longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e da côr do bronze.
Potte gritou: «o Jordão! o Jordão!» E arrebatadamente galopámos para o
rio da Escriptura.
O festivo Potte conhecia, á beira da corrente baptismal, um sitio
deleitosissimo para uma sesta christã: e ahi passamos as horas quentes,
recostados n'um tapete, languidos, e bebendo cerveja, depois de bem
esfriada nas aguas do rio santo. Elle faz alli um claro, suave remanso,
a repousar da lenta, abrazada jornada que traz, através do deserto,
desde o lago de Galilêa: e antes de mergulhar para sempre no amargor do
Mar Morto--alli preguiça, espraiado sobre a areia fina; canta baixo e
cheio de transparencia, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e
dorme nos sitios mais frescos, immovel e verde, á sombra dos
tamarindos... Por sobre nós rumorejavam as folhas dos altos choupos da
Persia: entre as hervas balançavam-se flôres desconhecidas, das que
toucavam outr'ora as tranças das virgens de Canaan em manhãs de vindima;
e na escuridão fofa das ramagens, onde já as não vinha assustar a voz
terrivel de Jehovah, gorgeavam pacificamente as toutinegras. Defronte
elevavam-se azues e sem mancha, como feitas d'um só bloco de pedra
preciosa, as montanhas de Moab. O céo branco, mudo, recolhido, parecia
descançar deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando alli vivia,
entre preces e mortandades, o sombrio Povo de Deus: e onde
constantemente batiam as azas dos Seraphins, e fluctuavam as roupagens
dos prophetas arrebatados pelo Altissimo, era calmante vêr agora passar
apenas uma revoada de pombos bravos, voando para os pomares d'Engaddi.
Obedecendo á recommendação da titi, despi-me, e banhei-me nas aguas do
Baptista. Ao principio, enleado de emoção beata, pisei a areia
reverentemente como se fosse o tapete d'um altar-mór: e de braços
cruzados, nú, com a corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em S.
Joãosinho, susurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei aquella
bucolica banheira entre arvores; Potte atirou-me a minha esponja; e
ensaboei-me nas aguas sagradas, trauteando o _fado_ da Adelia.
Ao refrescar, quando montavamos a cavallo, uma tribu de beduinos,
descendo das collinas de Galgalá, trouxe os seus rebanhos de camêlos a
beber ao Jordão; as crias brancas e felpudas corriam, balando; os
pastores, de lança alta, soltando gritos de batalha, galopavam, n'um
amplo esvoaçar d'albornozes; e era como se resurgisse em todo o valle,
no esplendor da tarde, uma pastoral da idade biblica, quando Agar era
moça! Teso na sella, com as redeas bem colhidas, eu senti um curto
arrepio de heroismo; ambicionava uma espada, uma Lei, um Deus por quem
combater... Lentamente alargara-se pela planicie sacra um silencio
enlevado. E o mais alto cerro de Moab cobriu-se de um fulgor raro, côr
de rosa e côr d'ouro, como se n'elle de novo, fugitivamente, ao passar,
se reflectisse a face do Senhor! Topsius alçou a mão sapiente:
--Aquelle cimo illuminado, D. Raposo, é o Moriah, onde morreu Moysés!
Estremeci. E penetrado pelas emanações divinas d'essas aguas, d'esses
montes, sentia-me forte--e igual aos homens fortes do Exodo. Pareceu-me
ser um d'elles, familiar de Jehovah, e tendo chegado do negro Egypto com
as minhas sandalias na mão... Esse alliviado suspiro que trazia a briza
vinha das tribus d'Israel, emergindo emfim do deserto! Pelas encostas
além, seguida d'uma escolta d'anjos, a Arca dourada descia balançada
sobre os hombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez nas
seccas areias reverdecia a terra da Promissão. Jericó branquejava entre
as seáras: e através dos palmares cerrados já resoavam em marcha os
clarins de Josué!
Não me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Canaan este urro
piedoso:
--Viva Nosso Senhor Jesus Christo! Viva toda a Côrte do
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